segunda-feira, março 23, 2009

Darwin 200



. Lisboa, Congresso Feminista 1928


Advertência: o texto seguinte é o de uma carta imaginária enviada à revista Nature no âmbito do debate sobre a investigação da relação raça-inteligência, a propósito da comemoração dos 200 anos de nascimento de Darwin. Mas não é tão imaginária como isso; ela traduz uma corrente de pensamento. Que usa argumentos muito mais graves do que os aqui apresentados, porque associa inteligência a raça, enquanto eu só refiro a relação inteligência-genes. Mas nem imaginariamente eu seria capaz de escrever uma carta com o tipo de pensamento de algumas que estão publicadas. Notem que isto não é a minha opinião, pretende ser o retrato da posição dos defensores do «sim» a essa «investigação». Depois da carta vem o desafio aos leitores.


Ao
Editor da revista Nature


Exmo. Senhor

Desejo começar por saudar a iniciativa de colocar em discussão nessa tão prestigiada revista científica o interesse da investigação da ligação inteligência-raça, parada por medo de inconvenientes que nem de perto se comparam aos inconvenientes de a não fazer, por razões que passo a expor.

É sabido que a resistência de uma cadeia é determinada pelo seu elo mais fraco. O mesmo acontece com a sociedade humana. O enorme desequilíbrio entre o grau de desenvolvimento dos diferentes grupos humanos patenteia à saciedade que eles têm diferentes níveis de inteligência.

A sociedade sofisticada que construímos exige pessoas com determinada capacidade intelectual que simplesmente já não está ao alcance de determinados grupos humanos. Isto é sabido há muito e não é uma situação que se possa manter porque as pessoas que não conseguem compreender a sociedade reagem da maneira que é própria dos seus cérebros quando enfrentam algo que não compreendem: com a violência.

Esta violência explode de muitas maneiras; por exemplo, jovens cujos genes não lhes permitem a inteligência necessária à compreensão da sociedade e que acabam por atacar a tiro colegas, professores e suicidarem-se. Este é um claro exemplo de como o conhecimento dos genes responsáveis pela inteligência poderia ser útil. A menor inteligência tem de ser considerada como uma doença, uma doença genética. Uma doença que a investigação da relação genes-inteligência pode vir a tratar no futuro.

Mas eu comecei pelo aspecto menos grave. Subindo na escala de gravidade, encontramos os fundamentalistas religiosos. Um cérebro menos inteligente exibe acentuadamente esta característica: tem de encontrar um culpado de tudo o que de mau lhe acontece. Por isso, as culturas primitivas estão recheadas de divindades malévolas e bruxas: para explicar as coisas boas não é preciso inventar uma divindade, mas as más têm de ter um culpado. Faziam sacrifícios para apaziguar essas divindades malévolas. A fim de ultrapassar essa visão destrutiva da existência, homens inteligentes criaram uma religião com um deus do Mal, Satanás, sem o qual a religião perde todo o sentido nesses cérebros primitivos, e o do Bem, mais poderoso, que na religião cristã se designa simplesmente por “Deus”. Esta tentativa de controlar as pessoas de menor inteligência não resulta, porque estas transformaram o deus mais poderoso, “Deus”, num deus colérico, capaz de escaqueirar o mundo quando se irrita, punindo igualmente «justos» e «pecadores». Assim, estes crentes sentem-se legitimados a agir contra todos os que não seguem o seu deus, pois esse comportamento pode despoletar a divina ira e fazer deles, que são «justos», tão vitimas como os outros. Porque Justiça só será feita no dia do Juízo Final, até lá, pagam todos por igual.

Deve dizer-se que na criação do mito do «Deus Colérico» esteve também a mão de homens inteligentes da Igreja, que viram nesta crença o mecanismo de expansão da sua religião – é o medo da cólera divina que move os esforços missionários, não é a vontade de «salvar almas». Periodicamente o Vaticano alimenta o Deus Colérico com artigos no seu jornal oficial, porque ele é o seu instrumento de poder.

O recente discurso do presidente Obama sobre as religiões ignora que parte dos destinatários não têm a «Razão» necessária para o entenderem. Se tivessem, o problema não existiria, não é verdade? Além de ineficaz, o discurso é contraproducente, porque essas pessoas movem-se com a força e o desespero que o medo do deus colérico lhes dá; e agora ficaram ainda com mais medo.

