quarta-feira, novembro 27, 2013

O nó do problema


O Japão tem uma dívida pública imensa – 245% do PIB. Desde que me lembro (há seguramente mais de 30 anos) que oiço dizer que o Japão está no caos económico; está bom de ver que é assim… tanto é que agora anunciou que vai aumentar o IVA de … 5 para 8%!!!!! Isto porque o Japão, coitado, tem de fazer face a uma população envelhecida – tem a maior expectativa de vida do mundo e uma pirâmide etária invertida! (e ainda se orgulham disso… porque será?). Este aumento do IVA destina-se também a alimentar um programa de controlo da dívida pública, o “Abenomics”, que consiste em… maciço aumento do dinheiro novo impresso pelo banco central, enorme investimento público em infraestruturas e desvalorização do yen. Exatamente o que se faz por cá, não é verdade? Em resultado destas medidas estupidas como qualquer economista ao serviço deste governo bem sabe, a taxa de desemprego já passou de 4% para…. 3,7%!

Portanto, o Japão tem uma dívida pública estratosférica, de 245% do PIB, (e que PIB), uma população envelhecida com alto nível de vida e um desemprego baixíssimo, o que significa altos salários. Só pode ser estar num caos, não é? Assim não capta o imprescindível investimento estrangeiro sem o qual nenhum país se pode desenvolver, não é? O Japão é o oposto do que os economistas que por cá falam defendem; tem de estar um caos! Então porque é que não está?

Mas, perguntará o leitor, essa dívida não é um encargo enorme no orçamento japonês? Pois é; mas também é uma enorme fonte de entrada de receitas. Porque quem empresta ao governo japonês é o Banco Central do Japão, que é do Estado; e os lucros deste empréstimo, ou seja, os juros pagos pelo Governo, voltam para o Estado! E isto é mais ou menos assim na Inglaterra e nos EUA, com mais ou menos sofisticação.

Vejamos agora o que se passa com o BCE: o BCE é propriedade dos estados membros na proporção das suas economias; o BCE compra dívidas soberanas dos países do Sul no mercado secundário, com altas taxas de juro. Os lucros desta operação são depois distribuídos proporcionalmente à participação dos países no BCE – ou seja, a maioria dos lucros do BCE vai para a Alemanha e uma boa fatia para a França.

Percebamos isto: o BCE empresta aos bancos a 0.25%. Porque é que o juro é tão baixo para os bancos? Porque os bancos são garantidos pelos Estados! Porque é que as dívidas soberanas dispararam? Porque os Estados têm estado a meter dinheiro na banca! Ou seja, o problema de insustentabilidade da banca foi transferido para os Estados. Isso é um problema? No Japão, nos EUA e na Inglaterra não é, porque os bancos centrais, direta ou indiretamente, é que suportam as dívidas soberanas e portanto os lucros dos seus juros retornam para os Estados. Na prática, os Estados financiam-se à taxa 0%, como é lógico – por isso é que nesses países seria uma solução transferir a insustentabilidade dos bancos para o Estado. Seria mas não é – o Fed e o Banco Central do Japão têm um programa de compra maciça dos ativos tóxicos dos bancos, eles assumem diretamente a insustentabilidade da banca.

Só que na Europa os lucros do BCE vão para a França e a Alemanha! É isso que torna a nossa dívida insustentável, uma corda na garganta, a drenagem dos nossos recursos e futuro.

Percebamos: nos outros países, a insustentabilidade do sector financeiro é aguentada pelo Banco Central, que compra os ativos tóxicos, e a dívida soberana financiada pelo Banco Central (direta ou indiretamente), a uma taxa de juro que na prática é zero. Em Portugal, a insustentabilidade da banca foi transferida para o Estado, com o BCE a fazer exigências ao Estado em vez de assumir ele o problema, e o financiamento do Estado ainda serve para o BCE obter lucros, que vão para a Alemanha e a França.

A Grécia já exigiu que o BCE lhe pague os lucros que tem tido com a sua dívida. Nós recebemos apenas o que o BP decide dar ao Estado (trocos), sem prestar contas de coisa nenhuma, protegido por um conselho de auditoria que não presta contas ao Governo; as contas do BP são secretas (não há um hacker que as ponha cá fora?).


Como é evidente, estamos a funcionar em regras suicidárias. Isto é tão absurdo que a maior parte das pessoas comuns se recusa a acreditar que seja mesmo assim. Como é que diabo nos metemos nisto? Foi malandrice da Alemanha, a grande beneficiária de tudo isto? Nada disso, os culpados são outros, como veremos. E ao percebermos quem é culpado, percebemos também como podemos alterar esta situação. 

quarta-feira, novembro 20, 2013

O "Milagre" Irlandês


Vamos lá a ver a Verdade sobre a Irlanda

Nesta interessante página do Google podemos ver como tem variado a dívida pública irlandesa. Surpresa! Em 2007 era de apenas 24,9% do PIB! Uma dívida sem expressão. Mínima! E em 2012, depois desta fantástica intervenção da Troika? 117, 4%!!! Aumentou 4,7 vezes.

ver o original aqui - vale a pena, podem ver outros países e ler sobre o gráfico

Agora reparem. Afirmam os “sábios” que a Irlanda está numa situação ótima, pois os juros da dívida pública caíram para os 3,5%; ora bem, se abrirem a máquina de calcular e multiplicarem pelo aumento da dívida (4,7) concluirão que o encargo da dívida irlandesa será agora o mesmo que tinham em 2007 se estivessem a pagar juros de 16,5%!!!! (este lindo resultado foi conseguido em cima de sacrifícios pesadíssimos do povo irlandês, enquanto os ricos enriqueciam em toda a Europa; os irlandeses foram roubados no presente e continuarão a ser roubados no futuro).

Estão a ver como a banca consegue enriquecer facilmente? O montante da dívida é irrelevante para a banca (o dinheiro que emprestam nem chega a sair). Os juros é que são o ganho dos bancos! Esta “bem sucedida” operação teve como resultado aumentar enormemente aquilo que o povo irlandês vai passar a pagar à banca, sem que disso tenha tido qualquer benefício.

