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segunda-feira, janeiro 16, 2012

Porque o rating está certo



Tem sido lançada uma grande confusão na cabeça das pessoas com a constante referência à dívida soberana, como se ela fosse a causa da presente crise financeira. Ora salta aos olhos que não pode ser: a Espanha tem uma dívida externa pequeníssima, muito mais pequena do que as dos países que aparecem cotados com altos ratings, e está com problemas.

Quando comprei o meu andar, fiquei com uma dívida muito maior do que o meu rendimento anual – o meu “PIB”; fiquei com uma dívida de mais de 200% do meu PIB; no entanto, o meu rating era AAA para a banca; Porquê? Porque o que eu ganhava era superior aos que eu gastava e aos meus encargos com essa dívida.

E este é que é o busílis da questão: o que se ganha dar ou não para pagar as despesas.

O que é isto de “o que se ganha” em termos de um país? É o dinheiro que entra, pelas exportações, turismo, remessas de emigrantes. E o que se gasta? É o dinheiro que sai, pelas importações, turismo, movimentos de capital, remessas de imigrantes.

Portanto, o que faz com que um país seja AAA ou lixo é este balanço, não é a sua dívida soberana. Basicamente, é a balança de pagamentos do país. É por isso que a Alemanha tem necessariamente um rating AAA.

A balança de pagamentos é por isso a preocupação nº 1 de qualquer outro país.

Portugal tem uma balança de pagamentos altamente deficitária há décadas; é um país que gasta mais do que ganha, portanto. Como é que Portugal pode ter um rating que não seja “lixo”??? Naturalmente que é lixo! É como uma pessoa que todos os anos pede um novo empréstimo para conseguir pagar os encargos dos empréstimos anteriores.

Como é que deixamos de ser lixo? Veremos no próximo post.

quinta-feira, abril 03, 2008

Temos de pensar em algo...

Alita demorou-se a ler o discurso do Papa. Quando chegou ao fim, voltou ao princípio, como que à procura de qualquer coisa no texto; Tulito aproveitou para falar:

Temos de ter em atenção duas coisas na interpretação desse discurso: a personalidade do Papa e a alteração do quadro do Evento.

“Alteração do quadro do Evento? A que te referes?”,
perguntou Alita sem desviar os olhos pensadores do texto.

Sabes que a actividade solar, embora sempre crescente em média, tem uns períodos em que cresce de ciclo para ciclo, outros em que diminui. Na primeira metade do século XX ela esteve a crescer muito. O facto de o número de manchas solares ter ultrapassado todos os registos anteriores terá criado uma certa preocupação sobre o que poderia acontecer se a actividade solar continuasse a aumentar.

“Queres tu dizer que poderá ter havido quem pensasse que o Evento poderia ocorrer ao terminar o século XX?”

É uma possibilidade.”

“E a alteração do quadro a que te referes é o facto de desde então o Sol estar na fase decrescente do ciclo?”

Certo. Há uns cinquenta anos que a actividade solar diminui, embora ligeiramente. Imagino que aqueles que levantaram a possibilidade do Evento poder vir a ocorrer na sequência do crescimento anterior estejam agora desacreditados e a credibilidade esteja do lado daqueles que, nada entendendo do fenómeno, nada previram.”

“Hummm, isso parece estar de acordo com uma coisa que o Papa diz: «... evitar desnecessariamente predições alarmantes quando não estão sustentadas por dados suficientes ou que ultrapassam a capacidade actual da ciência para fazer previsões.». Ora a única predição alarmante do conhecimento público é a do aquecimento global e não me parece ser a essa que ele se refere...”

Tulito assentiu e continuou: “De qualquer maneira, agora não há uma ameaça próxima do Evento, estamos a pouco mais de meio da fase descendente; a probabilidade é reduzida. Portanto, o tempo agora é de estratégias de longo prazo; é, por isso, um quadro diferente do que existiu no século XX, com a ameaça do Evento a exigir estratégias de curto prazo.”

Alita desistiu de continuar a rever o texto e resolveu prestar toda a atenção ao Tulito, afinal ele tinha ideias já feitas sobre o assunto. Virou-se para ele. “E sobre a personalidade do Papa, o que é que descobriste?”

Não investiguei muito, estive só a ler a análise que ele fez do 3º segredo de Fátima. Claramente, ele é um intelectual materialista, sem qualquer conhecimento para além do que os 5 sentidos disponibilizam, ou seja, não é um crente nem é um espiritual. É reveladora a análise lógica e inteligente que ele faz do que seja uma Visão. Só que é a análise de quem nunca teve uma Visão ou uma premonição. É lógica, inteligente e errada a análise, ele fala do que não sabe mas pensa que sabe.

“Só teoria especulativa, portanto... e que diz ele desse segredo?”

O que ele escreve é uma tese de advogado a provar que o tal segredo não diz nada de novo e não passa do fruto de imaginação de crianças com a cabeça cheia de descrições apocalípticas, pois era uso nesse tempo os religiosos encherem a cabeça das crianças com visões do inferno e do apocalipse.

“Naturalmente que a análise dele só pode ser essa... afinal, ele não é crente nem sabe o que seja uma Visão, logo não pode pensar outra coisa...”
os olhos semicerrados da Alita indicavam que estava a tentar construir um modelo da personalidade do Papa.

Claro, e provavelmente até estará certo, mas o facto de não ter feito uma análise mais equilibrada é que é reveladora de que se guia por objectivos, como qualquer político, sendo-lhe indiferente a verdade.”

“Porque dizes isso?”
Alita acendeu olhos de genuíno espanto, algo não bateria certo com o seu modelo papal.

Ora, depois lês e percebes logo. Há coisas que saltam à vista. Por exemplo, por que razão iriam as crianças inventar uma cena onde a hierarquia da Igreja é chacinada? Estavam zangadas com algum padre lá da terra? Ou era para assustar as pessoas com o que os russos fariam, tipo «os russos comem criancinhas ao pequeno-almoço»? Nessa época inventavam-se muitas atoardas anticomunistas. Uma análise correcta exige considerar várias hipóteses e ele não fez isso, limitou-se a afirmar o que era conveniente para sustentar o seu ponto de vista.”

“Em resumo, o Papa não é crente, só tem 5 sentidos e não hesita nos meios para atingir os objectivos que considera úteis, é isso? Ah, e está num quadro onde a pressão para o Evento desapareceu.”

Isso mesmo. Diz-me lá agora o que achas que ele pretende com esse discurso.”

“Admitindo esse quadro que definiste, o que me salta à vista é que ele está a determinar para a Ciência um papel secundário. Cita João Paulo II para dizer «por isso os cientistas, precisamente porque “sabem mais”, estão chamados a “servir mais”»; ora isto, não deixando de ser verdade, está aqui usado habilidosamente para sustentar que o papel dos cientistas não é guiar, aconselhar, mas servir, até diz generosamente que a Igreja os ajudará nessa difícil tarefa... ora onde é que isso está...”,
Alita calou-se, percorreu rapidamente o texto, “ah sim, aqui está, «os cientistas encontrarão ajuda na Igreja na hora de enfrentar estes temas», diz ele...” Alita calou-se por momentos, arrumava as ideias, para logo concluir:

“Portanto, o papel da Ciência é ajudar a enfrentar, sem temor, os autênticos problemas que vão surgindo no caminho da humanidade mas não é o de guiar a humanidade porque não tem capacidade de previsão e não deve criar alarmismo injustificado.”

