terça-feira, janeiro 31, 2012

O capitalismo desenfreado dos financeiros



O actual sistema económico ocidental caminha, conduzido pelas suas próprias regras, para um desfecho: um mundo de escravos governado por uma pequenina minoria. Nada de verdadeiramente novo na história da humanidade, que quase sempre existiu nesse estado, pontualmente cortado por uma revolução que repôs alguma igualdade... mas sempre durante pouco tempo.

A razão deste desfecho no quadro actual é a seguinte.

Nas pequenas actividades económicas, como os cafés, os cabeleireiros, as mercearias, é fácil surgir uma nova empresa, um concorrente; isto estabelece pressão sobre a qualidade dos serviços prestados ou dos bens produzidos, força a inovação, a eficiência e mantém os preços baixos.

Nestas actividades não se enriquece, vive-se.

Mas no mundo das grandes empresas não é assim. Onde há grandes empresas, as pequenas desaparecem, comidas pelas grandes; como uma nova grande empresa, ao contrário das pequenas, não pode surgir do nada, não há novos concorrentes. Isto tem uma consequência: estas empresas competem em termos de qualidade e inovação, mas não em termos de preço. As áreas onde existem grandes empresas tornam-se inacessíveis às outras e, por isso, estas cartelizam e tornam-se muito lucrativas (repare-se no prodígio da TDT portuguesa, limitada a 4 canais para não provocar descida dos preços no cabo).

O preço nas áreas de actividade onde as grandes empresas já eliminaram as pequenas é o que maximiza o lucro global na respectiva área de actividade.

Por exemplo, o preço da gasolina é o que maximiza o ganho das petrolíferas. Aumentar o preço provocaria redução de consumo e menores lucros. O mesmo com o preço dos chamadas de telemóveis, dos juros bancários, etc, etc.

A única área onde as grandes empresas não fazem subir os preços é no retalho – porque aí o que elas fazem é esmifrar os produtores, porque elas controlam o acesso ao mercado.

É por isso que os juros das dívidas soberanas europeias sobem tanto – porque como o dinheiro passou a ser propriedade do BCE e a sua colocação no mercado monopólio dos bancos, estes fazem-no ao preço que maximiza os seus lucros – se subissem mais os juros ou os Estados deixariam de pagar, como a Grécia, ou passariam sem o empréstimo, como fez a Alemanha há pouco tempo.

Vejamos o caso do petróleo; o preço do barril de petróleo continua muito baixo (muito mais baixo do que o preço pelo qual pagamos a gasolina) porque não se consente que os países produtores controlem o preço deste (quando estes ameaçam fazê-lo, são atacados militarmente; é por isso que o Irão quer uma bomba nuclear ou, pelo menos, quer conseguir chegar a uma situação em que os EUA pensem mesmo que eles a podem ter, para poder controlar o preço do petróleo sem receio de que lhe aconteça o mesmo que ao Iraque e Líbia).

Ora o dinheiro, ao contrário do petróleo, é livremente controlado pelo BCE e sua clique de banqueiros que, na Europa, se tornaram independentes do poder político. Os árabes não podem controlar o preço do petróleo mas o BCE e os banqueiros podem controlar o preço do dinheiro.

As grandes empresas, como estão cotadas em bolsa, estão à mercê (nem todas, algumas blindaram os estatutos) de quem disponha de uma coisa: dinheiro. Ora isso é o que os bancos e os vários tipos de instituições financeiras têm. Por isso, as grandes empresas vão sendo, uma após a outra, directamente ou indirectamente, propriedade de bancos ou doutras instituições financeiras. Sabem qual é a empresa mais poderosa do mundo ocidental? O Barclays. Entre as 10 empresas mais poderosas do mundo há apenas um grupo industrial; ver aqui. E os bancos são propriedade de quem? De uns quantos financeiros no mundo ocidental.

Assim, o mundo ocidental acaba governado pelos seus financeiros. Como têm o dinheiro, são o sustentáculo, logo os donos, dos partidos políticos. É por isso que temos os governos a servirem o interesse dos banqueiros e não o das pessoas, em toda a Europa, com a eventual excepção da Islândia. É por isso que os bancos centrais são mais autónomos do poder político do que a justiça e se gerem por regras mais secretas que as da maçonaria – como é que funciona o Banco de Portugal? Donde vêm os seus lucros? Quem paga as pensões milionárias aos seus ex-gestores? A quinta com cavalos? O BdP não pode cortar os subsídios e o de Espanha pode??

Para acabar com a actual crise das dívidas soberanas, basta o BCE emprestar aos Estados como o faz à banca; mas essa possibilidade nem se põe. Porquê? Pode-se mudar os tratados europeus, pode-se exigir perdas de soberania, alterar Constituições, mas mexer no estatuto do BCE é que não!!! Em vez disso, o BCE andará a gastar (imprimir) centenas de milhar de milhões de euros (até agora 500 mil milhões segundo ouvi dizer) a comprar dívida soberana no mercado secundário a juros fabulosos para enriquecer os bancos. Claro que há um problema de solvência da banca, mas o dinheiro que falta aí não está nos bolsos das pessoas, está no incalculável poder económico acumulado pelos financeiros.

Os financeiros não actuam para produzir uma sociedade melhor; o seu único objectivo é serem cada vez mais ricos e a curto prazo. Aliás, nem têm muita escolha: neste sistema, ou se luta para se ser o mais rico ou se fica o mais pobre.

O plano dos financeiros, após terem conseguido a sua independência do poder político e o controlo deste, consiste em ficarem donos de todas empresas dos chamados monopólios naturais. As pessoas dependem da actividade dessas empresas, por isso quem as detém pode espoliar todos os rendimentos das pessoas – é o conhecido “golpe da cantina”, uma velha técnica de escravização de que já falei. Reparem: estas empresas não podem ser compradas na bolsa, foi preciso inventar um esquema para conseguir pôr a mão nelas, estão a perceber?

Com a privatização das empresas públicas e a consequente instauração do “sistema de cantina”, rapidamente se chegará a um estado final tipo marajás das Índias: uns quantos imensamente ricos servidos por uma multidão de escravos. Esta situação desenha-se a traços largos em todos os países da Europa; não nos iludamos pelos altos valores dos ordenados mínimos noutros países: em termos de paridade de poder de compra, uma grande parte da população em toda a Europa vive em condições mínimas de sobrevivência, qualquer que seja o país

Este é o objectivo essencial do plano dos banqueiros; o ataque às dívidas soberanas é apenas um passo intermédio, que serve este objectivo. Vender as empresas públicas não altera rigorosamente nada o problema da dívida soberana, este existe qualquer que seja o valor da dívida (a dívida da Espanha é das mais pequenas da Europa, do mundo); essa exigência das troikas não tem nada a ver com a regularização das contas públicas, é um objectivo em si mesmo. Repare-se na metodologia: começa-se por privatizar as empresas lucrativas, como a EDP, e tornam-se lucrativas as que o não são, como nos transportes com a subida dos preços, e depois é que se privatizam; ora vender empresas lucrativas só piora as contas públicas, não as melhora. Além disso, as verbas que se encaixam com estas privatizações são ridiculamente pequenas, sem qualquer significado no montante da dívida pública.

