quinta-feira, maio 29, 2008

Os "bugs" do cérebro

No blogue Ana Lítica Mente, lá para o décimo comentário a este post, o autor, Vitor Guerreiro, aborda a questão «pode uma máquina pensar?». Esta é uma questão que apenas a filosofia pode abordar, a ciência apenas pode pesquisar «como é que a máquina “cérebro” pensa?»

Um aparte: a metodologia científica impõe limites às questões que a ciência pode abordar em cada nível de conhecimento, o que não se pode confundir com afirmações do tipo: “a Ciência afirma que o cérebro é uma máquina que pensa.” A Ciência não afirma nada disso, como não afirma se existe um deus, mil, ou nenhum. A Ciência só faz afirmações sobre matéria que consegue provar ou tentar provar; quanto ao resto usa uma metodologia de pesquisa. Necessariamente, essa metodologia proíbe o recurso a qualquer explicação não provada ou não susceptível de ser provada a curto prazo. O que não implica que essa não possa ser a explicação. Percebem a diferença?

O nosso cérebro executa procedimentos definidos e rígidos no seu funcionamento. E isso é fácil de detectar em certos sub-sistemas, nomeadamente a audição e a visão.

Quem trabalha em processamento de imagem e de som está habituado a lidar com o programa dos sistemas visual e auditivo, pois a sua tarefa é encontrar formas de gerar no cérebro a mesma sensação que a imagem ou o som original produziria mas usando muito menos quantidade de informação do que a contida no material original. É isso que se faz com as rotinas mp3, mp4, da televisão digital, real audio, wmp, etc, e é por isso que os ficheiros digitais são cada vez mais pequenos, eles já só contêm uma pequenina parte da informação original.

As pessoas fora destas áreas e do estudo do cérebro não terão a noção de como é determinístico o processamento cerebral. E penso que nada como as ilusões de óptica para darem esta percepção.
Observem a figura, uma das várias que podem encontrar nesta excelente colecção.



Embora nada se mova, é impossível deixarem de ver as rodinhas a girarem. A informação contida na imagem gera no cérebro, fatalmente, uma construção que é diferente do que lá está.

O processamento de imagem do cérebro é algo fabuloso. Por exemplo, já existem lentes de contacto multifocais, com anéis concêntricos que focam para várias distâncias, originando uma sobreposição de imagens na retina; mas o cérebro consegue interpretar isso e construir uma imagem nítida a todas as distâncias. Outro exemplo: as lentes dos óculos distorcem a imagem; mas, após um período de “aprendizagem”, o cérebro corrige essa distorção da imagem que se forma na retina e gera uma imagem sem distorção.

O “programa” que nos faz ver as rodinhas em movimento na figura não tem, na realidade, um "bug"; trata-se de um efeito colateral de um “programa” que optimiza o funcionamento do processamento óptico nas situações frequentes ou mais importantes. No entanto, apesar de não ser um “bug”, conduz ao erro nesta situação. Mas o mais importante nem é isso, é o facto de não estar na nossa mão a correcção desse erro. Ou seja, o facto do funcionamento dessa “sub-rotina” ser perfeitamente automático e determinístico.

Ora isto não é uma característica específica do processamento das informações sensoriais mas de todo o funcionamento cerebral. Nomeadamente da geração do pensamento.

Se formos a atravessar uma rua e um carro surgir de repente, não nos ocorre voar. Essa possibilidade é vetada a um nível inconsciente, esse pensamento não chega a ser colocado no “consciente”.

Tudo o que o cérebro aprende pelos seus processos automáticos de aprendizagem, a partir das informações sensoriais, mais o que lhe é “ensinado” e aceite como “verdade”, formam um filtro que impede de uma forma absoluta a geração e até a aceitação de pensamentos contrários.

Isso verifica-se em todas as áreas, das sociais às científicas. Por isso é que Planck disse que é inútil tentar explicar as novas ideias, teremos de esperar pela geração seguinte que irá crescer em contacto com elas. Em qualquer campo.

Por isso não ocorre às pessoas em geral que a “expansão” do espaço seja afinal... uma contracção de matéria! Ou que a lapidação de uma mulher adúltera seja errado (para uma pessoa que cresceu nessa cultura e nunca foi exposta à dúvida). E, no entanto, qualquer das duas coisas parece escandalosamente óbvia depois de entendida.

