domingo, maio 30, 2010

Conheces as tuas Personalidades?


Neo visita o Oráculo que lhe mostra a frase que estaria no templo de Delfos «Conhece-te a ti mesmo»; que tem uma coisa a ver com a outra?


Neste nosso mundo tão globalizado, as pessoas cada vez aparentam mais o mesmo comportamento, seguem o estereótipo em vigor porque nós somos «macaquinhos de imitação»; não é um defeito, é uma característica que ajuda a nossa socialização.

Há apenas umas décadas não havia estereótipos globais: cada pessoa tinha uma personalidade tão própria e característica como os seus traços anatómicos. As idiossincrasias de cada um eram um inesgotável tema de conversa. Havia um certo «culto da personalidade», daquilo que tornava única cada pessoa. Hoje, isso é quase considerado reprovável. Hoje, mesmo as fisionomias se assemelham muito mais, também estas se deixam moldar pelos estereótipos que nos envolvem.

Mas, por baixo desta aparente uniformidade, na nossa profundidade inconsciente, múltiplas personalidades espreitam a ocasião de se afirmarem.

No nosso estado «normal», em que os estímulos externos são de muito baixa intensidade, o Consciente controla o nosso comportamento, e exibimos a personalidade que tão bem conhecemos.

Porém, por debaixo desta tranquilidade, o nosso Inconsciente vigia.

Suponhamos que surge uma situação que nos ameaça – logo o nosso Inconsciente diz ao Consciente «chega para lá» e assume ele o controlo das operações. Instala-se uma nova personalidade. No nosso Inconsciente há um conjunto diferenciado de programas de comportamento, cada um supostamente adequado a um tipo de situação.

Isto é muito claro nas espécies animais, sendo estudado os «deflagradores», isto é, os estímulos que fazem surgir esta ou aquela personalidade – por exemplo, um papagaio de papel com um desenho em cruz com determinadas proporções deflagra o estado de pânico nas galinhas porque dispara o «alarme de falcão». É útil conhecer os deflagradores que fazem os cães atacar... ou fugir. A «dança nupcial» é o deflagrador da sexualidade da fêmea. O comportamento animal é um conjunto de personalidades e para cada situação o cérebro escolhe uma. E em nós acontece mais ou menos o mesmo.

Todos já ouvimos falar de pessoas que têm «mau álcool». O que se passa nestas pessoas é que determinado nível de álcool faz deflagrar uma personalidade violenta. Uma vez deflagrada, o controlo do comportamento é totalmente do Inconsciente. Aqui a deflagração não é uma decisão do Inconsciente, as drogas também podem deflagrar personalidades; mas não é o caso geral.

Há casos extremos fáceis de identificar. Por exemplo, quem vai para a guerra, vai para matar. A sua sobrevivência depende de ser capaz de não hesitar nesses momentos. Se hesitar, morre. Mas no estado «normal» uma pessoa não mata. Então, surge uma personalidade diferente da normal e mais apropriada à situação. Por isso, quem está em guerra realiza barbaridades inconcebíveis no seu estado normal. Barbaridades que não agridem a sua «consciência», pelo contrário. E, como são «normais» nessa personalidade de guerra, nem sequer deixam, muitas vezes, rasto na memória, da mesma maneira de que não nos lembramos do que almoçamos ontem – o que não é relevante não é transformado em memória permanente. Quando uma pessoa regressa da guerra, volta à personalidade «normal» e tudo o que se passou enquanto foi «guerreiro» muitas vezes não deixou traço mais forte do que uma leve névoa na sua memória, como a recordação de um sonho. São as memórias de uma outra pessoa, uma outra personalidade, uma outra vida. Os que regressam psicologicamente traumatizados são os que não aceitaram a deflagração da personalidade de guerreiro.

Porque há tanta confusão num caso de partilhas? Porque nos diversos interessados há uma personalidade que é deflagrada; essa personalidade trata todos os outros como inimigos, e interpreta toda a informação de acordo com esta «verdade» que assumiu.

Os casos extremos são os que envolvem a sobrevivência, a propriedade, a sexualidade, a reprodução; mas as nossas personalidades aparecem em múltiplas situações, mesmo as mais banais; na verdade, em todas as que haja interacção com o exterior – basta estarmos em sociedade para alguma personalidade deflagrar, e esta personalidade depende da situação, das pessoas com quem estamos e até do assunto de conversa; no emprego temos outra personalidade, a guiar temos outra, etc. – para cada situação a sua personalidade.

As regras sociais são estabelecidas para evitar o deflagrar das personalidades potencialmente mais agressivas – a roupa para evitar o deflagrar da sexualidade, embora a moda exista para roçar o limiar desta deflagração, as regras de conversa social para impedir que se aborde temas que deflagrantes, o próprio tom e estilo estudados para esse fim – ou para o oposto, no caso dos discursos políticos ou que visem a manipulação dos ouvintes.

Como nas personalidades deflagradas o controlo pela Razão está diminuído, cometemos erros; para evitar isso, vamos aprendendo a não deixar deflagrar essas personalidades.

Antigamente a interacção com os outros era mais intensa e diversificada, as diferentes personalidades eram constantemente deflagradas, a pessoa ganhava mais consciência delas e aprendia a incorporá-las no seu dia-a-dia; hoje as pessoas vivem em situações muito mais controladas, o estímulo deflagrador é menos diversificado e mais fraco, não se ganha conhecimento delas; e assim, quando um estímulo mais forte deflagra alguma personalidade, não temos a mínima capacidade de a controlar, e fazemos asneiras porque estas personalidades foram construídas para responder a situações do passado.
Em vez de aprendermos a lidar com estas personalidades, ficamos assustados, aprendemos apenas a ter medo delas e a evitá-las. E isso é muito perigoso porque elas acabam sempre por deflagrar nesta ou naquela situação e não temos controlo nenhum delas porque não adquirimos experiência.

Esta capacidade de não deflagração também tem inconvenientes porque essas diferentes personalidades despoletam capacidades essenciais. Em parte é por isso que se passou a falar de «inteligência emocional».

Usar as personalidades é um sinal de sabedoria. «Há tanta ciência em ser ajudante como em ser mestre»: para se ser um bom ajudante, é preciso adoptar a personalidade correcta, a personalidade de ajudante. Um adulto tem dificuldades de aprendizagem muitas vezes simplesmente porque perdeu a capacidade de deflagrar a personalidade de aluno – e sem se assumir esta personalidade não se consegue aprender porque as rotinas necessárias não ficam activas. Um professor universitário está suposto ser também um descobridor, alguém que aumenta os conhecimentos que aprendeu; mas se não souber deflagrar a personalidade de descobridor nunca saberá mais do que aquilo que lhe ensinaram e neste mundo em mudança isso pode ser conhecimento ultrapassado, logo errado – uma das razões da actual crise económica é que muitos economistas continuam presos às teorias que aprenderam e que já não se aplicam.

Não seria bom sabermos activar racionalmente a personalidade que se adequa a cada situação, subordinar o Inconsciente ao Consciente nessa decisão, modular cada personalidade aproveitando as suas capacidades? Parece-me que sim; mas, para isso precisamos de compreender como funciona este processo na nossa mente. Precisamos de um Modelo. Vamos então à procura dele.

segunda-feira, abril 19, 2010

A Origem do Sexo

Quando começámos a nossa busca sobre o que seja Inteligência, vimos que o processo mais elementar é  «Acaso+Selecção», ou «A+S».

Qualquer processo mais sofisticado de Inteligência exige capacidades novas, nomeadamente a «Aquisição de Informação» e a «Comunicação». Comunicação que serve para transporte e troca dessa Informação. Por agora interessa-nos a Comunicação.

Sabemos como a capacidade de comunicação entre os humanos está indissociavelmente ligada ao nível de complexidade que a sociedade humana pode atingir. A Fala permite apenas sociedades do tipo tribal; a Escrita, mesmo rudimentar, veio permitir as primeiras grandes civilizações; depois, a invenção de Gutenberg permitiu-nos sair da Idade Média; os Media permitiram a sociedade global; a Internet está a permitir um novo nível de desenvolvimento.

