segunda-feira, novembro 26, 2012

O Império dos Ricos

Imagem retirada deste blogue; recomendo a leitura, e do seu post mais recente, sobre Séneca


Os comentadores televisivos, os partidos da oposição, toda a gente, anda a dizer que o nosso governo tem falhado todos os objectivos: a dívida aumenta, o desemprego aumenta, o deficit público aumenta, a recessão aumenta. Segundo toda esta gente, o governo e a troika serão duma incompetência total, de uma burrice inacreditável pois insistem na mesma política que tem conduzido a estes resultados e necessariamente continuará a agravá-los. Paradoxalmente, a troika diz que Portugal está “ no bom caminho”, que as medidas são um sucesso; além de incompetentes serão loucos?

Na verdade, eles nem são incompetentes nem loucos, mas exactamente o contrário. E é bem verdade: as medidas têm sido um sucesso.

O equívoco está no que as pessoas pensam que é o objectivo das medidas; e não é por falta de esclarecimento do governo e da troika, que estão fartos de o dizer: o objectivo imediato é

Empobrecer os portugueses

Parece um objectivo disparatado? Mas não é, pelo contrário, é o objectivo adequado dentro do sistema político em que vivemos. Mas antes de percebermos isso, confirmemos que de facto o objectivo é esse.

Se este é o objetivo, as medidas têm sido um sucesso: estamos cada vez mais pobres. O ordenado médio já caiu perto de 20%! E o ministro da Economia parece só estar interessado nas concessões mineiras, a que não deve ser estranha a conexão canadiana com a estranhíssima empresa Colt. Até agora, já se viu alguma medida de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno e que são responsáveis pela quase totalidade do nosso PIB e do nosso emprego?

Mas “empobrecimento” como objetivo parece realmente uma coisa disparatada. Na verdade, o “empobrecimento” é só o meio para conseguir o verdadeiro objetivo: mão-de-obra barata de forma sustentada.

Não é isso que se procura constantemente no sistema capitalista? Mão-de-obra tão barata quanto possível? Não querem pagar o mínimo à mulher-a-dias? Pela refeição no restaurante? Pelo leitinho no supermercado? Pelo bilhete do futebol? Quem recebe quer receber o máximo, quem paga quer pagar o mínimo, estas são as regras do sistema. A ideia é que um sistema assim encontra o seu equilíbrio naturalmente. Uma ideia muito do agrado daqueles que esperam que o sistema se desequilibre cada vez mais a seu favor, sabendo-se como se sabe que este sistema se desequilibra sempre para o lado do mais rico.

Porque é que surge este problema agora aqui? Uma razão é porque já não há no mundo onde obter mão-de-obra barata de forma sustentada. Hoje, já ninguém aceita fábricas estrangeiras sem pesadas contrapartidas. As fábricas na China têm pelo menos metade de capital chinês, prazo de saída e são obrigadas à transferência de saber-fazer. A Volskwagen tem de sair da China até 2030. Mas sai antes, porque os chineses não nasceram para escravos e os ordenados lá têm de subir quase à taxa a que sobem os rendimentos dos ricos no mundo ocidental.

É por isso que os Ricos precisam de “mexicanizar” o sul da Europa, não têm alternativa.

Vejamos quais são as medidas que servem este objectivo:

1 – Empobrecimento
Para que as pessoas aceitem trabalhar por ordenados miseráveis é preciso que não tenham alternativa; isso implica duas coisas: cortar os apoios sociais e aumentar o desemprego. Como é que se aumenta o desemprego? Através da recessão, ou seja, fazendo cair a economia interna. Não são as empresas exportadoras que geram o grosso do emprego, são as empresas que trabalham para o mercado interno. Como é que se faz falir estas empresas? Empobrecendo os portugueses. Se os portugueses tiverem menos dinheiro, consomem menos e levam as empresas dependentes do mercado interno à falência. Daí a importância do empobrecimento e da falta de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno; daí o facto de a recessão ser não um indicador do falhanço da política mas do seu sucesso!

2 – Redução dos apoios sociais
A redução dos apoios sociais é indispensável à existência de mão-de-obra disponível para trabalhar por qualquer preço e em quaisquer condições; e também para reduzir a TSU, o que permite baixar o custo do trabalho.

3-Reduzir o Estado a um órgão executivo dos Mercados
Há um objectivo de acabar com o Estado como o órgão de gestão dos povos. Quem manda são os “Mercados”, as políticas económicas são definidas de fora, o Estado social acaba, o ensino, a saúde, os serviços públicos são privatizados, as forças armadas acabam por inúteis, , os transportes, as águas, a energia, o notariado... a justiça é “independente”, ou seja, continua ao serviço dos Ricos mas paga pelos pobres... a polícia acabará por ser transformada numa espécie de segurança privada dos ricos paga pelos pobres... o estado reduz-se assim a um mero órgão executivo dos Ricos.
Sabem quando foi feito o referendo a perguntar se prescindíamos de ter um país? nas últimas eleições, por isso é que o PSD apareceu a cantar o Hino Nacional e de pin na lapela, como as homenagens que se fazem aos que vão morrer; por isso houve acabar com certos feriados.

O mundo capitalista é um império dos ricos. Uma Plutocracia. E uma Plutocracia não quer saber de países e Estados, vistos como obstáculos e incómodos ao crescimento do seu poder.

Como os “mercados” são os Ricos, é por isso que o “regresso aos mercados” depende de empobrecermos de acordo com os objectivos de empobrecimento. O “regresso aos mercados” depende apenas de o governo conseguir que as fábricas europeias se possam instalar aqui com um custo bruto do trabalho de 2 euros por hora, isentas de impostos e de legislação laboral, não tem nada a ver com a dívida pública nem com o deficit.

Os governos dos países neste sistema obedecem aos mercados, ou seja, ao poder dos Ricos.

Mas há outra razão para isto acontecer e essa é inteiramente da nossa responsabilidade; e é essa que torna muito difícil sairmos desta situação (e também não tem nada a ver com a dívida)
(continua) 

54 comentários:

Joaquim Simões disse...

Alf:

Tenho lido atentamente os posts que vem publicando aqui. Não vou referir pormenores que talvez o fizessem mudar bastante do que diz que se passa a nível interno, porque... Enfim, um dia falaremos nisso.
Mas deixe-me dizer-lhe o seguinte: só é mexicanizável quem é tendencialmente mechicaneiro. Só quem aceitou as condições da "europeização" do país e o pôs ao serviço da mechicaneira em que Portugal chafurda há séculos é responsável pelo estado a que isto chegou.
A receita para "salvar" uma pátria cujos filhos dependem literalmente do Estado como de pão para a boca repete-se desde o início da revolução industrial. Fontes Pereira de Melo, o primeiro a aplicá-la tão convictamente que dizia "morro triste porque sei que ainda faço muita falta", assentou a recuperação da economia nas obras públicas e o progresso na introdução do caminho de ferro, com que tanto deu a ganhar à empresa de Gustavo Eiffel. Com isso, obviamente, ganhou também a indústria europeia, que agora podia escoar facilmente os produtos através deles, enriquecendo-se e, em simultâneo, ajudando a criar uma burguesia nacional constituída por... comerciantes. O país foi à bancarrota, já no reinado de D. Carlos, e essa burguesia aproveitou a situação para acabar com a monarquia do modo que todos sabemos. Não foi por acaso que, à excepção de Teófilo Braga e de Antero, que se suicidou, os restantes elementos da Geração de 70 acabaram monárquicos.
A República foi o caos previsível e o próprio ditador Salazar teve que andar a pedir empréstimos em consequência dele. Quem o salvou foi o Alves dos Reis. Confere.
Nada disto o recorda de seja o que for? Pois...
Não se iluda sobre quem, no Portugal de hoje, esteja a soldo de "grandes e inconfessáveis interesses". E, para terminar, já viu qual é a TSU para as empresas na Dinamarca?
Abraço.

alf disse...

Joaquim Simões

Ora seja bem vindo!