Porque reparem: quando se contrai uma dívida para fazer um investimento, há um retorno. Quando uma empresa pede um empréstimo, não é para comprometer o seu futuro, é para o assegurar. Um Estado, tal como uma empresa, tem de investir e deve usar para isso mais dinheiro do que o que tem, pois esse investimento pagará o custo desse empréstimo com lucro. Se o Estado não investir, acontece-lhe o mesmo que às empresas que o não fazem: não crescem e desaparecem. Vivemos num mundo em competição, quem não se esforça por ir para a frente vai ser eliminado. É por isso que todos os países têm dívidas públicas (a da Alemanha era muito maior do que a da Irlanda quando isto começou, e continua a crescer apesar de todos os seus “superavit”).

Mas aqui acontece que a Irlanda não contraiu esta fabulosa dívida para investir! Não há retorno! Contraiu dívida para emprestar aos bancos para estes lhe emprestarem a ela…Confusos? Não admira, estamos perante o maior esbulho da história…

Contrariamente ao que dizem esses economistas e políticos da linha do governo, o que compromete o futuro das próximas geração é esta dívida contraída agora, não é a dívida que existia antes de 2008 – essa era para assegurar o futuro, não para o comprometer.

Em resumo, o que aconteceu à Irlanda é que ficou com um enorme encargo bancário que não corresponde a nenhum dívida para investimento que tenha contraído. Esta situação impede que ela possa continuar a investir. É um país condenado.


Veem como temos sido enganados? Como estamos todos a ser roubados? Veem como o futuro dos nossos filhos foi roubado com a nossa complacência? Como as frases feitas que nos repetem são mentiras descaradas, construídas de propósito para conseguir a nossa anuência ao roubo? Para nos tornar cúmplices do roubo do Futuro?

domingo, outubro 20, 2013

Poder Financeiro e Coreia do Norte




A sociedade humana é, no fundo, muito fácil de perceber, porque as pessoas agem sempre (em termos médios, que é o que comanda na ausência de pessoas extraordinárias) em função daquilo que presumem ser o seu interesse individual. Por isso, a evolução da sociedade humana depende linearmente de 3 coisas:

1 – Das regras (de como elas condicionam os interesses)
2 – Da capacidade de determinados grupos de interesses definirem /alterarem /manipularem as regras
3 – Da capacidade de cada um de violar as regras

O que limita a violação das regras, ou seja, a corrupção, é essencialmente a circulação de informação, que impede que uns retirem mais vantagens da sociedade do que outros. É por isso que quem está numa situação de privilégio tem como a primeira preocupação manter o segredo. É por isso que os subsídios dos políticos passaram a ser secretos, entre muitas outras coisas que são secretas.

No penúltimo post mostrei como o sistema político determina fatalmente o tipo de sociedade, em consequência da forma como o poder se suporta e do comportamento egoísta das pessoas. Mostrei como um sistema democrático como o que temos determina necessariamente uma sociedade com 1/3 de descartados, de miseráveis, ignorantes, pobres, escravos. Apesar de tudo, um progresso em relação aos sistemas de poder hereditário ou militar porque esses geram sociedades em que todos são “descartáveis” menos o pequeno grupo que apoia diretamente o Poder.

Neste texto vou começar a analisar a estrutura do Poder Financeiro.

Como percebem, o Poder Financeiro tem enorme importância nas nossas vidas – no nosso caso, até já comanda o poder Político. Portanto, a sua estrutura de poder deve ser tal que cada pessoa possa defender o seu interesse dentro dele. Os idealistas fartaram-se de conceber regras destinadas a assegurar isso – por exemplo, a ideia das sociedades anónimas. Mas bastou uma pequena manipulação das regras para obter o oposto do que se pretendia. Uma enorme ingenuidade deixar as regras à mercê dos interessados.

Foi para evitar isto na Política que se inventou a Constituição, cujo objetivo é impedir a violação dos princípios e alteração das regras essenciais; mas ninguém se lembrou ainda de fazer uma Constituição Financeira

A realidade nua e crua é que a estrutura do Sistema Financeiro é do tipo do sistema político da Coreia do Norte. Com uma agravante muito séria. Atualmente, a Coreia do Norte existe num mundo vasto e a existência de sistemas democráticos é uma dificuldade e uma limitação para o regime. Imaginem agora que a Coreia do Norte dominava o mundo todo! Então desgraçados de nós, pois todas as pessoas (menos os indispensáveis ao Poder) seriam transformadas em escravos, insetos, formigas, às ordens do Grande Líder.
Pois o que se passa com o sistema Financeiro corresponde a termos o mundo controlado pela Coreia do Norte!

O Ford disse que se as pessoas soubessem como funciona o sistema financeiro, haveria uma revolução antes do nascer do dia seguinte; bem, e isso era no tempo dele, pois agora é muito pior.
É por isso que a Lagarde acha que não há razão para as crianças portuguesas estarem melhor do que as da Somália ou Biafra em vez de achar que não há razão que essas crianças estejam pior do que as portuguesas. Para essa gente, o sistema ideal é o dos marajás da Índia e desvios dessa situação só o que for indispensável.

É também essa umas razões porque pretendem acabar com a nossa Constituição – num mundo comandado pelo Poder Financeiro não há direitos, logo não pode haver Constituições.

Reparem nisto: as pessoas do BCE ou do FMI não respondem perante ninguém! São independentes do voto das pessoas, são independentes do poder Político – ou seja, dos representantes das pessoas - não estão sujeitos a uma declaração de princípios, nem a qualquer fiscalização. Então que interesses privilegiam eles? Obviamente, os deles – que são os dos Ricos. Já imaginaram terem um emprego com o poder de tomar decisões sobre o dinheiro e não terem de responder perante ninguém? De poderem até definir os vossos próprios ordenados?

O Poder Financeiro é absoluto e fechado. O governo quis saber quanto ganhavam os colaboradores do Banco de Portugal; resposta do BP: não digo!!! É assim, eles não prestam contas. Mas nós é que pagamos as pensões vitalícias dos seus ex-quadros!!! Para eles, isso é normal, dado que consideram que são os donos do dinheiro. É por isso que o Vitor Constâncio dizia que os portugueses estavam a ganhar demais. Esta clareza de ideias e a ajudinha dada ao sistema no caso BPN certamente que o identificaram como um membro ideal do BCE. E é assim que se forma o grupinho que o comanda, selecionando aqueles que já deram provas de sua dedicação ao Dinheiro… Em política, o Constâncio nunca teria lugar, não é verdade? Mas no sistema Financeiro não pára de subir, agora é apontado para supervisor da banca Europeia. Isto porque a sua carreira não depende minimamente dos interesses das pessoas mas sim dos Ricos.

