sexta-feira, junho 28, 2013

Para que serve o investimento estrangeiro


Como tenho andado sem tempo para o blogue mas não quero deixar os meus leitores abandonados, vou fazer algo que nunca fiz: escrever um post em directo!

Fala-se muito por cá da importância e necessidade do investimento estrangeiro. Parece ser uma necessidade óbvia, indiscutível, evidente - pois não são postos de trabalho, dar de comer a gente desempregada? Bem bom, não é?

Pensemos um pouco: os EUA, a Alemanha, a França, a Inglaterra, andam atrás de investimento estrangeiro?   A Itália? A Dinamarca? A Suécia? Não andam pois não?

serão então esses países geridos por governantes que não sabem o fazem?
Não, pois não?

Mas podemos olhar para outros países; o Brasil anda atrás de investimento estrangeiro? Não consta. O Canadá? Também não? África do Sul? Népia.

Afinal, quem é que quer o "investimento estrangeiro"?

Só há uma razão para um país querer investimento estrangeiro: obter know how, saber-fazer. Porque é isso que pode gerar riqueza.

É por isso que em todos os países do mundo excepto nos colonizados, como Portugal e Grécia, não se aceita investimento estrangeiro que não tenha um sócio nacional. Essa é apenas uma das condições que estabeleceram para garantir que o país tem interesse nessa actividade, que há transferência de know how, que parte importante dos lucros ficam no país. Mas há mais condições - na China, as empresas estrangeiras têm um plano de transferência de know-how e prazo de saída da China.

E, claro, isso apenas nos países menos desenvolvidos, que procuram transferência de know how.

É o know-how que gera desenvolvimento e riqueza. Portugal de há um século era miserável porque era atrasado, ignorante, não tinha saber-fazer.

Quando se permite a instalação de uma unidade de produção estrangeira sem contrapartidas, o que acontece é que essa empresa tudo fará para manter o país atrasado e pobre, pois o seu objetivo é minimizar o custo da mão-de-obra e não pagar impostos. Não deixa um tostão de lucros, ainda recebe subsídios desse país. Uma empresa estrangeira sem controlo, sem sócio nacional, é um predador do país.

É por isso que hoje, nenhum país do mundo que eu conheça, permite tal coisa. Nem S. Tomé e Princípe. Isso é tão inaceitável em qualquer parte do mundo como o trabalho escravo, a prostituição de menores, o trabalho infantil, etc, etc.

Ou seja, aquilo porque os nossos governantes tanto anseiam e apresentam como a salvação do País é algo proibido fora da Europa e algo que só acontecerá nestes ínfimos países do sul do Europa. Talvez aconteça também no México, cujo norte foi colonizado pelos EUA. Então porquê o empenho dos nossos governantes num investimento estrangeiro sem controlo?

O que o país precisa é de investimento nacional; mas esse pode contar com todos os obstáculos, todas as burocracias. Porquê?

Deixo-vos estas duas perguntas.


quarta-feira, junho 12, 2013

O Conflito FMI - UE


Como já se percebeu, há um “mal-estar” crescente entre o FMI e a União Europeia; o FMI está a dizer que assim não dá mas a UE insiste em que não há outro caminho.

Ambos estão certos; os objectivos de cada um é que são diferentes.

O objectivo do FMI é ganhar dinheiro; ora, para isso é preciso manter o devedor com a corda na garganta mas sem nunca o esganar. Esganar o devedor é matar a galinha dos ovos de oiro.

O FMI está a ficar em pânico porque está a ver que os devedores estão a ser esganados; e assim não só o FMI vai deixar de ganhar dinheiro com eles como ainda se arrisca a perder o dinheiro emprestado.

Isto é óbvio, não é verdade? Qualquer tonto percebe isto.

Então porque é que a UE acha que “estamos no bom caminho”?

Lembram-se de qual é o grande argumento, que repetem incessantemente, para a construção da UE? É o de que a UE existe para evitar a guerra na Europa! Até ganhou um prémio Nobel da Paz, não foi?

Mas pensemos: que guerra na Europa? Quem faz guerra na Europa? Nós? A Espanha? A Itália? A Hungria? A Polónia? A República Checa? A Eslováquia? Chipre? Dinamarca? Suécia? Quem????

A resposta é clara: o único país que faz guerra na Europa é a Alemanha. Fazer guerra não passa pela cabeça de mais ninguém na Europa.

Ou seja, a UE é uma construção cujo objectivo é evitar que a Alemanha tente conquistar os outros países europeus pela força das armas.

Não há nenhuma outra interpretação possível. Quando se diz que a Europa está em paz há quase um século está-se apenas a dizer que a Alemanha não fez nenhuma guerra nas últimas décadas.

Bem, e como é que a UE evita que a Alemanha faça guerra pelas armas? Simplesmente permitindo-lhe que conquiste a Europa sem gastar balas. Que é o que a Alemanha está a fazer.

O objectivo da UE (leia-se Alemanha) é a conquista dos outros países europeus; isso implica a destruição dos seus Estados, porque só pode haver um Estado, o Estado Alemão.

É por isso que a UE acha que estamos no bom caminho e o FMI está em pânico; e pela mesma razão: estamos no caminho da destruição.

Haverá aqueles que pensam que isso não é problema nenhum, porque depois ficaremos todos alemães, a usufruir do desenvolvimento alemão. Os Ucranianos também pensaram isso quando os alemães os “libertaram” dos russos na 2ª guerra mundial; para a seguir serem escravizados pelos alemães como nunca tinham sido pelos russos.

Os alemães querem escravos para trabalharem para eles. Sempre quiseram. Não querem misturas nem igualdades, eles são a raça superior. É assim que pensam há séculos, já consta dos almanaques do século XVIII.

Estou a publicar uma série de posts a dizer como se pode tirar o país da crise económica; mas isso é uma ingenuidade, não há qualquer intenção de tirar o país da crise, a intenção é a oposta, é metê-lo num buraco do qual não haja saída possível. O pós-troika são as condições de rendição à Alemanha.

Estes governantes estão tão convencidos de que já não temos saída que o Gaspar se permite gozar explicando a queda brutal do investimento com o clima e o Governo se permite mandar o TC às urtigas, agora não pagando o subsídio de férias, a seguir despedindo os FP (o Estado é para acabar). A TV pública grega acabou? Claro, TV pública europeia é a Alemã, a Europa não precisa de mais nenhuma, não é? A nossa também vai acabar.


E nós, vamos fazer o quê? 

terça-feira, maio 28, 2013

Os 4 problemas de Portugal (3b)


Vejamos agora a segunda das 3 componentes do problema da dívida pública: a receita do Estado. Agora vou só analisar a receita fiscal; há outra componente da receita do Estado mas fica enquadrada no quarto problema do país.

Em Portugal, a carga fiscal (33,2%) é das menores da Europa; 10% menos que em França (43,9%)!! Abaixo da média europeia (39%) em 6%! Porém, é a mais alta sobre as pessoas de menos rendimentos! Quase o dobro da Alemã para um empregado solteiro. Ou seja, Portugal é onde os “ricos” (os 10% mais ricos) menos pagam e o “povo” (os 90% mais pobres) mais paga!!!