É por isso que os políticos usam sempre a «mentira conveniente». As verdades não precisam de ser ditas e não serve para nada dizê-las. Para alterar os comportamentos das pessoas é preciso enganá-las. Como se faz com o aquecimento global por exemplo; e é tão fácil!
Mas podemos subir ainda na escala de gravidade – basta olhar para África para encontrarmos o elo mais fraco. A sociedade moderna tem uma capacidade de destruição que não é compatível com a existência de pessoas de menor inteligência. Em vez de um jovem aos tiros numa escola, acabaremos por ter povos a lançar bombas nucleares contra o resto do mundo. A Guerra e a Violência são a linguagem das pessoas de menor inteligência. Temos de ter presente que a exclusão social que vão sofrendo é inaceitável para elas, causando-lhes grande sofrimento e revolta, que apenas pode ser apaziguada com a destruição da sociedade à qual não conseguem pertencer.

A única solução não violenta encontrada até agora para este problema foi a Eugenia. Esta investigação em debate cria a possibilidade do tratamento genético. Recusar a Genética é optar pela Eugenia. Note-se que já se estuda a relação genes-violência com vista a tratar geneticamente as pessoas com genes de violência; mas a verdadeira fonte da violência é a falta de inteligência para entender suficientemente o mundo.

Recordemos brevemente o percurso da Eugenia.

Between 1934 and 1976, when the Sterilisation Act was finally repealed, 62,000 people, 90 percent of them women, were sterilised. 15-year-old teenagers were sterilised for "crimes" such as going to dance halls.

Onde é que isto se passou? Na Suécia!!!!! Mas também nos EUA, Noruega, Dinamarca, Áustria, Finlândia, Bélgica e, é claro, na Alemanha nazi. E certamente em muitos outros países. O desenvolvimento da Eugenia nos EUA foi até encarado como filantropia, pois visava a construção de uma sociedade melhor, mais avançada. E os resultados parecem confirmar a actuação, pois os países que dão hoje cartas no mundo tiveram grandes programas de eugenia.

Hoje, a Eugenia já não precisa de recorrer à esterilização forçada. Temos a Eugenia Económica. A sociedade estrutura-se de tal maneira que os que ganhem menos do que 60% do rendimento médio não têm recursos para ter filhos, extinguindo-se assim os seus genes. É a Lei da Selecção Natural aplicada na natureza de hoje, que é a Sociedade Humana.

Na Europa os resultados começam a aparecer. Veja-se o caso de Portugal. A situação não é ainda muito evidente porque os subsídios europeus e o endividamento crescente têm escondido a pobreza portuguesa. Mas os subsídios europeus serviram apenas para verificar que os portugueses simplesmente não têm inteligência suficiente para pertencer à sociedade que pretendemos. Veja-se as inacreditáveis taxas de abandono escolar, o que demonstra bem o baixo nível de inteligência de alunos e professores, de toda uma impensável sociedade que se preocupa em limitar o acesso à licenciatura em vez de combater a exclusão escolar.

A exclusão do sistema de ensino é uma forma de eugenia, pois muitas destas pessoas não terão qualquer oportunidade na vida, não se reproduzirão. Suponho que nenhum país levou a eugenia tão longe como o fazem os portugueses actualmente, usando para tal, não de forma consciente como outros o fizeram mas por pura falta de inteligência, o sistema de ensino. Só que este processo é suicidário, pois um mau sistema de ensino prejudica todos. Por alguma razão, só um povo manifestamente pouco inteligente o usa.

Os resultados tão dramáticos desta situação geraram um fluxo de portugueses para África, onde a sua baixa inteligência encontra sociedades compatíveis, e um fluxo de imigrantes de um nível intelectual acima dos portugueses.

E este é o paradigma que se está a instalar na Europa: as pessoas de menos inteligência das sociedades mais avançadas emigrando para as sociedades mais atrasadas e as destas para fora da Europa. Os que não emigram, não se reproduzem. Resolve o problema da Europa mas não resolve o problema do Mundo, cada vez mais dividido entre os que fazem o progresso e os outros. No fim, só poderá haver um.

O cérebro humano tem um lado racional e outro instintivo. «Razão» e «Instinto». Dois cérebros em cada cabeça. Quando a «Razão» não é capaz de fazer face aos problemas, o «Instinto» assume o controle. E reage como lhe é próprio, isto é, com violência. Para conseguirmos uma sociedade melhor temos de garantir que as pessoas dispõem todas de «Razão» quanto baste. Para o conseguir, a escolha actual, dado que rejeitamos a guerra e o genocídio, é entre Eugenia e Genética. Quem está contra uma, está a favor da outra.”


Aqui fica o perigoso desafio que vos faço esta semana: que comentários fazem a esta carta muito pouco imaginária? Desafio perigoso e frustrante, porque o vosso raciocínio, alicerçado em ideias erradas sobre a evolução das espécies, terá dificuldade em construir constestação sólida. É por isso que o debate se coloca e se arrasta.
O propósito deste texto é mostrar como é importante ter ideias correctas sobre o processo evolutivo. Porque não é por acaso que este debate na Nature surge a propósito do bicentenário de Darwin.

20 comentários:

antonio - o implume disse...

