sexta-feira, dezembro 07, 2012

Por que há pobres?


(continuação da conversa com o Hans; aqui ele começa a explicar porque é que a sociedade ocidental tem a estrutura que tem e como evolui)
aqui

Então queres saber porque é que a Alemanha está tão empenhada neste ataque aos países do Sul... - O Hans suspendeu o que ia a dizer; os seus olhos cinzentos imobilizaram-se, apontando ao longe por sobre o meu ombro direito; durante uns segundos o tempo parou, como se o Hans fosse um robot que tivesse ficado sem energia - Não, espera, tenho de começar por esclarecer uma coisa que podes não saber. - Pelos vistos, foi activada a energia de reserva, fantasiei… Espero em silêncio.

As pessoas que não dedicaram especial atenção às questões económicas estão convencidas de que a economia liberal se auto-equilibra  pois que quem produz precisa de consumidores e por isso a existência de pobres seria contrário aos interesses de quem produz. O Hans especou, a olhar para mim atentamente. Admiro-me: E não é? Bem sei que num sistema competitivo as empresas estão sempre a lutar pelo máximo lucro, mas o empobrecimento das pessoas, o crescimento desenfreado da desigualdade é contrário aos interesses de quem produz, dos empresários, dos ricos, embora muitos pareçam não perceber isso.

Um sorriso varre a cara do Hans. Um sorriso meio trocista, meio triste. Fiquei intrigado.
 Estás muito enganado, tal como a generalidade das pessoas. - Inspirou fundo, preparando o esclarecimento, enquanto eu sentia um ar aparvalhado a colar-se à minha cara. - O grande equívoco é pensar que o consumo depende do número de consumidores. Não é verdade. O consumo depende da riqueza dos consumidores. Da riqueza total, não interessa a sua distribuição.

Não interessa? Como assim? Há um limite para o consumo individual….
 Estás enganado. Vamos ver exemplos. Carros por exemplo. Mudas de carro de quanto em quanto tempo?
Bem, eu sou um caso especial… o meu carro anterior durou uns 16 anos … este tem 10 anos…
 E está velho? - interrompeu o Hans.
 Não, nada – entusiasmei-me – está como novo. Tirando uns arranhões é claro.
 Qualquer carro funciona sem problemas uma dúzia de anos ou mais; no entanto, os teus colegas, amigos, familiares, fazem o mesmo que tu?
 Não – assenti – quase toda a gente muda de carro de 4 em 4 anos…
 Achas que isso é necessário?
 Claro que não!
 Pois não. As pessoas mudam de carro porque têm dinheiro para isso; e porque é criada uma pressão social que os faz sentir essa necessidade – uma necessidade meramente psicológica. Ou seja, tanto faz ter uma população onde a riqueza está distribuída por igual e compra carro novo de 8 em 8 anos ou concentrar a riqueza em metade da população e convencê-la a comprar carro todos os 4 anos.

Sim, o consumo é o mesmo … mas isso não deixa deter um limite, não estou a imaginar as pessoas a mudarem de carro de 2 em 2 anos, não é?
 Não estás? - O robot tornou-se subitamente humano, o Hans deitou a cabeça para trás e soltou uma sonora gargalhada - Muita gente nos EUA, por exemplo, muda de carro todos os anos, não é de 2 em 2 anos!!! Mas não fica por aí, alguns coleccionam carros, é um para a estrada, outro para a cidade, um para cada filho, outro para férias, pois tem de ser grande… e também há que acertar a cor do carro com a toilette  não é verdade? Afinal, o carro não é mesmo que um par de sapatos?? Não serve para ir de um sítio para outro? A mesma razão que leva as pessoas a terem vários pares de sapatos aplica-se aos carros, haja dinheiro para isso!

Fiquei siderado. Nunca me tinha ocorrido tal. Mudar carro de 4 em 4 anos já me parecia uma coisa ridícula, mudar de carro como quem muda de sapatos parecia-me surrealista; mas ele tinha razão…

Portanto, já viste quanto se pode concentrar a riqueza, sem que isso afete minimamente o consumo. Ouvia o Hans ao longe… a minha cabeça ainda estava atordoada com a ideia de as pessoas usarem carros como se fossem sapatos… claro que a ideia de as pessoas terem vários pares de sapatos também deve fazer confusão às pessoas que dantes só tinham um… e o outro para a missa… lembrei-me então dos telemóveis, como toda a gente que conheço muda constantemente de telemóvel... mais de 6 meses com o mesmo já é record... Mas vejo que o Hans tem razão, o consumo depende da riqueza total, não da sua distribuição. 
Ok, concordo contigo – digo, saindo do meu torpor meditativo. - Tanto faz que a riqueza esteja concentrada ou distribuída para efeitos do consumo, mas o que é que tiras daí?

Ahhh – os olhos do Hans abriram-se a acompanhar um largo sorriso – é que agora há o outro lado da equação!!!

Outro lado?
 Sim. O que interessa não é o consumo, é o lucro, a relação entre o preço de venda e de custo. O outro lado da equação é o custo de produção - os olhos abriram-se ainda mais, como se estivesse a revelar um segredo crucial – repara, para minimizar o custo da produção, o que é buscam constantemente as empresas?
 Mão-de-obra barata…- arrisquei.
 Exactamente! Agora diz-me qual é a distribuição de riqueza que maximiza o lucro? É a distribuição por igual?

Senti-me um aluno mal preparado a enfrentar o examinador numa prova oral - Não, não é a distribuição por igual, é preferível, numa ótica de lucro, ter a riqueza concentrada numa parte da população e a restante ser pobre para fornecer mão-de-obra barata.

