sexta-feira, março 15, 2013

Economia, Egoísmo, Altruísmo e Darwin (1/2)



(onde se apresenta o verdadeiro retrato do que nos espera; e se mostra que, afinal, o Passos Coelho sabe mais do que dizem)

Este desvio da conversa com o Hans do campo da economia para o da evolução das espécies, apresentado nos textos anteriores, e que vai continuar, parece despropositado; mas não é, e pareceu-me importante explicar porquê.

Contrariamente ao que constantemente se afirma, a macroeconomia é perfeitamente previsível, não tem nada de misterioso, de esotérico; não são precisas complexas teorias para a entender. Tudo o que acontece em macroeconomia serve directamente os interesses de quem tem o poder de a comandar, pelo que basta entender que interesses são esses.

Esta “crise” não tem a ver com “produtos tóxicos”, com despesismos de Estado e outras barbaridades que para aí se dizem. Isso só acelerou a chegada a esta situação, que é o resultado necessário, fatal, previsível e previsto de uma sociedade organizada na base do Egoísmo.

Nós agimos sempre em função do nosso interesse, estamos programados para isso; porém, podemos considerar o nosso interesse imediato, de curto prazo, ou o interesse de médio ou longo prazo. Acontece que o nosso interesse a médio ou longo prazo implica agirmos no interesse dos outros a curto prazo. A análise desta questão é antiga, é estudada sob muitas formas; uma bem conhecida é o “dilema do prisioneiro”. Mas podemos perceber que assim seja, porque ao agirmos em favor da sociedade, ao sermos úteis a ela, passamos a ter valor para ela. Assim, agir em favor do nosso interesse a médio ou longo prazo é agir em favor dos outros a curto prazo; a isto chama-se “altruísmo”. Agir em favor do nosso interesse a curto prazo é “egoísmo”.

O “altruísmo” é a solução “subtil” para conseguirmos o melhor para nós, enquanto o “egoísmo” é a solução “simplória”, logo errada. É como o jogador de xadrez que só analisa uma jogada ou o que perspectiva duas ou três... qual é que ganha o jogo?

O egoísmo é vantajoso no curto prazo, mas leva ao desastre no longo prazo. O altruísmo é vantajoso a prazo mas tem uma fragilidade: é preciso que todos sejam altruístas. Ora a vantagem de curto prazo que se obtém pelo Egoísmo é um aliciante poderoso e isso torna muito difícil conseguir uma sociedade em que todas as pessoas ajam de modo altruísta, que é o modo que melhor beneficia a sociedade e cada um.

A nossa sociedade ocidental está estabelecida na lógica do Egoísmo. Querem ver como é fácil perceber como evolui uma democracia sob a lógica do Egoísmo?

Gerir uma democracia é satisfazer a maioria dos votantes; os votantes são cerca de 2/3 das pessoas. Então, se se “descartar” 1/3 da população, maximiza-se o benefício da restante população e isto assegura o poder democrático porque sendo 1/3 da população metade dos votantes, ela é o máximo que se pode “descartar” sem pôr em risco a vitória eleitoral, assegurada pela satisfação dos restantes 2/3 conseguida à custa do 1/3 descartado.

“Descartar” significa reduzir os rendimentos e direitos ao mínimo, em benefício dos outros. Certamente que já ouviram falar nesta coisa de 1/3 serem descartáveis; aqui está a razão: enriquece-se uns em detrimento de outros porque é quem serve este objectivo que ganha eleições.

A estabilidade da classe média resulta do bem-estar que esta sente por se sentir acima do 1/3 de descartáveis, da qualidade de vida que obtém dessa mão-de-obra quase escrava, da qualidade de vida que o desenvolvimento tecnológico proporciona e da ilusão de que qualquer um dentro da classe pode tornar-se rico. É uma ilusão grosseira, é muito mais provável ganhar o euromilhões do que entrar para o clube dos ricos. Ou seja, a classe média fica estável mesmo sem aumentar o seu rendimento, deixando para os ricos o acréscimo de riqueza resultante do crescimento do PIB.

Portanto, numa democracia “egoísta” que parte do zero, todos iguais, há uma primeira fase em que há equilíbrio e essa é uma fase de crescimento; mas como os mais ricos, mesmo que por pouco, têm mais poder e mais capacidade de enriquecer, o crescimento da desigualdade é acelerado, gerando-se então o tal 1/3 de descartáveis, que é onde a classe média vai buscar o seu enriquecimento. O crescimento do PIB é quase integralmente absorvido pelos ricos que, por o serem, têm mais capacidade de enriquecimento.

Ou seja, a sociedade estrutura-se naturalmente numa classe média de rendimentos tendencialmente constantes de geração para geração, numa classe de descartáveis com 1/3 da população e numa classe de rendimentos crescentes, ao contrário dessas duas – a classe dos ricos.

O crescimento acelerado da riqueza dos ricos acaba por ultrapassar o aumento de PIB (o qual decresce com o crescimento da desigualdade); a partir deste ponto, o resto da sociedade tem de empobrecer para os ricos manterem o seu enriquecimento. Vou designar este ponto por “ponto de empobrecimento”. (já mostrei isto com “continhas” neste post de há 5 anos)

Numa democracia, este seria um ponto de inversão porque se o número de descartados ultrapassar significativamente 1/3 ou se a classe média empobrecer, as eleições serão ganhas por quem prometer que vai mudar o sistema económico. Como aconteceu agora em Itália.

Além disso, a economia depende do consumo; o empobrecimento da maioria da população leva à diminuição do consumo e este à recessão. A recessão não impede os ricos de continuarem a enriquecer a curto prazo, e isso é quanto basta numa sociedade egoísta; o que trava os ricos é a consciência de que este empobrecimento pode levar a uma mudança do poder político.