Os seus posts começam a ficar tão compridos como os meus... para responder ao desafio tenho que voltar a ler a carta.

alf disse...

mas tem tempo... o próximo não sairá antes do fim da próxima semana.

O desafio é para contestar o post, mostrar que esta conversa está toda errada! é um «post ao contrário», não se pede o aplauso dos leitores mas a sua crítica.

CSousa disse...

Bem, a carta é no mínimo perturbadora...

Duas coisas que se podem apontar:
- dizer que os jovens cometem massacres por não terem genes que lhes permitam compreender a sociedade parece-me estupidamente redutor e simplório.
- os "autores" reduziram os factores da "evolução" à inteligência.

alf disse...

CSousa

Obrigado pela coragem de tão pesada leitura!

Tem toda a razão no que aponta.
A primeira questão que se põe acerca desses jovens é saber ocmo era o ambiente familiar. Coisa estranha, ainda não vi isso referido. Mas é referido muitas vezes que «havia muitas armas em casa»

Parece que isto bastaria como explicação mas é evidente que não basta. Há outra pergunta a fazer: porque é que havia muitas armas em casa? E então começaremos a chegar à origem do problema: os pais!

Qual é a atitude dos pais, ou de um deles, em relação à sociedade? Possivelmente já seria muito agressiva, as armas em casa já eram a expressão de uma vontade subconsciente de agredir a sociedade, pois não eram para defesa nem para coleção.

Será que esta atitude foi «herdada»?

Quanto à questão da inteligência, é isso mesmo, a «inteligência humana» é uma coisa muito complexa que ninguém sabe definir, é um conjunto vasto de capacidades, diferentemente desenvolvidas em diferentes pessoas.

A evolução das sociedades humanas é uma coisa irregular, com longos períodos de «estase» e de retrocesso, por causas várias. Estes raciocínios aplicados ao tempo aureo dos faraós levariam à conclusão que os habitantes do continente europeu tinham genes defeituosos que os tornavam menos inteligentes; e podemos recuar largos de milhares de anos e encontrar civilizações muito desenvolvidas no oriente que poderiam pensar o mesmo dos outros habitantes do planeta.

O problema é que não se sabendo explicar donde surgem estas diferenças de desenvolvimento, estes argumentos convenientes para os que estão por cima surgem imediatamente e parecem suportados pelos factos através de raciocínios simplórios.

Diogo disse...

Esta carta imaginária é sua, Alf?

Onde é que queremos chegar?

UFO disse...

Na carta existem erros que perpassam de cima abaixo:
A confusão entre inteligência e conhecimento será o principal.
Quanto à inteligência pressupõe a hereditariedade como factor único da sua formação.
Ora a inteligência desenvolve-se pela prática e exposição aos estímulos. A base genética propicia um melhor ou menor potencial, mas a educação e instrução (treino) desafiantes são muito mais importantes.
também não tem fundamento científico a afirmação redutora "...exige pessoas com determinada capacidade intelectual que simplesmente já não está ao alcance de determinados grupos humanos. Isto é sabido...". Eu desconheço testes que corroborem a afirmação. É uma afirmação preconceituosa.

A violência, a crença no castigo de Deus e tantos outros males são fruto da ignorância e da impotência perante a adversidade. Quanto se perde a auto-determinação individual (económica, intelectual,...) tem que se culpar alguém (os outros ameaçadores ou Deus).

Outro erro está aqui manifesto "..É sabido que a resistência de uma cadeia é determinada pelo seu elo mais fraco. O mesmo acontece com a sociedade humana..."
A sociedade humana pode ser melhor representada por uma rede de neurónios e não por uma simples cadeia. No cérebro nem todos os neurónios ou estruturas são igualmente importantes para o funcionamento, mas todos não são demais e existe uma função atribuível mesmo aos menos aptos.

A mentira conveniente funciona sempre com uma sociedade mal informada, com segredos, compadrios, propósitos muito egoístas por vezes escondidos em altruísmos.

