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terça-feira, abril 02, 2013

A Afectividade serve a Evolução






Observem a fascinante sequência de operações realizadas por este vírus (todos os vírus têm processos de complexidade semelhante); dado que um vírus está para uma célula como um barco a remos está para um porta-aviões, podemos perceber que as células desenvolvem operações de uma complexidade avassaladora.

(continuação da conversa com o Hans, interrompida pelos últimos 2 textos) 
- Sim, sem dúvida que é esse processo, H+S+R, o responsável pela evolução tecnológica, mas tem por detrás a inteligência humana; como é que passas daí para a Evolução da Vida sem meteres uma inteligência exterior, um Criador?

- Estás certo, a evolução tecnológica resulta de um processo de Inteligência que é exterior ao que evolui. Porém, isso, parecendo pertinente, é um falso problema pois a Inteligência ser exterior não é relevante, o que é relevante é que exista um processo de inteligência capaz de suportar a evolução observada.

- Então era preciso que a Vida fosse Inteligente, mas isso parece-me um salto muito grande, não estou a ver as nossas células a desenvolverem processos H+S+R... ainda se fosse só H+S como o Darwin propôs... mas como é que a célula pode adquirir o conhecimento resultante de uma experimentação? Não estou a ver...

 - O nosso cérebro também realiza esse processo H+S+R sem precisar de uma inteligência exterior sempre que temos de resolver um problema novo. Uma estrela-do-mar também e não tem cérebro. O cérebro tem Inteligência, é um sistema organizado para maximizar essa capacidade, mas a Inteligência não é exclusiva do cérebro.

-Sim, eu sei o que pensas sobre o assunto; mesmo assim não estou a ver como uma célula pode realizar um processo H+S+R...

- Bem, as bactérias realizam-no, não é? Encontram soluções para os seus problemas ambientais, adquirem esse conhecimento e transmitem-no umas às outras. Na verdade, as bactérias realizam também processos de inteligência de nível 3, mas isso veremos mais adiante. Em relação a este nível 2, o H+S+R, nas células passa-se algo semelhante ao processo que o cérebro desenvolve: a célula gera mudanças no código genético e seleciona uma que seja viável, ou seja, que gere proteínas viáveis e que seja compatível com certos equilíbrios, tal como o inconsciente escolhe uma hipótese que esteja de acordo com as suas verdades; depois nasce um ser com esta modificação, esta “Ideia”. Ela determina uma pequenina mudança no ser, nada de dramático, nada que o ponha em causa. Durante a sua existência, o ser verifica se esta diferença para os seus semelhantes lhe traz vantagem ou desvantagem e de que tipo. Esta informação é adquirida pelas células, elas estão todas em permanente comunicação umas com as outras, dispõem de um complexo e sofisticado sistema de comunicações, é esse sistema que permite, por exemplo, que cada célula saiba a função que lhe compete no organismo.

-Ok, eu sei que têm esse sistema, mas e daí?

- Daí, as células reprodutoras recebem essa informação e ela vai condicionar a modificação seguinte a efectuar pelas células reprodutoras; o próximo descendente nasce equipado com a segunda Ideia. – Fiz uma pausa, aguardando a reação.

- Beeemm… não me parece disparatado de todo… tenho lido umas coisas sobre a epigenética… creio que já li um texto teu sobre a Evo-Devo... há muito quem pense que a experiência de vida dos progenitores pode influenciar as características dos descendentes…

- De várias maneiras até, mas o que interessa agora é o seguinte: tal como a primeira ideia que temos para resolver um problema é normalmente má, também a primeira modificação, mutação, tem consequências desfavoráveis para o ser; o processo de Inteligência precisa de recolher informação sobre essas consequências e gerar uma segunda “ideia”, ou seja, uma segunda geração. Para que isso seja possível, é indispensável que este ser mutante e menos apto se reproduza. Se existisse algo como a Seleção Natural, o processo de Inteligência H+S+R não poderia funcionar porque não haveria uma segunda “ideia”, ou seja, uma segunda geração; a reprodução é essencial e a seleção é de todo indesejada no nível 2, a natureza não quer fazer seleção nenhuma dos seres. A sobrevivência ou não, a reprodução ou não, é sobretudo um resultado das circunstâncias, um acontecimento aleatório, irrelevante para a evolução; na verdade, uma inconveniência para a evolução.

- Ena, com essa estás a cilindrar-me!!!! O Darwin disse o oposto!

- Já vamos ao Darwin – ri-me – Estamos a chegar à parte verdadeiramente interessante; ora repara ainda no seguinte. Fiz uma pequena pausa, precisava de beber água, pedi outra garrafa. Enquanto não chegava, continuei:

 - Essas pequenas modificações têm minúsculas consequências; se o ser vive folgadamente, sem ter de se esforçar, de se levar aos limites, os efeitos das modificações não são detectáveis, não há realimentação, o nível 2 não funciona. Portanto, os veículos especialmente úteis ao processo evolutivo são os seres sujeitos a situações adversas, sobretudo em inferioridade com os seus semelhantes porque o principal fator de stress é a competição com eles. Ou seja, são os seres com alguma inferioridade, nomeadamente mais pequenos, mais frágeis, menos bonitos, etc. Estes são os primeiros responsáveis pela evolução. Portanto, exactamente aqueles que segundo a versão corrente da teoria de Darwin seriam eliminados. A Evolução é obra dos menos aptos, os mais aptos são inúteis para ela.

Os olhos do Hans ficaram esgazeados; senti-me feliz, ele tinha percebido. Entusiasmou-se subitamente:

- Claro! É por isso que a Evolução dispara nas situações de adversidade, porque são aquelas que tornam todos os seres menos aptos, e é essa situação de um ser se sentir pouco apto que força a evolução!

- Exacto. E não só. Quando as espécies estão muito otimizadas para um nicho ecológico, qualquer alteração tem consequências negativas e não há mais evolução. Uma forma de impedir a evolução da sociedade humana é através da discriminação acentuada das diferenças, o que torna os efeitos de qualquer modificação excessivamente negativos e bloqueia o processo evolutivo da sociedade. Alguma adversidade é bom mas não pode ser tal que torne demasiado perigoso para um ser ter alguma mutação. É por isso que as águias só têm um descendente por ninhada.

- O quê? Como é isso?

-Vamos então ao Darwin. Um peixe fêmea pode pôr um milhão de ovos mas só alguns sobrevivem; para o Darwin, os sobreviventes teriam sido “selecionados” mas não é verdade, tiveram apenas “sorte”. Os grandes predadores, ao contrário, geram pouquíssimas crias porque a sobrevivência delas depende muito menos do acaso, da sorte. O número de descendentes parece depender essencialmente da necessidade de fazer face às mortes por acaso (doença, acidente, predadores) de forma a manter a espécie a reproduzir-se. As águias apenas geram um descendente por ano, apesar de porem 2 a 3 ovos, consoante as espécies; mas se nasce mais de uma cria (os ovos caem do ninho, há predadores, nem todos eclodem), então, ou uma das crias assim que nasce atira a outra fora do ninho ou os pais alimentam apenas a primeira nascer; ora se a evolução dependesse de um processo H+S, como proposto pelo Darwin, as águias teriam muitos descendentes, que sobreviveriam até à maturidade, e só aí seriam sujeitos a uma qualquer “seleção natural”. Num processo H+S+R, ao contrário, não é o número de descendentes que mais importa – o que importa é que eles se reproduzam e que a população esteja em equilíbrio com o meio para que a adversidade não seja excessiva.

- Então aquela ideia de que as espécies se reproduzem em grande quantidade para que a Seleção Natural faça a sua escolha não está certa?

