quarta-feira, outubro 31, 2012

A saída da crise (2)

"muitos governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito tempo"; ele está convencido de que já ganhou a guerra contra os povos, um sonho dos plutocratas com mais de um século. 


O primeiro problema que temos para resolver é o da falta de dinheiro.

Compreendamos primeiro a trama perversa em que estamos enredados.

O dinheiro foi inventado para mediar as trocas de bens e serviços. O dinheiro foi inventado para ser o sangue da sociedade. O dinheiro é propriedade da sociedade, não é um bem privatizável, evidentemente! Privatizar o dinheiro seria criar o monopólio dos monopólios. O dinheiro é como o sangue, e o sangue não se compra nem se vende.

Isto é bem sabido e foi afirmado inúmeras vezes pelos mais ilustres estadistas, no tempo em que os políticos eram pessoas que sabiam de política. É por isso que a gestão do dinheiro sempre foi feita pelo Estado, dependente de governantes eleitos.

Uma sociedade é como um corpo: cresce. E, ao crescer, e para crescer, precisa de mais sangue, ou seja mais dinheiro. Essa produção de dinheiro era feita pelo banco central sob a supervisão do Estado, dos governantes eleitos.

O Dinheiro é uma das duas coisas que são essenciais a uma sociedade humana. A outra é a garantia de que todas as pessoas têm direito a uma vida minimamente digna. A sociedade pretende substituir a selva, a natureza; e a natureza garante a subsistência aos seus habitantes. A sociedade tira as pessoas da natureza mas tem de lhe garantir o mesmo que a natureza garante ou não interessa. Isto foi sempre uma preocupação fundamental das sociedades humanas estruturadas.

A isto se chama agora “o Estado Social”. É uma redundância, porque o Estado ou é social ou não é Estado; a única coisa que varia é o conceito de “vida minimamente digna.”

O testa de ferro da oligarquia plutocrata que tenta dominar a Europa desde o princípio do século passado, o sr. Draghi, está já tão seguro do seu sucesso no derrube dos dois pilares do Estado que se permite declará-lo; assim, há tempos declarou que “o Estado social já tinha acabado” e muito recentemente declarou que “muitos governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito tempo” (eu andava à espera de uma coisa deste género para publicar este texto, doutra forma os meus leitores pensariam que eu estou a delirar). Um profeta, este Draghi.

Porém, de profeta não tem nada porque ele sabe bem do que fala. A grande golpada consistiu nos estatutos do BCE, que lhe deu a propriedade do sangue da sociedade, o dinheiro. Ele é o novo Hitler.

O esquema montado é tão absurdo que as pessoas nem percebem, não acreditam que assim seja, acham que não é possível; mas é.

O BCE ficou com o nosso sangue, pois o seu capital foi-lhe dado pelos Estados; depois empresta à Banca a juro tendencialmente nulo; e a Banca devolve-nos o nosso sangue cobrando juros usuários. O Sangue da sociedade foi assim privatizado e de borla, sendo agora gerido, pelo BCE e pela Banca, quase da mesma forma que as petrolíferas gerem o petróleo. Digo quase porque, na verdade, é muito pior.

Por exemplo, o BCE obriga-nos a aceitar um empréstimo de 12 mil milhões de euros, do qual estamos a pagar juros elevados, para garantir que os bancos, em caso de necessidade, têm os rácios que o BCE acha adequados – note-se, a banca portuguesa já declarou que não precisa de 7 mil milhões desse dinheiro, mas o BCE obriga-nos na mesma a pagar juros dele, juros de coisa nenhuma porque é como se esse dinheiro não existisse, não pode ser usado. São 300 milhões de euros por ano a troco de coisa nenhuma...

Por outro lado, se o BCE é independente dos Estados e o dono do dinheiro, cabe-lhe a ele assumir as responsabilidades sobre os bancos; mas não, nós é que estamos a pagar para isso; e pior ainda, nos bancos que precisaram de dinheiro, o Estado foi obrigado a entrar no capital do banco; para quê? Para, se o banco não conseguir resolver os seus problemas, ficar automaticamente nacionalizado, ou seja, o toooodo o seu prejuízo fica para nós, como o BPN.

Isto nunca se fez nem aos países conquistados após dura guerra. Isto é terrorismo económico, exploração infame, roubo descarado.