Este plano teria sido inexoravelmente bem sucedido se, felizmente para nós, não existisse um país no mundo com outro sistema económico, com força suficiente para intervir e com boas relações com os portugueses.

Na China, o Governo é que detém o poder económico. Um Governo é eleito e tem sempre na sua agenda melhorar as condições de vida das pessoas. Por isso, entre o capitalismo desenfreado dos financeiros, que não têm quaisquer responsabilidades sociais, e um capitalismo regulado pelo Estado, o segundo é muito melhor para as pessoas. Foi assim que os países ocidentais se desenvolveram, até que os Estados perderam o poder económico e desde então as condições de vida de grande parte das pessoas só piorou. Evidentemente. Porque o poder financeiro visa objectivamente o empobrecimento das pessoas, o aumento da desigualdade, o único processo de conseguirem o enriquecimento rápido.

Mas atenção: não são os chineses que vão fazer esta guerra por nós. Eles estão na guerra deles, os governantes chineses não são eleitos por nós, estão apenas a usar-nos para os seus objectivos, que não são os nossos, embora tenhamos um inimigo comum. Os nossos aliados têm de ser os povos europeus, a começar pelos gregos, espanhóis e italianos. A união faz a força e quem tiver medo do “contágio” vai morrer; somos patos a serem caçados de trás para a frente, sem perceberem que o que aconteceu ao de trás acontece depois a eles.

Esta guerra ainda está a começar. E nós, os portugueses, podemos ter uma responsabilidade especial nela. Penso mesmo que aqui é o único sítio da Europa onde a guerra se pode começar a ganhar.

No próximo post vou falar de uma coisa muito interessante: o tabu do Cavaco Silva, o pânico das escutas, o papel do Constâncio e outros detalhes desta operação. E depois vou começar a apresentar a minha contribuição para esta guerra.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Como deixamos de ser "lixo"




A figura acima, que me chegou via email mas sem referir a origem (as minhas desculpas ao autor, que não sei quem é) mostra bem que os ratings das agências financeiras não são ciência oculta nem ataques ao euro nem manipulações políticas; são simplesmente a tradução do estado da balança de pagamentos, como referi no post anterior. Podem ver aqui que há mais quem pense assim. Portanto, deixar de ser "lixo" é resolver o problema da balança de pagamentos:  passar a ter um fluxo positivo do dinheiro que entra no país. Para isso, há que reduzir importações, saídas de capital, e aumentar as exportações e as entradas de capital.
Parte do problema deve-se às regras actuais, por isso há quem aconselhe a cortar as importações oriundas da Alemanha, para criar sobre ela uma pressão que eleve à adopção de condições mais equilibradas. Isso é uma verdade, mas não é só isso: grande parte do problema resulta de os alemães serem uma sociedade onde os interesses da sociedade são prioritários e nós  sermos um balde de gente onde os interesses individuais têm a primazia. O colectivo é sempre mais forte do que o indivíduo.

Mas vejamos o que podemos fazer de imediato enquanto não resolvemos o nosso problema de fundo.

Quanto às importações e saídas de capital

A ASAE fez finalmente algo que devia ter feito há muito – atacou os produtos importados em dumping.

Os espanhóis e os franceses há muito que exploram este país de parvos. Fazem assim: os preços nos seus países são mantidos adequadamente altos, controlando as quantidades de produtos alimentares que colocam no mercado, nomeadamente fruta e peixe (no caso dos espanhóis); depois os excedentes mandam para Portugal a qualquer preço, arruinando a produção nacional. E malta vai a correr comprar o peixe espanhol à lota ou ao supermercado, sem questionar como é que o peixe espanhol se vende mais barato em Portugal do que em Espanha, ou comprar o leite a 13 cêntimos no Continente sem se questionar que leite é esse que é mais barato do que a água.

O nosso clima também é descaradamente explorado com a construção de aldeamentos e hotéis estrangeiros, o que permite a alemães e ingleses virem passar férias ao algarve sem deixarem cá um tostão. Porreiro pá! É preciso sermos ceguinhos de todo.

E isso traz-me ao terceiro aspecto: o negócio que os pequenos países do norte da europa exploram, que consiste em cobrarem uma taxa pequenina para as empresas enviarem os seus lucros para offshores. Ora diz o ditado que se não podes lutar com eles, junta-te a eles. Portanto, temos é de fazer o mesmo: copiar a legislação holandesa ou irlandesa e fazer o esquema com o offshore da Madeira.

Isto é o que o Governo tem de fazer; tem de fazer mas não fará, é claro; e cada um de nós? É fácil, é só fazermos o mesmo que os outros povos: não compramos produto estrangeiro a não ser que seja indispensável e não haja nenhum produto português alternativo.

Porque, entendamo-nos: o que arruinou o país não foram as obras públicas, as autoestradas, os hospitais – isso foi feito com grande incorporação nacional e comparticipação de fundos europeus. As reparações que eu faço cá em casa não me empobrecem, pelo contrário. O que empobrece são a compras ao estrangeiro – são os carros, os telemóveis, etc, etc; são os lucros das empresas de telecomunicações que são exportados, são os lucros fabulosos da EDP que vão passar a ir para a China, etc, etc.

Portanto, em grande parte, o responsável por esta situação é o nosso perfil de consumidor. Esta é uma diferença fundamental entre norte e sul: os povos do norte são ensinados de pequeninos a não comprar o produto estrangeiro. Fazem esse sacrifício. Nós é que não estamos para isso, era só o que faltava! e enganamo-nos com teorias pseudo-liberais para podermos fechar os olhos à realidade.

E quanto às exportações?

É passarmos a consumir mais produto nacional; isso fortalece as empresas nacionais e aumenta a sua capacidade de exportar. Nenhuma empresa existe cá se não tiver mercado interno (a não ser que pretenda explorar mão-de-obra escrava, o que cá é cada vez mais fácil e noutros lados mais difícil).

