segunda-feira, outubro 01, 2007

Homo Sapiens Societaris


Tulito, já percebi porque é que os humanos ainda têm um conceito do Universo tão atrasado.

Porque são muito estúpidos?

Lá estás tu! Estupidez não pode ser a resposta: a tecnologia deles impressiona!

Está bem, está bem, não resisti a ser engraçado, já sabes como sou, Alita. Conta lá.

O cérebro deles tem uma curiosa propriedade: os seus circuitos neuronais são moldados pelas coisas em que acreditam.

Como é isso?

Quando o cérebro deles aceita uma coisa como verdadeira, todas as hipóteses geradas pelo seu inconsciente passam a ter que satisfazer essa “verdade”. Ora em vez do cérebro continuar a gerar múltiplas hipóteses e depois analisar e rejeitar as que contrariam essas “verdades”, ele cria ligações neuronais que só permitem a geração de hipóteses compatíveis com essas “verdades”. Digamos que a rejeição de hipóteses “falsas” é feita logo ao nível do “hardware” e não por “software”.

Portanto, estás a dizer que, contrariamente a nós, a estrutura física do cérebro deles depende das coisas em que acreditam?

Exacto. É uma forma de o cérebro conseguir ser mais eficiente. Quando a sobrevivência pode depender da rapidez de decisão e o cérebro ainda é relativamente lento, esta solução permite maior rapidez de decisão, maior eficiência.

Então é uma vantagem?

É uma forma de tornar o cérebro mais eficiente em situações rotineiras, vantajosa nas espécies inferiores, mas tem um grave inconveniente quando se trata da espécie mais avançada.

Qual?

O seu cérebro fica moldado pelas “verdades” em que acredita. Fica incapaz de gerar hipóteses contrárias a essas “verdades” e incapaz de entender qualquer ideia externa que as contrarie.

Ahh, estou a perceber o problema... as “verdades” deles podem não ser verdades nenhumas e o cérebro deles fica prisioneiro de crenças erradas, impossíveis de corrigir porque moldadas no próprio “hardware” do seu cérebro.

Exactamente. Mas nota que isto também acontece connosco, esta é uma propriedade geral dos seres vivos. A diferença está em que neles esta plasticidade cerebral é muito mais marcada do que em nós. Na espécie dominante esta característica deve regredir, foi o que aconteceu connosco, mas neles aumentou.

E porquê?

Eu penso que terá a ver com uma longa fase de sobrepopulação com que tiveram de viver; a organização em grupos dava vantagem, tanto maior quanto maior o grupo. Porém, para conseguir grupos grandes e coesos era necessário uniformizar o pensamento.

Estou a ver, estou a ver: os que têm um cérebro menos moldável perdem-se em dúvidas, contestam as ordens dos chefes, não aderem a grupos, acabam preteridos pela sociedade deles.

Certo. Os humanos com cérebros menos moldáveis terão sido descriminados negativamente, a sua sobrevivência e reprodução foi pior do que a dos “moldáveis”.

Estou a ver: as sociedades deles criaram uma pressão evolutiva que favoreceu a capacidade de ser moldado pelas ideias, ou seja, de ser crente. Crente no sentido geral, não me refiro ao aspecto religioso.

Exacto. Já viste os animais domésticos deles? Os cães?

Sim. O que têm?

Os cães descenderão do lobo mas foram sucessivamente seleccionados para servir o humano. Assim, a generalidade dos cães está geneticamente condicionada para viver com os humanos, para os servir, para os adorar, para recorrer a eles na resolução dos seus problemas.

Estou a compreender. As sociedades humanas fizeram aos humanos o mesmo que os humanos fizeram aos lobos.

Aproximadamente. E daqui resultam dois graves problemas. Um deles é responsável pelo atraso científico dos humanos, o outro pela facilidade com que são manipuláveis por ideias completamente erradas. E descobri que este último problema pode ter uma consequência inesperadamente séria, muito mais grave que o Evento Solar que aqui nos trouxe. A sua alta capacidade tecnológica associada a esta limitação pode causar um estrago definitivo à vida no planeta fora dos oceanos.

De que estás tu a falar?

Ah ah, já vi que prendi a tua curiosidade! Deixa-me começar pelo problema responsável pelo atraso científico.



Foto: S. Roque e o seu cão, Praga (da Wiki)

18 comentários:

indomável disse...