- Evidentemente que não; a taxa de reprodução parece ser a adequada a assegurar a manutenção da espécie em equilíbrio com o seu meio e fazer face às suas variações, apenas isso; o milhão de ovos dos peixes ou o descendente único das águias conduzem apenas a isso, nada têm a ver com a evolução. Se tivessem, os peixes estariam em evolução aceleradíssima...

-Estou a ver... mas como encontram as espécies esse equilíbrio reprodutivo?

- Penso que o ponto de equilíbrio é quando a principal causa de morte passa a ser o conflito entre os indivíduos da mesma espécie. Ou seja, aquilo que segundo as ideias correntes seria desejável para promover a seleção é exactamente o ponto de alarme da reprodução. Mas agora chamo-te a atenção para outra coisa muito interessante, a raiz da solidariedade.

- A raiz da solidariedade? Que queres dizer com isso?

- A Evolução depende da sobrevivência dos menos aptos; portanto, podemos esperar instintos que velem por isso, tal como temos o instinto maternal para velar pela sobrevivência das crias. Neste caso, temos a solidariedade e a compaixão. A compaixão funciona a nível individual mas quando os seres se organizam em sociedades, a compaixão torna-se solidariedade, um instinto social. A chave da evolução, seja dos seres vivos ou da sociedade, é a Solidariedade, não é a Seleção. E esta, hem?

- Páaa... com essa impressionaste-me... estás a recuperar o conhecimento dos antigos; afinal, é isso que dizem os livros religiosos... compaixão, solidariedade... estás a falar do Amor nas suas várias formas... estás a dizer que a chave da Evolução é o Amor! O Hans estava entusiasmadíssimo com a sua descoberta.

- Olha, bem visto, não tinha pensado nisso... sim, podemos pôr as coisas nesses termos, o Amor pelos outros é o instinto que suporta a evolução da Vida... bem visto...

- Beeemm, já estou a imaginar umas conversas que vou ter com uns amigos que são grandes entusiastas de Darwin... vão passar-se com essa ideia! O Hans parecia-me já um pouco alegre demais, seria das cervejas? Achei por bem esfriá-lo um pouco:

- Nota que o Darwin não disse asneiras; ele nunca falou da “sobrevivência dos mais aptos”, essa frase nem é dele. O Darwin foi muito mais brilhante do que isso.

(continua)

quinta-feira, março 07, 2013

A Importância da "Caixa Negra"



(continuado)

(aqui se fala do que é o Bem e o Mal, do nível 2 de Inteligência e da importância de aprender com os erros)


Caixa negra do avião que caiu ao largo do Brasil; a sua recuperação era essencial para análise do erro, que é essencial ao processo de Inteligência que promove a Evolução em tecnologia.


- Ena, que ambicioso... terminar o reinado de ideias que minam a sociedade... substituir pelas ideias que geram a evolução... livra!!!

- Na verdade, não estou a inventar nada, como verás; mas é interessante o que tenho para dizer porque cheguei à conclusão de que aquilo que definimos como o “Bem” será afinal essencial ao processo evolutivo e é exatamente por isso que é o “Bem”. A Evolução é o comportamento dominante do Universo, o Universo tem pressa de evoluir, e tudo o que se lhe opõe surge como um Mal e tudo o que a favorece como um Bem.

O Hans deu um solavanco na cadeira. Entre o espanto e a descrença exclamou: - O “Bem” é aquilo que serve a Evolução? É essa a razão de classificarmos uma acção como boa ou má? Encontraste uma razão objetiva para o Bem e para o Mal? Tens de me explicar isso muito devagarinho... – concluiu, com ar cético.

-Já vais perceber. Como estarás de acordo, Evolução exige Inteligência e entender a Evolução implica entender os processos de Inteligência; este é o busílis de toda a questão, encontrar um processo de Inteligência natural que seja capaz de gerar a Evolução até ao Humano e mais além.

- “Encontrar um processo de Inteligência natural que seja capaz de gerar a Evolução...” interessante maneira de colocar a questão da Evolução... embora ainda me faça alguma confusão o teu conceito de Inteligência como um processo natural...

- Pois... é um passo que tens de dar... essencial! Vê os meus posts mais antigos sobre "Inteligência", talvez ajude.

- Ok ok, mas continua; que processo de Inteligência natural é esse?

 - Já conheces o processo H+S, que eu chamaria um processo de nível 1; já mostrei que esse processo só funciona em situações especiais, que é o melhor processo para gerar a Vida mas que qualquer análise racional conclui fatalmente que não pode explicar a evolução dos animais, pensar que sim é uma mera crença. Nota que isso não questiona a evolução da Vida; significa que o processo de Inteligência responsável por ela é mais sofisticado que o H+S, apenas isso. Precisamos de descobrir esse processo.

- Bem, até posso concordar contigo; se existir um processo natural mais sofisticado, será ele o responsável pela evolução... mas que processo é esse?

- Olha, nem precisamos de procurar longe, está mesmo atrás do nosso nariz...

- Atrás do... na cabeça?

 - Isso mesmo. É o processo utilizado pelo cérebro quando queremos resolver um problema novo. Evidentemente que não o fazemos gerando hipóteses ao acaso até encontrarmos uma que o resolve, não é?

- Sim, nunca mais lá chegávamos... a não ser em casos especiais... usamos a lógica, mas não estou a ver que isso possa ser um processo usado na Evolução.

 - Não é bem assim. Ou melhor, não é nada assim, a lógica, a dedução, são coisas que usamos à posteriori para organizar o conhecimento mas não são o processo de descoberta. A descoberta faz-se através daquilo que muitos chamam Intuição. O Poincaré explicou bem isso, e a generalidade dos “descobridores” referiu que as suas descobertas vinham da Intuição e não da Dedução.

-Intuição? Sexto sentido? Isso é um processo de Inteligência?

- Funciona assim: primeiro, nas profundezas do nosso cérebro, a nível do inconsciente, é gerada uma hipótese de solução, por um processo H+S. A Geração da hipóteses é feita por um processo parcialmente aleatório e parcialmente associativo. A Seleção da hipótese a este nível inconsciente é feita pela sua compatibilidade com uma série de conhecimentos que o nosso inconsciente admite como verdadeiros. Uma vez selecionada, neste nível inconsciente, a hipótese é colocada no consciente. Dizemos então que tivemos uma Ideia; atribuímos essa ideia a uma “inspiração”, ou à intuição.

- Bem, é uma teoria sobre a geração de ideias... há outras, há quem diga que são inspiração divina, ou que vêm de um repositório de ideias... mas a tua parece-me melhor – o Hans sublinhou com uma risada curta – e explica o facto de elas surgirem como por magia, vêm simplesmente de um nível inconsciente.

- Não penses que esta é a única origem das nossas ideias... – deixei um arzinho de mistério - ... mas é a que usa o processo de Inteligência que nos interessa. Bem, continuando, a seguir a termos uma ideia vamos testá-la, de forma consciente, ver se ela “funciona”. Se sim, problema resolvido. Porém, em problemas novos, raramente é o caso. O resultado do teste fica a ser um novo conhecimento nosso e um novo processo H+S é realizado então pelo inconsciente e uma nova ideia é presente ao consciente. E assim sucessivamente até alcançarmos a solução do problema. Há aqui uma sequência de dois processos: o H+S, que gera uma Ideia, é realizado pelo inconsciente; a experimentação da Ideia e análise do resultado, pelo consciente.

- Bem, isso será um método... mas não estou a ver que na generalidade dos casos seja assim...

