segunda-feira, julho 30, 2007

Quem me dera já o Futuro


Quem me dera já o Futuro, onde fábricas completamente automatizadas produzirão tudo o que precisamos e deixaremos de ter necessidade de trabalhar!

Necessidade de trabalhar??? Que queres dizer com isso?

Então, ter de me vender oito horas por dia para conseguir o dinheiro necessário à sobrevivência! Qual é o teu espanto?!?

Desejas então um futuro em que ninguém precisa de fazer nada para sobreviver, não há empregos, toda a gente recebe uma certa quantidade de dinheiro que pode gastar como quiser. E como é que pensas que as pessoas iriam ocupar o seu tempo, o que iram fazer com a sua vida?

Olha, eu sei o que faria com a minha: divertir-me com os amigos, passear, beber uns copos, ler uns livros, ver filmes. E não é preciso ir ao futuro para viver assim – isso já acontece no Kuwait! Uns felizardos esses tipos!

Pois, mas isso é apenas ser rico, não é uma sociedade que funciona sem trabalho humano. Nessa sociedade do futuro em que a produção está toda automatizada, tu provavelmente não irias querer móveis iguais aos de toda a gente; então irias encontrar uma forma de ter móveis diferentes, se calhar um senhor muito habilidoso iria pôr-se a fazer ele mesmo uns móveis especiais. Ou seja, paralelamente à produção automática iria surgir novamente a produção manual. E o mesmo se passaria com todas as outras coisas – com as roupas, com a comida, com as casas, com os carros, tc.

Ahah, queres tu dizer que mesmo que tudo pudesse ser produzido automaticamente, o trabalho continuaria na mesma?

Claro! Tu não dizes que quererias ler livros? Então é preciso alguém que os escreva, não te parece? Queres ver filmes? É preciso quem os faça.

Quer dizer, a produção automatizada não serve para nada?

Claro que serve! Serve para nós podermos escolher o trabalho que fazemos. Não serve para acabar com o trabalho porque trabalhar é simplesmente fazer coisas com um objectivo e nós precisamos de objectivos na nossa vida. Precisamos de nos sentir úteis, de ser apreciados, etc. O Saramago não escreve livros por precisar mas por querer, não é?

O Trabalho deixa de ser uma questão económica para passar a ser uma questão social, queres tu dizer?

Exacto. Isso já aconteceu várias vezes no passado. As grandes obras do passado foram, em parte, formas de inventar trabalho para as pessoas. Os egípcios tiveram essa preocupação, os gregos e os romanos também. Isso permite dedicarmo-nos a coisas muito mais interessantes e que nos levam a novos patamares da existência. Não concordas comigo?

Eu sei, foi só um desabafo de Verão. De certa forma, a maioria de nós já vive dessa forma, eu adoro o meu trabalho e não me imagino sem ele.

Claro. Na realidade, nós já vivemos nesse Futuro, os conflitos sociais na Europa já não são movidos pela necessidade de sobrevivência mas pela necessidade de realização pessoal.

Mário pousou o copo ao lado da espreguiçadeira, levantou-se e puxou Luísa pela mão.

Pára de me picar os miolos e anda dar um mergulho.

26 comentários:

Tarzan disse...

Praia do Carvalhal!
Que saudades

Tarzan disse...

Boa reflexão. Talvez a complemente lá no meu tasco, mas não há muito a acrescentar.
Gostei da subtileza da referência final à piada do "pica-miolos". Um pouco gay (a piada) mas também na praia.

Joaquim Simões disse...

Bom texto, meu caro Alf. Não o conhecia, vim até aqui por acaso, através da Caldeirada de Neutrões (que também só tinha visitado umas duas vezes).
Mas garanto-lhe que esse esforço de elucidação encalha naqueles que não querem da vida mais do que um bom pasto e resistem a tudo o que lhes cheire a pôr seja o que for em actividade. Eu conheço muitos e aposto que o meu amigo também.
Dei uma vista de olhos rápida aos restantes textos e prometo voltar cá para os ler melhor e, se for caso disso, comentar alguma coisa.
Quanto a este, vou referenciá-lo no meu cantinho, que ficará muito honrado com a sua visita.
Joaquim Simões

alf disse...

Tarzan
Praia do Carvalhal pois claro... nunca mais se esquecem aquelas praias.

Mas o que é isso de concordar comigo? Está visto, o Verão não serve para o debate de ideias... já não consigo ser provocador.

alf disse...

Joaquim Simões
Obrigado pelas suas palavras amáveis!