Em resumo, se nós agirmos a pensar no nosso interesse individual imediato, estaremos todos lixados. Essa é a grande armadilha dos poderosos: pôr os pequeninos a pensarem que é lícito, normal, conveniente, agir no seu interesse pessoal. Isso até funciona um pouco no tempo de vacas gordas, mas leva às vacas magras e depois ao desastre total. Os poderosos deste mundo associam-se em maçonarias, partidos, cartéis e mais entidades secretas; e é assim que facilmente fazem o que querem neste mundo de zés onde cada um puxa a brasa à sua sardinha. É por isso que os povos do norte não caem nestas armadilhas, pois lá o povo sabe o que tem a fazer, é uma comunidade, é uma “maçonaria”; as obrigações dos portugueses uns com os outros são iguais às dos irmãos duma maçonaria. Ou percebemos isso ou vamos ser riscados do mapa, merecidamente, porque as sociedades não se constroem com pessoas que não têm consciência colectiva.

Bem, caros leitores e amigos, tenho uma má notícia: esta negociata da dívida soberana vai em breve desaparecer para dar lugar a outra muuuuito melhor; no próximo post.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Porque o rating está certo



Tem sido lançada uma grande confusão na cabeça das pessoas com a constante referência à dívida soberana, como se ela fosse a causa da presente crise financeira. Ora salta aos olhos que não pode ser: a Espanha tem uma dívida externa pequeníssima, muito mais pequena do que as dos países que aparecem cotados com altos ratings, e está com problemas.

Quando comprei o meu andar, fiquei com uma dívida muito maior do que o meu rendimento anual – o meu “PIB”; fiquei com uma dívida de mais de 200% do meu PIB; no entanto, o meu rating era AAA para a banca; Porquê? Porque o que eu ganhava era superior aos que eu gastava e aos meus encargos com essa dívida.

E este é que é o busílis da questão: o que se ganha dar ou não para pagar as despesas.

O que é isto de “o que se ganha” em termos de um país? É o dinheiro que entra, pelas exportações, turismo, remessas de emigrantes. E o que se gasta? É o dinheiro que sai, pelas importações, turismo, movimentos de capital, remessas de imigrantes.

Portanto, o que faz com que um país seja AAA ou lixo é este balanço, não é a sua dívida soberana. Basicamente, é a balança de pagamentos do país. É por isso que a Alemanha tem necessariamente um rating AAA.

A balança de pagamentos é por isso a preocupação nº 1 de qualquer outro país.

Portugal tem uma balança de pagamentos altamente deficitária há décadas; é um país que gasta mais do que ganha, portanto. Como é que Portugal pode ter um rating que não seja “lixo”??? Naturalmente que é lixo! É como uma pessoa que todos os anos pede um novo empréstimo para conseguir pagar os encargos dos empréstimos anteriores.

Como é que deixamos de ser lixo? Veremos no próximo post.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Génese e evolução da Crise



Esta crise e as anteriores têm a sua origem profunda num erro filosófico, que será abordado num próximo texto; mas mudar esse erro não é fácil, pelo que o que interessa para já são as causas directas da crise, a fim de percebermos o que podemos esperar do futuro próximo.

Vou dar uma explicação muito simples, não completamente correcta mas reveladora do busílis da questão, de acordo com o meu entendimento.

Existe uma certa quantidade de dinheiro físico. Na Europa, o BCE imprime todos os anos mais um pouco – não sei qual é o montante, arbitremos 2%. Portanto, excluindo o resto do Mundo do nosso raciocínio, o montante de dinheiro cresce à taxa de 2% ao ano.

Este dinheiro está aonde? Nos bancos. Que fazem os bancos com ele? Emprestam. Vamos supor que o emprestam todo e que a taxa média de juro que conseguem é 10%. Então, ao fim de 1 ano, a dívida representa 110% do dinheiro inicial; este, por sua vez, aumentou os 2% que o BCE imprimiu. Temos, portanto, que ao fim de 1 ano a dívida é quase 8% mais do que o dinheiro existente.

Ou seja, o total em dívida supera o dinheiro existente devido às taxas de juros serem superiores ao dinheiro introduzido pelo BCE; e esta diferença cresce anualmente (na verdade, cresce também por outra razão, mas não compliquemos porque esta é que é mais relevante devido ao seu efeito cumulativo).

Se ao fim de 1 ano as dívidas tivessem de ser todas pagas mais os juros, haveria uma crise porque não haveria dinheiro suficiente.

Os financeiros sabem disso, e têm uma solução: não querem que lhes paguem as dívidas, querem é que lhes paguem os juros. Por isso emprestam indiscriminadamente e com prazos a perder de vista.

As pessoas têm empréstimos para a casa, carro, etc; o que elas pagam por mês é quase só juros, as amortizações são a 40 anos (até para carros...). Portanto, o real encargo das pessoas não é a dívida, são os juros da dívida.

Assim, o problema só surge quando os juros excedem o dinheiro existente - os devedores deixam de poder pagar os juros. O crescimento da desigualdade agrava a situação.

É nessa altura que estala a crise: ao deixar de receber os juros, os credores querem reaver os créditos (os bancos têm de depositar no banco central as dívidas em falha) e gera-se uma “corrida às dívidas”. Uma corrida sem solução porque simplesmente não existe dinheiro físico suficiente para o total em dívida. Ainda por cima, parte do dinheiro físico está retido como reserva, uma medida destinada a evitar a “corrida à banca”. O sistema financeiro acautelou a “corrida à banca”, porque ela já aconteceu no passado, mas não acautelou a “corrida à dívida”.

Como se resolve isto? Há várias maneiras. Uma é “redistribuir a riqueza”, que consiste em o Estado cobrar mais sobre os altos ganhos dos financeiros e injectar esse dinheiro na base da economia; outra consiste em reajustamentos de taxas de juros a valores mais baixos; outra é o banco central “comprar” dívida incobrável à banca que depois não cobra, o que equivale a injectar dinheiro no montante da diferença entre o dinheiro real e o crédito (esta solução foi inventada pelos japoneses); outra é anular parcialmente as dívidas.

Porém, quando toca a haver crise, todos querem é safar-se o mais rapidamente possível. Renegociar os empréstimos baixando os juros? Nem pensar, isso iria diminuir os ganhos. Há é que aumentar os juros para tentar sacar o máximo dinheiro antes que se acabe.

No Japão e nos EUA ainda há quem mande no sistema financeiro e por isso surgem algumas medidas adequadas, como redistribuição de riqueza, a intervenção do banco central na dívida soberana, embora indirecta, e a compra pelo banco central de crédito mal-parado.

A Europa, sem qualquer controlo político sobre o sistema financeiro, tem um esquema próprio desenvolvido por este. Um esquema em duas fases.

A primeira fase consiste em meter muito dinheiro na banca para que ela possa gerir os créditos mal-parados. Onde é que se vai buscar esse dinheiro? Aos bolsos dos pobres, naturalmente, pois são os ricos que definem o jogo e não querem corrigir a situação indo aos seus próprios bolsos. E como? Através das dívidas soberanas.