"As boas opiniões não têm valor. Depende de quem as tem"
Começo este comentário com a citação de hoje. Na verdade, ela tem muito a ver com o teu post Alf. Estamos de tal forma condicionados pelo que nos diz a sociedade, que nos esquecemos que uma opinião vale mais do que a pessoa que a diz, deve em primeiro lugar, valer pelo seu conteúdo, pela lógica que transmite, pela justificação ou falta dela!
O nosso hardware vê aquilo que se lhe mostra... será isto?
Vemos a poluição e dizem-nos - os deuses da ciência - que é culpa do CO2. Fazemos amén e curvamo-nos perante a sua sapiência e sob o jugo da nossa própria ignorância. Atenção, ignorância entenda-se aqui como a aceitação tácita de tudo quanto diz um cientista. Mas voltando atrás alguns posts e revertendo para o que aprendi nos bancos de escola, de facto onde estaria a vida na terra sem esse gás que nos impingem como o assassino da vida no planeta?
Só não entendo uma coisa, se mais ignorante é aquele que não quer ver, como é que toda a comunidade científica pactua com semelhante acto de cegueira mundial? Não deveriam ser eles os primeiros a querer clarificar o estado de coisas?
Ingenuidade? Pois é... é ela a culpada de andarmos todos como um rebanho à mercê de um grupinho todo poderoso.

Tarzan disse...

Belíssimo post, alf!

E já podemos ler acerca de um tal "Evento Solar". Isto promete...

alf disse...

Indomável parece que estamos num momento de grande inspiração, a começar pela frase de hoje do citador - não podia ser mais a propósito - e continuando com o teu comentário.

Tudo o que dizes está certinho e a pergunta que colocas é crucial. "Como é isto possível?" é uma questão que muito me tem angustiado. Creio ter descoberto parte da resposta, e uma parte dessa parte comecei a apresentar nesta conversa "extraterrestre".

Todos os anos, em Agosto, circula um email a anunciar que, no dia tal, Marte irá surgir nos céus do tamanho da Lua. Uns segundos de raciocínio é tudo o que é preciso para perceber que isso é um disparate. No entanto, as pessoas acreditam sistematicamente nesse email. Mesmo quando alguém que até percebe algo do assunto como eu lhes diz que isso não é verdade. Ora porque é que as pessoas reagem desta maneira?

... a ver num próximo post...

Por outro lado, as pessoas acreditam naquilo que lhes convém ou desejam; é por isso que é fácil vigarizar as pessoas. Este é outro aspecto da questão.

Mas o que eu exponho neste post não é ainda a explicação da razão pela qual as pessoas acreditam sem analisar, é antes a explicação do facto de as pessoas não poderem mudar de opinião em relação a uma ideia em que já acreditaram - acreditaram, o seu cérebro fica "moldado" pela ideia, implantada no seu hardware, e todos as ideias contrárias passam a ser entendidas como disparatadas, falsas, hereges, agressões ideológicas mal intencionadas porque obviamente erradas.

Só podemos evitar isto se formos capazes de questionar continuamente todas as ideias para as não deixar "entrar" na nossa cabeça e moldar os neurónios. Já Descartes o dizia. O que, convenhamos, é muito pouco prático e complica a nossa relação social... por isso não o fazemos. Quem o faz dá-se mal.

alf disse...

Obrigado Tarzan. Estamos mais próximos do destino não é? A paisagem começa a ter outros contornos, certo? Eu penso que a paisagem que vamos descobrir irá ser cada vez mais fascinante...

alf disse...

Indomável

Como ilustre conhecedora do sistema de ensino em Portugal, venho trazer-te algumas reflexões:

Um sistema de ensino deveria, em princípio, fomentar o desenvolvimento da "inteligência", ou seja, a capacidade de resolver problemas novos, a aquisição de capacidades de geração de hipóteses e de análise e selecção.

Mas sabemos que o sistema de ensino faz sobretudo treinamento na obediência (tal como se treina um cão) e o desenvolvimento da "memória", ou seja da capacidade de admitir como verdade tudo o que um "mestre" diz.

Questões:
1 - Se tivesses que atribuir uma percentagem a estas duas componentes do ensino em Portugal - treino da Inteligência versus treino da Memorização - que valores escolherias? (por exemplo, 50% para cada? 10% para Inteligência?)