Há muitas pessoas que querem fazer coisas e há outras que não querem; eu sou defensor da liberdade de opção - quem não quer vai para casa com o suficiente para viver e não empata os que querem fazer coisas. Todos beneficiamos com isso.

E temos fases - umas vezes queremos estar integrados numa equipa, outras queremos prosseguir algum projecto pessoal. Tudo isto se pode articular, pois, como mostro nos posts anteriores, os inactivos não são um encargo para os activos, contrariamente ao que parece.

Note o seguinte: em Portugal há muitas pessoas que aparentemente nada querem fazer; porém, a minha experiência mostra que isso é muitas vezes uma questão de baixa autoestima; corrijida esta, as pessoas ganham um entusiasmo no trabalho que surpreende. Quanto às restantes, o melhor é mesmo irem para casa, não acha? Mas a minha experiência diz-me que as pessoas devidamente habilitadas para as tarefas que preferem ir para casa são uma minoria muito escassa.

Parabéns pelo seu interessante e arejado blogue. Fico à espera de o ver por cá mais vezes a animar esta tertúlia.

Tarzan disse...

Como mostra no post? Desculpe mas só demonstrou que não domina conceitos elementares de economia.

Queria contraditório? He! He!:-)

alf disse...

Tarzan
Eheheheh Será?

(disseram o mesmo do Galileu...)

antonio disse...

Sejam, contraditórios ou não, mas não o ignorem. Neste começo de férias pretendo esquecer-me do trabalho...

alf disse...

António, onde tinha eu a cabeça! A falar de trabalho nesta altura do ano!!!

que tal as férias?

José Luiz Sarmento disse...

Se bem entendi, não considera possível uma sociedade em que as pessoas não trabalhem, mas considera perfeitamente possível uma sociedade em que as pessoas não tenham que trabalhar.
Se é isso, para mim faz todo o sentido.

Tarzan disse...

Leitura recomendada

http://aartedafuga.blogspot.com/2007/07/computadores-e-produtividade.html

antonio disse...

As férias? Dão imenso trabalho! E só daqui a três semanas é que eu vou ter a oportunidade de regressar ao descanço...

Laura disse...

Mesmo que distante... e aos poucos... como adoro ler os teus textos....

Estou a estudar e trabalhar... mas nem por isso estou ausente...

Minha vida late aí... perto da tua... perto de vocês todos...

Concordo... e festejo o novo mundo...

Laura disse...

Esqueci... como sempre... depois de ler os comentários...

Quem diz que não podes ser provocativo?

Ninguém... a não ser que seja hereje...

antonio disse...

Nada de fogueiras nesta altura do ano, temos que conviver com os herejes!

alf disse...

José Luis Sarmento

Porque existe o Futebol? porque existem espectadores, porque existe um mercado? Nada disso. É porque existem pessoas que gostam de jogar futebol.

Porqeu existem orquestras sinfónicas? Por existirem pessoas que gostam de as ouvir? Não, porqeu existem pessoas que gostam de tocar música.

E podiamos continuar pelo teatro, pelo bailado, pela pintura, pelo atletismo, pela investigação, pela agricultura, etc.

Claro que convém existir um mercado que suporte a actividade que as pessoas querem desenvolver.

Mas há este facto base: as pessoas querem estar envolvidas em processos de fazer coisas, explorar, competir, etc. Viver é agir, nem que seja apenas no campo espiritual.


Portanto, meu caro J. Luis Sarmento, resumiu muito bem o meu pensamento - temos de procurar uma sociedade em que o trabalho seja visto como uma oportunidade e não como uma necessidade.

alf disse...

Laura, é bom sentir-te de volta, sobretudo sabendo como andas ocupada.
Um beijo

alf disse...

António

Pois, nesta altura do ano é proibido fazer fogueiras... boa altura portanto para dizer umas coisas incovenientes... obrigado pela dica...

Tarzan disse...

Alf,

você tem uma cultura económica muito virada para a oferta. Não basta oferta para haver mercado.

No caso das orquestras sinfónicas, por cá não existe, de facto, um mercado por falta de massa crítica do lado da procura: a maior parte do público não aprecia ou, mesmo apreciando, não estaria disposta a suportar o preço de mercado para escutar música sinfónica. Por não haver mercado é que a música erudita (e outros ramos da cultura que também referiu) só existem por vontade de quem quer tocar e consegue obter ajudas estatais ou "fundacionais". E claro, sempre fundamentando que é um "essencial" ao "bem comum" e etc.

No caso futebol, não concordo. O futebol é uma fonte de negócio e mercado por si. Quem está nas bancadas não são só os familiares, amigos e colegas dos jogadores de futebol. Se dissesse que "se há pessoas que gostam de ver futebol, isso deve-se ao facto de também gostarem de jogar futebol", aí já concordava.

alf disse...

