segunda-feira, novembro 26, 2012
O Império dos Ricos
Imagem retirada deste blogue; recomendo a leitura, e do seu post mais recente, sobre Séneca
Os comentadores
televisivos, os partidos da oposição, toda a gente, anda a dizer que o nosso
governo tem falhado todos os objectivos: a dívida aumenta, o desemprego
aumenta, o deficit público aumenta, a recessão aumenta. Segundo toda esta
gente, o governo e a troika serão duma incompetência total, de uma burrice
inacreditável pois insistem na mesma política que tem conduzido a estes
resultados e necessariamente continuará a agravá-los. Paradoxalmente, a troika
diz que Portugal está “ no bom caminho”, que as medidas são um sucesso; além de
incompetentes serão loucos?
Na verdade, eles
nem são incompetentes nem loucos, mas exactamente o contrário. E é bem verdade:
as medidas têm sido um sucesso.
O equívoco está
no que as pessoas pensam que é o objectivo das medidas; e não é por falta de
esclarecimento do governo e da troika, que estão fartos de o dizer: o objectivo
imediato é
Empobrecer os
portugueses
Parece um
objectivo disparatado? Mas não é, pelo contrário, é o objectivo adequado dentro
do sistema político em que vivemos. Mas antes de percebermos isso, confirmemos
que de facto o objectivo é esse.
Se este é o objetivo, as medidas têm sido um sucesso: estamos cada vez mais pobres. O
ordenado médio já caiu perto de 20%! E o ministro da
Economia parece só estar interessado nas concessões mineiras, a que não deve ser
estranha a conexão canadiana com a estranhíssima empresa Colt. Até agora, já se
viu alguma medida de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno e
que são responsáveis pela quase totalidade do nosso PIB e do nosso emprego?
Mas
“empobrecimento” como objetivo parece realmente uma coisa disparatada. Na
verdade, o “empobrecimento” é só o meio para conseguir o verdadeiro objetivo:
mão-de-obra barata de forma sustentada.
Não é isso que se
procura constantemente no sistema capitalista? Mão-de-obra tão barata quanto
possível? Não querem pagar o mínimo à mulher-a-dias? Pela refeição no
restaurante? Pelo leitinho no supermercado? Pelo bilhete do futebol? Quem
recebe quer receber o máximo, quem paga quer pagar o mínimo, estas são as
regras do sistema. A ideia é que um sistema assim encontra o seu equilíbrio
naturalmente. Uma ideia muito do agrado daqueles que esperam que o sistema se
desequilibre cada vez mais a seu favor, sabendo-se como se sabe que este
sistema se desequilibra sempre para o lado do mais rico.
Porque é que
surge este problema agora aqui? Uma razão é porque já não há no mundo onde
obter mão-de-obra barata de forma sustentada. Hoje, já ninguém aceita fábricas estrangeiras sem pesadas
contrapartidas. As fábricas na China têm pelo menos metade de capital chinês,
prazo de saída e são obrigadas à transferência de saber-fazer. A Volskwagen tem
de sair da China até 2030. Mas sai antes, porque os chineses não nasceram para
escravos e os ordenados lá têm de subir quase à taxa a que sobem os rendimentos
dos ricos no mundo ocidental.
É por isso que os
Ricos precisam de “mexicanizar” o sul da Europa, não têm alternativa.
Vejamos quais são
as medidas que servem este objectivo:
1 – Empobrecimento
Para que as
pessoas aceitem trabalhar por ordenados miseráveis é preciso que não tenham
alternativa; isso implica duas coisas: cortar os apoios sociais e aumentar o
desemprego. Como é que se aumenta o desemprego? Através da recessão, ou seja,
fazendo cair a economia interna. Não são as empresas exportadoras que geram o
grosso do emprego, são as empresas que trabalham para o mercado interno. Como é
que se faz falir estas empresas? Empobrecendo os portugueses. Se os portugueses
tiverem menos dinheiro, consomem menos e levam as empresas dependentes do
mercado interno à falência. Daí a importância do empobrecimento e da falta de
apoio às empresas que trabalham para o mercado interno; daí o facto de a
recessão ser não um indicador do falhanço da política mas do seu sucesso!
2 – Redução dos
apoios sociais
A redução dos
apoios sociais é indispensável à existência de mão-de-obra disponível para
trabalhar por qualquer preço e em quaisquer condições; e também para reduzir a
TSU, o que permite baixar o custo do trabalho.
3-Reduzir o Estado a um órgão executivo dos Mercados
Há um objectivo
de acabar com o Estado como o órgão de gestão dos povos. Quem manda são os “Mercados”,
as políticas económicas são definidas de fora, o Estado social acaba, o ensino,
a saúde, os serviços públicos são privatizados, as forças armadas acabam por
inúteis, , os transportes, as águas, a energia, o notariado... a justiça é
“independente”, ou seja, continua ao serviço dos Ricos mas paga pelos pobres...
a polícia acabará por ser transformada numa espécie de segurança privada dos
ricos paga pelos pobres... o estado reduz-se assim a um mero órgão executivo
dos Ricos.
Sabem quando foi
feito o referendo a perguntar se prescindíamos de ter um país? nas últimas
eleições, por isso é que o PSD apareceu a cantar o Hino Nacional e de pin na
lapela, como as homenagens que se fazem aos que vão morrer; por isso houve acabar com certos feriados.
O mundo
capitalista é um império dos ricos. Uma Plutocracia. E uma Plutocracia não quer
saber de países e Estados, vistos como obstáculos e incómodos ao crescimento do
seu poder.
Como os
“mercados” são os Ricos, é por isso que o “regresso aos mercados” depende de
empobrecermos de acordo com os objectivos de empobrecimento. O “regresso aos
mercados” depende apenas de o governo conseguir que as fábricas europeias se
possam instalar aqui com um custo bruto do trabalho de 2 euros por hora,
isentas de impostos e de legislação laboral, não tem nada a ver com a dívida pública nem com o deficit.
Os governos dos
países neste sistema obedecem aos mercados, ou seja, ao poder dos Ricos.
Mas há outra razão para isto acontecer e essa é inteiramente da nossa responsabilidade; e é essa que torna muito difícil sairmos desta situação (e também não tem nada a ver com a dívida)
(continua)
segunda-feira, novembro 19, 2012
Peluches de Oleiros
Fico muito
impressionado com a história da fábrica de peluches de Oleiros; ela retrata bem
o nosso atraso.
Quando um
empresário monta uma fábrica num país estrangeiro onde não tem mercado, na
busca da redução de custos, há uma coisa que ele tem de acautelar: o
saber-fazer.
Se ele não se
acautelar, logo aparecerá quem fabrique o mesmo que ele e estabeleça
concorrência.