Tulito levantou-se de um salto e exclamou: “Exactamente! Foi exactamente o que me pareceu. Este Papa quer assumir o papel de guia da Humanidade do lado do Poder, à maneira tradicional da Igreja Católica, e não do lado do povo. A estratégia de Poder da Igreja entrou numa nova fase com este Papa. Para isso, começa por chutar para fora a Ciência. Em vez de peregrinações como as do anterior Papa, este deverá fazer visitas de Estado aos maiores líderes políticos do Mundo; ele não quer aparecer junto ao povo, a sua estratégia não é a de ouvir o povo, ele não é irmão do povo, ele é irmão dos líderes! Ou Pai deles! Assim que sentir força para isso, declarará guerra às outras religiões e aos ateus. O caminho para o Poder absoluto não passa pela tolerância. Sentou-se novamente, como que esgotado pela exaltação que o acometera.

Um vinco de preocupação surgiu na testa de Alita. O Tulito não estava bem. A seguir teria de o convencer a ir ao gabinete médico. O melhor seria tentar concluir a conversa rapidamente, sem grandes excitações, pensou ela.

“É com Política e Religião que se guia o humano rebanho, sempre foi; o papel da Ciência é servir os donos do Poder, sempre foi. Resta saber quem tem mais força: a Política ou a Religião?”

Humm... basta ver o escândalo que causam as relações amorosas e sexuais entre adultos que não seguem a moral religiosa! São o principal motivo de interesse dos media e causa de demissão de políticos; queres melhor prova que os teus humanos não passam de ovelhas ansiosas por cair nas mãos dos pastores religiosos? Eles são essencialmente crentes, não são racionais, e a Religião tem vantagem no domínio dos crentes.

Alita reagiu com visível incómodo mas, não encontrando argumento sólido, preferiu ultrapassar o assunto: “Os meus humanos, como dizes, ainda te vão surpreender, vais ver... Mas que pensas que vai o Papa fazer em relação ao Evento?”

Nada! Isso não lhe interessa, nem é para o tempo dele.

“Portanto, a Ciência deles não vai descobrir nada porque está baseada em falsas certezas, como a da constante solar, e aqueles em quem depositávamos a esperança que pudessem fazer alguma coisa vão ficar parados, temes tu...”

O cansaço e a preocupação que Tulito exibira no início da conversa abateram-se de novo sobre ele. Com ar muito sério, respondeu marcando as palavras: “Podes crer que temo. Penso que se depender só dos humanos, pode ser uma grande catástrofe.” Com ar meditativo acrescentou: “Ficarmos só pelo papel de observadores é capaz de ser pouco. Temos de pensar em algo...”
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sábado, março 29, 2008

A Estratégia da Culpa e Expiação

O que me chamou a atenção, Alita, foi uma academia científica, como supostamente o é a Pontifícia Academia, ter organizado uma sessão plenária sobre «A possibilidade de predição na ciência: precisão e limitações»; estranhei porque os cientistas reúnem-se para apresentar novos resultados, analisar problemas com vista à sua ultrapassagem, nunca para concordar em que a ciência tem esta ou aquela limitação intrínseca.”

“De facto, um cientista nunca aceita que a ciência tem limitações que não possam ser ultrapassadas... mesmo quando está convencido disso declara que a limitação é da natureza e não da ciência, como no Princípio da Incerteza... como interpretas isso?”

Penso que esta assembleia não tinha, na realidade, o objectivo de discutir fosse o que fosse mas foi uma forma de fazer uma declaração: a academia científica do Vaticano declara que a Ciência é incapaz de fazer predições fiáveis!

“Para muita gente isso seria o mesmo que afirmar que a Ciência não serve para nada...”

Claro; é por isso que é um bocado despropositado uma academia científica fazer tal declaração.”

“Mas é uma academia do Vaticano. Repara: os cientistas não são autónomos, estão sempre ao serviço dum Poder, seja político, económico ou religioso. Essa academia está ao serviço da Religião e essa declaração parece-me inserida na luta pelo papel de guia máximo da humanidade que a Ciência e a Religião travam há longo tempo.”

A Ciência e a Religião a disputarem o lugar de Pastor da Humanidade!”

“Exactamente! Ou melhor, o velho pastor, a Religião, a afirmar que o novo Pastor, a Ciência, não pode prever o Futuro. Isso é muito importante para a Religião porque a sua força também depende da ideia de que «o Futuro a Deus pertence» e ela é o intermediário para Deus, logo, para o Futuro.”

Interessante falares do velho pastor e do novo pastor... tive um sonho sabes...”
Subitamente, a expressão de Tulito mostrou cansaço e preocupação. Alita pousou a mão no ombro dele, o olhar preocupado e terno, e segredou-lhe maternalmente:

“A nossa missão é de observação, não podes envolver-te tanto...”

Eu sei, mas não posso ficar indiferente, estou como um torcedor de futebol, não posso intervir mas isso não me impede de sofrer por uma equipa e de tentar perceber as tácticas em campo... e isto não é um jogo de futebol!”

Alita reagiu de imediato, aproveitando a deixa: “Boa imagem! Vamos então agir como espectadores de um jogo e descodificar as tácticas!” Percebia-se o falso entusiasmo da declaração com que procurava combater o momento de desânimo do Tulito. “Ora conta-me lá esse sonho” rematou, decidida.

Tulito deitou-lhe um olhar quase divertido, a tentar mostrar um ânimo que ainda não sentia, e começou a contar: “Havia um pastor novo e um velho... percebi que eram a ciência e a religião... e havia um abismo que percebi que era o Evento... o velho sabia disso mas o novo não...

“E?”

E o velho percebeu que não podia avisar o outro, nem as ovelhas do outro, porque ao conhecimento do velho já ninguém ligava.

“Normal.”

Mas o velho viu então uma possibilidade de tirar vantagem da situação: se ele fizesse um aviso, sem insistir, deixando que pensassem que o aviso era uma maluqueira dele, as ovelhas que sobrevivessem lembrar-se-iam do aviso e passariam a acreditar no conhecimento do velho e a segui-lo; desta forma, ele poderia a voltar a ser o único pastor.”

“humm... não sei não... se essas ovelhas são os humanos...”

Pois, o velho do meu sonho teve então uma reacção estranha, que me ficou vivamente marcada na memória.”

“ Qual?”

Entrou em pânico, começou a chamar burro a si mesmo, a dizer que ninguém poderia saber nada, nunca, nunca! Acordei nessa aflição, de um segredo que tem ser mantido a todo o custo; e com a sensação de que precisava desesperadamente de encontrar uma solução.”

“Claro!”

Claro? Porquê? Não estou a perceber nada.
O espanto misturava-se com algum desânimo.

“Querias que as humanas ovelhas dissessem: que burras que nós fomos, bem nos avisou o velho? Nada disso!”

Então?!

