terça-feira, março 26, 2013
Economia, Egoísmo, Altruísmo e Darwin (2/2)
Para desenharmos
a sociedade humana precisamos de saber qual é o objetivo a atingir. E não há
muitas dúvidas a esse respeito: o objetivo é a Evolução da sociedade.
O problema é
saber como se faz a sociedade evoluir. A História mostra que temos andado em
altos e baixos, civilizações que avançam e recuam. A construcão da sociedade
humana não é algo que decorra naturalmente das nossas características e
instintos, pois se temos características que a favorecem, temos outras que
podem conflituar com ela.
Uma das nossas
características que gera mais problemas é o Egoísmo de curto prazo; a nível das
relações pessoais e de vizinhança, somos capazes de lidar com ele porque
rapidamente aprendemos que ele nos é prejudicial, mas para sociedades grandes,
onde as pessoas não se conhecem, foi preciso inventar a Religião de Estado, que
pôde estabelecer comportamentos em prol da sociedade usando um chicote, o medo
de um Deus colérico, e uma cenoura, a promessa de um paraíso eterno.
Esta solução tem
uma limitação: só funciona enquanto as pessoas acreditarem na existência de um
Deus castigador.
As elites antigas
sabem que esta solução lhes é vantajosa, porque a Igreja prega a obediência, a
pobreza e a subserviência. As elites antigas, representadas pelos partidos da
direita, defendem esta solução para combater o destruidor egoísmo e para
manterem os seus privilégios, atribuídos à divina preferência.
Porém, a
diminuição da influência da Igreja abriu a necessidade de arranjar um novo
suporte para o direito a privilégios dos mais ricos: já que esse direito não
podia ser de origem divina, precisaram de outra origem; e foram buscá-la à
teoria de Darwin; este constatou, da sua observação da natureza, que:
“It is not the strongest of the species that survive, nor the
most intelligent, but the one most responsive to change.”
Isto foi resumido
à ideia da “sobrevivência do mais apto”, uma frase que, contrariamente ao que
quase toda a gente pensa não é de Darwin mas do filósofo Herbert Spencer, e que
contrariamente ao que toda a gente diz não traduz a ideia de Darwin; a partir
desta frase passou-se à conclusão de que os mais bem sucedidos, ou seja, mais
ricos, eram os mais aptos, logo os escolhidos pela natureza, o futuro da espécie,
aqueles a que se deveria dar todo o apoio, conceder todos os direitos porque
seriam eles o motor da evolução. Os outros têm apenas os direitos que os mais
ricos, na sua sabedoria, lhes concedem e enquanto lhes concedem.
Esta ideia casou
muito bem com a ideia anterior de Adam Smith de que "se cada indivíduo
prosseguir o interesse próprio, frequentemente promove o interesse da sociedade
de maneira mais eficiente do que se efectivamente tencionasse promovê-lo". Isto
é verdade mas está longe de ser o equivalente a dizer que se cada um agir em
função do seu interesse imediato, todos beneficiam, que é a forma com que essa
afirmação é usualmente apresentada. Ou seja, tanto a ideia de Adam Smith como a
de Darwin foram desvirtuadas para servir os interesses dos ricos. A de Adam
Smith defende o direito de cada um, ou seja, toda a gente e não apenas os
ricos, a prosseguir os seus interesses, contrariamente à ideia anterior
veiculada pelas elites e pela Igreja. Como os ricos têm mais capacidade de
promover os seus interesses do que os pobres, esta ideia sem mecanismos que
garantam aos pobres capacidade competitiva resulta em puro benefício dos ricos.
O resultado
prático destas ideias foi o foco na atividade produtiva como motor da economia,
assente na exploração dos empregados, o que conduziu à grande depressão. A
solução para sair dela veio pela mão de Keynes e de outras pessoas que
aplicaram o seu tipo de ideias, como o Ford. Keynes inverteu o motor da
economia, que passou a ser o consumo. Segundo Keynes, o dinheiro dos pobres
gerava procura e a procura é que fomentava a produção. O dinheiro posto no
bolso dos pobres tinha um factor multiplicativo da economia e por isso a
economia devia ser desenhada para que a riqueza produzida circulasse de volta
para os consumidores. As sociedades por acções, pagantes de dividendos, eram
uma forma de o conseguir. As diversas medidas postas em prática para realizar
as ideias de Keynes geraram o enorme boom de desenvolvimento ocidental que
serviram para estabelecer a ideia de que o capitalismo era o melhor sistema
possível.
No entanto, as
desvirtuadas ideias de Darwin e Adam Smith estavam mesmo ali à mão para
suportar todas as ganâncias, (a ganância chegou a ser considerada uma
qualidade) e as ideias racistas e as teorias de que os mais ricos são o escol
da humanidade e os restantes os falhados da evolução cuja sobrevivência apenas
acontece na medida das conveniências dos mais ricos e até por caridade destes.
Isto não é
falado, mas muita gente, essencialmente mulheres, foi esterilizada contra
vontade ao longo do século XX nos nossos “civilizados” países. A eugenia, uma
prática logicamente decorrente destas ideias, foi institucionalizada em todos
ou quase todos os países onde a revolução industrial fez surgir as novas
elites. Na Suécia apenas foi abolida em 1976!!! Já depois do nosso 25 de
Abril...
Os mecanismos
postos em prática para implementação das ideias de Keynes foram sendo
sucessivamente destruídos, dando o poder absoluto aos ricos. Os lucros das
empresas passaram a ficar no bolso dos grandes accionistas, nomeadamente
através dos ordenados dos administradores, os dividendos passaram a ser
simbólicos, a bolsa tornou-se um casino, a especulação financeira ficou
descontrolada, as leis antimonopólio postas de lado. A Globalização veio ajudar
ao desmantelar da estrutura Keynesiana, que ficou reduzida ao esquema de
proteções sociais, que impediam o excessivo empobrecimento das pessoas. O
objectivo atual é acabar com ele, deixando toda a gente na completa dependência
dos ricos; isso tornou-se fácil porque os ricos não pagam impostos e assim o
estado social tem de ser sustentado pelos ordenados dos empregados e pequenos
empresários e estes não ganham o suficiente para tal. Já está estabelecido no
ocidente que os direitos dos ricos não podem ser beliscados, os outros não têm
direitos, apenas a ilusão que os ricos lhes consentem. As Constituições são
torneadas com o argumento das necessidades especiais da situação.
Os economistas
“mainstream” trabalham para os ricos; assim, a habilidade que lhes interessa,
aquilo que as escolas de economia ensinam, é como enriquecer os ricos. A sua
especialidade é inventar processos de retirar dinheiro às pessoas para dar aos
ricos. As consultoras quase só tratam de despedimentos e redução de ordenados,
os financeiros inventam esquemas de extorsão. Linhas telefónicas de valor
acrescentado cujo único objetivo é vigarizar as pessoas são legais e quem é
enganado não tem recurso. Um bom gerente de conta, pelo menos para alguns
bancos, é alguém que seja um bom vigarista; é por isso que de vez em quando há
fraudes bancárias, as pessoas que eles contratam para vigarizarem os clientes
às vezes não resistem a vigarizar para além do previsto
Nas escolas de
hoje, no ocidente, o que se ensina às criancinhas é o direito dos mais ricos a
terem direitos. É fácil encontrar livros para crianças que sob a capa de
tratarem da evolução das espécies mais não fazem do que a apologia do direito
dos mais ricos. É a nova Religião, agora sob a capa da Ciência. Os construtores
de “religiões” optam agora pela Ciência em vez da Divindade, pois a Ciência
tornou-se mais credível.
Este descalabro
não acontece contra a vontade das pessoas; na verdade, a classe média
portuguesa é grande responsável por isto, achando que o bom é um sistema em que
cada um trate de si e os outros que se cuidem. Se alguns professores levassem um
pouco mais a sério a sua profissão, não havia 40% de abandono escolar; mas a
verdade é que para a classe média isso não é visto como um “mal” mas como um
“bem” porque aumenta as possibilidades de sucesso dos seus filhos. Ou pensam
que há alguma dificuldade em acabar com o abandono escolar? A única dificuldade
são os interesses da classe média. O mesmo se pode dizer de quase qualquer
profissão, onde gente suficiente não está nada interessada em contribuir para o
bem colectivo mas em tratar da sua vidinha. Por outro lado, se as pessoas não
comprassem tantos carros novos e tão caros, a nossa balança externa estaria
muito melhor. Se não comprassem tantas roupas e sapatos importados, a nossa
indústria estaria muito melhor. Se não comprassem tantos produtos alimentares
importados, o Pingo Doce e o Continente teriam de ter uma política diferente em
relação aos produtores nacionais. São estas coisas que fazem da Dinamarca um
país onde não há descartados nem crise. É a classe média que dá o poder aos
ricos porque adopta como comportamento o egoísmo de curto prazo convencida que
isso a favorece mas a prazo quem ganha são os ricos. E agora algo relevante:
não é a classe média toda; na verdade, é apenas uma minoria, 10% a 15% dela. No
entanto, perante a complacência dos restantes, esta minoria é suficiente para
gerar este descalabro.
