terça-feira, abril 02, 2013

A Afectividade serve a Evolução






Observem a fascinante sequência de operações realizadas por este vírus (todos os vírus têm processos de complexidade semelhante); dado que um vírus está para uma célula como um barco a remos está para um porta-aviões, podemos perceber que as células desenvolvem operações de uma complexidade avassaladora.

(continuação da conversa com o Hans, interrompida pelos últimos 2 textos) 
- Sim, sem dúvida que é esse processo, H+S+R, o responsável pela evolução tecnológica, mas tem por detrás a inteligência humana; como é que passas daí para a Evolução da Vida sem meteres uma inteligência exterior, um Criador?

- Estás certo, a evolução tecnológica resulta de um processo de Inteligência que é exterior ao que evolui. Porém, isso, parecendo pertinente, é um falso problema pois a Inteligência ser exterior não é relevante, o que é relevante é que exista um processo de inteligência capaz de suportar a evolução observada.

- Então era preciso que a Vida fosse Inteligente, mas isso parece-me um salto muito grande, não estou a ver as nossas células a desenvolverem processos H+S+R... ainda se fosse só H+S como o Darwin propôs... mas como é que a célula pode adquirir o conhecimento resultante de uma experimentação? Não estou a ver...

 - O nosso cérebro também realiza esse processo H+S+R sem precisar de uma inteligência exterior sempre que temos de resolver um problema novo. Uma estrela-do-mar também e não tem cérebro. O cérebro tem Inteligência, é um sistema organizado para maximizar essa capacidade, mas a Inteligência não é exclusiva do cérebro.

-Sim, eu sei o que pensas sobre o assunto; mesmo assim não estou a ver como uma célula pode realizar um processo H+S+R...

- Bem, as bactérias realizam-no, não é? Encontram soluções para os seus problemas ambientais, adquirem esse conhecimento e transmitem-no umas às outras. Na verdade, as bactérias realizam também processos de inteligência de nível 3, mas isso veremos mais adiante. Em relação a este nível 2, o H+S+R, nas células passa-se algo semelhante ao processo que o cérebro desenvolve: a célula gera mudanças no código genético e seleciona uma que seja viável, ou seja, que gere proteínas viáveis e que seja compatível com certos equilíbrios, tal como o inconsciente escolhe uma hipótese que esteja de acordo com as suas verdades; depois nasce um ser com esta modificação, esta “Ideia”. Ela determina uma pequenina mudança no ser, nada de dramático, nada que o ponha em causa. Durante a sua existência, o ser verifica se esta diferença para os seus semelhantes lhe traz vantagem ou desvantagem e de que tipo. Esta informação é adquirida pelas células, elas estão todas em permanente comunicação umas com as outras, dispõem de um complexo e sofisticado sistema de comunicações, é esse sistema que permite, por exemplo, que cada célula saiba a função que lhe compete no organismo.

-Ok, eu sei que têm esse sistema, mas e daí?

- Daí, as células reprodutoras recebem essa informação e ela vai condicionar a modificação seguinte a efectuar pelas células reprodutoras; o próximo descendente nasce equipado com a segunda Ideia. – Fiz uma pausa, aguardando a reação.

- Beeemm… não me parece disparatado de todo… tenho lido umas coisas sobre a epigenética… creio que já li um texto teu sobre a Evo-Devo... há muito quem pense que a experiência de vida dos progenitores pode influenciar as características dos descendentes…

- De várias maneiras até, mas o que interessa agora é o seguinte: tal como a primeira ideia que temos para resolver um problema é normalmente má, também a primeira modificação, mutação, tem consequências desfavoráveis para o ser; o processo de Inteligência precisa de recolher informação sobre essas consequências e gerar uma segunda “ideia”, ou seja, uma segunda geração. Para que isso seja possível, é indispensável que este ser mutante e menos apto se reproduza. Se existisse algo como a Seleção Natural, o processo de Inteligência H+S+R não poderia funcionar porque não haveria uma segunda “ideia”, ou seja, uma segunda geração; a reprodução é essencial e a seleção é de todo indesejada no nível 2, a natureza não quer fazer seleção nenhuma dos seres. A sobrevivência ou não, a reprodução ou não, é sobretudo um resultado das circunstâncias, um acontecimento aleatório, irrelevante para a evolução; na verdade, uma inconveniência para a evolução.