“Então, os humanos têm sempre de arranjar um culpado para tudo o que lhes acontece. A primeira coisa que vai surgir na cabeça das ovelhas é: quem é o culpado? Ora a resposta «eu» nunca serve; logo, elas irão fatalmente culpar o velho pastor. Afinal, ele sabia e não as protegeu, não as avisou devidamente!”

“...mas se elas nunca acreditariam nele...

“Claro, mas na altura do desastre elas não vão pensar isso, pensarão que ele não as convenceu de propósito.”

Então a solução seria o velho pastor não dizer nada, fazer segredo do que sabia e deixar a catástrofe acontecer?

“De certeza que não; a função dos pastores é proteger as ovelhas, se acontecer a catástrofe ambos os pastores serão crucificados pelas sobreviventes. A história dos humanos é fértil em situações em que a ocorrência de um desastre natural determinou o massacre dos sacerdotes.”

O que dizes faz sentido, excepto numa coisa: se eu não sabia isso, como pude sonhar isso?

“O teu cérebro sabe muito mais do que aquilo de que tens consciência. Essa informação toda que tu pesquisas, tu analisas, seleccionas e depois esqueces o que achas que não tem interesse; o teu cérebro, porém, faz a escolha dele e memoriza a nível inconsciente coisas que ele acha importante, mesmo que o teu consciente não ache. E é com esse material que ele constrói os sonhos. Isso é básico.”
O olhar de Alita tinha o mesmo ar condescendente das mulheres humanas quando falam duma coisa que é trivial para elas mas não para os homens.

Talvez tenhas razão. De facto, este sonho liga-se a coisas que eu já li. Como o tão falado 3º segredo de Fátima que não é mais do que uma descrição do clássico massacre dos sacerdotes quando acontece uma catástrofe. E já percebi que o Vaticano tinha uma estratégia para enfrentar o Evento, que era a do Deus Colérico, um deus que iria escaqueirar o planeta irritado pelos pecados humanos, sobretudo pelos que não crêem nele. Li discursos de altos dignitários do Vaticano e afirmações da vidente que definiam claramente essa estratégia. Com essa estratégia inocentava-se a Igreja e definia-se a priori quem era o culpado: os “pecadores” e os não-crentes!

“Vês? Afinal até estava no teu consciente o conhecimento que gerou o sonho!” Alita suspendeu-se meditativa. “Mas não percebo uma coisa: os sonhos desse tipo resultam de um conflito entre as informações de que o cérebro dispõe, e a angústia com que terminam é a procura de uma solução para o conflito; ora eu não estou a ver onde está o conflito.”

Ahh, mas eu estou!
Tulito num súbito recobro de confiança, “ O conflito está entre essa estratégia e o discurso do Papa. O Papa fez um discurso nessa assembleia. Esse discurso tem de ter um significado, toda essa cerimónia foi preparada para passar uma mensagem. Ora o que esse discurso mostra é que há uma nova estratégia. Mas eu ainda não percebi exactamente os seus contornos. Queres ver?

segunda-feira, março 24, 2008

O Limite dos Modelos Matemáticos


Para perceberes o que o Papa disse, é preciso que eu te fale primeiro sobre os limites da ciência dos humanos, Alita.

“Aiii.... está bem, mas promete-me que não te vais esquecer que a minha área não é a matemática!”
Um sorriso doce sublinhou o pedido da Alita e transformou-o em ordem. Tulito sorriu-se, não conseguia reagir doutra maneira aos encantos de sereia da Alita.

Claro, Alita, vou só tentar mostrar a natureza do problema. Diz-me por favor: qual é o objectivo essencial da Ciência, aquele que faz com as pessoas estejam dispostas a pagar os seus custos?”

“Ora, a previsão do Futuro, ou melhor, a previsão dos perigos que podem surgir no futuro, claro; a que propósito vem essa pergunta?”
A mão suspensa traduzia o espanto da Alita.

“Acontece que o Método Científico deles se resume à construção de Modelos Matemáticos de ajuste aos resultados das observações. Tu não saberás, mas há uma coisa que os modelos matemáticos não podem fazer: é prever o Futuro!”
Tulito pensou um instante, pegou no apontador e começou a fazer um desenho:



Modelo Matemático para dois pontos? Fácil! Uma recta, 1º grau (azul)! Mais um ponto? Fácil! 2º grau (amarelo)! Mais outro ponto! Fácil, sempre fácil, mais um grau no polinómio! E o ponto nº 5, onde é que vai aparecer? Ahh, isso agora... o Futuro não pertence à Matemática...



Vou dar-te um exemplo simples. Fazer um Modelo Matemático é como estabelecer o polinómio que passa por uma série de pontos do plano; se os pontos forem apenas dois, há sempre uma recta que passa por eles; se forem três, há sempre um polinómio do segundo grau que se ajusta a eles; se foram 4, o polinómio será do 3º grau; e por aí fora.”

“Aí ainda chego!”
A Alita com voz condescendente, quase ofendida, mas ainda suave como a sua presença.

Eu sei, espera, falta-me terminar. Se tiveres 3 pontos não tens dificuldade em obter o polinómio do 2º grau que por eles passa, certo?”
Tulito apontou a linha amarela do seu desenho.

“Certo, certo”

Mas supõe que os pontos afinal eram 4 e tu só viste 3. Qual a probabilidade a priori de o polinómio que calculaste para os 3 pontos passar também pelo 4º?”

“Ora, nula!”

Claro, Alita, isso mesmo! O Modelo Matemático que fizeste para os 3 dados que consideraste não vai acertar com outros dados, ou seja, não pode prever qual é o acontecimento seguinte. Ou melhor, em muitos casos pode prever aproximadamente um acontecimento na vizinhança de um dos pontos usados no modelo, mas o erro cresce com o afastamento e torna a extrapolação do modelo matemático sem valor.”

“Ou seja, estás a dizer que a Ciência deles é incapaz de prever o Futuro porque se baseia apenas em Modelos Matemáticos?”

Isso mesmo.”

“Estou a perceber, falta-lhe a outra perna, como disseste, a perna da Intuição, de que falou o Poincaré. Embora eu não entenda bem porque chamou ele “Intuição” à geração de hipóteses...”

Porque essa geração de hipóteses não é conseguida pela aplicação de um método, é uma capacidade mental que os humanos têm mais ou menos desenvolvida, não é um processo consciente.”

“Como é isso?”
O ar surpreendido da Alita parecia dizer «sabes coisas sobre os humanos que eu, a especialista, não sei?»

Eu sei lá!”
Tulito riu-se com gosto.”A especialista em Humanologia és tu, não sou eu!

Alita sorriu contrafeita, o seu jeito sedutor enrodilhou-se. Reagiu: “Eu já coleccionei alguma informação sobre isso, mas ainda a não consegui ordenar. Eles falam de ter «jeito», ou «intuição», ou «dom», ou «talento» mas ainda não percebi de que se trata. Ainda hoje vi uma frase dum tal Martin Heidegger que dizia «Nunca chegamos aos pensamentos. São eles que vêm». Já vi várias frases deste tipo. São um bocado estranhos os Humanos: são «hipnotizáveis», têm «talentos» e «intuição», e não sei que mais irei eu descobrir sobre eles...”