Há uma enorme confusão entre independência de poderes e desresponsabilização de poderes. O Poder Judicial ou o Financeiro podem ser independentes do Poder Político, não podem é ser irresponsáveis perante a sociedade. Tal como o Poder Político se sujeita ao voto, obedece à Constituição e está sujeito a diversas fiscalizações e controlo, também os outros poderes têm ser enquadrados da alguma maneira. Mas não são.

Sabem como é que os bancos centrais injetam dinheiro na economia? Muito antigamente, era através do orçamento de Estado, que o usava em obras públicas, no desenvolvimento do país. Mas agora não: é na compra dos ativos “tóxicos” dos bancos. Os bancos centrais compram aos Bancos todos os negócios falidos destes. O Fed está a comprar 85 mil milhões destes negócios por mês! Todos os meses, desde há muito tempo.
Sabem como surgem estes negócios “tóxicos”?


(continua)

terça-feira, outubro 08, 2013

Obrigado Rui Machete


Neste país inacreditável, uma pessoa está sujeita às coisas mais impensáveis – como esta de eu estar a agradecer a uma pessoa como o Rui Machete. Mas tenho de lhe agradecer porque ele defendeu os interesses das largas centenas de milhares de portugueses que estão em Angola, de outros tantos que estão em vias de ir para lá para conseguirem sobreviver e de todos nós que aqui vivemos e que podemos beneficiar do investimento angolano e do dinheiro que os angolanos para cá trazem.

Há uma coisa que nenhum país do mundo faz: investigar o dinheiro que entra! O que se investiga é o dinheiro que sai, não é nunca o que entra!

Além disso, se há investimento que convenha ao País é o investimento angolano. Como é óbvio, o investimento angolano não vem à procura da mão-de-obra barata, não é?
O investimento alemão só está interessado na mão-de-obra barata; para conseguir isso, os poderes alemães agem ativamente para manter o país atrasado, com alto desemprego, em recessão, porque é isso que lhes garante a mão-de-obra barata. Toda a gente neste vasto mundo sabe isso menos os nossos economistas e comentadores de TV; é por isso que hoje ninguém aceita investimento estrangeiro sem um sócio nacional e sem transferência de saber-fazer – ninguém exceto nós.

Então, se é ótimo para nós que os angolanos ponham cá dinheiro e invistam cá, porque é que a PGR se mete a investigar os angolanos????

Se olharmos para os resultados da acção da PGR, um quadro começa a emergir.

A primeira coisa que chama a atenção é a sistemática fuga de informação; só vejo uma explicação: alguém na PGR recebia bom dinheiro por essas fugas. Mas depois surge algo surpreendente: a PGR, a entidade de competência máxima na investigação criminal, não consegue descobrir os criminosos nem acabar com as fugas!!!! Como é possível?

Mas há mais. Olhamos para as investigações e elas parecem nunca chegar a um fim. Refiro-me às investigações que envolvem muito dinheiro, porque nas outras a PGR é implacável. O ministro grego da defesa já está em tribunal, mas cá continua sem se saber nada do caso dos submarinos; o Maddoff foi condenado em meses, mas o Oliveira e Costa parece que se perdeu dentro de casa; o Duarte Lima, com um caso de homicídio fortíssimo contra ele não há de ser incomodado enquanto o dinheiro que era do Feteira não se acabar… Curioso como a PGR se preocupa tanto com o dinheiro angolano mas não se preocupa nada em que um suspeito grave de assassínio seja julgado… ou estou a ver mal?

Então temos investigações sobre tudo o que envolve dinheiro, fugas convenientes para os jornais, e depois nada! O que vos sugere isto? A mim sugere-me um quadro de chantagem. Evidentemente, longe de mim pensar que a PGR é um centro de chantagem e corrupção! Não acredito nisso nem acredito em bruxas ;-) Há certamente outra explicação.

Claro que se a PGR fosse uma central de chantagem, já fazia sentido ela investigar os dinheiros angolanos: os chantagistas querem lá saber se estão a prejudicar os interesses do país e dos muitos portugueses que vivem em Angola!!! Que outra razão pode haver para tal investigação ser feita sem um pedido das autoridades angolanas e "soprada" para os media? Eu desconheço, dada a minha ignorância destas coisas, mas certamente que há!

E há mais coisas a respeito da PGR, como as suspeitas de abrir processos de acordo com as conveniências do PSD e CDS. Más línguas, é claro: a atuação da PGR é tão transparente como a do BCE.

Enfim, todas estas coisas transcendem a nossa humilde esfera mas há um facto inquestionável: esta investigação é altamente gravosa dos interesses nacionais e uma ofensa aos angolanos. O Rui Machete fez aquilo que tinha a fazer, face ao lamentável comportamento da PGR.

E não é que os líderes da oposição, em vez de agradecerem, desataram hipocritamente aos gritos a exigir a demissão do ministro que defendeu os interesses de Portugal? Com o Seguro à cabeça?!?

O que é vocês pensam do assunto?

quarta-feira, outubro 02, 2013

Economia, Poder Político e Poder Financeiro



Muita gente pensa que a Economia é o resultado das leis económicas e que o conhecimento destas permite prever a sua evolução, tal como em Física se pode prever a evolução de um sistema conhecendo as leis da natureza. Nada mais errado.
A Economia, como tudo o resto (Ciência, Justiça, Media, etc), está ao serviço dos dois poderes que existem: o Político e o Financeiro. Todos dependem do dinheiro que o poder político ou financeiro lhes atribui. Mesmo a Igreja, apesar de ter fontes próprias de receitas, tem de pactuar com esses dois poderes. Um exemplo de como a Ciência está subordinada a esses poderes é o caso do aquecimento global (ver esta notícia “fresquinha”).
É por isso que a Economia (não é só o Gaspar...) falha quase sempre as suas previsões – estas não dependem das leis económicas, dependem apenas dos interesses e força dos dois poderes. São eles que determinam a evolução da sociedade humana. Conhecendo-os, adquirimos uma capacidade preciosa: a capacidade de fazer futurologia. E, com ela, a capacidade de modificarmos o Futuro provável.
Vamos então ver como se organizam os Dois Poderes e como isso determina fatalmente a sociedade humana e a sua evolução.