- Isso é porque raramente temos de resolver problemas novos, apenas aplicamos aos problemas soluções já conhecidas. O nosso cérebro funciona quase sempre no modo “motor de busca”: a cada problema vai à memória buscar a solução que lá está. Dependemos da Aprendizagem. Mas como resolvemos assim problemas, temos uma ilusão de Inteligência; só quando enfrentamos um problema cuja solução não está em memória e não temos onde a ir buscar, temos mesmo de a construir, aí é que temos de recorrer a um processo de Inteligência; e esse processo é o que acabo de te descrever.

- Então e o conhecimento científico? O Einstein, o Newton, apresentaram um trabalho baseado na dedução… o Newton até disse que não fazia hipóteses…

- Claro. A dedução é o cimento do nosso conhecimento. Só que é feita à posteriori. O Newton, ou o Einstein, primeiro tiveram a Ideia, aliás, muitas ideias, uma sequência até chegarem à ideia certa, e depois realizaram um trabalho dedutivo para construir a teoria suportada por essa Ideia. Não vou agora alongar-me sobre o assunto, escrevi um texto sobre ele, depois lês quando for publicado. – ri-me, naturalmente, o projecto da coletânea a que o meu texto pertence ainda está um bocado verde. Sério, o Hans respondeu simplesmente:

-OK OK, por agora aceito que seja assim; em resumo, tu consideras que o processo de inteligência responsável pela Evolução é um processo H+S+Experimentação, é isso?

- Bem, é mais ou menos; esse é o processo que chamo de 2º nível, ainda há o de 3º nível, mas lá iremos. Para já, repara num aspecto importante do processo de nível 2: o resultado da experimentação da Ideia é fundamental para a geração da segunda Ideia. Para a primeira Ideia, o Inconsciente gera hipóteses algo às cegas, vai buscar relações de semelhança, ou oposição, ou outras, com as características do problema; para a segunda Ideia, ele já vai fazer uma procura em zonas de conhecimento mais definidas, graças à análise do teste da primeira. É esta realimentação que pode permitir encontrar a solução de problemas no caso geral. Ela é essencial ao processo, se faltar ficamos reduzidos ao processo H+S, apenas complementamos a seleção inconsciente com outra consciente mas não passamos de um processo de nível 1. Eu chamo a este processo de 2º nível H+S+Reação porque o que é verdadeiramente relevante para ele é o resultado da experimentação, a análise do erro.

 - Estou a compreender; no fundo, é o que chamamos “aprender com os erros”; quem não aprende com os erros nunca acerta... tem apenas inteligência de nível 1... e é mesmo assim que fazemos na inovação tecnológica, as experiências falhadas são objecto de cuidada análise porque é ela que vai definir o caminho a seguir... O cerne da investigação em tecnologia é a análise do que corre mal... Olha, vê o que gastaram para recuperar as caixas negras do avião que caiu ao largo do Brasil, uma operação que parecia impossível...

 - Bom exemplo! Claro, isso mostra bem a importância crucial de analisar as causas do erro, não se pouparam a esforços nem a custos para recuperar as ditas caixas. A evolução tecnológica assenta em duas coisas: a análise exaustiva dos erros e a capacidade de gerar hipóteses livres de presunções.

 - Sim, sem dúvida que é esse processo o responsável pela evolução tecnológica, que é a mais relevante evolução da humanidade nos último milénios, mas tem por detrás a inteligência humana; como é que passas daí para a Evolução da Vida sem meteres uma inteligência exterior, um Criador?

(continua)

domingo, maio 30, 2010

Conheces as tuas Personalidades?


Neo visita o Oráculo que lhe mostra a frase que estaria no templo de Delfos «Conhece-te a ti mesmo»; que tem uma coisa a ver com a outra?


Neste nosso mundo tão globalizado, as pessoas cada vez aparentam mais o mesmo comportamento, seguem o estereótipo em vigor porque nós somos «macaquinhos de imitação»; não é um defeito, é uma característica que ajuda a nossa socialização.

Há apenas umas décadas não havia estereótipos globais: cada pessoa tinha uma personalidade tão própria e característica como os seus traços anatómicos. As idiossincrasias de cada um eram um inesgotável tema de conversa. Havia um certo «culto da personalidade», daquilo que tornava única cada pessoa. Hoje, isso é quase considerado reprovável. Hoje, mesmo as fisionomias se assemelham muito mais, também estas se deixam moldar pelos estereótipos que nos envolvem.

Mas, por baixo desta aparente uniformidade, na nossa profundidade inconsciente, múltiplas personalidades espreitam a ocasião de se afirmarem.

No nosso estado «normal», em que os estímulos externos são de muito baixa intensidade, o Consciente controla o nosso comportamento, e exibimos a personalidade que tão bem conhecemos.

Porém, por debaixo desta tranquilidade, o nosso Inconsciente vigia.

Suponhamos que surge uma situação que nos ameaça – logo o nosso Inconsciente diz ao Consciente «chega para lá» e assume ele o controlo das operações. Instala-se uma nova personalidade. No nosso Inconsciente há um conjunto diferenciado de programas de comportamento, cada um supostamente adequado a um tipo de situação.

Isto é muito claro nas espécies animais, sendo estudado os «deflagradores», isto é, os estímulos que fazem surgir esta ou aquela personalidade – por exemplo, um papagaio de papel com um desenho em cruz com determinadas proporções deflagra o estado de pânico nas galinhas porque dispara o «alarme de falcão». É útil conhecer os deflagradores que fazem os cães atacar... ou fugir. A «dança nupcial» é o deflagrador da sexualidade da fêmea. O comportamento animal é um conjunto de personalidades e para cada situação o cérebro escolhe uma. E em nós acontece mais ou menos o mesmo.

Todos já ouvimos falar de pessoas que têm «mau álcool». O que se passa nestas pessoas é que determinado nível de álcool faz deflagrar uma personalidade violenta. Uma vez deflagrada, o controlo do comportamento é totalmente do Inconsciente. Aqui a deflagração não é uma decisão do Inconsciente, as drogas também podem deflagrar personalidades; mas não é o caso geral.

Há casos extremos fáceis de identificar. Por exemplo, quem vai para a guerra, vai para matar. A sua sobrevivência depende de ser capaz de não hesitar nesses momentos. Se hesitar, morre. Mas no estado «normal» uma pessoa não mata. Então, surge uma personalidade diferente da normal e mais apropriada à situação. Por isso, quem está em guerra realiza barbaridades inconcebíveis no seu estado normal. Barbaridades que não agridem a sua «consciência», pelo contrário. E, como são «normais» nessa personalidade de guerra, nem sequer deixam, muitas vezes, rasto na memória, da mesma maneira de que não nos lembramos do que almoçamos ontem – o que não é relevante não é transformado em memória permanente. Quando uma pessoa regressa da guerra, volta à personalidade «normal» e tudo o que se passou enquanto foi «guerreiro» muitas vezes não deixou traço mais forte do que uma leve névoa na sua memória, como a recordação de um sonho. São as memórias de uma outra pessoa, uma outra personalidade, uma outra vida. Os que regressam psicologicamente traumatizados são os que não aceitaram a deflagração da personalidade de guerreiro.

Porque há tanta confusão num caso de partilhas? Porque nos diversos interessados há uma personalidade que é deflagrada; essa personalidade trata todos os outros como inimigos, e interpreta toda a informação de acordo com esta «verdade» que assumiu.

Os casos extremos são os que envolvem a sobrevivência, a propriedade, a sexualidade, a reprodução; mas as nossas personalidades aparecem em múltiplas situações, mesmo as mais banais; na verdade, em todas as que haja interacção com o exterior – basta estarmos em sociedade para alguma personalidade deflagrar, e esta personalidade depende da situação, das pessoas com quem estamos e até do assunto de conversa; no emprego temos outra personalidade, a guiar temos outra, etc. – para cada situação a sua personalidade.