- Ena, com essa estás a cilindrar-me!!!! O Darwin disse o oposto!

- Já vamos ao Darwin – ri-me – Estamos a chegar à parte verdadeiramente interessante; ora repara ainda no seguinte. Fiz uma pequena pausa, precisava de beber água, pedi outra garrafa. Enquanto não chegava, continuei:

 - Essas pequenas modificações têm minúsculas consequências; se o ser vive folgadamente, sem ter de se esforçar, de se levar aos limites, os efeitos das modificações não são detectáveis, não há realimentação, o nível 2 não funciona. Portanto, os veículos especialmente úteis ao processo evolutivo são os seres sujeitos a situações adversas, sobretudo em inferioridade com os seus semelhantes porque o principal fator de stress é a competição com eles. Ou seja, são os seres com alguma inferioridade, nomeadamente mais pequenos, mais frágeis, menos bonitos, etc. Estes são os primeiros responsáveis pela evolução. Portanto, exactamente aqueles que segundo a versão corrente da teoria de Darwin seriam eliminados. A Evolução é obra dos menos aptos, os mais aptos são inúteis para ela.

Os olhos do Hans ficaram esgazeados; senti-me feliz, ele tinha percebido. Entusiasmou-se subitamente:

- Claro! É por isso que a Evolução dispara nas situações de adversidade, porque são aquelas que tornam todos os seres menos aptos, e é essa situação de um ser se sentir pouco apto que força a evolução!

- Exacto. E não só. Quando as espécies estão muito otimizadas para um nicho ecológico, qualquer alteração tem consequências negativas e não há mais evolução. Uma forma de impedir a evolução da sociedade humana é através da discriminação acentuada das diferenças, o que torna os efeitos de qualquer modificação excessivamente negativos e bloqueia o processo evolutivo da sociedade. Alguma adversidade é bom mas não pode ser tal que torne demasiado perigoso para um ser ter alguma mutação. É por isso que as águias só têm um descendente por ninhada.

- O quê? Como é isso?

-Vamos então ao Darwin. Um peixe fêmea pode pôr um milhão de ovos mas só alguns sobrevivem; para o Darwin, os sobreviventes teriam sido “selecionados” mas não é verdade, tiveram apenas “sorte”. Os grandes predadores, ao contrário, geram pouquíssimas crias porque a sobrevivência delas depende muito menos do acaso, da sorte. O número de descendentes parece depender essencialmente da necessidade de fazer face às mortes por acaso (doença, acidente, predadores) de forma a manter a espécie a reproduzir-se. As águias apenas geram um descendente por ano, apesar de porem 2 a 3 ovos, consoante as espécies; mas se nasce mais de uma cria (os ovos caem do ninho, há predadores, nem todos eclodem), então, ou uma das crias assim que nasce atira a outra fora do ninho ou os pais alimentam apenas a primeira nascer; ora se a evolução dependesse de um processo H+S, como proposto pelo Darwin, as águias teriam muitos descendentes, que sobreviveriam até à maturidade, e só aí seriam sujeitos a uma qualquer “seleção natural”. Num processo H+S+R, ao contrário, não é o número de descendentes que mais importa – o que importa é que eles se reproduzam e que a população esteja em equilíbrio com o meio para que a adversidade não seja excessiva.

- Então aquela ideia de que as espécies se reproduzem em grande quantidade para que a Seleção Natural faça a sua escolha não está certa?

- Evidentemente que não; a taxa de reprodução parece ser a adequada a assegurar a manutenção da espécie em equilíbrio com o seu meio e fazer face às suas variações, apenas isso; o milhão de ovos dos peixes ou o descendente único das águias conduzem apenas a isso, nada têm a ver com a evolução. Se tivessem, os peixes estariam em evolução aceleradíssima...