Vemos assim que a capacidade de comunicação está associada a um nível de Inteligência. Por outro lado, quanto mais evoluída uma organização, maior nível de Inteligência exige para poder funcionar. Portanto, uma sociedade que dispõe de uma certa capacidade de comunicação poderá dispor de um certo nível de Inteligência; se este é superior ao necessário para o estado de desenvolvimento da sociedade, esta evoluirá até que atinja o grau de desenvolvimento correspondente à Inteligência de que dispõe; aí ficará estagnada. Isto pressupondo que outros factores necessários ao processo de Inteligência não escasseiam, como a Energia.

Percebem como coisas como a banda larga, o e-escolas, o Magalhães, a informatização dos serviços públicos são essenciais? Isso é determinante da sociedade que poderemos ser.

Temos uma percepção clara destas formas de comunicação racional que usamos no dia-a-dia, mas ignoramos quase tudo quer sobre as formas de Comunicação dos outros seres vivos, quer sobre as de Aquisição de Informação (por exemplo, não conhecemos como se orientam os animais, da formiga ao pombo correio). E nem falo da simples transmissão de Vontade (vulgo transmissão de pensamento). E, como ignoramos, não temos percepção da sua complexidade.

Reparemos nas formigas, por exemplo. São cegas, é claro, de quase nada lhes serviria a visão no seu mundo; no entanto têm uma complexa sociedade só possível graças a um complexo sistema de comunicação.

Mas muito mais complexos são os animais eles mesmos. Naturalmente que devemos esperar que a comunicação entre células seja altamente sofisticada para suportar o elevado nível de Inteligência necessário à existência de um ser vivo. A descoberta das comunicações celulares no nosso organismo ainda está no princípio e já é um oceano de complexidade. Repare-se apenas na precisão micrométrica com que as células conhecem a sua localização no organismo.

Temos de descer a formas mais elementares de Vida à procura de processos de comunicação que possamos entender: vamos às bactérias.

Em 1946 Joshua Lederberg, um homem notável, descobriu uma incrível forma das bactérias comunicarem. Ganhou um Nobel por isso. Sabem como é? Nem vão acreditar. Reparem na figura:



 Schematic drawing of bacterial conjugation. Conjugation diagram1- Donor cell produces pilus. 2- Pilus attaches to recipient cell, brings the two cells together. 3- The mobile plasmid is nicked and a single strand of DNA is then transferred to the recipient cell. 4- Both cells recircularize their plasmids, synthesize second strands, and reproduce pili; both cells are now viable donors
 (Fonte: wikipedia)

Os vossos olhos não vos estão a enganar: as bactérias usam mesmo um Pilus para transferirem informação de umas para as outras! É desta forma, conhecida como «conjugação», que elas difundem rapidamente soluções para enfrentar problemas ambientais, como antibióticos.

É claro que isto é um processo que implica um nível de Inteligência elevado – não se trata de transmissão de informação ao Acaso, mas de informação relevante, da qual resultam alterações de estrutura e funcionamento da bactéria. Também revela um comportamento social das bactérias. Não é um comportamento do qual resulte uma vantagem imediata para a bactéria que tem o Pilus, pelo contrário, ela transmite às outras uma vantagem sua. Não pode ser explicado de forma simples.

Para quem conhece um mínimo sobre o funcionamento da célula, isto não é particularmente surpreendente: os processos que decorrem no seu interior são tão sofisticados como este. Mas esta é uma evidência da existência de processos Inteligentes e não «egoístas» a nível das bactérias que não é escamoteável e é particularmente chocante para muitas pessoas. Por alguma razão, algo que é conhecido desde 1946 continua fora dos manuais escolares.

Este processo de troca de informação através do Pilus é uma espécie de internet do mundo bacteriano.

Como é evidente, este sistema de troca de informação não pode funcionar assim entre os metazoários, os seres vivos multicelulares diferenciados. A informação que as bactérias trocam permite-lhes modificarem-se para se adaptarem às condições do meio; os metazoários são estruturas demasiado complexas para se poderem modificar desta maneira. Então, a solução é a formação de um novo indivíduo que incorpora a nova informação. Logo, a troca de informação genética entre metazoários tem de resultar na formação de um novo indivíduo!

Como vêm, esta «conjugação» entre bactérias está na origem do sexo nos metazoários. O Pénis é mesmo a evolução do Pilus, embora seja comum afirmar que nada há de comum entre os dois, cruz credo que horror! O Sexo não existe por causa da Reprodução, que pode ser feita sem sexo, mas para transmitir informação sobre adaptação ao mundo exterior. Para transmitir experiência de vida. E isto, por outro lado, implica também a morte dos progenitores, para que estes sejam substituídos pelo novo ser produzido de acordo com a informação recolhida. Ou seja, o equivalente à «conjugação» das bactérias é a reprodução sexuada seguida da morte dos progenitores nos metazoários. Morte esta que é geralmente (nem sempre) imediata à postura dos ovos nas espécies inferiores mas deixa de o ser em espécies mais evoluídas pela necessidade dos progenitores cuidarem das crias. E se prolonga ainda mais na nossa espécie porque precisamos de mais tempo para transmitir informação não codificada geneticamente.

O sexo e a sucessão de gerações são inerentes ao processo de transmissão de informação / acumulação de conhecimento entre os metazoários. São processos necessários à Vida, não ao indivíduo. A nossa noção de individualidade alimenta-se da nossa fraca percepção da Vida como um todo de que fazemos tanto parte como cada célula do nosso corpo faz parte de nós. 

terça-feira, março 30, 2010

A Linguagem da Natureza não é a da Selecção

imagem eol.org


O Choco Gigante da Austrália, curioso bicharoco de 3 corações e sangue verde, é o maior choco do mundo, atingindo 50 cm de comprimento só de manto. Mas não é por isso que vamos falar dele, mas porque o local onde se reproduz nos deixou perceber um pouco mais sobre a Evolução.

Estes chocos reunem-se para reprodução numa enseada pouco profunda e isso permitiu aos biólogos não só estudar os comportamentos de acasalamento mas, e é aqui que reside o interesse, analisar o DNA dos descendentes.

Existe um excelente documentário da National Geographic sobre esta questão, que já passou na RTP2: NATIONAL GEOGRAPHIC: GREEN BLOODED GIANTS

Quanto aos comportamentos de acasalamento, já se sabia que os machos maiores usam a estratégia que lhes convém: impedem os outros machos de chegarem perto da fêmea escolhida. Também se sabia que os machos pequenos usam uma estratégia diferente: assumem o aspecto de uma fêmea e assim conseguem que os machos maiores os deixem passar. O que não se sabia, e que só se soube pela análise genética, é que a taxa de sucesso de machos grandes e pequenos é semelhante.

Isto é uma surpresa! Pensava-se que as fêmeas seleccionavam os machos e, portanto, esses «truques» dos machos mais pequenos dificilmente poderiam ter sucesso.

Tudo o que se tem dito sobre machos alfa, a selecção dos mais fortes, os comportamentos visando o apuramento da espécie, etc, tudo isso fica em xeque. A ideia de que as fêmeas seleccionam o macho é simplista: as fêmeas têm de «mudar de estado» para poderem copular e para isso precisam de um «deflagrador» externo; esse deflagrador deve ser específico, identificador de um agente copulador, ou seja, de um macho. O esquema de deflagração consiste num conjunto de comportamentos que supostamente identificam o macho que pretende copular, a chamada «dança nupcial». Uma vez deflagrada, a fêmea não escolhe macho; e, uma vez deflagrada, liberta odores que atraem os machos dos arredores. Como só pode copular um de cada vez, e é preciso aproveitar enquanto a fêmea está receptiva, acontece estabelecer-se uma luta entre machos. Mas essa luta não é necessária para o processo evolutivo – é apenas uma consequência colateral de outras coisas. É como as lutas pelos restos de uma carcaça - se isso impedisse os mais fracos de se alimentar, as fêmeas de muitas espécies se extinguiriam, dado que os machos se saciam primeiro.

Por outro lado, a luta entre machos, porque frequentemente associada ao processo de cópula, pode funcionar como deflagrador da fêmea, e funciona como tal em várias espécies – como nos reflexos condicionados de Pavlov.