Olha, que são muito arrogantes, com a mania da infalibilidade. A Igreja é infalível, a Ciência é infalível... uma obsessão com a infalibilidade. Em parte, penso que será por isso que se limitam aos modelos matemáticos, porque esses podem ser construídos por métodos simples e «infalíveis»... podem sempre determinar os polinómio que passa pelos acontecimentos... mas não podem é prever o Futuro e isso é fatal!”

“Tu mostraste-me o que é um Modelo Matemático e eu percebi porque é que não pode prever o Futuro; mas qual é a alternativa?”

A alternativa é um modelo Físico. A alternativa é descobrir o que é que gera os pontos no plano em vez de determinar o polinómio que passa por eles. Só sabendo a causa dos pontos, ou seja, a rede de relações causa-efeito que os gera, é que se pode prever o próximo acontecimento. A alternativa é, pois, simplesmente, «compreender»!”

“Pois, lembro-me que o Einstein falou disso.”

E que responderam os Físicos?”

“Que era a coisa mais estúpida que ele tinha dito.”

Vês? É muito mais fácil fazer Modelos Matemáticos do que «Compreender», por isso eles limitam-se a fazer Modelos Matemáticos e ainda chamam estúpidos aos que buscam a compreensão. Mas os Modelos Matemáticos condenam-nos ao desastre porque não podem ser extrapolados.”

“Deixa-me então adivinhar: o discurso do Papa é sobre a incapacidade da Ciência para prever o Futuro?”

sábado, março 22, 2008

O Pastor Cego



Essa relva faz mal às barriguinhas, xooo, xooo”, aquilo é que ele tem uma lata, sempre a orientar o rebanho para aqui e para ali, inventando perigos constantes; e as ovelhas acreditam, acreditam sempre, muitas das minhas já passaram para o rebanho dele, conquistadas pelo ar de quem sabe, pela convicção dele. Duvidam dos próprios olhos para acreditarem nos olhos de quem não vê.

O velho pastor, apoiado no bordão, mirava o outro pastor apontando com o cajado um novo pasto ao seu imenso rebanho, já bem maior que o rebanho do velho. O novo pastor, que com ele aprendera a arte para depois iniciar o seu próprio rebanho em vez de se tornar seu ajudante. Uma sombra turvou o olhar do velho.
Com alguma dificuldade conseguia convencer as suas ovelhas a ficarem. Ia-lhes dizendo que o outro pastor estava tão cego que nem a própria ignorância via; lá ficavam na dúvida, hesitando assim em trocar o pastor que já dos pais delas cuidara pelo novo pastor e suas promessas.

Mas o novo pastor não tinha aprendido tudo o que ele podia ensinar, percebeu subitamente o velho, que reconhecia agora aquele local. O pai do seu pai, lembrava-se, dele lhe falara. Os sinais ainda lá estavam. “Quando os vires”, avisara ele,”sabe que o fim do terreno está próximo. Dentro do canavial se acaba o solo, as ovelhas desaparecem tragadas pela cova sem fundo. Sem tempo para um balido. Umas atrás das outras. Apenas as mais ligeiras ou as que o destino escolher se salvarão.”

Um sorriso doce e triste conquistou a face. Era a recordação das histórias que o pai do pai contava nas longas tardes da sua infância, voltados para poente, assistindo ao pôr-do-sol nos longínquos cumes de contornos diáfanos na contraluz. Com um abanão de cabeça afastou tais memórias, tinha de estar atento, o canavial já se avistava.

Claro que o outro nada sabia disso e a soberba cegava-lhe a prudência. Conduzia o seu rebanho direitinho para o canavial. Avisá-lo? Seria inútil, para o outro nada havia a aprender com o velho, como lhe chamava. Avisar as ovelhas inútil era, rir-se-iam, confiantes que estavam na sabedoria do seu pastor. Mais cego é quem não quer ver do que quem não tem olhos.

Um pensamento malicioso despontou. As ovelhas do outro perceberiam que o seu pastor sempre era cego e ignorante quando começassem a cair... nessa altura viriam ter consigo... as que se salvassem... como filhos pródigos regressando a casa... O rebanho voltaria a ser um só, e ele o seu pastor!

Endireitou-se. Quase que sentiu remorsos, aquela alegria com o desastre iminente não lhe parecia própria. De qualquer maneira, pensou, não está na sua mão evitar o desastre. Este pensamento aliviou-lhe a culpa. O plano está traçado: dirá a todas as ovelhas, às suas e também às do outro, que o novo pastor está cego e as conduz atrás de enganos; as ovelhas do novo não acreditarão evidentemente, porque haveriam de acreditar?; mas quando acontecer o desastre, as sobreviventes lembrar-se-ão, e perceberão então que apenas ele, o velho pastor, as pode guiar, pois apenas ele vê, apenas ele tem o conhecimento verdadeiro.
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quinta-feira, março 20, 2008

Vida de Estrela


"Estás a ver esta imagem tirada pelo telescópio espacial Hubble duma estrela num processo de expulsão de matéria?"

Alita semicerrou os olhos, tentando perceber bem o que Tulito lhe mostrava. “Ah, sim, já estou a perceber, há umas linhas de luz que são artefactos do sistema óptico... e a imagem de baixo é uma ampliação da zona central...”

Exacto. Esta imagem já é antiga, do ano 2000 da Era deles. Mas continua a ser um enigma para eles, porque não pode ser explicada por nada que eles conheçam. E vão encontrando, aqui e além, estrelas em processos de expulsão de matéria que ele não podem explicar a não ser com recurso a fantasias como buracos negros na vizinhança ou campos magnéticos mágicos; às vezes nem isso.”

Será que já perceberam que os processos violentos nas estrelas não ocorrem só durante a sua formação e extinção?”

Não encontrei isso dito em lado nenhum, Alita. Penso que os cientistas humanos ainda não colocaram essa hipótese, o que não me admira, porque eles não sabem gerar hipóteses; mas não me admirava que os que trabalham para a Igreja o tivessem feito, porque esses têm as “duas pernas”, ou seja, sabem usar a intuição e a lógica.”

“E daí pensares que eles começam a perceber que os processos de expulsão de matéria ocorrem ao longo de toda a vida da estrela e estarem alarmados...”

Exactamente; e desconfiei que eles sabem isso por causa de um recente discurso do Papa.”

“Mas tu já lês os discursos do Papa?”
Alita deixou escapar um sorriso leve, com temperos de admiração e de troça, “não me digas que te começas a interessar também pela personalidade dos humanos?”

Interessar, interessa-me, mas tenho-te a ti para ma explicares!Um sorriso largo respondeu ao sorriso de Alita, dois sorrisos a medir forças, dois corações a palpitarem mais rápido. “Eu estou a investigar a organização científica deles que, basicamente, tem duas estruturas, a ciência que depende dos governos e a que depende do Vaticano. É por isso que sei a história da Academia Linceana e foi assim que tropecei nesse discurso, entre muitas outras coisas.”

