quarta-feira, novembro 07, 2007

A Dúvida é boa companheira

Passou terça-feira na RTP2, mais uma vez, um documentário “científico” analisando as diferenças entre homens e mulheres.

Para além do erro básico de tentar explicar estas diferenças com a experiência de vida dos humanos primitivos, esquecendo que elas têm uma origem muito mais remota – a cadeia de instintos que nos condiciona começou a ser construída com os primeiros seres vivos – esse documentário sistematicamente concluía de acordo com as presunções ancestralmente estabelecidas acerca do assunto.

Um exemplo. Questão: capacidade dos cérebros masculino e feminino para interpretar os sinais dos estados afectivos. Metodologia: a um pequeno grupo de homens e mulheres eram mostradas imagens de caras expressando intensos estados emocionais enquanto um TAC ao cérebro media a actividade cerebral. Resultado: os cérebros masculinos mostravam uma actividade muito superior à dos femininos. Conclusão: as mulheres são muito mais eficientes que os homens na interpretação dos sinais faciais, carecendo de muito menos processamento para a fazer.

Parece evidente a conclusão, não é verdade? Incontestável? Pois isso é apenas o resultado de ela estar de acordo com a presunção que temos sobre o assunto. Vamos já ver como podemos concluir exactamente o oposto.

Um estado afectivo não se resume a ser de “tristeza” (por exemplo). Qual é a intensidade dessa tristeza? É tristeza ou frustração? É devida a uma perda, por exemplo, de um ente querido, ou a um arrependimento? É gerada por acontecimentos relacionados com a pessoa ou resulta da observação de um acontecimento exterior, sem relação com a pessoa? É um estado habitual dessa pessoa ou não? Qual a atitude da pessoa em relação a esse estado afectivo, procura reagir ou não? E como é a personalidade da pessoa? Como são os seus sentimentos? Etc, etc, etc, posso escrever dúzias de linhas com perguntas destas. Uma cara é um livro inteiro sobre a pessoa.

Se o cérebro feminino despachou tão complexa questão com um mínimo de processamento, isso quererá dizer que não analisou nada disso. Limitou-se a identificar a emoção básica aparente. Do livro, leu apenas o título!!!

Portanto, a conclusão será a de que o cérebro masculino é muito mais competente na leitura dos sinais faciais do que o feminino. O que até nem espanta pois sabemos como o instinto maternal tem uma importância crítica nos processos cerebrais femininos – para a fêmea, a interpretação rápida dos sinais básicos das crias é prioritário. Nas crias não há complexos estados de alma a perceber. Os machos, ao contrário, para desenvolverem os seus jogos de poder e de sedução, precisam de uma compreensão muto mais profunda do outro.

Vêm como as presunções nos conduzem facilmente a conclusões erradas? Estão agora convencidos de que a conclusão certa é a que eu apresentei?

Desenganem-se pois! O estabelecimento de duas interpretações diferentes dos factos é apenas o primeiro passo no caminho do conhecimento. Deus é subtil...

As pessoas do teste apenas viram imagens estáticas, fotografias. Pensar que isto é um bom modelo da realidade é mais uma presunção que precisa de ser testada. E se, em vez dos sinais estáticos duma fotografia, se usasse os sinais dinâmicos dum filme, muito mais ricos em informação? E se o cérebro feminino estiver preparado para interpretar os sinais dinâmicos e não os estáticos? Os resultados podem agora ser ao contrário!! Até podem ser iguais nos dois sexos, conduzindo a uma nova conclusão.

Isto concluiria o nosso estudo? Claro que não! Quem disse que um filme é um bom modelo da realidade? Há que pôr as pessoas em presença. Outros mecanismos podem então entrar em acção. Por exemplo, os Inconscientes das pessoas talvez tenham processos de comunicação que desconhecemos. Processos que permitam a uma pessoa saber muito mais acerca de outra do que a lenta interpretação dos sinais faciais.