Por outro lado, a destruição do direito à vida condigna, em curso, visa a destruição da sociedade e a criação em seu lugar de um sistema de senhores e escravos; porque numa sociedade organizada só os escravos não têm esse direito.

Em cúmulo de todo este horror, note-se que vivemos na era da abundância, somos capazes de produzir tudo o que necessitamos, tudo o que somos capazes de consumir, e muito mais, dez vezes mais, a única coisa que limita a produção é a capacidade de consumir; e o que limita o consumo é a redistribuição de riqueza.

Portanto, compreendamos, fomos assaltados, roubados, conquistados. Roubaram-nos o sangue e estão a deixar-nos anémicos, indefesos, a asfixiar-nos! Claro que também temos culpas, mas elas estão a ser usadas como argumento para nos roubarem, não nos deixemos enganar com a conversa culpabilizadora.

Por último, esta destruição dos Estados não visa criar espaço para a criação de uma verdadeira união europeia, uma sociedade democrática europeia, visa apenas, ao que entendo, estabelecer um poder oligárquico plutocrata sobre uma sociedade escravizada, um sonho que vem a ser perseguido desde o princípio do século passado.

E agora vem o mais absurdo de tudo: é que nós estamos a deixar!!!

Porque, entendamo-nos, o dinheiro não é uma criação da natureza, é uma criação nossa!! Está na nossa mão criar o dinheiro de que precisamos. Não temos de ir neste engano. Além de roubados, estamos ainda a ser vigarizados, ludibriados, com a ideia de que o sangue que existe é só o Euro e não há mais nenhum, ou usamos o Euro ou morremos de anemia. É MENTIRA!!!

Uma vez compreendido isto, só temos de ser espertos e encontrar uma solução. E, na verdade, nem temos de ser muito espertos, pois os alemães já passaram por algo semelhante a seguir à primeira grande guerra e desenvolveram uma solução, que já expus aqui: as MEFO  bills. Notas de crédito que substituíram o dinheiro controlado pelos vencedores da guerra.

Agora é preciso alguma imaginação para implementar o sistema. Uma forma de começar é a seguinte: em vez de cortar ordenados e pensões, o Estado passa a pagar parte deles em vales, notas de crédito, certificados. Que o Estado aceita para o pagamento parcial de impostos e contribuições.

(e aqui até poderão ser tomadas medidas de correção de outros gritantes roubos; por exemplo, as pensões vitalícias dos ex-governantes do BP podiam ser integralmente pagas em vales, uma vez que essas pessoas não descontaram para essas pensões e não é legítimo estar a exigir aos portugueses que lhes paguem pensões milionárias que eles se autoatribuiram fazendo uso de poderes que se autoconferiram.)

Poderão dizer: mas se o Estado aceita parte dos impostos em créditos, as receitas em euros do Estado vão diminuir e depois fica sem dinheiro para pagar a dívida. Não é verdade. A redução dos salários e pensões reflecte-se ampliadamente nas receitas do Estado por causa do seu efeito recessivo, que até o FMI já diz ter um factor multiplicativo maior que 1 (1,3 +- 0,4 dizem eles; o que só nos pode levar a pensar que é ainda superior). A substituição dessa redução por notas de crédito vai evitar o efeito recessivo e por isso conduzirá a uma cobrança de impostos maior.

Isto é um começo apenas; podemos fazer também como fazem há muito certas regiões da Alemanha e suponho que em Inglaterra também: dinheiro de circulação regional, válido numa cadeia de produtores e comerciantes locais ou regionais; ou nacionais. Creio que os gregos já começaram a fazer isto.

Não interessa de que cor é o sangue, não interessa se é vermelho ou azul, ou mesmo amarelo, o que interessa é que cumpra a função de mediar bens e serviços. Temos de criar o nosso próprio sangue e, a pouco e pouco, ir despejando as veias do sangue envenenado do Euro. Porque, não haja ilusões, os euros vão desaparecer dos nossos bolsos de qualquer maneira; e ou pomos lá outra coisa ou ficamos miseráveis. E quem duvida só tem de por os olhos na Grécia.

