No De Rerum Natura, a Palmira da Silva colocou um
post sobre o aumento do preço dos produtos alimentares. Como é seu timbre, trata-se de um post magnificamente documentado e bem apresentado. Nele, a Palmira toma como certo que a razão desse aumento são os biocombustíveis. Óbvio, não é? Qualquer pessoa percebe isso.
Como eu tenho aqui dito inúmeras vezes, Einstein disse “Deus é subtil..” querendo isto significar que a explicação que nos parece óbvia é sempre errada. A realidade é sempre mais subtil que o nosso cérebro. Só tendo presente esta limitação das nossas capacidades intelectuais conseguimos descartar a explicação “óbvia” que nasce logo nas nossas cabecinhas e irmos à procura de algo mais “subtil”. Sem cairmos em teorias da conspiração.
A agricultura já não é a actividade de umas pessoas pouco letradas, sujeitas à exploração dos “colarinhos brancos”. Hoje, a agricultura é uma indústria poderosa, onde existem grandes empresas com capacidade de imprimir politicas concertadas ao sector.
Vejam o que acontece com a gasolina. Há várias empresas a vender gasolina; mas existe concorrência? É óbvio que não. Os preços em euros sobem constantemente e igualmente em todas, apesar do
preço do barril estar a descer em euros. Existe um cartel que determina os preços em função exclusivamente da lei da oferta e da procura. Os preços não sobem mais depressa simplesmente porque o consumo já está a baixar e seria contraproducente. É preciso ir subindo os preços devagarinho para os consumidores se irem habituando e ajustando.
(as empresas mais pequenas têm de oferecer qualquer coisa, uns cêntimos a menos, para contrariar a tendência das maiores de crescerem sempre; mas é algo sem significado para o consumidor)
Não há, pois, concorrência nas gasolinas. E na Banca há? Também não, é claro. Ou quase não há. Por isso as taxas de juros são iguais ou quase em todos eles. Por isso as taxas vão subindo, aumentando os lucros bancários. Por isso vão todos introduzindo novos custos nos serviços que prestam. Porque a actividade bancária também já não é função da concorrência mas da Lei da Oferta e da Procura.
A recente crise imobiliária vai ter uma consequência: todas as pequenas empresas dedicadas apenas ao imobiliário vão fechar. Vão ficar apenas as grandes empresas de construção civil, que realizam as grandes obras públicas, como autoestradas, estádios de futebol, hospitais e aeroportos. Depois, estas empresas deterão o controlo absoluto do mercado imobiliário e não haverá mais concorrência. (hoje já quase não há)
Os Agricultores avisaram com larga antecedência que iriam subir os preços. São tão concertados que até podem avisar com antecedência. Ou então terá sido uma forma de pressionar as entidades que atribuem subsídios à agricultura. Seja como for, a verdadeira razão porque os preços dos alimentos sobem é porque a concorrência morreu e agora os preços dependem apenas da Lei da Oferta e da Procura.
(bem, há mais umas coisinhas... o preço do óleo de fritar não pode ser inferior ao do gasóleo senão as pessoas enchem os depósitos com óleo de fritar... acontece que os interesses que dominam os combustíveis também têm garras na agricultura, nunca deixariam que esta lhes fizesse concorrência...)
Há muito que os países perceberam isto. Há muito que os EUA deixaram de combater os monopólios, passando, ao contrário, a incentivá-los – é que aos EUA interessa que as suas empresas sejam o mais forte possíveis para que possam liderar os cartéis de empresas em cada sector. Anunciaram publicamente que deixavam de combater os monopólios, isso já não pertencia à nova ordem económica.
Há muito que na Europa os países negoceiam entre si os sectores que querem dominar. Eu fico com as comunicações e tu com o transporte pesado. Não é preciso controlar tudo, basta controlar alguma coisa para ter uma moeda de troca – tu sobes os preços nas comunicações e eu subo nos transportes e ficamos empatados. Fora da Europa, a China parece que já controla o aço. Agora deve pretender controlar o transporte marítimo. Por isso vêm para Sines, talvez a melhor localização do Mundo para o conseguir. E preparam-se para controlar muitos outros sectores pois, com o mercado interno que têm, não lhes será difícil conseguir empresas que dominem o mercado mundial.
Quem não controlar nada, não tem moeda de troca, fica do lado dos fracos e pobres.
Percebem agora porque sobem os preços? Porque nós os podemos pagar.
Isto é mau ou bom? Basicamente, é o regresso da velha economia. Supostamente os governos seriam capazes de estabelecer alguma regulação dos preços, até existem entidades reguladoras, mas evidentemente que não conseguem. Com o tempo, as coisas irão apodrecendo sem a concorrência. Imagino que nessa altura a concorrência aparecerá de novo. Até lá, estamos como os empregados nas fazendas que têm de gastar o salário na cantina e nunca lhes sobra nada. O patrão dá com uma mão e tira com a outra. Enquanto pudermos pagar, os preços subirão.
(no tempo do Salazar o Governo tinha uma capacidade de controlar preços que hoje não existe; por isso não houve inflacção em Portugal durante tantos anos; não era mérito do Salazar, simplesmente os grupos económicos não tinham a força que têm hoje. A entidade reguladora da electricidade queria aumentar os preços 15% não era? está ao serviço de quem esta entidade?)
Dir-me-ão: e os esfomeados dos países pobres? Que lhes vai suceder? Ora, nada! Se eles não produzem o necessário para a sua sobrevivência, significa que o que comem hoje é o que os países “ricos” lhes dão. E continuarão a dar as mesmas quantidades, não interessa o preço. E começa a ser altura de os países pobres procurarem a ajustar a sua população à sua produção, senão não saem do ciclo vicioso instalado
Podemos nós, consumidores, ter uma palavra a dizer? Até podemos, por exemplo, fazendo como propõe um email que circula na Net – se só comprarmos gasolina numa gasolineira, as outras poderão baixar os preços. Ou se excluirmos as duas maiores, a Galp e a BP. Mas talvez isto não resulte porque provavelmente elas estão concertadas ao ponto de a gasolina que se vende em Portugal ser toda da mesma, independentemente de quem vende.
Mas não me parece possível que os consumidores se organizem tanto. E é muito fácil enganar toda a gente durante todo o tempo. Há quantos anos os media anunciam que o preço do barril de petróleo bate sucessivos recordes quando o que acontece é que o dólar está a ser sucessivamente desvalorizado? A Europa está a ficar isolada numa bolha de moeda alta que vai tornar a sua produção inexportável. Primeiro as exportações começarão a diminuir em volume de bens, depois o euro cairá e a economia europeia implodirá porque as exportações perderam primeiro volume e depois valor. Penso eu de que... quem sabe mais do que eu que fale.
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