2- Dizia o Séneca: "Não estudamos para a Vida mas para a Escola". Ou seja, o papel da escola já é criticado desde o começo. Einstein aconselhava os pais a tirarem os filhos da escola. Porque é que as pessoas que se destacaram pela sua "inteligência" tendem a ser tão críticas da escola?

3 - Se treinamos a inteligência descobrindo, não aprendendo, o papel do professor deverá ser o de guia ou o do "ensinador"?

Claro que "guiar" num processo de descoberta é muito mais lento do que um processo de memorização; Mas tem uma enorme vantagem: aquilo que se descobre perdura, enquanto que o que se memoriza desvanece-se em 90%. E, na realidade, 90% do que se aprende na escola é para esquecer - só há uma coisa que se não vai esquecer:o treino de obediência, a crença no mestre. E há uma coisa que se vai perder: Inteligência (ver o post "Um burro carregado de livros").

Fico à espera da tua opinião luminosa.

Anónimo disse...

Luminosa ou não, meu amigo, aqui vai...
Se pensares nisso, chegarás à conclusão que o ensino por atacado é coisa bem actual. Em tempos distantes era o aluno que buscava o mestre, e não o contrário. não haviam mestres à disposição, nem o aluno era obrigado a "aturar" um mestre. A educação, o ensino era algo que um aluno buscava, porque queria aprender.
Hoje tens fábricas, não escolas. Tens hordas, rebanhos, que dizem amén a um professor, não a um mestre. Pior, os rebanhos são feitos mais de ovelhas tresmalhadas, negras, do que de puras ovelhinhas e cordeirinhos que se prestam à obediência.
O professor como guia era o que se usava no tempo dos mestres. Por isso tiveste pensadores, grandes pensadores, que se autonomizaram e superaram o seu mestre. Mas para isso, precisaram de muito mais tempo com ele do que 12 anos, em que tens alunos que conhecem uma infinidade de professores, uns bons, outros péssimos. Não tens um mestre, não tens ujm guia, não tens o aluno a procurar o conhecimento nem o mestre. Tens uma fábrica do "saber" onde é enfiado à força um programa que em tudo está errado, em tudo quer determinar aquilo que o aluno deve saber, não aquilo que ele quer saber.
A escola por atacado tem falhas e mais falhas... mas não é isso que a torna má em Portugal, isso poderá acontecer em qualquer país, o que a torna pior em Portugal, é o facto de ninguém debater isto com pureza, com realidade. Ninguém tem uma ideia definida do que o aluno deve buscar, sobretudo o próprio aluno de hoje não tem uma ideia definida dos seus objectivos de vida.
Há tempos tive uma explicanda que me ouvia durante horas falar sobre filosofia. A sua nota vinha sucessivamente negativa e quando tínhamos a hora de explicação ela ficava embevecida a ouvir-me... dizia depois que nunca teria positiva a filosofia, porque não era tão inteligente como eu. Depois, como não queria que ela se deixasse levar por aquele mau juizo dela própria, fazia-lhe perguntas simples como, porque existes? Para que existe a humanidade? Ou, Para que serve a religião?
Ela respondia às perguntas, (estas são meros exemplos) e eu dizia-lhe que tinha acabado de sumarizar a matéria que dera na aula. Abria a boca e ficava parva a olhar para mim. Dera-lhe um tema e ela discursava sobre ele! Ficava parva a olhar para mim.
No fim fiquei a entender o que se passa nas escolas hoje... Os miudos crescem sem objectivos de vida. O seu projecto de vida resume-se a ter playstations, televisão, carros, namorados, namoradas, e os pais que lhes pagassem tudo e lhes resolvessem todos os problemas. Tudo se resume a isto.
Eu recordo-me de ser miuda e querer crescer o mais rápido possivel para poder trabalhar e ganhar a minha independência, deixar de ser um peso para os meus pais. O saber viria com o tempo, vem a vida toda. Passamos a vida a procurar os mestres que nos darão o conhecimento que precisamos. A escola é um estádio do nosso caminho, mas tanto o ministério, como os professores, como os pais lhe dão uma importância que não tem, que não deve ter. Eu?
Eu penso que a escola deve existir para poupar tempo, em vez de passarmos uma vida inteira a adquirir o conhecimento que podemos adquirir em 12 anos, poupamos esse tempo para progredir, para ir mais além no resto do tempo.
Os pais e os professores não querem alunos que saibam, querem alunos que tenham boas notas. Uns porque fica bem falar a amigos e vizinhos que o filho tem notas exemplares. A outros porque fica bem no curriculo ter tamanho êxito nas suas turmas...
E os alunos? O que querem eles?
Já alguém parou para pensar nisto?
Indomável

Joaquim Simões disse...