Claro que o Estado vai ter de fazer mais do que substituir parte dos encargos com pessoal por créditos pois, contrariamente ao que constantemente afirmam os indivíduos que nos andam a enganar, o Estado apenas gasta 70% das suas despesas em custos de pessoal; ora o Estado não é uma fábrica, não consome matérias primas, os seus custos são necessariamente quase todos com pessoal; se ainda há 30% de despesas para além do pessoal, é porque há muito onde cortar. Por exemplo, trocar Microsoft por Linux que é gratuito e mais seguro, acabar com as calculadoras científicas nas escolas porque não servem para nada desde que se inventaram os PC, fazer um acordo com a Fiat, ou a Dacia, para fornecer as viaturas do Estado e empresas públicas, cortar nas despesas luxuosas da AR e do PR; estamos em guerra, não há lugar para pieguices, não se ganham guerras com políticos piegas que cortam a sopa aos pobres mas não prescindem das suas ostras. Este é o tipo de medidas que mostra aos mercados – e aos portugueses - que temos um governo empenhado em resolver o problema, que granjeia respeito e confiança.

23 comentários:

vbm disse...

«Porque, entendamo-nos, o dinheiro
não é uma criação da natureza,
é uma criação nossa!!»

_____________________________________

Não é verdade. O que vai prejudicar
a ‘solução’ mais à frente da circulação
de créditos numa região ou grupo social.

Numa sociedade de homens livres,
os bens trocam-se por bens
segundo a necessidade
de cada um.

Justo por isso, o dinheiro é um bem
como todo e qualquer outro,
e cambiável porque o é.


Poderemos queixarmo-nos
de o «bem-dinheiro», amoedável
e eminentemente transaccionável
pela sua indiscutida liquidez,
se preste a acumulação privada,
utilizável em finalidades puramente
individuais e anti-socias.

É uma questão política, resolúvel
como tal: confisco, redistribuição.


Post-scriptum: — Moeda convencional
como a descrita – possível de emergir em grupos
delimitados no espaço e no tempo –, depara-se
com o “muro” da taxa de câmbio das transacções
com as sociedades fora do grupo.

É esse aliás o problema
dos pagamentos
e da economia
inter-nações.

alf disse...

vbm

Não estou de acordo contigo, não vejo o dinheiro como um bem, é apenas um documento que atesta que se possui um bem, é uma declaração. Hoje em dia até podia não haver dinheiro físico nenhum, apenas registos contabilísticos; se fosse um "bem", como poderia existir apenas na forma virtual?

Este dinheiro cuja criação proponho destina-se a funcionar num circuito fechado, não serve para mediar trocas fora desse circuito.

A questão de saber se funciona já está respondida: funcionou para os alemães; e de tal maneira que puseram a sua economia em pé em cima de uma guerra e da maior recessão antes desta

Saber o futuro não é tão complicado assim; basta fazer os modelos e pô-los a funcionar no computador. Algo trivial para alguém que, como eu, tem formação no campo das ciências. O problema é a qualidade do modelo, algo que exige muita atenção aos detalhes do presente.

Na nossa situação, é relativamente fácil fazer futurologia sem grandes margens para dúvida; e ainda mais fácil se torna quando basta olharmos para a Grécia para vermos o nosso futuro, ou seja, para testarmos o modelo. Nós já sabemos a que futuro nos leva o caminho atual.

As pessoas pouco habituadas a fazer futurologia preenchem com otimismo a sua ignorância dele; é por isso que não adianta avisar de uma catástrofe futura, e é por isso que os judeus foram tão facilmente conduzidos à camara de gás sem um gesto de luta.

A classe média em Portugal está muito tranquila porque as coisas ainda não lhe começaram a correr mal, pelo contrário - as empregadas domésticas estão mais baratas, os rstaurantes também, as grandes superfícies baixam os preços, até a gasolina baixa, circula-se muito melhor de carro porque o povão já não tem dinheiro para andar a atrapalhar o transito, a worten faz saldos, etc, etc; mas se pensam que os "tubarões" vão descansar enquanto alguém tiver um tostão no bolso, estão muito enganados. O Ulrich já avisou que o pessoal ainda aguenta muita, mas muita mais austeridade. Claro que aguenta, ainda há imensa gente a ganhar mais do que o ordenado mínimo!!!!

Abraço

Jorge Silva disse...

No limite poderiamos até regressar à troca directa! É claro que numa sociedade complexa como a nossa isso não seria exequivel. Em boa parte concordo com o vbm, o problema seria sempre a taxa de cambio das transacoes com as sociedades fora do grupo. De qualquer modo nao tenho duvidas de que a Alemanha beneficiou mais do euro do que a generalidade dos paises da UE. O problema é político e terá que ser resolvido por essa via. Boa parte da dívida aos paises dos paises do sul da europa terá que ser perdoada. A alternativa é o fim do euro e o regresso as moedas nacionais.
Já agora, por que é que o petróleo é negociado em dolares? Esta pergunta também era capaz de dar um bom artigo.

vbm disse...

