quinta-feira, maio 28, 2009

Quatro Sistemas para Exploração do Universo



A pequena bactéria iniciou, aos primeiros raios do nascer do Sol daquele longínquo dia, há quase mil milhões de anos, a extraordinária aventura de exploração deste Mundo desconhecido e em mudança. Para isso ela teve de se associar com outras bactérias, construir imensas máquinas de exploração, que receberam nomes como «plantas» e «animais». E para realizar esse imenso e complexo percurso ela dispôs de 4 sistemas de navegação. Quatro magníficos sistemas que ela soube usar com a perícia que o tempo dá. Quatro sistemas que lhe disseram o que fazer e como o fazer.

Vamos conhecer esses sistemas. São sistemas que permitem resolver problemas. Genericamente, são sistemas de Inteligência. Mas vamos detalhar a sua natureza e classificação.

Voltemos ao exemplo do Labirinto.

O nível mais elementar de actuação que permite resolver o labirinto é andar ao acaso até dar com a saída, o que designei por «Hipóteses+Selecção», ou «H+S» no texto anterior; mal designado, penso eu hoje... «Acaso+Selecção», ou «A+S» parece-me mais adequado, e é assim que o referirei de agora em diante. Não esqueçam: o «H+S» foi substituído pelo «A+S»!

Já vimos que este nível só é eficiente em situações onde a geração de acasos seja muito elevada e o custo de cada hipótese falhada irrisório.

Depois, referi que podia resolver um labirinto se andasse sempre encostado ao mesmo lado. Sem dúvida que este processo é muito mais eficiente, 100% eficiente. Mas a Inteligência não está na aplicação desta regra resolvente, está no processo que conduziu a ela. E que processo foi esse? Foi um processo de geração de hipóteses com um grau de complexidade superior – nada de transcendente, pois “virar sempre para o mesmo lado” é a alternativa mais básica a “virar ao acaso” – seguido do teste da hipótese.

Temos aqui um processo mais estruturado de elaboração de alternativas, de Hipóteses, seguido da aplicação da hipótese escolhida; depois, a análise do resultado e a aprovação ou rejeição da hipótese. Portanto, temos algo de novo em relação ao primeiro processo: temos «Feedback», ou seja, precisamos do resultado do teste para aprovar ou rejeitar a hipótese. Uma vez aprovada, a hipótese fica a fazer parte duma base de conhecimento, associada ao problema do labirinto.

Este nível de Inteligência apresenta grandes diferenças para o primeiro: assenta num processo mais estruturado de geração de hipóteses, que já não são obtidas por mecanismos de acaso, seguido do teste e da análise do resultado do teste. E o resultado deste processo é o quê? Um item duma base de conhecimentos. Um Conhecimento.
Como poderemos nomear este nível? Dissequemos.

As Hipóteses não saem de uma base de conhecimentos, são algo de novo, mas também não são fruto de acaso; são fruto de um processo... criativo! Portanto, podemos designar o primeiro passo do processo por «Criatividade». O segundo passo é o teste da hipótese, a experimentação, a acção. Vou escolher a palavra «Acção». O terceiro é o «Feedback». Esta palavra representa bem o terceiro passo e é bem conhecida. Todos sabemos que o organismo se regula por «bio-feedback». O «Feedback» é um processo corrente na interacção dos organismos vivos com o meio.

Portanto, vou designar este nível de Inteligência por «Criatividade+Acção+Feedback» ou «C+A+F».

O que é específico desta sequência é a Criatividade, pois os outros dois passos são comuns aos mecanismos de regulação, ao bio-feedback. No próximo post tentaremos perceber como se realiza o processo de Criatividade.

Inteligência é um processo associado à geração de hipóteses novas; mas isso não é sempre necessário para resolver problemas – rarissimamente usamos hipóteses novas, o que fazemos é aplicar o que já sabemos às situações que nos vão aparecendo. Podemos assim identificar dois tipos de processos: o de Inteligência e o de Ajustamento (escolhi esta palavra agora mesmo... em inglês diria “fitting”... aceito sugestões).

O «Feedback» é um processo de Ajustamento de nível 1; não é de Inteligência porque não há criatividade no processo.

Reparemos agora como actua um médico: primeiro, faz o Diagnóstico da situação, identificando um quadro a que chama «doença»; depois, aplica um Procedimento, que é o tratamento conhecido para essa doença. Desta forma, ele resolve um problema, o mal-estar da pessoa. Reparem que «doença» não significa a identificação da causa da doença, apenas o quadro de sintomas. No caso de uma pneumonia, sabemos qual é a causa, mas no caso de uma doença reumática, por exemplo, não sabemos – temos apenas um quadro de sintomas e um conjunto de tratamentos que sabemos poderem dar algum resultado, mas não temos necessariamente uma relação lógica ou de causa-efeito entre as duas coisas.