1- Os Dois Poderes

Penso que o ser humano se move a longo prazo, primariamente, para 3 fins: poder, dinheiro e reconhecimento/estatuto; afinal, as características do Rei/Rainha... Destes 3 “atratores” da actividade humana, são os dois primeiros que a condicionam através dos tempos, na forma de poder Político e poder Financeiro.
Naturalmente, a Economia serve esses poderes. A Economia não serve “uma sociedade melhor”; os economistas estão ao serviço de quem lhes paga e as escolas de economia formam pessoas cuja habilidade consiste essencialmente em enriquecer os ricos, pois esses serão os seus empregadores.
(isto não envolve nenhum juízo de valor sobre as pessoas em si; os economistas são pessoas como quaisquer outras e as pessoas agem em função do seu interesse, mesmo que disso não tenham consciência)

O primeiro objetivo de qualquer poder é a sua perpetuação. Idealmente, ambos os poderes tendem para uma sociedade de senhores e servos; porém, a circulação atual de informação e a capacidade de mobilização das pessoas tornam isso impossível para o Poder Político, que é obrigado a estar ao serviço de parte ou de toda a sociedade, consoante a sua organização, para se poder perpetuar. O Poder Financeiro, ao contrário, continua a existir no obscurantismo.

2 - O Poder Político e a Economia.

Ao Poder interessa manter os povos atrasados e pobres. Antes de haver capacidade de comunicação maciça entre as pessoas, isso era fácil de conseguir. A falta de informação e da capacidade de comunicação é essencial para que uma minoria mantenha o seu estatuto.
Com o aumento da capacidade de comunicação das pessoas, com a difusão de informação política, o Poder teve primeiro de alargar a sua “corte” de apoio para melhor enquadrar o povo, fazer surgir uma pequena “classe média” e, por fim, assumir a forma de democracia. A difusão de informação política obrigou o Poder Político a ter de desistir de uma sociedade de senhores e servos e a ter de aceitar uma sociedade em que parte suficiente dela já não é serva. No entanto, como veremos, a ausência de informação financeira (a informação financeira que existe é tão manipulada e obscura como a informação política na Coreia do Norte) permite que o Poder Financeiro venha ele a conseguir a sociedade de senhores e servos. Mas vejamos agora o lado político.

Numa democracia o Poder Político depende da maioria. Isto implica uma nova organização da Economia, que tem agora de servir os interesses da maioria.
Em vez de um quadro senhores/povo, surge uma “classe média” vasta na qual o Poder se suporta. A Economia é dirigida para manter essa classe média satisfeita. Em consequência, a sociedade (o “povo”) organiza-se com 1/3 de servos e 2/3 de classe média. Esta é a solução que maximiza a qualidade de vida da classe média com o mínimo de recursos – a solução que permite que os senhores fiquem com o máximo de recursos ao mesmo tempo que garante a estabilidade política. Note-se que são os eleitores que formatam assim a sociedade, pois elegem os partidos que propõem esta solução (por exemplo, quando o PS se propõe promover a igualdade de oportunidades, ou seja, acabar com os “servos”, a classe média portuguesa começa logo a contestar os “custos”). Numa ditadura, a classe média tem uma dimensão muito pequena, definida pelo Poder; numa democracia tem a dimensão de 2/3 da população, definida pela população.

Esta solução é sobretudo eficiente nos países de clima ameno, onde os “servos”, os “descartáveis”, podem sobreviver quase sem custos para os restantes. É por isso que a escravatura nunca foi possível nos países mais a norte, os escravos ou morreriam de frio e fome ou sairiam demasiado caros.
A guerra norte/sul dos EUA não teve um objetivo “humanitário”, destinou-se primariamente a destruir a vantagem competitiva do Sul que podia usar escravos enquanto o norte não podia. As guerras são sempre ditadas pelos interesses e justificadas pelos princípios morais. Não quer isto dizer que quem promoveu essa guerra não tivesse imperativos morais, mas ela só foi possível porque havia interesses de poder (políticos ou financeiros) nela.

A transição ditadura – democracia não aconteceu em todo o lado; na Rússia substituiu-se a ditadura dos senhores pela do povo (em teoria). A queda do regime comunista da URSS mostrou a impossibilidade de um sistema não legitimado por votos se manter se não estiver apoiado pela satisfação popular, ou seja, pela continuada subida da qualidade de vida do povo. A URSS não crescia economicamente, não estava em guerra nem endeusava os líderes, o Poder Político tinha necessariamente de cair.

A China percebeu bem isto e desenvolveu uma teoria económica com um novo objetivo: a subida sustentada do nível de vida de todo o povo. Este é o único objetivo económico que serve o Poder Político na era da comunicação quando este poder não é eleito.
Compreendamos: num sistema democrático, basta promover a satisfação de 2/3 da população; com jeitinho, esse número até pode descer, temporariamente, até ½. Mas num sistema de poder não legitimado pelo voto isso não chega, agora que as pessoas dispõem de uma grande capacidade de comunicação e mobilização. Por isso o regime chinês fez esta opção radical: enriquecer toda a gente.
Nesse sentido a China desenvolveu uma política nova. Separou as pessoas entre camponeses e urbanos para melhor gerir o crescimento de cada grupo, criando economias separadas para cada grupo, cada uma com a sua moeda. Depois, sabendo que o desenvolvimento é fruto do “know-how”, pôs em acção um plano de obtenção de know-how que hoje é seguido em todo o mundo não-ocidental. O saber académico é fácil de obter, está nos livros e na net. O problema é o know-how específico das empresas. Para o conseguir, a China desenhou um processo de atracção de empresas estrangeiras, condicionado à transferência de know-how e à partilha dos lucros.

