quarta-feira, agosto 20, 2008

O Princípio da IN (Inteligência Natural)


Em 2005, o prémio Nobel Robert Laughlin publicou um livro algo revolucionário para os cientistas: A Different Universe (reinventing physics from the bottom down).

A tese fundamental desse livro, onde ele diz outras coisas muito importantes e «inconvenientes», é que a ideia de modelar o Universo apenas à custa da matemática e de leis fundamentais é um mito. E isto por duas razões.

Uma é a própria ideia de “Lei Fundamental”. As leis de Newton são leis fundamentais? Para um físico atómico não, são propriedades de corpos neutros, estruturas complexas cujas propriedades resultarão das propriedades mais elementares das partículas.

Serão as propriedades das partículas «leis fundamentais»? Claro que não, as partículas compõem-se, segundo a teoria atómica, de quarks. Serão as propriedades dos quarks as «leis fundamentais»? Etc.

O que acontece é que em sucessivos níveis de complexidade e em diferentes situações os sistemas exibem propriedades regulares, sistemáticas, que podemos designar por Leis ou Princípios. E, embora estas leis possam ser consequência das propriedades do nível anterior, não está na nossa mão obtê-las por dedução matemática, dada a complexidade dos sistemas naturais.
Isto é a base da Tecnologia. Ninguém projecta uma viga ou uma antena a partir das leis ditas fundamentais. Já imaginaram o que seria calcular os complexos movimentos dos electrões dentro de um condutor para daí deduzir as propriedades duma antena? Impossível, sem sentido. O que se faz é estudar as propriedades relevantes à escala que nos interessa e projectar a partir delas.

Porque é que isto é revolucionário para a Ciência? Porque a ideia de que a ciência «terminaria» com a descoberta (?) das leis fundamentais fica sem sentido. O próprio conceito de «Lei Fundamental» não tem cabimento. A Natureza apresenta comportamentos regulares e sistemáticos numa enormidade de escalas e situações e é o levantamento infindável desses comportamentos que permite modelar o Universo. Que é o que a Tecnologia vai fazendo, nas áreas que lhe vão interessando.

Porque é que isto é relevante para o nosso problema de prever o Futuro? Porque nos abre uma possibilidade de o fazermos: uma vez que existem comportamentos sistemáticos, traduzíveis em Leis, nas mais diversas escalas, o que temos de fazer é procurar, intuir, um comportamento, uma relação causa-efeito, que seja válido numa escala adequada ao Futuro que queremos prever.

Isto tem sido tentado, mas sempre numa óptica de encontrar o que se conserva, o que não muda, ou o que é periódico ou, pelo menos, extrapolável. E temos até uma lei que nos diz qualquer coisa sobre a evolução dos sistemas, uma lei termodinâmica, que diz que um sistema isolado evolui no sentido da desorganização.

A aplicação destes métodos e leis, no entanto, é decepcionante. A economia é talvez o ramo do conhecimento que mais se especializou nisto, tanto que até já há cientistas que investigam a aplicação dos métodos econométricos à previsão climática, mas os resultados continuam muito fracos. Quanto à lei termodinâmica, aplica-se a sistemas só com interacção «mecânica», o Universo ri-se dela evoluindo no sentido oposto.

Em conclusão, precisamos de uma propriedade do Universo que nos permita balizar caminhos do Futuro mas nada do que temos actualmente serve esse propósito.

Tenho vindo a referir que parece existir uma misteriosa propriedade, a que chamei Inteligência Natural, que faz com que os sistemas evoluam para a organização desde que exista energia adequadamente disponível. A disponibilidade de energia determinará se o sistema evolui para a organização ou para a desorganização e a velocidade a que o faz. Até já referi que se poderá medir a Inteligência Natural de um sistema pelo simétrico da derivada da entropia do sistema (ou seja, a velocidade de variação da negentropia).

Note-se que já em 1944, o grande Erwin Schrödinger, reconhecido como físico mas, tal como Poincaré, alguém cujo pensamento não conhecia fronteiras, considerou no seu livro «O que é a Vida (considerado a fonte inspiradora para a pesquisa do DNA) que a vida se alimentava de entropia negativa ou negentropia. Salientou como a natureza segue geralmente o princípio evolutivo «ordem a partir da desordem», enquanto a termodinâmica trata de «desordem a partir da ordem» e a vida se pode entender como «ordem a partir da ordem».




não, não é o «pianista», é o Schrödinger lá para 1933, ano em que recebeu o Nobel. Ele e Poincaré são dois dos pais do Conhecimento que está para chegar... (foto da wikipedia)


A compreensão do fenómeno do Desvanecimento permite-nos traçar um quadro muito geral do processo à escala universal: as «partículas» surgem com uma certa «energia»; esta expande-se na forma de campo, desvanecendo a partícula; o campo move as partículas e leva-as a organizarem-se em átomos, galáxias, estrelas, átomos pesados; este processo transforma parte da energia em radiação; aglomerados de átomos pesados, a que chamamos planetas, desenvolvem processos de associar átomos em moléculas; nalguns casos, as moléculas organizam-se em Vida; a Vida usa a energia da radiação para continuar a gerar mais organização na forma de sistemas de seres vivos; neste processo transforma-se a energia de alta frequência absorvida (luz) em energia de frequência mais baixa (calor).

Portanto, a Natureza ganha organização à custa da «desorganização» da energia inicial – que passa do confinamento em «partículas» para a indiferenciação na forma de campo e radiação.

A descrição acima é válida em grande escala; se analisarmos numa escala mais pequena, isso pode não suceder – por exemplo, surgiu vida na Terra e não (provavelmente) em Vénus. A razão que apresentei é que apenas a Terra teve as condições necessárias à formação das moléculas da vida em grande quantidade, pois teve uma pressão atmosférica de umas 300 atmosferas (indispensável à fixação dos átomos de azoto), algo que Vénus não teve. Portanto, temos de ter atenção à escala de aplicabilidade desta propriedade. A Inteligência Natural é como a difusão – um processo ordenado numa escala grande que resulta de um processo desordenado à escala molecular.

O termo «Inteligência» que tenho usado para designar esta propriedade presta-se a confusão com o conceito de inteligência humana; convirá arranjar outro termo. Alguém tem uma sugestão a apresentar? Entretanto passarei a usar a abreviatura «IN» para Inteligência Natural.

Será que este «princípio da Inteligência Natural» ou «princípio da IN» nos poderá servir para prescrutarmos as alamedas do Futuro? No próximo post vamos verificar como ele pode ajudar a compreender a história da civilização humana.

terça-feira, agosto 12, 2008

Prever o Futuro: a inutilidade das Leis Fundamentais


Prever o Futuro, não é isso que mais nos importa? Saber que perigos, que Monstros se escondem no Futuro? E, mais do que isso, encontrar forma de os arredar do nosso Destino?