O facto de o BCE não intervir directamente nas dívidas soberanas deixou estas sem capacidade de negociação e os seus juros podem subir ilimitadamente. Isto é uma mina de ouro para a banca.

Percebamos o processo: a Banca compra os títulos de dívida soberana e revende ao BCE, ganhando uma taxa enorme no processo. A banca tem um negócio fabuloso, o de intermediário entre as dívidas públicas e o BCE. Todo o dinheiro dos cidadãos comuns irá ser escoado para o pagamento dos juros da dívida, ou seja, para a Banca. Notem que o BCE comprar os títulos é indispensável ao processo porque, como veremos, eles vão ficar incobráveis.

 Como é que os Estados vão arranjar dinheiro para pagar os altos juros?

Compreendamos a situação: imaginem que têm um empréstimo para compra de casa, pelo qual pagam 500 euros por mês. Um bom investimento, pois se arrendassem uma casa pagariam o mesmo ou mais e não teriam nada. Comprar casa própria é um investimento e uma poupança. Agora imaginem que recebem uma carta do banco a dizer que resolveram unilateralmente subir os juros, pois há falta de crédito, e que passam a pagar 1700 euros por mês! O vosso ordenado é de 1000 euros. Vocês dizem ao banco que não podem pagar isso. O banco então acha-se no direito de entrar na vossa vida e desatar a vender os vossos bens, sacar o dinheiro todo que tiverem e ainda vos insulta, seus malandros, a quererem ter casa com dinheiro que não é vosso – vão é viver para debaixo da ponte, seus caloteiros.

Isto é mais ou menos o que se passa com as dívidas soberanas.

Assim, os financeiros entram nos Estados e impõem a “Austeridade”. Austeridade mas não para os ricos. Corta-se nos ordenados e nos direitos sociais. Duas coisas que não afectam os ricos. Impostos sobre o capital, parcerias público-privadas, fundações, denúncia de dívidas fraudulentas mesmo quando a fraude já está provada, como no caso dos submarinos, isso não!

Os críticos da austeridade dizem que ela corta o crescimento e que sem crescimento não há dinheiro para pagar dívidas; são uns utópicos, o crescimento não interessa nada aos financeiros, ele não fabrica dinheiro;  “crescimento” num lado significa decrescimento noutro lado, para os financeiros é irrelevante, o que interessa é sacar o mais possível do pouco dinheiro físico que existe. O que falta não é produção, é dinheiro físico, pura e simplesmente, e o objectivo é sacar o máximo de dinheiro já já; se o país fica destruído, se as empresas fecham, se as pessoas passam fome, isso não interessa nada, cada um trata dos seus interesses. Na verdade, isso é a consequência necessária do saque que é preciso fazer para que os interesses dos ricos não fiquem prejudicados. Vamos viver para “debaixo da ponte”.

Mas por maior que seja a “austeridade” nunca se pode obter o dinheiro necessário porque ele não existe. A austeridade esvazia os trocos dos bolsos dos pobres mas depois não há mais trocos.

Entendamos o seguinte: na Europa, os bancos são apenas retalhistas do dinheiro. O produtor do dinheiro é o BCE. A Banca tem o exclusivo do retalho deste produto, que o BCE produz em monopólio; o BCE faz como qualquer outro monopolista: produz nas quantidades que mais aumentam o seu ganho – se produzisse mais euros, o euro desvalorizava-se e ele tinha menos ganho. Ele e a Banca, pois isso baixaria os juros. O BCE e a Banca são uma entidade só, a desempenhar dois papéis. Estados, cidadãos, empresas, são todos clientes do retalhista do dinheiro, que é a Banca.

Os bancos vão ter de enfrentar muito crédito incobrável porque as pessoas ficam sem dinheiro para pagar os empréstimos, mas vão ser compensados pelos ganhos na intermediação entre as dívidas soberanas e o BCE. Este processo transfere para o Estado, ou seja, para todos nós os que dependemos directa ou indirectamente dele, o problema gerado pelo excesso de ganhos financeiros. A banca transforma assim os seus ganhos virtuais em dinheiro real extraindo o dinheiro real das pessoas.

Entendamos: criou-se um dinheiro virtual de que todos beneficiámos, uns mais do que outros; mas agora o dinheiro virtual dos ricos é substituído por dinheiro real e o nosso dinheiro real desaparece e o virtual esfuma-se através da utilização de uma ferramenta chamada “Austeridade”.

No fim desta primeira fase, o BCE está cheio de títulos de dívida soberana, que comprou no mercado secundário; que vai ele fazer com esses títulos? Cobrá-los? Como, se não há dinheiro??

Ele não vai cobrá-los, o que o BCE tem a fazer é escrevinhar os títulos na contabilidade do BCE e deixá-los lá arquivadinhos. O BCE apenas está a fazer aquilo que todos os bancos centrais fazem, comprar dívida soberana para arquivo, só que usando a Banca como intermediário, pois a Banca é o seu retalhista exclusivo.

 Mas há uma diferença para os outros bancos centrais; os outros estão ao serviço do seu país, arquivam a dívida porque isso serve os interesses desse país. O BCE não está ao serviço de nada a não ser de si próprio. Ele irá querer negociar alguma vantagem, qual? uma perca de soberania? Os senhores do dinheiro vão tomar conta do poder político? Será que a Merkel consegue alterar os tratados a tempo e de forma a retirar poderes ao BCE? Ou também ela está ao serviço do BCE?

E o nosso governo está ao serviço de quem?

Pessoalmente, penso que por agora vamos ser salvos pela ameaça chinesa – com as pernas a tremer de medo perante o Dragão, o BCE vai arquivar já já as dívidas soberanas para travar a entrada da mitológica criatura.

terça-feira, janeiro 03, 2012

O artigo 123 do Tratado de Lisboa




Que a origem da crise se situava no facto de os governos não terem capacidade de negociar as condições da dívida já tínhamos percebido; que isso se devia ao facto de lhes ter sido retirada a capacidade de imprimir dinheiro também já tínhamos percebido; o que não sabíamos era onde exactamente estava escrito que devia ser assim. Este vídeo explica: no artigo 123 do Tratado de Lisboa.


Note-se que não se tratará de uma originalidade deste tratado – na primeira versão do vídeo, um pouco mais detalhada, diz que já vem do Tratado de Maastricht e de uma lei francesa de 1973 (não sei se está correcto).