Para se desenvolver a noção de sociedade temos de diminuir a noção de que 'possuímos' e aumentar a ideia de 'gerimos' recursos comuns a todos.
Mas como os recursos são limitados devemos procurar também limitar o crescimento de humanos a um valor mais equilibrado com o meio ambiente.
Outro erro abusivo está na frase "...Recusar a Genética é optar pela Eugenia..." ao estar a negar à Vida a superior inteligência que tem mostrado ao encontrar sempre um caminho evolutivo, com diversos vectores projectados para futuros diferentes, traduzindo "usa cinto e suspensórios".
Quem julgamos nós que somos, e donos de que saber, para podermos decidir quais as características melhor adaptadas para o futuro?
Eugenia: existiu controlo de resultados? quem escolhe?, critérios para escolha dos que escolhem, para escolha dos critérios, definição de 'limites'...
São tudo questões em aberto porque mesmo a afirmação de que países que a aplicaram pertencem ao conjunto de países melhor sucedidos pode ser circunstancial. Existem países bem sucedidos que nunca a aplicaram.
Numa sociedade em que o dinheiro está desfasado dos bens reais fica difícil de gerir. A sociedade devia existir para criar bens comuns numa plataforma mínima de sustentabilidade para as pessoas.
Como está agora, com produção global e dinheiro concentrado em poucos pólos de desenvolvimento estamos a ver uma sociedade que não serve às pessoas.
Precisamos de preservar todas as formas de saber fazer, mesmo que arcaicas e menos produtivas, porque não podemos saber se não iremos alguma vez estar dependentes delas. Só a diversidade pode assegurar um futuro.
Aliás a Vida para poder acautelar o futuro investiu na diversidade nos últimos milhões de anos (os recursos de energia baixaram- CO2 e energia solar) e mesmo nos genes subsiste adormecido o saber antigo. As novas funcionalidades vêm por acréscimo e as antigas ficam lá ainda que adormecidas. Sendo necessário a vida pode Involuir para soluções do passado.
(Aqui estou a falar por convencimento mais do que por ter certezas, embora desejo estar com razão)
Na Eugenia o grupo com mais dinheiro e poder compra/impõe os seus interesses. Ora a Vida desconheceu por completo o valor do dinheiro e foi bem sucedida até agora. Não vamos nós estragar uma solução que sempre funcionou bem.
Quanto à Genética é muito necessário que se investigue o máximo e que se aplique criteriosamente quando se possa evitar males conhecidos de antemão.
Mas nunca para fabricar 'super-homens', 'imortais' e outras aberrações. Quem sabe se um dia precisaremos de 'construir' características para meios novos e adversos que o futuro nos empurre.
Devemos democratizar o ensino, fomentar o gosto por estudar e por ensinar. Quebrar todas as barreiras ao conhecimento e à liberdade de expressão.
Apostar numa sociedade para as pessoas. Melhor, as pessoas têm que refundar a sociedade para terem mais tempo para lazer e estudar.

Genes-violência, sim existe alguma ligação, mas uma carência de afectos dá sempre um mau resultado que passa de pais para filhos e não pela base genética mas por comportamentos vividos.

Portugal e os Portugueses são estranhos de facto. Vivemos num local com óptimo clima, ora defendendo-nos dos estranhos ora assimilando-os. Não devemos ser burros de todo porque estamos num local com potencial de cobiça.
Teremos ficado preguiçosos por falta de estímulos/dificuldades?
Achamos que somos os maiores e que qualquer solução pode ser desenrascada de improviso?
Temos alma de artista despreocupado e dados a poesias?
Acho que vivemos numa cultura de facilitismo.
Estudar dá trabalho, é preciso ler e é uma canseira. Mas só investindo no conhecimento podemos melhorar, até os governantes seriam melhores.
Desculpem por tantas palavras de uma assentada.

alf disse...

UFO

Vou responder com excertos de uma das cartas publicadas no debate da Nature que refiro, assinada por Gerhard Meisenberg

Por exemplo

"People have a strong desire to believe in a just world. The increasingly atheist intellectuals of the twentieth century gave up their belief in divine justice only to substitute for it the more 'scientific' belief that Mother Nature is just: that nobody is disadvantaged by his or her genes, and the undeniable inequities in the world are exclusively man-made. But the belief that individual differences in intelligence are unaffected by genes was shot down by a barrage of behaviour–genetic studies during the 1980s. Now science is threatening the very last bastion of the just-world belief: that Mother Nature cannot be blamed for inequities between entire nations and population groups."

Um facto que suporta a ideia da diferença de «inteligência» raças é apontado como:

"The relevance of race-and-intelligence research is obvious ('Should scientists study race and IQ?' Nature 457, 786–788; 2009 and Nature 457, 788–789; 2009). The most troubling feature of the world economy today is not the financial crisis, but the enormous difference in wealth, technological and cultural creativity, technical know-how and social organization between countries. The per-capita gross domestic product (GDP) is 30 times higher in the United States than in most African countries."

Curiosamente, este mesmo número, 30, foi a relação que obtive, se bem me recordo, entre o «suor do nosso rosto» e a riqueza produzida pelo sistema que construímos - isto em posts de meados de 2007 da etiqueta sociedade.


Os factos são estes: há grandes diferenças de desenvolvimentos em grupos dominados por uma ou outra raça; a explicação simplória que os mais desenvolvidos dão é que isso se deve a que eles são melhores - logo os outros têm deficiências.