Portanto, a carga fiscal em Portugal pode ser muito aumentada do lado dos mais ricos, combatendo as fugas e aumentando as taxas sobre os rendimentos mais elevados, quer do IRS quer outras, como o IMI sobre as propriedades de valor mais elevado, e acabando com os esquemas que as isentam de IMI. Em vez disso, o que este governo faz é ir buscar dinheiro à classe média baixa e aos pobres. É preciso empobrecer os portugueses, dizem eles: e não há alternativa, repetem uma e outra vez. E a oposição parece confirmar, porque não apresenta alternativa que se veja. Mais do que o governo, é a oposição que vai convencendo os portugueses disso porque não apresenta alternativa. E, claro, as classes acima da média adoram essa ideia porque pensam que assim serão os mais pobres a pagar a crise e não eles.

Porém, o governo sabe muito bem que empobrecer o povo não resolve o problema das contas públicas, e por duas razões.

 Uma é que simplesmente o “povo” não têm dinheiro para tal pois os ricos, contrariamente ao que muita gente pensa, têm a maioria do dinheiro. Não sei os números de Portugal mas nos EUA o rendimento da metade mais pobre é apenas 4% do PIB e na Alemanha parece ser inferior. Se não erro, em todos os países de economia capitalista, até na China, os 10% mais ricos detêm mais de 50% da riqueza; e, nalguns casos, muito mais. Claro que taxar os ricos é complicado porque o dinheiro deles tem asas, mas outros países sempre conseguem mais do que nós.

A outra razão é que empobrecer o “povo” leva à quebra do consumo interno e à recessão da economia, criando a famosa espiral recessiva que estamos a ver. Se o empobrecimento fosse dos ricos, isto não acontecia, porque o que determina o crescimento da economia não é o dinheiro dos ricos, é o consumo, é o dinheiro dos pobres. E em Portugal mais do que noutros lados, porque aqui os ricos não consomem produtos nacionais, pois não? Nem os ricos nem as pessoas que sonham sê-lo.

Reparemos no seguinte: se a carga fiscal aqui fosse igual à de França, ou seja, se os ricos aqui pagassem tantos impostos como pagam em França e os pobres tão pouco como pagam em França, a coleta aumentaria 10% do PIB e o Estado, em vez de um deficit de 5%, teria um superavit de 5%!!!! Além de que a recessão seria muito menor e, logo, maior a coleta.

Então serão completamente estúpidos e ignorantes? Não sabem o que andam a fazer?

Claro que sabem. Sabem muito bem.

Enquanto a dívida pública for um problema, a banca ganha dinheiro. A especulação sobre as dívidas soberanas é um processo tão conhecido como a especulação sobre os terrenos urbanizáveis, por isso foram criadas defesas através dos bancos centrais e através da captação das poupanças para ela. Para executar esta especulação, era preciso controlar o banco central e destruir o mecanismo das poupanças no Estado. No caso português, destruir este mecanismo foi apenas destruir os certificados de aforro. Fácil. Mas o problema do banco central era mais complicado.

Esta operação foi preparada ao pormenor e eu sei porque de certa forma fui convidado a tomar parte no processo (não sei porquê, mas as pessoas da banca tendem a achar que eu devo ter muito dinheiro e fazem-me propostas estranhíssimas; se eu quisesse, tinha algos ganhos financeiros e não pagaria um tostão de impostos sobre eles). Para resolver o problema do banco central, bastou o artigo 125 do tratado de Lisboa, que anula a possibilidade de intervenção do BCE. Ficaram então criadas as condições para o ataque especulativo às dívidas soberanas, para o qual fui convidado. Isto antes da crise.

Entretanto, rebenta a crise! A banca viu no assalto às dívidas soberanas a forma de compensar as brutais perdas que estava a ter, porque a sua riqueza era de base especulativa e as bolhas especulativas estoiraram.

Mas a crise trouxe um problema ao plano: os juros altos, resultantes da ausência de poder negocial dos Estados, em cenário de crise lançaram as dúvidas sobre os títulos de dívida: o seu valor começou a cair muito, por um lado, enquanto os juros ficam descontrolados, por outro. Ora a queda de valor dos títulos abria as portas a que os governos resolvessem o problema, seguindo o exemplo do Equador: recomprando os títulos de dívida a uma fração do valor, no mercado secundário!

Então, o BCE interveio no mercado secundário, retirando aos governos essa possibilidade. Uma possibilidade que eu penso que os governos não usariam, dado que são completamente controlados pelos financeiros, mas… Aqui, curiosamente, o BCE já se apressa a intervir para impedir os mercados de funcionarem; as leis do mercado só são válidas enquanto privilegiam os financeiros, ou não fossem eles o regulador. Assim o BCE interveio para manter os juros no valor adequado a conseguir uma permanente sangria de recursos dos Estados.

Mas não pensem que o BCE e a Merkel são os únicos responsáveis desta confusão. Este Governo pode tomar medidas e deliberadamente não o faz; uma é abrir a dívida pública ao retalho, coisa que já todos os outros países em crise fizeram. E não faz porque tem um grave problema entre mãos: se o fizer, mais depressa vão os bancos nacionais à falência porque lhes prejudica a negociata da dívida. Por isso é que as colocações de dívida são “fechadas”. A continuarmos assim, em breve até os gregos terão juros mais baixos do que nós.

Ou seja, no afã de salvar a banca, o governo está a sacar o dinheiro aos portugueses para o canalizar para a banca através dos juros da dívida pública.

Porém, não está a perceber uma consequência colateral: os bancos nacionais também dependem do mercado interno, tal como as empresas nacionais que trabalham para ele; o que o Governo está a meter nos bancos através dos juros da dívida está a tirar pelo lado do mercado interno, com um fator multiplicativo. Esta política vai levar à falência das empresas nacionais e da banca nacional.

Existe a ideia de que basta gerir para o imediato; se formos resolvendo os problemas à medida que eles vão aparecendo, “empurrando para a frente com a barriga”, acabamos por resolver tudo. Não é verdade. O governo, ao serviço da banca, não vai resolver o problema dela, vai afundá-la.


Em resumo, a coleta fiscal podia ser maior, mais justa e menos recessiva; mas o objetivo prioritário não é resolver o problema das contas públicas, é salvar a banca, salvar os ricos! A riqueza dos ricos foi conseguida através de processos especulativos e determinou empobrecimento do “povo”; este empobrecimento, por sua vez, fez estoirar os processos especulativos. A riqueza dos ricos deveria cair em consequência. Naturalmente, eles não querem isso e procuram transferir o empobrecimento deles para cima do “povo”. É por isso que o objetivo declarado da Governo é “empobrecer os portugueses”. Alguém tem de empobrecer, não é? A ideia dos ricos, tal como no afundamento do Titanic, é saltar para os botes salva-vidas e o povo que afogue. Porque o povo aguenta tudo, ai aguenta aguenta... sempre aguentou...

domingo, maio 26, 2013

Quem escolhe os ministros?