Noutras partes do
mundo nada disto se passa, não porque as pessoas sejam melhores ou mais sábias
mas porque os governantes estão obrigados a desenvolver a sociedade toda para
ela poder sobreviver no contexto global. O indicador que interessa, que pode
ser tomado como objetivo sobre o qual se pode actuar directamente, ao contrário
do PIB, é o nível de vida dos mais pobres. Esse é o “rato que tem de ser caçado
e não interessa se o gato é branco ou preto”. Ou seja, não interessa se se
aplica as ideias de Adam Smith ou Keynes ou seja o for, o que interessa é a
chegar a resultados. Foi assim que os chineses começaram o seu desenvolvimento.
Mas nem foram os primeiros a perceber isso: antes deles já os nórdicos
(Dinamarca, Suécia, e Finlândia) o tinham percebido e adoptado como orientação
“não deixamos ninguém na valeta”. Isto não significa caridadezinha, significa
que a todas as pessoas são dados máximos conhecimentos para serem úteis à
sociedade, protecção para não serem explorados e condições para serem
competitivos. Nomeadamente, significa um grande investimento na educação, o
abandono escolar é coisa impensável, controlo da actividade financeira para
garantir adequadas condições de competitividade de toda a gente e controlo da
balança externa
Há regras que
mudam tudo; uma é que o investimento estrangeiro só é autorizado se for um
investimento que possa gerar desenvolvimento. Investimentos apenas para
aproveitar vantagens comparativas, daqueles que se limitam a pagar uns
ordenadozitos, que é o tipo de investimento estrangeiro que cá se faz, não são
autorizados. Para conseguir isso, uma regra é a necessidade de ter um sócio
nacional, tipicamente 50% de comparticipação nacional. O sócio pode ser uma
empresa do Estado. Esta regra já é seguida em praticamente todo o mundo (exceto
aqui). Esta regra garante que pelo menos metade dos lucros fica no país e que a
actividade interessa ao país, vai gerar desenvolvimento e subida do nível de
vida dos mais pobres. (claro que surge logo o negócio de cobrar uma taxa para
se fingir que é sócio, mas o balanço final do sistema é positivo para o país e
é por isso que ele se tornou quase universal).
Outra regra é a
de que os lucros gerados no país têm de pagar impostos no país, exceto no que
for reinvestido no país. Isto de os lucros irem direitinhos para offshores e
não pagarem impostos não acontece nem nos EUA. Já ninguém pensa em ter uma
empresa em Portugal que não tenha sede na Holanda. De que nos serve a Jerónimo
Martins? Parece que não contribui em nada para a produção nacional mas, pelo
contrário, esmaga-a, e os seus lucros vão para a Holanda. A sua contribuição
para as balanças externas será negativa, ou seja, contribui para o nosso
empobrecimento.
Para acabar com
os “descartados” bastará um investimento da ordem dos 5% do PIB. Não há
dinheiro para isso, diz-se na europa do euro, mas deixa-se muito mais do que
isso ser transferido para offshores.
Estive na China
há dois anos; uma das inúmeras coisas que me surpreenderam foi a vaidade que
eles tinham nos indicadores que para nós “são um problema”, nomeadamente o
número de centenários – já estavam em segundo no ranking mundial, diziam com
orgulho; a qualidade de vida dos velhos é uma preocupação constante e em todo o
lado se viam os jardins cheios deles, aulas de ginástica e dança para velhos
gratuitas por todo o lado. Aprendi muito sobre economia na China, é fantástico
as soluções que se encontram para levar ao desenvolvimento de toda uma
sociedade quando se deixa de funcionar por “teorias” e se passa a resolver
os problemas um a um.
Recentemente, o
FMI fez uma descoberta fantástica: a austeridade tem um factor recessivo maior
do que 1! Espanto dos espantos. Os nossos brilhantes economistas, do ministro
aos comentadores dos media não cabiam em si de espanto. “Uma coisa dos países
do Sul”, disseram alguns. Então estes economistas não sabem que isso é a base
de toda a teoria de Keynes? Isso é que é verdadeiramente espantoso. O FMI e
estes economistas que nos (des)governam não sabem o B-A-BA da teoria económica!!
Como diz um dos
meus leitores, os economistas de hoje são como os padres de antigamente,
convencem os pobres de que lhes cabe ser pobres, até é uma sorte terem o pouco
que têm, e que os ricos são intocáveis. Não é isso que eles dizem cada vez que
abrem a boca? A verdadeira economia paralela é a dos ricos, pois não pagam
impostos, com uma agravante: enquanto a economia paralela dos pobres alimenta o
consumo e este a economia, a dos ricos não, os seus ganhos simplesmente se
amontoam na banca, alimentam a economia dos artigos de luxo, que é a sua
economia privada, e empobrecem a economia que serve todas as outras pessoas.
Quanto aos investimentos dos ricos, eles destinam-se essencialmente a diminuir
postos de trabalhos, directamente ou pela realização de “sinergias” através da
compra de empresas, e a eliminar concorrência.
Assim, enquanto
algumas partes do mundo já estão para além do Keynes, na Europa do Euro estamos
anteriores ao Adam Smith; a consequência fatal é que vai haver um enorme
estouro, não vale a pena ter ilusões. Não pensem que a Alemanha está a ser
“injusta” ou “exploradora”; penso é que a Alemanha está aflita, o seu sistema
bancário deve estar um caos, apenas a ilusão de que ela está bem permite
esconder o cancro que a corrói. Mas não se pode enganar toda a gente durante
todo o tempo, e penso que em breve a Alemanha entrará em recessão e aí não
haverá troika nem FMI nem fundos europeus que aguentem o desastre. Isto porque
na Alemanha, tal como aqui, o dinheiro vai para offshores e os ordenados são
miseráveis; ganham mais do que nós? Pois ganham, mas raramente há dois empregos
numa família e os seus custos de sobrevivência são muito mais altos. Ou seja, o
poder de consumo é baixo e está a baixar, com a importação de empregados
doutros lados, como Portugal. Os empresários baixam os custos mas aniquilam o
mercado interno; e este é que domina a economia, embora não pareça pela
conversa dos economistas e políticos. Na Alemanha, os 50% mais pobres recebem
1% da riqueza, segundo o Soromenho-Marques (Visão); ou seja, já metade da população foi
“descartada”.
Os comportamentos
de egoísmo de curto prazo exacerbam-se quando no horizonte não há esperança de
crescimento. É por isso que a Europa vai fechar-se nos egoísmos e afundar-se
com fragor, porque esse é o caminho oposto ao da salvação.
Uma das razões
porque este bicentenário do Darwin foi tão badalado é porque era uma
oportunidade de agitar a bandeira do “cada um por si”, tão conveniente aos
ricos, certificando pela Ciência que eles têm mais direitos que os outros,
outorgados pela Mãe Natureza.
sexta-feira, março 15, 2013
Economia, Egoísmo, Altruísmo e Darwin (1/2)
(onde se
apresenta o verdadeiro retrato do que nos espera; e se mostra que, afinal, o
Passos Coelho sabe mais do que dizem)
Este desvio da
conversa com o Hans do campo da economia para o da evolução das espécies,
apresentado nos textos anteriores, e que vai continuar, parece despropositado;
mas não é, e pareceu-me importante explicar porquê.
Contrariamente ao
que constantemente se afirma, a macroeconomia é perfeitamente previsível, não
tem nada de misterioso, de esotérico; não são precisas complexas teorias para a entender. Tudo o que acontece em
macroeconomia serve directamente os interesses de quem tem o poder de a
comandar, pelo que basta entender que interesses são esses.
Esta “crise” não
tem a ver com “produtos tóxicos”, com despesismos de Estado e outras
barbaridades que para aí se dizem. Isso só acelerou a chegada a esta situação,
que é o resultado necessário, fatal, previsível e previsto de uma sociedade
organizada na base do Egoísmo.
Nós agimos sempre
em função do nosso interesse, estamos programados para isso; porém, podemos
considerar o nosso interesse imediato, de curto prazo, ou o interesse de médio
ou longo prazo. Acontece que o nosso interesse a médio ou longo prazo implica
agirmos no interesse dos outros a curto prazo. A análise desta questão é
antiga, é estudada sob muitas formas; uma bem conhecida é o “dilema do
prisioneiro”. Mas podemos perceber que assim seja, porque ao agirmos em favor
da sociedade, ao sermos úteis a ela, passamos a ter valor para ela. Assim, agir
em favor do nosso interesse a médio ou longo prazo é agir em favor dos outros a
curto prazo; a isto chama-se “altruísmo”. Agir em favor do nosso interesse a
curto prazo é “egoísmo”.
O “altruísmo” é a
solução “subtil” para conseguirmos o melhor para nós, enquanto o “egoísmo” é a
solução “simplória”, logo errada. É como o jogador de xadrez que só analisa uma
jogada ou o que perspectiva duas ou três... qual é que ganha o jogo?
O egoísmo é
vantajoso no curto prazo, mas leva ao desastre no longo prazo. O altruísmo é
vantajoso a prazo mas tem uma fragilidade: é preciso que todos sejam
altruístas. Ora a vantagem de curto prazo que se obtém pelo Egoísmo é um aliciante
poderoso e isso torna muito difícil conseguir uma sociedade em que todas as pessoas
ajam de modo altruísta, que é o modo que melhor beneficia a sociedade e cada um.