Armados desta certeza:

"By not investigating the race–intelligence link, we not only perpetuate ignorance and the prejudice that thrives on ignorance. We also deprive ourselves of the possibility to tackle the existing inequalities, first by a judicious development policy and — should genetic differences indeed be important — by eventually changing the allele frequencies of the offending genes"

Repara que toda a argumentação repousa numa ideia de como a evolução se processa - geração aleatória de variantes (alelos); uns geram pessoas mais capazes, outros pessoas menos capazes; logo, as menos capazes, em condições "naturais" deveriam estar sujeitas à selecção natural e os seus genes seriam eliminados. Mas como nós somos uns humanos bestiais, em vez de eliminar-nos essas variantes, podemos «trata-las» geneticamente!

Não podes contestar as diferenças de desenvolvimento; não podes provar que não são devidas a diferenças de aptidão; resta provar que o mecanismo da evolução não é esse.

Eu fui buscar esta discussão raça-inteligência para mostrar uma consequências da ideia evolucionista primária do Darwinismo; mas há muitas outras, o nosso próprio sistema económico assenta nisso, a filsofia de vida, a ausencia de ética que mina a nossa sociedade justifica-se por aí.

O que está na raiz de muitas pessoas seguirem o ID não é apenas uma questão religiosa, é a recusa à maneira de pensar consequente ao darwinismo ou que se justifica com ele. Mas o ID tb é uma ideia com perigos.

é por isso que é necessário darmos um passo em frente.

alf disse...

Diogo

Suponho que a resposta que dei ao UFO esclarece as suas questões.

Fiz este post para chamar a atenção de que quando uma pessoa se declara adepto incondicional do Darwinismo está a abrir a porta a estes pensamentos; e a nós, portugueses, isto não convém nada, pois na escala do desenvolvimento estamos muito mais abaixo do que presumimos. E não podemos esperar que sejam aqueles a quem isto convem que mudem as coisas, temos de ser nós a fazer qq coisa nesse sentido.

CSousa disse...

Quanto a nós portugueses, se forem todos como eu, acho que a preguiça é um dos nossos maiores males.
Sinto-a entranhada nos meus genes. Ai... (desabafo)

antonio - o implume disse...

Muito interessante. E vem de acordo com as propostas para sairmos da crise.

Com efeito se baixarmos ainda mais os salários em Portugal, teremos uma esterilização da população portuguesa (de menor recursos) pela via económica. Esta castração do menos aptos projectará os melhores genes para o futuro.

Para ilustrar melhor o que digo, dou aqui alguns exemplos do património genético a preservar: Valentim Loureiro, Alberto João, Vale e Azevedo, Oliveira e Costa e claro está José Sócrates!

alf disse...

Csousa
A preguiça é algo bem complexo... se calhar o ser humano desenvolveu a inteligência por ser preguiçoso: teve de pensar em como sobreviver com menos esforço...

A preguiça é como o medo -todos temos...

alf disse...

António

Eheh.. boa demonstração de que ser «bem sucedidos» não significa que tenha o partimónio genético mais conveniente..

O perigo está em que a história é sempre escrita pelos vencedores, que tb desenvolvem as «verdades» científicas de acordo com as suas conveniências. E a estupidez do ser humano é ilimitada... por isso teorias como o geocentrismo puderam existir por milénios, a do Big bang continua, a do aquecimento global idem apesar das esmagadoras evidências do contrário.

Portanto, o que podemos esperar é um recrudescimento de ideias de eugenia, suportadas em «verdades científicas» definidas pelos que estão por cima.

isto porque somos gente a mais, começa-se a desenvolver a sensação de que é preciso aliviar «a carga do planeta», isto assim não é gerível.

as baleias fazem suicidios colectivos, dão à costa... nós somos mais espertos...

Joaninha disse...

Muito interessante, quase me dá vontade de ir buscar os livros de genética e melhoramento animal e afilar-me aqui consigo numa discussão a serio...Mas lá está eu sou....Adivinhem, portuguesa e só a ideia de ter de ir procurar os livros (que devem estar na quinta enfiados numa estante e cheios de pó) deixa-me logo de rastos...

Por isso faço a critica no genérico.

A inteligencia, na sua vertente de capacidade de aprendizagem é genética?

Os cães tem uma capacidade de aprendizagem inferior ao macaco, e o macaco inferior à nossa.

Assim a capacidade de aprendizagem, de uma maneira geral poderia ser considerada genética, se olharmos para varias especies.

Mas este conceito abarca totalmente a definição de inteligencia?

Não me parece.

