terça-feira, janeiro 31, 2012

O capitalismo desenfreado dos financeiros



O actual sistema económico ocidental caminha, conduzido pelas suas próprias regras, para um desfecho: um mundo de escravos governado por uma pequenina minoria. Nada de verdadeiramente novo na história da humanidade, que quase sempre existiu nesse estado, pontualmente cortado por uma revolução que repôs alguma igualdade... mas sempre durante pouco tempo.

A razão deste desfecho no quadro actual é a seguinte.

Nas pequenas actividades económicas, como os cafés, os cabeleireiros, as mercearias, é fácil surgir uma nova empresa, um concorrente; isto estabelece pressão sobre a qualidade dos serviços prestados ou dos bens produzidos, força a inovação, a eficiência e mantém os preços baixos.

Nestas actividades não se enriquece, vive-se.

Mas no mundo das grandes empresas não é assim. Onde há grandes empresas, as pequenas desaparecem, comidas pelas grandes; como uma nova grande empresa, ao contrário das pequenas, não pode surgir do nada, não há novos concorrentes. Isto tem uma consequência: estas empresas competem em termos de qualidade e inovação, mas não em termos de preço. As áreas onde existem grandes empresas tornam-se inacessíveis às outras e, por isso, estas cartelizam e tornam-se muito lucrativas (repare-se no prodígio da TDT portuguesa, limitada a 4 canais para não provocar descida dos preços no cabo).

O preço nas áreas de actividade onde as grandes empresas já eliminaram as pequenas é o que maximiza o lucro global na respectiva área de actividade.

Por exemplo, o preço da gasolina é o que maximiza o ganho das petrolíferas. Aumentar o preço provocaria redução de consumo e menores lucros. O mesmo com o preço dos chamadas de telemóveis, dos juros bancários, etc, etc.

A única área onde as grandes empresas não fazem subir os preços é no retalho – porque aí o que elas fazem é esmifrar os produtores, porque elas controlam o acesso ao mercado.

É por isso que os juros das dívidas soberanas europeias sobem tanto – porque como o dinheiro passou a ser propriedade do BCE e a sua colocação no mercado monopólio dos bancos, estes fazem-no ao preço que maximiza os seus lucros – se subissem mais os juros ou os Estados deixariam de pagar, como a Grécia, ou passariam sem o empréstimo, como fez a Alemanha há pouco tempo.

Vejamos o caso do petróleo; o preço do barril de petróleo continua muito baixo (muito mais baixo do que o preço pelo qual pagamos a gasolina) porque não se consente que os países produtores controlem o preço deste (quando estes ameaçam fazê-lo, são atacados militarmente; é por isso que o Irão quer uma bomba nuclear ou, pelo menos, quer conseguir chegar a uma situação em que os EUA pensem mesmo que eles a podem ter, para poder controlar o preço do petróleo sem receio de que lhe aconteça o mesmo que ao Iraque e Líbia).

Ora o dinheiro, ao contrário do petróleo, é livremente controlado pelo BCE e sua clique de banqueiros que, na Europa, se tornaram independentes do poder político. Os árabes não podem controlar o preço do petróleo mas o BCE e os banqueiros podem controlar o preço do dinheiro.

As grandes empresas, como estão cotadas em bolsa, estão à mercê (nem todas, algumas blindaram os estatutos) de quem disponha de uma coisa: dinheiro. Ora isso é o que os bancos e os vários tipos de instituições financeiras têm. Por isso, as grandes empresas vão sendo, uma após a outra, directamente ou indirectamente, propriedade de bancos ou doutras instituições financeiras. Sabem qual é a empresa mais poderosa do mundo ocidental? O Barclays. Entre as 10 empresas mais poderosas do mundo há apenas um grupo industrial; ver aqui. E os bancos são propriedade de quem? De uns quantos financeiros no mundo ocidental.