A nossa sociedade
ocidental está estabelecida na lógica do Egoísmo. Querem ver como é fácil
perceber como evolui uma democracia sob a lógica do Egoísmo?
Gerir uma
democracia é satisfazer a maioria dos votantes; os votantes são cerca de 2/3 das
pessoas. Então, se se “descartar” 1/3 da população, maximiza-se o benefício da
restante população e isto assegura o poder democrático porque sendo 1/3 da
população metade dos votantes, ela é o máximo que se pode “descartar” sem pôr
em risco a vitória eleitoral, assegurada pela satisfação dos restantes 2/3
conseguida à custa do 1/3 descartado.
“Descartar”
significa reduzir os rendimentos e direitos ao mínimo, em benefício dos outros.
Certamente que já ouviram falar nesta coisa de 1/3 serem descartáveis; aqui
está a razão: enriquece-se uns em detrimento de outros porque é quem serve este
objectivo que ganha eleições.
A estabilidade da
classe média resulta do bem-estar que esta sente por se sentir acima do 1/3 de
descartáveis, da qualidade de vida que obtém dessa mão-de-obra quase escrava,
da qualidade de vida que o desenvolvimento tecnológico proporciona e da ilusão
de que qualquer um dentro da classe pode tornar-se rico. É uma ilusão
grosseira, é muito mais provável ganhar o euromilhões do que entrar para o
clube dos ricos. Ou seja, a classe média fica estável mesmo sem aumentar o seu
rendimento, deixando para os ricos o acréscimo de riqueza resultante do
crescimento do PIB.
Portanto, numa
democracia “egoísta” que parte do zero, todos iguais, há uma primeira fase em
que há equilíbrio e essa é uma fase de crescimento; mas como os mais ricos,
mesmo que por pouco, têm mais poder e mais capacidade de enriquecer, o
crescimento da desigualdade é acelerado, gerando-se então o tal 1/3 de
descartáveis, que é onde a classe média vai buscar o seu enriquecimento. O
crescimento do PIB é quase integralmente absorvido pelos ricos que, por o
serem, têm mais capacidade de enriquecimento.
Ou seja, a
sociedade estrutura-se naturalmente numa classe média de rendimentos
tendencialmente constantes de geração para geração, numa classe de descartáveis
com 1/3 da população e numa classe de rendimentos crescentes, ao contrário
dessas duas – a classe dos ricos.
O crescimento
acelerado da riqueza dos ricos acaba por ultrapassar o aumento de PIB (o qual
decresce com o crescimento da desigualdade); a partir deste ponto, o resto da
sociedade tem de empobrecer para os ricos manterem o seu enriquecimento. Vou
designar este ponto por “ponto de empobrecimento”. (já mostrei isto com
“continhas” neste post de há 5 anos)
Numa democracia,
este seria um ponto de inversão porque se o número de descartados ultrapassar
significativamente 1/3 ou se a classe média empobrecer, as eleições serão
ganhas por quem prometer que vai mudar o sistema económico. Como aconteceu
agora em Itália.
Além disso, a
economia depende do consumo; o empobrecimento da maioria da população leva à
diminuição do consumo e este à recessão. A recessão não impede os ricos de
continuarem a enriquecer a curto prazo, e isso é quanto basta numa sociedade
egoísta; o que trava os ricos é a consciência de que este empobrecimento pode
levar a uma mudança do poder político.
Porque é bem
sabido que é assim, as contra-medidas também foram desenvolvidas; uma delas,
essencial, é a redistribuição de riqueza através dos impostos; ora acontece que
os ricos encontraram maneira de deixarem de ser colectados. Os ricos não pagam
impostos, o seu dinheiro circula pelos offshores. Além de isto representar uma vantagem competitiva importante em
relação a potenciais emergentes, a base tributária do Estado sofreu um corte de
cerca de metade do PIB, que é o dinheiro dos ricos; e que cresce à medida que os ricos enriquecem. Sem
contra-medidas, a partir do ponto de empobrecimento, devido à recessão e ao
aumento da riqueza subtraída ao fisco pelos ricos, a base tributária diminuirá mais de 5%
ao ano. No primeiro ano, cortes na despesa e aumento de impostos podem
compensar mas depois isso torna-se impossível, o deficit da despesa pública
fica incontrolável. É por saber isso que o PM decidiu ser mais troikista do que
a troika: tentou equilibrar as contas públicas logo no primeiro ano, antes que
o descalabro começasse, para adquirir algum poder negocial. Não o fez por ser
ignorante, fê-lo por saber bem o quadro em que nos encontramos.
Nos EUA, o ponto
de empobrecimento foi atingido no fim do séc. XX. É por isso que o Obama disse
claramente que “é preciso redistribuir a riqueza”. E é por isso que taxou os ricos
(ligeiramente).
Na Europa do Euro
acontece uma novidade: a Europa é comandada por quem comanda a Alemanha! Então,
basta ganhar eleições na Alemanha para manter o poder político na Europa. Ou
seja, os descartáveis podem ser toda a gente menos a classe média alemã!
Fantástico!
Os ricos baseados
na Europa e nos EUA podem continuar a enriquecer à custa das classes médias
europeias.
Portanto, o que
está em curso é o empobrecimento de toda a gente menos a classe média alemã. O
Passos Coelho foi muito claro: é preciso empobrecer os portugueses. E é isso
que está a ser feito, e não há erro nem desvio nos cálculos da troika. Os
valores que apontam para crescimentos de PIB, retoma, etc, servem apenas para
ir levando as pessoas na ilusão; o único valor que lhes interessa é quanto é
que os portugueses empobreceram.
A classe média
portuguesa passou a fazer parte dos “descartáveis” europeus. Vai ser reduzida
às mesmas condições que têm os descartáveis à escala nacional. O ordenado
mínimo vai ser o seu futuro ordenado (por vontade dos alemães, ou da troika, o
ordenado mínimo seria extinto); a pensão de sobrevivência a sua futura pensão;
o desemprego a sua situação mais provável a partir dos 45 anos. Passou a ser
“descartável”. Os alemães andam por aí a pescar uns engenheiros como quem
vasculha o lixo. O que sobrar vai ser lixo puro. É por isso que o nosso PM bem
aconselhou: emigrem! E também disse: “que se lixem as eleições”; é que se este
processo continuar, quando chegar a altura das eleições teremos é o país governado
directamente por uma qualquer troika; o objetivo do PM é que consigamos chegar
até às eleições, isso já seria uma vitória; por isso, alguém estar preocupado
em ganhar umas eleições que corremos o risco de nem sequer existirem é estar a
leste da situação. As pessoas parece terem cortinas nos olhos e tampões nos
ouvidos, nem ouviram o Draghi dizer “ Muitos governos ainda não perceberam que
perderam a sua soberania nacional há muito tempo”. Ou seja, quem manda é ele e
a Merkel, e é por isso que os nossos governantes lhe curvam a cerviz e beijam a
mão.
Quando o PM fala
verdade, as pessoas insultam-no; então ele diz o que as pessoas querem ouvir;
aí chamam-lhe mentiroso. Não está na mão dele alterar o destino traçado para
nós – a Europa do Euro é toda ela uma sociedade do egoísmo, onde os ricos
tomaram conta do poder através do BCE. Ele, não sendo um revolucionário, pouco
pode fazer, a não ser caldeirar as privatizações e chatear os ricos através do
MP. Porém, ao contrário de muitos comentadores, e do que se diz dele, o PM compreende muito bem a situação.
Vêem como é fácil
perceber estas coisas?
A classe média
está muito habituada a que tudo seja gerido em função dos seus interesses
imediatos; é por isso que há tanta pobreza, tantos descartáveis. Os 40% de
abandono escolar nunca incomodaram a classe média, pelo contrário. Para a
classe média, medidas para combater a desigualdade sempre foram encaradas como
“irem-lhe ao bolso”. As pessoas com contratos de trabalho cheios de direitos
sempre se estiveram nas tintas para o facto de as leis laborais implicarem que
quem não tenha contrato fique condenado a ser precário toda a vida. Os ativos
agora acham que estão a sustentar os reformados e estão disponíveis para
destruir o sistema da segurança social porque no momento isso lhes parece
vantajoso para eles. A SS não tem lugar numa sociedade Egoísta. Os ricos não
são pessoas diferentes das da classe média; trataram de agarrar o poder,
tiraram o Banco Central da dependência do poder político, controlado pela
classe média, e agora gerem em função dos seus interesses.
Poder-se-ia
pensar; ah, então há que mudar este estado de coisas, retirar o poder económico
aos ricos, devolvê-lo à classe média! Isso pode ser feito mas:
Com o poder nas
mãos, a classe média faz aquilo que os ricos estão a fazer: procura sugar para
si toda a riqueza. Penaliza a iniciativa, estagna a sociedade, explora os
“descartados”. Além disso, para inverter as coisas precisaria do apoio dos
“descartados”; só que para estes tanto lhes faz o poder ser da classe média ou
dos ricos – até preferem que seja dos ricos, que são dados à caridade...
O problema não
está na economia, nem está em quem a comanda; está no facto da sociedade ser
gerida pelo Egoísmo, que é a solução simplória para a busca do interesse individual.