A influência genética apenas define e muito tenuamente a predisposição para, não lhe coloca nenhum limite. Ou seja, genéticamente poderá haver algumas pessoas mais predispostas, por exemplo, para o raciocinio matematico que outras (assim como o alf), mas isso não quer dizer que as outras tem uma incapacidade definida genéticamente para aprender matemática, quer apenas dizer que tem menos predisposição em aprender (assim como eu, aliás nesse campo acho mesmo que sou limitada, mas não é genético porque a minha mãe é licenciada em fisica ;). Diga-se que existem pessoas que detestavam matematica e que se tornaram grandes matematicos, olho o tio Einy :)

Os factores externos que influênciam e estimulam essas predisposições genéticas, esses sim são verdadeiramente responsaveis pela inteligência, pelo conhecimento que adquirimos e pela nossa crescente capacidade de adquirir mais. Alias, por essa razão mesmo é que ninguem nasce ensinado, é porque genéticamente vimos todos apenas programados com o basico referente à nossa especie, tudo o resto vai sendo aquirido.

É certo que se especula se essas predisposições genéticas são hereditárias ou não.

Normalmente na descendencia de alguem com muito jeito para desenho, existe sempre alguém que tem muito jeito para desenho, então..poderá ser que estas predisposições sejam hereditárias. Mas na verdade esse descendente com muito jeito para desenho, se não for estimulado não vai desenvolver essa predisposição, poderá mesmo morrer sem nunca tentar desenhar...

Aqui ficam as minhas modestinhas contribuições.

beijos (eu e a minha falta de tempo, nunca consigo acabar um raciocinio...é outro dos meus problemas...heheheh)

alf disse...

Joaninha, interessante divagação sobre este assunto.
Portanto, em resumo, a sua opinião é que essa importante componente da Inteligência que é a capacidade de aprendizagem, é que terá uma base genética, mas que Inteligência é mais do que isso e existem factores de inteligência que têm um desenvolvimento condicionado pelo ambiente.

Bom, mas isso não contesta a argumentação da carta, que é a de que umas raças são capazes de produzir sociedades mais avançadas do que outras, em resultado de uma diferença de estrutura genética. Ou, pelo menos, era essa a ideia do debate, que eu modifiquei para «pessoas» em vez de «raças».

Note que não escolhi a figura do post por acaso. Pior do que dizem estas pessoas de algumas raças hoje, diziam os homens das mulheres há algumas décadas. E ainda dizem em muitas partes do mundo.

O mundo está cada vez mais na mão de pessoas «racionais»; que são pessoas a quem falta a capacidade de duvidar, logo seguem o primeiro raciocínio simplório que lhes surge na cabeça e que vá de acordo com os desejos do seu Ego. Estas pessoas são muito perigosas, porque têm poder e não têm autocritica mental. E, para contestar os seus raciocínios simplórios, temos de estabelecer raciocínios claros e factuais, de uma lógica tão simples e incontestável como os raciocínios simplórios que fazem.

É evidente que o ambiente tem uma enorme importancia. Mas os «vencedores» nunca o admitem.

Ainda há dias estive a mostrar a uma senhora licenciada que o mérito da sua licenciatura não era dela mas dos pais dela.

Acontece muito nas aldeias que aqui e ali surge uma familia onde todos os filhos se licenciam, enquanto que noutras famílias nenhum o faz. Se formos a analisar o quadro familiar, os que se licenciaram tinham pais que sempre tiveram isso como objectivo fundamental, enquanto que os pais dos outros não fizeram disso uma questão fundamental. Não é uma questão genética, é a vontade dos pais.

Mas as pessoas não pensam assim, pensam apenas que é por mérito próprio, porque são mais «dotados» do que os outros. O mérito existirá, mas não tanto o «dote».

Bom, mas para estabelecer um quadro que possa ser usado para contestar estas posições, precisamos de uma teoria sobre a base genética da Inteligência em moldes diferente da actual.

... temos de voltar ao Lamarck..

Diogo disse...

Quanto ao darwinismo, ao desenvolvimento do olho, ao comportamento do cuco, à passagem da lagarta a borboleta, nada…

Alice Valente disse...