Porque é bem sabido que é assim, as contra-medidas também foram desenvolvidas; uma delas, essencial, é a redistribuição de riqueza através dos impostos; ora acontece que os ricos encontraram maneira de deixarem de ser colectados. Os ricos não pagam impostos, o seu dinheiro circula pelos offshores. Além de isto representar uma vantagem competitiva importante em relação a potenciais emergentes, a base tributária do Estado sofreu um corte de cerca de metade do PIB, que é o dinheiro dos ricos; e que cresce à medida que os ricos enriquecem. Sem contra-medidas, a partir do ponto de empobrecimento, devido à recessão e ao aumento da riqueza subtraída ao fisco pelos ricos, a base tributária diminuirá mais de 5% ao ano. No primeiro ano, cortes na despesa e aumento de impostos podem compensar mas depois isso torna-se impossível, o deficit da despesa pública fica incontrolável. É por saber isso que o PM decidiu ser mais troikista do que a troika: tentou equilibrar as contas públicas logo no primeiro ano, antes que o descalabro começasse, para adquirir algum poder negocial. Não o fez por ser ignorante, fê-lo por saber bem o quadro em que nos encontramos.

Nos EUA, o ponto de empobrecimento foi atingido no fim do séc. XX. É por isso que o Obama disse claramente que “é preciso redistribuir a riqueza”. E é por isso que taxou os ricos (ligeiramente).

Na Europa do Euro acontece uma novidade: a Europa é comandada por quem comanda a Alemanha! Então, basta ganhar eleições na Alemanha para manter o poder político na Europa. Ou seja, os descartáveis podem ser toda a gente menos a classe média alemã!

Fantástico!

Os ricos baseados na Europa e nos EUA podem continuar a enriquecer à custa das classes médias europeias.

Portanto, o que está em curso é o empobrecimento de toda a gente menos a classe média alemã. O Passos Coelho foi muito claro: é preciso empobrecer os portugueses. E é isso que está a ser feito, e não há erro nem desvio nos cálculos da troika. Os valores que apontam para crescimentos de PIB, retoma, etc, servem apenas para ir levando as pessoas na ilusão; o único valor que lhes interessa é quanto é que os portugueses empobreceram.

A classe média portuguesa passou a fazer parte dos “descartáveis” europeus. Vai ser reduzida às mesmas condições que têm os descartáveis à escala nacional. O ordenado mínimo vai ser o seu futuro ordenado (por vontade dos alemães, ou da troika, o ordenado mínimo seria extinto); a pensão de sobrevivência a sua futura pensão; o desemprego a sua situação mais provável a partir dos 45 anos. Passou a ser “descartável”. Os alemães andam por aí a pescar uns engenheiros como quem vasculha o lixo. O que sobrar vai ser lixo puro. É por isso que o nosso PM bem aconselhou: emigrem! E também disse: “que se lixem as eleições”; é que se este processo continuar, quando chegar a altura das eleições teremos é o país governado directamente por uma qualquer troika; o objetivo do PM é que consigamos chegar até às eleições, isso já seria uma vitória; por isso, alguém estar preocupado em ganhar umas eleições que corremos o risco de nem sequer existirem é estar a leste da situação. As pessoas parece terem cortinas nos olhos e tampões nos ouvidos, nem ouviram o Draghi dizer “ Muitos governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito tempo”. Ou seja, quem manda é ele e a Merkel, e é por isso que os nossos governantes lhe curvam a cerviz e beijam a mão.

Quando o PM fala verdade, as pessoas insultam-no; então ele diz o que as pessoas querem ouvir; aí chamam-lhe mentiroso. Não está na mão dele alterar o destino traçado para nós – a Europa do Euro é toda ela uma sociedade do egoísmo, onde os ricos tomaram conta do poder através do BCE. Ele, não sendo um revolucionário, pouco pode fazer, a não ser caldeirar as privatizações e chatear os ricos através do MP. Porém, ao contrário de muitos comentadores, e do que se diz dele, o PM compreende muito bem a situação.

Vêem como é fácil perceber estas coisas?

A classe média está muito habituada a que tudo seja gerido em função dos seus interesses imediatos; é por isso que há tanta pobreza, tantos descartáveis. Os 40% de abandono escolar nunca incomodaram a classe média, pelo contrário. Para a classe média, medidas para combater a desigualdade sempre foram encaradas como “irem-lhe ao bolso”. As pessoas com contratos de trabalho cheios de direitos sempre se estiveram nas tintas para o facto de as leis laborais implicarem que quem não tenha contrato fique condenado a ser precário toda a vida. Os ativos agora acham que estão a sustentar os reformados e estão disponíveis para destruir o sistema da segurança social porque no momento isso lhes parece vantajoso para eles. A SS não tem lugar numa sociedade Egoísta. Os ricos não são pessoas diferentes das da classe média; trataram de agarrar o poder, tiraram o Banco Central da dependência do poder político, controlado pela classe média, e agora gerem em função dos seus interesses.

Poder-se-ia pensar; ah, então há que mudar este estado de coisas, retirar o poder económico aos ricos, devolvê-lo à classe média! Isso pode ser feito mas:

Com o poder nas mãos, a classe média faz aquilo que os ricos estão a fazer: procura sugar para si toda a riqueza. Penaliza a iniciativa, estagna a sociedade, explora os “descartados”. Além disso, para inverter as coisas precisaria do apoio dos “descartados”; só que para estes tanto lhes faz o poder ser da classe média ou dos ricos – até preferem que seja dos ricos, que são dados à caridade...