E que disse o Papa de tão importante?” A curiosidade irrompeu dos olhos da Alita, que tomaram cor de nuvem banhada em Sol.
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segunda-feira, março 17, 2008

Os Jardins Secretos do Vaticano

“Ahh, isto é interessante...” Alita endireitou-se, levantou os olhos, deixou pender a cabeça para trás, o que acabara de ler incendiara-lhe o pensamento.

Siimm? Então de que se trata?”
Tulito respondeu automaticamente, estava habituado aquele «pensar em voz alta» com que Alita brindava os pensamentos que a intrigavam.

“ A Pontifícia Academia de Ciências propôs ao Papa a colocação nos Jardins do Vaticano de uma estátua do Galileu.”

Interessante isso!? A mim parece-me estranho... se a Academia quer uma estátua do Galileu, que a ponha nas suas instalações... ou então é o Papa que quer e usou a Academia...”

“Tu sabes o que é a Pontifícia Academia da Ciência, não sabes?”
a voz de Alita era suave como um sonho.

Olha, sei que é algo muito estranho. Uma Academia Científica tutelada pelo Vaticano? Mais uma originalidade dos humanos...

“E já viste a composição?”
o olhar da Alita tornou-se agora vivo; levantou-se e aproximou-se do Tulito.

Já. Uns 80 ilustríssimos cientistas. Mais de quarenta prémios Nobel já fizeram parte dela, muitos deles nomeados antes de terem sido laureados. Talvez a maior concentração de ilustres cérebros da ciência que os humanos têm. E para quê?”

“Vejo que já andaste a investigar essa Academia. Sabes que remonta à famosa Academia do Lince, de que Galileu foi membro?”

Considerada a primeira academia científica dos humanos.
Tulito sentiu-se satisfeito consigo próprio por este pequeno pedaço de conhecimento que acalmou os grandes olhos expectantes da Alita.

“Sabes muito... eheh... mas não saberás porque foi tão importante para a Igreja que o Galileu investigasse em segredo, que não defendesse publicamente as teorias copernicanas, que a Igreja já sabia que estavam certas desde o Papa anterior?”

Tulito sentiu-se subitamente estúpido. Claro! A preocupação da Igreja com Galileu nunca foi por causa das ideias dele, o que ela não queria era que ele as divulgasse! O livro do Copérnico foi posto no Índex só para evitar a sua divulgação, porque continuou a ser avidamente estudado no seio da Igreja. O que a Igreja queria era Segredo, sempre quis, continua a querer: há muitos anos que a Igreja investiga em segredo, pois investe aí recursos demasiadamente importantes para a aparente pobreza de resultados! Veio-lhe à lembrança um momento embaraçoso do seu tempo de estudante. Balbuciou, sentindo-se como aluno apanhado em falta:

Pois, realmente não pensei nisso...”
desviou para baixo o olhar, perdendo contacto com os fascinantes olhos em arco-íris da Alita, mas a eles logo regressou, expulsando a sensação que do passado o inibia.

“Passa-te pela cabeça que a Ciência deles ainda não conseguiu juntar a geração de hipóteses à lógica?”

Estás a brincar comigo?”

“Sério! Os humanos raramente têm as duas capacidades: ou são bons na geração de hipóteses, bons intuitivos dizem eles, ou são bons na lógica, bons matemáticos dizem eles. Mas, para os estudos de Física, não fazem equipas simbióticas, não sabem sequer o que é. Para eles, o mérito é um conceito individual!”

Nãooo!”

“Verdade! Não te admires muito, porque nós, há três gerações atrás, também éramos assim, não sabias?”
As cores dos olhos da Alita fundiram-se num tom doce e suave, reflectindo alguma recordação do seu passado, ou talvez a nostalgia do seu longínquo planeta.

Sim, eu sei, mas isso parece-me agora tão primitivo...

“Pois, lá primitivo é.”

E o que tem isso a ver com o que estávamos a falar, Alita?”

“O que era o Galileu? Um Intuitivo ou um Matemático?”

Seria um Intuitivo, evidentemente; como o Copérnico, o Newton, o Poincaré, o Einstein....”

“Claro Tulito. Agora repara, a generalidade dos intuitivos que ficaram famosos agiram à margem da Ciência, porque a Ciência é dominada pelos Lógicos, ou Matemáticos.”

Sim, és capaz de ter razão. Lembro-me de ler lido que o Copérnico afirmou temer os «matemáticos» e pediu a protecção do Papa.”

“Tanto quanto percebi, o pensamento Aristotélico foi adoptado como guia entre os europeus, determinando a primazia da lógica sobre a geração de hipóteses. Foi o primeiro passo natural e necessário no caminho do conhecimento, mas nunca deram o segundo, o domínio da geração de hipóteses.”

Ou seja, a Ciência deles é como um homem com uma só perna, a perna da Lógica, por isso anda devagarinho e não ultrapassa grandes obstáculos...”

“Ena, como tu estás imaginativo Tulito! Influências dos Humanos?”

Eh eh ... se calhar..”

“Mas é isso mesmo, é uma boa imagem.”
Os olhos da Alita encheram-se de todas aquelas cores que tão fascinante a tornavam para o Tulito.

Mas é tão óbvio que é necessário dominar a geração das hipóteses...”

“Para a maioria deles, pelos vistos, não é óbvio. O Poincaré escreveu que «a lógica, a única que pode dar a certeza, é o instrumento da demonstração; a intuição é o instrumento da invenção». A Igreja sabe que sem os intuitivos não se fazem descobertas. E, como sabemos, a Igreja tem um projecto de investigação muito especial desde há muitos séculos...”

Obviamente.

“Por isso, Tulito, a Igreja procurou ter uma estrutura própria, pequena que fosse mas com as duas pernas. Essa estrutura é encabeçada pela Pontifícia Academia. Bom, isto é o que eu sei; agora temos de pensar sobre essa notícia...”

“... a notícia de que as grandes cabeças que formam essa academia se reuniram, pensaram sobre magnos problemas, pensaram, e a importante conclusão a que chegaram foi: vamos pedir ao Papa para pôr uma estátua de Galileu nos Jardins do Vaticano!”

“Estás a ironizar mas és capaz de ter razão...”

Razão? Como? Mas não me admira eheh... nós somos uma boa equipa simbiótica!”

“Eu penso que esse pedido será uma metáfora. Os verdadeiros jardins do Vaticano são os jardins do conhecimento que laboriosa e secretamente o Vaticano vem construindo. Galileu foi aquele que não aceitou a imposição do segredo sobre as suas investigações. Que divulgou algum conhecimento que o Papa pretendia que ficasse na Igreja. Associar Galileu aos Jardins do Vaticano será uma forma de pedir ou anunciar a divulgação do conhecimento secreto do Vaticano. Devem ter descoberto algo que os assustou muito.”

Hummm... talvez eu saiba do que se trata...