Assim, uma empresa estrangeira para se instalar na China precisa de um sócio nacional (nas grandes atividades, os sócios são empresas feitas pelo estado com o dinheiro impresso pelo banco da China). Isto garante que essa actividade tem interesse para China, que há transferência de know-how e que pelo menos metade dos lucros fica na China (cá, as grandes empresas transferem a totalidade dos lucros para fora). As grandes atividades, como o fabrico de automóveis, estão sujeitas a um plano a longo prazo que visa que no fim dele a China tenha todo o know-how necessário. A Volkswagen está na China a prazo, até 2030. Mas este é um negócio muito bem construído pelos alemães, que ficarão fornecedores dos componentes de alto valor acrescentado do carro chinês e com garantia de não concorrência no mercado europeu pelo menos até essa data (se pensavam que íamos ter carros chineses baratos, desenganem-se).
 Esta teoria chinesa parece ser hoje seguida em todo mundo à excepção da Europa.

Por outro lado, também as democracias de países pequenos tiveram de tomar outro rumo para sobreviverem. Assim, na Dinamarca, Suécia e Noruega existe uma forte coesão social sem descartados (de qualquer forma, eles não poderiam sobreviver nesses climas...). Esta foi a solução destes países para resistirem à Alemanha, França e Inglaterra. A Holanda, Bélgica e Luxemburgo tornaram-se uma espécie de protectorados da Alemanha e da França.

Portanto, consoante a organização política, temos 4 casos diferentes de sociedades:
Numa democracia típica, existe 1/3 de “descartados”; o nível de vida da classe média pode ser estático porque basta a existência dos descartados para gerar um sentimento suficiente de satisfação. É o caso dos EUA.
Numa ditadura moderna, ao contrário, o nível de vida de toda a população tem de subir continuamente, pois só isso legitima o poder. A participação das pessoas no Poder é assegurada através do poder local, democraticamente eleito e com peso na decisão política central. É o caso da China. Mas note-se que neste sistema há um senão: o Poder Político está sempre apoiado na existência de um perigo global, um inimigo, porque nessas circunstâncias as pessoas estão menos dispostas a contestar a liderança. O Passos Coelho firma-se no Poder baseado na necessidade de “salvar o País” (numa Democracia, os eleitos têm de ser responsabilizados pelo programa que apresentaram às eleições; desta forma, este governo escapa a esse escrutínio). Num sistema como o Chinês, quando houver um crescimento mais débil, podemos esperar que o Poder Político crie um conflito, como uma guerra com o Japão (coisa que não desagradaria ao Japão, que também precisa de um inimigo para compensar a falta de crescimento).
As pequenas democracias, por seu lado, ou perdem a independência ou assentam numa forte coesão social. É o caso dos países nórdicos e, penso, de alguns “pequenos” (à escala asiática) países asiáticos
Subsistem ainda umas ditaduras clássicas, assentes no controlo e manipulação profunda da informação política. É o caso da Coreia do Norte.
Parece que esgotei os sistemas políticos relevantes, mas não, falta um: a Europa!

Na Europa acontece uma coisa extraordinária: o seu sistema político é tal que o país mais forte manda na Europa toda! Então, é a classe média alemã que manda na Europa. Isto não acontece por acaso nem por burrice, é de propósitoas elites europeias não iam deixar os destinos da Europa nas mãos da maioria, não é? Então, criaram um sistema em que o Poder Político europeu depende apenas da classe média alemã. Naturalmente que esta escolherá o partido que se propuser transformar em “descartados” o resto dos Europeus.
Compreendamos: a classe média alemã pensa dos povos do Sul o mesmo que a classe média portuguesa pensa dos nossos descartados – esses preguiçosos e ignorantes que só entendem a linguagem do chicote; e vai eleger (já elegeu) o partido que tiver como programa a escravização destes calões do Sul. Aliás, isto é histórico, sempre que puderam os alemães promoveram a escravatura, tanto dentro como fora da Alemanha... os ucranianos que o digam... A classe média alemã pensa que esta é a solução que maximiza o seu interesse e, por isso, desenvolve a teoria moral que a suporta – a teoria de que estes povos não merecem mais do que a escravatura. Isto é normal, estou farto de ouvir a classe média portuguesa dizer isto dos operários, os alemães não são piores do que nós. Nós, humanos, somos muito menos inteligentes do que presumimos.
Portanto, face à estrutura política da Europa, é fácil perceber o sentido da sua evolução: as classes médias alemã e francesa (que pode atrapalhar os interesses alemães) vão continuar como estão; os restantes povos passarão à categoria de “descartados” e serão a fonte de mão-de-obra barata que tornará a indústria “europeia” (alemã) imbatível no mercado global (assim pensam eles, esquecendo que os outros países do mundo não são parvos e nem todos os líderes são compráveis).

Sobre a Guerra
Um pequeno apontamento sobre este importantíssimo processo do Poder: a Guerra.
A Guerra tem várias utilidades; no passado, tinha o importantíssimo papel de evitar a sobrepopulação. Hoje já não tem esse papel na generalidade dos países mas continua a ser fundamental para o Poder. Quando há Guerra, não há contestação ao Poder enquanto as pessoas se sentirem em perigo; quando acaba a guerra, é necessário recuperar da destruição por ela causada, o que inicia um período de crescimento onde o Poder se suporta. Portanto, ao Poder convém um ciclo crescimento-guerra-crescimento-guerra... tem-se feito os possíveis para inventar outras maneiras de manter o crescimento alto (a globalização, as novas tecnologias, etc), de inventar perigos diferentes (aquecimento global) mas parece que ainda não passamos sem recorrer periodicamente à guerra.

Bem, mas se acham isto negro, esperem até perceber a estrutura do poder Financeiro. Este vai afectar todo o mundo ocidental. No próximo texto.


sábado, agosto 31, 2013

Troika versus Paulo


Nos próximos meses vamos a assistir a uma batalha entre David e Golias. Uma luta completamente desigual que só tem alguma (mínima) hipótese de sucesso para o David se nós o apoiarmos. E devemos fazê-lo porque cairemos com ele.

Já ouviram certamente a afirmação de que “a Europa pretende ser a zona económica mais competitiva do mundo”; agora digam-me lá: como é que isso pode ser conseguido?

Até agora, soube-nos bem a mão-de-obra barata da China, não é verdade? Bom, mas não é isso que faz a Europa competitiva, pois não? O que falta para uma Europa competitiva é mão-de-obra barata, porque o resto tem ela . Têm alguma dúvida a esse respeito? Acham que há algum outro plano sobre a mesa, tipo como fizeram os Dinamarqueses? Claro que não, até porque a solução dinamarquesa levaria pelo menos duas gerações a realizar.