:) Está bem. Eu sei muito bem que em circuito fechado o dinheiro pode circular como uma simples convenção entre os seus membros. Ninguém nega isso e aliás, esso é o poder histórico dos príncipes e dos estados de cunhar e emitir moeda.

A troca só não funciona nas relações intergrupais onde o «dinheiro-mercadoria-em si-metal preicoso (i.e., metal 'com preço')» é moeda requerida para liquidação de saldos de transacções.

Mas, isso que os alemães fizeram, os gregos estão a praticar em pequenas comunidades e um país pode generalizar no seu território, não dispensa a solvabilidade da «moeda-mercadoria» nas transacções com o exterior.

E aí é que está o busílis limitador do sistema — para lá da perda de liberdade que um tal regime fechado impõe aos seus cidadãos, do que a proposta abstrai.

(Só agora vi na resposta ao Jorge Silva, que concordas com o travão que a taxa de câmbio representa. É esse o limite)

vbm disse...

Ah, desculpa, afinal não és tu que concordas com o limite da taxa de cãmbio, mas sim o Jorge Silva que o lembra. Eu peço desculpa, foi visto á pressa! :)

alf disse...

Jorge Silva

A criação de moeda que proponho não é para substituir o euro, mas para o complementar no mercado interno; por isso, a questão do câmbio não se põe, ela vale em euros

Ou seja, o governo em vez de cortar um subsídio passa um credito em euros no valor do subsídio, estás a ver? isso depois pode entregue em vez de parte dos impostos, portanto vale como dinheiro

Assim não há recessão

Isso dos petrodólares é um bom assunto para as pessoas perceberem estas coisas do dinheiro...

Paulo Monteiro disse...

Alf

Concordo com tudo o que dizes neste segundo post. É exactamente o que eu penso. Quanto ás alternativas...tenho visto muitas boas alternativas para solucionar problemas do país serem propostas por bons seres pensantes em blogs como este, mas isso não passam de boas intenções vindas de bem intencionados. O governo não está interessado em encontrar soluções. Este governo há-de ser conhecido no futuro como aquele que empobreceu e destruiu deliberadamente o país. E é só isso que eles estão lá a fazer, mais nada. E nisso eles são competentes. Se eles tivessem as tuas intenções, seriam tão ao mais competentes que tu porque inventividade não lhes falta. O que lhes falta são as boas intenções. Eles (plutocracia) estão de facto a fazer o que dizes, tentar acumular cada vez mais riqueza, mais poder, até que se distingam do resto como os senhores se distinguiam dos escravos. Mas para isso, faz parte do plano deles a perda da soberania das nações e a centralização do poder, como te disse no meu outro comentário. E os tais Estados Unidos Europeus de que falei não têm forçosamente de ser uma coisa boa, justa ou cheia de valores democráticos e ideiais de liberdade. Eu acho que isso foi o início. Foi uma forma de os países, não as elites políticas de cada país, morderem o isco. Ninguém quer evoluir para trás. Se estamos na Europa é porque as pessoas acharam e acham que é um projecto comum positivo. Em Portugal os GNR até lançaram uma música a pedir a adesão de Portugal. O processo tem de ser gradual. Mudanças muito rápidas levam á detecção colectiva da vilania a ser posta em prática como acontece com os ditadores. Primeiro a adesão dos países ao CEE. Depois de muita discussão pública a moeda única. Hoje, já ninguém quer ouvir sequer falar em sair do Euro. Deus me livre! Como se não houvesse vida antes disso. No entanto antes as discussões eram se se deveria aderir á CEE ou ao Euro, de tal forma que alguns países não aderiram ao Euro até aos dias de hoje e permaneceram com a sua moeda. É a ignorância sobre o que se passa actualmente que leva as pessoas a terem medo e a depositarem todas as decisões nas mãos dos políticos. Basta uma daquelas frases chavões (conservadoras e mentirosas) a la PSD/CDS-PP para que as pessoas se reduzam à sua insignificância. Mal sabem elas para onde eles as levam. Só que quando falamos em plutocracia, não nos podemos esquecer que estão incluídos nela, quanto mais não seja como aspirantes, grande parte da classe política. Um político não é mais do que um economista, um engenheiro, etc...e vão alternando os cargos públicos com os cargos privados. No fundo é uma seita, essa classe de marajás de que falas e vão todos trabalhando para esse objectivo comum de cada vez centralizar e aumentar cada vez mais o seu poder e riqueza. O político desregula, para o banqueiro poder especular, como resultado a economia sofre, e o político desfere ainda mais ataques às classe baixas (onde se inclui a média por muito que tenha dinheiro e se julgue acima dos outros e seja aspirante a outros vôos) para "salvar" a economia. No fundo estão a levar o barco comum a bom porto. Acumulam riqueza, empobrecem a mão-de-obra, acabam com direitos e por aí fora. Redesenhar o mapa político, as leis e direitos, não tem a ver com ideais políticos, com lutas políticas, nem tão pouco com evolução. É uma mudança apenas, e uma mudança manipulada e imposta por esses marajás. Tu percebes como funciona um banco central num sistema bancário. Em Itália condenou-se cientistas por não preverem um sismo. Em Portugal não se condenou o governador do Banco de Portugal por não prever o buraco do BPN. E o BCE promoveu-o a vice-presidente do BCE como sinal de agradecimento. E lá anda ele com as costas protegidas. Não houve incompetência nem tão pouco ingenuidade no caso do BPN. Assim como também não houve em 2008 no colapso da bolsa com as famosas agências de rating e com o governo Norte-Americano impregnado de gente ligada a Wall-Street. E quando pensamos que Mario Draghi pertencia à Goldman Sachs, tudo começa a fazer ainda mais sentido.