.

quarta-feira, março 12, 2008

O Chamamento



Despediu-se rapidamente do Mário e da Luísa, o vento frio cortava-lhe a nuca como navalhas, má ideia cortar o cabelo. De qualquer maneira, era tardíssimo, não era hora para despedidas demoradas, até porque mais logo ali se encontrariam de novo. Estugou o passo, cerrando os olhos na direcção onde pensava ter deixado o carro. Lá estava, com o seu azul clarinho, azul do céu diurno, dir-se-ia um pedaço de dia que a luz dos candeeiros afagava na noite fria. Entrou rápido, ligou de imediato o motor, deixando-o aquecer uns segundos enquanto punha o cinto. Ajeitou-se na cadeira. Meteu a primeira, pisca, espelho, “... Galileu... jardins do Vaticano..”, que era aquilo?, fez um esforço de memória para recuperar a noticia que tinha acabado de ouvir no auto rádio “...qualquer coisa sobre o Papa ir pôr uma estátua do Galileu nos Jardins do Vaticano, era isso, sem dúvida!”

Desengatou a primeira, desligou o pisca. A cabeça pendeu-lhe sobre o volante. “Era o Sinal. Sabia-o. O Papa fazia o chamamento. Que fazer?”

Tinha-o desejado tanto quanto o tinha temido. Fosse o João Paulo I a dar o sinal e teria ido a correr. Mas agora hesitava. Sentia o projecto de poder por detrás deste Papa. Tinha de pensar... “ Se calhar o Papa tem razão, a humanidade tem de ser gerida com mão firme... o Pastor é que sabe para onde leva o seu rebanho, as ovelhas nada entendem dos desígnios que determinam as suas vidas. Só pode haver uma Vontade.”

...
...

“... ou não?”

.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Há quem Saiba?


. Uma semana antes... (João Paulo I, Wikipedia)



Apanharam-no! Apanharam-no!
Que desgraça! Tudo perdido...
Olha, conseguiu atirar a pasta... os papeis... os papeis... se o vento os levar... ainda há esperança... se o vento os levar para fora...


...Dio mio, Dio mio, por favor... ai... espalhados pelos telhados... estão a apanhá-los... não há vento, nem um voa...


...estão a apanha-los... vão apanha-los todos...


...piedade Dio mio...


...falhado, tudo falhado, não terei outra oportunidade...
e o meu corajoso companheiro... Deus tenha piedade... Deus o perdoe... Deus me perdoe... a Humanidade me perdoe... que terrível falhanço...

Fechou a janela abafando o ruído surdo dos passos dos guardas que percorriam os telhados, ainda à procura de alguma folha de papel que ainda não tivessem apanhado. Ao virar-se para o interior do quarto, não foi os seus aposentos que viu; com os olhos cegos pela luz exterior e pelas lágrimas, a imagem do pequeno cofre onde o segredo era guardado surgiu-lhe como um fantasma no fundo escuro. Numa fracção de segundo, a história da milenar demanda passou-lhe inteira mas o que permaneceu foi a lembrança do momento em que percebeu. O momento em que tudo mudara, em que todos os seus projectos e ideias perderam subitamente o sentido; o momento em que soube que a sua vida estava consagrada a um único objectivo: alertar a Humanidade! E soube-o com a clarividência que acompanha uma premonição, ele conheci-a bem.


Lembrou-se da repulsa que lhe causou a argumentação deles. “Que, na verdade, não sabiam quando seria nem como seria; que divulgar o segredo apenas iria servir para desacredita-los; que seriam acusados de espalhar o pânico, não sabia ele o que tinha acontecido no ano 1000? Claro que agora tinham novos elementos, mas não eram ainda suficientes. E havia que pensar no depois: depois do Evento a Igreja precisaria de todo o seu poder para controlar os sobreviventes; não sabia ele como a escassez transforma os homens em lobos? Não tivera já a Igreja de intervir tantas vezes no passado?”

Nunca acreditara que eles não soubessem mais do que diziam; simplesmente, optavam pela estratégia segura a longo prazo, conseguindo permanecer indiferentes às consequências de curto prazo, numa conversa de “os fins justificam os meios”. Mas as consequências seriam tais que ele não podia aceitar que nada se fizesse para as minimizar. Não podia, tão simples quanto isso, era mais forte do que ele.

A imagem do sofrimento que estava para chegar ocupava-lhe agora a mente com detalhes que começavam a ser dolorosos. Deixou-se cair na cama, curvado, em posição fetal, as lágrimas escorriam-lhe através das pálpebras fechadas. A angústia desses dias descia-lhe agora pelas entranhas para logo subir de novo. A intensidade da sensação crescia, multiplicava-se, ocupava todos os recantos do seu ser; como se a angústia de toda a humanidade se estivesse a concentrar nele, como se ele estivesse a sofrer no lugar de todas as outras criaturas. Esse pensamento, ele a sofrer no lugar da humanidade inteira, ele a conseguir finalmente proteger a humanidade de todo aquele imenso sofrimento, fez surgir uma ténue alegria no fundo do seu ser, uma luz a cintilar na escuridão em que se afundava. Ainda teve forças para murmurar uma prece de agradecimento - Obrigado Pai.

Seriam umas duas da manhã quando os dois homens entraram silenciosamente no quarto. O mais velho aproximou-se do vulto deitado em posição fetal, pôs-lhe dois dedos na carótica, e disse:
- Podes chamar os embalsamadores. Anuncia a morte de Sua Santidade.


Com um gesto lento, Alita faz desaparecer o texto:
Realmente, é muito misterioso... E foi a máquina de inteligência artificial que fez isto? Como?”


Estava a testar um novo programa de geração de hipóteses; e lembrei-me de o pôr a analisar os dados referentes a um qualquer crime não resolvido.”


Dos humanos?”


Claro! A máquina, a MIA, como lhe chamo, está ligada à Net deles. Pedi-lhe uma lista de mortes suspeitas e pu-la a analisar a primeira da lista. Ela devolveu-me uma lista de dados que tinha encontrado e que estavam em conflito, para eu resolver


Quer dizer que encontrou informações erradas?”


Sim, é normal, os nossos cérebros interpretam os dados de acordo com as suas presunções e chegam a certezas erradas, que depois inquinam a investigação; a máquina detecta os conflitos e já é capaz de resolver alguns, atribuindo graus de confiança inversos às presunções que detecta; mas muitos ainda não consegue resolver.”


E então, corrigiste a lista?”


Não!”


Não?”


Enquanto a máquina estava no seu processamento, eu estive a ver a lista de mortes suspeitas e saltou-me à vista esta do Papa. Assassinarem um Papa?? Isso é muito revelador do estado actual da sociedade deles. Muito mais interessante que um crime passional qualquer, ou mafioso, ou por jogos de poder, que não acrescenta nada ao que já sabemos deles.”


Ahh, então puseste a MIA a analisar este...”


Claro! Pedi-lhe a reconstrução da morte do Papa. E ela surgiu logo com isto! Nenhuma lista de conflitos, nada! Para a MIA, isto é clarinho.”


Nem tanto... repara que ela não afirma que ele foi assassinado...”


Isso significa insuficiência de dados, mas se ele foi ou não assassinado já deixou de me interessar. A possibilidade de haver quem saiba do Evento é que me interessou!”


Pois é... e parece que quem sabe está disposto a tudo para que não se saiba...”


Isso fez-me pensar... no estado primitivo deles, o que será melhor? Serão capazes de usar o conhecimento do Evento utilmente ou vão entrar em paranóia?”