Há pois uma enorme ingenuidade (ou esperteza...) neste artigo. O preço deve resultar duma negociação entre as partes e é este princípio liberal básico que é aqui violado porque assim os Estados ficaram sem qualquer capacidade de negociação. E se eu sugiro que o artigo 123 pode ser uma esperteza em vez de uma ingenuidade é porque a estratégia básica das financeiras consiste em criar situações em que a outra parte perde capacidade de negociação – é por isso que os bancos estão constantemente a “oferecer” empréstimos aos seus clientes. E é isso que é feito com este artigo 123.

Portanto, há que encontrar uma nova redacção a este artigo, que devolva aos Estados capacidade negocial adequada. Alguém tem uma sugestão?

Este é apenas um dos dois problemas fundamentais que vão levar o caos à Europa do Euro. No próximo post veremos o outro.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

A Lógica da Batata no Capitalismo e a bomba Chinesa



Vivemos uma época que ficará para a História; a época em que a humanidade, pelo menos o Ocidente, viveu sob a batuta da Lógica da Batata. A Lógica da Batata é perfeita para defender os interesses pessoais num mundo movido pela cupidez. Sempre foi usada pelos sindicatos, pelas classes, pelos patrões, pelos cientistas, etc, etc, mas felizmente sempre houve quem estivesse acima dela. Mas agora parece que não há.

A Lógica da Batata é a lógica do pensamento simplório, imediatista, ao serviço das conveniências próprias.

A Economia é um exemplo acabado deste estado de coisas. É por isso que numa era de abundância conseguimos o prodígio de empobrecer, de estar a regressar aos tempos antigos, de as pessoas deixarem de ter electricidade em casa, de irem buscar água à fonte, de a iluminação pública estar desligada – estamos a caminhar a passos largos para uma era de escravatura.

Vejam como a Lógica da Batata nos orienta: em qualquer jornal se pode encontrar um artigo de opinião de um qualquer economista a dizer basicamente isto:

 - Precisamos de investidores para gerar emprego
 - Para que os investidores invistam cá, precisamos de lhes dar melhores condições que os outros; senão, vão para outros lados, não é?
 - Logo, o capital não pode ser taxado e os custos das empresas têm de ser minimizados.
 - Logo, é preciso impor políticas de austeridade, baixar os ordenados dos empregados, os seus direitos, e baixar os custos sociais – subsídios de desemprego, pensões, saúde, educação, etc.

Parece muito certo, não é? Certamente certo para os capitalistas. Mas agora vejamos as consequências para as outras pessoas.

Num esquema em que o capital circula livre de impostos, os lucros das empresas vão-se embora e única coisa que elas deixam são os ordenados que pagam; porém, estes são o mínimo possível – “queres que o capital venha para cá? Então tens de reduzir os ordenados para o nível mínimo, o nível de sobrevivência” – é o que este iluminados dizem. E acrescentam, com ar paternal: e é bem bom conseguirem ter um empregozito.

Bom, mas se as pessoas só ganham o mínimo de sobrevivência e o capital não paga impostos, onde é que o Estado vai buscar dinheiro para pagar a sobrevivência dos que não estão empregados? Não vai – mesmo os impostos como o IVA não rendem porque as pessoas não têm dinheiro para fazer compras. Adeus reformas, subsídios de desemprego, saúde, ensino público.

Este quadro leva à mais negra miséria para toda a gente excepto para os detentores do capital e seus lacaios directos; mas tem um problema: se toda a gente vai para a miséria, depois quem compra os produtos e serviços das empresas?

A resposta é simples: divide-se o Mundo – num lado, ficam os consumidores, no outro os escravos. Ou melhor, na óptica destes senhores, “organiza-se” o Mundo; o Sul da Europa é terra de escravos.

As pessoas que agora defendem um Capital acima da Lei, um Capital que não tem obrigações, não paga impostos, não tem deveres, só direitos, são pessoas que numa ditadura defenderiam o ditador, que no tempo de Salazar defenderiam Salazar. Pretendem estar a falar e a agir no nosso interesse, mas não estão, são lacaios do Poder.

Nós já não estamos numa Democracia; este Governo eleito está em funções porque está ao serviço dos Senhores do Capital; se não estivesse, teria sido substituído como na Grécia e na Itália. Todos os países do Sul são actualmente “governados” por pessoas ao serviço do Capital.

É claro que há muita coisa que precisa mesmo de ser corrigida – o país está a saque há muito tempo, por políticos e pelas mais diversas classes profissionais; a necessidade desta correcção, porém, está a servir de suporte e de justificação para medidas que não visam senão o empobrecimento e escravização.

É por isso que a China ter entrado aqui é uma boa notícia – a China é governada por pessoas ao serviço do seu povo e por ele realmente escolhidas. Na China, o Capital está submetido ao poder Político. O Capital ficou a tremer das pernas com a entrada chinesa aqui. O Capital vai ter de se pôr fino.

As minhas previsões para o futuro próximo: as taxas de juros das dívidas soberanas vão baixar em todo o lado, as dívidas soberanas vão ser renegociadas e as privatizações nas quais os chineses possam estar interessados vão ser proteladas.

sábado, dezembro 24, 2011

Uma batalha ganha



Naturalmente que temos enorme dificuldade em aceitar desígnios maquiavélicos; a generalidade de nós preza a sua condição humana e o lado afectivo que lhe está associado. A generalidade de nós desconhece que as pessoas com sede ilimitada de poder ou de dinheiro não têm condição humana nem lado afectivo – uns nasceram sem ele, outros tiraram cursos para se verem livres dele – é que há cursos para isso, para matarem todo o “coração “ que uma pessoa possa ter, entendido como um obstáculo ao sucesso. Um gestor aprende a visar unicamente o lucro na nossa sociedade ultra-liberal e capitalista. Para um gestor, uma pessoa é uma “coisa”.

Notem que isto é apenas uma corrente de pensamento, uma escola. Há outras. Por exemplo, uma pessoa com religião não pode ter cargos políticos na China – a religião é aí ostracizada, tal como os sentimentos são ostracizados na teoria liberal do ocidente. Os gestores chineses não têm religião; os gestores dos países liberais ocidentais não têm coração. Compreende-se a opção chinesa, pois quando há mais de uma religião geram-se conflitos graves, como se verá no Iraque; a opção ocidental, a da coisificação do ser humano, é que não é aceitável porque de modo algum vai conduzir a uma sociedade melhor para todos; mas como conduz a uma sociedade melhor para alguns, andam muitos a defendê-la na ilusão de poderem pertencer ao grupo de privilegiados.

Notem também que não tem de ser assim – há escolas de gestão nos países nórdicos e na Holanda, pelo menos, que recusam a exploração do homem pelo homem como ponto de partida, que recusam a equação tão querida dos nossos gestores: «humano = objecto perecível». Dos nossos gestores e de muitos de nós....