 Na verdade, a luta entre os mais fortes por uma fêmea abre uma oportunidade a machos que nem se dão ao trabalho de fazer danças nupciais – simplesmente aproveitam as fêmeas tornadas receptivas, que aceitam então qualquer macho, enquanto os «fortes» estão ocupados a lutar entre si. Isto tem sido observado em várias espécies, mas o que não se imaginava é que os mais fracos pudessem conseguir taxas de sucesso semelhantes às dos mais fortes. As lutas entre os fortes são pois a oportunidade dos fracos. Sem elas, os fracos terão muito menos possibilidades de sucesso. Como mecanismo de selecção, seria um paradoxo.

O que se conclui daqui é que cada indivíduo assume a estratégia que mais lhe convém, e há sempre uma que permite o sucesso. Não há situações de vantagem absoluta, não há uma «lei do mais forte» natural. Os mais fortes procuram impor essa lei porque é a lei que lhes dá vantagem, apenas isso. Mas só dá vantagem a eles, logo os outros seguem outras estratégias e outras leis. E assim a Selecção sexual não tem expressão.

Note-se que os relacionamentos sexuais são tanto mais complexos quanto mais evoluída a espécie; a necessidade de proteger os descendentes levou ao desenvolvimento da afectividade e esta interfere nos comportamentos sexuais. Isso tem tradução nos mecanismos de atracção sexual e não só nos humanos. Por falar nisso, já vos disse porque é que os salmões têm aquela paranóia de desovarem onde nasceram? Não?! Então havemos de falar disso, que também ajuda a perceber donde viemos e para onde vamos.

Por outro lado, se olharmos para a natureza de olhos bem abertos, encontramos as espécies mais impensáveis, que a existência de qualquer mecanismo de Selecção entre espécies teria há muito extinguido. Por exemplo, como pode existir um animal tão vulnerável como o Preguiça?

A linguagem da Natureza não é a da Selecção.

Não encontro pois mecanismos de Selecção nem dentro de cada espécie, nem entre espécies. Muito mais facilmente encontramos mecanismos de Colaboração, esses sim, facilmente comprováveis, ao contrário da Selecção Natural que é apenas uma hipótese sem comprovação directa. A dificuldade em contestá-la reside no facto de ela não exigir nenhum mecanismo específico que se possa verificar; é uma espécie de Criacionismo Pagão. É um processo de «Inteligência», sedutoramente simples, mas  a evolução dos seres vivos exige processos mais sofisticados. 

Cada ser vivo, como cada espécie, adopta a estratégia que mais lhe convém, originando uma diversidade de estratégias, de “nichos ecológicos”, de comportamentos, de espécies. Os seres vivos são exploradores do meio e Natureza recolhe toda a informação e com ela define os caminhos a seguir. Não selecciona seres: diversifica, explora, recolhe a informação, analisa, e produz evolução. A Vida não está em luta com ela própria, está em luta contra a não-vida. Mas como pode a acéfala Natureza fazer isso?

Uma capacidade indispensável é a capacidade de difusão do conhecimento que cada ser vivo, cada explorador, recolhe. No próximo post veremos as incríveis capacidades de comunicação dos seres vivos.

E, recordo, não é (só) por amor à Biologia que vos estou a falar destas coisas: é porque a partir daqui vamos entender melhor como as sociedades humanas se devem organizar e funcionar, que ideias devem pautar a Humanidade. Por exemplo, tal como na biologia, as sociedades humanas evoluem pelas oportunidades que permitem, pela diversificação, pela cooperação; e cada país, como cada espécie, tem de adoptar a estratégia que mais lhe convém e certamente que a estratégia que convém aos mais fracos não é a que convém aos mais fortes.  

segunda-feira, março 15, 2010

Evo-Devo


A cropped version of the single illustration (full version) in Charles Darwin's 1859 book On the Origin of Species showing the left part of the diagram, as it appears in Daniel Dennett's book Darwin's Dangerous Idea (da wikipedia)



Evo-devo, ou Biologia Evolutiva do Desenvolvimento, é uma nova corrente de investigação da evolução que procura ultrapassar as limitações da teoria de Darwin. Um texto que achei interessante e acessível sobre o assunto foi publicado aqui (The Scientist); transcrevo uma «caixa» desse artigo:

You’re not only what you eat, but what your parents ate, and potentially what your grandparents ate.” — Randy Jirtle

A teoria de Darwin adapta-se bem à evolução nas espécies mais primitivas mas não às mais avançadas; recordemos os 4 postulados de Darwin (consoante a fonte, assim os postulados de Darwin; escolhi estes de fonte para mim a mais fidedigna, a tese de doutoramento do Rodrigo; tradução livre do original em inglês):

1-     as características (fenótipo) individuais são variáveis de indivíduo para indivíduo
2-     em cada geração são produzidos mais descendentes do que os que podem sobreviver
3-     a sobrevivência e reprodução dos indivíduos não é aleatória
4-     uma parte do fenótipo individual é passado à descendência

Como é evidente, a eficiência deste processo depende da taxa de reprodução e da taxa de mortalidade dos descendentes; nas espécies superiores, elas são baixas, e o número de descendentes não só é reduzido como existem mesmo mecanismos comportamentais de autolimitação do seu número.
Por outro lado, parece óbvio que se existe um processo evolutivo, esse mesmo processo terá gerado processos mais evoluídos de evolução – necessariamente que a Evolução terá evoluído. A Evo-Devo é, no fundo, a pesquisa desses processos mais evoluídos de evolução que actuam ao nível das espécies superiores.

Nada disto é novidade para os leitores deste blogue - é mesmo por isso que a refiro, para mostrar que há mais quem se abalance para além de teorias Darwinistas básicas e Criacionistas. Como se lembrarão, desenvolvemos um conceito lato de Inteligência, que não se reduz à biologia; compreendemos que o processo elementar de Inteligência, que designamos por «A+S», satisfaz os postulados de Darwin; que há processos mais sofisticados de Inteligência; que os próprios postulados de Darwin não excluem esses processos ao nível da geração da variedade dos fenótipos. Na verdade, nem sequer excluem uma intervenção divina: como são geradas as variantes do fenótipo? Só conseguimos conceber três maneiras possíveis: ou por mecanismos de acaso puro, ou em função duma experiência de vida (por feedback e acaso, portanto) ou por intervenção exterior (divina, extraterrestre, o que for). Pensar que podem ser erros de cópia genética nas espécies superiores é um disparate, o acaso puro tem de ser excluído; e com ele fica excluída também a Selecção Natural como mecanismo dominante do processo evolutivo nas espécies superiores.

Um caso relatado nesse artigo do The Scientist é o seguinte:

In one recent experiment, two groups of genetically identical Arabidopsis plants were exposed to either hot or cold conditions for two (P and F1) generations. The next generation (F2) from both experimental groups was grown at normal temperatures, but the offspring (F3) from both groups were grown in either hot or cold conditions. The F3 plants that were grown in hot conditions and descended from P and F1 plants also grown in hot conditions produced five times more seeds than did the F3 plants grown in hot conditions but descended from cold-treated ancestors. Because the chance of accumulating mutations within just two generations that led the heat-conditioned plants to thrive in hotter conditions was essentially nil, the authors conclude that inherited epigenetic factors affecting flower production and early-stage seed survival in those plants had to be at play. (C.A. Whittle et al., “Adaptive epigenetic memory of ancestral temperature regime in Arabidopsis thaliana,”Botany, 87:650–57, 2009).

Isto é entendido como uma evidência de evolução sem intervenção da Selecção e com transmissão de «experiência de vida», duas coisas contrárias à teoria de Darwin. Na verdade, não podemos classificar isto como evolução. Vejamos melhor.

Os avós da generalidade dos nossos intelectuais eram trabalhadores rurais, ou operários, ou pescadores; em duas gerações, muitos descendentes de pessoas preparadas para uma vida fisicamente dura tornaram-se intelectuais da mais fina água. Isto não foi evolução, não houve tempo para isso, as capacidades dos intelectuais de hoje já existiam potencialmente nos seus avós rurais. Tal como as capacidades dos intelectuais de hoje existem potencialmente nos rurais de hoje. Não há aqui qualquer evolução, como não o há no caso da Arabidopsis; como também não o há no caso das borboletas que nascem com a cor que mais se adapta ao meio. O que há é a evidência duma estratégia sofisticada de adaptação ao meio. E sistemática – é a partir da experiência infantil de vida que se definem os parâmetros que permitirão à forma humana adulta surgir adaptada ao meio que conheceu em criança. Duma maneira ou doutra, todos os seres vivos de complexidade média/alta assumem a forma adulta que mais se adapta à experiência de vida da geração anterior ou de um estadio prévio ao estado adulto.