Portanto, estar a
discutir economia é muito importante para a classe média perceber como pode
readquirir o poder mas não resolve o problema de fundo; é a base ideológica da
sociedade que interessa discutir. Sociedades construídas na base do Egoísmo vão
de crise em crise.
Isto é sabido há
muito, há milénios. Vamos enquadrar esta questão e perceber porque é que é a
teoria da evolução das espécies é a pedra angular da situação atual.
(conclui no próximo)
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quinta-feira, março 07, 2013
A Importância da "Caixa Negra"
(continuado)
(aqui se fala do
que é o Bem e o Mal, do nível 2 de Inteligência e da importância de aprender
com os erros)
Caixa negra do avião que caiu ao largo do Brasil; a sua recuperação era essencial para análise do erro, que é essencial ao processo de Inteligência que promove a Evolução em tecnologia.
- Ena, que
ambicioso... terminar o reinado de ideias que minam a sociedade... substituir
pelas ideias que geram a evolução... livra!!!
- Na verdade, não
estou a inventar nada, como verás; mas é interessante o que tenho para dizer
porque cheguei à conclusão de que aquilo que definimos como o “Bem” será afinal
essencial ao processo evolutivo e é exatamente por isso que é o “Bem”. A
Evolução é o comportamento dominante do Universo, o Universo tem pressa de
evoluir, e tudo o que se lhe opõe surge como um Mal e tudo o que a favorece
como um Bem.
O Hans deu um
solavanco na cadeira. Entre o espanto e a descrença exclamou: - O “Bem” é
aquilo que serve a Evolução? É essa a razão de classificarmos uma acção como
boa ou má? Encontraste uma razão objetiva para o Bem e para o Mal? Tens de me
explicar isso muito devagarinho... – concluiu, com ar cético.
-Já vais
perceber. Como estarás de acordo, Evolução exige Inteligência e entender a
Evolução implica entender os processos de Inteligência; este é o busílis de
toda a questão, encontrar um processo de Inteligência natural que seja capaz de
gerar a Evolução até ao Humano e mais além.
- “Encontrar um
processo de Inteligência natural que seja capaz de gerar a Evolução...”
interessante maneira de colocar a questão da Evolução... embora ainda me faça
alguma confusão o teu conceito de Inteligência como um processo natural...
- Pois... é um
passo que tens de dar... essencial! Vê os meus posts mais antigos sobre "Inteligência", talvez ajude.
- Ok ok, mas
continua; que processo de Inteligência natural é esse?
- Já conheces o processo H+S, que eu chamaria
um processo de nível 1; já mostrei que esse processo só funciona em situações
especiais, que é o melhor processo para gerar a Vida mas que qualquer análise
racional conclui fatalmente que não pode explicar a evolução dos animais,
pensar que sim é uma mera crença. Nota que isso não questiona a evolução da
Vida; significa que o processo de Inteligência responsável por ela é mais
sofisticado que o H+S, apenas isso. Precisamos de descobrir esse processo.
- Bem, até posso
concordar contigo; se existir um processo natural mais sofisticado, será ele o
responsável pela evolução... mas que processo é esse?
- Olha, nem
precisamos de procurar longe, está mesmo atrás do nosso nariz...
- Atrás do... na
cabeça?
- Isso mesmo. É o processo utilizado pelo
cérebro quando queremos resolver um problema novo. Evidentemente que não o
fazemos gerando hipóteses ao acaso até encontrarmos uma que o resolve, não é?
- Sim, nunca mais
lá chegávamos... a não ser em casos especiais... usamos a lógica, mas não estou
a ver que isso possa ser um processo usado na Evolução.
- Não é bem assim. Ou melhor, não é nada
assim, a lógica, a dedução, são coisas que usamos à posteriori para organizar o
conhecimento mas não são o processo de descoberta. A descoberta faz-se através
daquilo que muitos chamam Intuição. O Poincaré explicou bem isso, e a
generalidade dos “descobridores” referiu que as suas descobertas vinham da
Intuição e não da Dedução.
-Intuição? Sexto
sentido? Isso é um processo de Inteligência?
- Funciona assim:
primeiro, nas profundezas do nosso cérebro, a nível do inconsciente, é gerada
uma hipótese de solução, por um processo H+S. A Geração da hipóteses é feita
por um processo parcialmente aleatório e parcialmente associativo. A Seleção da
hipótese a este nível inconsciente é feita pela sua compatibilidade com uma
série de conhecimentos que o nosso inconsciente admite como verdadeiros. Uma
vez selecionada, neste nível inconsciente, a hipótese é colocada no consciente.
Dizemos então que tivemos uma Ideia; atribuímos essa ideia a uma “inspiração”,
ou à intuição.
- Bem, é uma
teoria sobre a geração de ideias... há outras, há quem diga que são inspiração
divina, ou que vêm de um repositório de ideias... mas a tua parece-me melhor –
o Hans sublinhou com uma risada curta – e explica o facto de elas surgirem como
por magia, vêm simplesmente de um nível inconsciente.
- Não penses que
esta é a única origem das nossas ideias... – deixei um arzinho de mistério -
... mas é a que usa o processo de Inteligência que nos interessa. Bem,
continuando, a seguir a termos uma ideia vamos testá-la, de forma consciente,
ver se ela “funciona”. Se sim, problema resolvido. Porém, em problemas novos,
raramente é o caso. O resultado do teste fica a ser um novo conhecimento nosso
e um novo processo H+S é realizado então pelo inconsciente e uma nova ideia é
presente ao consciente. E assim sucessivamente até alcançarmos a solução do
problema. Há aqui uma sequência de dois processos: o H+S, que gera uma Ideia, é
realizado pelo inconsciente; a experimentação da Ideia e análise do resultado,
pelo consciente.
- Bem, isso será
um método... mas não estou a ver que na generalidade dos casos seja assim...
- Isso é porque
raramente temos de resolver problemas novos, apenas aplicamos aos problemas
soluções já conhecidas. O nosso cérebro funciona quase sempre no modo “motor de
busca”: a cada problema vai à memória buscar a solução que lá está. Dependemos
da Aprendizagem. Mas como resolvemos assim problemas, temos uma ilusão de
Inteligência; só quando enfrentamos um problema cuja solução não está em
memória e não temos onde a ir buscar, temos mesmo de a construir, aí é que
temos de recorrer a um processo de Inteligência; e esse processo é o que acabo
de te descrever.
- Então e o
conhecimento científico? O Einstein, o Newton, apresentaram um trabalho baseado
na dedução… o Newton até disse que não fazia hipóteses…
- Claro. A
dedução é o cimento do nosso conhecimento. Só que é feita à posteriori. O
Newton, ou o Einstein, primeiro tiveram a Ideia, aliás, muitas ideias, uma
sequência até chegarem à ideia certa, e depois realizaram um trabalho dedutivo
para construir a teoria suportada por essa Ideia. Não vou agora alongar-me
sobre o assunto, escrevi um texto sobre ele, depois lês quando for publicado. –
ri-me, naturalmente, o projecto da coletânea a que o meu texto pertence ainda
está um bocado verde. Sério, o Hans respondeu simplesmente:
-OK OK, por agora
aceito que seja assim; em resumo, tu consideras que o processo de inteligência
responsável pela Evolução é um processo H+S+Experimentação, é isso?
- Bem, é mais ou
menos; esse é o processo que chamo de 2º nível, ainda há o de 3º nível, mas lá
iremos. Para já, repara num aspecto importante do processo de nível 2: o
resultado da experimentação da Ideia é fundamental para a geração da segunda
Ideia. Para a primeira Ideia, o Inconsciente gera hipóteses algo às cegas, vai
buscar relações de semelhança, ou oposição, ou outras, com as características
do problema; para a segunda Ideia, ele já vai fazer uma procura em zonas de
conhecimento mais definidas, graças à análise do teste da primeira. É
esta realimentação que pode permitir encontrar a solução de problemas no caso geral. Ela é essencial ao processo, se faltar ficamos
reduzidos ao processo H+S, apenas complementamos a seleção inconsciente com
outra consciente mas não passamos de um processo de nível 1. Eu chamo a este
processo de 2º nível H+S+Reação porque o que é verdadeiramente relevante para
ele é o resultado da experimentação, a análise do erro.
- Estou a compreender; no fundo, é o que
chamamos “aprender com os erros”; quem não aprende com os erros nunca acerta... tem
apenas inteligência de nível 1... e é mesmo assim que fazemos na inovação
tecnológica, as experiências falhadas são objecto de cuidada análise porque é
ela que vai definir o caminho a seguir... O cerne da investigação em tecnologia
é a análise do que corre mal... Olha, vê o que gastaram para recuperar as
caixas negras do avião que caiu ao largo do Brasil, uma operação que parecia
impossível...
- Bom exemplo! Claro, isso mostra bem a
importância crucial de analisar as causas do erro, não se pouparam a esforços nem
a custos para recuperar as ditas caixas. A evolução tecnológica assenta em duas
coisas: a análise exaustiva dos erros e a capacidade de gerar hipóteses livres
de presunções.
- Sim, sem dúvida que é esse processo o
responsável pela evolução tecnológica, que é a mais relevante evolução da humanidade nos último milénios, mas tem por detrás a inteligência
humana; como é que passas daí para a Evolução da Vida sem meteres uma
inteligência exterior, um Criador?