Acabo este texto exactamente a dizer que há outra razão para as nossas dificuldades atuais... um problema por resolver há séculos. Gostava era de saber se o meu amigo tem uma explicação para o atraso deste país; eu vou apresentar a minha

Quanto à TSU na Dinamarca, só sei que o desconto dos empregados parece ser de 8%, menos do que cá; quanto às empresas, parece que o regime de impostos e de financiamento dos sistemas sociais é bastante diferente.

Há ainda que ver as contrapartidas da SS nos vários países; por exemplo, em França, as empresas entregam um dossier semanal (pelo menos era assim há uns anos já largos) na SS a dizer quantos empregados precisam na semana seguinte, em função das suas encomendas; a SS paga os ordenados dos excedentários. Assim, a empresa tem sempre custos ajustados às encomendas, o que naturalmente aumenta a sua competividade.

O custo da SS não tem mistérios, é uma questão de ver os meus posts "mais sobre o sistema" que aconselhei ao vbm; na Dinamarca, onde o leque salarial é pequeno, as pensões são cerca de metade do ordenado (ou eram, ando um bocado desactualizado, mas suponho que se mantenha); o que está de acordo com as continhas que apresento nesses posts
Abraço

alf disse...

Joaquim Simões

Em Portugal há ainda um agravamento para as empresas que é o da SS não cobrir os acidentes de trabalho, sendo as empresas obrigadas a contratar seguros na privada. Nos outros países europeus a SS cobre os acidentes de trabalho.

PEDRO LOPES disse...

ALF,


Muito bom este artigo.

Eu também já andava há uns tempos a maquinar sobre este tema, e esta ferocidade nas questões do défice e de medidas de austeridade.
Os sobas querem trabalho escravo e manter o poder económico incontestável aqui na Europa.
Alías eu acrescento que isto também pode ser um dos motivos por detrás das guerras contras países ao calhas tipo Iraque, Líbia, Síria e futuramente Irão.
Essas guerras criaram dividendos futuros nessas economias através dos sobas da banca, que por sua vez vão sugar em juros ás populações que bombardearam.

Os poderosos do mundo ocidental são ainda mais sobas que os ditadores africanos.
São uma praga que tem de ser eliminada da face da terra o mais depressa possível.

alf disse...

Pedro Lopes

O mundo ocidental guia-se por duas regras: dinheiro e egoísmo. Ou, numa palavra, ganância. Este é o valor supremo.

Portanto, em todas as coisas que acontecem, temos de olhar para quem lucrou; porque tudo o que acontece, acontece para enriquecer alguém. O resto são argumentos para entreter o povão.

O que tem de ser eliminada é esta filosofia, é ela que faz as pessoas assim. Nºao adianta eliminar estes sobas, outros tomarão o seu lugar. O ser humano está programado para ser egoísta e só age doutra forma num enquadramento em que seja aceite que tal é proibido - como acontece na Dinamarca.

A maioria das pessoas não sofre desta ganância, mas há uma percentagem que sofre e tem de ser controlada ou dá nisto; mas são muitos, estão por todo o lado - são médicos, políticos, advogados, estivadores, juizes, banqueiros, etc, etc. Naturalmente que os muito ricos são todos gananciosos, se não fossem gastavam o seu tempo noutras coisas e não em ganhar dinheiro; e estamos numa sociedade em que damos o poder aos mais gananciosos dos gananciosos, sem nenhum mecanismo de controlo.

alf disse...

Ainda a TSU - Joaquim Simões

Acabei de perceber uma coisa: está em estudo a privatização da SS; e seria por isso que se pretendeu transferir a TSU das empresas para o empregado.

No futuro, cada um que trate de assegurar o seu futuro; ou morra de fome ou doença quando ficar desempregado ou velho.

percebe-se a lógica: se os Ricos não precisam da SS para nada, porque razão hão de os outros tê-la?

PEDRO LOPES disse...

percebe-se a lógica: se os Ricos não precisam da SS para nada, porque razão hão de os outros tê-la?

Muito bem.
O mesmo se aplica á saúde e educação.
Uma vez que a classe dominante não necessita destes serviços porque eles criaram serviços privados de saúde e educação para eles, e uma vez que estes detém o poder politico-económico estão-se completamente a cagar para se o SNS ou o ensino publico estiverem a cair de podres.
Nisto só há uma solução.
No Ensino e a na Saúde não poder existir na privado, ser tudo nacionalizado. Ai os ladrões do povo teriam de meter os putos deles nas mesmas escolas que os outros, e irem aos mesmos hospitais que o resto dos tugas.
Certamente que nunca deixavam as coisas chegar ao estado que chegaram.

Carlos disse...

Caro alf

http://www.ionline.pt/dinheiro/estado-perde-largas-dezenas-milhoes-decisao-governo-favoravel-empresas

alf disse...

Pedro Lopes

Agora que o Estado se tornou propriedade dos Ricos, acho que a solução é construirmos um Estado paralelo, novo, com dinheiro novo, com organizações novas. A SS é um seguro colectivo. Temos de recomeçar tudo de novo

alf disse...

Carlos

Muito confuso o artigo; a IGF refere irregularidades na aplicação da lei, o que não prova que a lei favorece A ou B. Se favorece, parece que é só as empresas que pagam dividendos, as quais, como se sabe, têm quase todas a sede no estrangeiro. Não sei tirar conclusões disto tudo... sei que a dupla tributação é um disparate que precisava de ser corrigido há muitos muitos anos, bem como outras questões, como a dedução fiscal dos investimentos; mas a fiscalidade das empresas tem estado toda pensada para favorecer a banca e prejudicar o Estado e isto desde que me lembro. E é só cá, nos EUA, por exemplo, não é assim.

Carlos disse...

Caro alf
Também o achei. Pensei que talvez alguém mo pudesse explicar, daí o ter aqui deixado.
Sei no entanto que a confusão é boa para se poder fugir a qualquer tipo de responsabilidade ou dar a hipótese de quem consiga deslinda-la poder fugir.

Quanto ao seu “post”

“... o verdadeiro objetivo: mão-de-obra barata de forma sustentada. Não é isso que se procura constantemente no sistema capitalista?”
Não sei. Acredito que alguns, os que têm grandes empresas, os que vivem à custa do estado, isto é de todos nós, sim. Têm o estado que os sustenta, não têm grande necessidade de obter lucro suficiente para se sustentarem, daí não terem grande necessidade de ter uma sociedade “abastada”. Agora aqueles que verdadeiramente criam emprego e riqueza, os outros capitalistas, em que não estão incluídos os que atrás mencionei, penso que procuram uma sociedade em que os cidadãos têm dinheiro para gastar. Caso contrário acontece o que está a acontecer.

“sabendo-se como se sabe que este sistema se desequilibra sempre para o lado do mais rico.”
Do meu ponto de vista “ele não se desequilibra”, dá uma ideia de um processo/acção natural. Ele é é forçado a se desequilibrar.

Quanto à ideia geral do que disse estou plenamente de acordo.

alf disse...

Carlos
"Sei no entanto que a confusão é boa para se poder fugir a qualquer tipo de responsabilidade " Pois, também me parecer isso mesmo...

"Agora aqueles que verdadeiramente criam emprego e riqueza, os outros capitalistas, em que não estão incluídos os que atrás mencionei, penso que procuram uma sociedade em que os cidadãos têm dinheiro para gastar"

procuram como? Eles gerem as suas empresas, não a sociedade; e para isso, neste sistema, têm de minimizar custos, é essa a sua especialidade.

O que a história mostra é que neste sistema a desigualdade é sempre crescente; enquanto o crescimento da riqueza é suficientemente grande e a desigualdade pequena, todos enriquecem, embora uns mais do que outros; mas quando a desigualdade se torna suficientemente grande, a riqueza absorvida pelos mais ricos torna-se maior do que a riqueza total produzida. Então, a restante população começa a empobrecer.

isso começou a suceder no ocidente por volta da viragem do século.

