quinta-feira, julho 26, 2007

Mais sobre o Sistema (2)


(continuação do post anterior)

Então vejamos o que pode acontecer no caso de metade da força de trabalho desertar!
As empresas teriam de se reestruturar para poderem funcionar com menos pessoas. Mas o PIB não iria necessariamente diminuir, nenhuma empresa deixa de produzir por falta de pessoal, o mercado é que a limita! Pelo contrário, isso obrigaria as empresas a tornarem-se mais eficientes, logo mais competitivas, logo, provavelmente, o PIB iria aumentar (vejam como variou a produtividade da nossa agricultura com a perda de 90% da sua força de trabalho)

Ora se o número de activos diminui, mesmo que consideremos o mesmo PIB, os ordenados dos activos vão aumentar. Considerando que as mulheres representam 50% do mercado de trabalho, o número de activos reduzir-se-ia para metade, logo os ordenados iriam dobrar. Portanto, o rendimento total do casal seria constante!!

Fantasia? Pois fiquem a saber que foi isto que eu vi na Alemanha e na Suíça. Tirando empregos pouco especializados, não vi mulheres a trabalhar. Só homens. Claro que há mulheres a trabalhar, mas serão uma minoria nos empregos especializados. Ao ponto de me terem tentado “consolar” por a minha mulher “ter” de trabalhar!!!! Porque não lhes passa pela cabeça que as mulheres deles trabalhem enquanto existem filhos menores a não ser por absoluta necessidade!

Dirão: ahh, os alemães podem porque ganham bem! Eu digo-vos: se as mulheres trabalhassem na Alemanha, os ordenados dos alemães cairiam para metade e as receitas do casal seriam as mesmas.

Bem, acho que já vos dei qualquer coisa em que pensarem... Notem que eu não estou numa atitude machista, isto não é situação que eu defenda.

Ahhh, por último, analisemos o esquema das reformas antecipadas. Basicamente, a reforma “na idade da reforma” corresponde à situação de um terço de inactivos, onde o rendimento do inactivo é igual ao do activo; a reforma antecipada corresponderá a uma maior taxa de inactivos.


Notem o seguinte:

a) com 1/3 de inactivos os rendimentos líquidos tanto de activos e inactivos são iguais ao valor médio da riqueza produzida per capita (valor 1 do rendimento na figura); ora isto corresponde grosso modo à reforma na "idade da reforma", com uma reforma igual ao ordenado


b)com 50% de inactivos (nº de activos igual ao número de inactivos), o rendimento de um inactivo ainda é 2/3 do rendimento médio; isto corresponde a uma reforma uns 6 anos (+ ou -)antes da "idade da reforma" e a uma redução da reforma de 1/3.


c) e, o que é muto importante na organização da sociedade do futuro, se o rendimento dos inactivos for reduzido a metade do rendimento médio, podemos ter 2 inactivos por cada activo; e até podemos ter mais, com uma muito ligeira redução do rendimento dos inactivos.

Corolário 1: o que garante a nossa sobrevivência no presente e no futuro não é o património ou direitos “adquiridos”; é o Sistema. Aqueles só existem em função do Sistema. Por isso temos de cuidar atentamente do nosso Sistema.

Corolário 2: exactamente por ser o Sistema o garante da sobrevivência, a forma de combater um adversário é minar-lhe o Sistema; é esse o sentido das sanções económicas, que visam causar a perturbação social quanto basta para forçar mudanças de política.

Um caso extremo que evidencia a importância do Sistema na actualidade é a política seguida por Israel em relação aos palestinianos: todas as acções políticas e militares de Israel visam exclusivamente destruir toda e qualquer tentativa de colocar de pé um Sistema palestiniano. São inimigos mortais e o objectivo é o extermínio. Impedir que exista um Sistema palestiniano é a forma mais segura, no quadro actual, de atingir esse objectivo.

Ou seja, combater um adversário, fazer a guerra, é, hoje, destruir-lhe o Sistema. Sem Sistema, o adversário autodestroi-se em lutas internas pelas sobrevivência.

(notem que isto não é uma crítica política, estou apenas interessado na análise da sociedade humana, não faço julgamentos)

11 comentários:

Anónimo disse...