Hoje, estas
situações são definidas à partida em todo o Mundo. Os países aceitam fábricas
estrangeiras na condição de a controlarem suficientemente (normalmente detendo
metade do capital), de elas terem um prazo de saída que é fixado logo no inicio
(a Volkswagen tem de sair da China até 2030, se não estou em erro), e de
deixarem ficar as instalações operacionais.
A condição de os
países hospedeiros terem controlo da empresa tem 3 objectivos: um é evitar que
essas empresas desenvolvam políticas de esmagamento da mão-de-obra, fomento do
desemprego, etc, conducentes a manter baixos os seus custos, outro é
recuperação de parte dos lucros, e o terceiro é garantir a transferência de
saber-fazer.
Em troca, esses
países não desenvolvem concorrência até ao fim do prazo acordado a não ser de
forma limitada. É por isso que os chineses não vão exportar carros para o ocidente até 2030.
No caso da
fábrica de Oleiros, não é por acaso que ela foi para um sítio no “fim do mundo”
em vez de ir para os arredores de Lisboa, onde teria menores custos de
funcionamento – estas fábricas procuram lugares isolados para minimizar os riscos
de concorrência. A fábrica estava “escondida” em Oleiros mas agora foi
“descoberta”; os riscos disso, associados aos custos relativamente altos de
funcionamento ditam a necessidade de se ir esconder para outro lado (e também
pode ser que a Merkel não tenha gostado das conversas acerca de o peluche ser
feito em Portugal e mandado a fábrica sair de cá; há que educar os inferiores,
ensiná-los que não podem mandar bocas ao chefe)
A fábrica de
Oleiros vai ser abandonada? Há um lado positivo nisso!
Com certeza que
ao fim de tantos anos, numa actividade com tanta componente manual, já haverá
pessoas com conhecimentos para dar continuidade à actividade de fabricar
peluches de qualidade!!!
O que há a fazer
é isso. Não é o que os chineses fariam?
Claro que a maior
componente do valor dos peluches não é o seu fabrico, é o marketing; bom, mas
aproveitemos o que temos e talvez sejamos capazes de dar a volta por cima. O
presidente da câmara já analisou essa possibilidade? Deve haver cá empresários
nacionais do ramo, ou de ramos próximos, como o calçado, que podem ver aí uma
oportunidade de negócio.
Aqui, estou de
acordo com o Passos Coelho; estas coisas são oportunidades. Essa fábrica, ao
sair, liberta saber-fazer; e isso é valioso. Aproveitá-lo não será fácil mas é
o que há a fazer. Ela não ia lá ficar para sempre, não é verdade?
segunda-feira, novembro 12, 2012
A Refundação da Banca
Tudo o que
corre mal na sociedade humana pode ser melhorado corrigindo as regras da
sociedade; e sempre que alguma coisa corre mal, há que corrigir as regras.
Os pequenos
erros são difíceis de corrigir porque há sempre muitos interesses que
beneficiam deles; mas as grandes catástrofes, ao contrário, são uma
oportunidade de ouro para corrigir grandes e pequenos erros. O Tsunami do Japão
acabou com o programa nuclear da Alemanha, por exemplo.
O sistema
bancário atual tornou-se um paradoxo: o Estado é o garante do sistema sem ter
nenhum controlo sobre os riscos. Um absurdo que importa corrigir rapidamente.
E é fácil corrigir.
Para começar,
os depósitos a prazo saem da banca. O que cria o risco sistémico é as pessoas
terem as poupanças na banca. Saindo de lá os depósitos a prazo, esse risco
acaba.
Vão para onde
os depósitos a prazo? Para o Estado. O Estado só pode ser o garante desse
dinheiro se tiver a sua gestão direta. Os depósitos a prazo vão para os
Certificados de Aforro. Dupla vantagem para o Estado, ou seja, para todos os
contribuintes: o Estado tem o controlo do risco e financia-se livre de ataques
especulativos.
Para a Banca
fica a prestação de serviços bancários – gestão de contas à ordem, multibanco,
etc. Serviços de que ela naturalmente se cobrará. E fica o crédito ao consumo e
a actividade financeira dita de “investimento”, ou seja, a actividade que
consiste em ganhar dinheiro com o dinheiro. As pessoas que querem ganhar dinheiro com o dinheiro aderem aos produtos que a banca lhes propuser mas ficam com os riscos, ou fazem seguros, o que quiserem, tudo menos querer que seja o Estado, ou seja, os contribuintes, as pessoas que não querem correr riscos, a assumir os prejuízos quando as coisas correm mal e eles ficarem com os lucros quando as coisas correm bem. Se falir, faliu. Todas as iniciativas privadas têm de poder falir; o que não puder falir tem de ficar sob o controlo do Estado.
Como é que se consegue esta profunda mudança? Facílimo: o Estado remunera os certificados de Aforro adequadamente e as pessoas mudam. Os Bancos financiam-se agora no BCE a 0,75%, não precisam dos depósitos a prazo, até porque estão limitados no volume de empréstimos que podem fazer.
O Estado ainda
tem de assegurar duas outras coisas.
Uma é o crédito
às empresas nacionais. Essencial para garantir igualdade de competitividade. O
Estado tem de ter um Banco de Fomento ou um banco dependente do Estado que
assegure essa função. Podia ser a CGD, mas teria de levar uma escovadela
enorme; talvez o mais simples seja começar de novo, fazer um novo banco e
privatizar a CGD, ou talvez a CGD consiga fazer uma inversão de percurso. A ver vamos.
A outra coisa é
o crédito para assegurar dois direitos fundamentais: à habitação e à educação.
O crédito à
habitação tem servido de capa para todo o tipo de crédito ao consumo e fugas
aos impostos; mas não pode ser, este é um crédito com regras especiais, que tem
de ser controlado pelo Estado. Como a Banca não é agora controlada pelo Estado, este
crédito deve ser função do Estado ou, pelo menos, o Estado deve ter uma relevante capacidade de intervenção. É o que se passa na Suécia, segundo creio.
O mesmo se
passa com créditos necessários a garantir a igualdade de oportunidades,
nomeadamente para a educação. É o que têm os países nórdicos.
Como vêm, não
só é fácil resolver estes problemas como até já está feito nos países nórdicos;
já ouviram falar de alguma crise financeira na Suécia?
Claro que ainda
há uma questão de fundo a resolver com a circulação de capitais e os offshores.