Nos EUA perceberam o perigo, por isso foram os primeiros a falar da necessidade de "redistribuir a riqueza" e taxaram os ricos em vez dos pobres. Mas na Europa a solução encontrada pelos ricos foi outra: a sociedade de classes. Fazer uma pequena percentagem - os povos do Sul - pagar o enriquecimento dos ricos; desta forma conseguem duas coisas: continuar a enriquecer os ricos sem empobrecer a classe média europeia e ganhar mão-de-obra quase escrava, o que daria grande competitividade à indústria europeia; daria mas não vai dar porque o resto do mundo já se fechou à importação de produtos, importando apenas aquilo que não pode de todo produzir. No entanto, o abaixamento do custo da mão-de-obra não deixará de ter vantagens para os restantes europeus, dispor de escravos sempre foi uma vantagem.

O erro da ideia de que o sistema se equilibra é pensar que ele depende do número de consumidores quando ele depende de uma função do número de consumidores e da sua riqueza.

ora esta função não se maximiza distribuindo a riqueza por igual mas antes concentrando-a numa certa percentagem de consumidores. E é isso que estão a querer fazer. E vai estar tudo muito bem para a maioria dos europeus, vai estar mal é para nós!


fatima disse...

Alf, Tenho seguido atentamente o blog, e deixo-lhe um link em relação ao seu comentário

"E o ministro da Economia parece só estar interessado nas concessões mineiras, a que não deve ser estranha a conexão canadiana com a estranhíssima empresa Colt"

Vejam o link:

http://www.publico.pt/multimedia/video/portugal-x-41-india-634896414048850533

Agora tudo começa a fazer sentido. Não vi isto divulgado nos midia. A dona Cristas estava lá! Era bom que todos os portugueses tomassem consciência do que se está a passar!

Obrigada, e parabéns pelo bom trabalho!:-)

fatima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joaquim Simões disse...

Alf:

Antes de dar continuação aos meus comentários e ainda a propósito deste post, deixo-lhe este link:

http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=25&did=86928

E, já agora, julgo que tem razão, que a TSU dinamarquesa para os trabalhadores é de 8%. Mas que a das empresas é de 0%. Ou estarei errado?

alf disse...

Olá Fátima!

sobre este assunto da plataforma continental eu penso duas coisas.

A primeira é que me faz confusão colocar-se sequer o assunto; se fores ao Google Earth verás que a nossa costa é dos poucos locais do mundo onde não há plataforma continental, o continente acaba nas nossas praias e falésias.

A segunda é que neste mundo não se pode possuir uma coisa se não se tiver capacidade de a explorar.

Para muitos europeus, ter um território como o português, com o seu potencial climático, hídrico, e outros, tão mal aproveitado é um crime e tal território deveria ser tirado das mãos dos portugueses que tão fraco uso lhe dão, e é mesmo o que estão a fazer.

Por isso, imaginar que um fundo marítimo cheio de recursos poderia ser entregue a portugal parece-me um disparate; pois se Portugal nem os seus recursos terrestres consegue explorar, como é que vai explorar recursos a grandes profundidades???

Cá para mim, se atribuírem este fundo marítimo a Portugal será só com a ideia de que ele não seja explorado até que tecnologias adequadas estejam disponíveis e nessa altura será retirado; ou então porque não se vislumbra recursos nenhuns nele e assim arranjam alguém que suporte a obrigação e o encargo de o preservar...

desculpa se te desiludi... mas isto é quase como as minas de ouro do Alentejo... a mina de ouro é outra, é convencer as pessoas que ali há riqueza e ir recebendo fundos e mais fundos para estudos e mais estudos... Claro que o ouro do Alentejo será pura vigarice e este caso não, acho que temos de fazer este papel de mostrarmos interesse e actividade no território marítimo, mas não podemos embarcar em utopias.

alf disse...

Joaquim Simões

Vejo que está a descobrir as vantagens infinitas do Estado social na construção de uma sociedade melhor.

Os países nórdicos são estados sociais, o oposto daquilo que se está a fazer aqui.

A sociedade humana tem de ser responsável por todas as pessoas, tem de assegurar a sobrevivência e a qualidade de vida de todas as pessoas. Antes do Estado Social, responsabilizou-se socialmente as empresas, por isso os contratos de trabalho têm todas essas clausulas de protecção ao emprego

No Estado Social, as empresas já não precisam de ter qualquer responsabilidade social porque essa responsabilidade é assumida pelo Estado

Assim, os contratos de trabalho podem ter total flexibilidade, as pessoas só trabalham para um dado patrão se se sentirem bem e o patrão só trabalha com as pessoas que lhe agradam.

As pessoas que não percebem nada disto, ou seja, quase toda a gente, sobretudo os que falam na televisão, dizem que os países nórdicos seguem políticas laborais ultra-liberais. Ora as políticas liberais resumem-se a acabar com a responsabilidade social das empresas e do Estado, não há transferência de umas par ao outro.

Mas o sucesso nórdico começou a ser construído no pré-primário, num esforço enorme para que toda a gente tenha a máxima formação, numa enorme consciência colectiva, etc. O Estado Social é isto tudo.


quando à TSU para as empresas, na Dinamarca os impostos são altos mas não são como os nossos, por isso não se pode dizer que as empresas pagam 0% de TSU e mesmo dizer que os empregados pagam 8% é uma afirmação difícil de entender; as pessoas pagam muito de imposto e esse imposto sustenta o Estado Social.

os nórdicos devem olhar para nós como nós olhamos para a Coreia do Norte... uns tontos explorados convencidos que estão muito bem...

Embora eu pense que como as pessoas são naturalmente egoístas e burras, cedo ou tarde os nórdicos irão sossobrando à tentação de reduzir o Estado social, até porque sabem que têm mais competência individual e social do que os outros povos e que portanto um sistema económico liberal e global tem vantagens para eles..podem partir à conquista (económica) do resto do mundo...

vbm disse...

E, no entanto, a Noruega já manifestou o seu interesse em associar-se a Portugal para explorar em conjunto o fundo marítimo da zona económica portuguesa... Avalio que a União Europeia não teria a mesma facilidade eventual de ludibriar um tal consórcio, com um país aliado tão experiente como a petrolífera e pesqueira Noruega, quanto com Portugal sozinho, sem petróleo nem pesca!

alf disse...

vbm

Ah, isso é muito interessante. Abre outras perspectivas de facto. A Noruega tem saber-fazer, experiência, interesse e recursos tecnológicos e financeiros, e é um parceiro capaz de associações win-win, ao contrário de outros. Um excelente parceiro!

Joaquim Simões disse...

Alf:

"Vejo que está a descobrir as vantagens infinitas do Estado social na construção de uma sociedade melhor."

"Estado social", Alf, é uma expressão equívoca, quando empregue no sentido mistificador que lhe dão os políticos europeus. Só existe Estado como consequência da existência de uma sociedade; logo, todo o Estado tem uma função determinada por ela. É a questão de quais devem ser essas funções da máquina do Estado e as atribuições que lhe cabem para as fazer cumprir, aquilo que levanta os problemas.
Quanto a mim, o vulgarmente chamado "Estado social" é, contrariamente ao que afirma, algo de historicamente reaccionário e perverso, sob a aparência, como não poderia deixar de ser para atingir os objectivos propagandísticos que se propõe, de uma conquista de altíssimo nível civilizacional, humanista. E que reforça perigosíssimas deformações culturais como aquelas que prevê, desta vez com toda a razão, no futuro da mentalidade nórdica (quem contactou ou contacta com ela, aliás, sabe que essa deformação já ganhou raízes há muito tempo e pouco mais demorará a crescer e a firmar-se - com graves prejuízos para todos nós e para eles em particular, pelas limitações à sua compreensão do fenómeno mundo e do fenómeno vida).
Dizer que o Estado não deve cumprir as funções nem possuir as atribuições que o conceito de "Estado social" lhe confere, porém, não significa, antes muito pelo contrário, que o Estado não tenha fortíssimas responsabilidades em todas as áreas da sociedade. Só assim, aliás, se justifica a sua existência e necessidade.
Mas isso, não cabe numa caixa de comentários. Limitei-me a deixar um apontamento sobre o que penso, para que não haja confusões. E irei, na medida do possível, deixando outros mais concretizadores do que neste adiantei. "Na medida do possível" inclui o factor tempo disponível...
Abraço.

alf disse...