A velocidade a que temos de evoluir hoje obriga-nos a aprender, desde pequenos, a combater este funcionamento cerebral. Porque no espaço da nossa vida teremos de mudar de “verdades”, o que não acontecia com o homem primitivo. Se seguirmos a nossa natureza, ficaremos amarrados a cada um dos conceitos que primeiro aceitámos.

É indispensável uma educação baseada na dúvida e na discussão e não na certeza. A necessidade de evolução da sociedade humana exige que não formemos «crentes» (isto é, pessoas que usam a credibilidade duma fonte, seja ela qual for, para classificar como “verdade” uma informação sem a sujeitar a uma análise contraditória).

24 comentários:

Diogo disse...

Meu caro Alf, ainda sobre o Big Bang e o exemplo que me deu:

Não se esqueça que quanto mais distantes estão os corpos do centro da «explosão» mais velocidade adquiriram. Segundo a teoria os corpos estão em aceleração constante.

Logo, se num determinado momento, os corpos A, B e C estão em linha recta com o centro da explosão e a igual distância entre si, e se A é o que está situado mais próximo do centro da «explosão», passado um tempo, B está mais longe de C do que de A. Donde, o «redshift» é mais acentuado em C do que em A para um observador em B. Donde, o universo não está em igual «expansão» em todos os sentidos:

T1: *...A...B...C

T2: *......A.........B............C


Um Xi

Manuel Rocha disse...

Naturalmente de acordo, caro Alf !
;)

Olhe, Alf...não sei porquê ( azelhice, seguramente ) não consigo comentar no outro lado.

Deixo aqui uma dúvida: qd defende a tese de que "estamos a diminuir" refere-se à galáxia em que "moramos", certo ?

alf disse...

diogo

Não é verdade que os corpos estejam em aceleração constante. Ou melhor, a teoria previa que a velocidade dos corpos fossem diminuindo ao longo dos tempos devido à acção da gravidade.

As medidas efectuadas parecem indicar que a velocidade se conserva constante; para explicar isto inventou-se a "energia negra", que seria uma energia de repulsão (????) que contrabalançaria a atracção gravítica. Como admitir que esta energia contrabalançasse exactamente e energia gravítica por forma a que a velocidade de afastamento se mantivesse exactamenete constante seria uma coincidência, tem-se tentado mostar que há uma ligeirissima aceleração do universo. Mas não há.

E tem de deixar de pensar em termos de uma explosão de matéria. O que a teoria actualmente defende é uma expansão do espaço. É o espaço entre a matéria que expande e empurra os corpos para longe uns dos outros. Como a massa de um bolo inglês em relação às passas de uvas - a massa ao crescer afasta as passas umas das outras.

No seu exemplo, se o espaço entre A e B é igual ao espaço entre B e C, será sempre igual - qd um dobrar o outro tb dobrou.

Ou seja, a sua contestação aplicar-se-à ao modelo "explosão de matéria", que era a ideia inicial do BB, mas não é esse o modelo actual - por isso é que entrou em cena a "expansão do espaço"

O modelo agora é o do balão que enche ou do bolo de passas.

Mas gostei do seu raciocínio.

alf disse...

manuel

o diâmetro de todos os átomos do universo diminui - os nossos, os da nossa galáxia, os de todas as galáxias.

Á primeira vista isto pode parecer assustador. Na realidade, é "genial".

Repare que não temos escala - se imaginar um universo em que tudo tem o dobro do tamanho, um habitante desse universo ve-lo-ia exactamente como nós vemos o nosso.

Portanto, esta diminuição homotética conserva as distâncias relativas em cada sistema, por isso tudo parece invariante. Mas é graças a ela que o Universo pode "funcionar".

Se as partículas iniciais ocupassem tão pouco espaço como acontece hoje, nunca teria sido possível organizarem-se em galáxias e estrelas, os campos gravíticos seriam demasiadamente fracos; mas se continuassem grandes os fenómenos seriam correspondentemente lentos e o universo estaria muito mais atrasado do que está hoje na sua organização.

Iso é só um detalhe para mostrar que sem o desvanecimento da matéria o universo que temos seria impossivel; e que este desvanecimento tem vantagens mas não tem desvantagens. Aliás, sem ele, seria impossível formar-se a via na Terra, como veremos.

Osvaldo Lucas disse...