No meio dos 4 problemas de que em minha opinião é prioritário resolver para surgir luz ao fundo deste túnel, permitam-me uma breve nota que talvez ajude a compreender melhor como as coisas se passam.
Oiço muitas vezes dizer-se que os ministros são corruptos porque assim que saem do governo abicham logo belos lugares nas empresas que andaram a favorecer durante o seu mandato.

ORA ISTO É UM ENORME DISPARATE

Esses ministros não foram contratados por essas empresas a troco dos favores que lhes fizeram; eles já eram empregados dessas empresas e foram por elas designados para o lugar de ministro.

As grandes empresas dão dinheiro aos partidos políticos; a troco de quê? De poderem escolher os ministros relevantes na altura em que a política do governo esteja orientada para a sua área de atividade. Isto não é tão estranho ou criticável como pode parecer à primeira vista, como vou explicar.

Onde se pode um PM ir buscar uma pessoa para ministro? Um político do seu partido perceberá de política mas um ministro tem de saber do pelouro; há os académicos, servem para umas coisas mas não para outras, não têm geralmente experiência “de terreno”; há os funcionários do ministério, seria uma possibilidade, mas esses também são normalmente apenas burocratas; e há os que trabalham no sector, em grandes empresas – mas esses não vão perder o vínculo laboral por uma comissão como ministro.

Há alternativas; por exemplo, ir buscar pessoas na reforma ou à beira dela; ou então promover dentro do Estado as competências necessárias; e há também a profissionalização da política: pessoas que são preparadas para gerir um país nas várias componentes, que é o que acontece em Singapura e que acontece com algumas pessoas que seguem carreiras políticas, por isso é que saem do governo e vão para Bruxelas ou para lugares em organismos internacionais.

Se um PM pretende levar a cabo um plano de investimento em infraestruturas, tem de o fazer em colaboração com as empresas nacionais do setor; e nada como ter como ministro uma pessoa que seja simultaneamente da sua confiança e apoiado por essas empresas; é então que a empresa do sector que apoiou o partido do governo tem a oportunidade de escolher o ministro. (nota: tem de ser da confiança do Governo; se fosse apenas um empregado da empresa, serviria apenas os interesses desta e não os do país)

Há a ideia muito errada de que o Estado e privados defendem interesses opostos e estão em conflito. Não é nem pode ser assim. Eu sei que essa é uma visão muito espalhada, mas é apenas fruto da ignorância, de atavismos, provincianismos, oportunismos e horizontes curtos. Uma visão de que precisamos de nos livrar. E quem a promove, quem fomenta antagonismos entre público e privado, está a fazê-lo para defender interesses ilegítimos.

Os casos dos ministros das obras públicas são bem conhecidos, mas há outros menos conhecidos.
Neste Governo temos dois ministros que tudo indicam foram nomeados por empresas: o da saúde e o da economia.

O Paulo Macedo é um empregado da banca, do sector da saúde; foi para ministro ganhar 1/5 do seu ordenado na banca. Porquê?
Vejamos a sua ação: baixar custos de medicamentos e material hospitalar. Uma boa medida para o sector público, sem dúvida. Porém, é também uma boa medida para o sector privado; e uma medida que apenas o seu poder como Ministro permite levar a cabo. Por outro lado, a Saúde foi a única área onde as PPP cresceram. Nas obras públicas fala-se muito em renegociação e redução de custos; na saúde não se fala nada, as PPP são indiscutíveis. Como é que umas são más e as outras boas? Todas elas foram feitas com a banca… com a mesma banca...

Notem que isto não significa que o ministro pretenda boicotar a saúde pública, acabar com ela, etc. Não o tenho nessa conta; como disse atrás, isso é o pensamento das pessoas de horizontes curtos a defender interesses ainda mais curtos. A função do ministro é conseguir coordenar a atividade pública e privada em benefício dos cidadãos.
Claro que as origens do ministro pesam nas decisões; por exemplo, foi veloz a aumentar os custos para os utentes, mas muito menos eficiente a reduzir o abuso de análises que muitos médicos mandam fazer. Pelo menos que eu notasse. Se o ministro fosse oriundo da indústria farmacêutica, as soluções seriam outras. 

Cabe ao PM saber a que sector deve ir buscar o ministro para desenvolver a atividade no sentido em que pretende ou para compensar desequilíbrios entre as forças atuantes no setor.

Portanto, estes casos, dos anteriores ministros das obras públicas ou do atual ministro da Saúde, são legítimos de um ponto de vista pragmático.

Mais complicado é o caso do Álvaro.

Há duas coisas que os países desenvolvidos querem dos outros: mão-de-obra barata e recursos naturais. Estes são vários: climáticos, águas, combustíveis, minérios. É bem sabido a importância que se dá ao controlo das jazidas de combustíveis (petróleo, gás, carvão, urânio) e às de metais indispensáveis à eletrónica. Mas todas elas, essas e as outras, são alvo das maiores atenções. Portugal tem diversas jazidas de metais, a generalidade delas sem viabilidade económica na atualidade; porém, elas existem e podem ser importantes no futuro.
Existe uma empresa, a Colt, cuja atividade consiste na descoberta e venda de concessões mineiras. É uma empresa canadiana que, curiosamente, opera num único país: Portugal. Até este governo, nunca tinha conseguido nenhum negócio relevante. Isso mudou com a chegada de um ministro da Economia que, coincidência das coincidências, veio do Canadá. E, coincidência das coincidências, esse ministro, até agora, a única coisa que parece ter feito é mirabolantes concessões mineiras. O resto parece ser só “fogo de artifício”: grandes anúncios com voz firme e hirta, e depois nada. Pode não ser culpa dele, parece que na realidade não temos um governo, temos apenas um empregado das finanças alemãs a gerir o país.

O que nos traz ao Gaspar; foi escolhido por Passos Coelho? Tanto como os elementos da Troika. O Gaspar foi escolhido para governar o país e não foi pelo PM, em minha opinião. E o resto do governo, tirando o Macedo, é ilusão, porque só fingem que governam, quando é apenas o Gaspar que manda. Como é ilusão pensar somos governados por quem elegemos. O Monti já o disse… as pessoas é que não prestam atenção…


Notem, por último, que a aparente inação de todos os ministérios menos o da Saúde não é de estranhar: quando se fazem remodelações não se fazem novas ações. A exceção da Saúde dever-se-á à existência de um ministro que é empregado do sector privado e, por isso, não pode limitar-se à função que o governo pretenderia: tem de organizar o sector para benefício do seu patrão e não apenas emagrecer o sector público.

quinta-feira, maio 09, 2013

Os 4 problemas de Portugal (3a)



O terceiro problema é a dívida pública.

Este problema tem três componentes: a dívida propriamente dita, receitas e financiamento.

Para simplificar a vida ao leitor, vou dividir o assunto pelas 3 componentes, em 3 textos curtos. Este é sobre a dívida.

