quarta-feira, maio 21, 2008

Os Monstros da Nossa Ignorância


De regnis Septentrion, Monftra marina & terreftri quae pafsim in partibus aquilonis inueniuntur/ Cosmographia - Sebastian Munster, 1544 ( obtido neste interessante local)

Beleza e harmonia são-nos tão essenciais que quando desesperamos de as ter na Terra passamos a acreditar em Paraísos – se não conseguimos usufruir delas aqui, ao menos que vivamos com a esperança de as ter noutro lado.

Sentimo-nos bem, a felicidade invade-nos lentamente, quando passeamos em jardins bem cuidados; sonhamos em ir nas férias aos paraísos tropicais que enchem as páginas das brochuras das agências de viagens. Buscamos incansavelmente a Beleza e a Harmonia.

Qualquer criador de banda desenhada associa um ambiente degradado a uma população miserável, de aspecto, de atitude, de mentalidade.

Arredores de algumas grandes cidades construídos na lógica do betão geram uma vivência degradada, são viveiro de criminalidade em parte simplesmente porque são feios, desarmónicos.

A crença numa religião tende a ser tanto mais forte quanto mais inóspito é o local; é uma das atitudes possíveis das pessoas que aí vivem; outra é a violência. A violência é a forma com que reagimos ao que nos incomoda, mesmo que seja apenas a um nível inconsciente. A religião fornece um escape à realidade.

Vem isto tudo a propósito do post que pus hoje no «outra física» sobre a ideia que fazemos do que seja o Universo, reescrito sobre um post já aqui publicado mas que não salientava este aspecto.

Um Universo feito de Matéria Negra, Energia Negra e Buracos Negros não parece uma coisa muito agradável, pois não? Tentem explicá-lo às crianças para verem como elas ficam assustadas. E preparem-se para as perguntas: “mas em que é que a Matéria Negra difere da matéria normal? E porque é que só existe lá longe, no céu? O Céu é feito de matéria negra e energia negra? Onde existem as galáxias que são canibais?

Este Universo de bruxedo, de magia negra, regido por cegas leis do acaso, não tem nada de aliciante. Não lembra por certo o Paraíso, mais se assemelha ao Inferno. A Ignorância mascara-se sempre com os nosso medos, seja na forma de monstros marinhos escondidos atrás do horizonte para os marinheiros de há uns séculos ou nas formas escuras que preenchem o nosso horizonte de hoje.

Se analisarmos as crenças de povos antigos, vamos encontrar alguns que imaginavam um Universo sórdido. E cujo destino foi igualmente sórdido.

E talvez também não seja uma coincidência que o conceito harmónico e belo do Universo do modelo de Newton esteja associado a uma fase de grande mudança para melhor no mundo ocidental.

Somos o que acreditamos, muito mais do que o que comemos; precisamos de um Mundo de harmonia, solidariedade, beleza. E esse Mundo começa no nosso entendimento do Universo. Não é irrelevante andarmos às costas com um modelo de Universo feio e incompreensível, pintado com os montros da nossa ignorância.
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8 comentários:

antonio disse...

Nem toda a ciência pode ser metida no mesmo saco, nem toda a religiosidade é acéfala (ou responde à ignorância humana)...

Existe muito de religiosidade barata no aquecimento global, que nos é vendido como “dia do juízo final”, em que iremos pagar pelas nossas ofensas (não contra Deus, mas contra a Natureza, aqui promovida ao conceito de beleza e harmonia supremas, ou seja resposta do conceito humano mais primitivo do divino.)

Os que seguem uma vida religiosa contemplativa, não procuram dar resposta àquilo que não entendem na sua vida (ou no universo), mas respondem a um apelo muito real e forte, e acreditam e praticam um serviço. Inútil, aos olhos de uma sociedade laica e materialista.

Mas nem tudo tem que ser um prato servido. Existe também a poesia…

alf disse...

António

penso que estou de acordo com o que diz... embora não consiga perceber qual a ligação com o texto do post...(?)

... pode esclarecer melhor? Ou estou a querer "um prato servido" onde devia sentir a poesia?

João Videira Santos disse...

"Não é irrelevante andarmos às costas com um modelo de Universo feio e incompreensível, pintado com os monstros da nossa ignorância." - Ficou dito...tudo!

Manuel Rocha disse...

Sim, a forma como lemos o Mundo é ideológica, sempre foi.
Bom ponto. E bem explanado !À Alf ;)

alf disse...

joão videira santos

obrigado pela simpatia do comentário!

alf disse...

manuel

penso o seguinte: este modelo actual do universo tem todos os defeitos da concepção pré-galileu, até o facto de considerar que as leis físicas lá longe, no "céu" portanto, são diferentes das locais - aqui o espaço não expande, não há matéria negra nem energia negra; no "céu", o espaço expande e quase só há matéria negra e energia negra.

Portanto, este modelo recria a conceição Aristotélica do Universo; e nada explica do que seja o "céu" porque a "matéria negra" e a "energia negra" são tão desconhecidas e indefinidas como a matéria etérea para o Aristóteles.

Estou convencido que quando as pessoas perceberem que o Universo é algo muito diferente disso, terão uma conciencia existencial diferente e isso vai influenciar a sua maneira de olhar para a vida e vai influenciar a maneira como a sociedade se vai desenvolver.

As pessoas não se comportam da mesma maneira numa "rave" ou numa sala de concerto.

para o ano começaremos a perceber se será assim ou não ...

leprechaun disse...

Muito nice, ora viva!!! :)

E mais ainda porque acabei mesmo há pouquinho de falar em Beleza e Harmonia noutro blog, embora provavelmente foi só para a rima... ;)

Pois há dias eu dizia a uma amiga que até conheci através da Net, como aquilo que eu mais gostava agora de fazer era estudar e aprender. Como autodidacta, claro, nada de cursos... safa!

Mas toda a minha cultura científica vem do liceu, mais o que vou lendo aqui e ali. E sim, também intuo que a moderna física anda algo baralhada, para além de que existem muitas divergências ou "heresias" no edifício nada uniforme da ciência.

Li há poucas semanas que saiu um artigo muito interessante na revista "Astronomy" acerca da famosa "teoria das cordas". O que mais me cativou foi o facto de quem leu o tal artigo ter referido a sua clareza e simplicidade, bem, isso é bom.

De resto, essa concepção bem imaterial do Universo até me agrada - a sílaba OM vinda do Nada! :) - pese embora a estranheza das não sei quantas microscópicas dimensões mais alguns considerandos algo abstrusos ou science-fiction.

Mas regressando à harmonia, deixo aqui ficar o link para a série The Elegant Universe, que vi há uns 2 anos atrás e que me parece estar na altura de voltar a ver. Gostei da 1ª vez, vamos lá ver agora se o fascínio se mantém... ou fiquei céptico também! :)

alf disse...

Leprechaun

para Einstein já o Universo era «imaterial»; constituido unicamente por campo. Em 1927 ele estabeleceu mesmo equações onde a partícula aparecia apenas com um ponto de «alta densidade» do campo. O que ele considerou um primeiro passo para uma física livre de partículas.

Outros tentaram outras formas de obter as partículas em função de ondas; a teoria das cordas é outra forma.

Mas todas estas tentativas enfermam de um erro: temos de voltar aos conceitos de base e começar de novo a nossa construcção da Física; sem isso estamos a tabalhar em cima de presunções erradas e não vamos a lado nenhum.

Interessante esse link, obrigado.