As antigas religiões foram a primeira estrutura que criamos com essas supostas capacidades, tanto a de prever como a de domar o Destino, recorrendo a rituais variados (danças, sacrifícios, mezinhas, orações).

O Conhecimento veio dar-nos novas ferramentas. A primeira foi a detecção de períodos. Diariamente o Sol se repete a repelir a noite, todos os 28 dias a Lua desaparece dos céus, todos os 12 ciclos lunares as plantas se renovam e dão as suas flores e seus frutos, os rios transbordam os seus leitos. Sete anos são de vacas gordas e sete de vacas magras (o ciclo das manchas solares). Parecia que todo o Universo estava inscrito em Ciclos. Dominar o Futuro era uma questão de conhecer os Ciclos do Universo. A Astrologia é a Ciência de excelência na procura de Ciclos, usando o grande Relógio dos planetas, não só o único disponível na Antiguidade como certamente o mais adequado, pois seria o relógio do próprio Relojoeiro.


influências astrologicas no corpo humano - da wikipedia





Mas afinal o Universo parece não se repetir assim tanto; a mesma água não passa duas vezes sob a mesma ponte. O universo flui, pode evoluir em ciclos mas estes parecem não se repetir exactamente. A expectativa de dominar os monstros do Futuro esmorece, os olhos dos humanos carregam-se de nuvens de preocupação; as videntes ganham favores dos lideres.

Mas eis que uma nova esperança surge com as newtonianas Leis da Mecânica! Agora sim, o Universo revelava as suas Leis Fundamentais! Conhecer o Futuro era uma mera questão de fazer contas. Passos de gigante deu então a Ciência, desnudando impiedosamente o Universo, revelando a impotência dos Deuses que as religiões tinham criado. Crescia aquilo que é capaz de fazer surgir água no deserto, criar maná e destruir os inimigos: a Tecnologia!

A Tecnologia não prevê o Futuro, o Futuro a Deus pertence, a Tecnologia é apenas o seu poderoso Arcanjo. Mas a Ciência podia agora prever o Futuro! Bastava fazer as contas. A Física estava terminada, como disse Lord Kelvin, esclarecendo que “O trabalho das gerações vindouras será apenas o de acrescentar algumas casas decimais às constantes físicas conhecidas”.

Um pequeno soluço perturbou brevemente este convencimento mas logo surgiu a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade para devolver o brilho ao ego dos cientistas. De novo a Ciência capaz de cavalgar as estepes do Futuro. Era só fazer as contas, porque os modelos do Universo estavam concluidos.


Bem, há sempre um chato em todas as histórias cor-de-rosa não é? O chato desta história foi o Poincaré.




o incrível Henri Poincaré - da Wikipedia



Pois o chato – não tem outro nome – do Poincaré resolveu analisar o comportamento de 3 corpos gravitacionalmente ligados (bem... havia um prémio...). Uma coisa simples, tipo Sol-Terra-Lua. E descobriu algo que o deixou siderado: que podiam existir comportamentos não-periódicos, irregulares, com mudanças bruscas de características. Insignificantes mudanças das condições iniciais podiam conduzir a cenários completamente diferentes a breve trecho. A determinação do Futuro do sistema tornava-se impossível porque é impossível conhecer as posições iniciais com precisão infinita e efectuar os cálculos com precisão infinita. A pequena nuvem de erro nos cálculos e na posição inicial logo se transformaria em nevoeiro impenetrável.

Um exemplo elementar do que acontece pode ser dado pela aplicação logística, na Wiki e aqui. Quanto ao problema dos 3 corpos, pode ver aqui, no 4ºexemplo, uma emulação do problema (muito interessante, não percam); se escolher «2 planetas» verá como uma diferença de 1% na velocidade inicial conduz a trajectórias completamente diferentes em pouco tempo.

Poincaré lançou as bases do que viria a ser a Teoria do Caos. Não se pense que este tipo de situação que ocorre com os 3 corpos é rara na natureza – pelo contrário, ela ocorre por todo o lado, desde os fenómenos de turbulência às paragens cardíacas.


A Teoria do Caos pode perspectivar que tipo de situações podem ocorrer, pode explicar situações que observamos, mas não pode prever se determinada situação vai ou não ocorrer e muito menos prever quando!


Vejamos então em que ponto estamos em relação à previsão do Futuro:

1- sistemas muito pequenos, como o dos 3 corpos, podem ter comportamentos caóticos que, por dependerem criticamente do conhecimento das condições iniciais e da precisão de cálculos, são imprevisíveis por emulação numérica – os fenómenos da natureza são qualitativamente complexos;

2- os sistemas da natureza não são pequenos; porque se compõem de muitos elementos, não podemos ter detalhe de cálculo que permita aplicar as leis fundamentais a cada elemento individualmente – os fenómenos da natureza são quantitativamente complexos;

3- Temos um problema de fundo com as nossas leis fundamentais pois elas conduzem inexoravelmente a um Universo que se desorganiza enquanto este é um Universo que se organiza.


Estamos tramados, não é?


Mas não somos de desistir pois não? Até dobrámos o Bojador... Se não podemos prever o Futuro por emulação numérica a partir das Leis Fundamentais, não haverá outras maneiras?

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sexta-feira, agosto 01, 2008

Nos teus ombros carregarás a Vida



5. “mas Deus sabe que no dia em que dele comerdes, os vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal".
6. Então a mulher notou como era tentador o fruto da árvore, pois era atraente aos olhos e desejável para se alcançar Inteligência (Sabedoria?). Colheu o fruto...”


Os antigos tinham esta arte: em curtas parábolas condensavam grandes conhecimentos. Uma «estória» é um excelente algoritmo de correcção de erro e fornece suporte seguro à nossa memória. Uma genial invenção para que a tradição oral pudesse passar o testemunho de geração em geração sem degradação da informação. As parábolas eram os livros de antes dos livros. Pena que a banalização da escrita nos tenha feito perder a arte de as entender.


Aquelas poucas palavras do Génesis 3 retratam um acontecimento da maior importância para a Vida na Terra. Todos os seres vivos contêm um programa que os comanda. Que determina os seus actos. Dizemos que são «os instintos». Esse programa determina as regras de vida e é tal que assegura que a vida exista em equilíbrio.


O equilíbrio das espécies não resulta de um empate na luta pela sobrevivência de seres que se regem por interesses imediatos. Esta é uma ideia nefasta, uma pobre compreensão da Natureza, com consequências deploráveis a nível das teorias de organização da sociedade humana e da economia.


O equilíbrio das espécies resulta da existência de rígidas regras que os programas instintivos cumprem sem hesitação. Regras que estabelecem mecanismos de autolimitação para cada espécie. Que evitam os ciclos presa-predador.