(da wikipedia; dívidas públicas em função do PIB)
Quanto à dívida, o Estado é como qualquer empresa: quanto mais capital tiver disponível, mais aumenta a sua capacidade competitiva. Todas as empresas dependem de capitais alheios no montante máximo que as suas receitas suportam. Se não procederem assim, não maximizam a sua capacidade competitiva e acabam “engolidas” pela concorrência. É por isso que, contrariamente ao que o Gaspar tem andado a dizer, apoiado num estudo que se sabe agora ser falso, muitas das maiores economias e das que mais crescem são as de países com as maiores dívidas públicas. O que torna uma dívida pública “excessiva” não é o seu valor em função do PIB, é a receita que o Estado consegue (que corresponde à facturação de uma empresa) e a capacidade negocial do Estado para obter financiamento a juros adequados. 

Façamos uma analogia com nós mesmos: a vossa dívida à banca nunca foi superior ao que ganham num ano? A minha já foi, e isso não foi problema porque o meu saldo receitas/despesas e as condições de financiamento que tive suportavam esse endividamento.

Portanto, não é a dívida pública que é excessiva, é a capacidade do Estado para obter receita e se financiar que é insuficiente. Os teóricos que falam em que a dívida pública não pode exceder 60% do PIB não estão suportados em nenhuma razão objetiva; aliás, a da Espanha estava nesse valor quando começou a crise, o que mostra bem que não é o valor da dívida pública que interessa. A da Alemanha é de 80% do PIB e desconfio que seja mais do que isso porque os alemães não deixam que se veja totalidade das suas contas. A dívida pública, considerada isoladamente, é irrelevante. Gerir as finanças do Estado com o objetivo de redução da dívida pública é um erro; basta olha para a figura acima para perceber que só existe desenvolvimento com uma dívida pública baixa onde há importantes recursos naturais. Reduzir a dívida pública é estrangular o desenvolvimento, o que não é surpresa nenhuma, acontece o mesmo em qualquer empresa neste mundo competitivo.

Claro que interessa em que foi aplicado o dinheiro que se pediu emprestado, mas essa é outra discussão. Um Estado, como uma empresa, pode ser bem ou mal gerido.

quarta-feira, maio 01, 2013

Os 4 problemas de Portugal (2)

O segundo problema é a balança de capitais.




A figura acima mostra a repartição do investimento “estrangeiro” em Portugal (tirado deste vídeo promocional). Uma coisa chama logo a atenção: o maior investidor em Portugal é a Holanda, seguido do... Luxemburgo????

Sabem o que isto quer dizer: as empresas põem a sede nesses países onde só pagam uma pequenina taxa (2,5%, creio) sobre os lucros, que transitam para um offshore. Ou seja, grande parte deste investimento só deixa cá ficar o dinheiro dos ordenados.

Agora uma novidade: na verdade, muito pouco deste investimento será estrangeiro. É nacional! Como é evidente, com as regras que existem, só quem não puder é que não mete a sede na Holanda ou no Luxemburgo. Por isso, os investidores nacionais, quando abrem uma empresa, é o que fazem. Portanto, a maior parte do investimento estrangeiro será... nacional! Os lucros é que não ficam cá, e esta é uma forma eficiente de fuga de capitais.

Então o investimento mesmo mesmo estrangeiro é que será bom, é que paga impostos cá?

Nada disso. Uma empresa estrangeira quando abre cá uma fábrica, nos moldes em que isso é atualmente feito, essa fábrica é apenas um componente da sua cadeia de produção, que compra à empresa mãe e vende à empresa mãe (ou do grupo). A diferença entre o preço de compra e venda é o necessário para pagar os ordenados, descontados os benefícios que o Estado sempre dá aos estrangeiros.

Para percebermos as consequências disto, imaginemos uma família onde só o homem tem emprego e coloca parte do que ganha numa conta só dele, para ele gastar como quiser, deixando para a família o mínimo dos mínimos. A mulher e os filhos alimentam-se de farinhas cerelac com água e vestem-se com as roupas que a igreja vai arranjando. O homem come brutas almoçaradas e, à noite, quando chega a casa, finge que “passa debaixo da mesa” para não “tirar o pão da boca aos filhos nestes tempos difíceis”. Faz belas viagens de férias com a amante e diz em casa que foi trabalhar na apanha do morango. Tira os filhos da escola e põe-nos a dar serventia de pedreiro para que eles nunca abram os olhos e ainda contribuam para as despesas da casa.

É mais ou menos isto que se passa. É claro que numa família consideramos que as pessoas são responsáveis umas pelas outras e na nossa sociedade nem pensar nisso, é cada um por si. Mas o resultado assim é mau e por isso é preciso regras que substituam a moral que se exige a uma família. Nomeadamente, são precisas regras que tornem vantajoso que quem tem lucros aqui, os aplique aqui.

Isto é mais do que sabido, há décadas que essas regras existem noutros lados, por exemplo, nos EUA. Mas cá não. E não é baixando o IRC que isso se consegue, porque a taxa holandesa é imbatível. É como fazem os EUA.

 A conversa de “captar investimento estrangeiro” é um disparate por duas razões. Uma delas é que se queremos investimento, apenas precisamos de criar condições para os investidores nacionais investirem aqui pois, como mostra o gráfico do investimento “estrangeiro”, grande parte dele é nacional mascarado de estrangeiro. A outra razão porque isso é um disparate, nos moldes em que é feito, é a seguinte:

Se uma empresa que opera em Portugal se limita a pagar salários e leva para fora todas as mais-valias aqui geradas, o país nunca pode aumentar o nível de vida. Pelo contrário, essa empresa só existe aqui enquanto não conseguir pagar menos noutra qq parte do mundo. É por isso que nos outros lados a entrada de empresas estrangeiras é definida com um objectivo muito diferente: a transferência de saber-fazer.

É que não é através das empresas exportadoras que um país se desenvolve, é à custa do mercado interno; é por isso que a transferência de saber-fazer é o objectivo das políticas de atracção de empreendedores estrangeiros. É o velho ditado: o que interessa é aprender a pescar.

É por isso que em todo o lado as empresas estrangeiras têm de ter um sócio nacional, que pode ser o Estado, e têm um prazo de saída, são concessões a prazo. Quando a Volkswagen sair da China, em 2030, a indústria automóvel chinesa estará pronta. Claro que os alemães foram inteligentes e negociaram bem o assunto, os carros chineses vão estar cheios de electrónica alemã, que é onde estão as mais-valias que interessam aos alemães; e assim, através dos chineses, os alemães vão acabar por dominar o mercado mundial dos componentes especializados para automóveis.

Claro que exportar é muito importante, nenhum país é auto suficiente. Nos países mais desenvolvidos, grande parte das suas exportações são de bens produzidos noutros lados; por exemplo, uma empresa alemã coloca uma fábrica na Grécia onde realiza a parte do produto que carece de mão-de-obra intensiva, para a qual exporta componentes e da qual importa produtos quase acabados, que depois exporta a partir da Alemanha, ficando aí a mais-valia. Claro que a Grécia é muito melhor do que a China, porque a China exige 50% do capital, transferência de saber-fazer e prazo de saída.