As regras sociais são estabelecidas para evitar o deflagrar das personalidades potencialmente mais agressivas – a roupa para evitar o deflagrar da sexualidade, embora a moda exista para roçar o limiar desta deflagração, as regras de conversa social para impedir que se aborde temas que deflagrantes, o próprio tom e estilo estudados para esse fim – ou para o oposto, no caso dos discursos políticos ou que visem a manipulação dos ouvintes.

Como nas personalidades deflagradas o controlo pela Razão está diminuído, cometemos erros; para evitar isso, vamos aprendendo a não deixar deflagrar essas personalidades.

Antigamente a interacção com os outros era mais intensa e diversificada, as diferentes personalidades eram constantemente deflagradas, a pessoa ganhava mais consciência delas e aprendia a incorporá-las no seu dia-a-dia; hoje as pessoas vivem em situações muito mais controladas, o estímulo deflagrador é menos diversificado e mais fraco, não se ganha conhecimento delas; e assim, quando um estímulo mais forte deflagra alguma personalidade, não temos a mínima capacidade de a controlar, e fazemos asneiras porque estas personalidades foram construídas para responder a situações do passado.
Em vez de aprendermos a lidar com estas personalidades, ficamos assustados, aprendemos apenas a ter medo delas e a evitá-las. E isso é muito perigoso porque elas acabam sempre por deflagrar nesta ou naquela situação e não temos controlo nenhum delas porque não adquirimos experiência.

Esta capacidade de não deflagração também tem inconvenientes porque essas diferentes personalidades despoletam capacidades essenciais. Em parte é por isso que se passou a falar de «inteligência emocional».

Usar as personalidades é um sinal de sabedoria. «Há tanta ciência em ser ajudante como em ser mestre»: para se ser um bom ajudante, é preciso adoptar a personalidade correcta, a personalidade de ajudante. Um adulto tem dificuldades de aprendizagem muitas vezes simplesmente porque perdeu a capacidade de deflagrar a personalidade de aluno – e sem se assumir esta personalidade não se consegue aprender porque as rotinas necessárias não ficam activas. Um professor universitário está suposto ser também um descobridor, alguém que aumenta os conhecimentos que aprendeu; mas se não souber deflagrar a personalidade de descobridor nunca saberá mais do que aquilo que lhe ensinaram e neste mundo em mudança isso pode ser conhecimento ultrapassado, logo errado – uma das razões da actual crise económica é que muitos economistas continuam presos às teorias que aprenderam e que já não se aplicam.

Não seria bom sabermos activar racionalmente a personalidade que se adequa a cada situação, subordinar o Inconsciente ao Consciente nessa decisão, modular cada personalidade aproveitando as suas capacidades? Parece-me que sim; mas, para isso precisamos de compreender como funciona este processo na nossa mente. Precisamos de um Modelo. Vamos então à procura dele.

segunda-feira, abril 19, 2010

A Origem do Sexo

Quando começámos a nossa busca sobre o que seja Inteligência, vimos que o processo mais elementar é  «Acaso+Selecção», ou «A+S».

Qualquer processo mais sofisticado de Inteligência exige capacidades novas, nomeadamente a «Aquisição de Informação» e a «Comunicação». Comunicação que serve para transporte e troca dessa Informação. Por agora interessa-nos a Comunicação.

Sabemos como a capacidade de comunicação entre os humanos está indissociavelmente ligada ao nível de complexidade que a sociedade humana pode atingir. A Fala permite apenas sociedades do tipo tribal; a Escrita, mesmo rudimentar, veio permitir as primeiras grandes civilizações; depois, a invenção de Gutenberg permitiu-nos sair da Idade Média; os Media permitiram a sociedade global; a Internet está a permitir um novo nível de desenvolvimento.

Vemos assim que a capacidade de comunicação está associada a um nível de Inteligência. Por outro lado, quanto mais evoluída uma organização, maior nível de Inteligência exige para poder funcionar. Portanto, uma sociedade que dispõe de uma certa capacidade de comunicação poderá dispor de um certo nível de Inteligência; se este é superior ao necessário para o estado de desenvolvimento da sociedade, esta evoluirá até que atinja o grau de desenvolvimento correspondente à Inteligência de que dispõe; aí ficará estagnada. Isto pressupondo que outros factores necessários ao processo de Inteligência não escasseiam, como a Energia.

Percebem como coisas como a banda larga, o e-escolas, o Magalhães, a informatização dos serviços públicos são essenciais? Isso é determinante da sociedade que poderemos ser.

Temos uma percepção clara destas formas de comunicação racional que usamos no dia-a-dia, mas ignoramos quase tudo quer sobre as formas de Comunicação dos outros seres vivos, quer sobre as de Aquisição de Informação (por exemplo, não conhecemos como se orientam os animais, da formiga ao pombo correio). E nem falo da simples transmissão de Vontade (vulgo transmissão de pensamento). E, como ignoramos, não temos percepção da sua complexidade.

Reparemos nas formigas, por exemplo. São cegas, é claro, de quase nada lhes serviria a visão no seu mundo; no entanto têm uma complexa sociedade só possível graças a um complexo sistema de comunicação.

Mas muito mais complexos são os animais eles mesmos. Naturalmente que devemos esperar que a comunicação entre células seja altamente sofisticada para suportar o elevado nível de Inteligência necessário à existência de um ser vivo. A descoberta das comunicações celulares no nosso organismo ainda está no princípio e já é um oceano de complexidade. Repare-se apenas na precisão micrométrica com que as células conhecem a sua localização no organismo.

Temos de descer a formas mais elementares de Vida à procura de processos de comunicação que possamos entender: vamos às bactérias.

Em 1946 Joshua Lederberg, um homem notável, descobriu uma incrível forma das bactérias comunicarem. Ganhou um Nobel por isso. Sabem como é? Nem vão acreditar. Reparem na figura:



 Schematic drawing of bacterial conjugation. Conjugation diagram1- Donor cell produces pilus. 2- Pilus attaches to recipient cell, brings the two cells together. 3- The mobile plasmid is nicked and a single strand of DNA is then transferred to the recipient cell. 4- Both cells recircularize their plasmids, synthesize second strands, and reproduce pili; both cells are now viable donors
 (Fonte: wikipedia)

Os vossos olhos não vos estão a enganar: as bactérias usam mesmo um Pilus para transferirem informação de umas para as outras! É desta forma, conhecida como «conjugação», que elas difundem rapidamente soluções para enfrentar problemas ambientais, como antibióticos.

É claro que isto é um processo que implica um nível de Inteligência elevado – não se trata de transmissão de informação ao Acaso, mas de informação relevante, da qual resultam alterações de estrutura e funcionamento da bactéria. Também revela um comportamento social das bactérias. Não é um comportamento do qual resulte uma vantagem imediata para a bactéria que tem o Pilus, pelo contrário, ela transmite às outras uma vantagem sua. Não pode ser explicado de forma simples.

Para quem conhece um mínimo sobre o funcionamento da célula, isto não é particularmente surpreendente: os processos que decorrem no seu interior são tão sofisticados como este. Mas esta é uma evidência da existência de processos Inteligentes e não «egoístas» a nível das bactérias que não é escamoteável e é particularmente chocante para muitas pessoas. Por alguma razão, algo que é conhecido desde 1946 continua fora dos manuais escolares.

Este processo de troca de informação através do Pilus é uma espécie de internet do mundo bacteriano.

Como é evidente, este sistema de troca de informação não pode funcionar assim entre os metazoários, os seres vivos multicelulares diferenciados. A informação que as bactérias trocam permite-lhes modificarem-se para se adaptarem às condições do meio; os metazoários são estruturas demasiado complexas para se poderem modificar desta maneira. Então, a solução é a formação de um novo indivíduo que incorpora a nova informação. Logo, a troca de informação genética entre metazoários tem de resultar na formação de um novo indivíduo!