Ou seja, o espaço é constante (infinito? finito?) e as perturbações (átomos, outras partículas, radiação(?) diminuem de tamanho. É isso?

Curioso é que a diminuição da matéria faz parecer com que o espaço se expanda de maneira exactamente uniforme!

Subtil é a evanescência :)

alf disse...

osvaldo lucas

é exactamente por parecer que o espaço se expande de uma forma rigorosamente isotrópica e uniforme que podemos perceber que não é o espaço que expande mas a "régua" de medida que diminui.

é como a aparente rotação do universo: é facto de ela ser isotrópica, de o universo parecer rodar como se fosse um corpo rígido, que indica que o que roda é o observador.

Se o espaço é finito ou infinito não sei responder; apenas posso estabelecer um limite mínimo para as suas dimensões.

A matéria não diminui só no "tamanho" mas noutras propriedades, como veremos; é o facto de estas outras propriedades também variarem que permite distinguir o cenário "expansão do espaço" do cenário "diminuição do raio atómico"

Vitor Guerreiro disse...

Uma das curiosidades do texto do John Searle que indiquei é a conclusão de que, de acordo com o projecto «forte» da IA, não é a máquina que pensa, mas o programa. Daí o dualismo. Já o senso comum parece fazer da IA o culminar de uma resposta afirmativa à pergunta «pode uma máquina pensar?».

Para o fisicalista, tudo é uma questão de hardware, quer dizer, o software não tem existência autónoma e todos os seus processos são redutíveis ou descritíveis no vocabulário que usamos pare descrever o hardware e o seu funcionamento. Repare-se que isto não funciona com a mente: não temos vocabulário mental para descrever o facto de que a mente é física, do mesmo modo que podemos usar um vocabulário puramente físico para descrever a redução da água durante a electrólise ou qualquer outro tipo de redução bem sucedida que conhecemos e que quase todos experimentámos na escola. No projecto da IA, o mesmo programa pode ser instanciado em qualquer hardware, e o Searle inventa o argumento do quarto chinês para mostrar que até sistemas que não envolvem chips de silicone podem instanciar o MESMO programa. O quarto chinês, com o indivíduo lá fechado, e as sequências de caracteres de entrada e saída, é uma instanciação do mesmo programa que simula o entendimento de histórias por um computador.

Há textos que contra-argumentam ao Searle, nomeadamente do John Haugeland, mas ainda não os estudei.

Não estou assim tão convencido de que as afirmações acerca do sobrenatural não digam respeito à ciência. Afinal, se a natureza fosse sobrenatural, por assim dizer, esse seria um interessantíssimo facto físico. A minha posição é a de que "sobrenatural" é apenas ruído branco, não acho que haja "causas sobrenaturais" para seja o que for. Mas queria deixar este ponto claro. A questão de os únicos bons argumentos contra o sobrenatural serem metafísicos e não físicos (vamos desmontar desde já uma ideia palerma: a metafísica NAO é «o que está para lá da física», a metafísica é um conjunto de questões a priori acerca do mundo físico.) não anula a ideia de que a resposta a estas questões é importante para a ciência.

Por sinal, encontrei um livro no Prometheus Books que parece bastante interessante sobre este tema: Is Nature Supernatural? de um tal Altmann. Não conheço mas a crítica parece indicar que é uma obra de raciocínio séria. Podemos não ter indícios físicos de que não há sobrenatural. Mas podemos ter indícios metafísicos de que não há sobrenatural (o modo como muita gente entende a palavra "metafisica" iria já causar aqui confusões - para muita malta "metafisica" e "sobrenatural" são quase sinónimas). Se há indícios metafísicos de que o sobrenatural é uma treta, esses indícios são interessantes para a ciência. Afinal - se algures no universo houvesse uma super inteligência reitora, como diz o Dawkins, esse seria o facto físico mais interessante de todos: o facto de que o físico é afísicamente causado. Os nossos melhores indícios filosóficos, ao contrário do que se prega, são de que esta hipótese é uma treta.

Força

alf disse...

Vitor guerreiro

Interessantíssimo! Deliciei-me com a ideia da "natureza supernatural"

Há muitos fenómenos que devido à sua ocorrência eventual e rara, sobretudo se forem de percepção individual, não têm existência "oficialmente" reconhecida. E existe a crença num outro conjunto de fenómenos, estes nunca observados.