Mas lá chegaremos.
quinta-feira, novembro 08, 2012
A Carta
Excelências
Venho
comunicar-vos que a chanceler decidiu arrancar já com a 3ª fase do plano de
mexicanização do Sul. A chanceler considerou existirem condições invulgarmente
favoráveis em Portugal que é preciso aproveitar de imediato, tendo dado a 2ª
fase do plano por concluída, atendendo a que o abaixamento dos custos laborais
já conseguido é excelente e suficiente, conforme anunciou no seu discurso de
ontem.
As condições em
Portugal são actualmente ideais, pois o povo aceita tudo sem reagir, o PM é
completamente submisso, o PR está isolado e nunca fará nada que belisque os
seus interesses pessoais imediatos.
Ao abrigo do
previsto para a 3ª fase, foi já acordado com o Ministro da Educação português o
nosso controlo sobre o ensino público, que irá formar o pessoal necessário às
nossas empresas, as quais beneficiarão de períodos longos de estágio suportados
pelo ME português, ou seja, mão-de-obra paga pelo Estado Português.
Habilidosamente, o ministro anunciou a adopção do plano de ensino “dual”
alemão. Ninguém reagiu.
Segue-se a
instalação de filiais de empresas alemãs em Portugal. Isto será apresentado
como o esforço alemão para o desenvolvimento económico de Portugal e a primeira
acção será a visita da Chanceler a Portugal acompanhada da equipa seleccionada
para a ocupação. Garantirá mão-de-obra muito barata em Portugal, que
começaremos a trazer para a Alemanha a título de “circulação de trabalhadores”,
torneando a resistência dos nossos sindicatos. Actualmente estamos a importar
especialistas de Portugal a metade do preço praticado na Alemanha mas por este
processo vamos reduzir para 1/5 o seu custo. Recordo que o objectivo
final é reduzir a 1/10 o custo do trabalho, que será atingido através do
processo de redução progressiva de salários que se retomará na quarta fase, uma
vez assegurado o fim de qualquer possibilidade de autonomia. Já lançamos um
movimento a apelar à abstenção e isso dará o pretexto para ocuparmos
politicamente o país, uma vez que os portugueses irão dessa forma declarar que
não querem ser governados por portugueses.
Há um único
aspecto que temos de manter controlado: o Ministro das Finanças português,
Gaspar, é um agente do FMI e é muito mais perigoso do que pensávamos. Combinou
com os chineses uma privatização fictícia da EDP que nos obrigou a suspender o
plano de privatizações; só podemos retomar o plano depois de corrermos com ele,
pois aplicará um golpe semelhante em todas as privatizações e nem uma virá para
as nossas mãos. Já avisámos que as privatizações não vão contar para as contas
do deficit, a fim de suspender o processo.
Além disso, há
um movimento de bastidores que pretende que o PR nomeie um governo de
iniciativa presidencial com o Gaspar em Primeiro-Ministro. Em caso algum
podemos consentir nisso ou ele tornar-se-á um novo Salazar e boicotará todos os
nossos planos. Não estamos muito preocupados porque o PR deles nunca faria
isso, sabendo como nós o podemos prejudicar. À cautela, vamos aproveitar o
próximo buraco orçamental para responsabilizar o Gaspar e propiciar a sua
remodelação. Aproveitaremos para correr também com o Ministro da Saúde que
parece ser competente demais e essas pessoas tendem a tornar-se perigosas.
Quanto à
oposição política: como prevíamos, sem o Sócrates o PS não existe, limita-se a
fingir que existe; e a esquerda é marginal. A direita está controlada, não
representa qualquer ameaça.
Face a estes
bons desenvolvimentos da situação, venho solicitar o pagamento acordado para a
2ª fase; é certo que esta ainda não está concluída nos outros países, mas
Portugal irá funcionar como locomotiva e a instalação de empresas alemãs em
Portugal irá levar os outros, face aos seus crescentes e insolúveis problemas
de emprego, a aderir à 3ª fase.
Com os melhores
cumprimentos,
Dr. Jordan
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Dr. Jordan,
Economia
terça-feira, novembro 06, 2012
Quem tem o Poder?
Um aspecto que
me parece importante salientar nesta altura é o seguinte: fala-se muito da
importância dos mercados, que estamos submetidos aos mercados, são as leis dos
mercados que nos regem, o sistema é baseado na confiança nos mercados, etc,
etc.
Tretas!!!
O sistema é
baseado na confiança sim, mas não nos mercados – na confiança no Estado. É por
isso que o Estado é que avaliza os depósitos e avaliza os próprios bancos. O
sistema financeiro é tão independente, tão independente, tem impressoras para
imprimir dinheiro à sua vontade, o BCE empresta à banca a juro quase nulo, a fiscalização
é toda sua, mas quando se trata de aguentar com os prejuízos é o Estado que tem
de por a mão por debaixo.
Um paradoxo,
não é?
Na verdade,
quem tem o Poder é quem faz as Leis e os Decretos-Lei.
O Estado está
sujeito à chantagem dos mercados? Só enquanto o quiser – basta-lhe ameaçar
tirar “ a mão debaixo” para os mercados se ajoelharem. E para acorrerem a
emprestar dinheiro às dívidas soberanas que é onde ele está seguro; não é o
Estado o avalista final?
Não quer isto
dizer que os financeiros não tenham poder; têm, mas um Estado na mão de quem
tenha cabecinha acaba sempre por levar a melhor. Pode abanar se apanhado de
surpresa, mas depois acaba por sair vitorioso (desde que tenha governantes à
altura...)
Os mercados são
altamente previsíveis no seu comportamento, funcionam para o lucro máximo no
prazo mínimo; e os Estados, querendo, manobram-nos à sua vontade. As crises
financeiras não são nenhum fenómeno natural, algo que nos ultrapassa e
submerge; são o mero resultado da acção predatória de uns que querem enriquecer
à custa dos outros. Uma acção de consequências previsíveis com antecedência
para quem percebe um mínimo do assunto, por um lado; por outro lado, a
previsibilidade do comportamento dos mercados faz das crises um fenómeno
manipulável, programável, por quem percebe do assunto. Ou seja, a crise tanto
pode surgir periodicamente porque a ganância financeira gera ciclos
presa-predador como pode surgir porque um Estado fez manipulação para a
produzir.
Quando olhamos
para a actual crise do Euro, a primeira coisa que é evidente é que ela não se
deve a uma dívida soberana excessiva. A nossa é igual à da generalidade dos
países e a de Espanha é metade. Nem é devida a uma balança externa deficitária,
a da Grécia não o era; nem à fraqueza da economia, a da Itália é pujante. Nem
sequer é devida à crise financeira porque os países fora do euro não estão com
um problema desta dimensão. Não há nada de comum entre os países afectados a
não ser uma coisa: não estão sob o domínio Franco-Alemão na Europa.
Quem faz uma
guerra, o primeiro cuidado que tem de ter é esconder isso. A primeira
habilidade de quem quer fazer a guerra é a arte da dissimulação.