E-xa-ta-men-te!– exultou o Hans - A sociedade da economia liberal é uma sociedade que começa por ser igual e depois divide-se em 3 classes: os ricos, a classe média e os pobres.

Fez-se-me luz.- Então é por isso, exclamei; a sociedade começou por duas classes, senhores e plebe; quando começou o comércio, o consumo, estratificou-se em 3 classes porque é o modelo que melhor serve os ricos!

Bem, ainda não te disse tudo – o Hans fez um sinal com a mão, como quem diz “acalma-te” - A concentração da riqueza tem ainda outra consequência.
 Outra? Não estou a ver...
 É o seguinte: as pessoas querem comprar coisas tão caras quanto possível; compram sempre o carro mais caro que podem, não é verdade?
 O carro, o telemóvel, a viagem de férias... tudo!
 Exacto. Então a concentração de riqueza abre mercado para produtos de luxo, produtos de preço exorbitantes... que geram lucros exorbitantes. Quanto maior a concentração de riqueza, maior a diversidade de produtos que se podem produzir e maiores as margens de lucro. Os ricos geram entre si uma economia própria, que se sobrepõe à restante economia. Isto tem uma consequência: retira peso económico à classe média. A indústria automóvel não precisa de produzir carros de gama baixa, pode deixar isso para os chineses, o que dá dinheiro são os carros de gama alta, as casas de gama alta, a moda de gama alta, etc.

Queres dizer que a classe média pode desaparecer? Ficarem só duas classes, a dos muito ricos e dos pobres?
 Admirado? É essa a tendência clara em vários países, nomeadamente EUA, Canadá e Inglaterra e Austrália. Não conheces o famoso documento do Citygroup sobre a Plutonomia?
 Plutonomia? Nunca ouvi tal...
 Nunca ouviste tal? Esse documento é talvez o documento mais importante que já se fez sobre a nossa sociedade! – um riso de satisfação explodiu na face do Hans. – É um documento do Citygroup a aconselhar os seus clientes a investirem nas empresas que produzem artigos para ricos; na verdade, não diz nada que não se saiba, ou seja, que os 10% mais ricos representam mais de metade da economia, que o conceito de consumidor médio já não tem interesse porque são os ricos que comandam o mercado; e que será cada vez mais assim, o baixo custo da mão-de-obra assegurado pela globalização. A importância deste documento é vir de dentro do sistema, não ser uma opinião de pessoas que contestam o sistema e sempre descredibilizadas por essa razão.

Pois, não conheço...

Então não deixes de ler. Ele retrata lindamente o como e o porquê da transformação da sociedade de 3 classes em duas: Ricos e Pobres. Mas isso já é passado, a evolução da sociedade neo-liberal não acaba aí, a fase seguinte já se iniciou e isso é que é verdadeiramente dramático, muito mais do que possas imaginar. 

(continua)

30 comentários:

alf disse...

Não deixem de ver o vídeo

http://www.youtube.com/watch?v=FZX_HnIBxXM


que o leprechaun indicou; ao min 27:50s apresenta o documento do Citygroup sobre Plutonomia, uma palavra que designa "economia dos ricos"

UFO disse...

mais logo hei-de ler e ver.
agora:
acabar com os ricos parece-me aceitável e podem-me chamar de comunista.

vbm disse...

Fico curioso da «fase seguinte».
A narrativa desta «fase» tem lógica, sim senhor! O que não implica que mobilize todos os factores intervenientes.

Marx explicitou uma narrativa semelhante ao sistema produtivo e comercial do seu tempo, mas individuou bem qual a classe social que derrubaria o sistema.

Na descrição presente da proletrização induzida pela globalização não está ainda identificada que classe emerge do sistema para o derrubar.

Eu imagino que venham a ser os próprios estados-pá(t)rias a revoltarem-se e a desobedecer ao sistema da ordem e comércio internacional. Um pouco naquela "vossa" ideia (tua e do leprechaun) da moeda local e respectiva autarcia económica.

O inconveniente desta tentativa de solução é o perigo de guerra - onde não circulam as mercadorias, circulam as armas -, e regressão civilizacional. Mas, saiba-se que o já factual sobrepovoamento terrestre imporá por si próprio uma efectiva resolução de modo natural e/ou histórico.

alf disse...

UFO

O problema não são os ricos. Os ricos pensam da mesma maneira que todas as outras pessoas nesta nossa sociedade - pensam egoisticamente.

O problema está em que é preciso substituir a ideia de que "se cada um pensar em si, todos beneficiarão". Esse é que é o erro, a causa de todos os problemas.

Esse raciocínio desaparece em situação de crise profunda - aí todos percebem que ou há um pensamento colectivo ou lixam-se todos; mas assim que passa a crise, todos querem ser predadores.

O que é preciso é alterar essa mentalidade. o vídeo fala disso. Porem, ela tem de ser subsituída por outra que vá de encontro aos nossos anseios profundos, e devagarinho.

É isso que os nórdicos conseguiram muito razoavelmente (os filandeses nem por isso, ao que parece)

Mas, é claro, essa mudança não convém nada aos ricos; como verás, o que está em curso é uma guerra dos ricos contra o Estado social, que representa a realização dessa nova mentalidade. Uma guerra tão feroz como a que fizeram contra o comunismo.

alf disse...

vbm

Obrigado!

O que eu disse ao UFO aplica-se aqui - não é uma classe, é uma mentalidade. Se for só uma classe, volta tudo ao mesmo, como sempre sucedeu... só mudam as moscas...