Em consequência, a densidade ecológica de cada espécie é mantida nos níveis adequados. Especialmente a dos grandes animais.
Não é muito mais poderosa a águia do que o pardal? A Lei da Natureza não é a «do mais forte?» Então porque é, e sempre foi, muito mais rara a águia do que o pardal?


A resposta é que as próprias águias estabelecem os seus limites, e logo a nível das características de reprodução. A impiedade com que a águia recém nascida se apressa a deitar os irmãos do ninho abaixo é indispensável não para assegurar a sua sobrevivência, mas para assegurar que o número de águias não põe em perigo o equilibrio ecológico. Para assegurar a sobrevivência das espécies, não a do indivíduo.


Estes comportamentos instintivos exigem a total ausência de consciência individual do «bem» e do «mal»; a total ausência de autonomia de decisão. Exactamente porque resultam de uma sabedoria que não é de curto prazo nem da escala individual, logo incompreensível a nível individual.


Não significa isto que os animais ditos irracionais não disponham de Inteligência. Claro que são inteligentes, em menor ou maior grau. O seu cérebro é capaz de resolver problemas, mesmo ao nível dos insectos.


O que os distingue qualitativamente dos humanos é que estes são «conhecedores do bem e do mal». São «como os deuses». Os humanos não são necessariamente comandados por uma vontade que os transcende, consubstanciada no programa gravado no cérebro. Os humanos são capazes de desrespeitar os seus instintos, que comandam acções, para satisfazerem necessidades mais sofisticadas, como a de amar e ser amado. Isso, porém, exige um nível de Inteligência, e de Sabedoria, mais elevado, que o «fruto da árvore proibida» lhes concedeu, no dizer da parábola.


Tendo «comido o fruto proibido», os Humanos atreveram-se a desrespeitar os instintos. Os instintos que mantiveram a espécie em equilibrio ecológico durante milénios. Porque razão eram tão poucos, em relação ao actual, os humanos da pré-história? Porque obedeciam aos instintos e se autolimitavam através de lutas territoriais. Se o não fizessem, morreriam de fome. O número de humanos que o planeta pode suportar em equilibrio natural é o que existiu durante mais de 20 000 anos: em média, cerca de 5 milhões em todo o planeta, menos de 10 milhões no máximo. Cinco milhões de pessoas, esse é o número que o conhecimento do passado nos diz ser o número médio possível de humanos em equilibrio natural no seio da Mãe Natureza, vivendo uma vida de máxima simplicidade e mínimo consumo energético. Cinco milhões de humanos, é essa a capacidade do jardim do Éden.


Há uns dez mil anos atrás, o Humano ousou imitar os deuses. Ousou desrespeitar os instintos primários. Em vez de lutar ferozmente pelo seu direito ao alimento, em vez de matar o próximo para que não lhe faltasse o alimento, em vez de fazer como a cria da águia, ousou tentar obter da natureza mais alimento do que aquele que ela dava voluntariamente, violando a clara ordem que os seus instintos ditavam.

Diz o Génesis que foi a Mulher que o fez. É provável. O Homem estava concentrado na luta e na caça, actividades do agrado da generalidade dos homens. Ainda hoje, em muitas sociedades primitivas, a agricultura e pecuária dependem exclusivamente das mulheres.


Veja-se a maldição lançada sobre o homem:

17. “Porque obedeceste à voz da mulher e comeste da árvore da qual eu te ordenara: «Não comas», amaldiçoada será a terra por tua causa. E só com fadiga tirarás dela o alimentodurante todos os dias da tua vida. Produzirá para ti espinhos e abrolhos e comerás as ervas do campo. Comerás o pão com o suor do rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado...“


As contantes guerras e lutas que costuram a história da humanidade não constam do “castigo” porque lutar é natural para o homem, é o programa que nele está inscrito, é o programa da autolimitação; a agricultura é que é o “castigo” porque ela é que representa a desobediência ao instinto, a vontade Humana a desafiar a da Natureza, ou seja, a dos Deuses.

Não haja ilusões: não existimos em equilibrio ditado pela Natureza. Não existimos em equilíbrio ecológico. O equilibrio da Vida na Terra não depende das leis da Natureza, dos programas inscritos nos seres vivos. Depende da nossa acção. Não é já a «Mãe Natureza» que cuida da vida na Terra, são os Humanos. Foi esse o papel que assumimos quando «comemos» o fruto da Inteligência e da Sabedoria, quando abrimos os olhos e ousamos desafiar a Natureza.


Não se pense que há alternativa. Não há. Como saberemos depois de compreender a Teoria do Desvanecimento, as condições de vida na Terra dentro de alguns milhões de anos serão incompatíveis com a vida tal como a conhecemos. Apenas uma Vontade Inteligente poderá assegurar a continuação da Vida para além disso. Na Verdade, a «expulsão do Paraíso» não é um castigo divino, é a solução encontrada pelos Deuses para que a vida possa continuar. «Proibir o fruto» foi apenas um ardil para o tornar irresistível... de outra forma, como entender que


3. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse «não o comeis, nem sequer lhe toqueis, morrereis se o fizerdes.»

Então a árvore proibida iria estar logo no meio do jardim? Não foi Ele quem pôs lá a árvore? Seria estúpido esse Deus?


Claro que não... a árvore que Deus não quer que o Homem descubra é outra, pois:


22. E disse Deus: «Foi aqui que o homem, ao conhecer o bem e o mal, se tornou como um de nós. Que não estenda agora a mão também à árvore da vida, para comer dela e viver para sempre.»
...24. Tendo expulso o homem, colocou querubins a oriente do Jardim de Éden, e uma espada flamejante que se movia em todas as direções, para guardar o caminho da árvore da vida.


Como é evidente, esta é a árvore cujo fruto o Homem não pode comer; se o fizesse, estagnaria a evolução. Esta árvore, Deus não colocou no meio do jardim.
(Já agora, porque diz Deus que o homem se tornou «como um de nós»? «Nós» quem??? E para quem fala Deus?)


E porque «Deus» recorreria a tal ardil da árvore proibida no meio do jardim? Porque doutra forma o Homem culparia Deus das suas canseiras e revoltar-se-ia. Perceberia que para regressar ao Jardim, bastar-lhe-ia perder a consciencia do bem e do mal. Autolimitar-se, como as outras espécies. Mas assim o Homem recusaria a sua Missão – a de salvar a Vida. Que terá de ser salva já não pela Natureza mas pela espécie inteligente que a Natureza criou como seu instrumento.