“Deus é Subtil”
disse o Einstein; a nossa inteligência é muito limitada e tudo o que nos parece
lógico, acertado, óbvio, nunca o é. Se é tão óbvio que são os financeiros quem
puxa os cordelinhos da actual situação, é porque... não são!
Esta crise foi
produzida de propósito para gerar uma situação que permite atingir outro
objectivo; numa guerra começa-se sempre por criar uma diversão. A diversão é a
primeira operação no terreno.
Os financeiros
são altamente previsíveis, fáceis de manipular, ideais para manobras de
diversão. O verdadeiro problema não é financeiro, essa é a diversão.Tentar combater o problema olhando apenas para o lado financeiro é cair no engodo! É uma ingenuidade...
Eu andava
convencido que o Governo não percebia nada desta tramóia; ela é sofisticada,
comecei a desenhá-la com as conversas com o Dr. Jordan, depois percebi que
tinha de ir mais devagar e comecei com as conversas com o Hans. Mas eis que em
pleno dia de finados uma luz se me acendeu:
Imaginemos que
o Governo conhece perfeitamente todo o plano. E suponhamos que não é conivente
com ele. Como deve proceder?
A primeira
coisa é não o mostrar: a arte da dissimulação é fundamental numa guerra,
sobretudo quando se está em guerra com algo muito mais forte. Portanto, o
primeiro cuidado a ter é manter o adversário convencido de que se está
completamente apanhado no engodo.
A seguir, é preciso
agir como um seguidor submisso e estúpido, desastrado, burro. Isso vai permitir
fazer “erros” que irão comprometendo o sucesso da operação do outro.
Eu não vou
divulgar aqui as minhas conclusões, seria fazer o jogo do inimigo. Esta guerra
ainda está no começo. Mas uma coisa lhes digo: vou dormir muito mais
descansado, desde que descobri que há génios neste Governo. De facto, o custo
enorme da formação do ministro foi um belo investimento que este país fez.
Penso mesmo que vamos dispensar a troika antes do fim do período acordado.
A única coisa
que preciso fazer é colocar as minhas economias em certificados de
aforro.
Reparemos agora
na estratégia de Espanha: a Espanha é muito mais forte que Portugal, por isso a
estratégia dela é outra – é a estratégia do porco-espinho. A Espanha não é
suficientemente forte para ganhar a guerra, mas é suficientemente forte para
poder causar estragos relevantes: a Espanha tem poder de dissuasão, empata o
inimigo e isso enfraquece-o, desorienta-o, desorganiza o ataque. Nós não temos,
por isso temos outra estratégia.
Ganhar tempo é
fundamental porque existe mesmo uma crise financeira e ela vai cair em cima da
Alemanha. Paradoxalmente, a crise financeira é algo que os arquitectos desta
guerra não previram, estavam convencidos que iam desenhar um ataque imparável
às dívidas soberanas; mas em breve será a própria crise que obrigará os
financeiros a correrem para o porto seguro das dívidas soberanas dos países do
Alho...
Ou seja, a
resistência a este ataque não está descoordenada como poderia parecer.
Claro que há
duas frentes de batalha: temos não só de furar os planos do inimigo como pôr de
pé a nossa actividade económica; o Governo está a tratar da primeira, que é
prioritária, eu vou continuar a pensar na segunda. É que temos de aproveitar a
austeridade para endireitar o país, que tem vindo a ganhar uns podrezitos aqui
e ali...
quarta-feira, outubro 31, 2012
A saída da crise (2)
"muitos governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito tempo"; ele está convencido de que já ganhou a guerra contra os povos, um sonho dos plutocratas com mais de um século.
O primeiro
problema que temos para resolver é o da falta de dinheiro.
Compreendamos
primeiro a trama perversa em que estamos enredados.
O dinheiro foi
inventado para mediar as trocas de bens e serviços. O dinheiro foi inventado
para ser o sangue da sociedade. O dinheiro é propriedade da sociedade, não é um
bem privatizável, evidentemente! Privatizar o dinheiro seria criar o monopólio
dos monopólios. O dinheiro é como o sangue, e o sangue não se compra nem se
vende.
Isto é bem
sabido e foi afirmado inúmeras vezes pelos mais ilustres estadistas, no tempo
em que os políticos eram pessoas que sabiam de política. É por isso que a
gestão do dinheiro sempre foi feita pelo Estado, dependente de governantes
eleitos.
Uma sociedade é
como um corpo: cresce. E, ao crescer, e para crescer, precisa de mais sangue,
ou seja mais dinheiro. Essa produção de dinheiro era feita pelo banco central
sob a supervisão do Estado, dos governantes eleitos.
O Dinheiro é uma
das duas coisas que são essenciais a uma sociedade humana. A outra é a garantia
de que todas as pessoas têm direito a uma vida minimamente digna. A sociedade
pretende substituir a selva, a natureza; e a natureza garante a subsistência
aos seus habitantes. A sociedade tira as pessoas da natureza mas tem de lhe
garantir o mesmo que a natureza garante ou não interessa. Isto foi sempre uma
preocupação fundamental das sociedades humanas estruturadas.
A isto se chama
agora “o Estado Social”. É uma redundância, porque o Estado ou é social ou não
é Estado; a única coisa que varia é o conceito de “vida minimamente digna.”
O testa de
ferro da oligarquia plutocrata que tenta dominar a Europa desde o princípio do
século passado, o sr. Draghi, está já tão seguro do seu sucesso no derrube dos
dois pilares do Estado que se permite declará-lo; assim, há tempos declarou que
“o Estado social já tinha acabado” e muito recentemente declarou que “muitos
governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito
tempo” (eu andava à espera de uma coisa deste género para publicar este texto,
doutra forma os meus leitores pensariam que eu estou a delirar). Um profeta,
este Draghi.
Porém, de
profeta não tem nada porque ele sabe bem do que fala. A grande golpada
consistiu nos estatutos do BCE, que lhe deu a propriedade do sangue da
sociedade, o dinheiro. Ele é o novo Hitler.
O esquema
montado é tão absurdo que as pessoas nem percebem, não acreditam que assim
seja, acham que não é possível; mas é.
O BCE ficou com
o nosso sangue, pois o seu capital foi-lhe dado pelos Estados; depois empresta
à Banca a juro tendencialmente nulo; e a Banca devolve-nos o nosso sangue
cobrando juros usuários. O Sangue da sociedade foi assim privatizado e de
borla, sendo agora gerido, pelo BCE e pela Banca, quase da mesma forma que as
petrolíferas gerem o petróleo. Digo quase porque, na verdade, é muito pior.
