Quinta-feira, Dezembro 15, 2011
O BCE empresta aos bancos e não ao Estado por que razão?
Inicialmente, os
bancos centrais produziam dinheiro e esse dinheiro era entregue ao governo. Era
o governo quem injectava dinheiro na economia ao pagar as suas contas com ele.
Este sistema
tinha qualidades – é preciso ir aumentando o dinheiro real à medida que a
economia cresce – e nada melhor do usar o novo dinheiro para fazer
investimentos ao serviço do interesse colectivo, e ninguém melhor que o Estado
para fazer esse tipo de investimentos. Nos EUA, o Estado fez um imenso esforço
de investimento em investigação e desenvolvimento, nomeadamente na NASA, que
teve um papel determinante no desenvolvimento industrial americano.
Porém, deixar a
impressão de dinheiro na mão dos governos conduz a um determinado tipo de
abusos – e, sobretudo, deitar dinheiro por cima dos problemas é uma forma fácil
de os resolver no imediato e os agravar no futuro; a facilidade de obter
dinheiro alimenta a incompetência e a corrupção.
A consequência
dos excessos de produção de dinheiro acaba por ser a inflação; a possibilidade
de “deitar dinheiro para cima dos problemas” em vez de os enfrentar acaba por
conduzir os países para situações complicadas.
Assim,
entendeu-se que o dinheiro fresco não deveria ser entregue aos governos.
Procuraram-se
outras soluções. A compra de dívida mal-parada do sistema bancário é uma. Uma
teoria inventada por japoneses, se não estou em erro, e prontamente aplicada
pelos americanos.
A consequência
foi muito interessante: como o banco central compraria a dívida mal-parada, os
bancos passaram a preferir emprestar dinheiro a quem tinha menos recursos –
cobrando juros mais altos! Se as pessoas deixassem de conseguir pagar, o
problema passava para o banco central. Isto começou a tomar proporções
alarmantes e então inventaram outra: segurar as dívidas. E depois ainda
inventaram uma que eu nem consigo perceber. No fim, fizeram falir a seguradora,
que parece que era a maior ou das maiores do mundo. O pessoal da Stanley &
Poors esteve por detrás do esquema, razão porque deram o rating AAA à seguradora
dois dias antes da falência. Creio que o filme Inside Job explica o processo.
Isto mostra que,
se entregar o dinheiro novo ao Estado tem problemas, entregar aos privados
ainda pode ser muito pior. Se a injecção de dinheiro em excesso pelo Estado pode
gerar inflação, a injecção de dinheiro pela Banca causa empobrecimento da
maioria das pessoas porque para chegar às pessoas esse dinheiro cobra juros
usuários, por um lado, e, por outro, põe em movimento toda uma máquina
destinada a tornar as pessoas dependentes de crédito. Não causa menos abusos
pessoais: os ordenados e mordomias dos executivos bancários são muito
superiores às mordomias dos políticos; e acaba por ser uma fonte privilegiada
de corrupção dos políticos.
Mas, duma forma
ou doutra, todos os países conservam algum controlo político sobre a emissão de
moeda. Excepto num caso: a Europa do Euro.
Na Europa
entendeu-se que o sistema financeiro devia ser independente do político (uma
espécie de aplicação do princípio de separação de poderes...). O BCE imprime
dinheiro segundo uma fórmula, em função do estado da economia; desta forma impede-se a produção de dinheiro em excesso, potencialmente geradora de inflação. Esse dinheiro
pertence a cada estado membro em função do seu PIB (discordo, devia ser em
função da população) mas é gerido pelo BCE, que o não pode emprestar aos
Estados ou aplicar na compra de dívida soberana. Na gestão
do dinheiro, o BCE não aplica a teoria da compra da dívida mal-parada, antes o
empresta à banca com taxas de juro que têm sido da ordem do 1%. O BCE andará a
imprimir cerca de 50 mil milhões de euros por ano, cabendo a Portugal qualquer
coisa que representará entre 0.5% a 1% do nosso PIB. Bem, isto é o que eu
consegui perceber do que fui lendo aqui e ali. Quem sabe mais que esclareça.
Estranho é que uma informação tão básica pareça ser tão difícil de obter.
Este esquema tem
uma falha óbvia: deixa as dívidas soberanas sem capacidade de NEGOCIAÇÃO!