Joaquim Simões

quando falo do "Estado social" refiro-me ao "welfare state", ou "estado providência", que é uma teoria económica que não tem nada de reaccionária a meu ver e que assenta na transferência das responsabilidades sociais das empresas para o Estado, tornando a economia muito mais competitiva; assim, esta gera mais riqueza e esta riqueza suporta o Estado.

Os EUA desenvolveram uma teoria que lhes permitiu grande desenvolvimento, que foi retirar às empresas o ónus do desenvolvimento avançado - através de instituições como a NASA e outras, o Estado suportava o custo da investigação, que depois libertava para as empresas; estas tornavam-se mais competitivas e geravam mais riqueza que pagava a investigação.

Variantes disto estão hoje aceites em todo o lado, a investigação científica depende do financiamento estatal. Sem este impulso do Estado, nunca teríamos o desenvolvimento que temos hoje.

As teorias liberais assentam em erros tremendos, na minha opinião, um dos quais é presumir que o sistema se auto-equilibra, o que é falso. E como não se auto-equilibra, gera pobres. E o objectivo nº1 de uma teoria económica deve ser não gerar pobres. Se ela não atinge esse objectivo, pode ser muito boa para alguns, mas não serve para desenhar uma sociedade para a humanidade.

A teoria neo-liberal é por isso uma teoria que serve os interesses de alguns mas não de todos. Portanto, não passa, para mim, de uma teoria de uma dada classe para servir os seus interesses. Há outras, que diferem na classe cujos interesses defendem; mas o mim o que me interessa, o que busco, é uma teoria que sirva a humanidade e não esta ou aquela classe. Pode ser uma visão errada, pode-se defender que a solução é ter partidos que defendam classes diferentes e vão alternando no poder consoante o voto. Mas eu penso que os partidos podem defender realizações diferentes de teorias que tenham o objectivo de servir os interesses de todos. E penso que os nórdicos estão um passo à frente nesse caminho... ou tenho essa esperança...

Diogo disse...

Alf: “Na verdade, o “empobrecimento” é só o meio para conseguir o verdadeiro objetivo: mão-de-obra barata de forma sustentada.

Não é isso que se procura constantemente no sistema capitalista? Mão-de-obra tão barata quanto possível? Não querem pagar o mínimo à mulher-a-dias? Pela refeição no restaurante? Pelo leitinho no supermercado? Pelo bilhete do futebol? Quem recebe quer receber o máximo, quem paga quer pagar o mínimo, estas são as regras do sistema.

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Caro Alf, como vive um sistema capitalista (que quer ganhar o máximo possível) sem consumidores?

Carlos disse...

“"Agora aqueles que verdadeiramente criam emprego e riqueza, os outros capitalistas, em que não estão incluídos os que atrás mencionei, penso que procuram uma sociedade em que os cidadãos têm dinheiro para gastar"

procuram como? Eles gerem as suas empresas, não a sociedade; e para isso, neste sistema, têm de minimizar custos, é essa a sua especialidade.”

Uma empresa para sobreviver, não subsidiada, tem de fazê-lo por conta própria. Só o consegue se houver clientes com poder de compra. Se a sociedade empobrecer, deixa de ter esse poder de compra, logo, ou compra menos ou deixa de comprar e a empresa fecha (vai reduzindo os seus lucros, ao ponto de já não ser viável).

Se for subsidiada pelo estado, nós, pode sobreviver sem que tenha de gerar lucros significativos (o que teria de fechar também se não fosse subsidiada). Claro que é uma forma de eliminar a concorrência e tornar-se num monopólio. Do meu ponto de vista as grandes superfícies (hiper-mercados) formam em conjunto um monopólio, porque actuam em cartel, tal como a banca.
O lucro que estas empresas vão buscar, é em boa parte através de benefícios fiscais ou outros concedidos pelos governantes. Nós geramos lucros mesmo sem termos de ser seus clientes, o que é errado.

Daí eu dizer (fazer a diferenciação), que quem não é subsidiado pelo estado não tem interesse em que a sociedade empobreça. Os outros, os parasitas, é-lhes quase indiferente e vão dentro da linha do que disse.

As pessoas na sua vida particular tentam gastar o menos possível, tal como o patrão.
Todos nós em casa gastamos o menos possível de luz, mas não nos lembramos que a empresa de luz para evitar que isso aconteça, e/ou para ter lucro, tenta baixar o mais possível o preço da luz, logo, tem de baixar também os custos na produção da mesma.
Quem paga, paga sempre muito, quem recebe, recebe sempre pouco.

O pior inimigo que temos, não são os estrangeiros, não são os obcecados pelo dinheiro, poder, são os nossos governos/governantes. Sempre que se dá autoridade para limitar as liberdades deste ou daquele grupo, mais tarde ou mais cedo acaba sendo aplicada a todos, invariavelmente acaba numa ditadura, seja declarada ou travestida, como a que temos. Pode ser política e/ou económica. No nosso caso foi/é para permitir benefícios, que pervertem todo o sistema em benefícios de alguns.

O difícil é encontrar o ponto de equilíbrio. Como há muito dinheiro e união desse lado, a balança é sempre desequilibrada nesse sentido.

Penso que o ideal seria haver um tecto máximo para ganhos, seja de pessoas ou empresas.

Na América, para evitar muitos problemas (como os que temos hoje), no princípio do sec vinte, não eram permitidas empresas muito grandes, para evitar o que tem acontecido. Quando havia uma obra muito grande, por decreto era permitido que várias empresas se unissem para executar a tarefa, mas uma vez esta terminada, expirava essa autorização e elas voltavam novamente ao seu tamanho original. Depois lá manobraram para banir essas leis. Muito poder em poucas mãos, ou numa só, descamba sempre.

Se houver outro melhor...

Carlos disse...

Correcção

Se houver outro melhor...

Se houver outro sistema melhor...

Paulo Monteiro disse...

Sem tirar nem por este post. Como aliás são a maioria dos posts neste blog: assertivos. Os comentários também são dignos de serem lidos. Quanto mais não seja pela contra-resposta. Quanto ao teor do post: O busílis da questão é mesmo a totalidade dos Portugueses não terem percebido que um plano está a ser posto em prática e está a correr conforme planeado. A vida das pessoas não está a correr nada bem, é um facto, mas isso nunca foi o objectivo nem faz parte do plano. O povo foi deixado ao abandono e está por si. Agora mesmo acabei de ouvir Miguel Sousa Tavares falar sobre o Vitor Gaspar na TV. Disse que o Ministro das Finanças está a fazer um mestrado no governo e os Portugueses são apenas vítimas da sua tese. Está a mostrar serviço com o objectivo de conseguir um cargo internacional futuro, no FMI ou outra instituição. E já veio sob orientação estrangeira.

alf disse...

Diogo

"Caro Alf, como vive um sistema capitalista (que quer ganhar o máximo possível) sem consumidores?"

Esse é o erro crasso, a mentira que a teoria liberal propaga para se conseguir instalar.

Num raciocínio elementar é fácil concluir que o número de consumidores é quase irrelevante, o que interessa é a riqueza total.

é o mesmo ter a riqueza uniformemente distribuída e as pessoas comprarem carro novo de 4 em 4 anos ou ter 3/4 das pessoas na miséria e 1/4 a comprar carro novo todos os anos; mas neste segundo cenário há uma vantagem acrescida para o 1/4 que tem a riqueza toda: passa a dispor de escravos. Portanto, os seus custos baixam, a sua riqueza passa a valer muito mais. O fabricante de automóveis aumenta os seus lucros mantendo o preço.

Ou seja, gerando a pobreza, aumentando a desigualdade, beneficia-se duplamente os ricos.

a teoria neo-liberal não é uma teoria para fazer evoluir a sociedade, é uma teoria de uma classe, que maximiza as vantagens desta classe; e esta maximização passa pelo empobrecimento dos outros.