O Agostinho da Silva fartou-se de falar sobre tudo isso, o que respeita à escola. Mas está esquecido. Ofereceu-se para, em conjunto com outros professores, leccionar em universidades criadas pelos próprios alunos e à medida dos interesses e da curiosidade destes. E os alunos (isto foi há uns 20 anos) abriram a boca, mas não mexeram mais nada. No Brasil, pelo contrário, fundou algumas assim e renovou outras. Enfim...
Alf, o post está óptimo.

antonio disse...

Brilhante Alf. Na espécie humana a selecção faz-se pela civilização e não por um processo natural. Já aqui tinha defendido isso, quando referi o papel da mulher na eliminação do papel do macho dominante.

Mas você foi mais longe: agora percebo como é que o Menezes ganhou! É a atrofiação civilizacional e política do nosso cérebro!

alf disse...

Ena Indomável, fervilhas de ideias! Agora é só tentar encontrar respostas para essas perguntas todas e tentar pôr ordem nos raciocínios - acabarás por te aproximar da verdade!

Em minha opinião, se os pais só querem saber das notas é porque têm o "conhecimento instintivo" de que é só isso que interessa da escola - como eu já referi, 90% do que se aprende é para esquecer porque não passa de um saber desenquadrado das preocupações, necessidades e objectivos das pessoas.

No meu tempo dizia-se que não importava que fosse para esquecer, o que interessava era o treino mental que se adquiria. Até é verdade, e por isso mesmo eu penso que se devia dar mais atenção a esse treino, tomá-lo como objectivo. E esse treino visa o quê? Concentração, análise, memória... só não trata de uma coisa: inteligência! Não desenvolve a capacidade de gerar hipóteses, de procurar outros lados da questão, de resolver problemas que não sejam a mera aplicação de coisas memorizadas.

a inteligência desenvolve-se pensando nos problemas antes de ter informação sobre eles. Toda a gente aprende a fazer o contrário. Serão bons jornalistas no futuro mas maus investigadores da PJ...

Indomável, não podes ser professora seguindo o exemplo dos professores que tiveste, tens de buscar o teu caminho; e isso é muito dificil, fora dos trilhos conhecidos os caminhos são tantos que nos sentimos perdidos... fora dos trilhos já não há caminhos, temos de os fazer... mas há uma infinita promessa de descoberta...

Os putos de agora não pensam em termos de futuro porque os pais também não pensam e é essa a mensagem que lhes passam - aconselha os pais a falarem do futuro aos filhos, a pensarem no futuro, e vê os filhos a mudarem de atitude.

alf disse...

Joaquim Simões
As mensagens têm de ser encapsuladas em ideias muito simples ou não são transmissíveis.

Em muitos países os alunos das universidades e possivelmente dos liceus têm um largo leque de cadeiras de opção, de áreas completamente diferentes do seu curso.

Eu penso que o primeiro passo tem de ser dado a nível da pedagogia do ensino. Os professores que marcam os alunos são aqueles que os poem a pensar, que os desafiam, que os fazem descobrir as suas capacidades, que lhes aumentam a autoconfiança.

A questão, para já, está em encontrar uma fórmula que permita conseguir isso e ainda ter boas notas no exames. Algo de que o meu amigo deve ter conhecimento, penso eu...

alf disse...

Ola António

Pois é, o processo de selecção natural é a civilização. E já o é há muito tempo - desde que a mãe crocodilo teve de desenvolver o instinto maternal para não comer os seus descendentes, que estavam condenados a coexistir no mesmo espaço, contrariamente ao que acontecia com espécies mais primitivas.

O comportamento das fêmeas entre os mamíferos já é o resultado da selecção natural nas sociedades em que eles vivem - porque eles já vivem em sociedades.

A nossa sociedade cria situações novas e tem respostas novas, seleccionando comportamentos novos. Muitas vezes em conflito com os comportamentos anteriores, porque a nossa sociedade está em evolução.

Tal como o homem criou um cão a ele dedicado, também tentou criar a mulher da mesma maneira - dedicada ao seu homem, ao seu dono. Isso serviu interesses de homens e mulheres no passado (ser "cão" em vez de lobo também serviu a sobrevivência da espécie canis lupus). Infelizmente, as mulheres voltaram a ser "lobos" ehehe (humor, minhas amigas, não se amofinem, se não fosse machista não era humor).