O problema não está na economia, nem está em quem a comanda; está no facto da sociedade ser gerida pelo Egoísmo, que é a solução simplória para a busca do interesse individual.

Portanto, estar a discutir economia é muito importante para a classe média perceber como pode readquirir o poder mas não resolve o problema de fundo; é a base ideológica da sociedade que interessa discutir. Sociedades construídas na base do Egoísmo vão de crise em crise.

Isto é sabido há muito, há milénios. Vamos enquadrar esta questão e perceber porque é que é a teoria da evolução das espécies é a pedra angular da situação atual.

(conclui no próximo)

28 comentários:

vbm disse...

Interessante, a aritmética das proporções eleitorais da exploração estável e seus pontos de ruptura. No entanto, a guerra é historicamente, e mantem-se como tal, o factor redistributivo do poder de comando mais determinante quer no curto quer no médio prazo.

A ver vamos, como evoluirá (des)união europeia; a américa norte-americana crescentemente hispanizada e africana; a américa católica sul-americana; o «tsunami» bantu de áfrica; a plutocracia pós-soviética; o capitalismo de estado chinês; a índia do oceano índico; o oligopolismo do petróleo árabe; o capitalismo financeiro judaico; a banca não-regulada do vaticano; a economia nipónica e o sudeste asiático.

{Parece-me que só não listei os oceanos ártico e antárctico, o polo norte e o polo sul, ambos entregues ao degelo progressivo...}

Carlos disse...

Caro alf

Ainda não me esqueci do que estávamos a falar. Tenho umas perguntas para lhe fazer, só que neste momento, o tempo não dá para tudo, estou entalado lá na casa do Diogo a tentar explicar ao Pedro Lopes as diferenças entre individualismo e colectivismo. Ou não estou a conseguir explicar ou ele não está a perceber (lol). Parece o Linux a dialogar com o Windows... lol

“Mas podemos perceber que assim seja, porque ao agirmos em favor da sociedade, ao sermos úteis a ela, passamos a ter valor para ela. Assim, agir em favor do nosso interesse a médio ou longo prazo é agir em favor dos outros a curto prazo; a isto chama-se “altruísmo”. Agir em favor do nosso interesse a curto prazo é “egoísmo”.”
Com a vantagem de sermos úteis à sociedade. Essa apreciação que nos alimenta o ego.

“Assim, agir em favor do nosso interesse a médio ou longo prazo é agir em favor dos outros a curto prazo; a isto chama-se “altruísmo”.”
O altruísta, dá sem esperar algo em troca/retorno. Ora neste caso, ele espera algum benefício/retorno só que a médio ou longo prazo pelas acções que hoje tem. O que você fez foi ter a consciência deste facto.
Penso que continua a ser egoísmo na mesma, ou falso, pseudo, altruísmo. O que o difere do outro é que o resultado das nossas acções não serão imediatas.
Portanto em último caso o egoísmo é sempre bom...

O “altruísmo” é a solução “subtil” para conseguirmos o melhor para nós, ...”

Concordo que se cooperarmos, que se os outros indivíduos que compõem a nossa sociedade, viverem bem, nós também beneficiamos com isso. E se nós estivermos bem, individualmente, a sociedade também beneficia com isso. É/existe uma interdependência, uma mútua dependência.

Jorge Silva disse...

Se ainda não leu, aconselho vivamente a leitura d´O Gene Egoista de Richard Dawkins.

alf disse...

vbm

Listaste quase tudo... faltou-te talvez o mais importante: os nórdicos.

A evolução é um processo que parece fazer-se por saltos; primeiro, surge a diversidade e depois surge um salto evolutivo; o "salto" resulta de uma modificação ter sido capaz de gerar algo claramente melhor e então essa mudança espalha-se.

No caso da sociedade humana, os nórdicos introduziram uma pequenina diferença na filosofia de organização da sociedade; mas essa pequenina diferença acaba por gerar uma sociedade diferente e imune aos problemas que enfrentamos. Por isso, penso que nessa diferença está a semente para um salto evolutivo da sociedade humana.

alf disse...

Carlos

O sentimento de altruísmo que anima muitos de nós não surge certamente por acaso; nem vamos pensar que tenha sido introduzido por mão divina. Então teremos de pensar que ele surge porque é uma aquisição evolutiva, como os nossos olhos, por exemplo. E se é assim, é porque esse sentimento resulta favorável para a Vida e para a Espécie e ainda para o próprio indivíduo, penso que por esta ordem de prioridades.

Tenho um post recente que diz que somos o que nos convém. Ou seja, a nível inconsciente somos guiados para fazermos o que nos convém; e como é que somos guiados pelo inconsciente? pela adoção de regras conscientes de decisão.

Por exemplo, se o inconsciente acha que o que nos convém é uma sociedade em que todas as pessoas são honestas, então nós somos honestos. Estamos genuinamente convencidos de que o somos, de que nascemos assim, de que está nos nossos genes; porém, se as condições se alteram, o inconsciente rapidamente arranja argumentos ao consciente para mandar a honestidade às urtigas.

O altruímo é portanto o resultado de um conhecimento, o conhecimento de que agir em prol dos outros no imediato é a melhor decisão em prol da Vida, da Espécie e de nós a prazo.