A Grécia será o maior caso de sucesso dentro do Euro; no começo da crise, o seu PIB per capita já era 1,7 vezes o português!! Mas a Grécia fez uma coisa errada: permitiu a instalação de mais de uma centena de fábricas alemãs. Ora essas fábricas dependem de mão-de-obra barata e isso estava a desaparecer da Grécia. Logo, havia que fazer algo para empobrecer os gregos e levar o desemprego para níveis acima dos 20%, que é o que coloca os ordenados em espiral decrescente.

Em conclusão, é preciso:
1-     criar condições para que os lucros das empresas que operam em Portugal sejam investidos em Portugal;
2-     a instalação de empresas estrangeiras em Portugal deve ser feita nos mesmos moldes em que se faz em quase todos os países soberanos (participação nacional, transferência de saber-fazer, efeito multiplicativo sobre a economia, concessão a prazo)  

sábado, abril 20, 2013

Os 4 problemas de Portugal (1)



Portugal tem muitos problemas; mas, para sair da crise, basta-lhe, em minha opinião, resolver 4!

 Primeiro, vou apresentar sucintamente esses 4 problemas. Depois, vou analisar sucintamente como é que eles se podem resolver. Como irão perceber, está nas nossas mãos resolver todos eles, e sem grande dificuldade. Desde que queiramos é claro.

Primeiro problema: Vivemos acima das nossas capacidades

Um país é como uma família: obtém dinheiro vendendo coisas e com esse dinheiro compra coisas.

Se a família compra mais do que o dinheiro que obtém, ela está a “viver acima das suas possibilidades”.

Da mesma maneira, um país que importa mais do que exporta está a “viver acima das suas possibilidades”.

É assim que nasce esta designação técnica para o desequilíbrio entre exportações e importações. Notem bem: é uma designação técnica, com um significado preciso em economia: significa que se importa mais do que se exporta. Não significa que as pessoas gastem mais do que ganham, não tem nada a ver com isso, tem é a ver com a maneira como as pessoas gastam o dinheiro, que percentagem gastamos na compra de produtos nacionais e na de importados.

Além do aspecto do consumo, há outro; a valorização do que se exporta. Uma fábrica estrangeira que importa componentes da fábrica mãe e exporta para ela a preço de custo está a roubar a mais valia do nosso trabalho e recursos; uma empresa de turismo estrangeiro que vende pacotes no seu país para férias num resort seu no algarve donde os turistas nem chegam a sair, está a usufruir do nosso clima e paisagens sem pagar nada. Embora com consequências graves neste problema do desequilíbrio das exportações, vou considerar este um outro problema e restringir o primeiro problema ao lado do consumo.

Felizmente para nós, basta mudarmos ligeiramente a maneira como gastamos o dinheiro, fazer algumas opções. Meia dúzia de medidas chegam para resolver este magno problema apenas pelo lado do consumo; um problema que afunda a nossa economia há décadas.

segunda-feira, abril 15, 2013

Na morte da amiga de Pinochet (Alfredo Barroso)

Recebi este texto por email, dizendo que se trata de um texto do Alfredo Barroso cuja publicação o Público recusou. Não sei se isto é verdade ou não, mas aqui fica o texto porque ele mostra porque é importante contestar a ideia da Seleção Natural, sistematicamente usada para justificar a opressão.

Decididamente, tenho cada vez mais dificuldade em publicar textos meus nos jornais, e não será certamente pelo facto de estar a escrever pior do que já escrevi - nem certamente pior do que os artigos escritos com os pés publicados quase todos os dias nos jornais.
Poucas horas depois de saber que Margaret Thatcher tinha morrido, escrevi, ontem, dia 8, o artigo que a seguir reproduzo («NA MORTE DA AMIGA DE PINOCHET») e enviei-o, ainda ontem à tarde à direcção do PÚBLICO solicitando a publicação.
Recebi hoje a resposta (não interessa de quem) do seguinte teor:
«Caro Alfredo Barroso: neste momento, excepcionalmente, tenho compromissos para publicação de artigos extra praticamente todos os dias até terça-feira. Fica tarde de mais…».
Só me resta, assim, enviá-lo aos amigos e conhecidos do costume, que constam das listas (porventura desactualizadas por acção e por omissão) arquivadas no meu computador, e publicá-lo na minha página do «facebook», onde não muito apropriado afixar textos longos. Há certamente directores de jornais que esfregarão as mãos de satisfação ao constatarem que estão a fechar-se todas as portas a este «dissidente» politicamente incorrecto, incómodo e «impertinente». Não sou crente mas apetece-me dizer-lhes: deus os guarde e lhes conceda muitos «frutos» do trabalho tão «dedicado» que estão a fazer… Aqui vai, então, o meu artigo:
NA MORTE DA AMIGA DE PINOCHET
por ALFREDO BARROSO
Morreu Margaret Thatcher, uma das principais responsáveis pela contra-revolução neoliberal que há mais de 30 anos vem devastando os regimes democráticos ocidentais, deformando a economia, tornando as sociedades democráticas cada vez mais desiguais, destruindo a coesão social, impondo o «casino da especulação monetária» e a ditadura dos mercados financeiros globais que hoje mandam em nós.
Morreu, além disso, a amiga de Pinochet, um dos ditadores mais sanguinários e corruptos da América Latina, que permitiu que o Chile se tornasse banco de ensaio das políticas ultraliberais preconizadas pela famigerada «escola de Chicago» e levadas a cabo pelos «Chicago boys», apadrinhados por Milton Friedman e Friederich von Hayek, figuras tutelares do pensamento de Margaret Thatcher, além da mercearia do pai.
Não faço esta acusação de ânimo leve. São factos conhecidos, designadamente a sua acendrada admiração por Augusto Pinochet, como se projectasse nele aquilo que ela desejaria impor, mas nunca conseguiria, na velha democracia inglesa. Há muitas fotos em que aparecem ambos sorridentes, lado a lado, quer quando o ditador estava no poder, quer quando o detiveram em Londres na sequência do pedido de extradição efectuado pelo juiz espanhol Baltazar Garzon, que o acusou de ser responsável, durante a ditadura, pelo assassínio e desaparecimento de vários cidadãos espanhóis.
Esta mulher a quem chamaram «dama de ferro», como poderiam ter chamado «de zinco» ou «de chumbo», nutria um profundo desprezo pelos grandes intelectuais ingleses do seu tempo, designadamente Aldous Huxley, John Maynard Keynes, Bertrand Russell, Virgínia Woolf e T. S. Eliot, conhecidos como o «círculo de Bloomsbury» (do nome do famoso bairro londrino de editores e livreiros e de boémia intelectual). A frustração dela perante o talento e a inteligência que irradiavam deles, e que ela não conseguia captar, levaram-na a considerá-los «intelectuais estouvados, que conduziram o Reino (Unido) pelos caminhos nada recomendáveis da segunda metade do século XX». Ao diabo as «literatices» da «clique de Bloomsbury», dizia ela. «O meu Bloomsbury foi Grantham» (onde o pai tinha a famosa mercearia) (…) Para compreender a economia de mercado, não há melhor escola do que a mercearia da esquina». Deve ser por isso que as mercearias estão a falir…
Thatcher considerava «a distância entre ricos e pobres perfeitamente legítima» e proclamava «as virtudes da desigualdade social» como motor da economia. A verdade dos números é, no entanto, bastante diferente. Como salienta John Gray, um dos mais importantes pensadores contemporâneos, na Grã-Bretanha da chamada «dama de ferro» os níveis dos impostos e das despesas públicas eram tão ou mais altos, ao fim de 18 anos de governos conservadores, do que quando os trabalhistas deixaram o poder, em 1979. Ao mesmo tempo, nos EUA de Ronald Reagan, co-autor da «contra-revolução neoliberal», o mercado livre e desregulado destruiu a civilização de capitalismo liberal baseada no New Deal de Roosevelt, em que assentou a prosperidade do pós-guerra.
Convém dizer que John Gray, autor de vários livros editados em português, entre os quais Falso Amanhecer (False Dawn), chegou a ser uma das figuras dominantes do pensamento da chamada «Nova Direita», que teve uma grande influência nas políticas que Thatcher pôs em prática. Mas ficou desiludido e alarmado com as terríveis consequências dessas políticas e tornou-se um dos críticos mais lúcidos e implacáveis dos «mercados livres globais», cuja desregulação tem causado os efeitos mais perversos nas sociedades contemporâneas, provocando a desintegração social e o colapso de muitas economias. O capitalismo global parece funcionar, segundo Gray, de acordo com as regras da selecção natural, destruindo e eliminando os que não conseguem adaptar-se e recompensando, quase sempre de maneira desproporcionada, os que se adaptam com sucesso. Estas são, logicamente, as inevitáveis consequências do pensamento de Thatcher, ao pôr em prática «as virtudes da desigualdade social» como motor da economia.
A pesada herança de Margaret Thatcher, tal como a de Ronald Reagan - adoptadas não apenas pela direita ultraliberal, mas também por uma certa esquerda neoliberal (Tony Blair, Gerhard Schröder e alguns discípulos da Europa do Sul, designadamente lusitanos) - é esta crise brutal em que a UE e os EUA estão mergulhados há já cinco anos. E o mais terrível é que é o pensamento dos principais responsáveis por esta crise que continua e prevalecer na maioria dos governos que prometem acabar com ela à custa da austeridade, do empobrecimento dos cidadãos e do confisco dos seus direitos sociais.
Lisboa, 8 de Abril de 2013 