Por exemplo, há pessoas que afirmam ter tido experiências de premonição e de transmissão de pensamento. Não são fenómenos de existência provada e reconhecida. São normalmente designados por fenómenos "paranormais"

Até existem tentativas de os testar, mas são tentativas que só podem resultar em fracasso porque assentam em entendimentos errados desses fenómenos.

Mas a priori nada impede que se venha a conseguir estudá-los e chegar a conclusões acerca deles.

Não podemos afirmar que não existem, pois há pessoas que os testemunham, sem que estejam ligadas por uma ideia ou interesse que possa causar desvio de percepção. Esses testemunhos não podem ser classificados como "alucinações", "deficiente interpretação", etc.

Outros fenómenos, como a existência de um Deus, não surgem independentemente das crenças das pessoas - um budista nunca tem uma percepção do "deus católico" e vice-versa.

A estes se poderá aplicar com mais propriedade a designação de "sobrenatural".

A ideia de provar que o que não conhecemos não existe é, para mim, um absurdo, uma contradição. Se não sabemos o que é, como podemos provar que não existe?

Por exemplo, o proprio conceito de "Deus". Se existe uma "superinteligência", necessariamente que essa superinteligencia quer que nós, os humanos, não saibamos que ela existe. Porque se nós "soubermos" que ela existe passamos a querer depender dela em vez de fazermos o nosso caminho. Isot é tão óbvio que as religiões têm de considerar que um Deus narcísico, que quer ser adorado pela sua "obra", para dar sentido à "revelação"

Logo, se uma «superinteligência» não quer que nós saibamos que ela existe, naturalmente que não deixará vestigíos da sua existência; logo, não poderemos encontrar provas dela.

Se, ao contrário, ela quisesse que soubéssemos, demonstra-lo-ia de forma irrefutável. Não o faz, logo não existe ou não quer que o saibamos. De uma ou outra forma, nada poderemos concluir sobre a sua existência.

(já pareço um filósofo a falar...)

O mesmo se pode dizer do extraterrestres. Se eles existirem e "andarem por aí", certamente terão de permanecer secretos ou causarão a destruição da sociedade humana, como se pode perceber com raciocíonios simples.

E lembro-me sempre daquele professor do IST que foi à TV demonstrar que é impossível por um satélite em órbita enquanto o sputnik dava voltas à Terra...

antonio disse...

Meu caro voar é uma questão de poesia, por isso os segredos do Universo estão vedados aos cientistas, de forma automática e determinística... só aos poetas serão desvendados esses segredos.

Vitor Guerreiro disse...

Se definirmos um segredo como "aquilo que está vedado a x" não podemos depois invocar o facto de que está vedado a x como uma ocorrência empírica que se encaixa na nossa teoria prévia. O problema dessa afirmação é que... não diz coisa alguma. É como a crença de que o vinho se converte em sangue durante a eucaristia: se eu acordar amanha e desatar a gritar que sou a encarnação de um poeta do século XIV, todos pensarão que tenho esquizofrenia ou outra afecção psiquiátrica qualquer. Acreditar no milagre da eucaristia não causa este atrito porque demasiadas pessoas acreditam nisso passiva e bovinamente. Torna-se letra comum e o que é letra comum não é sujeito ao manicómio. Dá-se a curiosa inversão e que quem critica racionalmente essas ideias é que só pode ser "oitocentista", "antiquado" ou "louco", "extravagante", etc.

Acho piada os preconceitos tolos acerca do determinismo. A palavra raramente é usada com o sentido próprio que tem. É usada como "palavra feia" para designar de um modo vago algo de que não gostamos muito. Ora vemos pensar:

Se o mundo não for determinista então não haverá eficácia causal entre os pensamentos do poeta. Se não há esta eficácia causal então o poeta não pode poetar, porque segundo o indeterminismo, de um instantâneo poético muito profundo tanto pode resultar um verso magnífico como um decassílabo acerca de um penico esmaltado... isto se o indeterminismo for real. Os poetas seguramente desejarão que entre o cogitar e a passagem da caneta no papel haja determinismo, senão estão lixados.

Alf: o que mais me diverte na teologia é o facto de as pessoas afirmarem que deus é intangível e depois atribuírem-lhe todo o género de predicados absolutamente incríveis. Temos de saber separar as questões filosóficas acerca de deus dos comportamentos religiosos das pessoas, que não merecem uma categoria diferente dos seus outros vícios quotidianos, como fumar e beber. As pessoas sentem-se compelidas a acreditar em qualquer palermice que as edifique e lhes dê a ilusão de autoridade moral sobre o vizinho, faz parte do seu atavismo biológico.