O Adam Smith fundou a economia sob o conceito do egoísmo; mas rapidamente se verificou que o egoísmo a curto prazo leva ao desastre e então foram-se inventando outros nomes para ele, como "ganância", "atitude errada", etc

Por exemplo, nos meus tempos de juventude os empregados de café, as pessoas que atendiam os clientes nos bancos, nas repartições, nos correios, etc, eram "egoístas": os seus interesses primeiro, o cliente que esperasse. Hoje, isso mudou completamente, as pessoas aprendem a cuidar dos interesses do cliente ou perdem-no; aprenderam que no curto prazo têm de ser "altruístas". Por outro lado, onde o ter ou não clientes não depende disso, instala-se o egoísmo: por exemplo, se os médicos da caixa têm o mesmo nº de doentes quer os tratem bem ou mal então... receitam muitas análises e medicamentos porque os laboratórios lhes pagam para isso.

Acho que todos percebemos a importância de agirmos de uma forma "altruísta"; a dificuldade está em conseguir isso. O enquadramento das pessoas tem de ser tal que o que lhes convém seja o "altruísmo"; nesse caso as pessoas são genuinamente altruístas.

É aqui que estará o ponto de equilíbrio entre o colectivismo e o individualismo: as regras coletivas fazem o enquadramento que torna as pessoas "altruistas" mas às pessoas é deixada margem de liberdade de atuação dentro desse enquadramento. Definir esse enquadramento é o busílis da questão.

alf disse...

Jorge Silva
Suponho que já li, mas já foi há tanto tempo que nem sei se a ideia que tenho é de o ter lido ou do que li sobre ele; hei-de de ver se o revejo.

De qualquer maneira, aqui vai a ideia que tenho sobre ele: o autor procura explicar múltiplos comportamentos animais com a ideia de que os genes tudo fazem para se reproduzirem, numa ótica estritamente individual. Ora muitos desses comportamentos têm outras explicações mais simples e básicas, outros explicações mais subtis; ou seja, essa não é a única forma de explicar esses comportamentos. Nomeadamente, penso que o objetivo desses comportamentos é mais a espécie do que o indivíduo

No entanto, numa coisa estamos de acordo; os seres vivos adquirem instintos que os levam a comportamentos que servem um objetivo de que não estão conscientes.

No caso deste post, é isso que digo do altruísmo: não nasce do nada, é algo que foi introduzido pela evolução para nos levar ao comportamento melhor serve os nossos objetivos e da espécie.

Os defensores da tese do egoísmo puro e simples têm vindo sistematicamente a encontrar desastres produzidos por comportamentos egoístas, que então batizam com outros nomes para salvar o conceito; o último foi a "ganância" algo que ainda nos anos 80 era vista como "uma coisa boa" e agora como uma coisa má.

Temos de ir pois à raiz do problema: e ela é o "egoísmo".

Mas o egoismo é uma coisa fácil de se entender e definir enquanto que o altruismo é difuso

vbm disse...

Tens razão, alf, é quando uma diferença, por pequena que seja, se revela frutífera ém consequências benéficas que as sociedades evoluem. A história comprova-o com inúmeros exemplos - o da península ibérica, p.e., na navegação trans-oceânica e no povoamento da américa do sul. No entanto, não sei se a "imunidade" dos nórdicos face à crise da globalização económica subsistirá por muito tempo. Por exemplo, a Alemanha nada inovou nos últimos cinquenta anos nos equipamentos electro-domésticos, e agarra-se muito ao fabrico automóvel que tem uma utilidade notavelmente decrescente.

Carlos disse...

Caro alf
“O sentimento de altruísmo que anima muitos de nós não surge certamente por acaso; nem vamos pensar que tenha sido introduzido por mão divina. Então teremos de pensar que ele surge porque é uma aquisição evolutiva, como os nossos olhos, por exemplo. E se é assim, é porque esse sentimento resulta favorável para a Vida e para a Espécie e ainda para o próprio indivíduo, penso que por esta ordem de prioridades.”

“O sentimento de altruísmo que anima muitos de nós não surge certamente por acaso; ...”
Parece-me lógico, concordo.

“... nem vamos pensar que tenha sido introduzido por mão divina.”
Para mim a inquestionável prova de que assim é, ainda não surgiu.
Pessoalmente estou aberto a qualquer hipótese. Em termos de conhecimentos, parece-me que ainda não saímos do berço.

“... nem vamos pensar que tenha sido introduzido por mão divina. Então teremos de pensar que ele surge porque é uma aquisição evolutiva,...”
Se à partida excluímos uma hipótese, por mais improvável que possa ser, limitamos as hipóteses e opções.

“Então teremos de pensar que ele surge porque é uma aquisição evolutiva,...”
Ressalvando o que disse, faz sentido.

“E se é assim, é porque esse sentimento resulta favorável para a Vida e para a Espécie e ainda para o próprio indivíduo, ...”
Suposição, que assenta na peremptória exclusão da hipótese de mão divina, e que devido a essa exclusão, aparentemente, ficamos com uma única hipótese, aquisição evolutiva.
Também penso que é favorável.

Se transpusermos este seu raciocínio para o egoísmo, não teremos de chegar à mesma conclusão?

O sentimento de – egoísmo - que anima muitos de nós não surge certamente por acaso; nem vamos pensar que tenha sido introduzido por mão divina. Então teremos de pensar que ele surge porque é uma aquisição evolutiva, como os nossos olhos, por exemplo. E se é assim, é porque esse sentimento resulta favorável para a Vida e para a Espécie e ainda para o próprio indivíduo, penso que por esta ordem de prioridades.

Carlos disse...

Pessoalmente acho que tanto o egoísmo como o altruísmo são úteis ao individuo. Levados ao extremo são nocivos. Equilibrados são úteis. Se as pessoa forem mais altruístas, poderá ser melhor? Penso que sim.