Como é isto possível? Como é que o mesmo código genético, ou quase, tanto pode gerar um rural como um intelectual? Uma larva ou uma borboleta? Como é que animais de espécies diferentes têm códigos genéticos com diferenças mínimas? O que determina essas escolhas?

A resposta a estas questões abre o caminho para compreendermos um importante mecanismo da Evolução.Mas antes de falarmos disso há que percebermos porque é que compreendermos a Evolução é importante.


A importância de compreendermos a Evolução


A Evolução parece ser algo que apenas pode interessar a um estrito grupo de biólogos; nada mais errado. A evolução não é um processo específico da biologia, todo o Universo evolui, todos os sistemas físicos, biológicos e sociais. Ora é esta a importância da questão para toda a gente: a evolução da Sociedade. A capacidade de uma sociedade evoluir depende das suas regras. Notem que não depende de ser «organizada» - a sociedade das formigas está organizadíssima e não evolui. Ao longo da História, as sociedades humanas surgem, evoluem e depois estagnam durante séculos ou milénios, até que uma outra sociedade surja, noutra parte do globo, e vá interferir. A sociedade portuguesa estagnou há quase 5 séculos, não é verdade? Há quase 5 séculos que não evoluímos, somos simplesmente arrastados no processo evolutivo de outros. Em Biologia passa-se o mesmo: novas espécies surgem, têm um período rápido de evolução e, depois, estagnam – as tartarugas de hoje são como as de há muitos milhões de anos e como as do futuro enquanto não se extinguirem.

Não é trivial perceber os motores da evolução da sociedade humana. Mas nada é mais importante do que isso porque o primeiro objectivo da sociedade humana é… Evoluir! Não é a Igualdade, a Justiça, a Felicidade, a Segurança, a geração de Riqueza; é, simplesmente, a Evolução. E a Evolução é muito mais do que a Economia, ou o Direito, ou as Ciências Sociais ou a Gestão. É algo que ainda não se ensina nas universidades.

É por isso que as teorias sobre Evolução têm tido grande impacto em ideias orientadoras da sociedade. O Darwin não tem culpa nenhuma, mas o facto é que a interpretação das suas ideias reforçou o racismo, a Eugenia e foi suporte das duas guerras mundiais. A Eugenia, de que já falámos aqui, é assunto convenientemente branqueado, mas é tão dramático como as perseguições religiosas e a Inquisição. Ou pior.

A Evolução das espécies é portanto um campo privilegiado de estudo para podermos compreender a evolução da nossa própria sociedade. Para sabermos o que fazer para evoluirmos.

Ao falarmos de Evolução estamos, pois, a falar de Política.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Mãe Terra - Mother Earth



A Mãe Terra faz hoje anos! Hoje, ontem ou amanhã, não se pode dizer ao certo. Mas faz anos. Que é como quem diz, envelhece.

Continua formosa. Um pouco envelhecida aqui e ali mas noutros lados ainda em pleno esplendor. Em qualquer zona equatorial se sente, pleno de vigor, o coração da Mãe Terra. Ninguém diria que já fez 4 000 milhões de anos. Uma Mãe de meia-idade.

Uma existência preenchida. Muito jovem, gerou no seu ventre o embrião da Vida. Uma Vida que cresceu e se desenvolveu, sempre alimentada e protegida no seio da Mãe Terra. Até que, há menos de 100 milhões de anos, a Vida teve de, pela primeira vez, começar a cuidar de si própria.

O primeiro passo foi produzir o seu próprio calor, quando o calor da Mãe Terra deixou de ser suficiente e adequado. Os Humanos sabem que são de «sangue quente» mas não sabem bem porquê.

Com o envelhecimento da Mãe Terra, a Vida terá de se autonomizar dela porque, progressivamente, a Mãe Terra deixará de ser capaz de prover as necessidades da Vida. Para isso, a Evolução tem vindo a aperfeiçoar seres com Inteligência capaz de usar recursos que ela, Vida, não pode usar directamente

Assim se chegou aos Humanos. Os Humanos não têm todas as capacidades necessárias para garantir a autonomia da Vida mas já têm algumas. São capazes de sobreviver fora da zona equatorial sem que a Evolução tenha tido de os dotar de adaptações. Foi um primeiro passo, mas já deram muitos outros. E, o mais significativo de todos, foram capazes de ultrapassar uma carência que o envelhecimento da Mãe Terra determinou: a falta de Azoto nos solos. Aprenderam a fabricar os adubos. Começam agora a descobrir que também nos oceanos o azoto escasseia em muitas zonas. Têm pela frente os magnos problemas da carência de Energia e da carência do CO2.

A Mãe Terra fez o que podia fazer: armazenou grandes quantidades de energia e de CO2 em depósitos de petróleo, gás e carvão; a Vida, por outro lado desenvolveu novos ciclos de fotossíntese, C3 e C4, capazes de funcionar com níveis baixíssimos de CO2. Mas não há milagres: o CO2, que já foi mais de 30 vezes a massa total da atmosfera actual, é hoje menos de 0,04% da atmosfera, mais raro que o Árgon. O CO2 actual é 1 milésimo do inicial! Cada planta precisa de respirar mais de 10 000 litros de ar para poder obter 1g do indispensável Carbono. Há umas dezenas de milhares de anos que a Vida tem fome de CO2. A biomassa de hoje é uma pequena fracção da de outrora, porque a biomassa está limitada pela disponibilidade do CO2. Cada grama de carbono de cada ser vivo tem de ser retirado da atmosfera pelas plantas, não há outra forma significativa de obter o precioso carbono.

É uma luta contra o tempo: a Mãe Terra gerou a Vida e a Vida terá de se prover a si própria à medida que a Mãe Terra vai envelhecendo; a Vida ainda não é autónoma da Mãe Terra e esta preparou umas reservas que têm de durar enquanto a Evolução não produz a forma de Vida capaz de se autonomizar. Se as reservas acabarem antes disso, a Vida na Terra extingue-se, mas isso não sucederá – tudo está devidamente organizado, a Evolução trará o ser que garantirá a autonomia da Vida antes da Mãe Terra esgotar os seus recursos. Apenas é preciso que os Humanos garantam ao novo ser as condições de que ele precisa para sobreviver. Apenas isso.

Este «apenas» é, no entanto, o elo fraco do processo. Os Humanos estão no início da caminhada do Conhecimento, ainda veem o amanhã como uma repetição do ontem, não percepcionam a evolução do Universo, não têm consciência do seu papel, alguma juventude e imaturidade pautam o seu comportamento. Os Humanos vão atribuindo à Mãe Terra as consequências do seu desconhecimento. Por exemplo, os sismos. O dia em que deixar de haver sismos será um dia triste, o dia da morte da Mãe Terra. Fazem mal os sismos? Sem as desqualificadas construções humanas, os sismos seriam dos mais inofensivos fenómenos vitais da Mãe Terra.

No Haiti ruíram muitas casas. Não foram pensadas para resistir ao sismo. Por ignorância – ignorância de que o sismo ia ocorrer durante a sua existência. Se fosse sabido, as casas teriam sido construídas para resistir ao sismo, pois isso não tem dificuldade tecnológica nem acréscimo importante de custos. Foi a ignorância de que o sismo podia ocorrer que causou a catástrofe. Ou, eventualmente, a simples falta de Qualidade, esse outro sinal de imaturidade – os construtores poupam no ferro e os habitantes cortam pilares para alargar a sala sem compensar a estrutura.

Assistiu-se também ao falhanço universal dos sistemas de protecção civil. Os hospitais de campanha tinham médicos e tendas mas não tinham equipamento. Serraram pernas e braços nas mesmas condições da 2ª Guerra Mundial. Milhares de haitianos morreram por falta da mais elementar assistência. É lógico – os planos e orçamentos dos sistemas de protecção civil são estabelecidos em face das necessidades do ano anterior. Se fossem para além disso, os contribuintes protestariam e os Orçamentos de Estado não seriam aprovados.