Essa mentalidade é a do Estado do bem-estar. E nós temos de escolher o que queremos: o Estado de bem-estar ou a economia neo-liberal, que nos acena com a possibilidade de sermos estupidamente ricos mas só desde que sejamos estupidamente desonestos e ganancioso, tipo Relvas ou Vara ou Duarte Lima.

A sobrepopulação global é problema ultrapassado, na minha opinião. Está geograficamente delimitada e as pessoas dessas zonas ou aprendem a controlar a população ou a sofrer as consequências.

PEDRO LOPES disse...

ALF,

Muito bom este texto. Muito bom porque faz muito sentido em função do que tem sido a doutrina económica dos últimos 20 anos, pelo menos das potências ocidentais.

No entanto eu não posso acreditar que o comunismo seja uma solução para travar esta tragédia.
A solução passaria por mais distribuição da riqueza e dos meios de produção, e impedir a fenómeno de bola de neve de certos grupos económicos que vão crescendo desmesuradamente absorvendo os mais pequenos.
Se houvesse políticos com tomates criavam leis e regras para impedir a concentração.

Se houvesse mais distribuição havia mais emprego, haveria ricos, mão não tão ricos como os hiper-milionários que vemos hoje.

Pode e deve haver ricos, mas com certos limites, e o estado fomentar e apoiar os empresários mais pequenos.


vbm disse...

Generalizada uma determinada mentalidade, viabliliza-se uma mudança social. Mas não dispensa uma certa corporeidade de hábitos e condições de vida. Algo liderado por classes ou estratos sociais. Por exemplo, na Grécia Antiga, a liberdade e a democracia política, além de corresponder a uma mentalidade colectiva era do interesse de classe do comércio e navegação.

Há dias ouvi numa televisão, - e já não recordo quem assim argumentou -, a defesa do direito de reforma como tão radical para a sociedade quanto o direito de propriedade por os governos se terem arvorado em garantes de uma previdência colectiva, dispensando os cidadãos de pouparem através da propriedade como antes faziam.

p.s. - Hoje ouvi no canal Q a denúncia que o Deutsche Bank ocultou dívidas (imparidades?) de 9200 milhões de euros no balanço dos anos de crise. Algo que tu sempre suspeitaste!

alf disse...

Pedro Lopes

Claro, o comunismo não é a solução; a solução tem de ser capaz de satisfazer as diferentes ânsias que diferentes pessoas sentem.

Com já disse em comentários, nó somos completamente dominados pelo nosso Id, que manipula o nosso pensamento, fazendo-nos crer que agimos com base na razão e de acordo com o nosso Super Ego.

Quem desenha uma sociedade, desenha-a de acordo com o seu Id, com aquilo que deseja para si. Não há como fugir-lhe, o pensamento não funciona se não for assim. Mas há uma coisa que podemos fazer: é desenhar uma sociedade que satisfaça os Id dos outros e também o nosso! Isso não é fácil mas só isso é solução. Uma sociedade onde tenham lugar e se possam sentir realizadas as pessoas que são gananciosas, ou que adoram o poder, por exemplo. Que possam realizar-se usando as suas características em favor da sociedade.

Isso não é fácil.

Os desenhos utópicos ignoram isso, são sociedades desenhadas à medida dos seus autores e com base na ideia que, através da educação, do exemplo, da cultura, é possível moldar o Id de tal maneira que todas as pessoas passem a ter os mesmos anseios dos autores do projecto... mas isso não é possível.

Uma sociedade não se pode desenhar na prancheta; tem de se por a funcionar e ir acertando. Há coisas básicas que não têm discussão e é por aí que temos de começar.

A primeira é dar a todas as pessoas, logo à nascença, todas as possibilidades de obterem informação. Acabar com todos os tipos de analfabetismo. Fomentar a discussão de ideias,a discussão da sociedade, a capacidade de perceber o ponto de vista dos outros, o conhecimento do ser humano.

Foi por aí que os nórdicos começaram.

Nós, ao contrário, sempre fomentámos a desigualdade, é por isso que somos o que somos. As pessoas aqui sempre quiseram que houvesse pobres, os governantes sempre alimentaram a exclusão social com o pretexto da "economia". Nada põe mais em pânico os "ricos" do que qualquer medida tendente a aumentar a formação dos pobres, porque sabem bem que a mudança começa aí.

Começa mas não acaba; depois é preciso deixar as pessoas contruírem elas próprias a sociedade.

Os nórdicos fazem esse caminho há muitos anos. Eu li livros de organização e gestão deles de há décadas atrás, livros internos de empresas, que já não tinham nada a ver com o que conhecemos aqui - especialmente no relacionamento das pessoas nas empresas.

Ou seja, em vez de desenharmos a sociedade, temos de desenhar as condições que dão às pessoas a capacidade de a construirem, ela tem de resultar da vontade de todos.

E uma sociedade humana tem de ser uma coisa viva, que evolui continuamente. A sociedade humana é o próximo passo da evolução, a Vida já não vai evoluir criando novos seres mais avançados, vai evoluir pela sociedade.

Felizmente existem os nórdicos para que não pensem que sou louco...


alf disse...

vbm

A ideia da poupança é uma mistificação que serve apenas de argumento para destruir a sociedade. Os Ricos não querem uma sociedade humana, o que lhes convém é o direito à sua propriedade e uma polícia para a defender; o resto não lhes interessa para nada.