Percebe a enorme mentira da ideia de que o sistema se auto-equilibra?

alf disse...

Carlos

O que diz foi verdade estes anos todos; mas o cenário agora é outro. Agora Portugal já desapareceu do mapa económico europeu, não há economia portuguesa. Para as empresas europeias, não lhes interessa para nada que os portugueses tenham dinheiro para fazer compras, o que lhes interessa é que os portugueses sejam miseráveis para trabalharem baratinho.

Veja a resposta que dei ao Diogo. Para os altos gestores europeus, nós estamos do lado dos pobres, não dos consumidores; como mostro nesse exemplo, quanto maior a desigualdade, melhor para a economia neo-liberal.

Nos EUA chegaram a mandar partir uma empresa de telecomunicações porque se tinha tornado grande demais! Mas depois veio a globalização e mudaram a política, o interesse americanos passou a ser terem empresas tão grandes quanto possível para poderem dominar a nível mundial.

alf disse...

Paulo Monteiro

Obrigado pelo que diz. Concordo inteiramente consigo no que respeita aos comentários, aprendo imenso com o que leio e com o que me fazem pensar.
Tenho muita sorte com os comentadores, metade do blogue é vosso, podes crer; eu já tenho muitos posts escritos que podia publicar já mas não o faço - deixo andar-me por aqui nesta tertúlia e depois escrevo algo geralmente muito diferente do que tinha para publicar. É por isso que ziguezagueio tanto, mas é neste zigazaguear que vou percebendo as coisas. É um método de descoberta. E resulta!

PEDRO LOPES disse...

"Na América, para evitar muitos problemas (como os que temos hoje), no princípio do sec vinte, não eram permitidas empresas muito grandes, para evitar o que tem acontecido. Quando havia uma obra muito grande, por decreto era permitido que várias empresas se unissem para executar a tarefa, mas uma vez esta terminada, expirava essa autorização e elas voltavam novamente ao seu tamanho original. Depois lá manobraram para banir essas leis. Muito poder em poucas mãos, ou numa só, descamba sempre."

Isso é uma das coisa que defendo há muito.
Não seria só impedir que as empresas cresçam muito, mas sobretudo e mais importantíssimo seria impedir a formação de grupos económicos. Grupos que tem aglomerados de empresas em vários sectores da economia. E por sua vez estes grupos tem por detrás a banca.
Isto é obsceno e devia ser banido em todo o mundo.
A presença da Banca em empresas é outra coisa que teria de ser completamente varrida.
Tudo isto leva hoje a fenómenos decadentes em que nem sabemos a quem pertence um determinado monstro multinacional.
O Empresário clássico está em vias de extinção. Tudo é absorvido pelos grandes monstros.

O Empresário clássico é que devia ser promovido e apoiado.
E seria muito mais fácil em caso de fraudes ou irregularidades.

alf disse...

Pedro Lopes

Atualmente, qualquer pequena empresa, de empresário, que tenha algum sucesso acaba comprada por uma grande empresa; e esta já não é de um empresário mas de grupos financeiros.

Todas as empresas acabam na mão de grupos financeiros porque não podem funcionar sem empréstimo bancário (ter mais dinheiro dá-lhes mais competitividade); e basta uma pequena subida da taxa de juro ou quebra da atividade económica para ficarem nas mãos dos financeiros.

Exceptua-se um número muito pequeno de empresas, a mais conhecida será a Volkswagen

Portanto, podemos dizer que a grande actividade económica está "nacionalizada" - ou seja, é comandada por um pequeno grupo de pessoas que controla a actividade financeira.

mesmo empresas de ramos diferentes pertencem aos mesmos; as multiplicidades de marcas que vemos nos supermercados dão uma ilusão falsa de uma multiplicidade de fabricantes - o que acontece é que casa fabricante produz múltiplas marcas.

Há assim uma oligarquia que tudo comanda.

A teoria económica em que vivemos é a que serve os interesses dessa oligarquia.

A grande fraude é dizer-se que essa teoria serve o interesse de todos, porque quem produz depende de quem consome.

Na verdade, como tenciono mostrar, o que interessa a essa oligarquia é que uma parte da riqueza esteja concentrada numa classe média reduzida, haja uma enorme desigualdade (imensa pobreza)e a maioria da riqueza esteja nas suas mãos. Que é para onde estamos a caminhar a passos largos, (mesmo que sejam de Coelho...)

penso que uma estratégia é desmascarar os verdadeiros objectivos da atual política económica europeia; só depois se poderão tomar medidas no sentido que propõe, porque agora a maioria das pessoas está convencida que a economia neo-liberal é a que lhe convém.

alf disse...

Pedro Lopes

talvez lhe interesse este texto:

http://outramargem-alf.blogspot.pt/2012/01/o-capitalismo-desenfreado-dos.html

Paulo Monteiro disse...

Por falar nisso Alf, continuo à espera do (último?) capítulo da conversa com o Hans!

O último paragrafo da tua resposta ao Pedro Lopes é algo que eu considero crucial. As pessoas têm de começar a tomar consciência do que se está a passar, e a expo-lo cada vez mais. Não há maneira de formar uma oposição à política actual (e não é só a Europeia, atenção!) através de uma instituição ou entidade pública que ou estão corrompidas e subvertidas ou não têm força nem peso suficientes. É assustador a este ponto, mas as pessoas devem começar a tomar consciência e a encarar a realidade, percebendo que elas e as suas reivindicações bem como o seu sofrimento, não importam às altas esferas. Nada nem ninguém irá lutar por elas nas altas esferas. Terão de ser elas próprias. Elas não enxergam isso porque estão condicionadas pelo senso de importância ocidental do qual se foram convencendo e que a própria educação lhes incutiu. "Somos ocidentais, cristãos, europeus civilizados, cidadãos de países desenvolvidos, porque raios haveriam os nossos líderes de nos querer fazer mal?". Quando o ocidente invadiu o médio oriente ninguém se importou com a chacina porque o progresso e a civilização ainda não tinham lá chegado. Foi como bombardear animais, e como ninguém era vegetariano nem defensor dos direitos dos animais, ninguém se importou com isso. Não havia empatia por aquelas pessoas, fruto do desconhecimento da história e da ignorância ocidental que considera todo o árabe um pré-histórico fanático terrorista. Muitos são, mas a maior parte foi manipulada e condicionada a isso. Agora chegou a nossa vez e ninguém enxerga isso. É a perspectiva mental das pessoas que as impede de ver a realidade.

Tem tudo a ver com este post: já se está a falar de propinas no actual ensino obrigatório. E digo actual ensino obrigatório, porque é lógico que quando surgirem propinas no actual ensino obrigatório ele deixará de ser obrigatório. Os mais ricos terão os filhos no ensino privado. Os abaixo hão-de pagar uma educação (na escola pública) aos filhos a muito custo. E os mais pobres hão-de por os filhos a trabalhar antes da maioridade. Hmmm...isto faz-me lembrar alguma coisa. "Oh pai, diz-me lá como eram as coisas no teu tempo?" (O meu pai teria 73 anos se fosse vivo.)

Bom, a geração dos formados já está a fugir e há-de ir toda para o estrangeiro. Depois as castas hão-de se definir por si: Nos altos cargos hão-de ficar os ricos formados. Nos cargos abaixo aqueles que estudaram um pouco mais com esforço dos pais. E no fundo da cadeia o povinho. Estará concluído o projecto de uma mão-de-obra barata iletrada, que não defende nem luta pelos seus direitos, que se deixa explorar e aceita sem reclamar o seu destino. E para quem duvidar disto desafio-os a pesquisar as voltas que a história dá.

No entanto, ao sentir o pulsar da nossa sociedade, não sinto nada mais que uma sociedade adormecida e inconsciente. O Hitler não tomou o poder e retirou direitos da noite para o dia e isto não é novidade para ninguém. Foi pela inércia e passividade iniciais que ele e o seu partido foram ganhando terreno até uma altura que já não havia nada a fazer. Um governo fascista só precisa de uma polícia e exército para o apoiar, e esses, só estão lá para cumprir ordens cegamente. Não ponho de parte uma nova ditadura em Portugal. Mas desta vez não será uma ditadura Salazarista orgulhosamente só. Será uma ditadura de marionetes manipuladas pelo exterior, tal e qual as antigas ditaduras sul-americanas, e as ditaduras africanas.