Esta não é, porém, uma missão fácil. Sucessivas ascensões e colapsos marcam a história dos humanos. A ignorância da verdadeira razão dos colapsos anteriores é o estigma do próximo colapso. Não é com a ignorância mas com Inteligência e Sabedoria que o homem pode cumprir a magna missão que pesa sobre os seus ombros. Que não é a de carregar os Céus, mas a Vida.

quinta-feira, julho 24, 2008

A Divina Trindade: Energia, Inteligência e Entropia


. Tentação e Queda, Miguel Ângelo, tecto da Capela Sistina

O Humano primitivo vivia dos recursos da natureza – portanto, no estado de perfeito equilíbrio ecológico. O número máximo de humanos era o que a natureza podia sustentar por si própria. Esse número era muitíssimo mais baixo do que a população actual. A ocupação indígena da América do Norte, da Amazónia e da Austrália à data das suas colonizações retrata a densidade de ocupação humana que a Natureza suporta.


Há muitos milhares de anos, quando a densidade dos humanos era ainda inferior aos limites naturais, a vida era um paraíso. O Humano viva em climas tropicais, amenos, propiciantes de uma sensação de bem estar, a vida corria sem preocupações de relevo, o alimento era fácil de obter, tão fácil que não carecia de armazenamento nem de ser providenciado antes de a fome apertar. Quando se tinha fome, apanhava-se fruta ou ia-se à caça. Ou à pesca.


Mas o sexo... o sexo foi fazendo aumentar a população humana e os limites naturais foram ultrapassados. O paraíso terrestre acabou. Para sobreviver, o Humano teve de emigrar para climas mais duros e passou a ter de Trabalhar! Foi expulso do Paraíso e condenado ao Trabalho, «comerás o pão com o suor do rosto».


O Humano teve de deixar de depender da generosidade da Natureza e passou a ter de providenciar as suas necessidades. Inventou maneiras de conseguir extrair mais alimento do que aquele que a natureza voluntariamente providencia e organizou-se, criou a Civilização.


A Civilização, o progresso, resultam da necessidade de sobrevivência nos locais onde a população ultrapassou os limites suportáveis pela natureza. A alternativa à Civilização é unicamente os humanos morrerem à fome ou matarem-se uns aos outros. Começaram certamente por aí, organizando-se em tribos para defenderem territórios, tribos que se combatiam e dessa forma limitavam a densidade humana, tal como acontece com os machos em muitas espécies animais. Mas umas tribos terão tido mais sucesso que outras nestas guerras, o que lhes terá permitido crescer e, depois, ou teriam de inventar guerras internas para se poderem matar uns aos outros ou teriam de inventar maneira de conseguir ultrapassar as limitações da Natureza.


Os primeiros focos de civilização começaram a surgir em tempos remotos mas, como luz de vela em dia de temporal, a extinção foi sempre o seu destino. Uma segunda leva se ergueu dos seus escombros, menos luminosa mas mais perene, e conduziu a humanidade até hoje. O brilho ofuscante que esta civilização global começou a adquirir no último século levanta uma interrogação: será possível que o actual surto luminoso venha o sofrer o mesmo destino escuro das civilizações da Antiguidade? Que podemos fazer para garantir a perenidade da nossa Civilização?Que forças moldaram a ascensão e queda das civilizações antigas? Continuam elas a determinar os destinos da Humanidade?


Esta misteriosa questão pode afinal ser entendida em termos muito simples.


Uma civilização é uma diminuição de entropia da sociedade humana, ou seja, um aumento de organização. Mas sabemos que uma diminuição de entropia traduz a existência de um processo «Inteligente» (até podemos usar como medida da «inteligência» de um sistema a velocidade de diminuição da sua entropia). E sabemos que um processo «inteligente» carece de energia para ocorrer.


Portanto, as civilizações emergem quando há energia disponível para alimentar um processo «inteligente» e afundam-se quando não há. E «energia disponível» é a energia para além da indispensável à sobrevivência das pessoas.


Esta é a Trindade que comanda todo o Universo: Energia, Inteligência e Entropia. Ou, para algum poeta que nos leia, o Espírito Santo, Deus e o Diabo.


Um superavit de energia pode ser fruto de um avanço tecnológico, ou de uma melhoria das condições climáticas proporcionando melhor produção agrícola, ou, ao contrário, fruto de uma qualquer catástrofe que faça diminuir o número de humanos sem prejudicar os seus recursos, como uma guerra, uma epidemia, um tremor de terra.


Mas uma civilização, mesmo que primitiva, consome energia adicional apenas para se manter. O Trabalho só por si já exige mais energia humana que o repouso; mas também é preciso a energia dos animais que transportam os produtos de um lado para o outro e dos que ajudam a lavrar, é preciso a energia do fogo para o ferreiro poder malhar o ferro, a energia da fogueira para cozinhar os alimentos e fornecer aquecimento nos climas duros onde o Humano se viu obrigado a viver, etc.


Assim, para cada grau de Civilização, só para a sua manutenção, é necessária uma certa energia per capita que é maior que a energia de sobrevivência. Se a energia disponível for maior que este valor, essa civilização poderá evoluir; se for menor, terá de regredir.


Portanto, para evitar que uma civilização regrida, é indispensável garantir que a energia per capita não diminui. E aqui surge o grande problema: a população tende a aumentar, cada mulher pode ter mais de 20 filhos. Fazer crescer a energia disponível ao mesmo ritmo da população parece tarefa impossível, pelo que a manutenção e desenvolvimento das civilizações passa necessariamente por alguma forma de controlo populacional.


Sem um eficiente controlo populacional, o que sucederá? A sequência de acontecimentos inicia-se com um qualquer avanço tecnológico que providenciará um aumento de energia; em consequência, emergirá uma civilização, que evoluirá até que a energia disponível seja a de manutenção da civilização. Mas a população continuará a crescer e a energia per capita diminuirá. A civilização terá de regredir. Isso fará diminuir a produção de energia e a civilização entrará num processo acelerado de degradação. Os recursos tornam-se insuficientes para assegurar a sobrevivência da população e esta terá forçosamente de diminuir, seja pela matança interna na luta pela sobrevivência, pela fome, por epidemias, por guerras movidas do exterior ou pela emigração.


O destino da Civilizações é assim traçado pelo sucesso ou insucesso do controlo populacional. Conscientes da importância deste balanço energético, vamos agora olhar rapidamente para a História e encontrar nela uma nova perspectiva; e até vamos descobrir a pegada dum pequenino Evento...

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quinta-feira, julho 17, 2008

Estaremos em risco de colapso?




Se olharmos para o passado da humanidade, encontramos sucessivas civilizações que surgem, florescem e desaparecem sem que se chegue a entender ao certo porquê. O colapso da civilização Maya será o mais paradigmático, ou talvez o da civilização do Indo, mas o mesmo aconteceu com os Babilónicos, Persas, Egípcios, Romanos, e outros, embora o surgimento de sucessivas civilizações em zonas geográficas próximas camufle esses colapsos.