Tarzan

Eu sei que os economistas pensam que as actividades surgem porque existe um mercado. Mas, como poderá ver pelo meu comentário no seu blogue, a situação é muito mais complexa.

O Futebol já existia antes de haver um mercado. Existia porque as pessoas gostavam do futebol, de jogar, de ver, de torcer.

O mercado serve para circular o dinheiro; mas as actividades da generalidade das pessoas não são determinadas só pelo dinheiro.

É este cenário complexo e variável das coisas que movem as pessoas que importa entender para se conseguir sistemas económicos mais eficientes. E para entender os sistemas mais eficientes dos paises mais avançados, que há décadas entram em linha de conta com a natureza complexa do ser humano.

Tarzan disse...

Isso já vai depender da sua concepção de mercado.

Se MERCADO=f(DINHEIRO) então o seu comentário parece-me correcto.

Se MERCADO=f(PROCURA,OFERTA) independentemente de implicar dinheiro ou não, então já não concordo consigo.

Um exemplo.
Na definição mais geral (económicamente "pura") de mercado, a prática do futebol surge da vontade de alguém praticar um desporto. Essas pessoas tiveram de abdicar de fazer outras coisas para se dedicarem ao futebol. O mercado do tempo (vamos chamr-lhe assim) é muito subtil. Neste caso concreto temos os futebolistas do lado a procura (de tempo) e do lado da oferta as mulheres dos futebolistas (por exemplo). O preço encontrado para esta troca pode ser: um amuo da mulher, o marido lavar pratos, irem passar o fds fora, etc... Quem diz a mulher diz os filhos, o patrão, os amigos, a amante. Pode até nem haver qualquer preço se se der o caso de a pessoa não ter absolutamente nada que fazer.

Como se vê neste exemplo, é possível aplicare conceitos de economia sem se falar concretamente de dinheiro. Economia é mais fascinante do que parece.

Outro exemplo de uma leitura muito recomendada e divertida:

http://aguiarconraria.blogsome.com/2007/04/27/sexo-e-mentiras-por-amor/

http://aguiarconraria.blogsome.com/2007/03/10/guerra-dos-sexos-olhares-economicos/

http://aguiarconraria.blogsome.com/2007/03/12/guerra-dos-sexos-olhares-economicos-ii/

alf disse...

Eureka!

Apercebi-me de que o bem escasso da actualidade é o Reconhecimento!

(não estou à espera que o reconheçam de imediato, mas vão pensando nisso...)

As pessoas não o confessam, muitas vezes nem terão consciência disso; mas a necessidade de Reconhecimento parece-me ser o mais poderoso motor da humanidade na actualidade.

Caso do futebol, já agora: as pessoas gostam de jogar futebol porque isso lhes permite umas habilidades e serem, por isso apreciados; quem não vê hipótese de fazer algo que seja apreciado, desiste de jogar futebol.

Tarzan, acho que está a generalizar em demasia o âmbito da economia; o que diz é interessante mas comporta riscos de análise.

Lá que a Economia fornece ferramentas úteis para esta análise mais geral, isso é verdade, mas se pretendermos reduzir a análise ao âmbito da economia vamos errar porque a psicologia também é para aqui chamada, a sociologia, a história e a filosofia... outras coisas que ainda não foram baptizadas.

O Boaventura Sousa Santos tem uma cronica relacionada com isto na Visão de hoje.

Tarzan disse...

Não estou a generalizar não. Estou a ser muito preciso. Os artigos que linkei são de investigadores em Economia. E os exames que resolvi na faculdade eram de Economia pura.

Lá por em alguns campos haver indícios mais óbvios de interdisciplinaridade, não deixa de ser Economia. Aliás, não há ciência, muito menos social, que não "sofra" de interdisciplinaridade.

No problema económico há escolhas. Se há escolhas, há preferências. se há preferências há psicologia, cultura, sociologia... Apenas as preferências são essenciais para o problema económico, tudo o resto é complementar (mas não irrelevante).

Quanto à parte do Reconhecimento, "reconheço" que o Alf já raciocinou mais à economista. E concordo. Que tal é ver a luz :-)

alf disse...

Tarzan.

Para um Matemático, tudo é matemática. Até mataram a Física, convencidos que o seu conhecimento é tudo o que é necessário para descobrir o Universo.

Os Filósofos cairam no mesmo erro: a lógica não tem limites de aplicação, logo a Filosofia também não.