Pois é... mas para mim o PIB nao depender do numero de activos nao faz sentido, lamento. Assim nao consigo realmente concordar com a analise.
Os exemplos que dás de Espanha, etc., refletem outra realidade. Eu assumo um pais em que as pessoas trabalham porque alguem acha que devem receber um ordernado e esta disposto a pagar-lhes. Em Espanha ha 10 anos atras e em Portugal hoje em dia, ha muita gente que trabalha porque tem um contrato que lhe dá esse direito. Ai, realmente, o PIB nao depende do numero de activos. A producao do Estado portugues nao depende, é verdade, do numero de funcionarios publicos. Mas o problema é que tambem nao sao esses "sub-sistemas" que geram o PIB, mas os outros que sao funcionais. Numa economia - ou subsistema - minimamente funcional, o PIB é funcao do numero de activos. Na Dinamarca, toda a gente paga 60% de IRS, excepto emigrantes especializados nos primeiros 3 anos. Esses pagam 15%! E sabes porque? Porque teem falta de mao de obra (especializada) e para aumentarem o PIB, tem que aumentar o numero de activos. So que ninguem viria para um pais onde se paga muito mais IRS do que nos outros, e assim o Estado reduz o IRS para estrangeiros para os cativar.
Alias, quanto à historia da equipe de futebol, aqui as pessoas ganham em funcao do que produzem. E é como dizes, como jogadores de futebol, os trabalhadores das empresas teem um periodo mais eficiente, que, em muitas profissoes, nao se estende ate aos 65 anos. Por isso é que uma maioria dos pais dos meus amigos aqui foram despedidos recentemente e tiveram de procurar empregos com salários mais baixos...

Abracos, Rodrigo

alf disse...

Ola Rodrigo

Se acharmos que o PIB é função do nº de activos, então se a Dinamarca importasse agora metade da população portuguesa, o PIB Dinamarquês dobraria, é isso?

Disparate óbvio não é?

Então, se não é assim, é como?

O PIB vai depender de estratégias complexas, pois hoje as empresas não trabalham para satisfazer uma necessidade de mercado, trabalham ewm competição umas com as outras. O PIB de uns cresce, em parte, à custa do PIB de outros.

O PIB resulta da competitividade, não resulta da quantidade. É por isso que não é uma função directa do número de activos

Anónimo disse...

Ola pai.

O teu argumento é meio desconversador... Um bocado na linha de: "entao se tu achas que o PIB é fixo se só ficar um activo, ele pode produzir o PIB nacional inteiro", argumento que eu tambem nao acho valido, mas que tambem seria um disparate obvio.
A resposta é que a realidade é mais complexa, que os individuos nao sao todos iguais.
Mas levando a serio o teu argumento dos dinamarqueses importarem os portugueses, poderiamos olhar para a Historia e ver se isso aconteceu. Aconteceu sim senhor. Os EUA cresceram com o seu PIB a ser proporcional ao numero de imigrantes que chegavam. Sempre quiseram imigrantes por isso mesmo. Hoje em dia já nao querem porque os emigrantes já nao teem as qualificacoes necessarias, comparados com os nacionais. O PIB potencial, per capita, de cada emigrante, é mais baixo do que a media dos habitantes de lá, pelo que já nao interessa importá-los. Mas as pessoas qualificadas podem emigrar para qualquer pais. Todos os paises todos querem emigrantes cujo PIB potencial per capita seja superior à media do pais hospedeiro. As pessoas so nao fazem isso porque os paises que teem baixo PIB potencial medio per capita tambem teem pouco dinheiro para pagar aos potenciais emigrantes. Quando isso nao é assim - por exemplo, no Dubai, que o dinheiro sai do chao - a emigracao é enorme.

Rodrigo

alf disse...

Rodrigo

Pensa em termos de futuro. A capacidade de produção vai ser tanta que bastará um pequeno nº de activos para produzir tudo o que se pode consumir. Em parte, isso já acontece hoje - basta uma fábrica de memórias para produzir todas as memórias que os computadores precisam.