Jorge Silva disse...

"em vez de cortar ordenados e pensões, o Estado passa a pagar parte deles em vales, notas de crédito, certificados. Que o Estado aceita para o pagamento parcial de impostos e contribuições."
Isto parece-me uma soma de resultado nulo... Quanto muito uma medida proteccionista já que tais vales, notas de crédito ou certificados não serviriam para comprar BMW à Alemanha. É discutivel se medidas proteccionistas nos ajudariam a sair da crise. Em todo caso, nesta materia há regras europeias. Isto levaria a um braço de ferro entre Portugal e a UE que não se sabe como acabaria.

Paulo Monteiro disse...

Quando o homem rico defende é porque já está a caminho.
http://expresso.sapo.pt/multimilionario-sem-abrigo-surpreendido-com-a-passividade-dos-portugueses=f759690

Diogo disse...

Até que enfim, Alf! Até que enfim!

Ainda me estou a lembrar da minha sugestão de que você visse os documentários «The Money Masters» (já legendado em português e que na altura você considerou um delírio do Louçã), e «Money as Debt» (também já legendado em português).

UFO disse...

O que está a ser feito é um crime de traição à pátria.

alf disse...

Jorge Silva

Estás a esquecer-te do factor multiplicativo que o FMI diz ser de 1,3.

Cortar os ordenados em 10% significa causar uma recessão de 13% e correspondente quebra de receitas dos Estado e correspodente agravamento do déficit

pagar em créditos significa manter o dinheiro; como ele se aplica à actividade interna, vai melhorar a economia, causar ligeiro crescimento e aumentar as receitas do estado e diminuir o déficit duplamente (mais receitas e mais PIB)

Mas isso não chega, é preciso aumentar o dinheiro em circulação interna mais do que isso, por isso são precisas outras medidas de criação de dinheiro

Não há nenhum braço de ferro com a Europa; aliás, as regiões alemães fazem coisas desse tipo há muito tempo.

Todos os fornecedores europeus que contactei ao longo destes anos, e foram muitos, ficaram com os cabelos em pé ao verem que cá não havia proteccionismo nenhum ao contrário do que acontecia em toda a europa.

Um país mais fraco não pode ter economia aberta, isso é do b-a-ba da economia. Ninguém tem economia aberta a não ser Portugal e a Argentina antes da sua crise.

O tipo quer mais se indignou com a falta de proteccionismo cá foi exactamente um alemão que me disse textualmente que assim "iamos mandar o país ao fundo e arrastar connosco a Europa"

Portanto, como vês, não podias estar mais errado nesta matéria. Tu e a generalidade dos portugueses, e esse é um dos nossos problemas de fundo.

alf disse...