É frequente a ideia de que estas civilizações desapareceram porque foram destruídas por invasores, povos mais atrasados. Mas não. Como poderia ser, se estas civilizações, no seu auge, dispuseram de poderosos, organizados e invencíveis exércitos? Como poderiam ser derrotados, a não ser que elas já estivessem em colapso?


Há um processo que teoricamente poderia conduzir a isso. A organização duma sociedade cria desigualdades. Estas desigualdades tendem a crescer. A princípio, toda a sociedade «enriquece»; mas, progressivamente, o crescimento imparável da desigualdade conduz a que o enriquecimento dos ricos já não se faça pelo aumento da riqueza produzida mas pelo empobrecimento dos outros. Ver o post «Porque não há solução para a Crise» .


A sociedade tende a dividir-se numa pequena classe rica e poderosa e no «povo», que é a grande maioria das pessoas, cada vez mais miserável e escravizada. E então pode acontecer que um dia esse povo perceba que a «civilização» está a funcionar contra ele e simplesmente abandone a civilização. Sem o povo, não há produção, a sociedade acaba e tudo regressa ao princípio.


Isto é, porém, apenas uma hipótese. O que podemos verificar é que as pessoas raramente têm a possibilidade de sair maciçamente. Saem uns quantos, o que até serve para estabilizar a situação.


Este ciclo de crescimento e degradação pode ser observado nas sociedades mais antigas. Na Portuguesa, por exemplo: no fim da monarquia, o povo tinha um nivel de vida completamente miserável, muito diferente do que acontecera uns séculos antes. Isso não foi consequência de Alcácer Quibir, dos Descobrimentos, disto ou daquilo, foi simplesmente consequência da desigualdade instalada. E quanto mais antiga a organização social, pior. Na Índia, o contraste entre a riqueza dos Marajás e as condições absolutamente miseráveis das «castas» inferiores, dos «intocáveis», é extremo. O mesmo acontecia na Rússia dos Czares ou na China.


Estes exemplos mostram-nos que o mecanismo da desigualdade leva à estagnação da sociedade, acaba por conduzir à revolução, mas não produz um colapso rápido desta. Pelo contrário: até parece que o estabelecimento da desigualdade tem funcionado como um mecanismo preventivo desse colapso.


Será que é isso? Será que a desigualdade que enforma a generalidade da sociedade humana actual tem permitido evitar o colapso da civilização nos últimos séculos? E se assim for, será que abrimos as portas ao colapso ao tentarmos expulsar a desigualdade sem entendermos que misteriosos processos se movem na sombra da nossa ignorância, capazes de fazer colapsar civilizações? Estará a nossa ignorância a colocar a civilização em risco de colapso?


Para responder a estas questões vamos ter de pensar como os deuses, para quem a vida humana individual é um grão de poeira no Universo.

sexta-feira, junho 27, 2008

O Universo dos Vossos Filhos



Um humano perfura o universo aparente e observa a natureza do Universo
(Flammarion Woodcut )



O nosso dia-a-dia decorre imerso no mundo material, os 5 sentidos em continua recolha de informação, o cérebro afogado no seu processamento, os instintos revolvendo essa informação à procura do que pretendem e empurrando-nos para aqui e para ali, em busca do que ancestral experiência ensinou ser importante para o corpo.

Mal nos damos conta que é só à escala das nossas vidinhas que o Mundo Material é importante. Mas se estendermos o olhar ao longo do passado, apercebemo-nos de que a História da Humanidade é a história do pensamento em busca da Compreensão, das Ideias, dos Sonhos. Os chamados «factos históricos», as grandes batalhas, os impérios, as descobertas, mais não são do que consequências dessas ideias. Nem sequer são consequência dos pequenos desejos humanos, de ambições desmedidas, da crueldade ou da bondade, ou dos seus minúsculos «projectos de vida», mas sempre de Ideias que iluminaram ou escureceram os caminhos da Humanidade, de projectos intemporais de pessoas que deixaram de prestar atenção ao mundo material.

E, na verdade, embora sem disso darmos grande conta, é também no campo das ideias, ou espiritual, que a nossa vida verdadeiramente decorre. O que é um bom escritor? Talvez aquele que escreve sobre o espírito das personagens e não sobre a matéria... pois é isso que verdadeiramente nos interessa. O que é a felicidade senão um estado de espírito?

É no mundo espiritual que reside o que mais importa, quer para nós, quer para a Humanidade, quer para a própria Vida, cuja evolução é uma seta do corpo para a mente, da Matéria para o Espírito.

E agora podemos entender melhor a importância do Mundo Material: ele é o suporte do Mundo Espiritual! Indispensável, é claro, mas é essa a sua importância, a de ser «suporte»! Sem um mundo espiritual em cima, o Material não passa de uma inutilidade, falha a sua razão de ser.

O mundo espiritual move-se com muitos passinhos pequeninos mas, de vez em quando, há um «quantum leap», o estilhaçar de uma barreira, o rasgar de um novo entendimento. E talvez seja isso que esteja a suceder agora, neste tempo, no blogue «outra física».

O Universo que os vossos filhos conhecerão e amarão pode estar a nascer lá. Crescerá no Espírito dos que acompanharem o Nascimento.
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segunda-feira, junho 23, 2008

Fogueiras

Tropecei num texto de um conceituado climatologista que, apesar de ser de 1992, ou talvez por isso mesmo, faz um bom retrato do estabelecimento do processo do «aquecimento global». Penso que será interessante deitarem-lhe uma vista de olhos.

Mas o que me faz escrever este post é sobretudo a referência a alguma perseguição a quem tem opinião diferente da «conveniente». A determinada altura, o autor refere que:

As most scientists concerned with climate, I was eager to stay out of what seemed like a public circus. But in the summer of 1988 Lester Lave, a professor of economics at Carnegie Mellon University, wrote to me about being dismissed from a Senate hearing for suggesting that the issue of global warming was scientifically controversial. I assured him that the issue was not only controversial but also unlikely. In the winter of 1989 Reginald Newell, a professor of meteorology at the Massachusetts Institute of Technology, lost National Science Foundation funding for data analyses that were failing to show net warming over the past century. Reviewers suggested that his results were dangerous to humanity. In the spring of 1989 I was an invited participant at a global warming symposium at Tufts University. I was the only scientist among a panel of environmentalists. There were strident calls for immediate action and ample expressions of impatience with science. Claudine Schneider, then a congressman from Rhode Island, acknowledged that "scientists may disagree, but we can hear Mother Earth, and she is crying.'' It seemed clear to me that a very dangerous situation was arising, and the danger was not of "global warming'' itself.