Este processo de «Diagnóstico+Procedimento» é um processo geral que aplicamos constantemente em tudo o que fazemos - quando andamos, comemos, consultamos o email, resolvemos as questões da nossa vida profissional, das nossas relações sociais, etc. Resolve problemas cuja solução já é conhecida ou que se podem decompor em problemas conhecidos. Reparem: «aprender a andar» é um processo de inteligência de nível 1, um processo de tentativa e erro; mas «andar» já não é um processo de Inteligência mas sim de Ajustamento, pois depende da base de conhecimentos construída no processo de aprendizagem e não da geração de hipótese novas.


Organizemos então o que já percebemos:

- Dois tipos de processos de resolução de problemas: os de «Inteligência» e os de «Ajustamento»; vou designá-los por processos I e processos A

- Dois níveis de Inteligência: o nível 1 «Acaso+Selecção» e o nível 2 «Criatividade+Acção+Feedback». Simbolicamente direi que temos: I1=«A+S» e I2=«C+A+F»

- Dois níveis de Ajustamento: de nível 1 o «Feedback» e de nível 2 «Diagnóstico+Procedimento»; A1=«F», A2=«D+P»


Veremos a seguir alguma coisa sobre o uso que fazemos destes processos, o que nos permitirá compreendê-los melhor e saber tirar melhor partido das nossas capacidades. E, muito importante, compreender as nossas limitações.

Dotados de uma melhor compreensão destes 4 processos, poderemos então abordar a questão da Evolução. Reparem a vantagem que temos à partida sobre o Darwin: vamos «armados» com 4 processos capazes de produzirem modificações nos seres vivos, enquanto ele só tinha 1 processo de Inteligência e nem sabia da existência de genes.

19 comentários:

Diogo disse...

Alf: «O nível mais elementar de actuação que permite resolver o labirinto é andar ao acaso até dar com a saída»

Diogo: Mas qual labirinto? Isso pressupõe uma vontade à priori. Um monte de moléculas tem vontade de quê? Ou estamos já a partir de um vivo? Com desejo de se preservar? De actuar no sentido da sua preservação?

alf disse...

Diogo, o exemplo do labirinto, como o do médico, não tem nada a ver com moléculas ou com vontades. é um exemplo de problemas que se podem resolver usando apenas o acaso dentro de um quadro definido.

Um caso prático é a formação de moléculas autoreprodutoras no meio existente na terra primitiva, como a defini: os átomos iam-se interligando ao acaso e uma sequência precisa de átomos acabou por ser obtida. Essa sequência é como a saída do labirinto.

Não havia nenhuma «vontade» a comandar os átomos; havia apenas um acontecimento particular - essa sequencia de átomos - que possuía a propriedade de se autoreproduzir; e assim, essa primeira molécula originou uma infinidade de outras moléculas iguais. As combinações dessas outras moléculas originaram então uma outra estrutura especial, com uma nova propriedade que determinou uma nova modificação nas estruturas.

Mas este caso, a que chamei do tipo I1, ou «A+S», não ocorre só nas misturas de átomos; como mostrarei, ele é o procedimento básico e essencial do pensamento criativo, dos nossos processos mentais de inteligência.

agora já não são átomos a chocar ou pessoas num labirinto, mas situações e acontecimentos a misturarem-se mais ou menos aleatóriamente de forma virtual no cérebro até que surge uma combinação com propriedades especiais.

Este processo é independente de existir uma «vontade». Numas situações, essa vontade existe e usa-o; noutras não há vontade nenhuma.

Diogo disse...

Concordo. A determinada altura deu-se uma formação de um grupo de moléculas autoreprodutoras. É isso o princípio da vida.

UFO disse...

em pleno alf.
talvez que em vez de «Ajustamento» eu diria «Ajustamento ao Padrão».
Em Inteligência Artificial refere-se «Pattern Matching»
Digamos que mantemos em base de dados os 'Estímulos e Acções' ligadas aos 'Resultados' e escolhemos nessa bd a configuração que melhor se ajusta ao pretendido.

antonio - o implume disse...

O nosso sistema bancário actua ao nível mais elementar e isso porque o custo dos seu erros é irrisório! (digo para os banqueiros)

Só quando tiverem que assumir as consequências dos seus actos falhados, passarão para a fase seguinte.

Ou seja, a opção por cada um destes mecanismos é guiado pela entropia.

alf disse...

UFO

Isso mesmo; mas creio que «Diagnóstico+Procedimento» dará uma ideia mais intuitiva do processo, mais próxima da experiência da generalidade das pessoas.

alf disse...

António

Isso mesmo!
Mas não culpe os banqueiros, eles fizeram o mesmo que qq outra pessoa faria no lugar deles. O problema está nas regras do sistema.

O problema já é conhecido desde a outra crise. Os americanos sabem exactamente qual é o problema - o crescimento da desigualdade na distribuição de riqueza - e sempre souberam controlá-lo até se ter entrado na globalização. Para isso, não hesitaram em partir em bocados grandes empresas para garantir a redistribuição da riqueza e das oportunidades.