(continua)
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sexta-feira, março 01, 2013
A Evolução é por camadas e implica Inteligência

A Evolução, como um arcoíris, estrutura-se em camadas
Portanto –
comecei, fazendo um ponto da situação – já deu para perceber que a evolução dos
seres vivos não é muito diferente da evolução das coisas feitas pelo Humano,
nomeadamente dos computadores. Esta resulta da evolução da tecnologia, dos
componentes e dos programas de baixo e alto nível. Cada uma destas 4 evoluções
é independente. Ou seja, as pessoas que trabalham a desenvolver a tecnologia atual,
ou que buscam novas tecnologias, como a orgânica, a quântica, a luminosa, nada
sabem dos sistemas operativos; as pessoas que se ocupam do fabrico dos
microprocessadores e memórias só estão preocupadas em conseguir dispositivos
que realizem o máximo de instruções por segundo (IPS), que minimizem o consumo
de energia, o custo de fabrico; também nada sabem dos programas que hão de
utilizar essas capacidades; mesmo as pessoas que desenvolvem os sistemas
operativos também nada ou quase nada precisam de saber dos programas de
aplicação que sobre eles vão funcionar. É uma evolução por camadas, onde cada
camada depende das capacidades da anterior mas ignora a camada seguinte.
- Estou a
perceber a tua analogia; parece que tens alguma razão, a tecnologia orgânica
que suporta a célula teve que evoluir, necessariamente, não surgiu do nada...
não sei é se ainda evolui, ou quando deixou de evoluir. Da mesma forma, até se
chegar à nossa célula teve de haver um longo processo evolutivo, e sabemos que
este acompanhou a evolução das formas de vida, pois as nossas células são mais
complexas e sofisticadas do que as das bactérias, das plantas e certamente dos
animais inferiores; tu pensas que as nossas células serão mesmo mais evoluídas
que as do chimpanzé, e isso é que eu já não sei se estou de acordo contigo. –
Aqui o Hans fez uma pausa, à espera de uma reação minha, bebeu lentamente um gole de cerveja, observando-me, mas eu mantive-me impávido, forçando-o continuar o seu raciocínio:
– Depois, tu consideras que o programa que define o ser vivo, codificado no DNA, evoluiu aproveitando cada nova capacidade celular; provavelmente, atendendo à analogia que fizeste com os programas de baixo e alto nível nos computadores, suspeito que pensarás que também existe uma programação intrínseca às células, uma espécie de sistema operativo, que determina as operações a realizar pela célula para construir uma proteína a partir do código genético, bem como todas as imensas operações que as células realizam independentemente do organismo a que pertencem; o DNA corresponderá ao programa de alto nível, o programa que define o ser. – Esperto o Hans, percebeu bem o meu pensamento. Confirmei o seu raciocínio:
– Depois, tu consideras que o programa que define o ser vivo, codificado no DNA, evoluiu aproveitando cada nova capacidade celular; provavelmente, atendendo à analogia que fizeste com os programas de baixo e alto nível nos computadores, suspeito que pensarás que também existe uma programação intrínseca às células, uma espécie de sistema operativo, que determina as operações a realizar pela célula para construir uma proteína a partir do código genético, bem como todas as imensas operações que as células realizam independentemente do organismo a que pertencem; o DNA corresponderá ao programa de alto nível, o programa que define o ser. – Esperto o Hans, percebeu bem o meu pensamento. Confirmei o seu raciocínio:
-Acertaste no
essencial. – exprimi um sorriso de aprovação - Isso define uma base para
começarmos agora a analisar como se faz a evolução.
- Pois é, pois é,
- ar malandro aflorou na face do Hans – só há uma pequena grande dificuldade
nesse teu raciocínio que parece tão acertadinho..
- Qual?
- Tu
estabeleceste uma analogia com a evolução dos computadores; mas esta acontece
devido à acção de uma Inteligência exterior, a Humana; ora, sendo assim, a tua
analogia aponta para a existência de uma Inteligência exterior, um Deus; e,
sendo assim, então já não estás a falar de Evolução mas de Criação. – o Hans terminou definitivo; para ele, este
argumento arrumaria todo o meu raciocínio.
- Há um erro no
teu raciocínio, mais uma das presunções que tanto inquinam o nosso pensamento.
– foi a vez do Hans ficar desorientado – Erro? Onde?
- Claro que
Evolução implica Inteligência, seja evolução dos produtos que fazemos ou da vida;
é mesmo por isso que há tantas semelhanças entre a evolução dos computadores e
a da vida, ambas são o resultado de processos Inteligentes; o teu erro é
presumir que a Inteligência que produz a evolução da vida tem de ser exterior a
ela. Estás a presumir que Inteligência é algo que só a nós ou a um Deus
pertence; ora a Inteligência necessária à evolução da vida é intrínseca,
interior, ao sistema vivo, não precisa de ser exterior. Esse é o busílis de
toda esta questão, compreender o processo Inteligente intrínseco à Vida que
gera a Evolução. O grande mérito do Darwin foi ter proposto um tal processo, o
processo de geração de hipóteses e seleção, que é o processo mais básico de
Inteligência. Ao fazer isso, ele criou uma alternativa à Inteligência Divina. É
essa a sua grande, genial, contribuição.
- Ok ok, já me
estou a lembrar do que disseste sobre os processos de Inteligência, de como um
processo H+S é capaz de resolver problemas... – O Hans calou-se por momentos,
pensava em qualquer coisa – Mas.... não começaste esta conversa por dizer que o
Darwin estava errado, como o Ptolomeu, que a Seleção Natural nunca poderia
explicar a evolução dos animais superiores?
- O processo que
o Darwin propôs, o processo H+S, é o processo mais básico de Inteligência; só
funciona em situações muito especiais, quando a probabilidade de gerar e testar
a hipótese certa em tempo útil é aceitável. Serviu para encontrar as primeiras
sequências orgânicas auto-reprodutíveis, depois para obter destas outras mais
complexas e, naturalmente, para se chegar a sistemas com processos de
inteligência mais sofisticados, que foram gerando processos ainda mais
sofisticados até se chegar ao nosso cérebro. A nossa Inteligência não surge do
nada nem da inspiração divina, não é verdade?
- Bem, eu penso
que não é uma inspiração divina... – o meu sorriso enigmático instava o Hans a
prosseguir o raciocínio - ah, estou a perceber-te, se não é de origem divina
mas natural, então teve de iniciar-se num processo H+S; porém, ela é muito mais
sofisticada que um tal processo, portanto é a prova que um processo H+S é capaz
de gerar um processo mais sofisticado de Inteligência, a nossa; e como isto já
é verdade para formas de Inteligência menos desenvolvidas que a nossa, então há
um contínuo de processos de inteligência mais sofisticados que o H+S, o qual só
terá servido para o primeiro passo, para o arranque do processo...
- Ora vês? Desde
que não se presuma que a nossa Inteligência tem origem divina, somos
necessariamente levados à conclusão que o processo H+S, o proposto pelo Darwin,
apenas pode ter servido para o arranque do processo evolutivo da vida, sendo
esta o resultado de processos sucessivamente mais inteligentes. Estes processos
já não funcionam no esquema H+S, portanto a evolução das espécies não resulta
da forma elementar de inteligência proposta por Darwin, não depende de uma
geração mais ou menos aleatória de hipóteses nem de uma seleção natural.
- Bem, estás a
adiantar-te nas tuas conclusões... o facto de depender de um processo mais
sofisticado que o H+S, o que eu aceito, não significa que não dependa de uma
Seleção Natural! Era preciso que soubéssemos como são esses processos
sofisticados para saber se dependem ou não de uma seleção natural!
- Tens toda a
razão; é precisamente por saber que processos serão esses que eu faço essa
afirmação.
O Hans pousou
bruscamente o copo que ia levar à boca e, esbugalhando os olhos, disse: - Ah,
mas isso surpreende-me muito! Nunca me falaste noutros processos de
Inteligência além do H+S... isso interessa-me muito!
(continua)
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sexta-feira, fevereiro 22, 2013
A Célula Evolui!
O "processador central" do computador de Babbage; ver aqui um interessante resumo da evolução das máquinas de computar
(continuação)
O que eu tinha
para dizer sobre evolução era muito diferente de qualquer coisa que o Hans já
tivesse ouvido; há que ter cuidado com a apresentação de ideias novas. Como
disse o Vergílio Ferreira “No
afirmes o erro de uma verdade antes de mudar o seu contexto. A menos que te dê
gozo levar pedradas.” Um sábio o Vergílio; comecei, cauteloso:
- As teorias que
vamos fazendo dependem do entendimento que temos do assunto na altura. Disse o
Heisenberg que por detrás de uma nova teoria está um novo entendimento do
Universo. A teoria do Ptolomeu enquadrava-se no conhecimento do Universo que
havia na altura. Também a teoria de Darwin se enquadra no conhecimento da
biologia que havia na altura. Num e noutro caso, esse conhecimento era muito
limitado e determinou um enorme erro de perspectiva.
- Erro de
perspectiva? De que falas?
- Nós vemos os
seres vivos como complexas estruturas feitas de uma espécie de tijolo a que
chamamos célula. Numa casa, a complexidade está toda na estrutura da casa, não
está nos tijolos de que é feita. Mas nos seres vivos é ao contrário.