Uma sociedade humana não pode viver da "poupança". A sociedade evolui, torna-se progressivamente mais rica, mais poderosa. O que sustenta as pessoas de mais idade, por exemplo, não são as suas poupanças, porque a sociedade hoje produz muitas vezes mais do que produzia quando as pessoas começaram a trabalhar, como é evidente.

O que se passa é que os Ricos querem ficar com esse aumento de produção só para eles e por isso dizem para as pessoas viverem das suas poupanças, estás a perceber? Essa conversa é só para te roubarem.

O aumento de produção da sociedade não é mérito nem direito dos ricos, é fruto do trabalhos dos nossos pais, e é fruto da evolução tecnológica.

A sociedade humana sempre teve ricos; mas nunca enriqueceu significativamente até à revolução industrial. O que fez a diferença, o que gerou a riqueza que temos, foram as inovações tecnológicas.

Foi a roda há milénios, foi a descoberta da fertilização verde há quase 1 milénio, foi a invenção da máquina a vapor, da electricidade, dos adubos sintéticos, da comunicação à distância, dos computadores. Foram essas coisas, esses conhecimentos que são a nossa herança legada pelos nossos antepassados. Os frutos disso são de todos os seres humanos.

isto não quer dizer que a riqueza produzida deva ser distribuída por igual - nada disso. Mas quer dizer que todos têm direito a uma parte dela, porque é herança.

alf disse...

A todos

O Paulo Monteiro deixou a seguinte informação no post anterior para a qual chamo a vossa atenção

Nem de propósito, amanhã e Domingo, na SIC NOTÍCIAS, no programa “Sociedade das Nações” vai-se debater precisamente a viabilidade da implantação de um sistema como o nórdico em Portugal, com dois ilustres convidados nórdicos que não cheguei a perceber quem eram. Pesquisem na internet os horários do programa em ambos os dias e se não tiverem TV Cabo, assistam ao programa na Internet, para que depois possamos todos discutir aqui o programa e essa possibilidade.

Obrigado, é uma boa indicação

vbm disse...

Poupança equaliza-se ao investimento, o qual é a tal riqueza colectiva, científica e tecnológica que eleva a produtividade do trabalho milhares ou dezenas de milhares de vezes em relação à produtividade do tempo histórico anterior à revolução da ciência moderna.

Nota, porém, que há trabalho necessário cuja produtividade é constante ao longo dos milénios! Exemplo: um corte de cabelo (de homem) é praticamente executado com produtividade imutável. Quem diz corte de cabelo diz múltiplas outras profissões e serviços comezinhos, não mecanizáveis.

Por isso, aquela demonstração da capacidade de a população activa conseguir sustentar uma proporção de inactivos bem maior do que o vulgo supõe deve alargar-se para a remuneração suficiente ao sustento de uma certa proporção da população activa indispensável em trabalhos de produtividade constante.

Podes crer que a sustentabilidade do tal modelo compatível com uma cultura, mentalidade e ociosidade alargada requer a tal base científico-tecnológica que depende do excedente de recursos sobre o consumo corrente, também conhecido pelo nome de poupança.

O capital técnico é semelhante aos próprios recursos naturais porquanto ambos formam a base sobre que se ergue o labor produtivo, e pode dizer-se que é graças à fecundidade da natureza e ao grau de civilização atingido que o trabalho contemporâneo é incomparavelmente mais produtivo do que o da Antiguidade e Idade Média.

Diogo disse...

Alf (e outros comentadores), a evolução tecnológica está em evolução tecnológica exponencial. Donde, crescentemente o homem estará arredado da produção. Este processo não durará mais do que 20 a 40 anos.

Quando forem apenas as máquinas a trabalharem, a riqueza será obrigatoriamente distribuída por todos. A necessidade de ricos (indivíduos com capacidade de aglutinar capacidade suficiente para investimentos em larga escala desaparece).

O futuro próximo será uma sociedade igualitária onde o trabalho produtivo estará será afastado do homem.

alf disse...

vbm, Diogo, UFO, Paulo Lopes e Paulo Monteiro

Em minha opinião, há um equívoco terrível nos vossos raciocínios.

Vocês estão a pensar que as coisas são como são porque há insuficiências da sociedade, porque há falta de recursos e por isso há pobres, porque há sobrepopulação, etc, etc.

Não é nada disso, na minha opinião

Nesta nossa sociedade ocidental baseada no egoísmo, não interessa qual seja o desenvolvimento tecnológico, a abundancia ou carência de recursos, a sociedade tenderá sempre para o mesmo, para o que ela sempre foi excepto qd movimentos revolucionários mudaram temporariamente as coisas: uma elite com a riqueza toda que a tecnologia da época permitir e o resto vivendo miseravelmente, no limiar da sobrevivência. Isto foi assim no passado e será assim no futuro a não ser que tenhamos a coragem de lutar contra e de refundar a sociedade noutras bases... agora, a refundação de que o PM fala é o regresso ao passado.

No próximo post exporei isto melhor e acabarão por ver que eu tenho tanto razão neste assunto... como quando disse que o Deutsche Bank tinha um buracão.


leprechaun disse...

O problema está em que é preciso substituir a ideia de que "se cada um pensar em si, todos beneficiarão". Esse é que é o erro, a causa de todos os problemas.
Esse raciocínio desaparece em situação de crise profunda - aí todos percebem que ou há um pensamento colectivo ou lixam-se todos; mas assim que passa a crise, todos querem ser predadores.


Ou seja, há que pensar (e atuar) em termos do máximo bem estar coletivo, como na doutrina da justiça social ou equidade de John Rawls.