Quanto às eleições, eu tenho a seguinte teoria, construida sobre a observação das eleições para presidente de clubes de futebol e autarquias: o candidato que mostrar maior capacidade de ser vigarista é o que ganha ("sou um vigarista ao serviço dos vossos interesses")! As explicações do fenómeno deixo para si.

alf disse...

Educação, Ciência e Tecnologia

A propósito do que aqui se disse ocorreu-me o seguinte:

As crianças de hoje não serão diferentes do que sempre foram; simplesmente dantes o que as crianças eram não interessava, só interessava o que elas deviam ser!

Hoje, dá-se espaço para os juvenis exteriorizarem o que são. Não são o que deviam ser. Pois não.

O objectivo de educação é transformar os juvenis do que são para o que devem ser.

Há dois caminhos.

O caminho antigo está-se nas tintas para o que os juvenis são; só lhe interessa conhecer as variáveis que permitem moldar o seu comportamento. O juvenil é uma "caixa preta", as variáveis que condicionam o comportamento são identificadas, o sistema educativo actua sobre essas variáveis. Na educação das crianças como na dos cães.

Esta é a via Tecnológica de resolver problemas. É uma via que atinge resultados, é segura.

A outra maneira é procurar entender os juvenis. Conhecer o que eles são na totalidade, não apenas as variáveis que os permitem condicionar. E saber o porquê daquilo em que os pretendemos transformar. E usar o saber de uma coisa e outra num processo inteligente para os transformar.

Este segundo caminho é a via da Ciência. É muito mais dificil que a via Tecnológica. E muito mais arriscada, a probabilidade de insucesso é muito maior. Mas quando é bem sucedida, o seu resultado é superior. Faz a diferença.


Isto também mostra uma coisa: num pais atrasado, iremos passando progressivamente da via "tecnológica" para a "científica" à medida que o número de formadores com capacidade para tal for aumentando.

Joaquim Simões disse...

Alf, o que é importante, pedagogicamente falando, é pôr as pessoas a pensar sobre a natureza e a origem do conhecimento, sobre a estrutura pré-dada com que se pensa e que está na génese da própria noção de "ideia". Já reparou que todo o nosso conhecimento assenta sobre o pressuposto da existência e da validade da ideia de "causa", isto é, na existência de uma causalidade que se alarga à totalidade do real? Sem ela, não poderia haver a pretensão de "conhecer", seja o que for que isso signifique, já que tudo seria entendido como aleatório - ou melhor, nem sequer seria entendido. Como e porquê existe assim em nós a ideia de causalidade, a qual é, simultaneamente, uma operação mental e algo de substancial em tudo e todos?
Mas isso fica para uma próxima conversa.

alf disse...

Joaquim Simões, o que diz vem a propósito deste tema. Nestes posts procuro limitar-me ao essencial, doutra forma a mensagem perde-se. Mas vou agora "perder-me" sobre este tema.

O que é "compreender"? Penso que a sensação de "compreender" está ligada à percepção de que seremos capazes de prever o comportamento futuro de algo.

A previsão dos acontecimentos inicia-se com a constatação de que certos acontecimentos parecem sempre seguir-se a outros - isso estabelece a relação causa-efeito, o primeiro dos processos de previsão.

Depois, surge outra forma de previsão: a verificação de que certos acontecimentos parecem ser periódicos. A determinação de períodos surge como a segunda forma de prever os acontecimentos e do seu conhecimento resulta igualmente a sensação de "compreensão".

Por exemplo, o modelo de Ptolomeu era essencialmente um modelo de periodos, o movimento dos astros era decomposto num somatório de períodos.

O objectivo da Física é "determinar o estado seguinte dum sistema"; isto mostra bem a importancia de prever o futuro para os nossos cérebros.

O filósofo D. Dennett, em Kinds of Minds, nota que o cérebro humano é uma máquina de antecipação, e fabricar futuro é a coisa mais importante que ele faz.

Não é por acaso - a vida na Terra já quase sossobrou várias vezes por falta de capacidade de prever o futuro. A evolução para o Humano é talvez uma tentativa de suprir essa necessidade - a continuação da vida na Terra pode vir a depender dos recursos de um ser inteligente e não directamente dos recursos da Natureza, como aconteceu até aqui, porque a capacidade de adaptação não é suficiente para fazer frente a certos fenómenos catastróficos, é necessário prever o fenómeno para garantir a sobrevivência.