- Ao contrário?
- Sim; as células
são imensas estruturas definidas ao nível do átomo, uma complexa máquina
construída átomo a átomo; hoje somos capazes de observar algo da sua
sofisticada maquinaria, as suas complexas capacidades de comunicação, de
analisar como elas são capazes de fazer coisas como reparar um osso partido… já
pensaste na complexidade que é reparar um osso?
- Bem... nem por
isso…
- Pois… é banal,
por isso não pensamos muito no assunto… mas as células têm de ir buscar as duas
partes do osso fraturado, alinhá-lo como se tivessem um GPS e proceder à
reconstrução da estrutura. Isto é duma complexidade transcendente para nós, nem
de longe somos capazes de idealizar dispositivos com inteligência artificial
que fossem capazes de, autonomamente, conseguirem realizar coordenadamente um
trabalho deste tipo; e isto é apenas o exemplo mais simples de que me lembrei,
porque elas fazem coisas muitíssimo mais complexas, como seja a construção do
ser a partir do ovo.- O Hans meditou um pouco e concordou:
- Sim, de facto
isso é quase mágico…
- Contrariamente
à ideia usual, os seres vivos são um pouco como os computadores, cuja
capacidade depende não da sua arquitetura, a mesma ou quase para todos, e
bastante simples, mas da capacidade dos seus componentes, cuja evolução
determina a evolução dos computadores. Podem os computadores evoluir sem
evolução tecnológica?
- Não me parece…
- Pois não; sem a
electrónica ainda estaríamos com o computador de Babbage, sem a
microelectrónica ainda estaríamos com o computador de transístores discretos e
leitores de cartões perfurados; e sem internet, é claro. É também um pouco como
acontece com a sociedade humana; a nossa sociedade não é o resultado da
evolução da sociedade dos macacos, é o resultado de nós termos capacidades que
os macacos não têm e que suportam uma sociedade mais evoluída. Da mesma
maneira, a evolução dos seres vivos é suportada na evolução das suas células. –
Calei-me, à espera da reação do Hans. Primeiro hesitou, depois arriscou:
- E nós? Somos o
resultado da evolução do chimpanzé, ou da evolução das células do chimpanzé?
- Penso que as
células evoluem e depois o ser evolui tirando partido das novas capacidades
tornadas possíveis. Em que é que consiste uma evolução celular? Aparentemente,
na capacidade de produzir proteínas mais complexas. As células dos peixes, por
exemplo, não podem produzir proteínas com a complexidade que as nossas podem.
Ora bem, sempre que isso aconteceu, seres com melhores capacidades,
nomeadamente velocidade, tamanho, cérebro, adaptabilidade a diferentes meios,
passaram a ser possíveis. O cérebro tornou-se a vantagem decisiva. Mas um novo
cérebro não se forma de um momento para o outro, um chimpanzé não dá à luz um
humano, há um processo evolutivo até que são obtidos animais com a máxima
capacidade mental que o novo grau de complexidade proteica permite. A partir
daqui podem ainda ocorrer processos de adaptação e mesmo evolução sem que, no
entanto, haja mais incremento da capacidade mental. Para existir um novo
incremento da capacidade mental é preciso que exista uma nova evolução celular.
Ou seja, se a capacidade mental dos chimpanzés não evolui é porque eles já
atingiram o máximo que as suas células suportam; e se nós temos mais capacidade
mental, é porque temos células mais evoluídas. – Os olhos do Hans iluminaram-se
subitamente e ele exclamou:
- Então será por isso que os seres que
existem não evoluem e será por isso que não existem seres intermédios! A célula
de um qualquer chimpanzé evoluiu, gerando uma descendência de seres cada vez
mais evoluídos até chegar ao Humano! Todos os humanos têm a mesma capacidade
porque todos têm a mesma célula; podem diferir em aspectos acessórios, mas os
limites são os mesmos para todos, porque o Humano é o limite evolutivo das suas
células, como o chimpanzé o é das células dele, a tartaruga idem, etc! - O Hans estava extasiado com a sua
descoberta; tinha encontrado uma explicação para o facto de não existir um
contínuo de seres desenhando o percurso da evolução e para o facto de os seres
que existem parecerem ter parado de evoluir, como a tartaruga ou o chimpanzé. Mas
havia uma pequena correção a fazer; ri-me com o súbito entusiasmo dele e
acrescentei:
- Isso mesmo! Há
só um pormenor a corrigir no que disseste: não é verdade que os seres que
existem não evoluem; todos os seres vivos mantêm os seus mecanismos de evolução,
simplesmente esta está limitada pela capacidade das suas células; as suas
células é que não evoluem.
- Os seres vivos
evoluem? Onde é que vês isso? A tartaruga evoluiu nos últimos 400 milhões de
anos? O espanto do Hans era quase indignação.
- Evoluem sim;
por exemplo, há uma rã que desenvolveu uma adaptação ao gelo, as suas células
não congelam graças a uma proteína que ela produz; ora os gelos só existem na
Terra há uns dez milhões de anos, antes disso a Terra era mais quente;
portanto, a rã, uma espécie muito mais antiga que os gelos, desenvolveu essa
adaptação muito depois de terem surgido células mais evoluídas do que as suas,
o que significa que ela fez uma evolução numa altura em que as suas células já
não evoluíam. Mas há muito mais casos, desde a hibernação dos ursos à adaptação
das flores à polinização por insectos. Os seres vivos adaptam-se / evoluem
continuamente, as células é que não, apenas em determinadas ocasiões.
- Acho que te
estou a perceber... então, para ti, os seres vivos são como os computadores; a
célula é o hardware e o ser vivo o resultado do software; o software está
limitado pela capacidade da célula; sempre que esta evolui e passa a suportar
um software mais complexo, dá-se uma evolução do software, ou seja, do ser
vivo, até esgotar a capacidade da célula... como nos computadores, onde um
avanço tecnológico origina microprocessadores e memórias mais poderosos e estes
um novo desenvolvimento dos sistemas operativos e programas.
-Sim, é uma
razoável analogia... colocaste aí 3 níveis de evolução: tecnologia, hardware e
software... estás mais certo do que imaginarás no que toca à comparação com a
biologia mas por agora vamos apenas considerar dois níveis, a célula e o
software de cada ser, escrito no seu DNA; cada um destes níveis tem o seu
processo evolutivo. O que interessa para questionar as ideias darwinianas é a
evolução do software dos seres vivos, do seu DNA; é saber se esta resulta de
mutações e seleção natural ou se usa outros processos. Já te mostrei que a
evolução por seleção é uma impossibilidade que apenas continua a ser referida
porque ainda ninguém apresentou uma alternativa melhor; é isso que me proponho
fazer agora; estás com paciência para me ouvir?
O Hans sorriu-se;
- Tens até eu acabar esta cerveja!
- Chega e sobra!
Ora presta atenção.
(continua)
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sexta-feira, janeiro 25, 2013
Darwin, o Ptolomeu da Biologia
(continuação da minha conversa com o Hans)
Ptolomeu e Darwin souberam organizar as suas observações e os conhecimentos da sua época em modelos que os explicavam; o modelo de Ptolomeu já foi substituído por outro melhor; o de Darwin, embora baseado em conhecimentos de biologia muito primitivos, é muito mais recente e ainda não foi feito um melhor; para isso é preciso um "quantum leap" que ainda não foi dado, o que não impede que se saiba que o seu modelo está tão errado como o do Ptolomeu (como seria de esperar, pois em ambos os casos apenas as aparências das coisas eram conhecidas).
Ptolomeu e Darwin souberam organizar as suas observações e os conhecimentos da sua época em modelos que os explicavam; o modelo de Ptolomeu já foi substituído por outro melhor; o de Darwin, embora baseado em conhecimentos de biologia muito primitivos, é muito mais recente e ainda não foi feito um melhor; para isso é preciso um "quantum leap" que ainda não foi dado, o que não impede que se saiba que o seu modelo está tão errado como o do Ptolomeu (como seria de esperar, pois em ambos os casos apenas as aparências das coisas eram conhecidas).
- Bem, queres
então saber que processo usa a Vida para conseguir evoluir.- Pigarreei, era
altura de passar de ouvinte a palestrante e tinha de descolar a voz da
garganta. - Sim, - respondeu o Hans, com ar de grande curiosidade; e
acrescentou, sábio: - o Darwin propôs um processo de geração de mutações por acaso e seleção
natural, que é hoje aceite incondicionalmente e, de certa forma, a base das
teorias económicas e sociais ocidentais.
- Bem –
interrompi- não foi bem isso que o Darwin propôs; e nem é correcto dizer que
isso seja a base das teorias, é antes a justificação para porem de pé teorias
que já existiam e que convêm a apenas alguns; é por isso que me parece
importante desmistificar tudo isso.
- Desmistificar?
Então um processo de acaso e seleção não é um processo de Inteligência?
Lembro-me de ler isso no teu blogue...
- Um processo de
acaso e seleção é um processo capaz de resolver certos problemas; é, por isso,
um processo de Inteligência, sem dúvida.
- É o que eu
estou a dizer... - o Hans com um sorriso maroto mas impaciente ao mesmo tempo.