“Por exemplo, se o inconsciente acha que o que nos convém é uma sociedade em que todas as pessoas são honestas, então nós somos honestos. Estamos genuinamente convencidos de que o somos, de que nascemos assim, de que está nos nossos genes; porém, se as condições se alteram, o inconsciente rapidamente arranja argumentos ao consciente para mandar a honestidade às urtigas.”
Creio que é mais a influência da educação. Parece-me estranho estar a dar um consciente ao inconsciente.
Quem é responsável pelo raciocinar é o consciente. E é ele que tenta arranjar/arranja razões (muitas vezes carecendo de qualquer lógica) para justificar o nosso comportamento.

“O altruímo é portanto o resultado de um conhecimento, ...”
Discordo. É o resultado de um sentimento. Tal como o egoísmo, raiva, amor. E tão raro.

“É aqui que estará o ponto de equilíbrio entre o colectivismo e o individualismo: as regras coletivas fazem o enquadramento que torna as pessoas "altruistas" mas às pessoas é deixada margem de liberdade de atuação dentro desse enquadramento.”

“...as regras coletivas fazem o enquadramento que torna as pessoas "altruistas"...”
Lol caro alf. É verdade que defendo mais o individualismo do que o colectivismo, mas esta foi mesmo para me provocar... fá-los tão altruístas que na ex-URSS até se ofereceram todos para trabalhar para o estado...
O correcto é; impõe um comportamento independentemente de serem ou não altruístas.
Engenharia social?

Carlos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos disse...

Por Flávio Gikovate

Uma abordagem - http://flaviogikovate.com.br/individualismo-nao-e-egoismo-2/

“Reafirmo minha convicção que o individualismo corresponde ao atingimento da maturidade emocional, condição indispensável para o estabelecimento de relações afetivas de qualidade e também o surgimento de um efetivo avanço moral entre nós.”

Outra abordagem - http://flaviogikovate.com.br/individualismo-nao-e-egoismo/

“O individualista tem uma noção clara dos seus limites. Sem essa consciência da fronteira que separa os direitos alheios dos seus, ele não conseguiria se distinguir do todo e perderia seu individualismo.”

alf disse...

vbm

é como dizes, pequenas coisas geram grandes mudanças.

Os "nórdicos" são apenas a Dinamarca, Suécia e Finlândia. Estes 3 é que introduziram uma pequena mudança. A Alemanha não introduziu nada, a ela convem-lhe um sistema que lhe permite ter um ligar acima dos outros, dominar o mundo, não está interessada no desenvolvimento da sociedade humana, apenas no seu protagonismo.

em matéria de desenvolimento, os electrodomésticos já não lhe interessam, o que lhe interessa são os sectores de ponta e críticos. As tecnologias digitais de difusão, que permitem os telemóveis e a TV cabo, por exemplo, foram desenvolvidas por ela. É uma referência em equipamentos de produção.

No que toca ao automóvel, desenvolveu um plano astucioso para dominar o mercado mundial - que é por os chineses a fabricar carros com baixos custos de produção mas que incorporam tecnologia e componentes críticos alemães. Tipo Seat. Através da produção chinesa vão tentar dominar o mercado automóvel em todo o mundo, deixando a europa para a sua produção própria. Ao mesmo tempo, dominam o mercado dos carros de luxo, que vai ser o mercado dos grandes lucros. Quem não tiver um pé neste mercado não vai ter futuro no automóvel. Por isso compraram a Ferrari.

A lógica da Alemanha é a da dominação do mundo; a dos nórdicos é a do desenvolvimento da sociedade, como procurarei mostrar no próximo post.

alf disse...

Carlos

A lógica está muito boa lol! Mas há uma diferença entre egoísmo e altruísmo: o egoísmo é a primeira solução para maximizar o interesse o ser. As crianças começam por ser terrivelmente egoístas. Depois descobrem as vantagens de o não ser. e incorporam esse conhecimento e passam a sê-lo menos.

é por isso que eu digo que o "egoísmo" é a solução simplória para o problema do interesse próprio e o altruísmo a solução subtil, aquela a que se chega depois de verificar que o egoísmo puro e simples não resulta, aquela que já depende de uma experimentaçao e do resultado dessa experiência, aquela que já é fruto de mais conhecimento.

Quanto ao consciente e inconsciente, a descoberta importância do inconsciente foi o grande feito do Freud; o Id e o Ego, ao qual juntou o Super Ego, já fruto da aprendizagem.

Quando olha para o monitor do seu computador, não faz ideia do vai no microprocessador; connosco, o Id domina tudo: toda a informação dos sentidos passa por ele, todas as nossas ideias são postas por ele no campo do consciente, um pouco como o seu computador põe coisas no monitor. O Ego tem o poder, às vezes, de rejeitar o que o Id põe no consciente. Mas está muito limitado porque toda a informação de que dispõe lhe vem via Id. Por exemplo, nós não vemos o que os nosso olhos vêem, mas o que o Id constrói sobre a informação que recebe dos olhos.

Um criativo, um descobridor, aprende a usar os poderes do Id. Não é com a Razão que ele funciona, essa não serve para a descoberta, apenas para organizar o conhecimento. Quase todos os grandes descobridores e criativos referiram isso.

Os nossos sentimentos e emoções são também formas de o Id nos comandar. Ele é que decide se vai aumentar a adrenalina, a endorfina, a ocitocina, etc. Por isso, os sentimentos e emoções são resultado de um conhecimento do Id. Isso é muito claro com o instinto maternal, por exemplo. Ele funciona através de emoções (e não só). Só aparece com os répteis mas só nos animais de sangue quente tem expressão significativa. As espécies anteriores têm complexos comportamentos destinados a assegurar a salvaguarda dos seus descendentes mas anteriores ao nascimento e que não são veiculados por sentimentos ou emoções.

alf disse...