-Estou a ver... mas como encontram as espécies esse equilíbrio reprodutivo?

- Penso que o ponto de equilíbrio é quando a principal causa de morte passa a ser o conflito entre os indivíduos da mesma espécie. Ou seja, aquilo que segundo as ideias correntes seria desejável para promover a seleção é exactamente o ponto de alarme da reprodução. Mas agora chamo-te a atenção para outra coisa muito interessante, a raiz da solidariedade.

- A raiz da solidariedade? Que queres dizer com isso?

- A Evolução depende da sobrevivência dos menos aptos; portanto, podemos esperar instintos que velem por isso, tal como temos o instinto maternal para velar pela sobrevivência das crias. Neste caso, temos a solidariedade e a compaixão. A compaixão funciona a nível individual mas quando os seres se organizam em sociedades, a compaixão torna-se solidariedade, um instinto social. A chave da evolução, seja dos seres vivos ou da sociedade, é a Solidariedade, não é a Seleção. E esta, hem?

- Páaa... com essa impressionaste-me... estás a recuperar o conhecimento dos antigos; afinal, é isso que dizem os livros religiosos... compaixão, solidariedade... estás a falar do Amor nas suas várias formas... estás a dizer que a chave da Evolução é o Amor! O Hans estava entusiasmadíssimo com a sua descoberta.

- Olha, bem visto, não tinha pensado nisso... sim, podemos pôr as coisas nesses termos, o Amor pelos outros é o instinto que suporta a evolução da Vida... bem visto...

- Beeemm, já estou a imaginar umas conversas que vou ter com uns amigos que são grandes entusiastas de Darwin... vão passar-se com essa ideia! O Hans parecia-me já um pouco alegre demais, seria das cervejas? Achei por bem esfriá-lo um pouco:

- Nota que o Darwin não disse asneiras; ele nunca falou da “sobrevivência dos mais aptos”, essa frase nem é dele. O Darwin foi muito mais brilhante do que isso.

(continua)

10 comentários:

Paulo Monteiro disse...

Fantástico! Este texto (explicação) foi daqueles textos (explicações)que nos acendem uma luz interior e nos abrem novas perspectivas sobre o mundo. Há imenso para falar a partir daqui, imenso a desenvolver, uma forma diferente de olhar para cada coisa através desta lógica, e vou fazê-lo quando tiver mais tempo. Por enquanto, obrigado.

Paulo Monteiro disse...

Fantástico! Este texto (explicação) foi daqueles textos (explicações)que nos acendem uma luz interior e nos abrem novas perspectivas sobre o mundo. Há imenso para falar a partir daqui, imenso a desenvolver, uma forma diferente de olhar para cada coisa através desta lógica, e vou fazê-lo quando tiver mais tempo. Por enquanto, obrigado.

UFO disse...

Brilhante meu amigo.
É nas épocas de crise que se dá a evolução (revolução). Quando não há crise apenas repetimos os procedimentos por tradição.
Temos de deixar de sacralizar a noção de 'propriedade'. Por exemplo o software de código aberto está a dar cabo dos sistemas fechados (um dia vamos acordar sem windows, p.ex.) porque de modo livre uns acrescentam ao trabalho (ideias) dos outros e ao melhorarmos os produtos a sociedade fica a ganhar.
A solidariedade é que nos trouxe até aqui. Sem ela cairemos um após outro ao primeiro vendaval. Hoje eu salvo-te a ti, amanhã salvas-me tu, e aumentamos a capacidade de sobrevivência coletiva.
Não é preciso religião para compreender a força, a necessidade, do Amor. O nosso destino apenas interessa enquanto destino coletivo, o futuro dos netos dos nossos netos depende do mundo que formos construindo. Os poucos ricos que para aí andam não interessam nada ao futuro da humanidade, i.e. não acrescentam valor porque se limitam a sentir o prazer do momento. Depois se eles nos tiram o pão da boca a sociedade tem o direito de dizer basta. Como diz a Bíblia 'se uma mão (do teu corpo) te ofende então corta-a'. A sobrevivência da sociedade tem prioridade sobre todas as outras questões.
Se deixarmos o capitalismo selvagem evoluir de acordo com as ideias preconcebidas de que 'the winner takes all' ficamos com todo o presente e futuro da humanidade dependentes de um conjunto limitadíssimo de cabeças. Seria um suicídio coletivo.