Como vêm, esta «conjugação» entre bactérias está na origem do sexo nos metazoários. O Pénis é mesmo a evolução do Pilus, embora seja comum afirmar que nada há de comum entre os dois, cruz credo que horror! O Sexo não existe por causa da Reprodução, que pode ser feita sem sexo, mas para transmitir informação sobre adaptação ao mundo exterior. Para transmitir experiência de vida. E isto, por outro lado, implica também a morte dos progenitores, para que estes sejam substituídos pelo novo ser produzido de acordo com a informação recolhida. Ou seja, o equivalente à «conjugação» das bactérias é a reprodução sexuada seguida da morte dos progenitores nos metazoários. Morte esta que é geralmente (nem sempre) imediata à postura dos ovos nas espécies inferiores mas deixa de o ser em espécies mais evoluídas pela necessidade dos progenitores cuidarem das crias. E se prolonga ainda mais na nossa espécie porque precisamos de mais tempo para transmitir informação não codificada geneticamente.

O sexo e a sucessão de gerações são inerentes ao processo de transmissão de informação / acumulação de conhecimento entre os metazoários. São processos necessários à Vida, não ao indivíduo. A nossa noção de individualidade alimenta-se da nossa fraca percepção da Vida como um todo de que fazemos tanto parte como cada célula do nosso corpo faz parte de nós. 

segunda-feira, março 15, 2010

Evo-Devo


A cropped version of the single illustration (full version) in Charles Darwin's 1859 book On the Origin of Species showing the left part of the diagram, as it appears in Daniel Dennett's book Darwin's Dangerous Idea (da wikipedia)



Evo-devo, ou Biologia Evolutiva do Desenvolvimento, é uma nova corrente de investigação da evolução que procura ultrapassar as limitações da teoria de Darwin. Um texto que achei interessante e acessível sobre o assunto foi publicado aqui (The Scientist); transcrevo uma «caixa» desse artigo:

You’re not only what you eat, but what your parents ate, and potentially what your grandparents ate.” — Randy Jirtle

A teoria de Darwin adapta-se bem à evolução nas espécies mais primitivas mas não às mais avançadas; recordemos os 4 postulados de Darwin (consoante a fonte, assim os postulados de Darwin; escolhi estes de fonte para mim a mais fidedigna, a tese de doutoramento do Rodrigo; tradução livre do original em inglês):

1-     as características (fenótipo) individuais são variáveis de indivíduo para indivíduo
2-     em cada geração são produzidos mais descendentes do que os que podem sobreviver
3-     a sobrevivência e reprodução dos indivíduos não é aleatória
4-     uma parte do fenótipo individual é passado à descendência

Como é evidente, a eficiência deste processo depende da taxa de reprodução e da taxa de mortalidade dos descendentes; nas espécies superiores, elas são baixas, e o número de descendentes não só é reduzido como existem mesmo mecanismos comportamentais de autolimitação do seu número.
Por outro lado, parece óbvio que se existe um processo evolutivo, esse mesmo processo terá gerado processos mais evoluídos de evolução – necessariamente que a Evolução terá evoluído. A Evo-Devo é, no fundo, a pesquisa desses processos mais evoluídos de evolução que actuam ao nível das espécies superiores.

Nada disto é novidade para os leitores deste blogue - é mesmo por isso que a refiro, para mostrar que há mais quem se abalance para além de teorias Darwinistas básicas e Criacionistas. Como se lembrarão, desenvolvemos um conceito lato de Inteligência, que não se reduz à biologia; compreendemos que o processo elementar de Inteligência, que designamos por «A+S», satisfaz os postulados de Darwin; que há processos mais sofisticados de Inteligência; que os próprios postulados de Darwin não excluem esses processos ao nível da geração da variedade dos fenótipos. Na verdade, nem sequer excluem uma intervenção divina: como são geradas as variantes do fenótipo? Só conseguimos conceber três maneiras possíveis: ou por mecanismos de acaso puro, ou em função duma experiência de vida (por feedback e acaso, portanto) ou por intervenção exterior (divina, extraterrestre, o que for). Pensar que podem ser erros de cópia genética nas espécies superiores é um disparate, o acaso puro tem de ser excluído; e com ele fica excluída também a Selecção Natural como mecanismo dominante do processo evolutivo nas espécies superiores.

Um caso relatado nesse artigo do The Scientist é o seguinte:

In one recent experiment, two groups of genetically identical Arabidopsis plants were exposed to either hot or cold conditions for two (P and F1) generations. The next generation (F2) from both experimental groups was grown at normal temperatures, but the offspring (F3) from both groups were grown in either hot or cold conditions. The F3 plants that were grown in hot conditions and descended from P and F1 plants also grown in hot conditions produced five times more seeds than did the F3 plants grown in hot conditions but descended from cold-treated ancestors. Because the chance of accumulating mutations within just two generations that led the heat-conditioned plants to thrive in hotter conditions was essentially nil, the authors conclude that inherited epigenetic factors affecting flower production and early-stage seed survival in those plants had to be at play. (C.A. Whittle et al., “Adaptive epigenetic memory of ancestral temperature regime in Arabidopsis thaliana,”Botany, 87:650–57, 2009).

Isto é entendido como uma evidência de evolução sem intervenção da Selecção e com transmissão de «experiência de vida», duas coisas contrárias à teoria de Darwin. Na verdade, não podemos classificar isto como evolução. Vejamos melhor.

Os avós da generalidade dos nossos intelectuais eram trabalhadores rurais, ou operários, ou pescadores; em duas gerações, muitos descendentes de pessoas preparadas para uma vida fisicamente dura tornaram-se intelectuais da mais fina água. Isto não foi evolução, não houve tempo para isso, as capacidades dos intelectuais de hoje já existiam potencialmente nos seus avós rurais. Tal como as capacidades dos intelectuais de hoje existem potencialmente nos rurais de hoje. Não há aqui qualquer evolução, como não o há no caso da Arabidopsis; como também não o há no caso das borboletas que nascem com a cor que mais se adapta ao meio. O que há é a evidência duma estratégia sofisticada de adaptação ao meio. E sistemática – é a partir da experiência infantil de vida que se definem os parâmetros que permitirão à forma humana adulta surgir adaptada ao meio que conheceu em criança. Duma maneira ou doutra, todos os seres vivos de complexidade média/alta assumem a forma adulta que mais se adapta à experiência de vida da geração anterior ou de um estadio prévio ao estado adulto.

Como é isto possível? Como é que o mesmo código genético, ou quase, tanto pode gerar um rural como um intelectual? Uma larva ou uma borboleta? Como é que animais de espécies diferentes têm códigos genéticos com diferenças mínimas? O que determina essas escolhas?

A resposta a estas questões abre o caminho para compreendermos um importante mecanismo da Evolução.Mas antes de falarmos disso há que percebermos porque é que compreendermos a Evolução é importante.


A importância de compreendermos a Evolução


A Evolução parece ser algo que apenas pode interessar a um estrito grupo de biólogos; nada mais errado. A evolução não é um processo específico da biologia, todo o Universo evolui, todos os sistemas físicos, biológicos e sociais. Ora é esta a importância da questão para toda a gente: a evolução da Sociedade. A capacidade de uma sociedade evoluir depende das suas regras. Notem que não depende de ser «organizada» - a sociedade das formigas está organizadíssima e não evolui. Ao longo da História, as sociedades humanas surgem, evoluem e depois estagnam durante séculos ou milénios, até que uma outra sociedade surja, noutra parte do globo, e vá interferir. A sociedade portuguesa estagnou há quase 5 séculos, não é verdade? Há quase 5 séculos que não evoluímos, somos simplesmente arrastados no processo evolutivo de outros. Em Biologia passa-se o mesmo: novas espécies surgem, têm um período rápido de evolução e, depois, estagnam – as tartarugas de hoje são como as de há muitos milhões de anos e como as do futuro enquanto não se extinguirem.