É quase sempre a ignorância do Futuro a profunda razão das consequências catastróficas dos fenómenos naturais e da falta de capacidade de resposta a elas. É por saber como é importante conhecer o Futuro que os Humanos se viraram para a Religião, para as artes divinatórias e para a Ciência. A Ciência já consegue prevenir algumas coisas mas ainda não consegue antecipar o Futuro porque o seu conhecimento do Universo e da Vida não é suficiente. Do Futuro ainda só há Medos, não há Visão.

O próximo Evento trará o Filho do Homem pela mão da Evolução. O Filho do Homem é o descendente do Homem, a geração seguinte ao Homem. O Filho de que o Homem se orgulhará. Mais Inteligente, mais preparado para o próximo passo da 4ª fase da Vida (3º nível da Evolução). Não virá montado numa nuvem nem chegará de repente. As trompetas não o anunciarão. Ninguém dará por ele, nem ele mesmo.

Mas será que o Homem saberá conduzir a Vida até ao Evento, atenuando as carências que a velhice da Mãe Terra vai fazendo aparecer, sobreviver ao Evento, e assegurar as condições necessárias para que o seu Filho se estabeleça e inicie a nova fase da Vida?

Isso não é certo; o Filho do Homem pode surgir num Mundo demasiado destruído e violento. A Cabeça da Mãe está preocupada com isso. O seu Coração está preocupado com outra coisa: o sofrimento que o Evento trará se o Homem não souber ver o Futuro. O parto do Filho não tem de ser doloroso.

Contrariamente ao sismo, o Homem pode saber como é o Evento e estimar quando é. O Evento, como um sismo, pode ser uma catástrofe indescritível ou um fascinante »passeio no Jardim da Estrela». Literalmente.



imagens:Wikipedia (Terra / Sismo Lisboa / Jardim da Estrela)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Caim, Jacob e outras histórias da Bíblia


Em vários posts já afirmei repetidamente algo de que nós hoje não temos a mínima consciência: o drama da sobrepopulação, em que a Humanidade quase sempre existiu.

Desde há milhares de anos que o número de pessoas atingiu o limite suportável pelos recursos; e isso significa que a reprodução sempre esteve limitada ao número de pessoas que morriam – se mais nasciam, mais tinham de morrer, pela violência ou pela fome.

Este foi sempre o imenso drama da humanidade. Os oásis civilizacionais puderam emergir sempre que um avanço tecnológico ou organizacional geraram um acréscimo de recursos. Nos posts sobre Inteligência escrevi que a Inteligência duma sociedade é função da diferença entre recursos e necessidades.

Também já escrevi que por detrás da 1º Guerra Mundial, como de muitas outras, foi o problema da sobrepopulação que esteve – os economistas da época não tinham dúvidas: os recursos cresciam aritmeticamente e a população geometricamente, logo quem não quisesse ser extinto tinha de extinguir os outros, não havia lugar para todos.

As misérias de muitos países de hoje resultam exactamente disto – a população excede os recursos e continua a crescer descontroladamente. A densidade populacional do Haiti é quase tripla da portuguesa.

As grandes civilizações da Antiguidade puseram em prática diversos processos de controlar a população. Um deles era o Infanticídio. Já tenho visto documentários nos canais de televisão em que arqueólogos ficam muito admirados ao encontrar depósitos de ossadas de recém-nascidos. Santa Ignorância!

Uma prática comum era abandonar os recém-nascidos numa floresta ou pôr numa alcofa num curso de água; desta forma entregava-se o destino da criança nas mãos dos deuses, retirando aos pais o pesado fardo da responsabilidade pelo sacrifício dos filhos. Porque tudo isso era feito com enorme sofrimento dos pais, não se pense que eram selvagens sem sentimentos. Atestam-no cartas escritas por romanos, que eu já li não sei onde.

Os egípcios parece que usavam uma espécie de dispositivo intra-uterino, creio que feito a partir de bosta seca do gado... com fracos resultados.

Nas zonas de clima agreste, o problema era menos grave porque as pessoas morriam muito logo nos primeiros anos de vida; mas nas zonas tropicais não. Os sacrifícios humanos das civilizações da América Central terão tido a finalidade de manter a população controlada em face dos recursos.

Isto tudo serve para percebermos que em tempos remotos a vida humana não era certamente um bem escasso e, como tal, não era muito valorizada. Qualquer pequeno conflito tinha de resultar em mortes. A morte de um era sempre a vida de outro, pois os recursos eram limitados. A morte não era uma perda absoluta, era uma troca.

Entregues a si próprios, os homens tinham de considerar os outros como inimigos se queriam sobreviver. Apenas organizações tribais eram inicialmente possíveis. Passar além disso exigia a instituição de um poder superior. E foi-se buscar esse poder à Religião.

O objectivo de quase todas as religiões era construir uma melhor sociedade humana. Os seus ensinamentos são os que conduzem a mudar os hábitos e comportamentos da época para outros melhores. E como se fazia isso?

Através de pequenas histórias que começavam por retratar os comportamentos aceites na época e depois faziam intervir «a mão de Deus» para introduzir o novo comportamento. Não podia ser doutra maneira, não é verdade?

E é assim que surge a história de Caim ou de Jacob. E é por isso que a Bíblia não é um «manual de maus costumes» - ela retrata os costumes e a moral da época e isso, muitas vezes, com o objectivo de introduzir melhores costumes. Os julgamentos morais sobre os costumes de então só revelam a ignorância de quem os faz – a ignorância do quadro de vida da altura. Tão simples de entender, não é? E, no entanto, tanta discussão sobre o assunto...

Note-se que a Bíblia é muito mais do que isso; ela é um repositório de muitos conhecimentos da antiguidade. A parábola da expulsão do paraíso, por exemplo, é uma alegoria fantástica ao problema da sobrepopulação, como explico aqui. Mas há muito mais conhecimento na Bíblia e não era tolo o Newton quando a estudou com cuidado. Só que, como está escrito, «quem lê, entenda»; para Newton, não poderíamos entender até que as coisas acontecessem; aí poderíamos então verificar que por detrás da Bíblia estava um conhecimento maior que o nosso. Eu penso como o Einstein, que «Deus é subtil mas não malicioso», ou seja, que podemos entender o universo, ou a Bíblia, ou a nós próprios, mas temos de ser «subtis» e não «simplórios» nos nossos raciocínios.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Os Novos Conhecimentos: a Temperatura da Terra



Disse que dispúnhamos de dois novos conhecimentos que nos habilitariam a ir mais longe na compreensão da Evolução da Vida; um já foi apresentado, o de que a Vida dispõe, nas suas mais ínfimas formas, em cada célula, de ICV, ou seja, de Inteligência, que é a capacidade de resolver problemas novos, de Conhecimento, que é o conjunto das soluções dos problemas resolvidos, e de Vontade, que é a capacidade de tomar decisões.

Agora vamos falar do outro: a variação da temperatura da Terra ao longo do tempo.

A figura acima, publicada nest post, apresenta a curva da temperatura terrestre que decorre da teoria da Evanescência e assinala alguns acontecimentos relevantes na história da Vida. Esta curva não é conhecida da Ciência (a não ser o risquinho verde na ponta direita, que é a temperatura da Terra nos últimos 100 milhões de anos estimada por Crowley). Segundo a Física actual, o modelo que traduz a história térmica da Terra é o Snowball Earth, segundo o qual a Terra esteve congelada até há uns 500 milhões de anos, em consequência da radiação do Sol ser tanto menor quanto mais jovem a estrela (curiosamente, esta relação com a radiação solar teórica desapareceu da teoria, e o congelamento permanente da superfície transformou-se em episódios de glaciação global).

As evidências geológicas e biológicas a favor duma Terra quente e não duma Terra fria são esmagadoras, sendo a teoria do efeito de estufa pelo CO2, que serve agora tão convenientemente de suporte aos modelos do aquecimento global, uma tentativa falhada de explicação de tão extraordinária evidência. Sabiam que a origem da teoria do CO2 foi a necessidade de explicar o passado quente da Terra?