Então que pretendem estes gestores sem coração e visando unicamente o lucro, do nosso pequenino país? Pretendem escravos. Maximizar o lucro passa por minimizar o custo da mão-de-obra; Portugal tem condições ideais para isso: clima ameno, que minimiza os custos de sobrevivência, e uma população iletrada, que nada sabe de economia e vive pelo coração. E tem mais uma característica adiante apresentada.

Um país de escravos é um país pobre – os pobres nem pagam impostos sobre o rendimento nem fazem compras geradores de IVA nem têm bens passivos de impostos como o IMI; logo, o Estado é parco em receitas. As empresas já não pagam impostos porque os lucros vão para fora – o ser humano foi «coisificado» e o capital «deusificado».  Um Estado sem dinheiro não pode pagar subsídios de desemprego nem reformas nem saúde – a saúde é das coisas importantes a condicionar pois só serve para prolongar a vida do escravo para além da sua idade útil. Interessa oficinas de manutenção de carros velhos? Não, os carros velhos são para abater. Então como se resolve o problema daqueles que não servem para escravos?

Há uma solução simples: emigrarem. Para África ou Brasil. A possibilidade de os excedentários emigrarem é a outra coisa que torna Portugal tão apetecível para os esclavagistas modernos.

A escravização e a emigração são dois objectivos associados. As medidas para promover a escravização – redução de ordenados e aumento do tempo de trabalho (aumento do horário, corte dos feriados e redução das férias) – serão acompanhadas de medidas incentivadoras da emigração. Estes são os dois grandes objectivos do processo revolucionário em curso. Que surgirá de uma forma “natural”, seguindo a chamada lógica da batata: pois se aqui não há empregos, naturalmente que o melhor que as pessoas têm a fazer é emigrar, não é? E como o mercado interno vai cair, o melhor que as empresas que trabalham para o mercado interno têm a fazer é virar-se para o estrangeiro, não é? E, sendo assim, nada mais natural que as empresas nacionais emigrarem para os seus mercados alvo, pois não faz sentido nenhum continuarem cá, até porque cá nem conseguem crédito nem sequer as garantias bancárias dos bancos nacionais são aceites no estrangeiro. E assim, logicamente, no país só ficarão os escravos a trabalhar nas empresas estrangeiras, uns quantos funcionários públicos e os reformados que forem sobrevivendo graças ao dinheiro que os filhos emigrados vão mandando. E os novos senhores, é claro.

E isto tudo irá acontecendo sem grandes resistências porque as pessoas irão sendo afectadas de baixo para cima. Os comentadores da televisão continuarão a dizer que não se pode tratar o capital como o trabalho porque senão o capital vai-se embora – isto porque pensam que a situação não lhes baterá à porta enquanto o capital mandar nisto.

É como caçar patos – começa-se pelos detrás que os da frente não dão por nada.

Numa era de abundância como a que vivemos, é inaceitável este objectivo de escravização das pessoas. Mas esta jogada dos europeus mais poderosos corre o risco de lhes sair furada. As regras que laboriosamente estabeleceram para servir os seus interesses vão agora servir os interesses de quem é mais forte do que eles. Vão ser vítimas do seu próprio jogo.

...quem ri por último...

(o nosso futuro seria negro se a EDP tem ido para os alemães, como estava mais do que “cozinhado”... mas houve gente muito inteligente que foi capaz de nos dar um outro futuro... vamos ver o que vem aí, este Futuro ainda não está escrito. Notem que isto foi uma batalha ganha por nós, a imensa pressa de “privatizar” as empresas publicas era apenas para não dar tempo a que os “de fora da Europa” entrassem no jogo.)

quinta-feira, dezembro 15, 2011

O BCE empresta aos bancos e não ao Estado por que razão?



Inicialmente, os bancos centrais produziam dinheiro e esse dinheiro era entregue ao governo. Era o governo quem injectava dinheiro na economia ao pagar as suas contas com ele.

Este sistema tinha qualidades – é preciso ir aumentando o dinheiro real à medida que a economia cresce – e nada melhor do usar o novo dinheiro para fazer investimentos ao serviço do interesse colectivo, e ninguém melhor que o Estado para fazer esse tipo de investimentos. Nos EUA, o Estado fez um imenso esforço de investimento em investigação e desenvolvimento, nomeadamente na NASA, que teve um papel determinante no desenvolvimento industrial americano.

Porém, deixar a impressão de dinheiro na mão dos governos conduz a um determinado tipo de abusos – e, sobretudo, deitar dinheiro por cima dos problemas é uma forma fácil de os resolver no imediato e os agravar no futuro; a facilidade de obter dinheiro alimenta a incompetência e a corrupção.

A consequência dos excessos de produção de dinheiro acaba por ser a inflação; a possibilidade de “deitar dinheiro para cima dos problemas” em vez de os enfrentar acaba por conduzir os países para situações complicadas.

Assim, entendeu-se que o dinheiro fresco não deveria ser entregue aos governos.

Procuraram-se outras soluções. A compra de dívida mal-parada do sistema bancário é uma. Uma teoria inventada por japoneses, se não estou em erro, e prontamente aplicada pelos americanos.

A consequência foi muito interessante: como o banco central compraria a dívida mal-parada, os bancos passaram a preferir emprestar dinheiro a quem tinha menos recursos – cobrando juros mais altos! Se as pessoas deixassem de conseguir pagar, o problema passava para o banco central. Isto começou a tomar proporções alarmantes e então inventaram outra: segurar as dívidas. E depois ainda inventaram uma que eu nem consigo perceber. No fim, fizeram falir a seguradora, que parece que era a maior ou das maiores do mundo. O pessoal da Stanley & Poors esteve por detrás do esquema, razão porque deram o rating AAA à seguradora dois dias antes da falência. Creio que o filme Inside Job explica o processo.

Isto mostra que, se entregar o dinheiro novo ao Estado tem problemas, entregar aos privados ainda pode ser muito pior. Se a injecção de dinheiro em excesso pelo Estado pode gerar inflação, a injecção de dinheiro pela Banca causa empobrecimento da maioria das pessoas porque para chegar às pessoas esse dinheiro cobra juros usuários, por um lado, e, por outro, põe em movimento toda uma máquina destinada a tornar as pessoas dependentes de crédito. Não causa menos abusos pessoais: os ordenados e mordomias dos executivos bancários são muito superiores às mordomias dos políticos; e acaba por ser uma fonte privilegiada de corrupção dos políticos.

Mas, duma forma ou doutra, todos os países conservam algum controlo político sobre a emissão de moeda. Excepto num caso: a Europa do Euro.