PEDRO LOPES disse...

Alf,

Muito esclarecedor esse artigo.
O mundo está a ficar irrespirável.

Dá vontade de um gajo fugir para uma serra e viver no meio do mato.
E mesmo ai ainda pode aparecer uma brigada do fisco a querer cobrar qualquer coisa.

vbm disse...

Se a China, na década em curso e na próxima, incrementar o consumo interno da sua própria produção, - como é provável -, os países ocidentais irão reindustrializar-se e reforçar o autoconsumo.

É certo que o comércio internacional diminuirá; como o crescimento populacional na Europa e em parte da Ásia (Rússia, China, Japão) está contido, o mundo irá melhorar nesta área do globo.

O mesmo não pode dizer-se da Índia, África, países islâmicos e América hispânica, onde religiões anacrónicas ainda forçam o descontrole da natalidade.

Isto não tem a ver com as economias europeias condicionadas pela a UE e o FMI... mas eu gosto de atentar em parâmetros extraeconómicos óbvios.

alf disse...

Paulo Lopes

Antes do Hitler a generalidade do povo alemão era exploradíssima pelos ricos alemães. O Hitler queria o poder e percebeu que a estratégia para o conseguir era mobilizar o povo escravizado contra os ricos; como estes eram maioritariamente judeus, mobilizou o povo contra o explorador judeu.

O que se está a passar agora é o que antecedeu o aparecimento do Hitler - são os exploradores ao ataque.

E estamos a deixar-nos explorar porque, com diz, nos recusamos a ver através das crenças que nos enfiaram na cabeça. É como o aquecimento global: apesar de já não haver dúvidas de que a Terra está a arrefecer, mesmo os meus amigos quando me presentam a outras pessoas dizem: o alf é muito engraçado, diz que a Terra não está a aquecer ah ah... E continuarão a dizê-lo até ao dia da sua morte porque as pessoas recusam-se a questionar o que um dia tomaram como verdade - como dizia o Planck, é preciso esperar que esta geração morra e outra cresça em contacto como novas ideias...

alf disse...

vbm

é certo; e a Chian diz isso mesmo. Só que guerra é guerra e ou a guerra económica pára ou os chineses irão para a guerra.

Ou seja, os todos os países protegem as suas actividades económicas e a sua autonomia ou não, se continuam com economia aberta, o China irá primeiro atacar os outros antes de se virar para o mercado interno.

neste momento, a China está a tentar entrar no mercado automóvel do Brasil. Cá para mim, a China tem um acordo com a Alemanha em que a Alemanha é sócia da China no ataque ao mercado mundial automóvel. Os carros chineses resultam da transferência de saber-fazer alemão e estão cheios de componentes alemães; aliás, parecem uma cópia do SEAT. Até 2030, desconfio que os chineses não atacarão o mercado europeu, que será deixado para o fim.

Quanto ao crescimento populacional, não é só nessas regiões do globo onde não há controlo de natalidade. Decorre uma guerra surda entre judeus e muçulmanos debaixo dos nossos olhos. Ambos têm tantos filhos quanto podem. É por isso que estão a surgir tantos problemas nos países nórdicos, que se sentem, e com razão, a caminhar para uma albanização do seu território. Isto é um terreno propício para grandes convulsões e para surgirem novos ditadores que se apoiem no medo que esta situação causa nas populações. Não estou a fazer uma previsão mas é algo a que é preciso estar atento.

leprechaun disse...

Alf:

Estes 2 vídeos do Movimento Zeitgeist, ambos legendados em português, parecem-me MUITO relevantes para toda esta discussão em torno de um novo projeto económico global.

Onde estamos agora?

Para onde vamos?

São ambos muito longos - mais de 3 horas e meia, no total - e estou a fazer a síntese dessa apresentação no meu tópico:

Projeto Vénus

O movimento também existe em várias cidades portuguesas, estando sobretudo concentrado em Lisboa e no Porto.

Movimento Zeitgeist Portugal

«O Movimento reconhece que questões como a pobreza, a corrupção, o colapso das instituições, os sem-abrigo, a guerra, a fome e outras são "sintomas", consequências de uma estrutura social ultrapassada. (...) o objectivo do Movimento é definir um novo modelo socioeconómico baseado numa gestão, localização e distribuição de recursos tecnicamente responsável, aplicando o método científico para a resolução de problemas e para encontrar soluções optimizadas.»

alf disse...

leprechaun

O grande erro dos idealistas, na minha opinião, é desenharem sociedades de acordo com o que eles desejam para eles. Ora é preciso uma sociedade que seja capaz de corresponder aos anseios das diferentes pessoas.

Já pensaste que essa sociedade que te parece ideal pode não ser nada ideal para muitas pessoas? É como aquelas sociedades sem casa de banho para não gastar água (como se a água se gastasse!!!); podes crer que a maior parte das pessoas não quer uma sociedade sem casa de banho com águas correntes.

Os comunistas também acham que uma sociedade sem direito à propriedade seria uma sociedade muito melhor. Engano: o direito à propriedade é dos instintos mais básicos.

Os cientistas também fazem modelos de como acham que o universo deve ser; e depois, qd as previsões falham, em vez de mudar a teoria mudam o universo - foi assim que inventaram a matéria negra ou o bosão de higgs.

Para desenhar uma sociedade humana, a primeira coisa é perceber muito bem o ser humano. O direito de propriedade e o direito a ser diferente são logo duas necessidades das mais básicas e qq sociedade que não respeite estas duas coisas não serve a esta humanidade.

As utopias têm sempre coisas acertadas, construí-las é importante, mas temos de ter presente que a realidade é diferente da utopia - a utopia pode iluminar o caminho, mas não é o destino a que queremos chegar.

Hoje estou muito filosófico rsrsr

vbm disse...

O direito de propriedade e o de ser diferente é um só, a saber o direito de ser livre.

Os Gregos (os Antigos) perceberam-no e explicaram-o muito bem: ao poder resiste-se com poder e é nessa capacidade que consiste a liberdade e a cidadania.

alf disse...

vbm

Os gregos eram uns génios; há mais sabedoria sobre a sociedade e sobre o ser humano na Antiguidade clássica no que tudo o que se fez depois dela, parece-me.

alf disse...

leprechaun e vbm

Os vossos comentários ajudaram-me a compreender uma coisa importante.

Aquilo a que chamamos "liberdade" é, na verdade, "independência". Nós não queremos a direito a fazer seja o que for, normalmente confundido com "liberdade", a prioridade é outra: é o direito a não dependermos de outrem.

Há duas vias para isso.

Uma é a autosuficiência - se não precisarmos de nada dos outros, se os outros nem souberem que existimos, não têm como nos "pôr a pata em cima".

É isso que está na raiz das comunidades que procuram uma existência "em equilíbrio com a natureza" ou seja, auto-sustentada na natureza e não na humanidade.

A outra via é através da definição de um quadro de direitos inalienáveis que assegurem essa independência.

A Democracia é o único sistema político que pode garantir a inalienabilidade desses direitos através de um documento fundador, a Constituição.

Pode teoricamente, porque é preciso que esse documento e o conjunto de regras que o protejem não possa ser assaltado - a Alemanha era uma democracia e o Hitler transformou-a numa ditadura.

A Constituição americana é teoricamente inexpugnável; mas será?

os países nórdicos serão a mais completa realização de uma sociedade que garante a independencia de cada um; até os filhos se tornam independentes aos 18 anos. SE fores passear de bicicleta com outras pessoas e tiveres um furo, ninguém vai ficar para trás para te ajudar porque isso seria um sinal de que és dependente.

Parece ridículo? Mas é um princípio. Porque a independencia tem de ser defendida com a mesma ferocidade com que outros a atacam.