quarta-feira, abril 10, 2013

As Duas Economias e a Crise



Como o tempo urge, proponho-me colocar 3 ou 4 textos em que exponho tão sucintamente quanto possível o meu entendimento da causa da crise do Euro, de quais são os problemas fulcrais do país e qual é a solução para sairmos deste buraco.

Este texto aborda a causa da crise da Europa do Euro: a falta de Economia Sistémica.
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Fala-se de Economia como se fosse uma Ciência única; mas não é, há duas Economias

Uma visa o Enriquecimento por predação: como deve um indivíduo, uma empresa, uma qualquer entidade proceder para obter a máxima parcela da riqueza disponível. As consequências para a sociedade das actuações dos sujeitos na busca do enriquecimento são irrelevantes para esta Economia; designa-se por “microeconomia”.

A outra visa gerir a sociedade para que os esforços que cada indivíduo, empresa, entidade, faz para enriquecer, convirjam para o enriquecimento de toda a sociedade; ou seja, façam a sociedade evoluir. Inicialmente, isto era designado por “macroeconomia”; hoje pertencerá talvez ao campo da “ciência política” ou “filosofia política”.

São duas ciências bem diferentes. Opostas.

A microeconomia é a cientifização daquilo que as pessoas fazem para conseguirem mais dinheiro; abrange desde comportamentos absolutamente legítimos até ao que podemos designar por cientifização da vigarice. (tudo o que serve o interesse individual está "cientifizado", desde o dopping à religião - já ouviram falar da cientologia?)

A antigamente chamada macroeconomia é a ciência a que se dedicaram pessoas como Marx ou Keynes. A microeconomia leva fatalmente a uma situação em que uns poucos ficam com tudo, que é a situação mais frequente na sociedade humana. Um sistema competitivo puro acaba sempre em “the winner takes it all”. Então, a actividade microeconómica precisa de ser compensada. A forma com é feita esta compensação é que define o sistema económico; por isso, vou passar a designar esse ramo da economia, antigamente designado por macroeconomia, por Economia de Sistema ou economia sistémica.

A evolução da sociedade só é conseguida quando as duas economias equilibram o fluxo económico.

A microeconomia desenvolve-se naturalmente, pois as pessoas querem ser ricas, querem ser mais do que os outros, querem de alguma forma ser especiais. Porém, sem mecanismos de compensação conduz fatalmente à situação em uns poucos oprimem os restantes e passam a monopolizar a actividade económica. E justificam esse estatuto com a ideia da “Seleção Natural” (uma ideia que parece ser muito do agrado do nosso actual PM).

Apenas nos curtos intervalos de tempo em que uma economia sistémica se desenvolveu e equilibrou a microeconomia sem a abafar, experimentou a humanidade breves momentos de grande evolução; no resto do tempo, durante séculos e mesmo milénios, viveu idades negras, de fome, miséria, opressão, retrocesso evolutivo.

Este problema é conhecido desde que a humanidade existe e muitas formas de evitar este desfecho têm sido tentadas, nomeadamente através da religião e da política. Essas formas, porém, acabam sempre não só derrotadas como capturadas e colocadas ao serviço dos “Senhores”.

O desenvolvimento da sociedade depende criticamente do fluxo económico. A microeconomia produz uma desigualdade crescente; se é verdade que a desigualdade (moderada) funciona como motor da actividade individual, é igualmente verdade que ela estrangula o fluxo económico e trava, por essa razão, o crescimento da economia. Esta questão do fluxo económico foi “redescoberta” no começo da recente crise e levou muitos economistas nos EUA ao estudo da física dos fluxos, na esperança de encontrarem nela bases para um modelo do fluxo económico.

É o desequilíbrio entre a microeconomia e a economia sistémica que dita o colapso dos sistemas. Foi isto que os chineses perceberam depois do colapso da URSS, por falta de microeconomia. Os Chineses criaram uma economia com estas duas componentes da economia igualmente fortes e que, em larga medida, está a servir de modelo para muitos países em desenvolvimento.

No ocidente, o problema é o oposto ao da URSS: a falta de economia sistémica levou à grande depressão de 1929; o equilíbrio das duas levou a uma extraordinária fase de desenvolvimento até à última década do século passado, altura em o excesso de microeconomia conduziu a uma crise de consequências que se adivinham dramáticas.