Não é por "mal"; cada um procura usar os conhecimentos que tem da forma mais ampla possivel, para satisfazer a sua necessidade básica de entender o mundo em que vive.

O mesmo fazem os economistas

Eu, como queria entender o Universo, e tinha muito boas notas a Física, e as pessoas achavam que eu seguiria Física, fui para engenharia - para não sofrer desse mal. Não sou diferente das outras pessoas, tive de tomar as minhas cautelas para não cair nos mesmo erros...

Tarzan, nada de errado em usar os seus conhecimentos de economia. Use-os como ferramentas. E, como já percebi, o Tarzan não se limita a essas ferramentas, simplesmente tem consciencia da importancia delas nestas análises. Mas não lhes dê importância em demasia...

alf disse...

É altura de fazer um ponto de situação deste assunto.

O capitalismo de direita defende a ideia de que quem trabalha, recebe, quem não trabalha, não recebe.

Isto parece ser justo.

Os conceitos de justiça, ou moral, no entanto, não têm nada a ver com isto. O que se trata é de conseguir uma sociedade que satisfaça o mais amplamente possivel o humano desejo de felicidade.

Vamos conhecendo os contornos dessa sociedade. Tem de garantir segurança, sobrevivência, reconhecimento, ser não limitada, dar espaço ao desenvolvimento individual, etc

Para isso sabemos hoje que temos de ter empresas - muitas e competitivas.(além de muitas outras coisas que não interessam por agora)

Para o conseguir é preciso muitas coisas - uma formação que gere muitos e bons empreendedores e todo o tipo de profissionais qualificados.

Isto é muito como o desporto - há muitas modalidades, dando a possibilidade de escolha daquela que mais se adequa a cada um.

A sociedade tem de estar organizada para oferecer condições aliciantes aos empreeendedores.

Isto é vital e é a base da educação e do sistema americanos: os estudantes são treinados no empreeendedorismo, o empresário é um individuo admirado, o sistema está concebido para tornar a actividade fácil e aliciante - funciona sem capital, recorrendo ao capital de risco e outras formas, o investimento é altamente compensado nos impostos, a justiça é célere, o estado assume grandes custos de desenvolvimento que liberta para as empresas, a concorrência externa é controlada, etc, etc.

Cá é ao contrário. Não se ensina empreeendedorismo. O empresário é visto como um explorador. Só vai para empresário quem não consegue emprego. O Estado não incentiva o investimento das empresas, apenas as despesas.O empresário nacional é penalizado em relação ao estrangeiro, etc, etc.


Para que as empresas sejam competitivas é indispensavel que trabalhem só com "ases". Tal como uma equipa de futebol ganhadora.

Assim, esta possibilidade tem de ser garantida pelo Sistema.

A questão que se põe é: e os outros? nem todos podem ser estrelas!!!

Pois não. E aqui eu apresentei uma solução: em vez da divisão de riqueza do capitalismo de direita -tudo para quem trabalha, nada para quem não produz - a divisão 2/3 da riqueza para quem produz e 1/3 par quem não produz resolve o problema sem consequencia colaterais negativas.

Mas tem consequências positivas: a ociosidade é a mãe da filosofia, disse não sei quem; pois é, a ociosidade dá frutos grandiosos!

Sabe-se isso desde o tempo dos gregos, em que o aparecimento de um classe de pessoas que não precisava de trabalhar gerou o seu imenso desenvolvimento.

Lembrem-se que os professores universitários usufruem de anos sabáticos, ou seja, de anos em que estão dispensados de "trabalhar" para poderem dedicar-se a pensar.

Ao contrário, os operários, escravos permanentes do trabalho, estão impossibilitados de fazer evoluir o sistema porque não têm tempo para pensar, aprender, descobrir.

O trabalho continuado é coisa ultrapassada. Nos EUA, cada vez mais, as pessoas trabalham em projectos e, concluidos estes, entram em período de "inactividade", durante o qual se desenvolvem pelo estudo e pensamento e após o qual abraçam novo projecto.

Este assunto só ficará concluido quando eu falar do que é "inteligência".

leprechaun disse...

A ociosidade é a mãe da filosofia, disse não sei quem; pois é, a ociosidade dá frutos grandiosos!


Ah grande filósofo do ócio... super-Alf, meu consócio! :)

Mãe da filosofia e irmã da poesia e dá frutos de alegria!

Mas isso da economia e finanças também o seu peso na balança... Ora aqui esse prato anda vazio, o ócio é quente mas o bolso frio...

Equilibrá-los é a suma arte...

Rui leprechaun

(...do tal sistema em toda a parte! :))


PS: Venha pois já o futuro, que o presente 'tá maduro!