No artigo da Nature que citamos aqui, é publicado o seguinte gráfico da temperatura dos oceanos no passado:

Este gráfico apresenta as temperaturas máximas de proteínas ancestrais reconstruídas (EF = elongation factor) sobreposto a curvas obtidas por análise de isótopos de oxigénio. Como se pode ver, estas temperaturas são extremamente altas, impossíveis de explicar pela física actual. E este é apenas um dos muitos testes que indicam consistentemente temperaturas muito altas no passado terrestre.

A estimação da temperatura a partir dos dados geológicos e biológicos tem cometido recorrentemente um erro básico: presumir que a temperatura de ebulição da água é de 100 ºC. Ora isso só é verdade à pressão atmosférica actual; numa Terra mais quente, o vapor de água aumenta a atmosfera e a pressão, elevando consideravelmente o ponto de ebulição. Se estes estudos atendessem ao aumento de pressão que decorre necessariamente de uma temperatura mais alta, os valores de temperatura obtidos seriam mais altos, provavelmente em plena conformidade com a curva que apresentei.

Os autores do citado trabalho concluem que:

Our results suggest that early life lived at an environmental temperature similar to those of today’s hot springs. Particular geological theory and evidence suggest that the ancient ocean also had temperatures similar to those of hot springs.”

As «hot springs» são fontes de água aquecida por geotermia; especialmente relevantes para este efeito são as submarinas, que suportam formas de vida que não dependem do Oxigénio, a temperaturas que chegam a ultrapassar os 100 ºC, possíveis porque a essa pressão o ponto de ebulição da água é muito acima dos 100ºC.

Portanto, independentemente de considerarmos ou não a teoria da Evanescência, a vida surgiu e evoluiu em temperaturas insuportáveis para as formas de vida correntes de hoje; e se pensarmos que, por exemplo, o Homem não poderia existir quando os dinossáurios dominavam a Terra porque as condições de temperatura e humidade seriam insuportáveis (a 40ºC de temperatura, os 100% ou quase de humidade relativa tornariam inútil o nosso sistema de arrefecimento), e que isto ocorreu há menos de 3% da idade da Terra, começamos a suspeitar que o calendário da evolução da Vida foi escrito pela evolução da temperatura terrestre.

Isto nunca foi considerado na análise da Evolução. E tem consequências da maior importância.

Sugiro, para os mais interessados, a leitura dos 3 posts publicados sobre o assunto antes de avançarmos; além dos dois já indicados há mais este. Se seleccionarem a etiqueta «Evolução da Vida», estão os três seguidos em Janeiro / Fevereiro de 2008.

domingo, outubro 25, 2009

Subtil, Simplório, Enviesado... e Caim


Ando há algum tempo para falar sobre o que é um raciocínio simplório, subtil ou enviesado e vai ser agora; a análise da Evolução continua no próximo post, onde veremos um facto importante que não entra na actual teoria da Evolução mas que é crucial. O tema deste post é importante porque nos ajuda a saber raciocinar melhor.

.......

Consideremos um jogador de xadrez. Face a uma disposição de peças no tabuleiro, logo uma hipótese de jogada lhe ocorre. Essa é a hipótese simplória. Se for um jogador principiante, faz essa jogada. Se não for, vai analisar as consequências. E vai testar outras jogadas. Até chegar a uma decisão. Essa é a hipótese subtil, porque já não resulta do que está directamente à vista.

Como sabem, ganha no xadrez o jogador que for capaz de perspectivar mais longe a jogada. Ou seja, o que for mais «subtil». A hipótese «simplória» é quase sempre errada, no entanto, é a que parece «lógica» a um espectador que só tenha conhecimentos superficiais de xadrez.

O Einstein disse que a diferença entre ele e os outros físicos é a de que ele pensava mais longamente nos assuntos; logo, era mais subtil; e frisou a importância do pensamento subtil numa frase famosa, a de que Deus é subtil mas não malicioso.

No entanto, não foi entendido, foi até escarnecido; porquê?

Porque nós não fazemos nem raciocínios subtis nem simplórios; nós fazemos raciocínios enviesados.

O nosso Inconsciente, com base nas informações que ele aceita como «verdade» e nos seus próprios critérios, de raiz instintiva, forma uma opinião sobre um assunto, atinge uma conclusão; em seguida o nosso consciente é mobilizado para provar que essa conclusão está certa. Os nossos raciocínios não servem um processo de descoberta mas um processo de demonstração de uma ideia, opinião, conclusão, certeza, estabelecida anteriormente a um nível inconsciente. Os nossos raciocínios são, portanto, enviesados, visam provar algo que já foi definido a priori.

A justiça utiliza isto como metodologia para fazer um julgamento na sua estrutura de defesa/acusação/juiz, onde tanto a defesa como a acusação devem fazer uma argumentação enviesada para o seu lado. É uma metodologia que funciona na fase de julgamento. Porém, já a Polícia não pode funcionar com base na mesma metodologia, o investigador policial tem de fugir dos raciocínios enviesados ou dificilmente desvendará algum crime.

Também em Ciência este problema se põe com enorme acuidade. Como fugir aos raciocínios enviesados?

A melhor maneira é a pessoa ter consciência disto e dos factores de enviesamento dos seus raciocínios; mas isso é difícil e subjectivo, é conveniente uma metodologia que dê alguma garantia de protecção contra os raciocínios enviesados. Então, a Ciência adoptou como resposta a este problema o raciocínio simplório, ou seja, constrói os seus modelos de realidade directamente sobre os resultados das observações. É assim a teoria Atómica, do Big Bang, da Relatividade, Electromagnética e de Ptolomeu. A excepção é a de Newton, que resulta de raciocínios subtis.

Isto é um progresso em relação a uma fase anterior, baseada em raciocínios enviesados, não é um retrocesso como poderão estar a pensar. O raciocínio simplório é menos mau que o enviesado. Claro que o «subtil» é melhor, mas ainda não demos esse salto a não ser pontualmente e é tão excepcional que classificamos de «génios» as pessoas que ultrapassam o que resulta directamente da observação.

Vou dar-vos exemplos. Ontem vi um documentário no Discovery Civilization, espanhol, que sustentava a ideia de que o Colombo seria um nobre espanhol, catalão. Apresentado como se fosse um estudo «científico», era assaz enviesado; por exemplo, a única referência a Portugal era a de que ele fora casado como uma nobre portuguesa e unicamente para provar que ele não poderia ser um plebeu genovês. Portugal nem aparecia num mapa várias vezes repetido, onde toda a península era Espanha. Pensarão: uns malandros os espanhóis! Na verdade, isto é o que fazem todos os povos nos seus documentários. E o que nós faríamos se fizéssemos um documentário sobre o Colombo. Por isso a importância que a generalidade de países dá à realização de documentários.

Um documentário «simplório» trataria todos os factos em pé de igualdade. Mas isso não é uma vantagem específica para quem paga o documentário, e tudo o que se faz está ao serviço dos interesses de quem paga.

O recente livro do Saramago, Caim, insere-se no processo oposto. O Saramago, segundo ele mesmo diz (eu não li), faz uma leitura «literal» do que está escrito na Bíblia. Este é o procedimento «simplório». Os crentes fazem uma leitura «enviesada», uma interpretação do que lá está escrito de acordo com a sua crença. O «Caim» do Saramago representará um progresso para quem quer chegar mais perto da verdade. O que não significa que a sua conclusão esteja certa – como disse, os raciocínios simplórios são frequentemente errados. Mas têm a vantagem de não obliterarem os factos.

Um exemplo duma interpretação subtil duma parábola bíblica é a que apresentei aqui, sobre a expulsão do paraíso.

Estes raciocínios enviesados que continuamente fazemos não são desonestos, o enviesamento é essencialmente inconsciente; mas há raciocínios conscientemente enviesados – são os dos vendedores, por exemplo, quando querem vender um produto, são os próprios raciocínios do charme social, de muitos políticos, das religiões, dos interesses económicos. Alguns são só um bocadinho desonestos, outros totalmente. Por exemplo, o de que o plano de reforma de saúde do Obama iria matar os reformados e deficientes, posto a correr pela poderosa indústria de saúde americana. Estes enviesamentos visam os medos e os anseios das pessoas para conseguirem fins escondidos.

