quarta-feira, dezembro 12, 2007

Os Amores dos Átomos

As Estrelas fabricam incansavelmente elementos cada vez maiores, 10 protões no núcleo, 20, 100, ... mas são sempre átomos, não passam de átomos, e a partir de certo tamanho são instáveis, não adianta fabricá-los porque decompõem-se em pouco tempo. Mas como é isso o que as Estrelas sabem fazer, elas, incansavelmente, vão sempre fabricando átomos e espalhando-os pelo espaço circunvizinho, originando os sistemas planetários. Noutra altura contarei como nasce um Sistema Planetário, agora vou-vos contar a mais linda história de amor.”


Ah, isso sim, conta lá”, os olhos da Luísa a brilharem de entusiasmo,


Não há amor mais forte e constante que o do Hidrogénio e do Oxigénio. Sabem, os cientistas que deram nome aos elementos percebiam pouco destas coisas do Amor, coitados, sempre metidos nos seus laboratórios e, não percebendo que eles têm sexo, deram aos elementos nomes masculinos. E, imaginem, inventaram escalas de electronegatividade para medir uma coisa que não passa de atracção sexual!”


Ah ah”, ri-se o Mário, “Luísa, sinto que há uma grande electronegatividade entre nós!”, Luísa ri-se e eu continuo:


O Hidrogénio é um macho galanteador e apaixonado, mas o elemento mais abundante a seguir, o Hélio, é assexuado, um solitário convicto. As damas disponíveis são o Carbono, o Azoto, o Oxigénio e o Flúor. O Flúor é cá uma sereia... o Hidrogénio perde completamente a cabeça com o Flúor! Uma paixão tão intensa que pode acabar em explosão. Felizmente o Flúor é raro, se fosse abundante como os outros três teríamos um Universo muito truculento. O Carbono, ao contrário, tem claras tendências bissexuais, tanto fazendo uniões com o másculo Hidrogénio como com a feminina Oxigénio.”


Essa do Carbono bissexual é boa...”, o Mário está divertido com a ideia.


O Azoto (N) é uma fêmea pouco namoradeira, de sedução não percebe nada, e é preciso muita pressão para a conseguir convencer a unir-se seja a quem for. Digamos que é tipo Aquário, assim mais virada para a Amizade do que para o Amor.”


Ah ah, para o que te havia de dar!!”, o Mário está divertido, ainda bem, continuo:

É, pois, apenas com o Oxigénio que o Hidrogénio pode viver um grande amor, intenso, estável, fiel, dando origem ao mais abundante dos compostos, a Água.”


Mas o Oxigénio não é um elemento pouco abundante? pergunta a Ana.


Não, apenas o assexuado Hélio é mais abundante que o Oxigénio, excepção feita ao Hidrogénio evidentemente. O Carbono tem metade da abundância do Oxigénio e o Azoto apenas um sexto.”


Então a Água é o composto mais provável do Universo, resulta da ligação entre os dois elementos reactivos mais abundantes...”, a Ana a pensar em voz alta, imagino que estivesse convencida de que a água fosse rara...


A Água está para os compostos como o Hidrogénio para os elementos. E agora que estamos a par da dança amorosa dos elementos, é fácil entendermos o que aconteceu na Terra. Logo no início temos a formação de maciças quantidades de água. Como a Terra era muito quente, a Água só podia existir como vapor. Na Terra, existe hoje água que vaporizada originaria uma atmosfera 270 vezes maior que a actual, portanto este é o primeiro acontecimento da química terrestre, uma atmosfera de vapor de água possivelmente superior a 270 atmosferas, um ambiente dominado pelos 5 elementos a uma temperatura superficial de muitas centenas de graus. O que é que acham que vai acontecer?”


Suponho que o Carbono e o Azoto não se deixaram ficar solteiros, perdão, solteiras ahah...”, a Luísa sempre esperta.


Pois claro que não! Já vos disse que vapor de água a alta pressão e temperatura sobre carbono produz petróleo, ou seja, hidrocarbonetos, que são compostos de Carbono e Hidrogénio; e também vos disse que a essas pressões e temperaturas o Azoto condescende a ligar-se aos outro elementos”.


Portanto”, o Mário com ar interessado, “ formam-se todos os compostos simples entre os quatro elementos reactivos mais abundantes:

H e O formam água
C e O, o dióxido de carbono
H e N, a amónia
H e C, os hidrocarbonetos, que são o petróleo e o gás natural,
H, C e O, os hidratos de carbono, como os açucares,
H, C, N e O, os outros compostos de azoto da química orgânica
.”


Exactamente Mário, como já percebeste a Terra era uma espécie de autoclave gigantesca, produzindo as combinações possíveis dos 4 elementos reactivos mais abundantes, a que chamamos compostos orgânicos. Nessa autoclave produziram-se em quantidades maciças os tijolos que a Vida usa.” Observo o Mário pensativo, estranhará que afinal fosse tão fácil perceber como se formaram os tijolos da Vida.


Então porque é que fizeram aquele modelo com as faíscas para gerarem esses compostos?”, a Ana desconfiada.