Resultado: os juros das dívidas soberanas vão disparar fatalmente. E aqui se inicia
um processo em cadeia que vai levar ao mesmo resultado do processo americano:
os juros das dívidas soberanas disparam, tornando os países insolventes; e
agora criou-se um mega fundo para comprar no mercado secundário os títulos de
dívida pública – ou seja, para comprar a dívida mal-parada que os financeiros
originam por pretenderem juros usuários nas dívidas soberanas. A única
diferença para o caso americano é que na Europa o problema não se cria com as
dívidas dos particulares mas dos estados. O que vai acontecer? Os juros vão
continuar a subir, é claro, pois os financeiros agora têm “as costas quentes”:
há um fundo para ficar com os títulos tornados potencialmente incobráveis com
os juros usuários.
Já muita gente
parece ter percebido que só há uma saída para a crise, que é o BCE imprimir
muito mais moeda e comprar directamente dívida soberana. Assim que o BCE o
fizer, os juros cairão imediatamente. Porque é que isso ainda não se fez e
porque é que pessoas que deviam muito bem saber que isso é imprescindível andam
a propor outras coisas que só vão agravar o problema é que é um grande
mistério... ou não... para se saber quem é o criminoso apenas há que ver quem beneficia do crime, não é?
Apesar disso, ainda tenho alguma esperança que na cabeça da Merkel esteja a ideia de mudar os estatutos do BCE para lhe dar o poder de financiar directamente os Estados e está apenas a pretender determinadas garantias de que se pode avançar para esse processo sem abusos pelos Estados; mas dizem-me que é utopia minha...
Ahh, para terminar:
o papão de que o BCE intervir sobre as dívidas soberanas gerará uma terrífica inflação é um disparate – na
verdade, bastaria a possibilidade de o BCE o fazer para os juros baixarem
imediatamente, como é óbvio, portanto nem é preciso o BCE fazer grande coisa,
bastaria ter esse poder. Além, o exemplo americano está aí: apesar dos trilhões
de dólares que o Fed tem injectado no mercado, o dólar continua forte e recomenda-se.
O que sustenta a moeda é a força da economia.
No próximo post vou apresentar a minha explicação de porque é que estes indivíduos propõem Austeridade para enfrentar o problema.
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8 comentários:
acabei de ver isto
http://reviralhos.blogspot.com/2011/12/como-desigualdade-economica-prejudica.html
que recomendo vivamente
Obrigado pelo link.
Tem vários vídeos importantes linkados nesse blog.
Obrigado pelo teu post.
http://auditoriacidada.info/node/1
O que é a IAC:
A Iniciativa de Auditoria Cidadã à Divida Pública constitui-se na Convenção de Lisboa, a realizar nos dias 16 e 17 de Dezembro de 2011, no auditório do cinema São Jorge.
Acho que vou lá às 21h00
O limite à remuneração no sector privado, a par do público, é uma necessidade imperiosa.
O facto de existir uma proibição estatutária do BCE emprestar dinheiro directamente aos Estados e apenas poder fazê-lo através de bancos comerciais é a melhor prova de que existe um monopólio bancário internacional que mexe todos os cordelinhos.
Alf, a sua educação em finanças vai de vento em popa. Congratulations!
Não vem a propósito, mas achei interessante chamar-lhe a atenção para isto:
http://www.publico.pt/Ci%C3%AAncias/ue-preocupada-com-falhas-tecnologias-resultantes-de-tempestades-geomagneticas-1525960
Abraço.
Diogo
De acordo.
Há um problema de fundo que é o de quem tem poder abusar sempre dele em interesse próprio; assim, qd os estados têm muito poder, abusam; para combater esse abuso surjem uns utopistas que passam o poder para outro lado, considerado "bom"; este, assim que se apanha com poder, abusa.
Assim, qq sistema em que haja um desiquilibrio nos poderes acaba mal; mas um sistema sem poderes também não funciona, não se torna uma sociedade. Conseguir o equilibrio dos poderes, a sua sobordinação ao interesse colectivo, é uma dificuldade que ainda ninguém conseguiu resolver
joaquim simões
Obrigado. Isso já foi assunto de grande preocupação quando a actividade solar estava alta. Agora actividade solar está numa fase secular descendente e a probabilidade de os máximos dos próximos ciclos solares de 11 anos causarem problemas graves é reduzida.
No entanto, isto deverá vir a tornar-se um imenso problema no tempo dos nossos netos.
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