Carlos

finalmente, em relação ao enquadramento que nos torna o tipo de pessoas que melhor serve a sociedade, é uma questão de punição / incentivo. Não tem nada a ver com comunismos, colectivismos ou individualismos.

Por exemplo, se no sistema de ensino é indiferente para um professor ter bons ou maus resultados, muitos tornam-se maus professores porque é o que lhes dá vantagem: têm menos trabalho.

Se se organiza os bombeiros por forma a que quando há poucos incêndios os bombeiros são dispensados, então o que convém aos bombeiros é que haja incêndios; idem para a polícia em relação aos criminosos, aos advogados e juízes, etc, etc; se um médico do sistema de saúde tem os mesmos doentes quer os trate bem ou mal, ele trata é de passar imensas receitas porque os laboratórios pagam-lhe para isso; etc

O sistema capitalista não tem resposta para muitas destas questões. Tenta desesperadamente enquadrar as pessoas mas é como reter água com uma rede. O sistema comunista também não.

As coisas só funcionam menos mal quando um grupo de pessoas está sob ameaça e então percebem que têm de ser solidários; é por isso que uma técnica essencial é arranjar um inimigo - sejam os russos, os amarelos, o aquecimento global, o terrorismo, os muçulmanos, os americanos, os judeus, os católicos, etc.

A solução para estes problemas todos depende, como qualquer problema, de conseguirmos uma sociedade com suficiente.. Inteligência! Então, temos de perceber o que é Inteligência, quais são os seus processos, para construirmos uma sociedade que o seja. Daí a enorme importância de percebermos em que se suporta a inteligência da natureza e a enorme influência que tem o entendimento desta na forma como organizamos a sociedade - daí a enorme importância da teoria da evolução das espécies...

alf disse...

Flávio Gikovate

O que diz no link que apresenta é muito interessante e acertado.

Leitura recomendada.

A Inteligência de um sistema é algo que resulta de os componentes desse sistema poderem interagir e gerarem algo com propriedades novas. A consciência da individualidade de cada um, de que cada um tem características próprias, parece maximizar a capacidade de comunicação e interacção entre todos; doutra forma as pessoas fecham-se em pequenos círculos, formando ilhas isoladas que não interagem e, logo, não geram "Inteligência".

Os nórdicos, na busca de uma sociedade Inteligente, apostaram forte no Individualismo, ao contrário dos povos do sul da Europa; assim, os jovens recebem subsídio para irem viver fora de casa dos pais aos 18 anos. A vida académica também se tornou uma forma, em muitos países, de forçar essa maturidade.

No entanto, não devemos opor individualismo aos sentimentos como amor, amizade etc, apenas à versão possessiva, egoísta, dos mesmos. A parte afectiva é crítica para o nosso funcionamento. Há muita confusão sobre o conceito de "individualismo", muitas conotações negativas; não sei se não seria preferível enquadrar o seu conceito de individualismo no conceito de "autonomia"

Também convirá não dar uma visão muito estrita de "generosidade"; conheço pessoas extremamente generosas e no entanto completamente autónomas e não possessivas.

Por outro lado, o individualismo deve maximizar a capacidade de trabalhar em grupo e não ser um obstáculo a tal; ora é muitas vezes entendido como a falta de capacidade de o fazer (por exemplo, nos jogadores de futebol)

No fundo, parece que temos um vocabulário muito estrito, que designa da mesma maneira coisas que são diferentes; os gregos tinham 32 designações para aquilo que agora designamos unicamente como "amor", ouvi dizer.

Eu tenho esse problema com o nome "Inteligência", usualmente associado apenas ao raciocínio lógico.

alf disse...

Flávio

Só um aditamento ao que disse: conheço pessoas generosas mas não em relação a egoístas, ou a processos de egoísmo. Quem é autónomo não se deixa levar atrás das manobras dos egoístas, pelo contrário. Mas aqui talvez se aplique também o seu conceito de "altruísmo", porque são pessoas que são altruístas e são-no em relação a desconhecidos como em relação a conhecidos, sem no entanto alimentarem quaisquer comportamentos egoístas.

Carlos disse...

“E se é assim, é porque esse sentimento resulta favorável para a Vida e para a Espécie e ainda para o próprio indivíduo, penso que por esta ordem de prioridades.”

Significa então que primeiro surgiu a espécie e só depois o individuo.
E quando surge o individuo, depois de ter surgido a espécie, o individuo adquire ao longo da evolução, ou vai-se desenvolvendo ao longa da evolução (?), o altruísmo, com a finalidade de servir a espécie. O benefício para o individuo é secundarizado pelo benefício para a espécie.


Hoje - “finalmente, em relação ao enquadramento que nos torna o tipo de pessoas que melhor serve a sociedade, é uma questão de punição / incentivo. Não tem nada a ver com comunismos, colectivismos ou individualismos.”

Ontem - “É aqui que estará o ponto de equilíbrio entre o colectivismo e o individualismo: as regras coletivas fazem o enquadramento que torna as pessoas "altruistas" ...”

Eu ontem - “O correcto é; impõe um comportamento independentemente de serem ou não altruístas.”
Ao ter escrito impõe, pensei que sub-entendesse que o não cumprimento implica/implicaria punição.
A educação, a cultura, o individualismo, o colectivismo são formas de organizar a sociedade. Como tal, são impostas regras que exigem comportamentos correspondentes.
Também não é só o colectivo, individualmente também temos as nossas regras, criadas e impostas por nós a nós próprios.