Não é trivial perceber os motores da evolução da sociedade humana. Mas nada é mais importante do que isso porque o primeiro objectivo da sociedade humana é… Evoluir! Não é a Igualdade, a Justiça, a Felicidade, a Segurança, a geração de Riqueza; é, simplesmente, a Evolução. E a Evolução é muito mais do que a Economia, ou o Direito, ou as Ciências Sociais ou a Gestão. É algo que ainda não se ensina nas universidades.

É por isso que as teorias sobre Evolução têm tido grande impacto em ideias orientadoras da sociedade. O Darwin não tem culpa nenhuma, mas o facto é que a interpretação das suas ideias reforçou o racismo, a Eugenia e foi suporte das duas guerras mundiais. A Eugenia, de que já falámos aqui, é assunto convenientemente branqueado, mas é tão dramático como as perseguições religiosas e a Inquisição. Ou pior.

A Evolução das espécies é portanto um campo privilegiado de estudo para podermos compreender a evolução da nossa própria sociedade. Para sabermos o que fazer para evoluirmos.

Ao falarmos de Evolução estamos, pois, a falar de Política.

domingo, outubro 25, 2009

Subtil, Simplório, Enviesado... e Caim


Ando há algum tempo para falar sobre o que é um raciocínio simplório, subtil ou enviesado e vai ser agora; a análise da Evolução continua no próximo post, onde veremos um facto importante que não entra na actual teoria da Evolução mas que é crucial. O tema deste post é importante porque nos ajuda a saber raciocinar melhor.

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Consideremos um jogador de xadrez. Face a uma disposição de peças no tabuleiro, logo uma hipótese de jogada lhe ocorre. Essa é a hipótese simplória. Se for um jogador principiante, faz essa jogada. Se não for, vai analisar as consequências. E vai testar outras jogadas. Até chegar a uma decisão. Essa é a hipótese subtil, porque já não resulta do que está directamente à vista.

Como sabem, ganha no xadrez o jogador que for capaz de perspectivar mais longe a jogada. Ou seja, o que for mais «subtil». A hipótese «simplória» é quase sempre errada, no entanto, é a que parece «lógica» a um espectador que só tenha conhecimentos superficiais de xadrez.

O Einstein disse que a diferença entre ele e os outros físicos é a de que ele pensava mais longamente nos assuntos; logo, era mais subtil; e frisou a importância do pensamento subtil numa frase famosa, a de que Deus é subtil mas não malicioso.

No entanto, não foi entendido, foi até escarnecido; porquê?

Porque nós não fazemos nem raciocínios subtis nem simplórios; nós fazemos raciocínios enviesados.

O nosso Inconsciente, com base nas informações que ele aceita como «verdade» e nos seus próprios critérios, de raiz instintiva, forma uma opinião sobre um assunto, atinge uma conclusão; em seguida o nosso consciente é mobilizado para provar que essa conclusão está certa. Os nossos raciocínios não servem um processo de descoberta mas um processo de demonstração de uma ideia, opinião, conclusão, certeza, estabelecida anteriormente a um nível inconsciente. Os nossos raciocínios são, portanto, enviesados, visam provar algo que já foi definido a priori.

A justiça utiliza isto como metodologia para fazer um julgamento na sua estrutura de defesa/acusação/juiz, onde tanto a defesa como a acusação devem fazer uma argumentação enviesada para o seu lado. É uma metodologia que funciona na fase de julgamento. Porém, já a Polícia não pode funcionar com base na mesma metodologia, o investigador policial tem de fugir dos raciocínios enviesados ou dificilmente desvendará algum crime.

Também em Ciência este problema se põe com enorme acuidade. Como fugir aos raciocínios enviesados?

A melhor maneira é a pessoa ter consciência disto e dos factores de enviesamento dos seus raciocínios; mas isso é difícil e subjectivo, é conveniente uma metodologia que dê alguma garantia de protecção contra os raciocínios enviesados. Então, a Ciência adoptou como resposta a este problema o raciocínio simplório, ou seja, constrói os seus modelos de realidade directamente sobre os resultados das observações. É assim a teoria Atómica, do Big Bang, da Relatividade, Electromagnética e de Ptolomeu. A excepção é a de Newton, que resulta de raciocínios subtis.

Isto é um progresso em relação a uma fase anterior, baseada em raciocínios enviesados, não é um retrocesso como poderão estar a pensar. O raciocínio simplório é menos mau que o enviesado. Claro que o «subtil» é melhor, mas ainda não demos esse salto a não ser pontualmente e é tão excepcional que classificamos de «génios» as pessoas que ultrapassam o que resulta directamente da observação.

Vou dar-vos exemplos. Ontem vi um documentário no Discovery Civilization, espanhol, que sustentava a ideia de que o Colombo seria um nobre espanhol, catalão. Apresentado como se fosse um estudo «científico», era assaz enviesado; por exemplo, a única referência a Portugal era a de que ele fora casado como uma nobre portuguesa e unicamente para provar que ele não poderia ser um plebeu genovês. Portugal nem aparecia num mapa várias vezes repetido, onde toda a península era Espanha. Pensarão: uns malandros os espanhóis! Na verdade, isto é o que fazem todos os povos nos seus documentários. E o que nós faríamos se fizéssemos um documentário sobre o Colombo. Por isso a importância que a generalidade de países dá à realização de documentários.

Um documentário «simplório» trataria todos os factos em pé de igualdade. Mas isso não é uma vantagem específica para quem paga o documentário, e tudo o que se faz está ao serviço dos interesses de quem paga.

O recente livro do Saramago, Caim, insere-se no processo oposto. O Saramago, segundo ele mesmo diz (eu não li), faz uma leitura «literal» do que está escrito na Bíblia. Este é o procedimento «simplório». Os crentes fazem uma leitura «enviesada», uma interpretação do que lá está escrito de acordo com a sua crença. O «Caim» do Saramago representará um progresso para quem quer chegar mais perto da verdade. O que não significa que a sua conclusão esteja certa – como disse, os raciocínios simplórios são frequentemente errados. Mas têm a vantagem de não obliterarem os factos.

Um exemplo duma interpretação subtil duma parábola bíblica é a que apresentei aqui, sobre a expulsão do paraíso.

Estes raciocínios enviesados que continuamente fazemos não são desonestos, o enviesamento é essencialmente inconsciente; mas há raciocínios conscientemente enviesados – são os dos vendedores, por exemplo, quando querem vender um produto, são os próprios raciocínios do charme social, de muitos políticos, das religiões, dos interesses económicos. Alguns são só um bocadinho desonestos, outros totalmente. Por exemplo, o de que o plano de reforma de saúde do Obama iria matar os reformados e deficientes, posto a correr pela poderosa indústria de saúde americana. Estes enviesamentos visam os medos e os anseios das pessoas para conseguirem fins escondidos.

Eu chamo a estes raciocínios manipulativos exo-enviesados. Os raciocínios exo-enviesados têm «asas», espalham-se como fogo em madeira seca. E são tão difíceis de combater como ele.

Bem, há muito mais para dizer, quer em relação às fontes de enviesamento, quer em relação à análise da validade dos raciocínios. Mas, para já, ficamos com esta interessante questão: percebermos porque é que as nossas ideias são as que são. Elas não são fruto da nossa racionalidade mas da nossa «irracionalidade», ou seja, um produto do inconsciente, um produto «afectivo». Os raciocínios em que as suportamos são elaborados a posteriori.