- Então sabes que
a eficiência desse processo se pode medir pela probabilidade de a hipótese
certa ser gerada, admitindo que o mecanismo de seleção é infalível...
- Sim, sei,
conheço o teu modelo das condições iniciais da Terra que fazem com que a
probabilidade de se gerar por acaso as primeiras moléculas auto-reprodutoras
necessárias à vida seja elevada.
- Certo; nessas
condições gerou-se um número elevadíssimo de combinações de átomos e por isso a
solução, a estrutura certa, pode ser selecionada; estamos a falar de qualquer
coisa como 10^38 a 10^40 átomos a combinarem-se furiosamente durante perto de
500 milhões de anos, o que gera um número astronómico de hipóteses; e isto só
para a primeira pequena sequência auto-reprodutora, porque logo a partir daí já
não se trata de um mero processo de acaso. Isto mostra a dimensão que um
processo de acaso tem de ter para conseguir ser “Inteligente”.
- Mas se
isso foi capaz de criar vida, certamente que fazê-la evoluir será muito menos
exigente...
- Aí é que tu te
enganas. Tens de olhar sempre para a probabilidade de ser gerada a hipótese
certa. Por exemplo, se fosse como pensas, a Microsoft só tinha de por os seus
brutos computadores a gerar alterações ao acaso ao seu Windows Vista para gerar
um sistema operativo melhor, não é?
O Hans hesitou
– Beemm, não será assim... não estou a ver que alterar ao acaso o código de um
sistema operativo possa gerar um código melhor...
- Não estás a ver
porquê? O Windows 8 não é um código também? É uma sequência de bits, como o
Windows Vista, logo bastará alterar os bits do Windows Vista ao acaso para
acabar por obter o código do W8...
- Sssim, mas isso
parece-me uma impossibilidade... as combinações possíveis são uma enormidade...
e o tempo de teste...
- Exactamente!
Uma enormidade tal que fácil é concluir que nem o tempo todo do Universo
chegaria para conseguir gerar as combinações possíveis; ou seja, a
probabilidade de gerar a hipótese certa em tempo útil é tão ínfima que pode ser
considerada nula; é por isso que a Microsoft não segue esse processo. Agora
diz-me, o que é mais complexo, um sistema operativo ou um ser vivo?
- O ser vivo,
evidentemente!
- Claro; e neste
a produção de uma nova hipótese exige uma nova geração de seres, e isso é um
processo lento, muito lento; e tanto mais lento quanto mais evoluída é a Vida.
O número de hipóteses passível de ser gerado é ridiculamente baixo, a
probabilidade de conseguir uma mutação por acaso que dê certo é infinitesimal.
Pensar que a Vida evolui por um processo de acaso e seleção é uma ingenuidade.
- Mas não foi
isso que o Darwin disse?
- Não; o Darwin
falou de mutações e seleção, mas nunca disse, que eu saiba, que essas mutações
eram produzidas por acaso. Isso foi um aproveitamento das ideias dele, na
obsessão de substituir o conceito de Deus pelo de Acaso, que era o deus dos
cientistas e não só na época. Além disso, as evidências que o Darwin apresentou
foi como os seres vivos se adaptam às condições externas; mas adaptação não é
evolução, pensar isso é uma extrapolação ilegítima. Por exemplo, a espécie
humana está a aumentar de estatura, mas isso não é evolução, não há alteração
do projecto do ser, apenas ajustes nos valores dos seus parâmetros.
- Mas
ajustando parâmetros, a pouco e pouco, o ser vai-se modificando e acaba por
originar algo diferente...
- Isso é outra
ingenuidade; por mais que alteres o valor dos parâmetros, o projecto fica
sempre o mesmo. É como dizer que o automóvel de hoje se pode obter a partir do
projeto do Cugnot apenas alterando o valor dos parâmetros; ou que se passou do
primeiro micropressador para os atuais alterando parâmetros do projecto
inicial. Não é verdade. Qualquer engenheiro sabe bem que a evolução de um
projecto exige invenção. As alterações de parâmetros, como o tamanho ou forma
do bico de uma ave, são meras adaptações, não são evoluções.
- Então da teoria
do Darwin, de mutações + seleção, apenas se aproveita o lado da seleção? A
seleção natural?
- Isso então é
que é o disparate completo!
O Hans largou a
cabeça para trás na sua típica gargalhada. - Com essa é que me matas –
desabafou – não me digas que viraste criacionista!
A reação do Hans
não me surpreendeu, as pessoas reagem sempre com uma gargalhada quando
confrontam algo que conflitua com as suas certezas; ou gargalhada ou violência,
são as duas maneiras que o cérebro tem de fazer o “reset” duma situação de
bloqueio mental. Calmamente, continuei - Na natureza, todos os seres se
reproduzem salvo acidente; estes sim, fruto de acaso e circunstâncias; não é o
mérito ou demérito de pequenas alterações nos parâmetros que condicionam a
reprodução ou a sobrevivência. Conheces o estudo sobre a reprodução dos chocos
australianos?
- Não..
- Um grupo de
investigadores deu-se ao trabalho de estudar a seleção pela reprodução em
comunidades de chocos que se reproduzem em zonas pouco fundas, o que lhes
possibilitou um controlo rigoroso, e descobriram que apesar dos chocos
dominantes guardarem vigorosamente as suas fêmeas, cerca de 1/3 das crias eram
dos outros chocos, que usavam truques como disfarçarem-se de fêmeas para
iludirem os machos dominantes e se aproximarem das fêmeas destes, que os não
rejeitavam.
- Bem.. não me
admiro... mesmo na espécie humana isso acontece.. ou parecido... apesar da
rigidez das normas morais...
- Exactamente. A
verdade é que quase tudo o que se afirma sobre evolução está errado: nem há
geração de mutações úteis por acaso, nem estas são selecionadas pela natureza;
a ideia da Seleção Natural é um erro. Há seleção sim, é um facto que os seres
vivos surgem com alterações e selecionam aquelas que melhor os servem, mas nem
as alterações são fruto do acaso nem é a Natureza que faz essa seleção, são
eles mesmos; essas ideias são apenas ideias primitivas sobre o problema, uma
espécie de modelo de Ptolomeu da biologia, uma coisa que parece certa, lógica,
indiscutível à luz das aparência, mas errada. – Fiz uma pausa para verificar se o Hans me estava a
seguir, o olhar atento incitou a prosseguir:
- No tempo de Darwin a biologia estava nos
primórdios, nada se sabia sobre a célula, apenas se conhecia a aparência dos
seres vivos; o modelo de Darwin, tal como o de Ptolomeu, foram úteis,
organizaram o conhecimento que se tinha na altura, mas hoje temos outros
conhecimentos que mostram que esses modelos estão errados. No caso do Ptolomeu,
o seu modelo foi posto de lado porque outro melhor surgiu; mas para isso foi
preciso mais de um milénio. O de Darwin ainda subsiste apenas porque outro
ainda não foi apresentado; mas muita gente ligada à biologia compreende que as
coisas são bem mais complexas do que o modelo de Darwin e das sucessivas
adaptações que se têm feito dele.
- Espera aí,
deixa-me por as ideias em ordem; então tu afirmas que essa coisa das mutações e
seleção não tem a ver com evolução mas apenas com adaptação e que a seleção não
é feita pela natureza mas pelos próprios indivíduos??? Páaa... tens de me
explicar isso devagarinho... muito devagarinho mesmo... como se eu fosse
burro...
- Será um prazer.
Deixa-me começar pela Seleção.
(continua)
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Hans,
Sociedade
quarta-feira, janeiro 09, 2013
Somos o que nos convém
(continuação da conversa com o Hans)
O Hans sorveu longos goles da caneca de cerveja acabadinha de chegar. O calor apertava. Eu continuei na minha água tónica, não estava ali num encontro social, queria aproveitar ao máximo as ideias do Hans. Bebeu meia caneca de uma vez só. Pousou-a, visivelmente satisfeito. Beber quando se tem sede é dos maiores prazeres da vida. Refeito, recomeçou a conversa.
Os Ricos são
espertos, tão espertos como todas as outras pessoas; cada um faz o que pode
para defender os seus interesses, não é? Na medida dos seus poderes, é claro...
Lá estás tu com
as tuas visões negativas da humanidade – ripostei.
O Hans ficou
pensativo. Um dia eu explico-te como funciona o cérebro humano, qual é o seu
algoritmo de decisão. Até lá, acredita em mim, o nosso cérebro, a nível
inconsciente, está programado para decidir sempre em função do que considera
ser o nosso interesse e constrói-nos um quadro mental, uma percepção da
realidade exterior, que torna legítimo e correto, em face da nossa moral,
agirmos em função desse interesse. Quando somos pobres defendemos a igualdade,
a redistribuição de riqueza, mas se por acaso ficamos menos pobres, em pouco
tempo consideramos que tal se deve ao nosso mérito e que os que são pobres o
são porque mais não merecem, e que têm muita sorte em haver empregos que lhes
paguem 500 euros; e continuando a enriquecer, depressa achamos que é bom que
existam pobres, precisamos de criados, que nos sirvam barato mas que
desapareçam da frente quando andamos de carro, ou vamos a espectáculos, ou
vamos à praia; não precisamos de muitos pobres, mas precisamos de suficientes
para nos sentirmos superiores, especiais, isso faz-nos muito bem ao Ego. Os que
estão para além disso, surgem-nos como empecilhos da sociedade, pensamos que
esta beneficiaria do seu desaparecimento – enquanto estamos na classe média
achamos isso dos ciganos, do pessoal do bairro da lata; à medida que
enriquecemos começamos a achar isso para aí de 1/3 da humanidade, demasiado
pobre para contribuir para o nosso enriquecimento, portanto inúteis, e
demasiado insignificantes para alimentar o nosso grandioso Ego.