Mas com a globalização perceberam que o seu interesse tinha mudado: agora precisavam de empresas tão poderosas qt possível, porque as suas empresas estariam em concorrência com empresas de todo o mundo. Assim, largaram a rédea e o desiquilíbrio na distribuição de riqueza cresceu descontroladamente.

Note que não é culpa dos americanos -ele só fizeram o mesmo que todos os outros.

Esse desiquilíbrio estrangulou o fluxo económico e foi isso que gerou a crise. A questão do fluxo económico é tão vital que já vi um livro de economia que se dedicava a analisar a teoria dos fluxos do Maxwell. Os economistas agora andam a estudar teorias físicas do comportamento dos fluidos para as aplicar à economia.

Esta crise, é, em parte, apenas um efeito colateral duma guerra económica entre as grandes empresas. Com as regras existentes, as «grandes» empresas matarão todas as outras e reduzirão imenso os postos de trabalho.

No próximo post vou mostrar porque é que somos tão burros.

alf disse...

Diogo

Esse terá sido o primeiro passo de uma longa sequência; mas a sua questão anterior permanece: houve uma «vontade»? Como verá num próximo post, esta questão, a sua questão, é importante.

UFO disse...

num comentário a um post anterior estava a tentar retirar a 'Vontade' por substituição por 'Fome de Energia'.
Existe energia disponível? então a vida usa-a.
Parece um mecanismo simples que poderá substituir a 'Vontade', com um certo risco de poder confundir causa com efeito.
É que com 'Vontade' parece que ficamos presos a uma Vontade Superior, não mecânica, não automática, e eventualmente distribuída, algo como um Deus.
O António rejubilaria e eu fico à toa.

alf disse...

UFO

Esta questão da Vontade é muito mais importante do que pode parecer à primeira vista. O post a seguir ao próximo será sobre isso e penso que surgirão coisas muito interessantes.

antonio - o implume disse...

Cá espero esse artigo!

Diogo disse...

«alf disse... Diogo - Esse terá sido o primeiro passo de uma longa sequência; mas a sua questão anterior permanece: houve uma «vontade»? Como verá num próximo post, esta questão, a sua questão, é importante.»

Isto parece-me um folhetim radiofónico. Eu sei que esta questão é fundamental. Você tem alguma resposta? Vamos ter de esperar mais 20 dias?

UFO disse...

eu aguardo o tempo que for preciso.
o alf tem o «outrafísica»
e ali também anseio pelo próximo post.
afinal eu levei a minha vida toda a procurar uma resposta à pergunta:
Porque é que eu (e a vida) tenho esta pressão incontrolável para a sobrevivência e para a reprodução (e o sexo).
as justificações mais simples do estilo : sobrevive para evitar a dor
reproduz para ter prazer
não me parecem suficientes para a «vontade» de seguir o rumo da conservação.
Mas duvido destas simples respostas porque afinal não parece poder aplicar-se a seres simples.
Aguardo.

UFO disse...

Também aguardo que em posts futuros dediques atenção à implementação destes mecanismos de evolução.
No teoricamente são mecanismos claramente operacionais.

A evolução da vida deve similar com a evolução de 'sistemas de informação' em geral porque a vida parece ser na sua essência um 'sistema de informação' (software que sabe construir hardware e fazer novas versões de soft e de hardware'.

No mundo actual estão-se a fazer avanços na construção de fotocopiadores 3D que se podem auto-reproduzir a 100%. Longe, muito longe ainda, da concretização da vida mais elementar.

Joaninha disse...

Alf,

Mais devagar senão eu não tenho tempo para ler tudo!

beijos

alf disse...

António, Diogo, Ufo

só prometo ideias para pensar; respostas, certezas, nesta sofisticada questão da «vontade», ficam para a elaboração individual... mas, se conseguirmos encontrar uma qualquer ponta, não é já fantástico?

alf disse...

UFO

eu não estou a tentar escrever o «livro definitivo sobre a evolução». Nós ainda só começamos a observar os mecanismos de funcionamento da célula, ainda mal vamos conseguindo ver, quanto mais explicar; eu estou só a tentar encontrar um caminho para a evolução, o começo do caminho. A ideia é mostrar como a Natureza utilizará estes mecanismos - mas de uma forma genérica, é claro, como suspeita a ser investigada. Este é o trilho do descobridor, não do sábio. E conto que juntes os teus conhecimentos e ideias, este trilho é colectivo, este é um «blogue-forum».

alf disse...

Joaninha, obrigado pela visita. O Código Civil estraga qualquer passeio pelo Universo rsrsr... mas se não tiveres tempo agora, eu depois convido-te para o lançamento do livro!

Um beijo

alf disse...

Olá Rod, mensagem recebida, obrigado! Um abraço