No Ocidente, a economia sistémica está morta. Nas universidades só se ensina microeconomia. Hoje, chama-se macroeconomia a uma microeconomia que se ocupa de grandes sociedades, países, mas o objectivo é o mesmo: enriquecer por predação; o nome retrata apenas uma diferença de escala.

O famoso jornalista norte-americano Gary North definiu assim: “Microeconomia: o estudo de quem tem o dinheiro e de como posso deitar-lhe a mão. Macroeconomia: o estudo de que agência do governo tem a massa e de como podemos deitar-lhe a mão.”

Com a globalização, não havendo uma economia sistémica à escala global, cada país tratou de agir como predador dos outros. Os EUA reorganizaram a sua economia para que as suas empresas sejam o mais forte possível, as medidas sistémicas de controlo de crescimento de desigualdade foram anuladas.

No tempo em que os bancos centrais dependiam dos governos, uma forma essencial de contrariar o crescimento da desigualdade era introduzindo o dinheiro novo “por baixo”. Ou seja, os bancos centrais imprimiam dinheiro (à medida que as economias crescem, é preciso mais dinheiro) e este era introduzido pelo Estado através de grandes obras públicas, de grandes projectos nacionais que promovessem a investigação, como a NASA, e até de grandes projectos militares, que é a área onde é mais fácil os governos investirem.

Com o desaparecimento dos economistas sistémicos, convertidos em macroeconomistas porque isso é que dá dinheiro, os bancos centrais foram “libertados” das tutelas dos Governos. Hoje, o mundo ocidental é governado por bancos centrais cujos estatutos são obscuros e funcionam à margem de qualquer controlo democrático. Sabe-se mais sobre as sociedades maçónicas do que sobre os bancos centrais.

Tornados autónomos, os bancos centrais passaram a injectar dinheiro na economia “por cima”, entregando-o aos banqueiros através de operações como compra de dívidas incobráveis e de “injeções de liquidez” (feitas através do Estado à custa do dinheiro dos contribuintes, ou seja, da classe média). Os Ricos ficam assim mais ricos, os preços dos artigos de luxo sobem mas isso não afecta os cálculos da inflação.

Perguntarão: mas não vêm que assim estrangulam o fluxo económico? Não vêm a recessão, o desemprego, o empobrecimento que estão a gerar?

Claro que vêem; mas esse não é um problema deles. Eles defendem os seus interesses como toda a gente faz. As pessoas da classe média agem em função da sociedade ou dos seus interesses? Claro que é em função dos seus interesses (as excepções não contam). Os 40% de abandono escolar nunca geraram nenhum movimento de indignação popular, mas a medidas para corrigir isso geraram. E as “novas oportunidades” também. E tudo o que se faça para diminuir a desigualdade, melhorar as oportunidades dos mais pobres, gera logo movimentos indignados de pessoas que acham que “lhes estão a ir ao bolso”.

A classe média faz o estranho erro de pensar que os ricos estão ao seu serviço. Não estão, é claro, tal como a classe média não está ao serviço dos mais pobres, acha sempre que isso é uma responsabilidade de quem é mais rico do que ela. O Amorim pensa exactamente o mesmo. (para toda a gente, a definição de "rico" é: aquele que tem mais do que eu)

Assim, os ricos preocupam-se com eles, não com a sociedade, tal como toda a gente. Aprenderam que se cada um tratar de si, todos beneficiam. Se a economia não cresce, a culpa será de alguém mas não deles, porque eles estão a fazer o que é suposto: tratarem deles! Não é essa a base da microeconomia? Mas se não cresce, ai alguém vai empobrecer para que eles continuem a enriquecer. Portanto, olhem, aguentem-se! Afinal, ainda estamos melhor que as crianças do Biafra (Lagarde) ou que os sem-abrigo (Ulrich)...

Comprendamos: os ricos não vão resolver o problema do nosso empobrecimento, nem os conselhos dos economistas de serviço nos servem: eles são todos microeconomistas e estão a defender os seus interesses imediatos.

Por outro lado, não pensemos também que vamos resolver o nosso problema à custa dos ricos. Não vamos.

(continua)

terça-feira, abril 02, 2013

A Afectividade serve a Evolução






Observem a fascinante sequência de operações realizadas por este vírus (todos os vírus têm processos de complexidade semelhante); dado que um vírus está para uma célula como um barco a remos está para um porta-aviões, podemos perceber que as células desenvolvem operações de uma complexidade avassaladora.

(continuação da conversa com o Hans, interrompida pelos últimos 2 textos) 
- Sim, sem dúvida que é esse processo, H+S+R, o responsável pela evolução tecnológica, mas tem por detrás a inteligência humana; como é que passas daí para a Evolução da Vida sem meteres uma inteligência exterior, um Criador?

- Estás certo, a evolução tecnológica resulta de um processo de Inteligência que é exterior ao que evolui. Porém, isso, parecendo pertinente, é um falso problema pois a Inteligência ser exterior não é relevante, o que é relevante é que exista um processo de inteligência capaz de suportar a evolução observada.

- Então era preciso que a Vida fosse Inteligente, mas isso parece-me um salto muito grande, não estou a ver as nossas células a desenvolverem processos H+S+R... ainda se fosse só H+S como o Darwin propôs... mas como é que a célula pode adquirir o conhecimento resultante de uma experimentação? Não estou a ver...

 - O nosso cérebro também realiza esse processo H+S+R sem precisar de uma inteligência exterior sempre que temos de resolver um problema novo. Uma estrela-do-mar também e não tem cérebro. O cérebro tem Inteligência, é um sistema organizado para maximizar essa capacidade, mas a Inteligência não é exclusiva do cérebro.

-Sim, eu sei o que pensas sobre o assunto; mesmo assim não estou a ver como uma célula pode realizar um processo H+S+R...

- Bem, as bactérias realizam-no, não é? Encontram soluções para os seus problemas ambientais, adquirem esse conhecimento e transmitem-no umas às outras. Na verdade, as bactérias realizam também processos de inteligência de nível 3, mas isso veremos mais adiante. Em relação a este nível 2, o H+S+R, nas células passa-se algo semelhante ao processo que o cérebro desenvolve: a célula gera mudanças no código genético e seleciona uma que seja viável, ou seja, que gere proteínas viáveis e que seja compatível com certos equilíbrios, tal como o inconsciente escolhe uma hipótese que esteja de acordo com as suas verdades; depois nasce um ser com esta modificação, esta “Ideia”. Ela determina uma pequenina mudança no ser, nada de dramático, nada que o ponha em causa. Durante a sua existência, o ser verifica se esta diferença para os seus semelhantes lhe traz vantagem ou desvantagem e de que tipo. Esta informação é adquirida pelas células, elas estão todas em permanente comunicação umas com as outras, dispõem de um complexo e sofisticado sistema de comunicações, é esse sistema que permite, por exemplo, que cada célula saiba a função que lhe compete no organismo.

-Ok, eu sei que têm esse sistema, mas e daí?