Não será por acaso que a Inteligência é um termo recente e até pertença do vocabulário da Psicologia aquando esta surgiu há 200 anos. E também usada recentemente na Filosofia veio (quanto a mim) de uma forma indesejável, substituir aos que os filósofos sempre designaram, ora por Entendimento, ora por Pensamento. Assim e por tudo o que se tem vindo a fazer com todas as descobertas científicas associadas à Psicologia e em seus testes e QI's inteligentes, que se nos apresentam estas tais perigosas cientificidades e afins psicologias. E por suas absurdas e maléficas verdades e em quais tamanhas e respeitáveis alegrias que quereriam impor em seu redor.
Assim Francis Galton (1822-1911) foi um dos primeiros cientistas a obcecar-se com a Eugenia e a tirar imediatamente proveito das teorias da Evolução das Espécies desenvolvidas pelo seu primo Charles Darwin (1809-1882). Alfred Binet (1857 1911), pedagogo e psicólogo, foi num acaso (e para ajudar os seus alunos a estudarem), o primeiro a inventar um teste para medir a inteligência. Testes estes que começaram a entrar na moda e a serem desenvolvidos por psicólogos norte-americanos e a serem convenientemente ajustados à ideia de que a inteligência seria quantificável podendo através da eugenia, purificar a raça, que o psicologo Charles Spearman (1863-1945) e que influenciado por Francis Galton, desenvolveu uma medida, o factor g. E Cyril Burt Lodowic (1883 - 1971) para este psicólogo a inteligência mede-se como se mede a altura de uma pessoa. Apesar de nada se saber sobre a Inteligência e suas aptidões cognitivas e onde estariam alojadas no Cérebro, tentou tornar a inteligência quantificável e hereditária e até falsificou dados de investigação para conseguir o que pretendia.
Nas duas primeiras décadas do séc. XX, de mãos dadas Eugenia e Psicologia estavam assim completamente infiltradas por todo o lado e pelo imenso sucesso que estavam a ter e nas respectivas experimentações maquiavélicas que muito interessavam por quem as ditava e fazia no controle das pessoas e das populações. Que com tantos especialistas, psicólogos, freudianos e em muitos homens mal-intencionados à mistura, o eugenismo pôs-se efectivamente em prática com o nazismo. E foi o que foi de tão monstruoso. Ninguém poderá esquecer!
Mas não param, de vez em quando, lá voltam eles com as mesma ideias monstruosas e embora disfarçados por aí e até feitos de muitas cientificidades, soltam-se em suas horrendas ideias. E temos mais recentemente, o caso do Charles Murray (1943) e Richard Herrnstein (1930-1994), em que no livro A Curva Normal, para estes autores os negros são menos inteligentes do que os brancos e lá vêm outra vez com a lenga-lenga da selecção natural, do darwinismo, da inteligência e do eugenismos, numa revelação de criminosos cientistas que se julgam os donos do Conhecimento e em qual inteligência tão estupidificante.
Depois temos outros perigosos do racismo e do eugenismo, todos eles psicólogos: Hans Eysenck (1916 1997); Arthur Jensen (1923); J. Philippe Rushton (1943)...


E relativamente à carta deste post e à crise que nos assiste, subjaz a ideia de que através de uma selecção humana ou eugenia o ser humano à face da terra viveria racionalmente melhor. Só racionalmente e assim numa frieza de exclusão racionalista e social, mas e o resto, a Evolução e a Consciência... ?
Tal é impensável, porque para já, a se usar as meras teorias de Darwin deixaria de funcionar enquanto evolução e em sua de tal selecção natural, para passar a ser, uma selecção anormal e porque imposta intencionalmente por regras e leis não naturais.
Tenho por sinal presenciado, de alguma maneira através de conferências que vou assistindo, que alguns cientistas portugueses se encaminham por essas vias da ausência de ética e numa selectiva ideia entre o «menos apto» e «o mais apto» numa «luta pela existência», princípio que Darwin foi buscar ao economista Thomas Malthus (1766-1834) para o aplicar à biologia. Embora de uma forma camuflada, mas tendencialmente tem-se vindo a revelar este tipo deinsensibilidades e a saírem-se muito mal nessas competitivas verdadezinhas, a todos esses que assim se protagonizam.
Quer isto dizer que esta especulação sempre se tentou fazer e agora até se está a tentar colocar-se às teorias de Darwin, quase como uma forma para justificar o que na realidade é completamente injustificável numa qualquer tentativa de uma Ignorância Estúpida dos que se pensam inteligentes, mas a nada devem a esse mesmo Entendimento para com que Inteligência.
Esta forma de inteligência que se quer atribuída ao Homem e em suas sociabilidades, não passa de uma mera inteligência estúpida ou inteligência esperta ou ainda nas muitas inteligências cordiais e simpáticas para além das muitas hipócritas e sabichonas máscaras a que elas estão sempre associadas e suas psicológicas ideias.
E para mim a Evolução ou o evoluir é um processo natural de todo o ser e que não passa só pela inteligência em que meras inteligências. É que a Inteligência mesmo que a queiram tornar de hereditária ela não éde maneira nenhuma a única forma associada à Evolução. E para que a Evolução se dê ou se efective com toda a naturalidade terá de haver outras componentes do Pensamento e que são: o Entendimento e a Intuição.
E isto porque a Inteligência diz unicamente respeito à cómoda apropriação através de soluções na dominação maquinal do espaço assente na sua respectiva racionalidade. É que o homem possui uma enorme capacidade e força psíquica, que está para muito para além da Inteligência. E tal como refere Bergson no seu livro A EVOLUÇÃO CRIADORA a demonstrar-nos como essa força da natureza que existe em nós, é completamente livre e imponderável e muito menos quantificável e, porque fora de qualquer âmbito do domínio de mecanicismos, está ao nosso dispor para um novo e futuro Entendimento em tudo o que é relativo ao Humanitário e em sua Natureza e,num aperfeiçoamento da vida no sentido de uma Evolução Criadora enquanto eleonomia ou vivificadora de um impulso inalterável e vital em si mesmo. E não numa mera evolução Darwinista e em quais inteligentes e progressistas selecções à priori, a dar assim espaço e azo a criminosos designers da monstruosidade humana.