Isto vem lembrar que tudo continua a ser como sempre foi, ou seja, que a liberdade de opinião só é tolerada enquanto essa opinião for inócua para os interesses que pode afectar. Não pensem que é por mal, que os «perseguidores» são pessoas mal formadas, nada disso, em muitos casos elas pensam genuinamente que estão a agir em prol de todos. Nada é mais perigoso e implacável do que as pessoas que pensam estar a agir em defesa do «Bem».

É assim a nossa natureza, as circunstâncias podem levar qualquer um de nós a pretender calar uma voz que tem razão e nós não queremos ouvir. Pior: podemos não querer ouvir porque no fundo sabemos que é contrária aos nossos interesses ou desejos; convencemo-nos que agimos em defesa de valores superiores mas estamos apenas a agir em defesa dos nossos interesses.

Assim nos enganam os malandros dos neurónios que operam no nosso cérebro profundo.

Corolário desta constatação: eu poderei continuar com os meus posts enquanto ninguém me der importância suficiente para que algum seu interesse, convicção ou desejo se sinta ameaçado. Só quem não acrescenta uma vírgula ao «mainstream» deve aspirar a ser levado a sério. E para que assim seja, pelo sim pelo não, eu vou metendo uns extraterrestres e outras variantes do «bom senso». Não quero que me levem demasiadamente a sério. Nem devem. Além de que assim fica mais divertido para mim e para quem me lê. Só é pena eu não ter talento para rimas...

(estou como os cronistas dos jornais: prometi que fazia um post hoje e não me ocorreu nada mais interessante que isto...)

segunda-feira, junho 16, 2008

Porque precisa a Ciência de Génios?

Se analisarmos a evolução da Física verificamos que, apesar do grande número de cientistas, o essencial do conhecimento actual foi produzido por um número muito reduzido de pessoas. E, algumas vezes, fora do sistema científico.
Essas pessoas são depois classificadas de «génios», sendo supostamente seres dotados de capacidades que o comum dos mortais não tem. Supostamente uma inteligência superior.

Será que é assim? Será que os «génios» são pessoas superiormente inteligentes?

Se fosse assim, porque é que aquelas pessoas que são identificadas como possuidoras de QI elevadíssimo, não se revelam como «génios»? Ou o QI necessário será tão alto que são precisos muitos anos para encontrar alguém assim? Ou são precisas outras características adicionais?

E, se assim é, de que vale afinal o método científico se o avanço da ciência parece refém do aparecimento dum «génio»?

E, já que estamos em maré de perguntas: porque foram precisos quase dois milénios para passar do modelo de Ptolomeu para o de Newton?

Vamos agora às respostas.

O nosso conhecimento do Universo está contido nos conceitos e propriedades fundamentais. O resto deduz-se deles. O progresso do conhecimento faz-se em duas fases. Numa, constroem-se conceitos e propriedades fundamentais (vou passar a designar apenas por «conceitos» este conjunto); noutra, deduz-se a teoria, os «modelos de realidade», a partir deles.
Portanto, os conceitos tem uma importância determinante. A verdadeira evolução da Física não se faz pelo «topo» do edifício do conhecimento mas pela «base», ao nível dos conceitos.

Aristóteles estabeleceu um conjunto de conceitos; a partir deles Ptolomeu tentou construir um modelo do Universo de acordo com as observações. Esses conceitos não eram suficientes e adequados e Ptolomeu teve de «inventar» centenas de epiciclos. Teve de acrescentar, portanto, entidades hipotéticas que não podia provar.
Quando não conseguimos construir um modelo satisfatório a partir do conjunto de conceitos fundamentais, o que temos de concluir é que precisamos de melhorar esses conceitos.
Foi o que tentaram fazer Copérnico e Galileu, tarefa concluída por Newton – mudou os conceitos de Aristóteles e construiu um novo modelo da realidade sobre os novos conceitos.
Note-se que o modelo de Ptolomeu também apresentava uma boa correspondência com as observações; o grande progresso estava em que o modelo de Newton não precisava de hipóteses não provadas.

O Conhecimento constrói-se, portanto, com dois processos. Um é o seguido por Ptolomeu, a dedução de modelos a partir dos conceitos aceites; o outro é o de Galileu, o esquecer de todos os modelos e teorias, coleccionar os factos e procurar um novo conjunto de conceitos que conecte logicamente os factos, sem recurso a hipóteses não provadas.
Se lermos Galileu, Newton, Poincaré e Einstein, encontramos uma constante preocupação com os conceitos fundamentais.

A Física diz que segue o método de Galileu mas não é bem assim. Galileu fez experiências fantásticas mas não inventou a experimentação. Não é nisso que consiste o método dele. O método de Galileu consiste em questionar os conceitos fundamentais. Foi isso que ele fez de forma sistemática, testou as afirmações de Aristóteles, uma por uma. Usou experiências para provar que os conceitos de Aristóteles estavam errados, mas a experimentação foi apenas a ferramenta do método, não o método.

É fácil estabelecer metodologias para o estabelecimento de modelos dedutivos; mas não sabemos estabelecer essas metodologias para questionar os conceitos anteriores e desenvolver novos conceitos.
Na verdade, a Física não admite que se questionem os conceitos fundamentais. Não é um problema da Física, é um problema dos «humanos». As pessoas querem segurança, controlo, e questionar as bases do conhecimento assusta, sugere uma fragilidade, pois se as bases são questionáveis, que confiança se pode ter nos «edifícios» sobre elas construidos?

Esse foi já o problema que Galileu causou na sua época; porque ele questionou as bases do modelo de universo vigente, logo se tentou pôr em causa a própria estrutura social, pois se as bases duma coisa estavam erradas, as da outra também poderiam estar.

Portanto, a Física segue apenas o método dedutivo de Ptolomeu, não questionando os seus pressupostos e os seus conceitos. Fatalmente, chega uma altura em que os modelos baseados nesses conceitos são incapazes de explicar as observações. Essa é a altura de questionar os fundamentos do modelo mas como isso é impossível para a Física «normal», o que acontece é que os cientistas começam a acrescentar hipóteses não provadas para acertar o modelo com as observações.
Depois, para comprovar essas hipóteses, novas observações são feitas; como nunca correspondem ao previsto, sucessivas hipóteses vão sendo adicionadas para acertar as equações com os resultados. Constroem-se assim edifícios de hipóteses sobre hipóteses. Se se comprovar a última, todo o edifício fica comprovado. Daí a sensação que os Físicos têm de que só falta comprovar uma hipótese por teoria para «a Física ficar terminada». Basta encontrar o incrível «bosão de Higgs» para o modelo atómico ficar “provado”. A ilusão é sempre esta, a de que a próxima experiência vai confirmar toda a teoria.