Porque não perguntaram ao Jorge!”, o Mário desata a rir e contagia-nos. Lá me controlo. Ocorre-me responder com uma pergunta: “ E porque é que acreditaram durante tantos séculos que o Universo inteiro rodava à volta da Terra?”


Talvez porque tenhamos grande dificuldade em conceber modelos em conflito com a nossa experiência sensorial...”, o Mário a pensar em voz alta... estou a gostar de ouvir, eu já tenho dito que os cientistas tendem sempre para os modelos primitivos que resultam da nossa aprendizagem empírica através dos sentidos...


E aquela conversa da bissexualidade, o que é que tem a ver com a formação destes compostos?”


Então Luísa, não vês que é o Carbono, ao unir-se simultaneamente ao Hidrogénio e Oxigénio, que origina os hidratos de carbono, o primeiro composto de 3 elementos? Sem a bissexualidade do Carbono esta forte união não seria possível! E esta união é o núcleo de toda a química da Vida porque o Azoto apenas vai estabelecer uma relação de amizade, a que se seguirão outras. Todas essas relações de amizade são indispensáveis, mas o núcleo forte é a relação tripla do Hidrogénio, Carbono e Oxigénio; uma relação forte porque é uma relação de Amor, impossível sem a bissexualidade do, ou da, Carbono!”


Estás cá com uma conversa...eheh... Luísa, e se arranjássemos uma carbonazinha para formarmos um hidrato de carbono?”, o Mário está muito divertido. Nos olhos da Luísa corre um brilho travesso.


Estás sem sorte! Os hidratos de carbono engordam! E se arranjássemos antes um hidrogéniozinho para formarmos uma molécula de água?"


Bem, esquece, esquece, os amores dos átomos não são exemplo para nós eheh!”


Os olhos semicerrados da Luísa indicam-me que ela procura uma resposta... mas não, endireita-se, vai tentar falar a sério, vira-se para mim:
Esta tua interessante explicação ainda é apenas a primeira fase do processo da Vida; até agora, é apenas como se tivéssemos as peças dum avião; e a montagem das peças, a construção do avião?”


Como verás Luísa, os cálculos do Fred Hoyle estão errados; a magia do Universo em nada é inferior à do Luis de Matos: com a maior das facilidades realiza o que parece impossível!”


Sim?! Então explica!”

18 comentários:

Manuel Rocha disse...

Clap, clap, clap !
Bravo, Divulgador !!

Os tais cientistas que deram s� nomes masculinos aos elementos seriam da vanguarda do movimento gay ? Se eram est� explicado...

Tenho um pedido a fazer, posso?
Quando encontrar onde e como, meta a� no meio do texto nota sobre as quantidades astron�micas de energia que estes processos requerem...

Para que amanh� se perceba quanto nos custa hoje tentar imitar os "Deuses" da cria�o...

alf disse...

manuel rocha

eheh gays os cientistas? não será aí que está o problema... mas na visão masculina do mundo.. nomes masculinos às coisas "boas" e femininos às coisas "más"... uma atitude bem de acordo com as ideias das Igrejas.

É necessária imensa energia para manter a Terra num estado de "autoclave", indispensável a estes processos, muito mais do que a Física actual permite na Terra inicial.

O passado quente da Terra, amplamente registado na geologia, implica que a Física e o modelo actual do Universo estão errados, muito errados. Não sabendo explicá-lo, a Ciencia tenta negá-lo - na Nature desta semana deverá sair mais um artigo a tentar explicar a teoria da snowball earth. Esta teoria é, talvez, o maior disparate jamais produzido pela humanidade. Mas ele é a consequência necessária da Física actual, por isso a Ciência se agarra a ela contra todas as evidências.

Ainda bem que os criacionistas ainda não o perceberam, senão podiam arrasar a ciência.

As explicações actuais só mostram a impossibilidade de a Vida se gerar na Terra, espontâneamente ou não, pois nem um Criador iria produzir vida nas condições duma snowball earth, ao contrário do cenário que o Jorge está a apresentar.

Diogo disse...

«Como verás Luísa, os cálculos do Fred Hoyle estão errados»

Estou curioso.

Manuel Rocha disse...

Alf:

"Definitivamente agradas-me, pequeno !"

( Ocatarinetabellachichix )

Tarzan disse...

Hmmmm! Uma referência a signos. O amigo alf está definitivamente atento ao público feminino :-)

Pink&Blue disse...

Olá Alf,

Estou atenta à evolução desta história e estou a gostar. Ainda não li o inicio do blog por isso gostaria de saber se há por aí, ou se está para vir, alguma referência à precessão dos equinócios.

Pink

Raiz de Carla disse...

Bem isto está giro... estou curiosa para saber o que vem por ai... =D

Alf em relação ao desafiu que me propos à uns tempos... que tipo de texto é que devo fazer exactamente com as frases que recolhi?

alf disse...