«Imaginemos que podemos escolher a estrutura sócio-política que organiza a nossa sociedade («estrutura básica»). Rawls convida-nos a pensar no seguinte: "Se fosse possível escolher as regras que determinam a organização da sociedade, quais seriam as regras que eu escolheria?" A esta situação inicial imaginária Rawls chamou "Posição Original".
Imaginemos também que, para escolhermos com imparcialidade, na P.O. não sabemos quem somos, nem que profissão temos, a que classe social pertencemos, etc. Sabemos apenas os factos gerais da sociedade humana, assuntos políticos, económicos. (…)
Segundo Rawls, qualquer pessoa que se imagine na posição original escolheria os dois princípios de justiça que ele enunciou:
1. Cada pessoa terá direito igual ao mais vasto sistema total de liberdades básicas iguais que seja compatível com um sistema semelhante de liberdade para todos;
2. As desigualdades sociais e económicas serão dispostas de forma a serem simultaneamente: a) para o maior benefício dos menos favorecidos (…) e b) ligadas a postos e posições acessíveis a todos, em condições de igualdade e oportunidade justas.
Enquanto o primeiro princípio é a garantia das liberdades individuais, tais como a liberdade de expressão, associação, culto, etc., o segundo princípio atinge as desigualdades sociais procurando diminuí-las, sem no entanto sacrificar a igualdade de oportunidades.
Mas porquê escolher estes princípios e não outros? Rawls defende que a escolha destes princípios seria feita utilizando o critério de maximin.
A utilização do critério maximin consiste em imaginar quais seriam os piores resultados possíveis das diversas concepções de justiça concorrentes, e ordená-las numa escala. A concepção de justiça que tiver os piores resultados menos maus é a que deve ser escolhida. Dito de outra forma, a concepção que deve ser adoptada é aquela cujo pior resultado possível seja ainda assim melhor do que o pior resultado de qualquer outra concepção concorrente.»

vbm disse...

Há que distinguir a realidade nos planos diferentes em que a apreendemos cientificamente. A física, a economia, a biologia, a política têm leis e explicações do mundo que não podemos transpor simplesmente de um domínio de pertinência explicativa para outro.

Em particular, por certo que para lá do egoísmo há a cooperação e as tais estratégias "win-win", mas isso não compõe toda a solução da problemática política e social das nações.

O esquema de John Rawls de acordar uma constituição para comunidades de diferentes concepções religiosas ou filosóficas é ardiloso mas, alcançado, a vida colectiva ao abrigo da constituição comum aceite redundará na erosão das diferenças ideológicas iniciais. Perder-se-á a diversidade,e talvez não a rivalidade.

As leis da física são invioláveis, as da economia podem evoluir, mas lentamente, como as da biologia, e a política só existe enquanto haja o poder de a impor às populações ou as persuadir em comportamentos dominantes.

Mas continuo atento e interessado na exposição que o alf nos presenteia.

Paulo Monteiro disse...

Já é altura de fazer aqui uma referência à escrita do Alf, não só pelo conteúdo mas também pela forma, nomeadamente destes diálogos, sempre carregados de intensidade dramática. Agora ficamos todos à espera das cenas do próximo capítulo.

Tristemente, eu que chamei a atenção para o programa deste fim-de-semana na SIC, não consegui vê-lo. Por isso, enquanto não apanhar uma repetição qualquer por um destes dias, não vou poder debatê-lo.

Deixo aqui um link para um site Americano, que contem um teste interessante. http://www.politicalcompass.org/ O resultado vai aparecer expresso num quadrado dividido em outras quatro partes quadrangulares. O 1º desses 4 quadrados dentro do quadrado maior(em cima à esquerda), diz respeito aos governos comunistas/socialistas, desde o simples partido inserido num sistema democrático até às ditaduras comunistas sobejamente conhecidas. No quadrado seguinte à direita estão representados os governos conservadores-tradicionalistas de direita, desde os partidos inseridos nos sistemas democráticos como o CDS/PP até às ditaduras como a de Salazar. Logo abaixo, ainda do lado direito (e como oposição a ambas as partes de cima do quadrado, as duas partes do quadrado respeitantes à autoridade de Estado) temos a zona do neo-liberalismo, que vai desde os menos ricos até aos podres de ricos, aqueles que estão mesmo no fundo do quadrado e não precisam do Estado nem dos seus serviços, defendem o mercado livre, a máxima desregulamentação (do mercado e dos direitos laborais), a privatização de todos os serviços públicos, a ausência de impostos, ou seja, o mínimo de poder e interferência do Estado nos negócios. E finalmente, do lado esquerdo de baixo do quadrado, estão também aqueles que se opõe à autoridade estatal/governamental, mas também se opõe ao neo-liberalismo/capitalismo ao seu lado direito. Vai desde os anarquistas, passando pelos humanistas, os "utópicos", etc... O resultado do teste é um pontinho vermelho que se vai aparecer onde a pessoa que fez o teste à partida melhor se situa. Nesse caso, se o pontinho vermelho aparecer no quadrado esquerdo de cima, mas em baixo, vocês provavelmente serão simpatizantes do PCP. Enquanto se aparecer em cima, poderão muito bem ser simpatizantes da antiga União Soviética. Ainda dentro deste quadrado o pontinho poderá estar mais ou menos para a esquerda e isso fará de vocês mais ou menos comunistas/socialistas. Se ele aparecer em baixo, próximo à direita, provavelmente costumam votar no PS. Se o ponto aparecer no quadrado à direita, em baixo, vocês provavelmente serão simpatizantes do CDS/PP, enquanto se aparecer mais para cima, vocês já poderão ser saudosistas do Salazarismo. Aqui, também mediante o ponto estar mais ou menos para a direita, fará de vocês mais ou menos conservadores(Os eleitores do PSD encontrar-se-ão em baixo um pouco mais para a esquerda, embora muitos também possam estar no quadrado seguinte, debaixo). Se o ponto aparecer no quadrado de baixo vocês provavelmente são neo-liberais, e muito dificilmente aparecerá mesmo no fundo do quadrado porque isso seria sinal de que eram podres de ricos, o que eu dúvido (podem no entanto ser aspirantes a isso, embora a época dos sonhos e ilusões já se tenham desmuronado, ou então são apenas médios-empresários e estão mesmo muito zangados com toda a classe política). Aqui, se o pontinho aparecer mais para a direita ou mais para a esquerda, significa também os vossos valores independentemente do vosso neo-liberalismo: mais conservadores e fechados apenas no sucesso individual e da vossa família, ou mais preocupados com algum bem-estar da sociedade. E se o pontinho aparecer do lado esquerdo...olhem, são uns "utópicos", uns sonhadores humanistas, etc... E na medida que o pontinho se aproximar de cima e/ou da direita, isso representará alguma crença ainda na democracia e/ou no sistema capitalista. Façam o teste se ainda não souberem a que lugar pertencem.