Por exemplo, o
BCE obriga-nos a aceitar um empréstimo de 12 mil milhões de euros, do qual
estamos a pagar juros elevados, para garantir que os bancos, em caso de
necessidade, têm os rácios que o BCE acha adequados – note-se, a banca
portuguesa já declarou que não precisa de 7 mil milhões desse dinheiro, mas o
BCE obriga-nos na mesma a pagar juros dele, juros de coisa nenhuma porque é
como se esse dinheiro não existisse, não pode ser usado. São 300 milhões de
euros por ano a troco de coisa nenhuma...
Por outro lado,
se o BCE é independente dos Estados e o dono do dinheiro, cabe-lhe a ele
assumir as responsabilidades sobre os bancos; mas não, nós é que estamos a
pagar para isso; e pior ainda, nos bancos que precisaram de dinheiro, o Estado
foi obrigado a entrar no capital do banco; para quê? Para, se o banco não
conseguir resolver os seus problemas, ficar automaticamente nacionalizado, ou
seja, o toooodo o seu prejuízo fica para nós, como o BPN.
Isto nunca se
fez nem aos países conquistados após dura guerra. Isto é terrorismo económico,
exploração infame, roubo descarado.
Por outro lado,
a destruição do direito à vida condigna, em curso, visa a destruição da
sociedade e a criação em seu lugar de um sistema de senhores e escravos; porque
numa sociedade organizada só os escravos não têm esse direito.
Em cúmulo de
todo este horror, note-se que vivemos na era da abundância, somos capazes de
produzir tudo o que necessitamos, tudo o que somos capazes de consumir, e muito
mais, dez vezes mais, a única coisa que limita a produção é a capacidade de
consumir; e o que limita o consumo é a redistribuição de riqueza.
Portanto,
compreendamos, fomos assaltados, roubados, conquistados. Roubaram-nos o sangue
e estão a deixar-nos anémicos, indefesos, a asfixiar-nos! Claro que também
temos culpas, mas elas estão a ser usadas como argumento para nos roubarem, não
nos deixemos enganar com a conversa culpabilizadora.
Por último,
esta destruição dos Estados não visa criar espaço para a criação de uma
verdadeira união europeia, uma sociedade democrática europeia, visa apenas, ao
que entendo, estabelecer um poder oligárquico plutocrata sobre uma sociedade escravizada,
um sonho que vem a ser perseguido desde o princípio do século passado.
E agora vem o
mais absurdo de tudo: é que nós estamos a deixar!!!
Porque,
entendamo-nos, o dinheiro não é uma criação da natureza, é uma criação nossa!!
Está na nossa mão criar o dinheiro de que precisamos. Não temos de ir neste
engano. Além de roubados, estamos ainda a ser vigarizados, ludibriados, com a
ideia de que o sangue que existe é só o Euro e não há mais nenhum, ou usamos o
Euro ou morremos de anemia. É MENTIRA!!!
Uma vez
compreendido isto, só temos de ser espertos e encontrar uma solução. E, na
verdade, nem temos de ser muito espertos, pois os alemães já passaram por algo
semelhante a seguir à primeira grande guerra e desenvolveram uma solução, que
já expus aqui: as MEFO bills. Notas de
crédito que substituíram o dinheiro controlado pelos vencedores da guerra.
Agora é preciso
alguma imaginação para implementar o sistema. Uma forma de começar é a
seguinte: em vez de cortar ordenados e pensões, o Estado passa a pagar parte
deles em vales, notas de crédito, certificados. Que o Estado aceita para o
pagamento parcial de impostos e contribuições.
(e aqui até
poderão ser tomadas medidas de correção de outros gritantes roubos; por
exemplo, as pensões vitalícias dos ex-governantes do BP podiam ser
integralmente pagas em vales, uma vez que essas pessoas não descontaram para
essas pensões e não é legítimo estar a exigir aos portugueses que lhes paguem
pensões milionárias que eles se autoatribuiram fazendo uso de poderes que se
autoconferiram.)
Poderão dizer:
mas se o Estado aceita parte dos impostos em créditos, as receitas em euros do
Estado vão diminuir e depois fica sem dinheiro para pagar a dívida. Não é
verdade. A redução dos salários e pensões reflecte-se ampliadamente nas
receitas do Estado por causa do seu efeito recessivo, que até o FMI já diz ter
um factor multiplicativo maior que 1 (1,3 +- 0,4 dizem eles; o que só nos pode
levar a pensar que é ainda superior). A substituição dessa redução por notas de
crédito vai evitar o efeito recessivo e por isso conduzirá a uma cobrança de
impostos maior.
Isto é um
começo apenas; podemos fazer também como fazem há muito certas regiões da
Alemanha e suponho que em Inglaterra também: dinheiro de circulação regional,
válido numa cadeia de produtores e comerciantes locais ou regionais; ou
nacionais. Creio que os gregos já começaram a fazer isto.
Não interessa
de que cor é o sangue, não interessa se é vermelho ou azul, ou mesmo amarelo, o
que interessa é que cumpra a função de mediar bens e serviços. Temos de criar o
nosso próprio sangue e, a pouco e pouco, ir despejando as veias do sangue
envenenado do Euro. Porque, não haja ilusões, os euros vão desaparecer dos
nossos bolsos de qualquer maneira; e ou pomos lá outra coisa ou ficamos
miseráveis. E quem duvida só tem de por os olhos na Grécia.
Claro que o
Estado vai ter de fazer mais do que substituir parte dos encargos com pessoal
por créditos pois, contrariamente ao que constantemente afirmam os indivíduos
que nos andam a enganar, o Estado apenas gasta 70% das suas despesas em custos
de pessoal; ora o Estado não é uma fábrica, não consome matérias primas, os
seus custos são necessariamente quase todos com pessoal; se ainda há 30% de
despesas para além do pessoal, é porque há muito onde cortar. Por exemplo,
trocar Microsoft por Linux que é gratuito e mais seguro, acabar com as
calculadoras científicas nas escolas porque não servem para nada desde que se
inventaram os PC, fazer um acordo com a Fiat, ou a Dacia, para fornecer as
viaturas do Estado e empresas públicas, cortar nas despesas luxuosas da AR e do
PR; estamos em guerra, não há lugar para pieguices, não se ganham guerras com
políticos piegas que cortam a sopa aos pobres mas não prescindem das suas
ostras. Este é o tipo de medidas que mostra aos mercados – e aos portugueses -
que temos um governo empenhado em resolver o problema, que granjeia respeito e
confiança.