Já andam em paranóia com a treta do aquecimento global...


Eles já sobreviveram a Eventos... hão-de voltar a sobreviver... à rasquinha...”


Temos de pensar muito bem... será que está afinal certo quem não quer que se saiba? Esse alguém deve conhecer os Humanos melhor do que nós...”


Ufff, mais uma complicação... agora nem sabemos se devemos intervir ou não!”

terça-feira, novembro 20, 2007

Arcas de Noé



No passado, as grutas do Monte Carmelo foram o abrigo dos que se viriam a considerar “escolhidos” por terem sobrevivido ao Evento.
No futuro, os que já se escolheram terão melhor abrigo.

Para quem esqueceu o que já foi escrito

segunda-feira, outubro 29, 2007

Um Evento Presenciado pelos Humanos



Acerca do Vídeo

American Geophysical Union Press Conference, Acapulco, Mexico, May 23, 2007 - Part 1 of 7


Investigações da composição de uma camada anómala encontrada enterrada em vários locais do mundo revelam a presença de materiais de origem extraterreste. Uma possível origem seria a explosão de um corpo maciço, como um cometa, há 12 900 anos. Coincide com o desaparecimento de mamutes e outra megafauna e o início de um período frio conhecido como o Evento Younger Dryas. A cultura americana Clóvis, parece ter sido dramaticamente afectada, ou extinta, nesta mesma altura. Os oradores discutem numerosas evidências.


Aqui podem ler um resumo deste Evento e aqui podem saber mais

quinta-feira, agosto 02, 2007

Luz Apagada


Ena, olha-me esta!

Que se passa? Até empalideceste!!

Isto é sério... muito mais sério do que eu pensava...

Estás a falar de quê?

A Nature publicou um artigo onde se compara a pluviosidade com as projecções dos modelos climáticos incipientes que eles fazem; como detectou uma diferença, concluiu que isso era prova de que a actividade humana está a afectar a pluviosidade no planeta!!!!

?????

Sério!

Parece que cada vez entendo menos a cabeça dos humanos. Há qualquer coisa neles que me está a escapar... Isso não é novo, presumem sempre que os modelos estão certos, a realidade é que está errada... matéria negra, energia negra, Universo inflacionário, clima alterado pela actividade humana...não entendo, não encontro lógica nenhuma que suporte isto...

Mas esta fase “climática” é o máximo... O clima está sempre em evolução, como tudo no Universo, o futuro é sempre diferente do passado, até os poetas deles sabem disso. Sabem perfeitamente que o clima muda sempre, têm dados que remontam até há 100 milhões de anos atrás...

... e os cientistas desta geração resolveram que o clima que fazia na sua juventude é que era o clima “normal”! Fizeram a média dos valores entre 1961 e 1990, e declaram todos os desvios a esses valores como sendo uma anomalia!!! Se o clima continuasse igual é que seria uma “anomalia”!

Pois, mas estás a ver o que podemos concluir do facto de uma revista científica de topo publicar uma coisa destas, não estás?

Estou-te a perceber... assim nunca conseguirão descobrir o que vai acontecer...

Pois não, eles nunca aceitam nada que contrarie as teorias existentes e escolhem sistematicamente uma explicação simplória para o desajuste entre teorias e observações. Assim, é completamente impossível construirem teorias correctas. Será por se especializarem em campos muito estreitos e perderem informação contextual?


É uma possibilidade... ainda não sabem inserir a especialização no contexto... por isso é que os astrofísicos sustentam que a Terra estaria completamente congelada no passado, por ser o que resulta do seu modelo de universo.. em vez de concluirem que o seu modelo está errado.


Ah ah, errado... isso é impossível para eles... Alita, os teus humanos são terrivelmente arrogantes, é o que é!

Ainda te hei-de fazer gostar deles, apesar de tudo. As coisas não se explicam com essa simplicidade. Começo a suspeitar que existirá um defeito no cérebro deles... tenho de fazer umas investigações...

Isto está feio, nós não podemos interferir, eles não são capazes de descobrir...

Não costumas dizer que há sempre uma solução?

Pois, mas isto desmoralizou-me... sinto-me verdadeiramente impotente e sem esperança... pela primeira vez.


(imagem: Nasa, Wikipedia)

sexta-feira, julho 13, 2007

O Preço da Aventura

Há sempre um preço a pagar em qualquer aventura, não é?

Não, não se trata de dinheiro, isto não é uma excursão turística. Esta é uma aventura verdadeira, onde iremos ser surpreendidos por adversidades variadas, que nos cobrarão um preço.

Vamos enfrentar os maiores poderes da Humanidade: o Religioso, o Científico, o Mediático e até o Político. A princípio não se incomodarão connosco, mas depois terão de tomar posição; uma parte estará connosco, outra contra nós.

Se disserem certas coisas que aqui descobriremos aos vossos conhecidos, verificarão que alguns vão achar que não estão bons da cabeça; poderão mesmo tornar-se agressivos se insistirem.

E não adianta quererem esclarece-los: eles farão como os cientistas colegas do Galileu, recusar-se-ão a espreitar pela luneta.

(o Futuro não é de acesso fácil, mas foi-nos dada a missão de lá irmos; alguma profunda razão terá quem essa missão nos designou; saberemos quando lá chegarmos...)

Caros companheiros, não escolhemos esta aventura, fomos escolhidos. Eu estou no papel de guia, por enquanto, porque talvez saiba ler os sinais desta fase, já conheço parte do alfabeto; mas sou tão escolhido como qualquer um de vocês, tanto os que comentam como os que apenas lêem.

E, como raramente os guias iniciais chegam ao fim da jornada, essa tarefa estará reservada para outro ou outros, quem sabe se alguns de vocês?

Não nos podemos recusar, não é verdade? Afinal, esta é uma aventura verdadeira, não é como ficar no sofá a ver um filme de aventuras, nem é como imaginar um enredo para uma novela; aqui somos as personagens reais, não de ficção. Não sabemos o que nos trará a próxima curva do caminho.

