quinta-feira, julho 17, 2008

Estaremos em risco de colapso?




Se olharmos para o passado da humanidade, encontramos sucessivas civilizações que surgem, florescem e desaparecem sem que se chegue a entender ao certo porquê. O colapso da civilização Maya será o mais paradigmático, ou talvez o da civilização do Indo, mas o mesmo aconteceu com os Babilónicos, Persas, Egípcios, Romanos, e outros, embora o surgimento de sucessivas civilizações em zonas geográficas próximas camufle esses colapsos.


É frequente a ideia de que estas civilizações desapareceram porque foram destruídas por invasores, povos mais atrasados. Mas não. Como poderia ser, se estas civilizações, no seu auge, dispuseram de poderosos, organizados e invencíveis exércitos? Como poderiam ser derrotados, a não ser que elas já estivessem em colapso?


Há um processo que teoricamente poderia conduzir a isso. A organização duma sociedade cria desigualdades. Estas desigualdades tendem a crescer. A princípio, toda a sociedade «enriquece»; mas, progressivamente, o crescimento imparável da desigualdade conduz a que o enriquecimento dos ricos já não se faça pelo aumento da riqueza produzida mas pelo empobrecimento dos outros. Ver o post «Porque não há solução para a Crise» .


A sociedade tende a dividir-se numa pequena classe rica e poderosa e no «povo», que é a grande maioria das pessoas, cada vez mais miserável e escravizada. E então pode acontecer que um dia esse povo perceba que a «civilização» está a funcionar contra ele e simplesmente abandone a civilização. Sem o povo, não há produção, a sociedade acaba e tudo regressa ao princípio.


Isto é, porém, apenas uma hipótese. O que podemos verificar é que as pessoas raramente têm a possibilidade de sair maciçamente. Saem uns quantos, o que até serve para estabilizar a situação.


Este ciclo de crescimento e degradação pode ser observado nas sociedades mais antigas. Na Portuguesa, por exemplo: no fim da monarquia, o povo tinha um nivel de vida completamente miserável, muito diferente do que acontecera uns séculos antes. Isso não foi consequência de Alcácer Quibir, dos Descobrimentos, disto ou daquilo, foi simplesmente consequência da desigualdade instalada. E quanto mais antiga a organização social, pior. Na Índia, o contraste entre a riqueza dos Marajás e as condições absolutamente miseráveis das «castas» inferiores, dos «intocáveis», é extremo. O mesmo acontecia na Rússia dos Czares ou na China.


Estes exemplos mostram-nos que o mecanismo da desigualdade leva à estagnação da sociedade, acaba por conduzir à revolução, mas não produz um colapso rápido desta. Pelo contrário: até parece que o estabelecimento da desigualdade tem funcionado como um mecanismo preventivo desse colapso.


Será que é isso? Será que a desigualdade que enforma a generalidade da sociedade humana actual tem permitido evitar o colapso da civilização nos últimos séculos? E se assim for, será que abrimos as portas ao colapso ao tentarmos expulsar a desigualdade sem entendermos que misteriosos processos se movem na sombra da nossa ignorância, capazes de fazer colapsar civilizações? Estará a nossa ignorância a colocar a civilização em risco de colapso?


Para responder a estas questões vamos ter de pensar como os deuses, para quem a vida humana individual é um grão de poeira no Universo.

13 comentários:

alf disse...

Este post é a introdução a um assunto muito sério a que se dedicarão os próximos posts.

Tarzan disse...

Acho que a história tem factos que desmentem a sua teoria. Também houve sociedades onde a desigualdade foi reprimida e que colapsaram. Assim de repente lembro-me de Esparta e da URSS.

Acho que está a cometer um erro colossal ao tentar isolar uma razão para a decadência das civilizações. A realidade e a história é demasiado complexa para admitir simplificações desse género.

alf disse...

tarzan

Eu digo que onde há desigualdade, as sociedades raramente colapsam, e não contrário, como parece que entendeu. Os seus exemplos servem para me dar razão.

A desigualdade não evita o colapso das civilizações por ser um «remédio» - como veremos, é mais um «veneno».


Em Esparta, como em toda a cultura grega, a desigualdade era combatida. Ou seja, a sociedade era organizada, as pessoas não tinham os mesmos direitos, mas eram iguais como pessoas.


A Rússia dos Czares era uma sociedade profundamente desigual e subsistiu assim muito tempo, até chegar à revolução. Este parece ser o destino típico das sociedades desiguais: mantêm-se indefinidamente, com crescente agravamento das condições de vida do «povo», até que estoira uma revolução violenta. Porque daí só se sai pela violência.

A URSS é um episódio, não é uma civilização; mudou o seu esquema político, não «colapsou» no sentido que estou a usar, que é desaparecer como aconteceu com as civilizações antigas.