- Daí, as células reprodutoras recebem essa informação e ela vai condicionar a modificação seguinte a efectuar pelas células reprodutoras; o próximo descendente nasce equipado com a segunda Ideia. – Fiz uma pausa, aguardando a reação.

- Beeemm… não me parece disparatado de todo… tenho lido umas coisas sobre a epigenética… creio que já li um texto teu sobre a Evo-Devo... há muito quem pense que a experiência de vida dos progenitores pode influenciar as características dos descendentes…

- De várias maneiras até, mas o que interessa agora é o seguinte: tal como a primeira ideia que temos para resolver um problema é normalmente má, também a primeira modificação, mutação, tem consequências desfavoráveis para o ser; o processo de Inteligência precisa de recolher informação sobre essas consequências e gerar uma segunda “ideia”, ou seja, uma segunda geração. Para que isso seja possível, é indispensável que este ser mutante e menos apto se reproduza. Se existisse algo como a Seleção Natural, o processo de Inteligência H+S+R não poderia funcionar porque não haveria uma segunda “ideia”, ou seja, uma segunda geração; a reprodução é essencial e a seleção é de todo indesejada no nível 2, a natureza não quer fazer seleção nenhuma dos seres. A sobrevivência ou não, a reprodução ou não, é sobretudo um resultado das circunstâncias, um acontecimento aleatório, irrelevante para a evolução; na verdade, uma inconveniência para a evolução.

- Ena, com essa estás a cilindrar-me!!!! O Darwin disse o oposto!

- Já vamos ao Darwin – ri-me – Estamos a chegar à parte verdadeiramente interessante; ora repara ainda no seguinte. Fiz uma pequena pausa, precisava de beber água, pedi outra garrafa. Enquanto não chegava, continuei:

 - Essas pequenas modificações têm minúsculas consequências; se o ser vive folgadamente, sem ter de se esforçar, de se levar aos limites, os efeitos das modificações não são detectáveis, não há realimentação, o nível 2 não funciona. Portanto, os veículos especialmente úteis ao processo evolutivo são os seres sujeitos a situações adversas, sobretudo em inferioridade com os seus semelhantes porque o principal fator de stress é a competição com eles. Ou seja, são os seres com alguma inferioridade, nomeadamente mais pequenos, mais frágeis, menos bonitos, etc. Estes são os primeiros responsáveis pela evolução. Portanto, exactamente aqueles que segundo a versão corrente da teoria de Darwin seriam eliminados. A Evolução é obra dos menos aptos, os mais aptos são inúteis para ela.

Os olhos do Hans ficaram esgazeados; senti-me feliz, ele tinha percebido. Entusiasmou-se subitamente:

- Claro! É por isso que a Evolução dispara nas situações de adversidade, porque são aquelas que tornam todos os seres menos aptos, e é essa situação de um ser se sentir pouco apto que força a evolução!

- Exacto. E não só. Quando as espécies estão muito otimizadas para um nicho ecológico, qualquer alteração tem consequências negativas e não há mais evolução. Uma forma de impedir a evolução da sociedade humana é através da discriminação acentuada das diferenças, o que torna os efeitos de qualquer modificação excessivamente negativos e bloqueia o processo evolutivo da sociedade. Alguma adversidade é bom mas não pode ser tal que torne demasiado perigoso para um ser ter alguma mutação. É por isso que as águias só têm um descendente por ninhada.

- O quê? Como é isso?

-Vamos então ao Darwin. Um peixe fêmea pode pôr um milhão de ovos mas só alguns sobrevivem; para o Darwin, os sobreviventes teriam sido “selecionados” mas não é verdade, tiveram apenas “sorte”. Os grandes predadores, ao contrário, geram pouquíssimas crias porque a sobrevivência delas depende muito menos do acaso, da sorte. O número de descendentes parece depender essencialmente da necessidade de fazer face às mortes por acaso (doença, acidente, predadores) de forma a manter a espécie a reproduzir-se. As águias apenas geram um descendente por ano, apesar de porem 2 a 3 ovos, consoante as espécies; mas se nasce mais de uma cria (os ovos caem do ninho, há predadores, nem todos eclodem), então, ou uma das crias assim que nasce atira a outra fora do ninho ou os pais alimentam apenas a primeira nascer; ora se a evolução dependesse de um processo H+S, como proposto pelo Darwin, as águias teriam muitos descendentes, que sobreviveriam até à maturidade, e só aí seriam sujeitos a uma qualquer “seleção natural”. Num processo H+S+R, ao contrário, não é o número de descendentes que mais importa – o que importa é que eles se reproduzam e que a população esteja em equilíbrio com o meio para que a adversidade não seja excessiva.

- Então aquela ideia de que as espécies se reproduzem em grande quantidade para que a Seleção Natural faça a sua escolha não está certa?

- Evidentemente que não; a taxa de reprodução parece ser a adequada a assegurar a manutenção da espécie em equilíbrio com o seu meio e fazer face às suas variações, apenas isso; o milhão de ovos dos peixes ou o descendente único das águias conduzem apenas a isso, nada têm a ver com a evolução. Se tivessem, os peixes estariam em evolução aceleradíssima...

-Estou a ver... mas como encontram as espécies esse equilíbrio reprodutivo?

- Penso que o ponto de equilíbrio é quando a principal causa de morte passa a ser o conflito entre os indivíduos da mesma espécie. Ou seja, aquilo que segundo as ideias correntes seria desejável para promover a seleção é exactamente o ponto de alarme da reprodução. Mas agora chamo-te a atenção para outra coisa muito interessante, a raiz da solidariedade.

- A raiz da solidariedade? Que queres dizer com isso?

- A Evolução depende da sobrevivência dos menos aptos; portanto, podemos esperar instintos que velem por isso, tal como temos o instinto maternal para velar pela sobrevivência das crias. Neste caso, temos a solidariedade e a compaixão. A compaixão funciona a nível individual mas quando os seres se organizam em sociedades, a compaixão torna-se solidariedade, um instinto social. A chave da evolução, seja dos seres vivos ou da sociedade, é a Solidariedade, não é a Seleção. E esta, hem?

- Páaa... com essa impressionaste-me... estás a recuperar o conhecimento dos antigos; afinal, é isso que dizem os livros religiosos... compaixão, solidariedade... estás a falar do Amor nas suas várias formas... estás a dizer que a chave da Evolução é o Amor! O Hans estava entusiasmadíssimo com a sua descoberta.

- Olha, bem visto, não tinha pensado nisso... sim, podemos pôr as coisas nesses termos, o Amor pelos outros é o instinto que suporta a evolução da Vida... bem visto...

- Beeemm, já estou a imaginar umas conversas que vou ter com uns amigos que são grandes entusiastas de Darwin... vão passar-se com essa ideia! O Hans parecia-me já um pouco alegre demais, seria das cervejas? Achei por bem esfriá-lo um pouco:

- Nota que o Darwin não disse asneiras; ele nunca falou da “sobrevivência dos mais aptos”, essa frase nem é dele. O Darwin foi muito mais brilhante do que isso.

(continua)