Não é a falta de activos que limita a produção actualmente. Não é por falta de activos que a Volkswagen não faz mais carros. Se contratarem mais trabalhadores não vão vender mais carros.

O esforço de aumentar o PIB tem de estar concentrado na Qualidade (Robert Pirsig)entendida como factor determinante da competividade.

Para serem altamente competitivas, as empresas vão ter de ter activos altamente qualificados para as funções - verdadeiros talentos.

Cada vez mais, as empresas vão assemelhar-se às equipas de futebol. Só ganha quem tiver os maiores talentos (se fizer "jogo limpo"). Uma equipa de futebol que tenha uns jogadores menos competitivos perde.


Esta é a realidade e não adianta não a querermos ver. Claro que isto levanta questões de natureza social. Mas só entendendo a realidade podemos encontrar solução para as questões sociais. Porque estas é que são o verdadeiro objectivo do Sistema - o objectivo não é o PIB, é o bem estar das pessoas em todos os planos.

Eu procuro caminhos para soluções. Mas é inútil mostrar as soluções enquanto as pessoas não admitirem o problema.

Nota também o seguinte: as pessoas têm uma enorme diversidade de aptidões e a sociedade precisa de uma enorme diversidade de talentos. DE certa forma, quase toda a gente é um talento numa área que interessa à sociedade. Consegue-se um alto nivel de actividade, como na Dinamarca, quando se consegue que as pessoas desempenhem a actividade onde o seu talento se manifeste. Ora é isso que a flexissegurança permite. Só assim se consegue essas taxa de activos.

Numa sociedade em que se pensa que as pessoas devem ter um emprego independentemente das suas aptidões, que isso é um direito, o que acontece é que as empresas vão ter de funcionar com talentos errados e vão perder competitividade. E vão falir ou funcionar à custa de baixos ordenados.

Está agora mais claro o problema? Sabes que nos posts não se pode explicar tudo, o post tem de ser curto, eu já faço o post a pensar na discussão no espaço de comentários, aqui é que as coisas se acabam por esclarecer.

Um abraço e obrigado

Anónimo disse...

Ok, com isso concordo quase tudo. So que mesmo nessa situacao... o PIB volta a ser proporcional aos activos. :-)
Na Dinamarca, grande parte da populacao "desenvolve a maquina" e nao é operario. No teu exemplo da Volkswagen, os activos seriam ou as pessoas que trabalham desenhando carros ou pecas, ou pessoas que poderiam até criar as suas proprias empresas para vender para a Volkswagen ou para mostrar à Volkswagen como aumentar o seu mercado. A Volkswagen pode fazer isso sendo melhor uqe os outros fabricantes de automoveis e roubando-lhes clientes ou propondo novos modelos que permitam a mais pessoas sem carro comprar carro.
Ha ainda uma questao de fundo pela qual eu discordo... é que a tua premissa pertence à "mentalidade da escassez", e a minha a da "abundancia".
As pessoas com a mentalidade da escassez acham que o mundo tem recursos limitados e que para se obter qualquer coisa tira-se a alguem. A mentalidade da abundancia acha que no mundo ha muitissimas potencialidades por realizar e que todos podemos ter mais, e que esse mais é criado e nao ganho a alguem.
Embora nem uma nem a outra estejam perfeitamente correctas em tudo, em tracos gerais acho a segunda muito melhor que a primeira, embora a primeira seja a prevalente no mundo.
:-)

Rodrigo

alf disse...

Repara uma coisa: se a volkswagem produzir mais carros é porque se tornou mais competitiva. Pode não ter contratado mais ninguém - o seu departamento de desenvolvimento conseguiu melhores soluções e até reduziram o pessoal, baixando custos! Todas as indústrias têm cada vez menos empregados - aqui vale a mentalidade da escassez.

A criação de emprego vem de novas actividades. Aqui funciona a tua mentalidade da abundância.


Se substituires "activos" por "talentos", então já posso concordar totalmente contigo - quanto mais "talentos" maior a geração de riqueza para esse grupo.

Voltamos a cair no modelo dinamarquês, excelente na produção de "talentos" porque actua nas duas vertentes: por um lado cria as condições para que as pessoas optimizem o seu potencial, por outro as condições para que as pessoas façam uso dele.