Agora pensemos: onde é que a Europa vai conseguir a sua mão-de-obra barata?

Imigrantes? Os imigrantes baratos são muçulmanos, já viram o perigo que é? Não pode ser.

Além disso, para serem realmente baratos têm de estar estacionados num país de clima temperado, onde os custos de sobrevivência são mínimos.

A escravatura não era solução para o norte dos EUA, porque fazia frio demais – aí a escravatura era impossível. Foi por isso que o norte fez a guerra ao sul, não pensemos que foi por algum princípio humanista. Foi simplesmente para eliminar essa vantagem competitiva do Sul.

Então, se a escravatura é impossível no Norte, necessariamente tem de ser implantada no Sul.
(se os dinamarqueses pudessem ter recorrido à escravatura, seria isso que teriam feito; foi só quando chegaram à conclusão que essa solução era inviável no clima deles que adotaram o atual modelo – porque é o que resulta melhor para os seus ricos no seu quadro)

Bom, mas a Europa pode recorrer à escravatura – nos países do Sul. E, naturalmente, se pode é o que vai fazer. Quem tem poder abusa sempre dele.

Portugal tem condições ideais para isso: talvez o povo mais atrasado e ignorante da Europa, fracas estruturas democráticas, população habituada a obedecer, e uma população capaz de sobreviver com um custo mínimo – os operários de uma fábrica no interior poderão sobreviver das suas hortas e pouco mais.

Na verdade, para obrigar as pessoas a trabalhar é necessário que as obriguem a ter dinheiro – por exemplo, acabando com o ensino gratuito para os filhos. Portanto, o que há a fazer para ter escravos é promover o desemprego e acabar com o ordenado mínimo e com a gratuitidade dos serviços essenciais. Assim as pessoas serão obrigadas a trabalhar para pagar esses serviços – ou seja, o valor alvo do custo total da mão-de-obra inferior a 2,5 euros/hora será conseguido. Isto não é teoria nova, é o velho “esquema da cantina”.

Portanto, esta é a Agenda da Europa. Não é preciso ser bruxo para o perceber, basta abrir olhos e ouvidos. Há anos que sei que é assim e tenho tentado explicá-lo, por isso é que escrevi os posts sobre o Dr. Jordan, as conversas com o Hans e outros.
(na verdade, essa Agenda ainda tem aspetos piores, mas eu nem digo porque não acreditariam)

Estas pessoas que nos gerem não têm quaisquer escrúpulos ou princípios – destruí-los é o primeiro objetivo de qualquer escola de gestão ou economia. Toda esta gente trabalha para os ricos e não tem outro objetivo que não seja servi-los, pois são eles que lhes pagam, agora ou quando saírem do governo. Ou seja, fazem o mesmo que 99% de nós faria no lugar deles…

O António Borges era “frontal”, dizem; percebem o que isso significa? Que o que ele dizia era o que o que todos “eles” pensam mas não dizem…

Bem, mas o que é que tudo isto tem a ver com o Paulo Portas?
Até agora, a Troika executou um plano muito fácil e simples: combinava os seus objetivos com o Governo mas punha nos memorandos só parte. A justificação é que se pusesse tudo por escrito, isso poderia originar um movimento anti-europa. Assim, é o governo que é acusado de “ir além da Troika” mas isso não tem consequências perigosas para a “Agenda”. Até o Sócrates engoliu esta, acha que é o Governo que está a fazer “front load”…

O único que não é ingénuo nem vendido nisto tudo é o Paulo Portas. A direita portuguesa não sobreviverá a esta Agenda e ele sabe disso.

A Troika sabe que esta linda estratégia que tem desenvolvido com tanto sucesso não pode continuar com o Portas. O que vai ela fazer?

Esta gente age sempre da mesma maneira, por isso é fácil prever: esmagar e derrubar o Portas. Como? Levando a austeridade ao limite; e passando a mensagem que a culpa é do Portas para que o Zé corra com o Portas. Causar a desgraça e apontar o “culpado” resulta sempre, não é? Até agora era o Sócrates, de agora em diante vai ser o Portas.


Temos de mostrar que temos estatura para sermos “cidadãos”; caso contrário seremos “escravos”. 

quarta-feira, julho 31, 2013

A Crise Escalpelizada e Profetizada


Durante os próximos meses vou estar ocupado com a promoção das minhas teorias sobre o universo – aquela coisa óbvia de que não é o espaço que expande, somos nós que diminuímos; não se assustem porque a diminuição é tão lenta, mas tão lenta, que é completamente indetectável à nossa escala. Queria deixar neste interregno um texto a sumarizar como entendo a atual crise.

  1. A causa da crise.
 a) É sabido que o sistema financeiro só funciona enquanto a sociedade estiver a enriquecer. O sistema financeiro ganha dinheiro por processos especulativos, processos para ganhar dinheiro com o dinheiro, assentes na perspectiva de valorização das “coisas” em que o dinheiro é aplicado, seja um quadro do Miró ou uma acção da EDP. Esta perspectiva de valorização só existe havendo enriquecimento da sociedade. A atividade financeira vai buscar este acréscimo de riqueza das pessoas.
Quando uma sociedade, ao contrário, está a empobrecer, as pessoas deixam de colocar dinheiro nestas “coisas” e a perspectiva de valorização desaparece. Todo o sistema que permite aos bancos e entidades financeiras grandes lucros colapsa.
É claro que mesmo em recessão podem continuar a ganhar algum dinheiro com o casino bolsista, dado que são jogadores privilegiados que conseguem comandar as subidas e descidas – mesmo com uma tendência decrescente, podem ganhar nas oscilações. Mas é pouco.

b) O enriquecimento das sociedades financeiras na década anterior ao fim do século XX foi fabuloso: 30 % ao ano. Uma maravilha. Mas isto teve uma consequência: a riqueza absorvida por estas sociedades tornou-se maior que a riqueza gerada pelo crescimento do PIB. Então, a restante sociedade começou a empobrecer. Logicamente, deixaram de investir nas “coisas” e os ganhos do sistema financeiro colapsaram.

c) Portanto, a causa da crise é só uma: o excesso de desigualdade. O sistema capitalista só funciona enquanto a generalidade da sociedade enriquece. O brutal enriquecimento dos mais ricos determinou o empobrecimento dos restantes; mas esse enriquecimento era feito à custa do resto da sociedade e por isso colapsou. Secou a sua fonte por excesso de cupidez.