O que me parece é que para si é mais importante a sociedade, o colectivo, do que o individuo.
Eu parto do princípio que o individuo é o principal.

alf disse...

Carlos

Eu observo a Natureza e constato que ela dá prioridade à espécie, nomeadamente a descendência é mais importante que os progenitores.

percebe-se: se assim não fosse, para o indivíduo no momento presente seria melhor mas corria-se o risco de não haver indivíduos no futuro.

O facto de nós termos um presente deve-se a muitos sacrifícios dos nossos antepassados em nome de interesses que não eram os seus do momento.

quanto à questão das regras colectivas, eu disse o mesmo por outras palavras: a punição/incentivo resulta da interacção individual e essa é uma componente importante; mas para conseguirmos uma sociedade precisamos de estabelecer regras que se aplicam a todas as pessoas e essas são, portanto, regras colectivas, consignadas nas leis. Ou seja, precisamos de leis adequadas e fiscalização.

isto não tem nada a ver com o sistema político, já existe nas mais remotas tribos. Mas à medida que a sociedade cresce, mais complexa se torna e mais regras são precisas

Um erro cometido foi pensar que as classes superiores faziam as regras para os outros; eles eram a fonte do Bem e do Conhecimento. Assim, eles fizeram as suas regras, de acordo com os seus interesses e em prejuízo dos interesses dos outros.

Em relação à prioridade indivíduo/ colectivo, eu sou muito individualista, não prescindo do direito de ser e fazer o que quiser desde que não prejudique directamente os outros.
Por outro lado, tenho consciência da importância que a sociedade tem para mim; sem ela eu não tenho quase sentido, finalidade, conhecimento; nem recursos para fazer o que faço. Sem uma sociedade organizada, a existência torna-se um inferno de excesso de população e falta de recursos, onde as pessoas têm de matar para sobreviver.

Por isso, a sociedade é muito importante.

os comunismos e as democracias nascem da necessidade das pessoas exploradas se defenderem dos exploradores; eu ainda sou do tempo em que os professores ensinavam na escola que democracia era o governo do demo.

O comunismo, para mim, é uma teoria cheia de erros e que gera uma sociedade da baixa inteligência - eu agora ando nesta, a explorar o tema da Inteligência e penso que devemos desenhar uma sociedade que maximize a sua inteligência, daí o meu interesse nos processos de inteligência.

Somos individualistas mas temos a percepção de que o nosso individualismo não pode prejudicar o edifício que nos abriga; pelo contrário, temos de cuidar dele qb porque é ele que nos permite o nosso individualismo, doutra forma ficamos escravos da luta pela sobrevivência.

Portanto, em conclusão, trata-se de conseguir a sociedade que maximiza a nossa capacidade de sermos individualistas. Defender esta sociedade é, por isso, uma prioridade, pois sem ela não conseguimos dar prioridade ao indivíduo... um paradoxo?

alf disse...

Carlos

Só um esclarecimento: quando digo uma sociedade que maximiza a nossa capacidade de sermos individualistas, este "nossa" engloba toda a gente; e aqui é que está a dificuldade, porque é fácil maximizar a capacidade individual à custa da capacidade dos outros, que é o que se faz, por isso é que surgem os "descartáveis".

Joaquim Simões disse...

Continuo atento, embora em silêncio. Avaliar o grau de realidade da história do capuchinho vermelho para quem ela se resume à que de se fala na dos três porquinhos, exige que se ouça tudo, até aos disparos finais do caçador. Só assim se pode avaliar qual das realidades a que as narrativas se referem tem maior verosimilhança. Infelizmente, cada vez mais se "mandam palpites" antes de tempo, desde a comunicação social até às salas de aula, que ele o que interessa é "aparecer".
Mas, para já, devo dizer que a minha análise em relação ao Passos Coelho é também a minha.
Abraço.

Joaquim Simões disse...

"que a sua análise, em relação ao Passos Coelho é também a minha".
Assim é que está certo. A senilidade não perdoa! :oD

alf disse...

Joaquim Simões

Bem, eu também mando muitos palpites... mas se o meu amigo pensa o mesmo que eu em relação ao PM, isso é uma boa indicação! mas também já tenho feito outras interpretações dos estranhos procedimentos e afirmações do PM e de membros do seu Governo, não ponho as mãos no fogo por nada.

O importante mesmo, para mim, por agora, é mostrar que uma democracia como estas conduz fatalmente à exclusão de 1/3 da população. Isso não é aceitável para mim mas é do agrado de 2/3, logo difícil de mudar. Felizmente, há quem tenha mostrado que há solução para isso.

Carlos disse...

Caro alf

“O facto de nós termos um presente deve-se a muitos sacrifícios dos nossos antepassados em nome de interesses que não eram os seus do momento.”
Se considerarmos que não é do nosso interesse deixarmos algo aos descendentes. Penso que há vários tipos de interesse, que nem sempre parecem, ou à primeira vista parecem não ser coincidentes.

“percebe-se: se assim não fosse, para o indivíduo no momento presente seria melhor mas corria-se o risco de não haver indivíduos no futuro.”
O que está a acontecer com o envelhecimento da sociedade portuguesa, penso que em parte pode ser explicado, por pôr um determinado interesse à frente doutro. O bem-estar no presente em relação a uma possível “extinção” dos portugueses (é uma exagero mas foi o melhor exemplo que agora encontrei).
O que me parece é que dependendo da situação que se vive, uns interesses podem ser suplantados, em termos de importância momentânea, por outros. Neste caso, e neste tempos, o interesse de bem estar suplanta o interesse de deixar descendência.