Manuel Rocha

Asterix na Córsega não é? Esse não li... vou pedir ao Pai Natal!

alf disse...

tarzan

publico feminino? talvez tenhas razão... mas para mim é apenas cultura geral!

alf disse...

pink&blue

a precessão dos equinócios não é assunto relevante para este blogue, mas mande-me um email sobre o que quer saber que eu responderei... o que souber.

alf disse...

raiz

espero que a curiosidade da raiz e do diogo não fique defraudada, não esperem que eu apresente uma receita para fazer vida - seria perigoso não é? Além de que não tenho essa receita...


O desafio era ver se das frases recebidas era possivel extrair algumas que se pudessem justapor, parecendo fazer sentido. Pelo que eu vi deve ser quase impossível, pois abordavam assunto muito diversos.

Em vez da justaposição simples, pode experimentar unir usando pequenas frases suas e, até, adaptando ligeiramente cada uma das frases. Afinal é assim que se constroem os polímeros a partir dos monómeros...

(se tiver tempo para isso é claro, porque a época é complicada)

Raiz de Carla disse...

Não espero que dê uma receita para fazer vida.
Por acaso estou a abordar o assunto agora na disciplina de biologiae as receitas acho que se restringem a teoria fixista =P
Eu vou tentar postar qualquer coisa nas ferias, custa-me ficar tanto tempo sem postar...

antonio disse...

Depois do mistério, o romance! Teremos desta o livro?

Sempre deconfiei ter em mim um lado azoto.

Feitixeira disse...

Alf,
Parabéns por mais um original e interessante texto.
A analogia entre as ligações dos atómos e as relações amorosas são deveras curiosas...

Do que me lembro da química, faltaram aqui realçar uns pequenos pormenores (tabus??):

“É, pois, apenas com o Oxigénio que o Hidrogénio pode viver um grande amor, intenso, estável, fiel, dando origem ao mais abundante dos compostos, a Água.”
Quando falas que o verdadeiro Amor é entre o Oxigénio e o Hidrogénio, referes-te a relações poligámicas (H2O). Onde é que isto é fiel? Estará a estabilidade na relação a três?

E são ainda mais fortes as relações incestuosas entre os oxigénios ou entre os azotos.

Ou a minha memória me está a atraiçoar ou omitiste estes pequenos pormenores sordidos...

Beijinhos covalentes***

alf disse...

António

Lado azoto? humm, tem de me explicar isso, não me parece, estou a vê-lo muito reactivo ehehe

alf disse...

Feitixeira

Pormenores sórdidos? Nada disso, que ideia preconceituosa é essa??

Na natureza há todo o tipo de relações, pelos vistos, e eu não faço juízos de valor !!! Pelo contrário, sou fã da diversidade!

Vê lá que até dei nomes a essas relações:

tipo "molécula de água": dois homens e uma mulher

tipo "hidrato de carbono": duas mulheres e um homem

Mas o tópico que levantas é muito interessante, porque salienta a diferença entre fidelidade e monogamia.

Estas relações de átomos são fieis, são estáveis, os átomos não se enganam uns aos outros - são, verdadeiramente, relações de amor.

Com as pessoas as relações devem também ser assim: sem enganos, confiantes. O resto é secundário, que interessa se são duas ou mais, de que sexo são, se são swingers ou não... isso são tudo convenções dos humanos das quais a Natureza nada sabe. Nem quer saber!

Ser fiel é pois ser alguém em quem o outro (ou outros) pode confiar. Apenas isso. Tanto como isso.

Dentro da relação, as pessoas têm de encontrar a solução que faz todos felizes - é para isso que serve uma relação hoje, dantes servia para a procriação apenas. Se um quer uma molécula de água e outro um hidrato... terão de encontrar uma solução ... sem ninguém enganar ninguém.

Olha que gostava de saber a tua opinião sobre o tema... ainda não tenho tudo muito claro na minha cabeça complicada de humano...

Feitixeira disse...

Alf,

Achei pertinente o realce dado à diferença entre fidelidade e monogamia.
Realmente fiel refere-se a relações de verdade. Acho que fui influenciada pelos conceitos incutidos pelo meio social.

Os nomes dos tipos de relações são excelentes e bastante interessantes para aplicar nas relações humanas, pois não produzem esteriótipos. Até os poderias sugerir aos terapeutas sexuais.

Nas moléculas, como nas relações humanas, alguns têm mais facilidade em escolher um par, em definir a sua tendência e em se manter com o mesmo elemento por mais tempo. No fundo, parece que uns procuram estabilidade, outros novas experiências, outros tornar-se algo diferente...mas todos descobrem um pouco mais de si nas relações!

Beijinhos relacionais***

alf disse...

feitixeira

Eu sabia que farias um comentário interessante... e é também interessante a tua conclusão "mas todos descobrem um pouco mais de si nas relações!"

Isso é verdade mas só na medida que nos empenhamos na relação e no outro - conheço pessoas que parecem não descobrir nada relação após relação. É interessante porque revela a pessoa que és - terias de ser ou não poderias escrever como escreves.

beijinhos relacionais.. não são todos? lol

um beijo fascinado