Reparem: vivemos numa economia de competição; esta é impossível sem que se recorra a empréstimos - empresas, estados (e até pessoas, se os estudos tiverem de ser pagos, por exemplo). Um empréstimo é uma dependência; e basta o credor subir o juro para passar a dominar-nos.

E é isso que estão a fazer

É por isso que nos países nórdicos empréstimos que não sejam para consumo são controlados pelo Estado.

Aqui gostamos imenso de comprar tudo o que é estrangeiro; mas depois temos um déficit quer financeiro quer de capacidade de provermos as nossas necessidades. Esta dependencia paga-se com a escravatura, com a perca do direito a existir porque se perdeu a capacidade de autossuficiencia

vbm disse...

Em termos de pensamento e especulação, os Gregos foram espantosos. Por exemplo, os egípcios há mil anos que encontravam, na agrimensura das cheias do Nilo, o facto de o quadrado da hipotenusa somar os quadrados dos catetos!

Mas foi Pitágoras, - que aliás estudou dez anos no Egipto -, que demonstrou racionalmente aquele resultado não poder deixar de ser esse! O único óbice inesperado foi ter descoberto um número nada racional, lol, por irredutível a uma proporção entre dois inteiros :).

Platão, admirável, - ao ponto de Whitehead achar que toda a filosofia posterior não passar de um pé de página à filosofia de Platão! - o que não é verdade, e pode dizer-se que no século XX se produziu mais filosofia do que em todos os séculos da história - e isso graças aos Estados Unidos; bem entendido, graças também, à imigração de intelectuais oriundos da Europa em fuga da IIª Guerra - mas dizia eu, Platão, admirável, também estudou no Egipto, porém, só três anos... presumo que chumbou no ensino dos sacerdotes ou, então, desistiu por desinteresse; no entanto, o seu saber esotérico, é adivinhável por detrás dos mitos em que ancora as premissas básicas do seu discorrer dedutivo :)

vbm disse...

Aliás, interrogo-me, se justamente o surto do número irracional não deriva de o cálculo passar de uma comparação de grandezas lineares - de um só dimensão - para a de duas grandezas de superfície, portanto, bidimensionais...? Hum... e comparar volumes com superfícies, dá o que^? Derivadas?

Paulo Monteiro disse...

Alf,
Acho que o teu comentário foi dirigido a mim, apesar de me teres tratado por Paulo Lopes. Referia-me mais à forma como se vai consolidando uma ditadura. Não tanto às circunstâncias que a propicia. Ninguém escancara as portas de um governo e declara a ditadura da noite para o dia. A perda de direitos é gradual e as intenções do governo passam despercebidas à maioria da população. Mas sem dúvida que foi mediante essas circunstâncias que o Hitler ascendeu ao poder. As mesmas que temos agora. Reforça aquilo que disse. Há terreno fértil neste momento para isso. E no nosso caso quem são os “Judeus” para apontar o dedo e condenar? Somos nós, o povo do sul preguiçoso, que viveu acima das suas possibilidades, sem produzir o suficiente para aquilo que consumia, e que tinha demasiado tempo de férias, muitos feriados, direitos, regalias e nenhuns deveres. Esta é que é a parte insana da questão. O povo Português pegou num chicote e resolveu chicotear-se e condenar-se a si próprio. Aceitou a justificação política alemã para a crise, que foi sobretudo dirigida ao seu próprio povo, e resignou-se com a “inevitabilidade” que a classe politica lhe vendeu, restando-lhe a atribuição mútua de culpas entre si, como se o que acusa só pelo facto de estar no lote dos acusadores ficasse ilibado de responsabilidades e não pertencesse á “corja” inferior. E assim Portugal deixou-se e continua a deixar-se, invadir e explorar, implorando mesmo por isso.

Paulo Monteiro disse...

Alf,
Li a vossa conversa sobre o idealismo e a tua opinião da qual discordo em parte. Parece-me que metes todos os idealismos no mesmo saco. Viste aquele projecto em questão?
A sociedade em que vivemos actualmente por esse mundo fora é "capaz de corresponder aos anseios das diferentes pessoas" como disseste que deveria uma sociedade? Parece-me que não. Parece-me também que apelidar todas as ALTERNATIVAS, que surgem como proposta de melhorar a vida da generalidade das pessoas, de "utopias", é alinhar no jogo que convém ao poder vigente que quer fazer passar essas ideias como sonhos e fantasias tontas irrealizáveis. O que torna os bons ideais em utopias é a perpetuação da estupidez e dos estupidos. E esse perpetuar convém mais uma vez ao poder vigente. Para se desenhar uma sociedade o mais ideal possível tem-se em conta apenas factores como liberdade, independência, justiça, igualdade, prosperidade e, FRATERNIDADE e COOPERAÇÃO (sim, parece que ninguém quer depender de ninguém mas a verdade é que dependemos todos uns dos outros, ou não? Logo a começar pelo momento em que nascemos, que dependemos da nossa mãe, até ao momento em que somos velhos e precisamos de quem cuide de nós. Não somos ilhas, nem a nossa felicidade depende do isolamento. Não devemos estar é dependentes de instituições e entidades superiores, sejam elas governamentais ou corporativas, isso de acordo). Direito à propriedade? Temos direito a ela actualmente? Quantas pessoas vivem na rua enquanto os bancos estão cheios de casas vazias, ou quantas pessoas ficam a pagar (a sua?) propriedade toda uma vida ao banco e quando esta é finalmente sua já estão com os pés para a cova? Quantas pessoas alugam um apartamento e nunca tiveram propriedade? Eu não me importava de viver numa sociedade onde as pessoas tivessem direito a um lugar onde viver e não caissem na miséria nas ruas, isso sim. Agora, direito à propriedade? Essas vão sempre parar às mãos dos mesmos. Nunca houve o direito à propriedade, o que houve foi a possibilidade de adquirir uma, mas como isso é muito difícil, quase ninguém tem uma. Garantia de propriedade, isso sim, gostava de ver! Concordo que seja muito difícil agradar a toda a gente mesmo numa sociedade ideal. Um magnata de wall street votaria contra uma sociedade dessas. E depois, quem o servia? E de quem ele se servia? A quem se superiorizava e de que forma? Com qualidades humanas? Ele desconhece o que isso seja. Como é que ele comprava a admiração e respeito das pessoas? Como é que ele subordinava as pessoas? A quem é que ele pagava para ter sexo se as mulheres já não tinham necessidade de se prostituir? Mas parece-te que gente desta deve ser tida e achada na elaboração de uma sociedade justa? Tem voto na matéria? Não te parece que estes sociopatas e psicopatas precisam de se reabilitar e reintegrar numa sociedade em que eles não busquem constantemente a elevação de si mesmos em relação aos outros e o dominio sobre todos? E a partir deste exemplo vamos descendo por aí abaixo e encontrando muitos outros.

Paulo Monteiro disse...

Claro que muita gente não iria querer abdicar disto e outros daquilo, fechados no seu egoismo e indiferença em relação a um bem comum, mas a verdade é que no sistema que temos quando o governo chega e os priva daquilo a que estavam habituados o que é que eles fazem? Encolhem os ombros. Será que vivemos num sistema que cada um pode relamente ser e ter aquilo que quer? Será que muitos que não queriam mudar até gostariam depois de experimentar outra coisa? Não será que estão apenas muito afeiçoados ao seu modus-operandi e vivendi por mais obsoleto e nocivo que seja? É o que o homem é uma animal de hábitos. Muita gente funciona como as crianças: não percebe nada, não sabe o que quer nem o que deve ser feito, e depois de experimentar algo novo até gostam muito. E com as culturas é a mesma coisa. Elas também são mutáveis. Muito bem que os nórdicos deixam para trás alguém que cai e isso pode ser considerado independencia mas também é indiferença. Porque havemos de querer só uma coisa? Se juntar-mos várias qualidades evitamos chegar a extremos como esse e outros que só entram na cabeça de pessoas que se deixam levar facilmente por lógicas retóricas e pouco alargadas.