Paulo Monteiro disse...

Alf,

Nunca disse que a sociedade está como está por causa de insuficiências ou excesso populacional. Eu estou de acordo contigo: é o egoismo/indiferença perante os outros (originadas na estupidez/maldade de que todos podemos ser vítimas e com que todos podemos vitimar os outros) a origem de todos os males. Sei que tem tudo a ver com o desejo de elevação e de controle de alguns seres perante outros. Onde eu discordo de ti é que esse egoísmo, essa estupidez, a maldade, a indiferença, podem ser reduzidas consideravelmente, não mudando a mente das pessoas, mas sim mudando o meio exterior a elas que lhes suscita todos esses sentimentos e reacções. Analisemos a violência por exemplo: Com quanta criminalidade é que tu acabarias se acabasses ao mesmo tempo com a pobreza e miséria? E se acabasses com o dinheiro que mais não é do que uma enorme e perigosa fonte de poder, uma forma de manter dependências, perpetuar sistemas, e uma maneira de corromper pessoas e organismos? E se as pessoas não tivessem de ter um emprego para sobreviver? Não és tu o próprio que dizes que elas sempre terão ganas de sair e trabalhar? É que a justificação capitalista sempre foi que sem a dependência do emprego, a sociedade estagnaria caída na preguiça, no egoismo e individualismo, e mergulhada em todos as formas de caos. Ora, mas é exactamente isso que acontece agora. No fundo, se não se condicionar as pessoas, elas não reagiriam de forma diferente, independentemente da sua personalidade e tendência? Existe um estudo científico muito interessante que diz que o ser humano tem dois sentimentos primários: amor e medo. Do amor surgem todos os nossos sentimentos positivos, como a amizade, a camaradagem, a fraternidade, a entre-ajuda, a preocupação e empatia/sensibilização com os outros, etc... E do medo surgem os outros sentimentos como o ódio, a indiferença, o egoísmo, violência, egocentrismo, ganância (medo da escassez primeiramente), etc...

Paulo Monteiro disse...

Uma coisa eu sei: se ninguém meter mãos-á-obra por aquilo que muitos consideram ser utopia isso não passará mesmo de uma utopia. As utopias são planos os considerados irrealizáveis, mas também podem ser cenários que ainda não foram realizados. O passado conhecemos todos mais ou menos bem, quanto ao futuro, só o podemos adivinhar e prever com base na análise ao passado.

Diogo disse...

«Bem pensado – mas nunca substituirão o cavalo», disseram os cépticos quando viram os primeiros automóveis.


Nos primeiros tempos da aviação, o astrónomo americano William Pickering, que predisse a existência de Plutão, preveniu o público de que: «A mente popular imagina frequentemente gigantescas máquinas voadoras atravessando o Atlântico a grandes velocidades e transportando numerosos passageiros como um moderno paquete… Parece-me seguro afirmar que tais ideias são totalmente visionárias, e mesmo que uma máquina conseguisse atravessar o Atlântico com um ou dois prisioneiros, os custos seriam proibitivos…» Três décadas mais tarde, em Julho de 1939, foi inaugurada a primeira linha aérea transatlântica com um hidroavião Boeing 314, o Yankee Clipper da Pan American, transportando 19 passageiros.


Em 1924, o engenheiro electrotécnico inglês Alan Archibald Swinton, um dos pioneiros do de raios catódicos, fez uma palestra na Radio Society da Grã-Bretanha sobre «Visão à Distância». Diria então: «Provavelmente não valerá a pena que alguém se dê ao trabalho de consegui-la.» Quatro anos mais tarde, a General Electric Company inaugurava, no estado de Nova Iorque, a primeira rede de televisão do Mundo.

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A automação e a inteligência artificial têm tido um desenvolvimento avassalador. A máquina, de forma crescente, possui mais dados, mais conhecimento e melhor capacidade de decisão. Cada vez é mais inteligente e mais autónoma. E cada vez menos precisa de ser dirigida pelo homem.

A tecnologia está cada vez mais próxima de produzir sozinha. O desenvolvimento tecnológico é exponencial em todos os campos que se considere. Donde, no binómio homem-máquina na produção, o homem tem cada vez menos peso. Em breve não terá praticamente nenhum e a máquina produzirá sozinha.