O modelo Dinamarquês não é um modelo de caridade - é o modelo melhor para a geração de riqueza. É "inteligente".

Agora nota uma coisa: produzir talentos é trabalho que começa na pré-primária. Portanto, esta vertente essencial do sistema só existirá em Portugal daqui a muitos anos.

e como fazemos entretanto? Como pode uma empresa portuguesa em que metade do pessoal tem falta de talento para a função competir com empresas que só têm talentos? Não pode, não há milagres nestas coisas.

Temos de optimizar os talentos que temos e temos de o fazer sem pôr em causa a sobrevivência de quem não teve oportunidade de desenvolver todo o seu potencial.

O que mostra este post é que isso é possivel.

alf disse...

Esta discussão é um exemplo de como as nossas presunções podem tornar confuso o que é simples.

A questão é saber se PIB e taxa de activos são ou não variáveis independentes. Como é que se sabe isso? Simples: calcula-se a correlação!

1 - Pegamos no PIB dos diferentes países, a sua população e o número de activos

2 - dividimos activos por população e obtemos a taxa que nos interessa (também a podemos calcular dividindo nº de activos por nº dos que querem trabalhar, mas essa não é bem a mesma variável)

3 - calculamos a correlação entre o PIB e a taxa! Se o seu valor for perto de zero, são independentes.

Simples, não é?

alf disse...

Correção: o que se correlaciona é o PIB com o número de activos.

Depois, podem-se calcular as correlações do PIB por habitante com as taxas de actividade

leprechaun disse...

Portanto, o rendimento total do casal seria constante!


Tá boa essa! Bem, eu fiz os cálculos pelo gráfico, mas vai tudo a dar ao mesmo!

Aliás, eu cá por casa até sou mais feminino, isso de trabalho nunca foi o meu destino! Humm... o problema é que isto aqui não é casal e ninguém ganha por mim... tá mal! ;)

Bem, mas isso assim parece ser um regresso ao passado, ó líder do proletariado! :)

Ah! mas faltam aí os clandestinos fora do sistema... olha, os palestinianos internos que é o meu lema!

E o que é que importa a vã sobrevivência...

Rui leprechaun

(...para quem é um mártir vivo da ciência?! :))

leprechaun disse...

Olha, e a discussão foi só familiar... agora estou cá eu para desconversar! :)

Claro que quando falava acima do passado, eu me referia ao exemplo da mulher no seu papel de dona de casa e mãe... algo que a mim me convém! ;)

De resto, essa conversa dos talentos e aptidões parece-me perfeita, os meus é que sofreram alguma maleita...

Pois, isto de palrar e versejar foi chão que já deu uvas...

Rui leprechaun

(...e neste bosque ocioso das notas falta a chuva...)

alf disse...

Leprechaun

A mensagem importante é que a riqueza gera-se por um processo colectivo e não individual como no passado; que a máxima geração de riqueza é conseguida com a melhor utilização das capacidades disponiveis e não é por pôr toda a gente a trabalhar.

Num tempo em que as exigencias laborais variam rapidamente e num país onde há muita gente sem preparação para as actuais exigencias laborais, é preferivel que as pessoas sem possibilidade de dar um contributo interessante ao Sistema fiquem em casa e continuem a receber pelo menos metade do ordenado.

Esta situação é benéfica para os outros - aumenta a riqueza total produzida porque o sistema se torna mais eficiente, e os rendimentos dos activos aumentam porque a distribuição da riqueza é menor pelos inactivos.

Um reparo às suas contas: quando a taxa de inactivos é muito grande, o rendimento médio dum casal não é a soma do rendimento de um activo e de um inactivo - em parte dos casais ambos serão inactivos.

é o que acontece num casal de reformados por exemplo.

Um corolário disto muito importante é que o sistema de reformas é indefinidamente sustentavel desde que que a reforma média não fuja muito de metade do PIB per capita.

Duas consequencias: 1- neste quadro, a crise do sistema de reformas nunca existe; 2 - as reformas vão tender para metade do ordenado, situação que deveremos acautelar durante a fase de «activos»