Há uns tempos para a aula de filosofia da miúda foi proposto a análise do paradoxo de Heins (ou Heinz, não encontro agora) em que : um farmaceutico descobriu uma cura para o cancro da minha mulher e pede um montão de dinheiro que eu não tenho. Posso roubar ou não o farmacêutico ?
Estranhei que nas propostas de solução não houvesse: - e o farmacêutico pode fazer isso ? É que ele chegou à solução montado no esforço de toda a humanidade que o precedeu. A sociedade terá pago aos professores que lhe deram aulas. etc.. Se ele não abre mão da solução não poderá ser legalmente acusado de negação de ajuda com consequências mortais. etc..

Eu sou um exagerado, deveria ter-me limitado à primeira frase:

Brilhante meu amigo.

vbm disse...

Pouco percebi do vídeo, mas imagino que descreve como as células do organismo segregam imunidade contra agentes, bactérias que o ameacem.

Aceitar / recusar alguém, algo, porventura equivale químicamente a fusionar-se ou não com outra molécula, absorver ou repelir um agente estranho.

Abandonado ou superado o estádio de sexualidade hermafrodita em benefício da heterosexualidade, o caminho abre-se à solidariedade, a intervalos de paz. Até as feras, param para amar!

Bergson tem uma explicação sugestiva de como a religião protegeu e protege a comunidade contra desvios egoístas, e mesmo suicidas, a que a inteligència de alguns indivíduos pode pôr em risco a sobrevivência da comunidade.

Dê por onde der, por muito que a opinião pública clame pelo derrube do “saber” dos economistas, pela razão de miséria que as crises geram, e para lá das simples técnicas especulativas de cálculo de curto prazo, o facto é a economia, enquanto sistema de criação e circulação de riqueza, assentar em bases objectivas que, sublevadas, simplesmente tornam ingovernáveis as populações e as sociedades.

Um dia hei-de entreter-me a enfocar no conceito claro de riqueza criada a evolução da concepção dos fundamentos da economia, desde Quesnay e Smith, a Pareto e Marshall; Keynes, e a temática incontornável da distribuição do rendimento, a sectorização da actividade entre a esfera do bem público e a produção de livre iniciativa privada.

alf disse...

Paulo Monteiro

Obrigado, vejo que apanhou bem o meu pensamento, há muito que caminhar a partir daqui, estou ainda só a tentar ver para além da bruma da nossa ignorância e da nossa arrogância.

alf disse...

UFO

Dizes coisas interessantes. Essa do farmaceutico, por exemplo, faz-me pensar o seguinte: em teoria, em princípio, o que uma pessoa recebe da sociedade deve ser a contrapartida do que ele dá à sociedade.

Por exemplo, se o farmaceutico descobriu uma coisa importante para a sociedade, a sociedade deve recompensá-lo em correspondência.

Só que não é assim. Nós somos é muito egoístas e primários. Então, quando alguém tem algo muito importante para a sociedade, pensamos é que temos o direito a ela e ele não tem direito a nada.

O Enriquecimento, assim, não provém de fazermos algo a favor da sociedade mas de outra coisa: de manipularmos os egoísmos dos outros.

Criamos uma sociedade que não vive pela "lei do mais útil para os outros", que é a lei que comanda a natureza, mas pela "Lei do mais útil para si".

Até agora, não havia crise nenhuma; no entanto, mais de 1/3 dos portugueses já viviam miserávelmente, 40% abandonava o ensino. Mas para os outros, estava tudo bem, estávamos no melhor dos mundos.

Uma das razões do ódio contra o Sócrates foi ele querer mexer nesse 1/3, o que incomodou grandemente os outros, a chamada "classe média", que sentiu os seus privilégios, decorrentes da exploração desse 1/3, postos em causa.