Paulo Monteiro disse...

Sinceramente não percebo nada nem tenho nenhuma opinião sobre aquecimento e arrefecimento global. Mas estou interessado em ouvir a tua posição(tese).

leprechaun disse...

Olá Paulo!

Gosto dessas opiniões, queres partilhá-las mais abertamente junto de quem pretende contribuir para uma maior eficiência no funcionamento social?

É por nós mesmos que devemos começar e alargar depois um tal exemplo ao círculo familiar e de proximidade, até chegar ao ideal de comunidade.

E sim, as utopias são necessárias, mesmo que só se concretizem daqui a mil, dez mil ou cem mil anos!

A cidade do futuro (Projeto Vénus)

alf disse...

vbm

eheh interessantes pensamentos paralelos...essa dos números irracionais é gira... já as derivadas não me parece que tenham alguma coisa a ver com o assunto, são apenas uma medida da variação...

Claro que um número irracional não tem dimensão, surge com a análise a duas dimensões mas ele existe a uma dimensão.

mas é interessante a ideia

alf disse...

Paulo Monteiro e Leprechaun

O espaço dos comentários não é muito adequado a ideias complexas e depois as coisas ficam mal compreendidas.. vamos a ver se consigo esclarecer um pouco melhor.

Nós precisamos de depender uns dos outros, isso tem óbvias vantagens, é isso que cria a sociedade.

Essa dependência funciona muito bem enquanto for uma relação win-win; mas a relação win-win só ocorre naturalmente quando os negociadores são equipotentes.

é o que acontece nas nossas relações sociais habituais.

porém, quando um dos lados tem mais força negocial, há logo uma tendência para abusar dessa força.

Essa força negocial é medida pela "dependência" da parte mais fraca.

Em resultado disto, uma sociedade funciona bem enquanto as relações entre as pessoas forem win-win; e a raiz de todos os problemas é a existência de desiquilíbrios de forças, ou seja de dependências.

Assim, o primeiro objectivo na organização duma sociedade é não haver dependências.

isto é uma guerra permanente, porque cada grupo procura constantemente tirar partido da força que tem, inventa processos para ter adquirir essa vantagem; e quem regula a sociedade tem de estar sempre a inventar novas regras para combater isso.

(continua)

alf disse...

(continuando)

Vamos aos exemplos do que digo:

Nos EUA, os guardas prisionais têm uma poderosa união que gasta rios de dinheiro a fazer lobying; para quê? Para maximizar a população prisional, aumentando as penas e os crimes (por exemplo, o consumo de drogas leves). é que os prisioneiros são o ganha-pão dos guardas prisionais e quantos mais melhor. Se o número de presos diminuir, irá haver guardas no desemprego, não é?

http://en.wikipedia.org/wiki/California_Correctional_Peace_Officers_Association

Não pensem que isto é um caso isolado; se houver menos incêndios, pior para os bombeiros, menos crimes, pior para a polícia, menos processos pendentes na justiça, pior para juizes, advogados e funcionários judiciais.

porque é que pensam que existem listas de espera nos hospitais publicos? Por uma única razão: para alimentar os privados. Sei do que falo. Os médicos é o caso de uma sociedade que conseguiu força à custa de ter sido permitido que o acesso à formação fosse condicionado. E o mesmo tipo de abusos de posição ocorre com controladores aéreos, maquinistas, estivadores, etc, etc.

Mas o mais grave mecanismo de criação de dependências é o dinheiro.

é por isso que a usura foi proibida no passado. É por isso que os empréstimos para coisas essenciais, como a habitação são regulados pelos Estado ou até exclusivos do Estado, como na Suécia. É por isso que o ensino obrigatório é gratuito, para garantir igualdade de condições de formação e evitar a diferença de capacidade negocial que resulta da diferente formação.

Em conclusão, o objectivo e a preocupação nº1 das sociedades é combater as dependências, os desequlibrios de forças.

A nossa actual crise é o espelho disso. Os gregos estão muito melhor do que nós (ao contrário do que se diz) porque têm sabido tirar proveito da força que lhes resta.

(continua)

alf disse...

(continuando)

Vamos agora ao desenho de sociedades.

Nas sociedades utópicas procura-se solução para este problema, de duas formas. Uma é pela autosuficiência, a "solução hippie". Como aquela comunidade do Alentejo.

Esta solução é muito limitada

Outra, como no projecto Vénus se a memória não me falha, retirando o poder dos homens e passando para os computadores - estes seriam programados segundo regras bem definidas e não estariam sujeitos aos interesses de cada grupo.

Só que isto falha num aspeto.

Há dois campos de actuação no combate à dependencia.

O primeiro é o do governo! Se o governante for um ditador, tudo o resto é dependencia. Por isso o primeiro cuidado é impedir que isso aconteça.

a Democracia é o único sistema político concebido para evitar isso; assenta num documento - a Constituição- que estabelece regras e um conjunto de mecanismos que as tornem invioláveis.

Porém, a história mostra que elas podem ser violadas - como a ascenção do Hitler ou a nomeação de governos tecnocratas para os países eu crise.

Teoricamente, a democracia dos EUA não pode ser violada - mas um famoso matemático, Godel, terá descoberto nela uma fragilidade, embora não se saiba qual seja.

(continua)

alf disse...

(continuando)

A nossa presente situação mostra como é fácil o assalto ao poder. Não necessariamente aqui, mas na Alemanha. Basta uma mão cheia de promessas e apontar o dedo a culpados para justificar a tomada de medidas que desequilibram os poderes e tornam uns dependentes de outros. Foi o que o Hitler fez e a Merkel está a fazer com o sucesso e a facilidade que está à vista.

Portanto, a democracia foi concebida para evitar o abuso de poder de quem governa; mas a falta de poder deste leva à proliferação de desequilíbrios de poder ao longo da sociedade, sobretudo do poder dos financeiros, porque estes têm um poder único: o poder de "captura" dos governantes e reguladores.

Os gregos arranjaram uma solução para isto: qd necessário, o Senado nomeava um ditador para endireitar a sociedade durante um perí0do de tempo limitado - o Péricles foi ditador por 6 meses, se a memória não me falha.

Mas, é claro, os gregos da antiguidade estavam muito mais avançados socialmente do que nós estamos hoje.

Portanto, o objectivo essencial do desenho de uma sociedade é o combate às dependências.

as sociedades de autosuficiencia não vão além de comunidades pobres, Isso não seduz a generalidade das pessoas.

Então, surgem outros projectos que prometem riqueza - como o projecto Vénus.

porque nós queremos uma sociedade sem dependências mas queremos tb ser tão ricos quanto possível. Na verdade, queremos sobretudo ser mais ricos do que a média... isto é naturalmente impossível mas é uma força que temos de usar para fazer a sociedade evoluir.

Mas o grande problema do desenho das sociedades resume-se a isto: se damos muito poder acima, temos abuso de poder de quem governa; se lhe tiramos, temos abuso dos grupos que se formam.

Os gregos arranjaram uma solução que era alternar entre as duas situações.

Que outra solução podemos arranjar?

Vou responder a isto nos comentários ao post seguinte

vbm disse...

«já as derivadas [ ], são apenas uma medida da variação...»
________________________________

De uma grandeza em relação a outra, em cada ponto, momento. E por serem isso, integrada essa grandeza em dado intervalo da variável, compõe, se não erro, uma superfície...

Ora no caso da derivação parcial de duas variáveis, a respectiva integração na superfície-intervalo de ambas, compõe um volume...

É verdade, porém, que embora a função integral obtida seja o limite de um cômputo tão aproximado quanto se queira, ela não é da mesma natureza 'errática' de um número irracional porque tende para um limite de que nos aproximaremos tanto quanto queiramos :)

De qualquer modo, a mim, fascina-me não tanto a exacta medição de grandezas e eventos, mas a irrepetível variação de cada específico corpo, evento, duração... assim como a diferença entre uma lareira eléctrica com chama de evolutas programadas, e a viva chama real de um fogo verdadeiro, aleatória, irregular e cheia de 'vida'! :)