Nessa altura, a fábrica totalmente automatizada não poderá ser privada. Porque não existirão trabalhadores com salários, e sem salários não há poder de compra. Sem poder de compra não há vendas. Sem vendas não há lucros. Sem lucros não há empresas privadas. Qualquer empresa automatizada, seja o que for que produza, terá necessariamente de pertencer ao grupo, à comunidade, à sociedade.

O número crescente de desempregados a par do desenvolvimento exponencial do hardware e do software estão aí para prová-lo. Vamos acelerar a transição ou vamos permanecer agarrados a um passado de emprego condenado ao desastre social?

É a tecnologia que está a substituir o homem no trabalho. É por isso que o velho paradigma do emprego está moribundo. É necessário criar rapidamente, com o auxílio da tecnologia, um mundo mais justo, mais redistributivo e mais humano.

alf disse...

a sociedade das nações

acabei de ver o episodio que o vbm indicou, com uma entrevista do Nuno Rogeiro a um dirigente sindicalista finlandês e a um ex-ministro do trabalho sueco

O retrato que fazem das suas sociedades resumo no seguinte:

antes de tudo, são uma sociedade coesa - não deixam ninguém na valeta, nunca.

Isto é uma importantíssima aquisição cultural que nós ainda não obtivemos - por exemplo, ouvi ontem que há um navio apresado em Marselha e os tripulantes portugueses estão para lá abandonados desde agosto... já foram ao consulado português mas isso é mesmo que nada... sempre foi assim..

O Estado garante formação de qualidade para toda a gente, toda a vida; a protecção social garante que ninguém fica sem a sobrevivência assegurada com dignidade qd. O Estado investe fortemente em Inovação para preparar o futuro. Estado, Empregadores e Empregados (sindicatos) são conjuntamente responsáveis pelo emprego. A duração média de desemprego é de 90 dias e a taxa anda pelos 7 a 8%.

A política económica é a política de mercado mas dentro do enquadramento definido pelo Estado. O Estado é o "chapéu de chuva" da sociedade - garante às pessoas as máximas qualificações profissionais, protege-as nas dificuldades, investe na inovação, assegura políticas de compromisso nas relações laborais. Chamam a isto "flexissegurança". A mobilidade laboral é grande, quase 20% ao ano.

O que ressalta desta entrevista é a cultura de coesão a nível da sociedade e a nível do trabalho.

Há mais coisas que não foram aqui referidas, nomeadamente como o estado controla a actividade financeira.

Depois respondo aos comentários, mas tenho de pensar neles, não é? Quis deixar já o resumo da entrevista que acabei de ver antes de me esquecer dela...

vbm disse...

Impressiona-me a indistinção entre política e moral. Podemos indignarmo-nos para sempre com qualquer crime cometido. Mas, há crimes não punidos; prescrevem com a passagem do tempo. Porquê? Por conveniência social e política. Não pode abusar-se de argumentos éticos para escolha de decisões políticas que destituam a responsabilidade pelas consequências de preferências éticas ou ideológicas.

Diogo disse...

Reparem no seguinte:

«Nos primeiros tempos da aviação (1909), o astrónomo americano William Pickering, que predisse a existência de Plutão, preveniu o público de que: «A mente popular imagina frequentemente gigantescas máquinas voadoras atravessando o Atlântico a grandes velocidades e transportando numerosos passageiros como um moderno paquete… Parece-me seguro afirmar que tais ideias são totalmente visionárias, e mesmo que uma máquina conseguisse atravessar o Atlântico com um ou dois prisioneiros, os custos seriam proibitivos…» Três décadas mais tarde, em Julho de 1939, foi inaugurada a primeira linha aérea transatlântica com um hidroavião Boeing 314, o Yankee Clipper da Pan American, transportando 19 passageiros.»


Tive um avô, que faleceu há onze anos, que nasceu em 1909. Alguma vez ele sonharia, que com sessenta anos, iria atravessar o Atlântico de avião em meia-dúzia de horas?

leprechaun disse...

Mais uma novidade, banco sem juros à la Gesell! É na Suécia, claro, JAK Bank. A justificação para não cobrar juros é similar à crítica que o Movimento Zeitgeist também faz, ou seja, os juros transferem dinheiro no sentido errado, de quem tem menos (e pede empréstimos) para quem tem mais (e faz depósitos).

Eis o vídeo, mas acrescento que a ideia já tem um núcleo de gente interessada em implementar algo parecido em Portugal... vamos os nórdicos, afinal! :)

JAK Bank Report (2007)

alf disse...

vbm

Este mundo é complicado porque o ser humano age sempre em função da sua conveniência pessoal; por isso é preciso introduzir regras um pouco estranhas para compensar a humana cupidez. Se os crimes não prescrevessem, sucederia que os polícia e justiça poderiam fazer chantagem indefinidamente sobre qq cidadão em que pusessem as mãos; assim, têm um prazo para conseguir a condenação; e se não conseguem, é porque não querem, como sabemos... É como a prisão preventiva, sem prazo presta-se a todas as chantagens.. ou pensa que os juizes são mais honestos do que as outras pessoas? São honestos enquanto tiverem vantagem em o serem - como toda a gente. A honestidade não faz parte da nossa programação.

isto parece um bocado cruel, mas se não estiveres de acordo encontra uma pessoa que ponha a moedinha no parcómetro se souber que o fiscal já não vai passar.

alf disse...

Diogo

A evolução tecnológica é um facto; mas a evolução da sociedade é outro assunto completamente diferente. A razão de existir pobreza não é a falta de recursos ou riqueza, é uma consequência de vivermos num sistema em que cada um trata de si. Qualquer que seja a evolução tecnológica, a pobreza, a miséria, a exploração continuará enquanto as pessoas forem o que são e o sistema não só o permitir como o incentivar.

