Em 2005, o prémio Nobel Robert Laughlin publicou um livro algo revolucionário para os cientistas: A Different Universe (reinventing physics from the bottom down).
A tese fundamental desse livro, onde ele diz outras coisas muito importantes e «inconvenientes», é que a ideia de modelar o Universo apenas à custa da matemática e de leis fundamentais é um mito. E isto por duas razões.
Uma é a própria ideia de “Lei Fundamental”. As leis de Newton são leis fundamentais? Para um físico atómico não, são propriedades de corpos neutros, estruturas complexas cujas propriedades resultarão das propriedades mais elementares das partículas.
Serão as propriedades das partículas «leis fundamentais»? Claro que não, as partículas compõem-se, segundo a teoria atómica, de quarks. Serão as propriedades dos quarks as «leis fundamentais»? Etc.
O que acontece é que em sucessivos níveis de complexidade e em diferentes situações os sistemas exibem propriedades regulares, sistemáticas, que podemos designar por Leis ou Princípios. E, embora estas leis possam ser consequência das propriedades do nível anterior, não está na nossa mão obtê-las por dedução matemática, dada a complexidade dos sistemas naturais.
Isto é a base da Tecnologia. Ninguém projecta uma viga ou uma antena a partir das leis ditas fundamentais. Já imaginaram o que seria calcular os complexos movimentos dos electrões dentro de um condutor para daí deduzir as propriedades duma antena? Impossível, sem sentido. O que se faz é estudar as propriedades relevantes à escala que nos interessa e projectar a partir delas.
Porque é que isto é revolucionário para a Ciência? Porque a ideia de que a ciência «terminaria» com a descoberta (?) das leis fundamentais fica sem sentido. O próprio conceito de «Lei Fundamental» não tem cabimento. A Natureza apresenta comportamentos regulares e sistemáticos numa enormidade de escalas e situações e é o levantamento infindável desses comportamentos que permite modelar o Universo. Que é o que a Tecnologia vai fazendo, nas áreas que lhe vão interessando.
Porque é que isto é relevante para o nosso problema de prever o Futuro? Porque nos abre uma possibilidade de o fazermos: uma vez que existem comportamentos sistemáticos, traduzíveis em Leis, nas mais diversas escalas, o que temos de fazer é procurar, intuir, um comportamento, uma relação causa-efeito, que seja válido numa escala adequada ao Futuro que queremos prever.
Isto tem sido tentado, mas sempre numa óptica de encontrar o que se conserva, o que não muda, ou o que é periódico ou, pelo menos, extrapolável. E temos até uma lei que nos diz qualquer coisa sobre a evolução dos sistemas, uma lei termodinâmica, que diz que um sistema isolado evolui no sentido da desorganização.
A aplicação destes métodos e leis, no entanto, é decepcionante. A economia é talvez o ramo do conhecimento que mais se especializou nisto, tanto que até já há cientistas que investigam a aplicação dos métodos econométricos à previsão climática, mas os resultados continuam muito fracos. Quanto à lei termodinâmica, aplica-se a sistemas só com interacção «mecânica», o Universo ri-se dela evoluindo no sentido oposto.
Em conclusão, precisamos de uma propriedade do Universo que nos permita balizar caminhos do Futuro mas nada do que temos actualmente serve esse propósito.
Tenho vindo a referir que parece existir uma misteriosa propriedade, a que chamei Inteligência Natural, que faz com que os sistemas evoluam para a organização desde que exista energia adequadamente disponível. A disponibilidade de energia determinará se o sistema evolui para a organização ou para a desorganização e a velocidade a que o faz. Até já referi que se poderá medir a Inteligência Natural de um sistema pelo simétrico da derivada da entropia do sistema (ou seja, a velocidade de variação da negentropia).
Note-se que já em 1944, o grande Erwin Schrödinger, reconhecido como físico mas, tal como Poincaré, alguém cujo pensamento não conhecia fronteiras, considerou no seu livro «O que é a Vida?» (considerado a fonte inspiradora para a pesquisa do DNA) que a vida se alimentava de entropia negativa ou negentropia. Salientou como a natureza segue geralmente o princípio evolutivo «ordem a partir da desordem», enquanto a termodinâmica trata de «desordem a partir da ordem» e a vida se pode entender como «ordem a partir da ordem».

não, não é o «pianista», é o Schrödinger lá para 1933, ano em que recebeu o Nobel. Ele e Poincaré são dois dos pais do Conhecimento que está para chegar... (foto da wikipedia)
A compreensão do fenómeno do Desvanecimento permite-nos traçar um quadro muito geral do processo à escala universal: as «partículas» surgem com uma certa «energia»; esta expande-se na forma de campo, desvanecendo a partícula; o campo move as partículas e leva-as a organizarem-se em átomos, galáxias, estrelas, átomos pesados; este processo transforma parte da energia em radiação; aglomerados de átomos pesados, a que chamamos planetas, desenvolvem processos de associar átomos em moléculas; nalguns casos, as moléculas organizam-se em Vida; a Vida usa a energia da radiação para continuar a gerar mais organização na forma de sistemas de seres vivos; neste processo transforma-se a energia de alta frequência absorvida (luz) em energia de frequência mais baixa (calor).
Portanto, a Natureza ganha organização à custa da «desorganização» da energia inicial – que passa do confinamento em «partículas» para a indiferenciação na forma de campo e radiação.
A descrição acima é válida em grande escala; se analisarmos numa escala mais pequena, isso pode não suceder – por exemplo, surgiu vida na Terra e não (provavelmente) em Vénus. A razão que apresentei é que apenas a Terra teve as condições necessárias à formação das moléculas da vida em grande quantidade, pois teve uma pressão atmosférica de umas 300 atmosferas (indispensável à fixação dos átomos de azoto), algo que Vénus não teve. Portanto, temos de ter atenção à escala de aplicabilidade desta propriedade. A Inteligência Natural é como a difusão – um processo ordenado numa escala grande que resulta de um processo desordenado à escala molecular.
O termo «Inteligência» que tenho usado para designar esta propriedade presta-se a confusão com o conceito de inteligência humana; convirá arranjar outro termo. Alguém tem uma sugestão a apresentar? Entretanto passarei a usar a abreviatura «IN» para Inteligência Natural.
Será que este «princípio da Inteligência Natural» ou «princípio da IN» nos poderá servir para prescrutarmos as alamedas do Futuro? No próximo post vamos verificar como ele pode ajudar a compreender a história da civilização humana.