“...um paradoxo?”
Não acho. É uma relação tão interligada, de tal maneira interligada que permite muitas das confusões que à volta dela se criam.

Sempre achei deplorável e contraproducente, quando se excluem partes duma sociedade para se escolher para a “maioria” dessa sociedade. Por isso uma sociedade não pode ter descartáveis. Concordo consigo.

Caro vbm
Resolvi pedir emprestado uns livritos que Adam Smith escreveu e ando a passar-lhe os olhos. Você e o alf andam a criar-me cabelos brancos.:)

Parece que vou percebendo aquela “coisa” da mão invisível... faz-me lembrar um pouco quando à uns séculos se atribuía as trovoadas à ira de Deus... :0

vbm disse...

A metáfora da mão invisível é muito enfatizada e denegrida por uns e outros. E no entanto, na sua singeleza, apenas destituiu séculos de retórica de benevolência para com o próximo, ao valorizar a utilidade social de cada um se empenhar na perfeição do seu próprio trabalho, social ou artisticamente necessário ou admirado.

Paulo Monteiro disse...

Tenho vindo ler os posts mas não tenho comentado à espera da conclusão. Agora que a semi-conclusão chegou vou dar a minha opinião. Não tenho nada a contrapor ao que foi escrito, com excessão à compaixão expressa (pareceu-me, talvez esteja enganado) pelo Pedro Passos Coelho. Eu nunca pensei que ele fosse incompetente nem estúpido. Na televisão falam como se o governo estivesse estupida e teimosamente isolado, mas isso são os papagaios da televisão e só lhes dá ouvidos quem quer. Se isso fosse verdade muitos (no governo) teriam mudado de ideias. Muitos dos que comentam isso fariam o mesmo se estivessem lá. O governo está como sempre esteve a trabalhar para o exterior e Pedro Passos Coelho e todos que o rodeiam estão simplesmente a ser também egoístas porque o que lhes convém é servir a União Europeia. Isso é o que lhes garante a vida sem muitas chatices, com a única chatice que são os insultos da populaça. Claro, que como tu dizes, se fossem revolucionários mandavam a União Europeia às couves e faziam pelo seu próprio país, mas como não são, afundam o país CONSCIENTEMENTE e ainda recolhem apoio de muita gente porque estão a fazer-se passar por formiguinhas poupadinhas que vieram por ordem na casa depois de anos e anos de cigarras desgovernadas no poder. Num país de gente inteligente PS e PSD já apareciam em último lugar nas sondagens mas o melhor que aconteceu foi uma descida ao 2º lugar do PSD. Não tenho pena do Passos Coelho nem acho que ele esteja a fazer nada de sensato. Se não há nada a fazer não tivesse ido para lá. Está lá a trabalhar para si mesmo e não tem escrúpulos, mentiu para poder ir para lá trabalhar para os papás de Bruxelas, tal como o menino-leca do Gaspar e o mafioso-chunga do Relvas. Mas não tenho ódio a esta gente nem perco tempo a insultá-los em manifestações. No fundo são gente insignificante, são arrivistas só, mais nada. Nós é que não devemos esperar que esta gente mude as nossas vidas nem permitir que as nossas vidas dependa deles. Agora, o busílis da questão é o grande poder, a centralização cada vez mais evidente. Mas o problema é que o pensamento dominante na maioria das pessoas, é a do 1/3 dispensável, a do H+S, ou seja, a normalização da estupidez aconteceu. Este negativismo, esta mediocridade é aquilo a que as pessoas chamam realidade, e tudo para além disto é, pensam elas, devaneios. Quantas vezes ouvimos dizer que a vida é uma luta pela sobrevivência? Que cada um tem de fazer pela sua vidinha? Para que somos nós racionais então, se na prática, temos de continuar a ser e temer ameaças, como os animais irracionais? Porque continuamos a viver na lei da selva? Já deste a resposta nos teus posts. Pior é que pensar assim é visto por todos como um acto de sensatez e bom-senso, enquanto quem se preocupa com os outros passa por ser pato.

alf disse...

Carlos

Já que anda nas leituras, encontrei cá por casa um livrito que comprei na feira da livro mas que ainda não tinha lido; e não é que estou a achar o livro muito interessante? Recomendo. Chama-se: "50 ideias economia que precisa mesmo saber", da Leya / D. Quixote.

outro livro que me estão a recomendar é "23 coisas que nunca lhe contam sobre a economia"

quanto ao resto... estamos de acordo!

alf disse...

vbm

é isso mesmo; é uma ideia revolucionária na época mas que depois foi desvirtuada para servir a lógica do egoísmo; vê se concordas com o que digo a propósito no post seguinte

alf disse...

Paulo Monteiro

Se vires o post a seguir, até parece que foi escrito por ti... pelo menos, quando li o teu comentário, senti que exprimiste o que penso melhor do que eu seria capaz. Verás que há muitas semelhanças entre este teu comentário e o post seguinte, embora já estivesse escrito quando li o comentário.

Gostei especialmente deste raciocínio:
"Quantas vezes ouvimos dizer que a vida é uma luta pela sobrevivência? Que cada um tem de fazer pela sua vidinha? Para que somos nós racionais então, se na prática, temos de continuar a ser e temer ameaças, como os animais irracionais?"

nem o Carlos construiria uma lógica mais perfeita!

O problema é que a lógica é irrelevante, funcionamos com base em crenças e em raciocínios simplórios e não na lógica mais subtil; é por isso que eu quero atacar as crenças e as "verdades simplórias" com que os senhores do mundo o vão mantendo ao seu serviço.