  1. A solução para a crise
 O Obama sabe isto tudo e sabe qual é a solução, fartou-se de o dizer: redistribuir a riqueza. É por isso que os EUA já voltaram ao crescimento, a crise nos EUA já é passado. Teve custos, muitos bancos fecharam as portas. Os impostos sobre os ricos aumentaram.
Não se pense porém que os EUA já estão seguros. As medidas tomadas foram mínimas, só o suficiente para pôr o barco a navegar. Os ricos são gananciosos e só abdicaram um mínimo da sua riqueza especulativa. A ideia deles é manterem agora a sua riqueza estacionária enquanto crescimento do PIB vai alimentando o esfomeado “porquinho”.

  1. A solução europeia
 A Europa é um saco de gatos; por isso, os gatos mais fortes trataram de resolver o assunto como mais lhes convinha. Os mais ricos, em vez de prescindirem de uma pequenina parte da sua riqueza especulativa, viram na crise uma oportunidade para enriquecerem mais. É o processo de enriquecimento usado nos cartões de créditos: nada como encontrar alguém em dificuldades para extorquir juros. Isso é possível na Europa porque o BCE não está ao serviço dos povos e não existe um orçamento europeu. Além disso, serve perfeitamente os objectivos hegemónicos da Alemanha e da França.

  1. Portugal no presente
 Em Portugal, o Governo está inteiramente focado em resolver o problema da banca. Os banqueiros são os seus pares, não é? O Estado tornou-se uma máquina de sugar dinheiro aos portugueses para colocar na banca. A Luís mexeu nos SWAP quando eles se tornaram mau negócio para a banca. Para disfarçar que estava a fazer o frete à banca, levantou um escândalo sobre os mesmos, para parecer que veio resolver um problema ao Estado quando o que ela terá feito (penso eu) foi resolver um problema à banca.
 A redução dos custos do Estado com as pessoas não visa diminuir o défice das contas públicas, visa apenas libertar dinheiro para Banca.
Há também uma questão ideológica: a ideia de um país de senhores e servos. Uma ideia obsessiva nas elites portuguesas dos últimos 4 ou 5 séculos. É por isso que o Crato acabou com o ensino de informática e quer ensinar as pessoas a usarem tornos quando já só há robots nas fábricas.

  1. O Futuro para Portugal
 A atual política de austeridade vai levar ao colapso do sistema bancário português. Estas luminárias esqueceram-se que os bancos, como as empresas, precisam do mercado interno. Por agora, estão todos os bancos a ser aguentados pelo BCE; mas a negociata das dívidas públicas não chega para os sustentar e a mãozinha do BCE não vai lá estar para sempre. Até porque a falência dos bancos “pequenos” é uma conveniência dos grandes... há apenas que aguardar pelo momento conveniente, porque os grandes têm ainda graves problemas a resolver.
Assim, ou a banca faz como as empresas e se vira para os mercados em crescimento, ou vai falir. Acontece que os mercados em crescimento estão muito pouco abertos à banca estrangeira – porque haveriam de estar? O que é que têm a ganhar com ela? Já as empresas levam “saber-fazer” e podem ser fonte de desenvolvimento, desde que devidamente enquadradas; e como enquadrá-las já é hoje teoria sólida, desenvolvida pelos chineses. Teoria para enquadrar a banca é que só há uma: entrada proibida!


Assim, se a política de austeridade continuar, a banca portuguesa vai falir. Provavelmente, antes do fim do programa da troika.

domingo, julho 07, 2013

Passos é subtil?


À primeira vista, o Paulo Portas fez um brilhante e bem sucedido golpe palaciano. É o que dizem.

Interpretar os fatos é complicado. Para a generalidade dos comentadores, a interpretação é linear e assenta na ideia de que os protagonistas são pessoas de pouco carácter e reduzida inteligência.

Pode ser que tenham razão mas tal interpretação "sensata" é bastante desinteressante. Um amador pode jogar xadrez sem analisar as jogadas seguintes, mas estes protagonistas não são amadores.

Há uma coisa que nos deve alertar. Reparem no que aconteceu:

Numa altura em que a troika está dividida, "cai-nos do céu" um governo capaz aproveitar essa divisão e de dar uma volta de 180º na política que nos têm imposto até agora; uma política imposta mas não seguida em aspectos essenciais - por exemplo, o plano de privatizações tem sido um falhanço colossal em relação ao que alemães e franceses tinham planeado. Incompetência? Ou Génio?

Já a propósito das privatizações eu levantei a possibilidade de haver um génio neste governo.

Reparem que chegamos a esta situação ideal em que os encontramos hoje, pois temos agora um governo que se prepara para governar na direção que me parece certa, duma forma que a troika e a Merckel não podem questionar nem interferir. São capazes de imaginar alguma outra maneira de chegar a este ponto? Eu não consigo. Um governo saído de eleições com esta linha seria logo massacrado pela Merckel através dos seus representantes na troika.

Lembro ainda as conversas com o Hans, onde "ele" dizia que a esperança dele de se inverter esta situação de guerra económica na Europa residia em Portugal. Mas o Hans não disse isto por inspiração divina - há muito quem entenda o que se passa; e muitas dessas pessoas, nomeadamente economistas americanos, disseram na altura que Portugal tinha condições para estragar os planos de guerra - e por duas razões: porque tem onde se apoiar fora da Europa e porque tem uma longa história que demonstra a sua capacidade de adaptação a situações adversas. E a capacidade de adaptação, mais do que a Inteligência e a Força, é o que determina a sobrevivência - sabe-se desde o tempo de Darwin.

O leitor que escolha a sua interpretação dos factos. Cavaco, Passos, Portas e Relvas são jogadores primários, que só fazem burrices e birras, ou médios, que vão aproveitando as circunstâncias, ou geniais, capazes de gerar as circunstâncias?




sexta-feira, junho 28, 2013

Para que serve o investimento estrangeiro


Como tenho andado sem tempo para o blogue mas não quero deixar os meus leitores abandonados, vou fazer algo que nunca fiz: escrever um post em directo!