Entretanto, o hipotético «edifício» assim construido vai sendo aprendido como «verdade». É hoje impossível questionar a existência de neutrinos porque toda esta geração de físicos «aprendeu» que existiam neutrinos. As bases do edifício da Física não serão questionadas.
E assim se entra num processo sem fim, onde uma nova hipótese é introduzida em cada nova observação. Como a matéria negra, a energia negra e a inflação, na cosmologia, ou o neutrino e o subsequente séquito de partículas no modelo atómico.
A crença na bondade do edifício de hipóteses assim construído é tal que não é possível questioná-lo sem se correr o risco de ser considerado «louco» ou «terrorista». Disse Einstein: “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” Para sair deste beco, só com uma revolução, e uma revolução precisa de um herói. É aqui que entra o «Génio».

O mesmo se passa com a religião. Por isso, também os saltos evolutivos nas religiões são obra de «génios», usualmente chamados de «profetas». A Religião, como a Ciência, é uma construção dos Humanos para os Humanos.

Este processo é tão sólido que foram precisos quase dois milénios para derrubar o modelo de Ptolomeu. E eu interrogo-me quanto anos serão precisos para derrubar o monumental edifício de hipóteses por provar em que se tornou a Física a partir do princípio do século XX.

A característica necessária a um «génio» é pois a capacidade de questionar as «verdades». Os génios não «aprendem», os génios questionam. Einstein aconselhava os pais a tirarem os filhos da escola. Na escola pratica-se a «aprendizagem», treina-se a aceitação da «verdade» emanada da autoridade. Mas, como Thomas Huxley (1825-1895) afirmou: “Every great advance in natural knowledge has involved the absolute rejection of authority.”

Portanto, um génio não tem de ser mais inteligente do que as outras pessoas. Tem apenas de não ser «crente». Tem de questionar todas as «verdades». Esse é o caminho da descoberta. “Nunca se conseguirá ser sábio se primeiro não se foi traquinas”, disse o Rousseau.

Mas um Génio tem de fazer mais do que simplesmente questionar as bases do conhecimento. Ele tem de construir toda uma teoria alternativa. A Física não se interessa por «boas ideias», ela só se interessa por teorias. E isso é um trabalho árduo e solitário, pois o Génio tem de ser marginal ao sistema.
Portanto, ser um «Génio» é algo que está ao alcance de qualquer um de nós, se o quisermos. Temos simplesmente de confiar no nosso pensamento. Rejeitar tudo o que não nos pareça «lógico». Procurarmos nós as nossas respostas. Duvidarmos. Começarmos a pensar do princípio. Coleccionarmos os factos e procurarmos uma forma de os conectar logicamente.

É esse processo que vamos desenvolver no «outra física». Começando por reanalisar alguns conceitos e depois partindo para a construção de um novo modelo do Universo. Não é emocionante?

quinta-feira, junho 12, 2008

Perguntas Impossíveis de Responder

Há questões muito curiosas. Ultrapassam aquilo que o nosso cérebro é capaz de processar. Transcendem-nos por completo. Puff!

Uma delas é a questão do Início. Tudo tem de ter um Início, não é? Assim nos diz a nossa mente. Mas, e antes do Início? assim se interroga a nossa mente. Pois é, não podemos entender que o Universo não tenha um Início, nem podemos entender que o tenha.
Outra é o Fim. Podemos entender que acabe a Vida, a Matéria, a Radiação. Mas não que acabe o Espaço onde tudo se inscreve. Se acabasse, o que ficava depois? O conceito de «Espaço» não tem Início nem Fim. Mas tudo tem um Início! Ou não? Puff!!

Mas há mais questões. Uma é: Qual é a Substância do Universo?

Os nossos sentidos dão-nos logo uma resposta: O Universo é feito de Matéria espalhada num Espaço vazio!

E a seguir interroga-se: e a Matéria é feita de quê?
E lá vem outra resposta: todos os corpos podem ser divididos em bocados mais pequenos. Até ao infinitamente pequeno? Não faria sentido, chegaríamos ao «nada», e os corpos não podem ser feitos de «nada»; então, logicamente, há um corpúsculo mínimo que já não se pode dividir: o Átomo!

Abre-se um caminho de pesquisa. Com novas possibilidades, por exemplo, os diferentes elementos devem ser obtidos por diferentes combinações de «átomos», logo, deve haver maneira de actuar sobre o arranjo dos «átomos» transformando um elemento noutro. Chumbo em Ouro.
Newton investigou esta possibilidade. Certa, como sabemos hoje, mas inatingível com os recursos da época. Claro que os biógrafos de Newton e os muitos cientistas que gostam de falar sobre ele dizem que esse terá sido um período de «loucura» do grande homem. Esse e outro período em que ele investigou os livros antigos. As mentes dos «descobridores» são misteriosas para os que o não são. Como as dos «crentes» para os ateus e vice-versa.

Mas descobrimos que o Átomo não é ainda o fim da história. Longe disso. Descobrimos que é uma estrutura de outros corpúsculos, que designamos por partículas elementares.
Entretanto, descobrimos uma outra coisa interessante: as propriedades da Luz podem ser inteiramente descritas usando a mesma teoria que trata das ondas em meios materiais! Isso sugere fortemente que a Luz será da mesma natureza das ondas sonoras e outras que se propagam na matéria. Então, o Espaço já não pode ser «vazio», ele é o meio de suporte da Luz, qualquer «onda» precisa de um meio de suporte.
Surge um novo modelo do Universo: a matéria é formada a partir das partículas elementares, o espaço está cheio com um meio formado por outro tipo de partículas. O Universo compõe-se de Matéria e Aether (ou éter, eu acho mais estético usar “aether”, além de que assim não se confunde com o éter etílico).

Como podem ser as partículas elementares? Umas bolinhas de «matéria» indivisíveis? O nosso cérebro recusa-se a aceitar isso, afinal a escala não interessa, certamente que essas «bolinhas» são compostas de outras bolinhas.

Mas agora já estamos a raciocinar sobre o modelo empírico que temos na cabeça e a ignorar os resultados das observações. Um erro típico da nossa mente, sempre agarrada aos modelos adquiridos empíricamente. Porque quando «olhamos» para as partículas elementares já não observamos «bolinhas». Só encontramos «campos de forças» e ondas ou alternâncias. A partícula passa a ser tratada como nuvem de probabilidade, deixa de ser uma «coisa», um objecto.

E assim começamos à procura das «bolinhas» que devem constituir as partículas elementares.

Entretanto, a teoria do Aether sofre um revés: os corpos materiais deveriam criar “ondas”, “ventos” no aether ao deslocarem-se através dele. E nada disso se detecta!!! Como podem os corpos deslocarem-se no meio sem o perturbarem???