Transmissão de pensamento? perguntarão, admirados! A Ciência já provou que isso não existe!! Pois provou – provou que as pessoas não parecem ser capazes de transmitir imagens ao nível do Consciente. Isso dava muito jeito aos espiões. Seria útil... Mas não investigou se o Inconsciente é ou não capaz de comunicar independentemente da vontade e do Consciente. Será, não será?

Se for, então talvez uma outra conclusão surja – a de que os cérebros femininos são mais capazes de obterem informação relativamente ao outro através de comunicação inconsciente, por isso não dependem tanto do processamento da informação visual. O cérebro masculino, ao contrário, tem de depender mais desta. Assim como um cego tem de depender do processamento auditivo porque lhe falta a vista.

Mas porque o inconsciente masculino haveria de ter esta capacidade menos desenvolvida que o feminino? Será que é mesmo assim? Ou será que nada disto tem a ver com capacidades mas com objectivos de momento, determinados pelo enquadramento social? Será que este enquadramento moldou os cérebros irreversivelmente na infância ou não? Ou é genético? Será que é alterável no espaço de duas gerações ou não?

Vêm onde nos conduziu termos começado a duvidar? Perdemos uma certeza muito cómoda mas provavelmente errada. Somos agora um mar de dúvidas. Mas entramos no caminho do conhecimento. Só por termos pensado um pouco sobre o assunto, temos uma compreensão muito maior. A Dúvida é boa companheira...

Olhando para o começo do texto perceberão agora como é simplória a conclusão que o tal documentário apresentou. E como é fácil sermos induzidos em erro através de processos simplórios que vão de encontro às nossas crenças, medos, instintos... e como é possível moldar os comportamentos sociais usando a “pseudo-ciência” como dantes se usava a religião... e como o Universo é desafiante, interessante, subtil...

13 comentários:

antonio disse...

Oh! Alf você andou lá bem perto. É óbvio que o cérebro masculino é muito mais competente na leitura dos sinais faciais do que o feminino, é uma questão de mera sobrevivência! Doutra forma como poderíamos entender as mulheres e o seu ciclo de humores? Ou pelo menos defendermo-nos.

Estaríamos perdidos! Julgo que a própria existência da humanidade estaria em perigo.

indomável disse...

Antonio, Antonio...

A minha ingenuidade não me permite responder como pretendia. Digo apenas isto - pormenores - atenção aos pormenores...

Estou a dizer isto baixinho, muito baixinho para que os homens da sala possam entender.

As mulheres dão atenção aos pormenores! Isto não é uma verdade absoluta, é apenas uma constatação de alguns anos de experiência e partilha de informação.
Uma amiga vira-se para a outra e diz - Eh pá, tu hoje não estás bem, o que se passa? - Nada! Porque é que dizes isso? - Porque a tua expressão não é a mesma, pareces mais abatida, o brilho dos teus olhos não está tão intenso hoje... - Oh! Tive uma discussão com o Pedro ontem à noite! - Aha! Eu sabia!"

Chega a casa e o Pedro dá-lhe um beijo sem sequer olhar para ela. Diz-lhe "Estás melhor? - Acho que sim... - Pareces-me bem disposta. Tens alguma coisa diferente... foste ao cabeleireiro?"
Ela olha-o furiosa, prestes a espetar-lhe com uma cadeira pela cabeça abaixo. As palavras saem-lhe num tom baixo e grave "Achas querido? Talvez seja porque estive a tomar um café com o meu ex. Soube-me tão bem!"

Pormenores, meu caro Antonio. É preciso saber vÊ-los, mais do que olhá-los. Descodificar uma mensagem implica que saibamos o significado dos sinais. Sei por experiência e partilha de informação que as mulheres sabem fazer isso.
E os homens? Saberão?...

antonio disse...

Indy, nesta guerra não cedo informações ao inimigo.

Mas já agora tenho tentado convencer as cabeleireiras a instalar um sistema de SMS que pode ser sobrescrito pelos maridos. Assim pelo valor de uma assinatura mensal, o marido recebe um SMS, com o resumo dos trabalhos executados.