Não vê que a Jonet até afirma descaradamente que não gosta da solidariedade, gosta é da caridade; ela afirma isso porque está do lado dos ricos, se estivesse do outro lado diria o contrário; mas isto é o que grande parte da classe média pensa, sabe-lhe muito bem que haja pobres e que estejam dependentes da sua caridadezinha; e não é porque estas pessoas sejam piores do que as outras, é porque o ser humano é assim, limitadinho, cúpido, o seu inconsciente funciona em função do seu interesse imediato.

A única forma de conseguir uma sociedade solidária é arranjar um inimigo poderoso, porque aí as pessoas precisam todas umas das outras; é por isso que os EUA têm sempre um inimigo

portanto, o problema a ultrapassar é conseguir que as pessoas se compreendam melhor a si próprias.

alf disse...

leprechaun

O video é interessante mas eu creio que a solução é complicada demais porque está a atacar o problema errado.

O problema não é haver juros ou haver um pagamento pelo empréstimo de dinheiro, seja do cliente ao banco ou vice-versa; o problema é o valor do juro ser manipulável, é a especulação financeira e é a natureza competitiva sem limites da economia que temos; os nórdicos controlam a competitividade da sua economia, eles não aderiram à globalização, eles controlam as importações - eles colhem os benefícios da globalização mas não os inconvenientes.

Vou dar-lhe um exemplo: as companhias de aviação estão todas à beira da falência; alguma que suba preços, abre falência porque perde clientes; se descer o preço vai à falência porque perde receitas. A pressão competitiva irá aumentando até que agora uma e depois outra as companhias vão ficando inviáveis e são compradas por outras, por verbas ridículas porque não rendem; quando o número for muito pequeno, então as sobreviventes cartelizam e sobem os preços - então o preço deixa de estar sujeito à lei da concorrência e passa a depender apenas da lei da oferta e da procura; isto agora leva a outro tipo de competição, as empresas de diversas áreas competem para verem quem consegue extorquir mais dinheiro do consumidor; e quem estiver em áreas mais essenciais leva a melhor.

Aqui é que está o busilis do problema, gerir os preços; e a melhor forma de o conseguir, para mim, é equilibrar os poderes negociais das duas partes.

A atual crise das dívidas soberanas é a consequência directa, inevitável e prevista, pretendida, do art. 123 do tratado de Lisboa, e da cumplicidade dos gestores da dívida pública, que prescindiram do único instrumento negocial que lhes restou depois desse famigerado artigo, os certificados de Aforro. E tudo isto para que os especuladores financeiras pudessem tapar o seu estoiro especulativo com o dinheiro da classe média.

O nosso sistema económico navega de acordo com os interesses dos seus agentes; e os mais ricos têm mais poder e manobram-no de acordo com as suas conveniências. Como evitar isto?

vbm disse...

Os matemáticos devem ocupar-se deste «mundo complicado». P.e., é justo que as economias da «moedinha no parcómetro» se equivalham à probabilidade da multa de não-pagamento do estacionamento, e não que lhe sejam muito inferiores ou superiores.

Por outro lado, com autarcas mais inteligentes e mais políticos, as tarifas de estacionamento não deviam cobrar-se aos sábados, nem antes das nove nem depois das seis. Também, é uma estulta alarvice cobrar estacionamento em todas as ruas, pois a lógica válida é a de ter onde estacionar por haver vagas onde se pague, o que requer espaços ad lattere gratuítos!

alf disse...

leprechaun

Ainda continuando o assunto, noto que o problema do crescimento exponencial da desigualdade e da redistribuição de riqueza até já tem solução e que funcionou durante um certo tempo - são as sociedades por acções e/ou com comparticipação dos empregados. O pagamento dos dividendos fazia a redistribuição dos lucros. Só que as regras da bolsa não acautelaram a especulação financeira e esta acabou com esse tipo de redistribuição; e a falta de controlo sobre a especulação financeira é que gerou toda esta crise.

Agora, na Europa, são os financeiros que se propõem controlar os financeiros; está-se mesmo a ver o que vai dar: agora vão controlar muito controladinho porque não há nada para especular mas assim que as coisas se endireitarem, voltam ao mesmo, porque se estão a controlar a eles próprios.

O problema é mesmo os políticos terem deixado desde há muito tempo serem os financeiros a controlarem-se.

alf disse...

vbm

essa ideia de haver espaços laterais gratuitos parece-me excelente; mas o entendimento de lateral é que, no caso de Lisboa, parece ser "fora do centro alargado de Lisboa"... é demasiado lateral...

Lusitana Combatente (Terpsichore exausta... mergulhou nos mares e...) disse...

Caro ALF
Não podia estar mais de acordo, (tenho que voltar para o resto).

""O problema não são os ricos. Os ricos pensam da mesma maneira que todas as outras pessoas nesta nossa sociedade - pensam egoisticamente.

O problema está em que é preciso substituir a ideia de que "se cada um pensar em si, todos beneficiarão". Esse é que é o erro, a causa de todos os problemas.

Esse raciocínio desaparece em situação de crise profunda - aí todos percebem que ou há um pensamento colectivo ou lixam-se todos; mas assim que passa a crise, todos querem ser predadores.

O que é preciso é alterar essa mentalidade. o vídeo fala disso. Porem, ela tem de ser subsituída por outra que vá de encontro aos nossos anseios profundos ""