Parabéns pelo blogue e ousado post, que não resisti a comentar.

alf disse...

Diogo
Os alunos sa escola estão habituados a que os professores lhes dêem problemas cuja solução já é conhecida; essa é a grande diferença entre Escola e Vida.

alf disse...

Alice Valente

Seja bem vinda e muito obrigado pelo seu excelente comentário. Conseguiu desnudar toda a dimensão do horror do pensamento das pessoas que, por falta de Inteligência, se cuidam muito inteligentes. Na lista do Moisés faltou talvez o pior de todos os «pecados»: a Arrogância. Que, difarçada de humildade, é capaz de gerar as piores catástrofes.

Para os combater, é preciso construir um edífico lógico, simples, demonstrável, que eles consigam entender porque eles simplesmente atrofiaram as outras capacidades pelas quais obtemos conhecimento - eles são «cegos» e não sabem.

Anónimo disse...

Ainda bem que a carta é imaginária. E espero que continue nessa dimensão porque muitos factos dados como verdadeiros não o são: 1- Os pobres não têm filhos: basta passar pelos antigamente denominados bairros da lata. Para mim até têm demasiados filhos para as posses que têm.Mas para uma informção mais fidedigna talvez os censos ajudem.
2-Quanto à limitação à licenciatura, penso que o problema mais garve é o da ilitracia dos lcenciados. A exigência de conhecimentos é gritante. Há até quem diga que no 1º ano da Faculdade não se pode dar matéria nova. Serve unicamente para nivelar os conhecimentos de todos os alunos. E que dizer da fraude das novas oportunidades. Só de pensar que depois daqueles trabalhinhos ficam com equiparação á licenciatura e podem entrar na faculdade.
Bom esta é a forma como vejo a realidade. Mas já se sabe que a realidade é muito pessoal.
Mas gostei o blog.

alf disse...

Anónimo

Obrigado pela sua visita.

O conceito de pobre a que me refiro não é bem esse; esse já pertence à categoria de excluido social, não está sujeito Às regras da sociedade, vive à margem dela.

Pobres são as pessoas que ganham menos de uns 1500 euros por mês e que vivem de acordo com as regras da sociedade. Ou seja, a grande maioria das pessoas. O dinheiro vai todo para as despesas essenciais e o que eventualmente sobre nem de perto chega para suportar as altas despesas que criar dois ou três filhos na sociedade exige.

Por isso, a taxa de natalidade dos paises como Portugal, na cauda dos paises avançados, é tão baixa - é um país de pobres a viver dentro do sistema.


A ilitracia em Portugal é um problema que se instalou porque não foi combatido, pelo contrário, foi alimentado. Sabe-se há muito como se pode pegar nos filhos dos camponeses e operários e dar-lhes igualdade de oportunidades, através dos serviços sociais e do pré-primário; mas cá, concientemente, não se fez isso porque as classes dominantes e média queriam manter o estatuto de classe. O nosso atraso neste matéria não é fruto apenas de incompetencia, é uma escolha propositada. Da generalidade da classe média, no fundo, que tinha muito receio que «depois não houvesse ninguém para arranjar as torneiras». A classe média portuguesa foi ostensivamente contra a igualdade de oportunidades.

Claro que quando se procura depois conseguir a massificação do ensino sobre uma base de pessoas não preparadas, com professores sem preparação, os resultados só podiam ser os que estão à vista.

Mas o remendo que se pode fazer agora não é manter um nível alto de exigência, mas sim adequar a exigência à capacidade dos alunos, para conseguir aproveitar ao máximo as capacidades.

Esta preocupação de aproveitar as capacidades, fomentar a igualdade de oportunidades, nunca interessou à classe média portuguesa, o que lhe interessou sempre foi manter o seu estatuto relativo. O desenvolvimento do País nunca foi um objectivo, como poderia ele ser desenvolvido?

Por último: fala-se muito da falta de exigência actual mas ignora-se a gritante falta de exigência do passado. Gastei muitas horas a emendar os trabalhos de licenciados do antigamente que chumbariam em qq exame do 9º ano actual. Já antigamente havia uma grande dispersão dos niveis de exigência, havia os «cursos» e os «recursos», como então se dizia.

A sua realidade não é nada pessoal, é o retrato das coisas. Precisamos de as encarar, compreender e aplicar as correcções certas. O que não é fácil.