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Economia
quarta-feira, outubro 24, 2012
A saída da crise (1)
No banho solucionou o Arquimedes o seu problema "impossível". A lição: todos os problemas têm solução (imagem da Wikipedia)
Embora a conversa
com o Hans seja importante para se compreender a crise (como eu a entendo),
parece-me conveniente apresentar já a solução que resulta desse entendimento;
para que se não comece a defender soluções erradas que depois podem agravar o
problema e torná-lo impossível. Depois continuarei com o Hans.
Então lá vai
Na última
conversa com o Hans já mostrei que crescimento económico e dinheiro disponível
estão associados; como estamos presos ao euro, isso não pode ser conseguido por
valorização da moeda, portanto só pode ser conseguido por aumento da massa
monetária. Esse aumento tem sido conseguido recorrendo a empréstimos ao
exterior, que deveriam ser pagos pelo saldo da balança externa; mas esta tem
sido deficitária por causa da enorme incompetência de toda a gente neste país
com responsabilidades no assunto e ainda pela fuga de capitais para o
estrangeiro. Agora, temos de arranjar dinheiro mas não podemos pedir emprestado
e não podemos depender do saldo da balança que mesmo que se torne positivo será
sempre demasiado pequeno para essa função.
Portanto, notemos
o primeiro problema: arranjar dinheiro sem pedir emprestado.
Agora, notemos
outra coisa: não podemos deixar de pagar a dívida; se os mercados tiverem
qualquer suspeita de que a nossa dívida pode não ser paga, não emprestam mais
um tostão.
A capacidade de
pagar a dívida é o nosso grande trunfo nesta altura. Admiram-se? Então reparem:
Contrariamente ao
que pensam, a Alemanha deve estar com graves problemas. O enorme saldo da
balança externa alemã não fica na Alemanha, vai logo para offshores; e paga
impostos na Holanda. Enquanto a generalidade dos empresários portugueses
apostam em Portugal, querem viver cá – exceptuam-se é claro as multinacionais e
o Pingo Doce – o empresários alemães não querem saber disso, querem é ganhar o
máximo, por isso a fuga de capitais deve ser imensa. O resultado disso é que o
nível de vida dos alemães é muito inferior ao que se esperaria de um país
supostamente tão rico. Como é que a Merkel explica isto aos alemães? Arranjando
um culpado. Não é novo, no passado culparam os judeus de ficarem com o
dinheiro, hoje culpam os países do Sul, esses preguiçosos, inúteis, que vivem à
custa deles e os condenam a uma vida remediada. Para os alemães, nós estamos hoje no
lugar dos judeus do século passado.
Mas há mais: a
crise dos bancos é tanto maior quanto maior o banco; porque quanto maior, mais
se envolveu em processos especulativos. Ou seja, o Deutsch Bank deve ter um
buraco imenso e o mercado já percebeu isso.
Contrariamente à
ideia propalada, os juros não são proporcionais ao risco de incumprimento; os
juros são função da capacidade negocial. É isso que as agências de rating
medem. Se os mercados suspeitam que há o mais pequeno risco de incumprimento, não
emprestam. Pura e simplesmente. Ou então aplicam juros para cima de 30%. Os
nossos juros dispararam porque ficámos sem qualquer capacidade negocial. Com a
corda na garganta. Os alemães conseguem empréstimos com juros até negativos,
porque têm alta capacidade negocial (ou porque a Merkel manda os bancos alemães
procederem assim) mas, por outro lado, não há quase ninguém a querer emprestar
à Alemanha, ao contrário do que acontece com Portugal.
Portanto,
obtermos empréstimos com juros baixos depende unicamente de duas coisas: de os
mercados saberem que pagamos e de termos capacidade negocial (claro, há também
procedimentos “por debaixo do pano”, como persuadir os bancos nacionais a
acorrer aos leilões de dívida...).
Aqui está o
segundo problema: adquirir capacidade negocial. Parafraseando o Salazar (citado
pelo vbm num comentário ao post anterior):
"Haveremos de pedir emprestado, não como quem pede uma
esmola, mas como quem propõe um negocio."
Isto não significa que tenhamos de ficar agarrados à
troika; a solução não passa por aí; a troika foi um erro (que o Sócrates bem
quis evitar…) e dela temos de nos livrar; mas livrarmo-nos da troika é uma
coisa, não pagar a dívida é outra. Nós pagamos, não somos caloteiros, não
ficamos a dever nada a ninguém.
(embora haja aí umas dívidas que precisam de ser
escalpelizadas, mas isso é outro assunto, importantíssimo mas diferente;
nomeadamente, porque haveremos de pagar um balúrdio à troika pela seu trabalho
de “assistência” se ela falhou todas as suas previsões e nos deixou pior? Não
só não devemos pagar essa fatia dos encargos com a troika como deveriamos pedir
uma indemnização pelos prejuízos causados; e porque haveremos de pagar os biliões do BPN e do BPP? Esse problema é da banca, ela que o resolva, que se solidarize, não é nosso!) A propósito, ver este texto importante
São estes os dois problemas que temos de solucionar para
resolver o problema financeiro; mas depois temos o problema económico e social
para resolver
Quanto ao problema económico, notemos o seguinte; hoje em
dia basta ter uma pequena percentagem da população envolvida na produção de
bens transacionáveis; foi para isso que se fez o progresso, para que nos pudéssemos dedicar a outras coisas, como arte, ciência, saúde, educação, lazer,
etc, etc; mas da maneira como as coisas estão organizadas, a produção de
riqueza não especulativa está concentrada nos bens transacionáveis; esta
riqueza é depois redistribuída através das outras actividades.
Ou seja, a cada emprego na produção de bens correspondem
uns 5 noutras actividades; cada empresa de 100 trabalhadores que fecha vai
implicar o desemprego de 500 pessoas nas outras actividades; e o desemprego faz
baixar o consumo e isto leva a fechar
mais empresas com o correspondente coeficiente multiplicativo de desemprego.
É por isso que na economia de hoje a recessão se torna
rapidamente de crescimento explosivo; a austeridade determina fatalmente uma
implosão da economia. Mas nem todos perdem: as empresas estrangeiras não são
afectadas porque não produzem para cá e passam a beneficiar de mão-de-obra
muito mais barata. Como não há emprego, as pessoas aceitam ordenados mais
baixos; o Estado, por outro lado, cai na asneira de subsidiar os postos de
trabalho.
É sabido que as empresas estrangeiras manobram no sentido
de causar recessão económica onde se situam; é por isso que todos os países,
menos os do Sul da Europa, não autorizam empresas em que o capital nacional não
seja maioritário ou de alguma forma o capacidade do país em intervir na empresa
esteja assegurada. Em parte nenhuma do mundo, nem sequer em África, só mesmo
aqui. Por cada posto de trabalho que criam destroem uma data deles para lhes garantir o fornecimento de mão de obra barata.