Claro que as especulações acerca do sobrenatural e da possibilidade de uma superinteligencia criadora e reitora podem ser tratadas a um nível mais respeitável. Contudo, não creio que consigamos dar algum sentido claro à ideia de "sobrenatural". Acabamos por fazer do sobrenatural aquilo que queremos que seja. O que imaginamos ao imaginar o sobrenatural? Invariavelmente, imaginamos isto: um outro mundo, tão físico como este, mas onde as leis da física são permeáveis aos nossos desejos.

Força

alf disse...

Vitor guerreiro

poderia falar muito tempo sobre os temas que levanta porque temos experiências muito diferentes... mas isso não é possível, pelo que vou pegar só num ponto:

"O que imaginamos ao imaginar o sobrenatural? Invariavelmente, imaginamos isto: um outro mundo, tão físico como este, mas onde as leis da física são permeáveis aos nossos desejos."

Nós temos uma percepção duma realidade exterior adquirida através de 5 sentidos. Mas, na verdade, não sabemos se existe verdadeiramente essa realidade exterior. Não podemos pôr de parte a simples possibilidade de sermos uma espécie de computadores ligados em rede onde corre um programa que gera esta percepção.

Ou seja, as nossas certezas acerca da "realidade exterior" são muito limitadas.

O sobrenatural não é um outro mundo, é este mesmo mundo, são propriedades deste mundo às quais não temos o acesso imediato que os orgãos dos sentidos permitem.

E não temos porque a eventual comunicação se faz através do cérebro profundo e não de orgãos do corpo. Nem do Consciente.

Tenho um post antigo que pergunta "quantos sentidos temos?"

Portanto, se quisermos investigar o sobrenatural, não adianta racionalizar, é preciso ir à procura da experiência - caminhando por dentro da mente.

E também podemos procurar as pessoas que talvez saibam alguma coisa mais do que nós.

O nosso cérebro, desenhado como está para conseguir ter a rapidez de processamento que a sobrevivência tantas vezes exige, filtra tudo o que contrariar o conjunto de "verdades" que aceitou; por isso, um ateu não pode fazer esse caminhar pela mente porque o seu cérebro bloqueará todas as informações que possam questionar a sua certeza

Da mesma forma, um crente também não pode, só encontrará aquilo em que já acredita.

é por isso que temos de cultivar a dúvida; só ela nos dá a abertura de espírito que nos abre as portas do conhecimento. A dúvida não é mais do que a consciência de que não temos os dados todos.

E para que serve querermos chegar a conclusões, ter certezas, se não temos dados suficientes?

Não se iluda: explicar a crença no "sobrenatural" como o faz é uma precipitação - há muitas pessoas que não encaixam no perfil que traça dos "crentes"; tal como há muitos ateus que encaixam nesse perfil.

Somos uns imensos ignorantes da nossa mente, não temos um modelo mínimo do seu funcionamento; temos de começar por aí. Nem o fenómeno "sobrenatural" mas trivial do hipnotismo somos capazes de entender, não é?

Não deixo de estar de acordo com tudo o que diz: há um imenso mar de "crendice" e "hocus pocus" que explica quase tudo o que tem a ver com "sobrenatural"; só acrescento que há sinais que nos fazem questionar se podemos resumir tudo a isso.

alf disse...

antónio

Ora como você disse em tão poucas palavras aquilo que eu tentei dizer em tantas!

Brilhante, como sempre!

Joaquim Simões disse...

Óptimo post, Alf! Parabéns! Logo que possa, comentá-lo-ei!
Em relação ao mais recente post que publicou no Outra Física, penso que seria muito interessante "rever a matéria" dos atomistas da Antiguidade, nomeadamente os seus criadores: Leucipo e Demócrito, expurgando-os da vulgata superficial de Dalton. O atomismo nasceu como resposta à necessidade de solucionar a questão do vazio entendido como o não-ser e às respectivas implicações. Isto na altura em que a filosofia constituía uma face da poesia e vice-versa. Fica também aqui o meu desafio ao António. Um abraço a ambos.

alf disse...

joaquim simões

Obrigado pela sua visita!