Estou a
perceber-te... enquanto pobres temos uma visão solidária, romântica, da
humanidade, mas quando somos Ricos a nossa visão altera-se para o oposto.
Sim, mas o
busílis da questão não é esse. O pormenor importante é que as pessoas não têm
noção de que o seu entendimento se vai alterar se a sua situação mudar, pensam
que serão sempre como são hoje. Ora as pessoas da classe média ou média baixa,
que têm um certo sentido de solidariedade, pensam que os Ricos são como elas e
que, naturalmente, sendo ricos, exercem activa solidariedade, que é o que elas
pensam que fariam no lugar deles.
Ahh, estou a entender-te; estás a dizer que
os pobres, ou os “remediados”, pensam que são solidários genuinamente, não
sabem que o são apenas porque é isso que lhes convém na sua situação; e a razão
porque não sabem é que o seu inconsciente lhes cria um quadro mental e afetivo
de solidariedade que as pessoas tomam como correspondendo à sua natureza
profunda e imutável. E então eles pensam que é da natureza humana ser solidário
e pensam que os Ricos e os Poderosos têm essa natureza, que são solidários com
os que têm menos. Ora a verdade é que o que é da natureza humana é ser egoísta
e os Ricos e Poderosos não são solidários com os pobres porque não é isso que
lhes convém e o seu inconsciente constrói-lhes um quadro mental e afetivo
diferente.
Isso mesmo. E
dizes bem, Ricos ou Poderosos, porque se hoje quem está por cima são os
estupidamente ricos, os banqueiros, os financeiros, antes de haver tanta
riqueza eram as elites que se presumiam cultas, ou os senhores de muitos
terrenos, e que alimentavam as mesmas ideias de superioridade em relação à
restante humanidade que os Ricos de hoje.
Por um lado, sei
que tens razão; uma coisa que tenho verificado quando ando de metro é que quem
dá esmola aos pedintes são as pessoas que parecem ser mais pobres. Mas, por
outro lado, sei que há pessoas que parecem já nascer com esse sentimento de
superioridade absoluta e desprezo pelos outros, vejo isso logo pelo
comportamento das crianças num parque infantil.
Sim,claro;
é que nascemos com diferentes necessidades e a essas pessoas o que convém não é
a solidariedade. Suponho que ser estupidamente rico não é coisa que te
interesse, como não me interessa a mim, não é isso que queremos da vida,
seríamos muito infelizes se a nossas vidas se resumissem a isso; há muitas
pessoas como nós e que facilmente desenvolvem sentimentos de solidariedade
porque é isso que corresponde ao que querem, é esse o seu egoísmo. Mas há
também pessoas para quem a coisa mais importante é ser estupidamente rico ou
poderoso e logo, o que lhes convém é o desprezo pelos outros. E as pessoas que
são estupidamente ricas ou poderosas vêm geralmente desse lote de pessoas e não
são pessoas solidárias, não há um pingo de solidariedade nessas pessoas. O
grande equívoco dos pobres que não são obcecados com a riqueza é não saberem
isso.
Compreendo,
é a ilusão que os pobres têm de que as pessoas são assim, solidárias, “boas”,
que alimenta o poder dos Ricos; os pobres esperam indefinidamente que os Ricos
resolvam os seus problemas em vez de perceberem que eles são a causa deles.
Os Ricos
alimentam essa ilusão praticando a “Caridade”, que são atos isolados de
ajuda, não alteram a situação dos
desprotegidos mas servem por um lado para alimentar o Ego dos Ricos, e por
outro para alimentar essa ilusão dos pobres de que os Ricos cuidam deles! Que
são protetores, uma espécie de delegados de um Deus benfazejo... A
solidariedade existe apenas entre pessoas que se sentem iguais; as que se
julgam superiores podem ser caridosas mas não solidárias. Há aqui um duplo erro
de percepção, os pobres que pensam que os Ricos são solidários com eles e os
Ricos que pensam que são superiores aos outros
Eu oiço desde o
25 de Abril pessoas a reclamarem contra o facto de muito mais gente se
licenciar agora – de os filhos dos outros se licenciarem é claro, não os seus.
Argumentam que não há emprego para tanto licenciado mas esquecem que ainda há
menos para os não licenciados. O que os aflige é a diminuição da desigualdade,
nada mais, mas a sua mente constrói um quadro, falso, que justifica essa
manutenção da desigualdade.
O Hans assentiu
distraidamente, compenetrado no que queria dizer; continuou: - Há estudos e
experiências sobre essa ilusão de que somos independentes das circunstâncias. E
isto é verdade em relação a outras características. Por exemplo, a Honestidade
não existe, não faz parte do nosso algoritmo mental; o nosso inconsciente
decide sempre em função da sua análise custo/benefício.
Sim, isso eu sei;
ninguém põe a moeda no parquímetro se souber que o fiscal já não vai passar.
Certo; por isso a
sociedade organiza-se instituindo penalizações que fazem com que a relação
custo/benefício leve ao comportamento pretendido. Uma pessoa que vive num
ambiente onde isso está bem controlado, age conforme as regras porque é o que o
seu inconsciente conclui que lhe convém, mas essa pessoa está convencida que é
porque é honesta, porque esse é o quadro mental e afetivo que o inconsciente
lhe constrói para a levar a agir como ele acha que é vantajoso. Não sabe que se
for colocada numa situação onde o seu inconsciente conclua que a corrupção lhe
é vantajosa, tenderá a ser corrupta. As pessoas não são mais ou menos honestas,
fazem é diferentes análises custo/benefício, quer porque o que cada um
considera ser um benefício é diferente, quer porque as situações são
diferentes. Mais uma vez, os pobres, desde que não muito pobres, menos sujeitos
a tentações, tendem a ter uma auto-imagem de honestidade e a pensar que os
Ricos também o são; mas os Ricos sabem bem que a honestidade não existe.
Combater a corrupção é uma questão de instituir adequados sistemas de
fiscalização e punição, o que não é nada fácil e exige normalmente a acção de
uma pessoa “especial”; para controlar a corrupção do dinheiro é preciso uma
pessoa que não esteja interessada em ser rica.
Mas então, se não
somos honestos, nem solidários em situação de diferença, que esperança há para
a sociedade humana?
Todos os
problemas têm solução. A natureza não nos preparou para este problema porque
estas situações são específicas da sociedade humana, e por isso a solução não
está nos nossos instintos; e não adianta pensar que se consegue meter a
honestidade e a solidariedade à força nas nossas cabeças, que é o erro que tem
sido feito, associado a outro, o de presumir que as elites são pessoas melhores
do que as outras. A solução é diferente: é percebermos que somos assim e
construirmos uma sociedade que nos controle porque sabemos que apenas uma
sociedade solidária e honesta pode evoluir e ser boa para todos. Uma sociedade
com regras e sistemas que impeçam a corrupção e a falta de solidariedade. As
sociedades dos animais são definidas pelos seus “instintos”, ou seja, obedecem
a regras que estão programadas nas suas mentes; no nosso caso, essas regras não
estão nos instintos, temos de as instituir nós. Numa sociedade assim, todos
seremos “genuinamente” honestos e solidários porque é isso que convém a cada um
e o inconsciente formata-nos dessa maneira. Precisamos é de não cair no erro de pensar que podemos prescindir das regras porque "somos genuinamente honestos e solidários".
Sim, eu sei, nos
países mais avançados, nomeadamente nos EUA, há muito que isso se faz, eles não
presumem a honestidade ou a bondade de ninguém, nem do presidente.
Pois, mas
acontece que na sequência da Globalização deixaram cair as regras e os Ricos
adquiriram demasiado poder e controlam agora as regras que os devem controlar... e
acham isso legítimo porque, sendo Ricos, concluem que são “superiores”, logo
que são eles quem deve fazer as regras - até citam constantemente o Darwin, a
famosa frase da “sobrevivência dos mais aptos”, a ideia de que a Evolução da
sociedade humana se faz através da eliminação dos mais fracos e que sem isso a
evolução fica comprometida, o que justifica as ideias de eutanásia e outras
ainda mais terríveis. E é isso que se passa na Europa agora.
Ahh, mas é um enorme disparate, na Natureza as coisas passam-se exactamente ao
contrário!.
Ah é? Mas olha
que as teorias económicas atuais assentam nesse princípio, tido como
indiscutível! Ele é a base da economia atual, que é o mesmo que dizer que é a
base da sociedade ocidental.
Então está
explicado porque é que ela funciona tão mal; porque não é nada disso! Os
economistas não sabem nada de biologia e agarram nessas ideias estúpidas e
erradas, convencidos que são verdade. Do reino dos Humanos não sei muito, mas
do da Natureza sei alguma coisa.
Então como é?
(continua)
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