Outra questão: como a velocidade da Luz será relativa ao Aether, onde se suporta, os fenómenos electromagnéticos serão relativos a ele e, para os descrevermos de forma consistente, precisaremos de saber a nossa velocidade em relação ao aether, a nossa «velocidade absoluta».

Surge então a Teoria da Relatividade de Einstein. Baseada na propriedade que se designa por Princípio da Relatividade, que podemos enunciar como: «tudo se passa como se o observador estivesse em repouso absoluto». Já tinha servido ao Galileu para explicar como é que a Terra se movia e tudo se passava como se estivesse parada.

Com esta teoria, graças a essa propriedade do Universo, já não precisamos de saber a «velocidade absoluta» - basta fazermos os cálculos como se estivéssemos em repouso absoluto! Tal como fazemos os cálculos dinâmicos na Terra – para calcularmos a trajectória da bala do canhão não precisamos de saber a velocidade da Terra.

Por isso diz Einstein na introdução do seu artigo de 1905 que “A introdução de um «éter luminífero» revelar-se-á supérflua...” (Textos Fundamentais da Física Moderna, I volume, Fundação Calouste Gulbenkian). Isto não significa que não existe um aether; Einstein defendeu várias vezes a sua existência, mas num modelo baseado no conceito de «campo» e não um aether mecânico.

Mas a nossa mente empírica continua a fazer das suas. A Ciência não quer saber das ideias de Einstein. Um Universo feito de «bolinhas» e espaço vazio é que é!

Surge um problema: então o que é um campo de forças? O conceito de «acção a distância» não é aceitável. Todas as acções têm de ser por «contacto», tem de haver um agente. Inventa-se o gravitão para explicar o campo gravítico. E eis um novo modelo de Universo, em que o espaço está repleto de partículas mediadores dos campos de forças. Fantásticas partículas estas! Basta pensar que os gravitões até conseguem desviar as trajectórias dos raios de Luz!!!!
No fundo, a mente empírica de cientistas e matemáticos substituiu o aether por um banho universal de gravitões e outros “ões”.

Mas não só: o espaço que estes “ões” preenchem há muito que deixou de poder ser tratado como «vazio». Dele podem emergir pares de partículas – seria possível se ele fosse «vazio»? E atribui-se-lhe energias brancas e negras; e diz-se que «expande» - pode o «nada» expandir??? E encurva-se – o «nada» tem forma?

Chegamos assim a um modelo de Universo que se compõe de partículas elementares que formam a matéria, outras que formam a radiação (tem de ser suportada em partículas, uma vez que supostamente não existe meio), outras ainda que enchem todo o espaço e são as mediadoras dos campos, tudo isto num espaço cheio de propriedades capazes de fazer inveja a qualquer super-herói da banda desenhada americana.

Neste post do «outra física» dá-se uma primeira ideia de como se pode começar a desfazer este nevoeiro.

terça-feira, junho 03, 2008

Modelos Matemáticos e Modelos de Causa-Efeito

A observação de relações causa-efeito fornece a primeira estrutura explicativa deste universo. Se largarmos a pedra da mão, ela cai.

Mas em relação a muitos fenómenos não descortinamos a causa do efeito observado; então, a humanidade descobriu algo importante: o Período! O dia segue-se à noite, as cheias dos rios repetem-se anualmente, as posições dos astros nos céus repetem-se com períodos diferentes para os diferentes astros errantes.

Todo o Universo parecia determinado por períodos. Conhecer o Universo seria então uma questão de determinar os seus períodos. Que se mediam com o grande relógio da antiguidade, o único relógio de grandes períodos, a posição dos astros no céu. A Astrologia não nasce na crença de que os astros determinam as características dos humanos e os acontecimentos das suas vidas, mas na crença de que ambos obedecem a períodos, medidos pelas posições relativas dos astros.

Mas começou-se a verificar que conhecer os períodos não é suficiente. Eis que a Matemática surge com um novo recurso: a Equação! Estabelecer a equação que satisfaz os dados das observações permitiria determinar as novas ocorrências.

Nascem então os modelos matemáticos. A relação causa-efeito passa a um papel secundário. O paradigma dos modelos matemáticos é o modelo de Ptolomeu – um modelo matemático dos dados das observações.

Este era um modelo poderoso. A precisão dos seus resultados suplantava o modelo de Copernico. Não era evidentemente um modelo «lógico», não estava construído sobre relações causa-efeito, isso nada interessa aos matemáticos, cuja "alta capacidade de abstração os liberta dessa necessidade própria das mentes simples".

Só têm uma limitação os modelos matemáticos. O modelo de Ptolomeu durou 15 séculos mas, se dependesse apenas dos matemáticos, poderia durar 150 séculos. Porque um modelo matemático é um mero exercício de ajustar equações a dados tal e qual eles são obtidos pela observação. Como não se preocupa com relações causa-efeito, não pode dar o salto que vai do modelo de Ptolomeu para o de Copérnico.

Poderemos pensar que não tem de ser assim, se a Matemática se preocupasse em encontrar o modelo com o número mínimo de parâmetros, já poderia dar esse salto. Mas que metodologia pode guiar o matemático nessa procura?

Os modelos matemáticos são úteis, como o de Ptolomeu o foi; permitem alcançar resultados para além do que as relações causa-efeito que conhecemos num dado momento permitem; mas temos de perceber a sua grande limitação e estar conscientes de que apenas modelos fenomenológicos, ou seja, completamente determinado por relações causa-efeito, nos permitem previsões com segurança elevada.

O problema é que é muito mais difícil estabelecer um modelo fenomenológico, como o de Newton, do que um modelo matemático, como o Ptolomeu. Embora o modelo fenomenológico seja muito mais simples – na realidade, este é um modelo “que até pode ser explicado às crianças”, pois estas podem compreender as relações causa-efeito. Mas a linha de investigação que pode levar a eles é que não deve ser abandonada, como tem sido, devido à crença cega nas capacidades do modelos matemáticos.

O facilitismo de recorrer aos modelos matemáticos tem vindo a alastrar a todos os ramos do conhecimento. Por exemplo, uma Economia baseada em modelos matemáticos poderá ser óptima para descrever o passado, mas inútil para prever o futuro. E para orientar a decisão.

Tem, por isso, razão o Papa quando fala das limitações da Ciência. Porque a Ciência cada vez se reduz mais à matemática e há instrumentos mais poderosos de obter Conhecimento.

O Big Bang é um modelo matemático. Desenhado para se ajustar às observações. Mas, hélas, tal como no modelo de Ptolomeu, estas dependem do observador! E dar esse salto é impossível para um modelo matemático. O Big Bang também durará 15 séculos?

Vem isto a propósito do post de hoje no «outra física».