Temos de aprender a percepcionar o nosso enviesamento para conseguirmos uma melhor racionalidade. Quando conseguirmos olhar para os factos sem presunção ou crença, estamos aptos ao raciocínio «simplório»; e quando conseguirmos passar além do «simplório», como um jogador de xadrez experiente, depararemos com as múltiplas possibilidades que o raciocínio subtil nos abre. Mas há um preço a pagar: tempo!

sábado, agosto 29, 2009

Inteligência+Conhecimento=Vontade


Maravilhamo-nos com a complexidade e sofisticação da Vida e vemos nela a obra de um Criador; pois é isso que a experiência nos ensina, nada surge por acaso ao nosso redor. E sabemos quem criou tudo o que surge de novo: nós! Existe o automóvel? Nós o criamos. Temos casa? Nós a fizemos. Computadores? Nós o inventamos. Toda a obra que não é obra da Natureza é nossa obra. E se toda essa obra tem um criador, então a Vida, a Natureza, o Universo também o terão. Assim o diz o nosso complexo neuronal, este é o conhecimento que ele colheu do mundo.

Mas agora vamos usar a Razão.

A nossa obra resulta da nossa Inteligência e da nossa Vontade. Não é de um Criador que ela precisa, é duma Inteligência e de uma Vontade.

Certo, dirão, mas é o mesmo, a Inteligência e a Vontade são propriedades do criador de qualquer obra, não existem sem ele.

Isso é de facto o que observamos. Não conhecemos Inteligência ou Vontade fora de nós. E sentimos, que sentir é o pensar do Inconsciente, que esta nossa Inteligência e Vontade têm uma origem diferente de tudo o que observamos porque naquilo que observamos não encontramos nem uma coisa nem outra.

Mas a Razão alerta-nos: conhecemos muito pouco, não podemos tirar conclusões como se conhecêssemos tudo! Também Aristóteles concluiu que os objectos que brilham no Céu não podem ser feitos de matéria porque a matéria não pode arder indefinidamente.

Ao longo de vários posts fomos percebendo como a Inteligência pode resultar de processos naturais; percebendo que a nossa própria inteligência pode ser o resultado de processos naturais e não uma «centelha divina». O que não quer dizer que não exista essa «centelha divina», mas apenas que ela não é condição sine qua non para que exista Inteligência.

Sim, é certo, dirão alguns, podemos compreender que os processos naturais possam ter um desenvolvimento que resulte em estruturas mais complexas e organizadas, como se desenhadas por um «grande engenheiro», mas a progressão desses processos não é o resultado de nenhuma «vontade», é sempre a consequência necessária, determinística, única, do estado anterior.

Será?

O que é que resulta de um processo Inteligente? Uma estrutura mais sofisticada? Sim, é certo. Mas isso é, ao mesmo tempo, algo mais – é um Conhecimento.

Quando utilizamos a nossa inteligência para resolver um problema novo e o conseguimos, obtemos um Conhecimento. Não é a única forma de obter um conhecimento, podemos também «aprender». Ou seja, o Conhecimento pode ser transmitido. Mas antes disso tem sempre de ser criado. E é criado por Inteligência.

Temos então uma cadeia: um processo Inteligente produz um Conhecimento; depois, o processo Inteligente usa este Conhecimento para produzir mais Conhecimento; e assim sucessivamente, formas cada vez mais poderosas do par Inteligência-Conhecimento se vão desenvolvendo.

E a Vontade? Donde vem a nossa Vontade?

A nossa Inteligência e o nosso Conhecimento analisam as informações que recolhem e, em face de um critério de selecção definido, resolvem o problema de saber qual a actuação que devemos ter para cumprir esse critério. As instruções fornecidas então ao nosso organismo para cumprimento dessa actuação constituem o que identificamos como «Vontade».

Sem dúvida que a nossa Vontade é um produto da nossa Inteligência e Conhecimento. Conhecimento que pode ter sido adquirido por nós, herdado geneticamente ou até, sabe-se lá, captado por algum receptor que tenhamos na cabeça.

Mas a Vontade não é um exclusivo nosso. Qualquer ser vivo exibe Vontade. A diferença entre nós e os seres vivos mais elementares está em que nós podemos ter Consciência desse processo. Mas uma simples e descerebrada estrela-do-mar tem Vontade como nós, uma Vontade que actua para que ela viva e se reproduza.

Então, se já vimos que a Inteligência resulta de processos naturais, sendo abundante na natureza, e se percebemos que à Inteligência vem sempre Conhecimento associado, temos de concluir que também a Vontade é um processo natural, porque onde há Inteligência há Conhecimento e, logo, Vontade!

A conclusão, portanto, é que há Vontade a actuar sobre os processos naturais. Não sei como, ainda mal percebo os processos Inteligentes, pior ainda os processos de Conhecimento, mas percebo que existe uma cadeia inexorável a ligar as três coisas e se existe Inteligência, existe fatalmente Conhecimento e Vontade.

Não estou a falar de uma Vontade consciente. Nem sei se sei o que isso seja. Sei que nem sempre a nossa vontade é consciente, só ficamos conscientes dela pela observação da sua acção. Somos observadores de nós próprios, da nossa Vontade; mas ela existe independentemente da nossa consciência dela.

A Consciência é um processo misterioso que eu ainda não consegui explicar minimamente por processos naturais. O que não quer dizer que não resulte de processos naturais. Ou outros. Não sei.

Mas acho fascinante começar a suspeitar que a Natureza dispõe de Inteligência, Conhecimento e Vontade. Tal como a Estrela-do-Mar tem uma Vontade que a leva a fazer o que lhe é necessário e possível para manter a espécie viva, também a Natureza terá uma Vontade que faz acontecer o que é necessário e possível para que a Vida permaneça.

E qual é a importância de colocar a possibilidade de a Natureza dispor intrinsecamente de Inteligência, Conhecimento e Vontade?


sexta-feira, julho 17, 2009

A Pedra Angular

É conhecida a hipótese de que a Vida poderia ter começado numa atmosfera especial onde abundavam descargas eléctricas. Isto porque o primeiro grande problema da química da vida é a fixação dos átomos de Azoto. Contrariamente aos de carbono, oxigénio e hidrogénio, os do azoto só muito dificilmente se ligam aos restantes. Mas com umas faíscas consegue-se.

O problema é que as faíscas, embora permitam obter uns compostos de azoto elementares, destroem as cadeias longas necessárias à vida. A vida nunca poderia surgir numa atmosfera de faíscas. As experiências de Miller e outras só provam uma coisa: só por Milagre poderia a Vida surgir, ou sobreviver, em tal ambiente. Portanto, se a Ciência está certa, apenas um Deus pode explicar o aparecimento da Vida porque apenas um Deus faz milagres.

Alguns autores começaram a notar que a química da Vida exige condições de alta temperatura e pressão. A teoria da Ecopoese será o melhor exemplo. Mas como poderiam tais condições ter existido na Terra?

A Teoria da Evanescência dá a resposta: a Terra já esteve mais perto do Sol. As condições da atmosfera terrestre durante os dois primeiros milhar de milhões de anos seriam as ideais para formar a química da Vida. Até ao mais pequeno detalhe – a composição, temperatura e pressão iniciais e a sua variação ao longo do tempo. A Terra foi a máquina perfeita para fabricar a Vida! Na verdade, as condições iniciais são semelhantes às que os humanos engenheiros definiram para o fabrico de compostos de azoto (adubos)!