Jorge Silva

Eu disse que os países mais pequenos não podem ter economias abertas mas a verdade é que ninguém tem economias abertas. As economias dos grandes são fechadíssimas e servem-se normalmente das especificações técnicas para impossibilitar a entrada de produtos estrangeiros a não ser quando lhes convém - por exemplo, os alemães não têm uma indústria textil, por isso interessa-lhes que os países de fora da europa possam entrar livremente com os seus texteis.

Nunca te perguntaste porque é que nas corridas de automóveis americanas só há carros americanos???

A gestão dos países é uma coisa complicada com muita ciência por detrás; quem for ingénuo vai ao fundo.

alf disse...

Paulo Monteiro

Pois é, quem depende do mercado interno está a ficar aflito... esta guerra é doutros tubarões, que do mercado interno só querem a mão de obra barata...

alf disse...

Diogo

Até que enfim estamos de acordo!!

Mas... hehe... isto é só parte da história.. o próximo post vai surpreendê-lo... embora não altere nada do que digo aqui.

alf disse...

UFO

parece, não é? mas no próximo post vou chegar à conclusão que o que parece... não é!

Jorge Silva disse...

Alf,

Completamente de acordo que as grandes economias são fechadissimas. Por exemplo, neste momento trabalho no Brasil. Este é mais um exemplo de uma economia fechadissima.
Por isso é que nao entendo por que razao se aumenta o iva dos restaurantes ao inves de aumentar ainda mais a tributacao sobre bens importados, especialmente bens de luxo.

alf disse...

Jorge Silva

Pois claro, essa seria a solução óbvia, matava dois coelhos de uma cajadada - diminuía as importações e aumentava as receitas do Estado.

O problema é que aí é preciso obedecer a regras europeias. Não sei como são as regras, mas sei que se pode taxar mais o tabaco, por exemplo, mas não outras coisas. Um caso gritante é o dos têxteis, temos uma indústria têxtil que não podemos proteger porque os outros países europeus querem importar têxteis baratinhos da China; já os chineses escusam de pensar em exportar automóveis para a Europa porque os alemães hão-de inventar sempre uma especificação que vai impedir carros chineses de cá entrar.

Há várias técnicas que os outros países usam para combater as importações que não lhes interessam. Os governos têm muita força e sabem como pressionar os grande importadores. E têm instrumentos à sua disposição, como a ASAE, que cá andou vários anos a perseguir os produtores nacionais em vez dos produtos importados. Para não falarmos no facto se dar um incentivo à compra de carro novo... uma medida criada pelos alemãs para apoiar a sua indústria... teve de vir o Sócrates para acabar com isso.

Se está no Brasil sabe bem a importância que tem ter a balança externa equilibrada, uma consciência que as pessoas de cá não têm tido.

Portugal pré-sócrates foi um pais com uma burguesia ignorante de tudo o que tem a ver com economia das nações e com governantes igualmente ignorantes.

Quando aderimos ao Euro, a Europa concedeu-nos isenção da obrigação de abrir concursos internacionais para aquisições acima de determinado montante durante já não sei quantos anos, a fim de desenvolvermos uma indústria competitiva nessas áreas. Pois sabe o que o ilustre governo português decidiu, pelo menos na minha área (electrónica e telecomunicações)? Rejeitar essa derrogação!!

O Estado português foi o carrasco de inúmeros esforços industriais. Apoiado numa burguesia dependente do Estado e com raiva a tudo o que fosse empresário nacional. Isso só acabou, e parcialmente, com o Sócrates.

A minha esperança é que a geração atual seja muito mais esclarecida do que a minha; é de certeza.

Carlos disse...

Caro alf
“Pois claro, essa seria a solução óbvia, matava dois coelhos de uma cajadada - diminuía as importações e aumentava as receitas do Estado.”

Não seriam antes 3 coelhos? O terceiro é que provavelmente se fosse um produto com boa procura alguém havia de aparecer para o produzir por cá. Criava postos de trabalho, diminuindo as despesas do estado e claro, aumentava as receitas do mesmo cobrando mais impostos.

Até 1994, se não me engano, o ouro, as motas com mais de 125cc e os carros topo de gama pagavam 30% de IVA.

Quanto às suas louvas a Sócrates... que ser um pouco mais específico?...

Carlos disse...

Caro alf
Se me permitir vou aconselhar a um economista, que também tem um blog, que venha ler o seu... pode ser?

alf disse...