Na Europa entendeu-se que o sistema financeiro devia ser independente do político (uma espécie de aplicação do princípio de separação de poderes...). O BCE imprime dinheiro segundo uma fórmula, em função do estado da economia; desta forma impede-se a produção de dinheiro em excesso, potencialmente geradora de inflação. Esse dinheiro pertence a cada estado membro em função do seu PIB (discordo, devia ser em função da população) mas é gerido pelo BCE, que o não pode emprestar aos Estados ou aplicar na compra de dívida soberana. Na gestão do dinheiro, o BCE não aplica a teoria da compra da dívida mal-parada, antes o empresta à banca com taxas de juro que têm sido da ordem do 1%. O BCE andará a imprimir cerca de 50 mil milhões de euros por ano, cabendo a Portugal qualquer coisa que representará entre 0.5% a 1% do nosso PIB. Bem, isto é o que eu consegui perceber do que fui lendo aqui e ali. Quem sabe mais que esclareça. Estranho é que uma informação tão básica pareça ser tão difícil de obter.

Este esquema tem uma falha óbvia: deixa as dívidas soberanas sem capacidade de NEGOCIAÇÃO! Resultado: os juros das dívidas soberanas vão disparar fatalmente. E aqui se inicia um processo em cadeia que vai levar ao mesmo resultado do processo americano: os juros das dívidas soberanas disparam, tornando os países insolventes; e agora criou-se um mega fundo para comprar no mercado secundário os títulos de dívida pública – ou seja, para comprar a dívida mal-parada que os financeiros originam por pretenderem juros usuários nas dívidas soberanas. A única diferença para o caso americano é que na Europa o problema não se cria com as dívidas dos particulares mas dos estados. O que vai acontecer? Os juros vão continuar a subir, é claro, pois os financeiros agora têm “as costas quentes”: há um fundo para ficar com os títulos tornados potencialmente incobráveis com os juros usuários.

Já muita gente parece ter percebido que só há uma saída para a crise, que é o BCE imprimir muito mais moeda e comprar directamente dívida soberana. Assim que o BCE o fizer, os juros cairão imediatamente. Porque é que isso ainda não se fez e porque é que pessoas que deviam muito bem saber que isso é imprescindível andam a propor outras coisas que só vão agravar o problema é que é um grande mistério... ou não... para se saber quem é o criminoso apenas há que ver quem beneficia do crime, não é?

Apesar disso, ainda tenho alguma esperança que na cabeça da Merkel esteja a ideia de mudar os estatutos do BCE para lhe dar o poder de financiar directamente os Estados e está apenas a pretender determinadas garantias de que se pode avançar para esse processo sem abusos pelos Estados; mas dizem-me que é utopia minha...

Ahh, para terminar: o papão de que o BCE intervir sobre as dívidas soberanas gerará uma terrífica inflação é um disparate – na verdade, bastaria a possibilidade de o BCE o fazer para os juros baixarem imediatamente, como é óbvio, portanto nem é preciso o BCE fazer grande coisa, bastaria ter esse poder. Além, o exemplo americano está aí: apesar dos trilhões de dólares que o Fed tem injectado no mercado, o dólar continua forte e recomenda-se. O que sustenta a moeda é a força da economia.

No próximo post vou apresentar a minha explicação de porque é que estes indivíduos propõem Austeridade para enfrentar o problema.

domingo, dezembro 11, 2011

Para acabar com alguns equívocos fundamentais - I

A importância da NEGOCIAÇÃO

Depois de umas acaloradas discussões com ilustres amigos, pareceu-me oportuno fazer uns textos a esclarecer alguns equívocos correntes e que tornam impossível qualquer entendimento da actual crise; aqui vai o primeiro ponto.

O que controla os preços não é a concorrência, é a NEGOCIAÇÃO

A generalidade das pessoas tem a ideia que o facto de existirem várias empresas a operar no mesmo mercado conduz a preços mínimos dos produtos e serviços; isso é um enorme equívoco.

A concorrência só se faz a nível da qualidade dos serviços e produtos fornecidos pelas empresas, não a nível dos preços.

Pensem no seguinte: se uma empresa resolver baixar os seus preços, o que vai acontecer? Vai aumentar as vendas? Não, o que vai acontecer é que as concorrentes vão também baixar os preços. Isso é uma coisa fácil de fazer, faz-se de um dia para o outro. Então, a sua quota de mercado vai manter-se mas os seus lucros vão diminuir. Uma estupidez, não é? As empresas que estão no mercado não são estúpidas, se fossem já tinham falido. Então a sua estratégia é convencer os consumidores de que oferecem mais pelo mesmo preço ou até por um preço mais alto – assim aumentam a sua quota de mercado e aumentam os seus lucros. Esta é que a estratégia ganhadora.

Quando surge uma nova empresa, esta, necessariamente, não tem a imagem de qualidade, a credibilidade, das que já estão no mercado. Então, a única forma de entrar é praticar preços mais baixos. Porém, isto não vai fazer descer os preços, porque o seu preço vai estar conforme a sua imagem de qualidade. Se esta nova empresa conseguir manter-se no mercado, ela irá subir os seus preços para os valores das outras, à medida que for afirmando a sua imagem de qualidade. Ou então opta por ter preços baixos e qualidade baixa porque descobre aqui um nicho de mercado.

O preço praticado em cada área de actividade é ditado pela lei da oferta e procura do mercado como um todo, é o que maximiza o lucro global dessa área de actividade; a concorrência não afecta directamente o preço.

O que afecta o preço é a NEGOCIAÇÃO.

Reparem agora no sector financeiro; algum banco propõe uma taxa de juro para os cartões de crédito de 10%? Não, pois não? O que todos propõem é uma taxa de juro tão alta que tem de ser limitada por lei. E porquê? Porque as pessoas que caem numa dívida por consumo, através do cartão de crédito, que são dívidas de curto prazo, não podem eliminar essa dívida no curto prazo e não têm, por isso, poder negocial. É preciso uma Lei para as “proteger”, limitando a taxa máxima de juro. No entanto, existem inúmeros bancos; não é estranho não haver nem um que proponha taxas mais baixas? A razão é a que disse acima: se algum o fizesse, todos o fariam e todos passariam a ganhar menos dinheiro. Os lucros globais da actividade dos cartões de crédito diminuiriam.

Há porém uma área de actividade que consiste em oferecer o preço mais baixo – o preço mais baixo nos produtos e serviços dos OUTROS. É a actividade retalhista. O Continente ou a Fnac ou outro grande retalhista não competem nas suas margens de lucro; ou que eles fazem é NEGOCIAR com os fornecedores os preços mais baixos. Da mesma forma, as empresas de produção também NEGOCEIAM os preços com os seus fornecedores – por exemplo, as grandes fábricas de automóveis NEGOCEIAM intensamente os preços com os seus fornecedores; NEGOCEIAM  as vantagens financeiras com os países onde se instalam; NEGOCIAM os ordenados com os seus empregados.