Já devíamos agora ter percebido que ou defendemos uma sociedade em que não há descartáveis ou, no quadro da Europa, fatalmente passaremos a fazer parte deles. Mas não. Onde é que se vai cortar a despesa? Nas prestações sociais é claro!

Estamos a fazer a cama onde nos vamos deitar.

alf disse...

vbm

Na verdade, o vídeo é o oposto do que pensas.

Ele mostra os complexos processos realizados por um simples vírus para entrar numa célula e se reproduzir e voltar a sair dela.

isto é tão sofisticado que é preciso uma enorme Inteligência para o conseguir.

Não é que o virus seja "enormemente Inteligente"; mas é óbvio que há um processo de enorme Inteligência por detrás disto.

Nós estamos presos à arrogância de pensarmos que somos o pico da Inteligência do Universo. Não somos nada, o Universo é muito mais inteligente do que nós, não é um monte de caos e acasos como gostamos de pensar.

Enquanto não percebermos isso, não passaremos de uns ignorantes convencidos, com ideias erradas sobre todas as coisas.

Creio que foi o Salvador Dali que disse: "qualquer avanço da humanidade resulta de um murro na humana arrogância" (ou parecido). Este post é um murro desses.

Quanto à Economia, não invertamos as coisas: o desenvolvimento da sociedade não tem nada a ver com os economistas; os economistas são uma espécie de historiadores daquilo que outras pessoas vão fazendo.

A única teoria que os economistas fazem é saber como é que um pessoa pode ficar mais rica. Eles estão-se nas tintas para a sociedade, abrigam-se debaixo da ideia de que se cada um tratar de si, todos beneficiarão. Essa é um ideia primária, é o que qualquer ignorante pensa.

A prova disso é que não conheço nenhuma teoria económica que pense que o desenvolvimento da sociedade consegue-se se esta actuar pro-activamente no enriquecimento dos mais pobres.

Há pessoas que pensam nisso, a eles se devem as bases teóricas da nossa sociedade, como a ideia da igualdade de oportunidades, e as políticas pró-activas a favor das minorias. Mas essas pessoas não são "economistas".

Quem se preocupa com a sociedade torna-se filósofo ou político ou outra coisa qualquer, menos economista. Conheço até quem se tenha licenciado em economia e depois tenha recusado exercer qualquer actividade como economista exactamente porque a única coisa que resulta dos seus conhecimentos é a capacidade de tirar aos pobres para dar aos ricos. Que pagam belos ordenados aos economistas para isso mesmo.

tenho aí um post em preparação a expor o meu entendimento sobre como enriquecer neste nosso sistema. penso publicá-lo em breve porque me parece que ele esclarece bem porque é que as coisas são como são. Depois me dirás se estou a ser meramente "um chato" ou se tenho alguma razão...

Eu não sei se és "economista" de formação, mas sei que és filósofo de pensamento; eu tb o sou, embora seja "engenheiro" de formação. Não somos o curso que temos, essa é apenas uma das muitas ferramentas que usamos. Quando falo de "economistas" falo de pessoas que não vão além da "ferramenta" que aprenderam a usar.

Fico muito interessado em conhecer o que tens a dizer sobre o que explanas no teu último parágrafo, que se foca sobre o que fazer para conseguir uma sociedade melhor, evolutiva; que é o tema que me interessa, esta minha aparente dispersão é só aparente, está toda centrada nesse objectivo; pois a natureza conseguiu sucesso naquilo que pretendemos para a sociedade humana, Evoluir. Por isso, importa percebermos como é que ela o conseguiu.


vbm disse...

Adivinhava que te iria suscitar curiosidade conseguir filiar na ideia de criação de valor, na produção de riqueza, o olhar sucessivo lançado pelos economistas fundadores desta vilipendiada e vendida disciplina, que na universidades ensinam aos respectivos licenciados, ditos economistas. Dizer mal destes profissionais é tradição secular, e já Marx conseguia, com justiça e justeza, ridicularizar os do seu tempo.