Assim, o mundo ocidental acaba governado pelos seus financeiros. Como têm o dinheiro, são o sustentáculo, logo os donos, dos partidos políticos. É por isso que temos os governos a servirem o interesse dos banqueiros e não o das pessoas, em toda a Europa, com a eventual excepção da Islândia. É por isso que os bancos centrais são mais autónomos do poder político do que a justiça e se gerem por regras mais secretas que as da maçonaria – como é que funciona o Banco de Portugal? Donde vêm os seus lucros? Quem paga as pensões milionárias aos seus ex-gestores? A quinta com cavalos? O BdP não pode cortar os subsídios e o de Espanha pode??

Para acabar com a actual crise das dívidas soberanas, basta o BCE emprestar aos Estados como o faz à banca; mas essa possibilidade nem se põe. Porquê? Pode-se mudar os tratados europeus, pode-se exigir perdas de soberania, alterar Constituições, mas mexer no estatuto do BCE é que não!!! Em vez disso, o BCE andará a gastar (imprimir) centenas de milhar de milhões de euros (até agora 500 mil milhões segundo ouvi dizer) a comprar dívida soberana no mercado secundário a juros fabulosos para enriquecer os bancos. Claro que há um problema de solvência da banca, mas o dinheiro que falta aí não está nos bolsos das pessoas, está no incalculável poder económico acumulado pelos financeiros.

Os financeiros não actuam para produzir uma sociedade melhor; o seu único objectivo é serem cada vez mais ricos e a curto prazo. Aliás, nem têm muita escolha: neste sistema, ou se luta para se ser o mais rico ou se fica o mais pobre.

O plano dos financeiros, após terem conseguido a sua independência do poder político e o controlo deste, consiste em ficarem donos de todas empresas dos chamados monopólios naturais. As pessoas dependem da actividade dessas empresas, por isso quem as detém pode espoliar todos os rendimentos das pessoas – é o conhecido “golpe da cantina”, uma velha técnica de escravização de que já falei. Reparem: estas empresas não podem ser compradas na bolsa, foi preciso inventar um esquema para conseguir pôr a mão nelas, estão a perceber?

Com a privatização das empresas públicas e a consequente instauração do “sistema de cantina”, rapidamente se chegará a um estado final tipo marajás das Índias: uns quantos imensamente ricos servidos por uma multidão de escravos. Esta situação desenha-se a traços largos em todos os países da Europa; não nos iludamos pelos altos valores dos ordenados mínimos noutros países: em termos de paridade de poder de compra, uma grande parte da população em toda a Europa vive em condições mínimas de sobrevivência, qualquer que seja o país

Este é o objectivo essencial do plano dos banqueiros; o ataque às dívidas soberanas é apenas um passo intermédio, que serve este objectivo. Vender as empresas públicas não altera rigorosamente nada o problema da dívida soberana, este existe qualquer que seja o valor da dívida (a dívida da Espanha é das mais pequenas da Europa, do mundo); essa exigência das troikas não tem nada a ver com a regularização das contas públicas, é um objectivo em si mesmo. Repare-se na metodologia: começa-se por privatizar as empresas lucrativas, como a EDP, e tornam-se lucrativas as que o não são, como nos transportes com a subida dos preços, e depois é que se privatizam; ora vender empresas lucrativas só piora as contas públicas, não as melhora. Além disso, as verbas que se encaixam com estas privatizações são ridiculamente pequenas, sem qualquer significado no montante da dívida pública.

Este plano teria sido inexoravelmente bem sucedido se, felizmente para nós, não existisse um país no mundo com outro sistema económico, com força suficiente para intervir e com boas relações com os portugueses.

Na China, o Governo é que detém o poder económico. Um Governo é eleito e tem sempre na sua agenda melhorar as condições de vida das pessoas. Por isso, entre o capitalismo desenfreado dos financeiros, que não têm quaisquer responsabilidades sociais, e um capitalismo regulado pelo Estado, o segundo é muito melhor para as pessoas. Foi assim que os países ocidentais se desenvolveram, até que os Estados perderam o poder económico e desde então as condições de vida de grande parte das pessoas só piorou. Evidentemente. Porque o poder financeiro visa objectivamente o empobrecimento das pessoas, o aumento da desigualdade, o único processo de conseguirem o enriquecimento rápido.