quarta-feira, maio 30, 2007

Quem lê, entenda


Todo o Sul de França se encontra agora em chamas, estando em curso a maior evacuação de pessoas jamais realizada em território europeu. A conferencia de Paris vai aprovar medidas drásticas de combate ao aquecimento global. Às 20 horas apresentaremos uma reportagem exclusiva sobre os últimos desenvolvimentos, logo a seguir à habitual conferência de imprensa dos líderes mundiais.
- Desliga isso, já nada do que a televisão diz nos pode interessar. Tens os últimos resultados do nível de metalicidade do Sol? – perguntou, impaciente, o mais velho.
O outro baixou o som do televisor e respondeu desinteressadamente - Que interessa isso? Já passou do nível crítico, vai ser antes do próximo máximo, nem é preciso telescópio para ver as manchas ao longo de todo o equador solar...
- Desculpa, claro, é do stress. Esta espera dá-me cabo dos nervos.
- O quê, estás farto de esperar? – o mais novo, na casa dos trinta, pele morena denunciando as suas origens latinas, soltou sonora gargalhada, atirando a cabeça para trás com gosto.
Um leve sorriso descontraiu um pouco a face tensa do outro – Realmente... é um bocado ridículo... estar a desejar que aconteça...
O jovem ficou então sério – Estamos mesmo decididos, não é verdade? – perguntou com uma voz saída do fundo dos pulmões e da alma também.
- Eu estou. Este observatório tinha por finalidade descobrir isto atempadamente; como chefe dele, estou como o comandante de um navio que se afunda. A tua decisão é que não me parece muito racional.
- Mas é, podes crer... embora... – riu-se novamente – embora nós sejamos homens de fé e não de razão! – outra sonora gargalhada rematou a frase. Mas curta; subitamente sério, o jovem continuou – quero testemunhar o que vai acontecer, quero estar nas mesmas condições de toda a gente que vai sofrer isto na pele. Se o fizer, e se sobreviver, poderei ajudar. Agora, se for lá para baixo com os outros e sair do abrigo depois da explosão, qual será a minha moral para enfrentar as pessoas? Dirão: sabias que isto ia acontecer e não nos avisaste?
- Os grandes líderes não são da tua opinião... estas vídeo-conferências deles... percebe-se que estão a fazê-las de abrigos... há mais de um mês que estão dentro de abrigos... os seus assessores devem ter concluído que avisar a humanidade iria causar mais pânico e mais estragos do que a própria explosão... optaram por continuar a culpar o dióxido de carbono; assim, depois podem dizer que não sabiam de nada...
- Pois, conclusão muito cómoda para eles.
- Não os podemos criticar pois não? A opção do Papa não foi, no fundo, a mesma?
- Sei lá... preferiu apoiar esses grupos que anunciam que a cólera de Deus se vai abater sobre os infiéis e os pecadores... Assim, depois, pode dizer que a Igreja bem avisou que o braço de Deus iria punir a humanidade – o braço do jovem moveu-se no ar mas conteve-se no momento de bater no braço da cadeira.
- Parece cruel, mas isso pode garantir a continuidade da Igreja após a catástrofe. E as pessoas vão precisar mais do que nunca de acreditar num Deus. Os sobreviventes vão pensar que foram eleitos por Deus para serem salvos, e essa fé dar-lhes-á forças... e bem irão precisar delas...
- Talvez tenhas razão mas eu não sou político, sou um cientista jesuíta.
Os dois homens calaram-se. Os olhares estavam fixos no écran, onde imagens de incêndios, fome e conflitos se sucediam. Finalmente, o chefe quebrou o silêncio.
- Esta estupidez do aquecimento global e do dióxido de carbono... comentou entre-dentes.
- Realmente – concordou o jovem – como é possível um disparate destes ter-se mantido tanto tempo! Combater o frágil dióxido de carbono, o gás vital da vida, como é possível tal nível de imbecilidade!!! – agitou-se, tinha ali um tema que lhe permitia dar algum escape à sua adrenalina de jovem. O mais velho já sabia o que se seguiria, e procurou acalmá-lo – Foram os interesses, não te exaltes, interessava a toda a gente, os governos criaram novas taxas, novas indústrias floresceram, os ecologistas ganharam protagonismo, as pessoas tinham uma explicação para tudo o que corria mal e a quem culpar... os ricos ficaram mais ricos, e a culpa foi para toda a gente e para o dióxido de carbono...
-... pois, e os cientistas que apoiavam a teoria ganhavam fundos – acrescentou inconformado o jovem jesuíta.
- O financiamento sempre foi o grande problema da Ciência.
- A Academia Linceana já foi fundada por causa disso... acrescentou o jovem com um ar tão longínquo como a Academia Linceana. Subitamente agitou-se - Eu estava a esquecer-me de algo que te quero dizer a propósito da tua decisão de “ires ao fundo com o navio”. Tu não tens a minha idade, dificilmente sobreviverás, não vejo a utilidade da tua decisão. E tu não te podes considerar responsável por só recentemente termos descoberto o fenómeno das expulsões estelares. Há que séculos que tentamos descobri-lo! Para isso é o Vaticano apoiou o Copérnico e o Galileu, para isso é que tem a maior colecção de meteoros do Mundo, para isso é que tem este observatório no Monte Graham, um dos melhores observatórios ópticos do Mundo, como já o eram o de Tucson, o do Castelo Gandolfo e anteriores. Há mais de mil anos que andamos a tentar entender a “personalidade de Deus”, como eufemisticamente dizemos. Ou seja, que andamos a tentar entender que fenómeno é este de que falam as escrituras e que as pessoas chamam de “fim do mundo”. Não és tu, ou eu, ou qualquer um de nós o responsável de o não termos conseguido, fizemos tudo o que pudemos. Aliás, não está escrito que ninguém sabe quando ocorrerá, nem o Filho? Se o tivéssemos descoberto estaríamos a contrariar o que está escrito!
- Deve ser por isso que o Vaticano já anda há bastante tempo a divulgar a ideia de que o braço de Deus vai escaqueirar isto tudo... ou não acreditava que descobríssemos, ou já sabia doutras fontes, ou jogou pelo seguro...
- Isso é bem visto... desde Fátima, não é?
- Pois, ouve – com ar calmo e seguro pôs a mão sobre o braço do jovem, tentando transmitir pelo toque a certeza que o animava - eu entendo a tua visão de homem de Fé e confiante numa Sabedoria Superior. Mas eu sou obrigado a ter uma visão mais pragmática. Era nosso objectivo descobrir a tempo. Cabe-me a mim a última responsabilidade e seria impensável reservar-me uma sorte diferente da das outras pessoas.
- Agora está tu a ser romântico em vez de pragmático. Encontras justificações para os responsáveis políticos safarem a sua pele mas não as queres para ti. Afinal, mesmo que nós não o tenhamos descoberto a tempo, houve quem o fizesse, não te esqueças...
- Sim, mas ele deu um passo grande demais para a ciência, que se move em passinhos curtos. Mas nós, que não temos as limitações da Ciência, que sabíamos do fenómeno, deveríamos tê-lo entendido. Acho que no fundo, ao fim de tantos séculos de pesquisa, já duvidávamos que o fenómeno pudesse voltar a acontecer...
Os dois homens mergulharam em silêncio profundo. O jovem ainda ruminou – pois, mas a ciência também sabia que existe um fenómeno que de vez em quando causa extinções maciças e desde o fim do século XX que se sabe que não é um meteoro nem é a actividade vulcânica... deveriam ter prestado mais atenção ao assunto...
O silêncio envolveu de novo os dois homens. O écran mostrava imagens da conferência de líderes, que os dois olhavam sem ouvir.
- O Sol já se pôs – comentou com ar casual o jovem – os outros devem estar a aparecer.
- Sim – concordou num sopro o velho jesuíta, quase sem mover os lábios, os olhos nas imagens do écran, o olhar muito distante. De repente disparou – tu ainda tens aquela ideia de que estas explosões determinam um salto evolutivo?
- Claro! – o jovem sorriu-se – tudo isto são dores de parto. A seguir virá a próxima geração de humanos. Isso também está escrito... homem de pouca fé!!!
Um ligeiro sorriso iluminou suavemente a face cansada do mais velho. Talvez tivesse razão, talvez tivesse de ser assim...