Mas a nossa caminhada na previsão do futuro é turtuosa. Somos facilmente enganados na determinação de relações causa-efeito. Isso está na base de todas as mistificações que se tem feito ultimamente, como o colesterol, a associação de inúmeros agentes como causadores de cancro, a vacina do papiloma humano, até o CO2 como causa do aquecimento global.

A matemática abriu uma nova porta para este objectivo: a realização de modelos matemáticos sobre os dados. Não é recente, já o modelo de Ptolomeu não é mais do que um modelo matemático. Estes modelos podem prever o estado seguinte dos sistemas por extrapolação e pensou-se que com eles dominariamos a previsão do futuro.

É um erro; as previsões por extrapolação contêm sempre a possibilidade de um erro; este erro soma-se em sucessivas previsões e a previsão torna-se rapidamente falsa.

Uma outra via começou a ser explorada por Galileu e Newton - a determinação de propriedades gerais que os sistemas físicos seguiriam em todas as circunstâncias - as chamadas "Leis da Física".

Um modelo físico é um modelo baseado em propriedades gerais - as Leis - numa estrutura lógica. É diferente de um modelo matemático.

O modelo matemático é a base da Tecnologia.

Um modelo Físico é a base da Ciência. Tem de obedecer a uma rigorosa estrutura lógica.

E aqui surge uma nova discussão sobre o que é "compreender". Não temos dúvidas de que um modelo Físico é algo que podemos compreender; mas o mesmo já não acontece com os modelos matemáticos, que obtem resultados por processos que nem são relações lógicas nem periódicas, portanto não são coisas que o nosso cérebro aceite como processos de previsão.

Porque é que não aceita? Porque o cérebro não obtém isso da observação da natureza. Pelo menos o cérebro do comum humano. Já o físico ou o matemático, habituados a trabalhar com modelos matemáticos, tendem a aceita-los como processos de previsão válidos, logo tendem a sentir que "compreendem" um processo quando estabelecem um modelo matemático do mesmo.

Bem, isto são pensamentos meus, não é uma teoria "oficial".

Joaquim Simões disse...

Mas não é bem disso que eu estou a falar, embora o inclua. Como disse, fica para a próxima, até porque hoje já estou "mais para lá do que para cá".
Até amanhã.

Joaquim Simões disse...

Um pouco ao lado deste assunto, mas como incentivo àquilo que o Oscar Wilde considerava como a verdadeira inteligência: a imaginação (onde é que eu já ouvi isto?!), deixo-lhe aqui um comentário brincalhão que deixei a um outro, igualmente brincalhão, comentário da Abobrinha a um terceiro comentário que alguém fez a um post dela:

"Uma lésbica é uma pessoa de bom gosto... Aliás, se eu fosse mulher também não não sei se resistiria...
Até podemos fazer aqui um exercício de evolucionismo teórico, qualquer coisa como a sábia natureza que concentrou o poder de sedução predominantemente numm elemento da espécie, dotando-as mesmo com possibilidades físicas com que não dotou as outras fêmeas e assim dando possibilidades que chegam à consciência de si pela consciência dada pela atracção pelo mesmo sexo... Não sei se isto agrada ao Ludwig...
Ou, numa mais criacionista, lembrar que no Talmude a serpente afinal é uma mulher, Lilith, a qual, com a sua cabeleira seduz tanto homens como mulheres... Hmmm? Já viste, Abobrinha, as ilações que se podem tirar daqui? E se acrescentarmos que Lilith era a patrona das feiticeiras medievais...
Bardajoquice também é cultura...!"

Feitixeira disse...

Olá Alf,
Achei que fizeste um raciocínio engraçado acerca das verdades humanas, aliás, existe uma teoria que defende exactamente isso relativamente às pessoas com delírios.
Nessa teoria diz-se que todas as pessoas criam expectativas relativamente à realidade e depois agem como se tivessem certas. Se não conseguirem contrapôr as ideias predefinidas com a realidade, usando e manipulando todos os factos como argumento para alimentar a "sua verdade", nunca se pondo em causa, tornam-se delirantes (desenvolvendo doenças psicóticas, como a esquizofrenia).
Seremos todos um pouco delirantes?
Beijinhos tocados pela loucura***

alf disse...

Feitixeira, obrigado pela tua visita. É exactamente como sugeres...