Mas atenção: não são os chineses que vão fazer esta guerra por nós. Eles estão na guerra deles, os governantes chineses não são eleitos por nós, estão apenas a usar-nos para os seus objectivos, que não são os nossos, embora tenhamos um inimigo comum. Os nossos aliados têm de ser os povos europeus, a começar pelos gregos, espanhóis e italianos. A união faz a força e quem tiver medo do “contágio” vai morrer; somos patos a serem caçados de trás para a frente, sem perceberem que o que aconteceu ao de trás acontece depois a eles.

Esta guerra ainda está a começar. E nós, os portugueses, podemos ter uma responsabilidade especial nela. Penso mesmo que aqui é o único sítio da Europa onde a guerra se pode começar a ganhar.

No próximo post vou falar de uma coisa muito interessante: o tabu do Cavaco Silva, o pânico das escutas, o papel do Constâncio e outros detalhes desta operação. E depois vou começar a apresentar a minha contribuição para esta guerra.

11 comentários:

UFO disse...

Amigo: Estou impaciente pelas noticias.
Pudesse eu ajudar-te.
Abraço.

Anónimo disse...

Fantástico, este blog.
Tenho acompanhado com entusiasmo, pois considero, além de objectivo, como algo onde se apresentam soluções.

Parabéns e boas continuações.
Estou impaciente pela apresentação dos passos que poderão levar a que esta guerra seja, efectivamente, ganha.

BGS

alf disse...

UFO amigo

Estamos todos na mesma, a ver se entendemos estes mistérios todos; estás farto de ajudar com estímulo, sugestões, informação. Todos juntos havemos de chegar a algum lado.

alf disse...

BGS

Obrigado. Isto é uma procura, eu acredito que se persistirmos num problema acabamos por chegar à solução.

Uma coisa interessante é que as ideias, às vezes, têm asas: escreve-se aqui, alguém leva um pouco daqui e acrescenta mais um pouco ali, e depois outro faz o mesmo e, quase sem se dar por isso está toda a gente de repente com os olhos abertos e a perceber o que fazer. Assim, para se chegar à solução, o que cada um de nós tem a fazer é partilhar a vontade de resolver problema.

Diogo disse...

Caro Alf, parabéns!

Será que é a altura certa para lhe aconselhar a rever o documentário «The Money Masters»? Aquele que você há uns meses atrás comparou a um discurso do Louçã?

Rick2012 disse...

Check this out http://www.divinecosmos.com/start-here/davids-blog/1023-financial-tyranny

Frederico Cathoud disse...

Amigo, tire uma dúvida, quando diz: "um capitalismo regulado pelo Estado", não seria errado? Afinal o capitalismo é a ausensia do governo nas decisões sobre oferta, demanda, preço, distribuição e investimentos!

alf disse...

Diogo

Vou agora mesmo ver!

alf disse...

Rick2012

Desculpa, só agora vi o seu comentário! Já espreitei o link, vou dar-lhe a devida atenção, muito interessante, obrigado

alf disse...

Frederic

É a ausência do governo nos atos financeiros mas não na definição das suas regras. Claro que os financeiros querem ser eles a definir as regras, para as definirem consoante as suas conveniências.

A China é um exemplo de capitalismo regulado pelo Estado.

mas se for ver os países nórdicos, o Estado também não interfere nas atividades financceiras a não ser em áreas específicas, assegurando condições sociais aos cidadãos. Isso estabelece o mínimo de qualidade de vida acima do qual se ergue o edifício capitalista; sem isso, acontecia o que está a acontecer aqui, parte da população fica sempre no mínimo de sobrevivência

alf disse...

Diogo

SE eu disse isso a respeito do The Money Masters enganei-me, estava a referir-me a outro documentário