Carlos

Pois, é verdade; mesmo que se trate de um produto que não pudéssemos produzir, isso limitaria a sua importação. Veja-se, por exemplo, o caso dos automóveis: na Dinamarca são caros porque eles não os produzem, por isso as pessoas nem compram topos de gama nem os mudam de 4 em 4 anos. Um carro com 4 anos está completamente novo.

Cá, ao contrário, dava-se um incentivo à compra de carro novo, para além incentivo fiscal da sua amortização em 4 anos. Essa medida do incentivo foi, tanto quanto sei, inventada pelos alemães para promover a sua indústria automóvel. E nós copiamos uma medida inventada pelos outros para defender os interesses deles!!!!!

pode-se ser mais estúpido???

Quanto ao Sócrates, foi o tipo que acabou com esta medida; todos os que o antecederam criaram medidas desse tipo.

O Sócrates acabou com as pensóes vitalícias do BP, dos deputados, impõs limites aos autarcas; antes dele nunca ninguém tinha cortado privilégios, que me lembra, nem se se sabia que isso era possível!

A administração pública antes do sócrates era das piores do mundo; depois passou a ser das melhores em muitos sectores

O Sócrates pôs a avaliação a funcionar na função pública, bem ou mal, até nos professores! se hoje se fala em os juizes serem avaliados, é porque ele deixou essa porta aberta. Sem isso, a nossa justiça nunca passará do "ranço bolorento" como é conhecida no Brasil.

Mas o que mais me impressionou nem foi nada disso. Eu sou engenheiro e pugnei toda a vida para que as coisas se fizessem em Portugal; e de toda a parte recebi apoios e empenho - excepto do Estado e seus funcionários, que sempre boicotaram tudo o que tivesse a ver com indústria nacional a todos os níveis. As empresas nacionais eram miseravelmente preteridas nos concursos, as verbas do Pedip eram acintosa e despudoradamente entregues às empresas estrangeiras.

o Sócrates teve a coragem de combater isso e essa foi uma das razões porque o perseguiram tanto.

Mas fez muito mais; porque é que pensa que este governo não consegue cortar nas "gorduras do Estado"? porque o governo do Sócrates já cortou a maior parte delas. Sem alarido.

criou ainda a mobilidade para os funcionários públicos, que este governo vai agora aproveitar; e criou um processo de reformas antecipadas que garante a indefinida sustentabilidade da SS e dá resposta ao facto de as pessoas com mais de 50 anos irem ficar quase todas desempregadas - enquanto o aumento da idade da reforma é um absurdo que vai gerar um drama social catastrófico.

Além disso, pôs as criancinhas da escola a aprender inglês e a mexer nos computadores; algo que os jovens que agora têm de emigrar, como um sobrinho meu, bem valorizam por os seus filhos terem resultados espetaculares nas escolas de inglaterra, por exemplo.

Até hoje, tivemos algum PM que fizesse alguma coisa que chegasse aos calcanhares do que fez o Sócrates?

Claro que há certamente muita coisa que não terá corrido bem - por exemplo, a estúpida forma de avaliação dos professores; mas ninguém é perfeito

Mesmo na história dos investimentos ditos excessivos, é preciso não esquecer que essa foi a recomendação europeia para combater a crise a financeira; e que antes dela, ele fez baixar consideravelmente o déficit.

Eu acho que faria melhor do que os PM que o antecederam e faria pior do que ele; sendo assim, só tenho de lhe tirar o chapéu.

alf disse...

Carlos

Toda a gente pode ler o meu blogue e eu agradeço todos os comentários, são eles a minha principal fonte de inspiração. Como o Carlos, eu ando apenas à procura de entender esta situação e saber o que fazer, como posso colaborar. Acredito que se cada um de nós agitar os seus neurónios, as soluções hão-de aparecer. Se tiver um economista a comentar, ótimo, eu só tenho experiência de terreno.
Abraço

vbm disse...

alf,

Concordo com a apreciação dos aspectos positivos do governo Sócrates, que os teve efectivamente durante os primeiros três anos, e a maioria depositou nele a esperança de as coisas se modificarem finalmente.

É pena que, depois, haja tergiversado e, concordo, foi enganado pela política de pânico anti-crise da União Europeia, se bem que, alarvemente, a aproveitou para tentar ganhar as eleições aumentando os salários dos funcionários do Estado.

De resto, os deploráveis e desastrosos governantes actuais seguem-lhe as pisadas, aumentando de imediato as receitas das autarquias - IMI's - e não ousando extinguir a centena possível de municípios redundantes!