Fala-se muito por cá da importância e necessidade do investimento estrangeiro. Parece ser uma necessidade óbvia, indiscutível, evidente - pois não são postos de trabalho, dar de comer a gente desempregada? Bem bom, não é?

Pensemos um pouco: os EUA, a Alemanha, a França, a Inglaterra, andam atrás de investimento estrangeiro?   A Itália? A Dinamarca? A Suécia? Não andam pois não?

serão então esses países geridos por governantes que não sabem o fazem?
Não, pois não?

Mas podemos olhar para outros países; o Brasil anda atrás de investimento estrangeiro? Não consta. O Canadá? Também não? África do Sul? Népia.

Afinal, quem é que quer o "investimento estrangeiro"?

Só há uma razão para um país querer investimento estrangeiro: obter know how, saber-fazer. Porque é isso que pode gerar riqueza.

É por isso que em todos os países do mundo excepto nos colonizados, como Portugal e Grécia, não se aceita investimento estrangeiro que não tenha um sócio nacional. Essa é apenas uma das condições que estabeleceram para garantir que o país tem interesse nessa actividade, que há transferência de know how, que parte importante dos lucros ficam no país. Mas há mais condições - na China, as empresas estrangeiras têm um plano de transferência de know-how e prazo de saída da China.

E, claro, isso apenas nos países menos desenvolvidos, que procuram transferência de know how.

É o know-how que gera desenvolvimento e riqueza. Portugal de há um século era miserável porque era atrasado, ignorante, não tinha saber-fazer.

Quando se permite a instalação de uma unidade de produção estrangeira sem contrapartidas, o que acontece é que essa empresa tudo fará para manter o país atrasado e pobre, pois o seu objetivo é minimizar o custo da mão-de-obra e não pagar impostos. Não deixa um tostão de lucros, ainda recebe subsídios desse país. Uma empresa estrangeira sem controlo, sem sócio nacional, é um predador do país.

É por isso que hoje, nenhum país do mundo que eu conheça, permite tal coisa. Nem S. Tomé e Princípe. Isso é tão inaceitável em qualquer parte do mundo como o trabalho escravo, a prostituição de menores, o trabalho infantil, etc, etc.

Ou seja, aquilo porque os nossos governantes tanto anseiam e apresentam como a salvação do País é algo proibido fora da Europa e algo que só acontecerá nestes ínfimos países do sul do Europa. Talvez aconteça também no México, cujo norte foi colonizado pelos EUA. Então porquê o empenho dos nossos governantes num investimento estrangeiro sem controlo?

O que o país precisa é de investimento nacional; mas esse pode contar com todos os obstáculos, todas as burocracias. Porquê?

Deixo-vos estas duas perguntas.


quarta-feira, junho 12, 2013

O Conflito FMI - UE


Como já se percebeu, há um “mal-estar” crescente entre o FMI e a União Europeia; o FMI está a dizer que assim não dá mas a UE insiste em que não há outro caminho.

Ambos estão certos; os objectivos de cada um é que são diferentes.

O objectivo do FMI é ganhar dinheiro; ora, para isso é preciso manter o devedor com a corda na garganta mas sem nunca o esganar. Esganar o devedor é matar a galinha dos ovos de oiro.

O FMI está a ficar em pânico porque está a ver que os devedores estão a ser esganados; e assim não só o FMI vai deixar de ganhar dinheiro com eles como ainda se arrisca a perder o dinheiro emprestado.

Isto é óbvio, não é verdade? Qualquer tonto percebe isto.

Então porque é que a UE acha que “estamos no bom caminho”?

Lembram-se de qual é o grande argumento, que repetem incessantemente, para a construção da UE? É o de que a UE existe para evitar a guerra na Europa! Até ganhou um prémio Nobel da Paz, não foi?

Mas pensemos: que guerra na Europa? Quem faz guerra na Europa? Nós? A Espanha? A Itália? A Hungria? A Polónia? A República Checa? A Eslováquia? Chipre? Dinamarca? Suécia? Quem????

A resposta é clara: o único país que faz guerra na Europa é a Alemanha. Fazer guerra não passa pela cabeça de mais ninguém na Europa.

Ou seja, a UE é uma construção cujo objectivo é evitar que a Alemanha tente conquistar os outros países europeus pela força das armas.

Não há nenhuma outra interpretação possível. Quando se diz que a Europa está em paz há quase um século está-se apenas a dizer que a Alemanha não fez nenhuma guerra nas últimas décadas.

Bem, e como é que a UE evita que a Alemanha faça guerra pelas armas? Simplesmente permitindo-lhe que conquiste a Europa sem gastar balas. Que é o que a Alemanha está a fazer.

O objectivo da UE (leia-se Alemanha) é a conquista dos outros países europeus; isso implica a destruição dos seus Estados, porque só pode haver um Estado, o Estado Alemão.

É por isso que a UE acha que estamos no bom caminho e o FMI está em pânico; e pela mesma razão: estamos no caminho da destruição.

Haverá aqueles que pensam que isso não é problema nenhum, porque depois ficaremos todos alemães, a usufruir do desenvolvimento alemão. Os Ucranianos também pensaram isso quando os alemães os “libertaram” dos russos na 2ª guerra mundial; para a seguir serem escravizados pelos alemães como nunca tinham sido pelos russos.

Os alemães querem escravos para trabalharem para eles. Sempre quiseram. Não querem misturas nem igualdades, eles são a raça superior. É assim que pensam há séculos, já consta dos almanaques do século XVIII.

Estou a publicar uma série de posts a dizer como se pode tirar o país da crise económica; mas isso é uma ingenuidade, não há qualquer intenção de tirar o país da crise, a intenção é a oposta, é metê-lo num buraco do qual não haja saída possível. O pós-troika são as condições de rendição à Alemanha.

Estes governantes estão tão convencidos de que já não temos saída que o Gaspar se permite gozar explicando a queda brutal do investimento com o clima e o Governo se permite mandar o TC às urtigas, agora não pagando o subsídio de férias, a seguir despedindo os FP (o Estado é para acabar). A TV pública grega acabou? Claro, TV pública europeia é a Alemã, a Europa não precisa de mais nenhuma, não é? A nossa também vai acabar.


E nós, vamos fazer o quê?