Eu chamo a estes raciocínios manipulativos exo-enviesados. Os raciocínios exo-enviesados têm «asas», espalham-se como fogo em madeira seca. E são tão difíceis de combater como ele.

Bem, há muito mais para dizer, quer em relação às fontes de enviesamento, quer em relação à análise da validade dos raciocínios. Mas, para já, ficamos com esta interessante questão: percebermos porque é que as nossas ideias são as que são. Elas não são fruto da nossa racionalidade mas da nossa «irracionalidade», ou seja, um produto do inconsciente, um produto «afectivo». Os raciocínios em que as suportamos são elaborados a posteriori.

Temos de aprender a percepcionar o nosso enviesamento para conseguirmos uma melhor racionalidade. Quando conseguirmos olhar para os factos sem presunção ou crença, estamos aptos ao raciocínio «simplório»; e quando conseguirmos passar além do «simplório», como um jogador de xadrez experiente, depararemos com as múltiplas possibilidades que o raciocínio subtil nos abre. Mas há um preço a pagar: tempo!

terça-feira, outubro 13, 2009

Diogo dixit


Em comentário ao anterior post, o Diogo apresentou sumariamente o que pensa sobre o mecanismo da Evolução:

1 – Os vários indivíduos da mesma espécie recebem informação do ambiente e projectam uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças.

2 – Como os adultos já não se conseguem alterar transmitem essa pelas células sexuais.

3 – A reprodução sexuada vem permitir um máximo de interacção de quase todos os indivíduos com todos os outros. Ou seja os indivíduos estão a trocar ideias fisicamente.

4 – Esta troca de ideias tem dois objectivos: a) Escolher a melhor estratégia de evolução e aplicá-la a todos os indivíduos em simultâneo.

5 – A nova geração já nasce diferente e mais adaptada.

Analisemos. No ponto 1 diz que ;

1 – Os vários indivíduos da mesma espécie recebem informação do ambiente e projectam uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças

Isto é sem dúvida uma hipótese; mas será certa? Como podemos saber se é certa ou errada? Para tal, é necessário algo que suporte a hipótese e que possamos testar. Por exemplo, uma pessoa pode responder à questão “porque anda um carro?” com “porque tem um motor!”. Para que seja aceite como explicação, a primeira condição é que, de facto, haja um motor no carro. Note-se que não é uma condição suficiente, apenas necessária. Por exemplo, uma pessoa poderia também responder “porque tem um volante”; de facto, tem um volante, mas isso não faz o carro andar.

Para suportar esta hipótese de que “os vários indivíduos da mesma espécie ... projectam uma estratégia de forma física” é necessário apresentar um facto. Como é feito esse projecto de estratégia? Que órgão do corpo faz isso? Uma pista qualquer sobre o processo? Estará a basear-se no que aqui se disse sobre a inteligência da célula e dos sistemas de células?

O Diogo nada diz a este respeito. Sem isso, esta hipótese não é uma «explicação». Pode estar certa ou errada, mas o Diogo não nos aponta nenhuma maneira de o sabermos.

Reparemos agora no seguinte: seguindo a mesma linha de raciocínio do Diogo, poderíamos dizer igualmente que

Em face da informação do ambiente recebida pelos vários indivíduos da mesma espécie, um Deus tipo «Grande Engenheiro» projecta uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças

Não é assim que um Grande Engenheiro age? Lançando modelos, verificando como se adequa ao ambiente, e introduzindo melhorias?

Ou, ainda, em vez de um Deus poderíamos considerar uma avançada civilização extraterrestre.

Que factos apresenta o Diogo para podermos pensar que a hipótese dele é melhor do que qualquer uma destas? O que as distingue, nesta altura, é apenas a sua adequação às presunções de quem as faz. Digo «nesta altura» porque aqui o Diogo lança uma hipótese nova que ainda não foi investigada. Quem sabe se na sequência de paciente trabalho de investigação não se descobre algo que a suporte? Só que, nesta altura, não há a mínima pista.

Depois, o Diogo diz que:

2 – Como os adultos já não se conseguem alterar, transmitem essa pelas células sexuais.

É importante saber se as células sexuais de um ser contêm qualquer informação diferente da que originou esse ser. Uma informação que resulte da experiência de vida do ser e não de um erro de cópia ou outro processo independente dessa experiência. Mas não sabemos isso. Afirma-se que não contém, essa é a base da argumentação anti-Lamarck, mas não conheço prova convincente. De qualquer forma, como assim é aceite, quem defender que as células sexuais podem conter informação derivada da experiência tem de pelo menos indicar um mecanismo através do qual tal pudesse acontecer. E isso o Diogo não faz. Um caso julgado só volta a julgamento perante factos novos.

Continuando:

3 – A reprodução sexuada vem permitir um máximo de interacção de quase todos os indivíduos com todos os outros. Ou seja os indivíduos estão a trocar ideias fisicamente.

4 – Esta troca de ideias tem dois objectivos: a) Escolher a melhor estratégia de evolução e aplicá-la a todos os indivíduos em simultâneo.

Será que não existe evolução sem reprodução sexuada? Bem, no último número da Nature vem um artigo, creio que co-autorado por um português, que mostra que as células dum cancro de pulmão apresentam uma elevada taxa de mutações... será que evoluem?

Uma coisa parece clara: há reprodução sexuada sem evolução que se note – na verdade, é o que há mais, a inteligência das tartarugas não parece ter sofrido evolução nos últimos 100 milhões de anos, por exemplo.

Podemos questionar: a troca de informação genética será condição necessária mas não suficiente? Será que, como o Diogo diz, essa troca não é «ao acaso», obedece a uma «estratégia»? O Diogo nada diz sobre como pode essa estratégia concretizar-se.

Notem que nada disto significa que o Diogo esteja errado. Apenas que ele não apresentou uma «explicação», apresentou uma «hipótese» sem ter apresentado qualquer prova. O que pode levar uma pessoa a considerar, nesta altura, que a hipótese do Diogo seja melhor do que a Criacionista, por exemplo? Nada, a não ser as crenças pessoais de cada um.


Qual é a diferença estrutural entre esta ideia do Diogo, o Criacionismo e a teoria do Darwin?

Vejamos este exemplo: imaginemos que uma pessoa explica o facto de um carro ser capaz de se mover dizendo: tem um motor, que é um dispositivo que transforma em movimento o calor que um combustível liberta quando arde.

Bem, ainda há muito por explicar. Transforma como?

No entanto, já foi dado um passo muito significativo. Agora, podemos pôr-nos a pensar, buscar uma forma de transformar calor em movimento. Temos uma peça do puzzle e temos um caminho de pesquisa. Se a hipótese fosse apenas «porque tem um motor» não tínhamos quase nada, essa hipótese não representa um «conhecimento» relevante (quem não sabe o que é um motor fica na mesma).

Darwin quase fez isto. Ele deu uma pista sobre como o motor da evolução poderia funcionar. Os descendentes nascem com variações e a natureza selecciona as mais adequadas. E podemos testar que assim acontece. O Darwin encontrou uma peça do puzzle da evolução. O Darwin mostrou que um processo de inteligência elementar, «geração de hipóteses + selecção», é usado na adequação dos seres vivos ao seu ambiente.

O Darwin não apresentou nenhuma teoria sobre o que produz as variações que os seres vivos apresentam. Isso é algo que ainda é alvo de pesquisa. Não se conhecendo nenhum mecanismo capaz de produzir mudanças genéticas capazes de suportar a Evolução, afirma-se que essas mudanças são por acaso. As experiências mostram que as mudanças por acaso só originam seres deficientes, como seria de esperar. Portanto, não se sabe, a Ciência não faz a mais pequena ideia, de como se produzem nos seres mudanças capazes de suportarem um processo evolutivo. O Diogo está a propor que na geração das “variações” dos descendentes não está um processo de acaso ou erro mas um processo de Inteligência.

Bem, na verdade, isto é óbvio, mas só a coragem de o afirmar já merece destaque. Quem não leu os posts em que tentei estabelecer que Inteligência é uma propriedade natural vai-se rir, mas vozes de burro não chegam nem ao Céu nem ao Futuro.