É interessante verificar como, em alguns aspectos, o conhecimento actual é medíocre em relação ao já disponível em tempos recuados; mas deixo para o meu amigo a tarefa de nos elucidar sobre os atomistas da Antiguidade ou sobre outros aspectos da sua "arena" que vejam a "talhe de foice".

Um grande abraço.

leprechaun disse...

Se algures no universo houvesse uma super inteligência reitora, como diz o Dawkins, esse seria o facto físico mais interessante de todos: o facto de que o físico é afisicamente causado.


Muito interessante, ó Guerreiro!

E essa ideia da natureza sobrenatural é nice indeed! :)

Mas no campo puramente especulativo, a tal super inteligência reitora muito provavelmente seria transcendente ao Universo, ainda que nele se manifestasse. Logo, pelo menos essa formulação de algures no universo parece dúbia.

o físico é afisicamente causado se apresenta bem mais interessante e provável, mas aí essa inteligência não estaria apenas algures na distância, mas sim em todas as partículas e ondas, tudo o que é matéria ou energia ou espaço vazio sem deixar nada de fora!

Deveras, essa é mesmo a filosofia do Oriente, tal como Krishna expõe tão belamente no Gita:

I am the origin of all beings, O Arjuna. There is nothing, animate or inanimate, that can exist without Me. (...) I continually support the entire universe by a very small fraction of My divine power.

Por fim, a velhinha questão permanece tão fresca e misteriosa como quando foi pela 1ª vez enunciada:

É a mente ou consciência apenas o resultado da matéria altamente organizada, ou tão simplesmente esta é a manifestação visível daquela, divinamente incriada?

Ora, se assim for, então o físico é afisicamente causado, o que pessoalmente me parece imensamente mais lógico e simples do que o contrário.

Em termos práticos, tal significa que a realidade última de todo o universo não é a matéria-energia sob a forma das partículas-ondas, que é o modo como o percebemos, mas algo infinitamente mais subtil e imanente a toda essa substância mensurável e perceptível. E que é consciente ou inteligente, afinal a velhinha ideia da omnisciência... nice! :)

De resto, mesmo os físicos de maior renome já o vão afirmando, como o fez David Bohm na sua teoria "Wholeness and the implicate order" e que Fritjof Capra aqui aborda muito sumariamente em "The Turning Point":

At present there are two approaches in physics that come very close to dealing with consciousness explicitly. One is the notion of order in Chew's S-matrix theory; the other is a theory developed by David Bohm, who follows a much more general and more ambitious approach. Bohm's starting point is the notion of 'unbroken wholeness', and his aim is to explore the order he believes to be inherent in the cosmic web of relations at a deeper, 'nonmanifest' level. He calls this order 'implicate', or 'enfolded', and describes it with the analogy of a hologram, in which each part, in some sense, contains the whole. If any part of a hologram is illuminated, the entire image will be reconstructed, although it will show less detail than the image obtained from the complete hologram. In Bohm's view the real world is structured according to the same general principles, with the whole enfolded in each of its parts.
Bohm realizes that the hologram is too static to be used as a scientific model for the implicate order at the subatomic level. To express the essentially dynamic nature of reality at this level he has coined the term 'holomovement'. In his view the holomovement is a dynamic phenomenon out of which all forms of the material universe flow. The aim of his approach is to study the order enfolded in this holomovement, not by dealing with the structure of objects, but rather with the structure of movement, thus taking into account both the unity and the dynamic nature of the universe. To understand the implicate order Bohm has found it necessary to regard consciousness as an essential feature of the holomovement and to take it into account explicitly in his theory. He sees mind and matter as being interdependent and correlated, but not causally connected. They are mutually enfolding projections of a higher reality which is neither matter nor consciousness.
Bohm's theory is still tentative, but there seems to be an intriguing kinship, even at this preliminary stage, between his theory of the implicate order and Chew's S-matrix theory. Both approaches are based on a view of the world as a dynamic web of relations; both attribute a central role to the notion of order; both use matrices to represent change and transformation, and topology to classify categories of order. Finally, both theories recognize that consciousness may well be an essential aspect of the universe that will have to be included in a future theory of physical phenomena. Such a future theory may well arise from the merging of Bohm's and Chew's theories, which represent two of the most imaginative and philosophically profound contemporary approaches to physical reality.