Cai o queixo de assombro! O Grande Engenheiro não fabricou a Vida, fabricou a máquina de fabricar a Vida!! Óbvio!!! Os engenheiros são assim mesmo, eles não fabricam as coisas, quem fabrica coisas são os artesãos, os engenheiros concebem as máquinas que fabricam as coisas!!!!! Afinal, a Vida não resulta de um milagre, da intervenção do dedo de um Deus, mas é criada por uma máquina concebida por um Grande Engenheiro.

Como funciona esta máquina da Vida?

O Euromilhões pode ajudar-nos a percebê-la.

Um de nós ganhar o Euromilhões é um Acaso, um milagre, algo que mudaria o nosso destino; mas haver um ganhador semanal não é milagre nenhum; e haver pelo menos um por mês é quase certeza absoluta. Assim, um acontecimento que é fruto do Acaso à nossa escala, nada tem a ver com Acaso a uma escala suficientemente grande, pois passa a ser apenas uma consequência das regras e do meio.

A Terra inicial era uma máquina de gerar «chaves do euromilhões»: uma quantidade imensa de átomos formava continuamente combinações. A «chave certa» terá sido uma pequena cadeia de umas centenas de átomos que surgiu estável, capaz de crescer e com certas propriedades.

Assim, nas condições existentes na Terra, o aparecimento da Vida tornou-se algo tão determinístico e certo como haver um ganhador do euromilhões na Europa.

Não foi pois um Milagre, ou seja, a intervenção directa de um Deus, que produziu a Vida na Terra. E também não precisamos de procurar uma origem extraterrestre para a Vida, porque as condições ideais, ao mais ínfimo detalhe, estavam aqui.

Esta Terra inicial não era uma máquina tipo «máquina-ferramenta», destinada à produção em série de um produto pré-definido; era uma máquina de Inteligência, um sistema de «geração de hipóteses + selecção» em que a geração de hipóteses era controlada pelo Acaso – uma máquina «A+S». Uma máquina para resolver um único problema: encontrar a fórmula da Vida.

O pensamento desarvora: e se a Evolução da Vida é também consequência necessária dos diferentes cenários que se vão sucedendo? E se a célula viva contém alguma espécie de «máquina de Turing», ou um qualquer outro sistema de Inteligência? Se o Humano é, tal como a própria Vida, a consequência necessária da condições da Terra?

Será que o Grande Engenheiro apenas teve de conceber a máquina Terra e o resto é tudo consequência? Ou não?

A Máquina de Vida a que chamamos Terra surge-nos pois como uma pedra angular da obra do Grande Engenheiro. Seguindo a seta do tempo, encontramos a questão: o que é a Grande Inteligência / Grande Conhecimento que moverão a Evolução e como o farão? Seguindo o sentido contrário, encontramos a questão: como terá sido construída esta fabulosa máquina de fabricar Vida que é a Terra?

Sobre a Grande Inteligência que move a Evolução, já percebemos algumas coisas: como a Inteligência pode ser um fenómeno natural, e como sistemas naturais podem ser imensamente inteligentes, algo que não nos passaria pela cabeça antes de começarmos a pensar no assunto; mas ainda estamos nos primeiros passos. E do Grande Conhecimento ainda não descobrimos nada.

E andando para trás na seta do tempo? Caminharemos no sentido da complexidade decrescente, logo provavelmente mais simples de compreendermos. A Terra será obra directa ou indirecta do Grande Engenheiro? Ou foi um Acaso, um Milagre, que fabricou tão perfeita máquina, como pretendem os cientistas, que garantem que a Terra é o fruto dum processo caótico de condensação duma nuvem de matéria? Se é como a Ciência diz, então poderemos concluir que existe um Deus porque só o dedo de um Deus faria com que do processo caótico de condensação de uma nuvem de matéria se formasse tão improvável combinação de componentes e condições que caracterizaram a Terra inicial.

Como é? Será que é no processo de formação da Terra que surge uma intervenção sobrenatural que inicia a cadeia de acontecimentos que conduziu até nós?

sexta-feira, junho 19, 2009

Todas as células são neurónios (2ª parte)


Fig:o nosso sistema de localização (GPS) e o da célula (GRN)


«Informação funcional»... mas onde reside esta informação no código genético? Onde é que a célula germinativa tem as instruções para andar ou para identificar visualmente objectos? Onde é que ela tem as «tabelas»? Será no genoma?

Nós sabemos hoje que as células trocam informações entre elas, esse é um mecanismo vital. Tão poderoso que permite aos animais sem cérebro comportarem-se como se o tivessem – por exemplo, a estrela-do-mar, o ouriço-do-mar, a medusa, a minhoca. Não têm cérebro mas movem-se, alimentam-se, reproduzem-se.

Reparo agora numa coisa: o cérebro também não tem «sistema nervoso central». Aquele monte imenso de neurónios depende das comunicações entre eles. E não está organizado como um «chip» de computador, pois neurónios em diferentes partes cérebro contribuem para a mesma função.

Bom, isto não é mais surpreendente que a própria formação de cada ser vivo: a partir de uma única célula que se vai dividindo, cada nova célula vai-se transformando apropriadamente para gerar o novo ser. Baseada em quê? Não há comando central na formação do ser. Baseada apenas na sua base de informação e nas informações que troca com as células vizinhas (e, eventualmente, na memória das células donde descende). Um saltinho a esta página da Wikipedia (gene regulatory network) mostra o pouco mas fascinante conhecimento sobre estes processos que já temos. Vou transcrever uma parte:

A major feature of multicellular animals is the use of morphogen gradients, which in effect provide a positioning system that tells a cell where in the body it is, and hence what sort of cell to become. / … / . Over longer distances morphogens may use the active process of signal transduction. Such signalling controls embryogenesis, the building of a body plan from scratch through a series of sequential steps. They also control maintain adult bodies through feedback processes.”

Dito assim até parece um mecanismo simples. Mas, como sempre tem acontecido, acabaremos por descobrir um processo altamente sofisticado e eficiente. Porque tudo o que se passa num ser vivo tem a eficiência de, por exemplo, o nosso olho. É tudo incrivelmente eficiente e sofisticado. É tudo como o Olho.

Este processo de localização acima descrito parece simples; mas localizar significa determinar a posição num sistema de coordenadas. Como faz um GPS. O receptor de GPS conhece a localização dos satélites do sistema e o sinal recebido destes tem uma marca temporal, obtida de um relógio atómico, que permite a um complexo algoritmo, conhecendo a velocidade de propagação do sinal, determinar a posição. Ora localizar dentro do corpo é muito mais complicado porque não existe uma velocidade de propagação constante e as fontes do sinal são múltiplas e de localização desconhecida do receptor a não ser que transmitam a sua localização. Portanto, o sistema de localização há-de ser algo bem sofisticado, utilizando um sistema de coordenadas que nem imaginamos qual possa ser. E, no entanto, é apenas uma capacidade trivial das células.

Um ser vivo não é uma máquina, é uma sociedade de células. Onde o fluxo de informação é essencial, permanente. Onde cada célula reage em função da informação residente nela e da que recebe. Cada célula é um «neurónio» no sentido em que processa imensa informação e comunica constantemente com as outras células. E tudo o que se passa num ser vivo é altamente sofisticado e eficiente, qualquer «explicação» simplória só pode ser disparate.

Bem, isto faz cair o essencial da argumentação anti – Lamarck: as células germinativas, óvulos e espermatozóides, também recebem os sinais que as outras células emitem; então, a experiência de vida do ser a que pertencem passa por elas. Terá consequências? Naturalmente, seria «estúpido» que essa informação fosse desperdiçada. E se há coisa que a Vida não é, é «estúpida», ela é muito mais «Inteligente» do que nós. Temos de meter isso nas nossas cabecinhas arrogantes.

Bom, mas qual é a Informação que se transmite geracionalmente?

(continua)