Ou seja, o que decide os preços é a NEGOCIAÇÃO. E para negociar é preciso ter capacidade negocial que, basicamente, é a capacidade de dizer NÃO. (na verdade, é mais complexo do que isto mas tem de começar por aqui)

Por exemplo, a Alemanha nas duas últimas vezes que pretendeu colocar dívida pública disse NÃO à oferta que lhe foi feita; a Alemanha tem capacidade negocial, pode dizer NÃO. Portugal, agora que tem este empréstimo da troika, adquiriu capacidade negocial e por isso os juros da dívida pública que vai colocando estão abaixo do que paga a Itália – abaixo do que os bancos me pagam a mim pelos meus pequeninos depósitos a prazo! Porquê? Porque se pedirem juros mais altos Portugal pode dizer NÃO. Em 2013, quando voltar a perder a capacidade de dizer NÃO, os juros vão disparar novamente. Qualquer que seja a dívida soberana e o rating das agências financeiras.


Portanto, a crise e a saída dela não tem nada a ver com excesso de dívida soberana nem com confiança dos mercados; tem única e exclusivamente a ver com CAPACIDADE NEGOCIAL. 


Essa capacidade negocial podemos obtê-la: 
1 - ou directamente, através de processos de emissão interna de dinheiro de uma forma subtil, como tratado no texto anterior;
2 - ou conseguindo que o BCE faça o que fazem todos os bancos centrais: comprar dívida soberana. Para isso, há que NEGOCIAR com os outros países europeus e conseguir uma alteração dos tratados que ponha o BCE na dependência do poder político.



quinta-feira, dezembro 01, 2011

Há uma solução testada com sucesso: as “MEFO BILLS”



Neste sarilho da dívida soberana, sempre que precisarmos de ir ao mercado os juros dispararão – porque os juros dependem do poder negocial e não do montante da dívida. Infelizmente, temos um PM completamente ingénuo (ou será fingimento?) que diz que o juro é uma questão de «confiança dos mercados». Pior do que isso, afirmou há pouco que não há outra opinião sobre o assunto. Posso talvez sugerir-lhe que consulte sobre o assunto o nosso PR... ou que veja o que tem dito o Obama ou o Mário Soares... será que ele sofre de autismo??

As medidas que estão a ser adoptadas não melhoram a nossa capacidade negocial, logo não vão resolver o nosso problema. O problema prioritário, o juro, só se resolve adquirindo capacidade de dizer “não” a juros altos. Como fez a Alemanha recentemente. (a propósito, a subida dos juros na dívida pública da Alemanha também é por causa da falta de «confiança dos mercados»?)

Resolver esta situação é fácil - é só o BCE ligar as impressoras sempre que o juro ultrapassar um valor considerado razoável. Ou seja, existem decisões políticas que resolvem o problema. Propositadamente, mantém-se o problema no campo económico, onde ele não tem solução com as actuais regras. Isto é, foi tomada a decisão política de não resolver o problema. Quem tem o poder de mudar esta decisão são a França e a Alemanha, mas acontece que elas têm vantagem na actual situação, como mostrarei no próximo texto. Nós também poderíamos aproveitar alguma coisa com a crise, uma oportunidade de ouro para combater a corrupção em todas as suas formas. Mas, até agora, só se tem visto combater as pessoas honestas.

Como não sabemos se a França e a Alemanha vão tomar a decisão política de acabar com a crise pelos tempos mais próximos, a cautela manda que tenhamos uma solução preparada para pôr em acção caso não haja grandes mudanças até ao fim de 2012.

Num texto anterior eu propus que o Estado emitisse umas obrigações com a capacidade de circular como dinheiro – uma emissão paralela de dinheiro, mas legalmente enquadrada. Assim, o 13º e 14º meses não seriam cortados mas pagos desta forma. E estas obrigações seriam aceites pelo Estado para o pagamento numa percentagem adequada de dívidas ao estado – IRS, segurança social, IRC, IVA.

Foi uma ideia. Uma coisa estranha porque, como me disse há muitos anos um director duma importante empresa alemã em Portugal, nós, portugueses, não temos ideias, não pensamos, quem pensa são os alemães. Um frémito de orgulho percorria-lhe a espinha por ser empregado desse ilustre povo que era capaz dessa coisa espantosa, desconhecida dos portugueses: pensar! Na altura, risquei logo essa empresa das minhas opções, não imaginando que um dia iria ter como PM alguém que parece esse director.

Agora, mão amiga fez-me chegar o seguinte link.

Muito interessante!! Não é que os alemães já usaram este processo? E com enorme sucesso?

A seguir à primeira guerra mundial estavam proibidos de fabricar armas e não tinham financiamento para o desenvolvimento das suas indústrias pesadas; então o ministro das finanças alemão inventou uma sociedade “de investigação metalúrgica”, fictícia, com o capital de 1 milhão de marcos, cujo nome abreviado era MEFO; esta empresa fazia pagamentos à indústria pesada e de armamento com “MEFO BILLS”, que podiam ser convertidas em marcos em qualquer banco alemão, que por sua vez as podiam descontar no banco central a partir do 3º mês da sua emissão. Estas notas de crédito tinham uma validade de 6 meses prorrogáveis indefinidamente por períodos de 3 meses. As MEFO BILLS permitiram ao governo insuflar a sua economia com resultados tão brilhantes que em pouco tempo estavam de novo em guerra. Em 1939, as MEFO BILLS totalizariam 12 mil milhões de marcos contra os 19 mil milhões de obrigações do Tesouro.

Isto é uma grande lição: os alemães tinham um problema e resolveram-no. Não ficaram à espera que alguém resolvesse por eles. Não se deixaram ficar em becos sem saída, dependentes de outros, que é onde nós estamos agora. Pensaram!!!!

O esquema que os alemães usaram para financiar o seu esforço militar podemos nós usar para financiar o estado social. Ao conseguir isso, obtemos poder negocial porque deixamos de estar com a corda na garganta – se forem exigidos juros excessivos, o estado pode fazer como a Alemanha fez há dias, rejeitar o empréstimo, porque pode pagar parcialmente os ordenados e as pensões com estes títulos de dívida. Mas essa situação extrema nunca acontecerá porque não tem vantagem para os financeiros – é preferível emprestarem o dinheiro a 4,5% a não emprestarem.

E vejam o melhor de tudo: nem sequer temos de pensar! Os alemães já pensaram por nós, só temos que ser «bons alunos»!