O Diogo pensa que um processo de Inteligência destes têm de se alimentar das consequências das modificações introduzidas, logo considera que a experiência de vida tem de alguma forma fazer parte do processo. Que há um mecanismo de «feedback» entre as alterações introduzidas e as suas consequências. Aqui, ele difere de Darwin, que considera que a geração de variações e sua selecção são processos independentes. A verdade será provavelmente algo mais sofisticado do que qualquer destas hipóteses.

Em conclusão, ao apresentar esta hipótese sobre a evolução das espécies, o Diogo actuou como um Descobridor, pois libertou a mente de ideias que certo «mainstream» papagueia sem perceber e aceita sem analisar e teve a coragem de pensar pela sua própria cabeça. Mas a tarefa do Descobridor é árdua, sem fazer o caminho todo que vai da ideia à prova o seu esforço é inútil. E, neste caso da Evolução, a tarefa é grandiosa demais para as nossas capacidades. A opção é procurar dar pequenos passos, ir juntando pecinhas do puzzle.

Foi o que o Darwin fez, ele só encontrou uma pequenina peça do puzzle, a de que um processo de variação das características seguido de um processo de selecção pode suportar um processo evolutivo. Como se gera essa variação, esse é o grande mistério.

O que sabemos da Evolução, na verdade, é ainda tão pouco e incipiente que corresponde quase à resposta «porque tem um motor». Sabemos que há Evolução, como sabemos que um carro anda; e sabemos que há um mecanismo de variações e selecção como sabemos que o carro tem um motor; mas estamos como a pessoa que não sabe o que é um motor porque nós também não sabemos como se geram essas variações. E é aqui que está a verdadeira questão.

............

Entre o Presente e o Futuro está uma Terra de Ninguém, um deserto onde perdemos as nossas crenças e limpamos a cabeça dos conceitos e das “verdades” do Presente; estamos a acabar a travessia desse deserto, à frente começam a surgir pequenos oásis de Futuro.

terça-feira, setembro 29, 2009

Os Novos Conhecimentos: ICV

Propusemo-nos repensar a Evolução das Espécies. Se fossemos mais inteligentes que o Darwin, sei lá, por exemplo, se fossemos extraterrestres, poderíamos racionar sobre os mesmos dados que ele e pretender chegar a uma teoria mais avançada. Mas não somos, logo, só poderemos dar algum contributo se dispusermos de novos dados, novos Conhecimentos. É disso que temos andado à procura nos posts anteriores. E temos alguma coisa para acrescentar ao que o Darwin sabia. Vamos caracterizar os novos Conhecimentos de que dispomos, começando, neste post, pelo ICV da Natureza. Ou seja, Inteligência+Conhecimento+Vontade.

Temos vindo a perceber, ou a intuir, que Inteligência é um processo natural, que Inteligência gera Conhecimento, que Inteligência operando em cima de Conhecimento gera mais Conhecimento, e que de tudo isto resulta uma Vontade capaz de conduzir o processo de Vida, tal como a acéfala estrela-do-mar tem uma vontade que a conduz à sobrevivência e reprodução. Estas características, que pensávamos existirem apenas associadas a um «cérebro», não precisam, afinal, de «cérebro».

Para nós, é razoavelmente fácil identificar o ICV duma pessoa, porque é algo que existe numa escala que nos é acessível. Já o mesmo não acontece no ICV duma célula ou da Natureza. Mais: podemos dizer onde reside o ICV duma pessoa, no seu cérebro, mas nem a célula nem a Natureza têm um cérebro, o que nos induz à percepção errada de que não há Inteligência, Conhecimento ou Vontade sem um cérebro. Felizmente existem estrelas-do-mar e outros seres para provarem o contrário.

Um cérebro é o órgão por excelência do ICV e tem 2 características básicas: memória, onde se armazena Conhecimento, e comunicação, que permite a movimentação desse conhecimento. São estas as infraestruturas da computação. Um cérebro é uma concentração destas funções, mas elas não são exclusivas de um cérebro. São necessárias para existir ICV, mas não têm de estar concentradas num órgão, num «cérebro».

Com efeito, as células detêm Conhecimento, dado que são capazes de gerar um ser vivo. Reside no ADN e não só. Não temos dúvidas sobre isso, pelo menos no ADN há Conhecimento acumulado. A existência de um Conhecimento prova que existiu uma Inteligência, pois aquele é o fruto desta. Para termos ICV precisamos ainda de capacidade de comunicação. Aquilo que fazem os neurónios. Ora a Vida exibe amplas capacidades de comunicação a variadas escalas. Vejamos:

- As bactérias trocam continuamente pedaços do seu código genético e, como se sabe, nessa sua característica parece residir a sua extraordinária capacidade de resposta às mais variadas condições. Uma comunidade de bactérias exibe um comportamento «sábio» e «inteligente», ou seja, exibe ICV.

- A Célula dispõe obviamente de ICV. Porque pensam que é tão difícil combater o cancro? Uma célula cancerosa é uma estrutura com ICV que actua à revelia do organismo em que se insere. É como uma estrela-do-mar. Busca a sua sobrevivência e multiplicação, esta é a sua vontade.

- Um organismo dispõe de ICV. Todo o funcionamento dum organismo está dependente de contínua e intensa comunicação, a partir da qual cada célula decide, em cada momento, que vai produzir esta proteína e não aquela. Uma comunicação que abrange todas as células do organismo, incluindo as sexuais. A ideia de que a experiência de vida de um ser não pode ter consequências na sua descendência porque as células sexuais estão isoladas está errada. As células sexuais são espectadores de toda a experiência de vida do ser a que pertencem. Experiência essa que pode ficar gravada na fase de amadurecimento dessas células. Que vai ocorrendo ao longo de toda a idade sexual do ser. Num próximo post veremos como podemos agora entender a Girafa muito melhor do que Lamarck ou Darwin e as consequências que daqui se podem deduzir para nós.

- As comunidades de indivíduos da mesma espécie, através da reprodução sexuada, trocam informação genética entre si, portanto, disporão dos meios necessários ao ICV. Outros tipos de comunicação dentro da comunidade também contribuem para o ICV da comunidade.

- A Vida, como um todo, tem ICV. Sabemos que idênticas sequências genéticas surgem em espécies totalmente distintas, o que indicia que também entre todos os seres vivos existe capacidade de comunicação. Como acontece isso, não sabemos. Os vírus podem transmitir pedaços de código genético, são mesmo usados em terapia genética para isso; mas podem existir outros processos que desconhecemos.

A Vida dispõe, portanto, de Memória e de Comunicação, ou seja, dispõe dos meios que suportam o ICV. E dispõe deles em diferentes escalas, cada uma constituindo um sistema com uma certa capacidade intrínseca de evoluir.

Haverá, portanto, ICV, logo, capacidade de evolução, em múltiplas escalas, e não podemos olhar para a Evolução como um fenómeno único, linear, nem pretender uma explicação única, um mecanismo único. Esta conclusão já é um passo em frente.

O ICV está para os fenómenos biológicos como as Leis Físicas para os fenómenos físicos. Porque tanto uma coisa como a outra nos indicam o estado seguinte dos sistemas. Ou seja, nos permitem antecipar o futuro. Por exemplo, podemos antecipar a gama de comportamentos de uma dada estrela-do-mar, porque conhecemos o seu ICV, isto é, sabemos como ela reage em diferentes situações. Assim como podemos antecipar o comportamento de muitas pessoas que conhecemos bem – saber o que elas vão pensar sobre determinado assunto, como vão reagir, etc. Dizemos que conhecemos a «personalidade» da pessoa. É isso que o ICV caracteriza, a «personalidade».

Esta é uma consideração interessante e importante: enquanto uma Lei Física se aplica a um fenómeno específico, o ICV aplica-se ao comportamento de um sistema complexo. Pode ser uma pessoa, a Vida, o sistema económico, uma sociedade humana, o planeta Terra, o Sol, o Universo. A palavra «personalidade» é adequada para representar o comportamento de sistemas complexos.

O director do observatório do Vaticano disse que o objectivo do observatório é entender a «personalidade de Deus». Poderá não ser a frase de um beato, mas a frase de um sábio?

Vamos agora ver outro novo conhecimento.