Deste modo, quando este chega a casa, pode exclamar: querida! Esse corte fica-te a matar, ou gosto desse teu novo tom, hoje a tua cabeleireira excedeu-se, etc…

Enfim, para não passar por ela sem nada detectar…

Anónimo disse...

Obrigada por reponderes tão prontamente à minha pergunta!
Indomável

Tarzan disse...

Alf,


mais brilhante é difícil. Parabéns pela posta.

Raiz de Carla disse...

António, peço desculpa, mas acho que é uma vergonha que o marido precisse de subrescrever uma assinatura para receber sms da cabeleireira da esposa para saber se a esposa foi ao cabeleireiro...
Estas coisas têm que reparadas pelo marido e os elogios têm que ser espontaneos...

Joaquim Simões disse...

Vi para aí metade do documentário e aquilo era um disparate pegado, na linha do tipo de investigação mais básica que se faz nos EUA! Cientificamente lamentável, mas acessível adequado às massas que se pretende manter no obscurantismo. And that's all folks!

Range-o-dente disse...

Eu vi um desses programas em que ... mediam a quantidade de bufas geradas pelo homem e pela mulher ...

Muito educativo: a gaja usada como cobaia era podre de boa.

.

indomável disse...

ó range-o-dente,

se a gaja usada como cobaia era podre de boa e o documentário tratava de um estudo que visava medir a quantidade de bufas geradas pelo homem e pela mulher... isso não estragou a tesão?
É que convenhamos, enquanto a imagem se mantém imaculada, ainda se consegue fanatsiar com algo perfeito... mas assim que se avança para os gases... É que não habia mesmo nexexidade!

alf disse...

Nada como estas guerrinhas entre homens e mulheres - é preciso ser-se mesmo estúpido para fazer documentários a tentar pôr tudo preto no branco, não vos parece?

Eu também vi esse das bufas. Não Indy, não tira a tusa ehehe... só me admirei com uma coisa: se o volume de gases é o mesmo, como é que voces, meninas, disfarçam tão bem que nunca são apanhadas num descuido?

Joaquim Simões disse...

É um facto: a humanidade tem um problema em aceitar que merdeja, sem perceber que é isso que faz com que seja humanidade! Um inocente peido e lá vem a tragédia!
Estamos metidos na tirania (ariana)da visão como o sentido nobre, que repele o belo visual associado ao mau-cheiro, ou seja, estamos intelectualmente descentrados - com todos os falsos conflitos que isso acarreta. É claro que o Buda sempre se peidou e Cristo, embora Roma tenha arranjado um dogma que o nega, também. Quanto a Muhammad, como não me quero meter em sarilhos, digo desde já que não.

Joaquim Simões disse...

É um facto: a humanidade tem um problema em aceitar que merdeja, sem perceber que é isso que faz com que seja humanidade! Um inocente peido e lá vem a tragédia!
Estamos metidos na tirania (ariana)da visão como o sentido nobre, que repele o belo visual associado ao mau-cheiro, ou seja, estamos intelectualmente descentrados - com todos os falsos conflitos que isso acarreta. É claro que o Buda sempre se peidou e Cristo, embora Roma tenha arranjado um dogma que o nega, também. Quanto a Muhammad, como não me quero meter em sarilhos, digo desde já que não.

Joaquim Simões disse...

É um facto: a humanidade tem um problema em aceitar que merdeja, sem perceber que é isso que faz com que seja humanidade! Um inocente peido e lá vem a tragédia!
Estamos metidos na tirania (ariana)da visão como o sentido nobre, que repele o belo visual associado ao mau-cheiro, ou seja, estamos intelectualmente descentrados - com todos os falsos conflitos que isso acarreta. É claro que o Buda sempre se peidou e Cristo, embora Roma tenha arranjado um dogma que o nega, também. Quanto a Muhammad, como não me quero meter em sarilhos, digo desde já que não.