Hoje não há «civilizações», há apenas uma única «civilização», há um império global ainda que partilhado em muitos paises, de certa forma como a civilização grega estava partilhadas em «cidades».

O que pode colapsar hoje é esta civilização global. Será que tão impensável coisa pode acontecer? É isso que vamos analisar. E garanto-lhe que vai ficar surpreendido.

Uma coisa complexa é um somatório de coisas simples. Vamos analisar uma dessas coisas simples.

Joaninha disse...

Alf,

Não vou perder os proximos posts, este como teaser está fantastico :)

Tarzan disse...

Pois. Se calhar percebi ao contrário. Mas convenha que o texto não é muito claro nesse sentido.

Conheço alguns textos históricos que constatam que as desigualdades entre os mais ricos e mais pobres nunca foram tão PEQUENAS como hoje, ao contrário do que comummente se houve dizer. A classe média é uma realidade que se vai tornando cada vez mais relevante e visível à medida que nos aproximamos dos dias de hoje. Os mais pobres (não confundir com miseráveis), por seu lado têm hoje uma muito maior facilidade de acesso à satisfação de necessidades básicas. Claro que isso não impede que achemos injusto que existam desigualdades. A proximidade dessa realidade é que nos faz parecer que ela é hoje mais grave que nos "bons velhos tempos".

alf disse...

Joaninha, obrigado. Será que tenho futuro como publicitário :)?

alf disse...

Tarzan

terás razão, eu, quando o escrevi senti que poderia ter esse problema, pois toco em ideias algo «quentes» e nesses casos é fácil surgir a confusão.

Nota que eu digo:
" será que abrimos as portas ao colapso ao tentarmos expulsar a desigualdade sem entendermos que misteriosos processos se movem na sombra da nossa ignorância, capazes de fazer colapsar civilizações?"

Ou seja, eu não digo que a nossa sociedade é muito desigual, estou exactamente a dizer que a diminuição da desigualdade que buscamos com grande entusiasmo actualmente pode fazer surgir problemas que ignoramos. Mas nos posts seguintes tudo ficará mais claro, como diz a Joaninha, isto é apenas um «teaser»

Tarzan disse...

Óptimo! Fico a aguardar ansiosamente. Ah! E obrigado pelos esclarecimentos.

leprechaun disse...

Eureka! Finalmente um post novo!!!

Sim, que isto é um desespero, abrir o site e não ver novidades... a malta quer agitação e viva a revolução! :)

Ah! e a Maya também chegou até aqui, ou os tais Maias e os Hopi!

Humm... mas este post contém um gérmen muito revolucionário, ou antes, reaccionário! Isto é, fisicamente falando, tem de haver desigualdade para existir fluxo de energia, a igualdade ou homogeneidade só se geram no final de um processo.

Mesmo assim, há reacções químicas que se dão nos dois sentidos, num equilíbrio dinâmico entre sistemas. Ora, por que não poderá acontecer o mesmo nas sociedades humanas?!

Esse conceito da desigualdade e ainda o seu aumento parece duro, e nada de acordo com os princípios humanistas que tanto se apregoam.

Humm... vamos então esperar por mais novidades, mas mais depressinha, ó Grão-Mestre! :)

Ah, e o Sol-Rá como vai ele por lá?! Com poucas manchas para já, e o 2012 perto está!!!

Pois eu só sonho por cá...

Rui leprechaun

(...com a Lua ao deus-dará! :))

alf disse...

Leprechaun

Pois é, os posts saem devagarinho... e o verão não ajuda a aumentar o ritmo... mas é preciso dar tempo ao pensamento... 80% do tempo para pensar e 20% para executar não é?

Não se precipite nas interpretações - as epidemias, as fomes, também ajudam à permanência das civilizações...

O Sol leva tipicamente uns 4 anos a passar do mínimo ao máximo; 2012 (ou 2013) é a data prevista para o próximo máximo. Mas não se aflija: deve ser um máximo fraquinho, nada que faça mal a uma mosca. Essas contas baseadas em calendários antigos não são para levar a sério. É preciso ter o Conhecimento do fenómeno para poder saber. E é a esse Conhecimento que seremos aqui conduzidos. Com calma, não há nenhuma urgência.

Joaninha disse...

Alf,

não fazer mal ás moscas é que é triste, podia ao menos dar-lhes uma lezeira qualquer e deixarem de chatear o pessoal :)

antonio disse...

Alf este assunto é recorrente. Eu tenho a ideia que as civilizações colapsam por uma questão de ecologia, de equilíbrio do ecossistema. Quando os recursos esgotam e a classe rica só pode crescer à custa de gerar mais miséria, o ecossistema entra em rotura. É toda uma ecologia social que colapsa.

alf disse...

Antonio, sabe porque é que o assunto é recorrente? Porque ainda não há resposta conhecida, só a sensação de que existe um problema.

Vai ter grandes surpresas...