Meaning... science and religion deal with the same reality, only they look at IT differently! :)

E sim, esta é a suma elegância...

Rui leprechaun

(...sabemo-lo desde a infância! :))


Wave function, which operates through form, is closer to life and mind. (...) The electron has a mindlike quality.

David Bohm

leprechaun disse...

O que mais me diverte na teologia é o facto de as pessoas afirmarem que deus é intangível e depois atribuírem-lhe todo o género de predicados absolutamente incríveis.


Mas isso nunca é possível, ó Guerreiro!

Não há simplesmente predicado algum para Deus, ou melhor, há todos e mais algum... mas só Ele é que os sabe!

DEUS É!... predicado lá da fé! :)

A escritura mais inefável e deliciosamente indescritível que conheço, é o espantoso "Guru Granth Sahib", do Sikhismo, um hino amorosíssimo de puro "bhakti" e "prema", amor devocional sem igual!

Para um coração amante ou uma alma poética, essa enormíssima colecção de milhares e milhares de poemas sem fim é um mergulho indescritível num oceano infindo de doçura... não apetece mesmo fazer mais nada do que ler e ler e ler... ó que orgásmico prazer!!! :)

Vá lá que não há por aí muitos Gnomos e doidos equiparados, por certo mil vezes piores na sua mística quietude do que o proverbial alentejano à sombra do chaparral ou o mexicano debaixo do seu sombrero!

Quando vim para esta terra e tive pela 1ª vez acesso à Net, na biblioteca local, tudo o que fiz semanas a fio foi ler e copiar essa inenarrável maravilha, mais todos os poemas sumptuosos de Kabir e Nanak, que traduzem a suma ciência da suprema consciência!

Bem, mas não posso falar muito disto, é demasiado arrebatador e nem parece haver assim tanta gente que se interesse por estas elucubrações que enlouquecem os élficos corações! :)

Porque desse Amor viemos...

Rui leprechaun

(...e só por Ele vivemos! :))


I bow to the Lord of the World, to His Word, to Brahma the Creator. He is Beautiful, True and Eternally Joyful. (...)
How can we speak of Him? How can we praise Him? How can we describe Him? How can we know Him? (...)
Endless are His Praises, endless are those who speak them. Endless are His Actions, endless are His Gifts. Endless is His Vision, endless is His Hearing. His limits cannot be perceived. What is the Mystery of His Mind? The limits of the created universe cannot be perceived. Its limits here and beyond cannot be perceived. Many struggle to know His limits, but His limits cannot be found. No one can know these limits. The more you say about them, the more there
still remains to be said. Great is the Master, High is His Heavenly Home. Highest of the High, above all is His Name. Only one as Great and as High as God can know His Lofty and Exalted State. Only He Himself is that Great. He Himself knows Himself.

leprechaun disse...

É por isso que temos de cultivar a dúvida; só ela nos dá a abertura de espírito que nos abre as portas do conhecimento. A dúvida não é mais do que a consciência de que não temos os dados todos.


Ena! Isso parece muito krishnamurtiano!

Bem, eu cá por mim escolhi o tal caminho da doçura... a mística afeição pura!

Ai, mas agora que cresci, penso mais no que vivi ou que outrora então senti...

Quem me dera ser menino, eternamente ladino, que namorar o divino é um alto desatino! :)

Quanto à dúvida, pois pode abarcar tudo talvez, excepto essa perpétua afirmação da consciência:

DEUS É!... e em mim vive Ele até! :)

No doubt whatsoever have I felt...

Rui leprechaun

(...for in this Unity We really melt! :))


PS: Well... more or less, it's just His loving kindness! ;)

alf disse...

amigo leprechaun

Todo o meu conhecimento é filtrado pelo crivo da Dúvida. Quer o meu conhecimento das coisas a que a Física se dedica, quer das coisas que alguns Físicos afirmam que não existem, naquele processo típico do ateu que afirma que não existe o que desconhece.

Foi a Dúvida que me abriu as portas a algum conhecimento para além da Física. Eu sei que sei mais que a generalidade dos «crentes» porque eu usei a Dúvida.

Eu não busco sentir-me bem, pelo contrário, eu desconfio imediatamente de todas as ideias que me causam esses estados - isso é normalmente sinal que essa ideia satisfaz uma necessidade do meu cérebro inconsciente.