Estas empresas beneficiam duplamente da baixa de ordenados
porque depois fazem como a Autoeuropa, que leva os trabalhadores daqui para a
Alemanha com os ordenados daqui, torneando os sindicatos alemães. Não se trata
de uma “circulação de trabalhadores”, como dizem: não vêm trabalhadores da
Alemanha para cá, só vão daqui para lá.
Portanto, o terceiro problema é
aumentar a produção de bens para o mercado interno; é isso que vai gerar postos
de trabalho em cadeia e porque gera redistribuição de riqueza através do
consumo – os lucros das que exportam vão para o estrangeiro e para elas quanto
pior for a situação, melhor.
Temos pois 3 problemas a que responder. No próximo post
apresento a minha proposta de solução, mas podem ir desde já pensando nisto e dando
sugestões.
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Economia
quarta-feira, outubro 17, 2012
A Força do FMI
Acabei de saber que, mais uma vez, coisa que começou a seguir ao 15 de Setembro se a memória não me falha, Portugal se financiou nos mercados a juros muito baixos, menos de metade do que paga à troika. Juros inexplicavelmente baixos, muito inferiores ao que paga qualquer depósito a prazo.
Como entender isto?
Os nossos prolixos e esclarecidos comentadores económicos nem referem o assunto.
Uma hipótese é que estão com medo que Portugal mande a Europa às urtigas e apressam-se a "amaciar-nos" para que não entornemos o caldo que lhes tem sido tão proveitoso.
Outra é a de que estão a tentar convencer-nos a regressar rapidamente aos mercados, que estão tão apetitosos, para depois voltarem a subir os juros, porque isto da troika está a estragar-lhes as perspectivas de juros usuários
Mas há ainda uma terceira hipótese, para a qual me inclino: é a mão do FMI
Quem vir aqui o que diz a Lagarde, encontra um discurso completamente diferente. Afinal o problema são os bancos, o sector financeiro, as suas más práticas, que têm de ser corrigidas; é preciso cair em cima deles.
Quanto aos países, têm é de crescer, qual austeridade qual carapuça.
Os planos da Merkel vão por água abaixo. Afinal, quem manda é a Lagarde.
Mais uma sugestão para a recepção à Merkel: cartazes com a foto da Lagarde e do Hollande.
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Economia
segunda-feira, outubro 15, 2012
Proibido crescer!
(continuado - aqui o Hans mostra que a crise é propositada)
Bem, vou ajudar-te.
(continua)
Há sempre uma
razão por detrás de tudo; mas, antes de te mostrar a razão profunda dos
problemas que todos os países europeus menos a Alemanha enfrentam, vou-te
mostrar os factos que determinaram esses problemas.
A força de uma
economia está ligada ao valor do dinheiro total dessa economia. É por isso que
se um banco central imprimir dinheiro em excesso, este desvaloriza.
Sim, certo.
Ora bem; este
facto óbvio e indiscutível tem outro lado: uma economia para crescer precisa de
mais dinheiro. Ou seja, se tiveres um país isolado, o crescimento do seu PIB
vai estar associado ao crescimento da sua massa monetária – ou pelo aumento do
dinheiro em circulação ou pelo aumento do valor do dinheiro.
Sim, é óbvio; e
então?
Repara agora como
foi definido o Euro. Um país como Portugal tem de crescer muito para poder
aproximar-se dos países mais avançados da Europa, não é?
Claro.
Ora esse
crescimento tem de estar associado à massa monetária do país; portanto, esta
tem de poder crescer para que o PIB do país possa crescer.
Certo...
Porém, o BCE
apenas imprime dinheiro de acordo com uma fórmula associada ao crescimento
médio do PIB europeu, nem isso, pois era imprescindível conseguir que o euro
não se desvalorizasse face ao dólar, e redistribui esse dinheiro de acordo com
a força das economias de cada país. Ou seja, o crescimento da massa monetária
em Portugal está limitado ao crescimento médio da economia europeia. Isto
implica que Portugal não pode crescer mais do que a média europeia, a não ser
que arranje outra forma de aumentar a sua massa monetária.
Sim... estou a
perceber, as regras monetárias do euro impedem os países mais atrasados de
crescerem mais do que os mais avançados.
Exacto; mas ainda
é pior do que isso. Onde é que Portugal pode ir buscar dinheiro? Ou à balança
externa ou pedindo emprestado. Mas os países do Euro não se podem proteger das
importações. Num mercado aberto, uma economia mais fraca em concorrência com
uma mais forte não pode ter uma balança externa equilibrada; logo, a balança
externa será deficitária. Logo, o que as regras do Euro determinam é que a
massa monetária dos países mais atrasados diminua e, em consequência, o seu
PIB.
Mas o PIB não tem
diminuído... pelo menos até à crise...
Pois não; e
porquê? Porque estes países foram buscar dinheiro para aumentar a massa
monetária; onde? Endividando-se! Tiveram de se endividar para compensar o
deficit da balança externa e ainda conseguir dinheiro para obter algum
crescimento.
Ou seja, no
quadro definido, os países mais atrasados estão condenados a endividar-se e
estrangulados no seu crescimento.
Fatalmente.
E os quadros de
apoio e essas coisas?
Os apoios são
estabelecidos visando muito mais o interesse da Europa do que do país; a PAC é um exemplo
claro disso, por isso é que os vossos agricultores recebem subsídios para não
produzirem. A Europa não precisa que vocês produzam, mas vocês precisam. Ou
seja, esse tipo de planos ainda impossibilita mais o vosso desenvolvimento.
Agora vão cortar os apoios aos regadios porque a Europa não precisa mas vocês
precisam.
E os apoios à
indústria?
Foram quase todos
absorvidos pelas empresas estrangeiras instaladas no vosso país; ou seja,
basicamente, são uma forma habilidosa de os países mais desenvolvidos,
especialmente a Alemanha, subsidiar as suas indústrias, violando as regras da
concorrência.
Pois, isso eu
sei... embora também tenha havido imensa corrupção por cá, grande parte das
ajudas foi para aos bolsos de uns quantos...
Bem, quando se
aumenta o dinheiro sem correspondentes medidas anticorrupção, esta dispara;
esse foi um erro crasso do processo; de qualquer maneira, essas ajudas sempre
foram uma maneira de aumentar a vossa massa monetária mas, infelizmente, no
vosso caso, logo desperdiçada em importações de tudo e mais alguma coisa,
acabando por ter o efeito contrário ao pretendido: afogar a produção nacional
em vez de a desenvolver. Mas nisso a culpa é toda vossa, mais ninguém fez
tamanho disparate, acho mesmo que vocês devem ter uma anomalia psicológica
qualquer, pois ninguém pode ser tão inconsciente assim...