Sim, licenciei-me em economia, mas já há “milhares de anos”, e apenas utilizei alguns dos seus instrumentos de cálculo e análise para o exercício de funções específicas e delimitadas, na indústria metalomecânica pesada, hoje praticamente extinta. E é verdade, como dizes, tenho um gosto inclinado pela filosofia, sempre tive, mas isso não significa que saiba alguma coisa!

Agora, de facto, em vol d’oiseau, é-me possível “alucinar” no conceito de valor, ao longo de Quesnay, Smith-Ricardo, os neoclássicos austríacos, na recorrência das crises de mercado e no intervencionismo estatal de Keynes, e a desembocar na tua iluminada necessidade da elevada produtividade média do trabalho, solvente de uma sustentação módica de grande número de inactivos — na produção, não na actividade e utilidade social —, a que o próprio Estado deve correponder com a produção de bem público, civilizador e desenvolvimentista de cada um e da sociedade no seu todo.

alf disse...

vbm
Sabes, penso que a maneira como as pessoas olham para os economistas depende das épocas; numa época de crescimento, são vistos como os seus promotores, as pessoas que indicam o caminho do enriquecimento; numa época de "vacas magras" equiparam-se aos sacerdotes das religiões antigas, cuja cabeça era cortada por terem falhado a sua missão de intermediação divina.

nestas alturas de crise, nada é tão importante como encontrar um culpado. Os economistas culpam os políticos e todos culpam o Sócrates.

Eu tenho conversado com alguns economistas e percebo que eles não têm nenhum modelo consistente da sociedade, vivem agarrados a princípios, ideias, que não aceitam discutir.

Isso não é um problema dos economistas, é de todos nós, vivemos dependentes das nossas "verdades".

Com os cientistas passa-se o mesmo e a um ponto quase absurdo. Por exemplo, antes das medidas da actividade solar por satélite, os cientistas sustentavam a pés juntos que ela era constante, a constante solar. Uma constante física, tinha de ser senão, segundo o modelo do Sol, ele explodiria. Tive várias discussões por causa disso com cientistas com algum renome.

Ora qualquer radioamador sabe que não é assim; há décadas que se fazem medidas e previsões das variações da actividade solar, cujo conhecimento é fundamental para as comunicações em onda curta e não só; mas para os físicos solares nada disso existia!!! Como é possível?

Mas é! e isto passa-se em múltiplas áreas, as pessoas fazem modelos da realidade, acreditam neles, e depois quando eles não acertam com a realidade nunca pensam que o erro pode estar no modelo. Nós vemos a realidade através de um filtro construído pelas nossas "verdades".

portanto, para discutir os modelos são precisas pessoas que não "acreditam" em modelo nenhum mas que são capazes de questionar tudo; essa pessoa é o "filósofo". Não confundir com o "professor de filosofia" porque esse normalmente é uma pessoa que conhece a história da filosofia, não significa que seja um filósofo.

É nesse sentido que digo que és um filósofo. Ou seja, uma pessoa que pensa sobre os assuntos, não uma pessoa que se limita a aplicar o que aprendeu. Uma pessoa que usa o que aprendeu para pensar, que usa o que aprendeu para gerar conhecimento novo.

e aí tens vantagem sobre mim porque sabes muito mais do que eu sobre estes assuntos. É por isso que eu presto muita atenção a tudo o que dizes, mesmo quando o dizes, no teu jeito delicado, de uma forma muito subtil. Mas, claro, tenho as minhas limitações de tempo e de capacidade, só consigo agarrar algumas das tuas indicações... mas, para mim, tem sido muito útil.

vbm disse...

Isso de ficar "agarrado" a modelos de enormes desvios dos cálculos em relação ao real é só enquanto não se arranja um modelo melhor, que seja coerente com uma interpretação lógica e verosímil do comportamento económico. Não é por preguiça, nem teimosia, nem inépcia. As coisas sem um fio de lógica que as ligue e explique são uma estória sem interesse, assim, como diria o Mário Soares, :)), uma espécie de explicação de "done de maison", Lol