Tenho para aí dito que o nosso cérebro carece de cosntruir «modelos fechados da realidade»; essa é uma razão que o leva a ser «crente» ou «ateu», ambas as coisas eliminam o que não sabemos. Assim, ao assumir-se ser uma coisa ou outra, o cérebro deixa de sentir a angústia de o seu «modelo de realidade» ter buracos, áreas de ignorância, potencial fonte de perigos desconhecidos.

Como já referi, um gato, ou qq outro animal, quase não tem «dúvidas», o seu modelo de realidade está fechado, apesar de conter muito menos informação que o de qq um de nós. Um modelo fechado é indispensável para suporte dos programas de decisão.

E temos instintos; o instinto filial que nos faz procurar um ser protector e amantíssimo, capaz do «amor de mãe», ou seja, um amor que não cobra, um amor que nada exige e tudo dá.

E o instinto que nos leva a proteger as nossas crias, e a relacionarmo-nos, a cuidar, a amar incondicionalmente.

Os instintos são necessidades a que precisamos de dar resposta. O culto do amor a um deus satisfaz estes instintos. E é muito mais fácil do que «amar o próximo».

Portanto, eu, que busco «conhecer» acima de tudo, não me posso entregar à condução das minhas sensações. Apenas a Dúvida me pode levar pelo caminho que escolhi.

Mas não temos de ter todos a mesma opção, o mesmo caminho. Não devemos!! Eu não sei se o meu caminho é melhor que o seu, o bom mesmo é "espalharmo-nos" em muitos e variados caminhos e quando um de nós encontrar qq coisa interessante, avisar os outros!

É o que estamos a fazer, não é verdade?

leprechaun disse...

Sim, ó sábio que vai podando o jardim! :)

Um dia, há muito tempo, recordo que também escrevi uns versinhos assim, mas já não me lembro das palavras exactas.

Mas neles havia essa promessa daquele que encontrasse a verdade ou a beleza o dissesse ao outro amigo. Era, pois, um jogo de cooperação a dois! :)

A propósito do conhecimento que ultrapassa os sentidos, ontem também me lembrei dos sonhos, onde de facto se podem ter algumas premonições ou inspirações.

O mundo dos sonhos como porta para visões e profecias... eu gosto dessas magias!

Deveras, e falando da sabedoria antiga - que é real, mesmo que a queiram desvalorizar - o sono e os sonhos são tidos em alta conta, como um estado de consciência muito especial. E ainda a meditação, que de certa forma também é um sonho acordado, embora no seu estado mais puro aquele que medita "desapareça"... mas que consciência é essa?! :)

Bem, vou ter oportunidade de "disparatar" tudo isto em Braga, fui convidado para ombrear com os sábios, logo eu que não sei nadinha... mas que chata criancinha! :)

E sim, só quero colos e mimos...

Rui leprechaun

(...zero adultos, mil meninos! :))

alf disse...

Leprechaun

o Citador de hoje tem uma afirmação muito a proppósito:

"O sábio procura a sabedoria, o tolo encontrou-a"
Lichtenberg, Georg

Quem for ao congresso de Braga à procura da sabedoria, deverá pois escutar o «tolo» e não os «sábios»...

leprechaun disse...

Essa frase do tolo está super elogiosa para mim... quero ser um tolo assim! :)

Ora, mas sou apenas um crente... e busco um Deus inteligente!

Sim, creio que há uma Sininho...

Rui leprechaun

(...invisível Amorzinho! :))


PS: E continua o disparate... é cortar o pio ao vate!!! :D

Mariana disse...

Sempre se tentou criar uma maquina que tenha uma imitação do cérebro, mas nunca nada vai ser igual do que o cérebro humano.
Uma maquina vai poder ver bem, sem necessidade de usar lentes multifocais onde isso marca uma diferença.

alf disse...

Mariana

As máquinas estão longíssimo da capacidade do cérebro humano; a visão, eventualmente, poderá ser alcançada pelas máquinas; mas o cérebro faz coisas muito mais complexas; e não é só isso, o cérebro tem fontes de informação e capacidades de comunicação que ainda são completamente desconhecidas. O cérebro é mais do que um computador e nós somos mais do que um robot

Mariana disse...

Uma maquina nunca vai poder pensar, mas sim fazer tudo o que o homem programe nela.
O cérebro é um ogano incrível que só a gente tem, e as vezes não funciona algumas partes e um termina usando lentes bifocais