Novo riquismo –
procurei minimizar, embora sabendo que ele tem razão; e contra-ataquei: A Europa protege-se das importações que
fazem concorrência aos produtos dos países ricos, mas não aos dos países mais
atrasados. Por exemplo, a nossa indústria têxtil enfrenta altas protecções
alfandegárias em todos os países do mundo, porque todos se protegem, mas a
Europa não estabelece protecção alfandegária à importação de têxteis. Ou seja,
a nossa indústria sofre uma concorrência desleal porque é isso que interessa a
países como o teu, que não têm indústria têxtil.
O Hans assentiu.
Já te disse, as regras europeias visam o interesse da Europa, dominada pela
Alemanha e França, e são uma armadilha para os países menos desenvolvidos.
Claro que os governantes não têm de ser parvos, e não foram em nenhum país à
excepção do teu; todos trataram de proteger a sua balança externa e fizeram-no
sem pejo nenhum e sem segredo nenhum. Já te contei que os emissores que
vendemos para a Grécia foram pagos em fardos de feno.
Sim, lembro-me
disso.
Os gregos são um
exemplo de excelente gestão no quadro armadilhado do Euro; conseguiram manter
sempre a sua balança externa equilibrada e conseguiram crescer. Cresceram
muito, o seu PIB per capita quando a crise começou era 1,7 vezes o português
quando não há muitos anos era inferior ao vosso. Os gregos sabem muito bem o
mundo em que vivem.
Sim, é um
resultado extraordinário
Claro que um tal
crescimento do PIB implica endividamento porque não há mecanismos no euro para
permitir o correspondente crescimento da massa monetária. Mas mesmo assim o
endividamento grego não era nada de muito diferente do dos outros países. Os
gregos foram atacados por causa do seu sucesso, por estarem a conseguir crescer demais. Era preciso fazer cair o seu PIB, e é isso
que está a ser feito, é por isso que vão para o sexto ano de recessão com o PIB
a descer vertiginosamente. O PIB grego tem de cair para metade para ficar
de acordo com a massa monetária que a Alemanha quer que a Grécia tenha.
É preciso fazer
cair o PIB? Então achas que não é consequência da crise financeira, é
propositado?
Claro que é
propositado; o ataque às dívidas soberanas acaba no dia em que a Alemanha
quiser; este ataque da “praga de gafanhotos” é apenas o instrumento que permite
à Alemanha fazer cair o PIB dos países do Sul. A Alemanha não só não o trava
como o alimenta e de tal forma que até o FMI já está a ficar em pânico porque o
empobrecimento excessivo não lhe interessa.
E porque é que a
Alemanha haveria de querer isso?
És cá um
ingénuo... mas só tens de te pôr no lugar da Alemanha para perceberes.
Achas?
(continua)
quarta-feira, outubro 10, 2012
A praga oportunista
(continuado)
retirado de aqui
O Hans bebeu um
longo golo de cerveja; o calor apertava e a cerveja dourada e efervescente
criava securas de desejo na garganta. Resisti à tentação de beber mais uma e
pedi outra garrafa de água, tinha de ir alternando a cerveja com água para
manter o raciocínio alerta. Sossegada a sede, o Hans continuou:
Já te volto a
falar desses economistas financeiros, especialistas na predação, mas primeiro
vou falar-te dos economistas empresariais – nota que estas designações são
minhas e são uma certa simplificação do assunto, mas que me parece adequada a
apresentar o problema. Bebeu mais um golo da borbulhante cerveja, a tornar a
minha água mais insípida. Os economistas empresariais também visam o lucro do
patrão, é claro, mas há um aspecto que os distingue dos financeiros: o lucro do
patrão depende do poder de compra dos consumidores. Para eles, qualquer teoria
do empobrecimento, tão do agrado dos financeiros, deixa-os com os cabelos em
pé.
Olha que tens
toda a razão; aqui em Portugal sente-se claramente duas correntes de
economistas, os que estão ligados a empresas que produzem para o mercado
interno e os da área da banca e das grandes empresas cuja actividade é
independente do poder de compra dos portugueses. Os primeiros estão fartos de
reclamar contra o empobrecimento em curso e os segundos acham muito bem.
Claro, os seus
interesses são afectados de maneiras opostas.
Nesse caso... os
governos deveriam ser entregues aos economistas empresariais, pois esses querem
o enriquecimento dos povos?
Não, nada disso;
eles querem o enriquecimento dos povos, mas não fazem ideia de como isso se
consegue. Eles querem que alguém assegure esse enriquecimento, mas eles não
sabem como fazê-lo, eles só sabem como enriquecer o seu patrão.
Agora é que me
deixaste baralhado; então são os financeiros que devem ir para o Governo?
Credo! O Hans até
deu um salto na cadeira! Esses nunca, são especialistas do empobrecimento.
Então...
Repara, todos esses economistas que falam nos media são tipos bem sucedidos em enriquecer o patrão, por isso são bem pagos, essa é a sua especialidade, uma transferência de dinheiro da
sociedade para os patrões; como é que se enriquece a sociedade, eles não fazem
ideia, isso pertence a outro pelouro que não é o deles; de macroeconomia não têm mais do que vagas ideias, conceitos
simplórios e ultrapassados.
Estou a perceber.
Todos dizem que é preciso medidas para relançar a economia, para evitar que os
bolsos das pessoas fiquem vazios. Só que não fazem ideia nenhuma de como isso
se faz. Até as troikas dizem isso mas, ao contrário das medidas de
empobrecimento, não têm nenhuma ideia a apresentar para enriquecer os povos.
Na verdade, nem
tentam, a sua estratégia é outra.
Outra? Qual?
A da praga dos
gafanhotos: eles ocupam um país, devoram tudo o que há a devorar enquanto
conseguirem, e depois mudam-se para outro país – para isso criaram um sistema
onde o capital se pode mover livremente.
Então estamos a
ser vítimas de uma praga de gafanhotos?
Estão a ser vítimas de várias coisas, uma delas é uma praga de gafanhotos. Mas nota
que estas pragas são pragas oportunistas, elas surgem porque foram criadas
condições para que se pudessem instalar e vão-se embora na altura em que essas
condições acabam.
As condições para
elas surgirem... penso que te referes a uma política de gastos excessivos, isso
percebo eu; agora, como é que se consegue que a praga se vá embora é que não
vislumbro... pois se ela só faz aumentar a dívida... vai-se embora quando já
sacou tudo o que havia a sacar?
Percebes mal,
muito mal, isso são ideias simplórias. Há duas grandes razões para esta praga ter surgido
e continuar estabelecida e não são nada do que pensas.
(continua)
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