sexta-feira, junho 22, 2012
O Monstro devora-se
achei esta imagem genial.. tirei daqui
A economia neoliberal é um ser autónomo, programado para buscar o enriquecimento; enriquecer ou morrer, esse é o lema dele. Enquanto é pequenino, é um encanto, toda a gente gosta do seu ar maroto, divertido, sempre ocupado a amealhar; muito travesso, é preciso que os pais estejam sempre de olho nele. Mas sem dúvida que enquanto pequenino dá outra vida e alegria à casa.
Mas ele cresce.
Cresce sempre.
E assim, o encantador e promissor ser torna-se um Monstro. Um Monstro insaciável que precisa de crescer continuamente ou morre, assim foi concebido este ser. Mas tem pai que é cego e para os seus pais o Monstro continua a ser o seu menino querido de sempre. Faz dos pais o que quer e eles em tudo o apoiam.
Lança a sua voracidade para fora da casa onde nasceu, porta onde conseguir entrar tudo devora. As outras casas são primeiro apanhadas na conversa encantatória do Monstro; até que a primeira lhe bate com a porta e logo as outras começam a perceber o perigo e, uma a uma, fecham a porta ao Monstro. Não sabem que o Monstro deixou lá a sua semente, em breve novos monstrinhos surgirão nessas casas; mas, por agora, a sua preocupação é manter longe o Monstro.
O Monstro está com um problema; para continuar a crescer, a existir afinal, porque se não cresce morre, tem de se alimentar do recheio da sua própria casa.
E assim o Monstro começou a autodevorar-se; está a devorar a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, já começou a petiscar a Itália.
Os pais do Monstro, cegos como todos os pais, não vêm problema nenhum nisso, nada a criticar ao seu “menino”: a autofagia é uma prática sanitária, dizem, as células praticam-na regularmente para se livrarem dos resíduos da sua actividade. Está tudo bem. O seu monstrinho está apenas a devorar o Lixo.
E o Monstro, para o qual tudo é lixo menos a sua boca, come, come-se...
quinta-feira, junho 07, 2012
Os ultraliberais são como os nazis das SS
fiquem com este texto que eu vou andar de bicicleta (imagem tirada daqui)
O quadro a que
conduz a economia ultraliberal é bem claro. É como no futebol: entre os muitos
jogadores de futebol profissional portugueses, há uns poucos que ganham
muitíssimo (e jogam no estrangeiro), mais uns pouquinhos que ganham menos mal e
a esmagadora maioria, talvez mais de 80 ou 90%, ganha miseravelmente. Contrariamente
ao que se possa pensar, não há nada tão igualizador como o ultraliberalismo,
que tende a gerar 1% de privilegiados e 99% de miseráveis.
Mas o futebol não
são só os jogadores, há os presidentes e donos dos clubes, alguns são eleitos e
é aqui que há uma enorme diferença: a sociedade da economia ultraliberal é uma
sociedade de castas. Há a casta dominante e depois a maralha em competição.
Esta maralha ganha o mínimo possível – mesmo o Cristiano Ronaldo ganha o mínimo
que o Real Madrid teve de pagar para o ter. Qual é o mínimo que o patrão do
leitor precisa de pagar para o contratar? Vá fazendo as contas... Se não
pertence ao lote dos 1% melhores, ficará no lote dos restantes, e os restantes
vão estar dispostos a trabalhar por uma sopa.
O que resulta desta
economia ultraliberal é uma massa de escravos e miseráveis. Para estes
economistas, como a Lagarde já o disse, não há razão nenhuma para um grego – ou
um português – ganhar mais do que um nigeriano. E não há razão porque ambos
pertencem ao “povo”, não pertencem ou estão ao serviço da casta dominante, como
a Lagarde ou o António Borges ou o Constâncio.
O que tem travado
este caminhar para a escravatura são as ideias do Estado Social e a força
organizada dos trabalhadores que, entre outras coisas, impuseram ordenados
mínimos. A classe média na Europa consegue ganhar actualmente uns 50 a 100%
mais do que o ordenado mínimo. Se ganham o que ganham, é porque o ordenado
mínimo é o que é.
Mas a economia
ultraliberal não quer saber de ordenados mínimos e nem pensar em Estado Social.
O objectivo não é uma sociedade melhor, é separar águas, isolar a casta
dominante do povão.
É por isso que é
preciso acabar com o “Estado Social”, cujo fim o director do BCE já declarou. Sonham com o fim do Estado Social. Sem o Estado Social, só os ricos terão
acesso a educação de qualidade e a condições de vida que permitam garantir aos
seus filhos um mínimo de condições de sucesso. Sem o Estado Social, a sociedade
de castas fica definitivamente estabelecida. Voilà!
É por isso que os
ricos e seus servidores não pagam impostos – nem a Lagarde paga impostos. Não
pagam porque o Estado é para servir os interesses do povo, não deles, logo, o
povo que o pague. A única coisa que os ricos precisam é de uma polícia para
manter o povo controlado.
Não se pense,
porém, que isto é uma novidade, algo que está a acontecer pela primeira vez.
Nada disso, isto já vem do fundo dos tempos e do fundo da natureza humana. Foi
por causa disto que se fizeram as guerras mundiais do século passado. Na altura,
o argumento encontrado pelos economistas de serviço foi o de que não havia
“espaço vital” para toda a gente, logo, as “raças superiores” tinham de dominar
as outras por direito genético e exterminar os que não fossem domináveis, como
ciganos, judeus e comunistas. As guerras mundiais nasceram do mesmo tipo de
ideias “económicas” que dominam agora a Europa. Ideias ao serviço de um único
objectivo: a defesa da casta superior. É por isso que o comunismo foi tão
violentamente combatido e denegrido. Mas agora que o muro de Berlim caiu, que a
ameaça para as castas superiores que o comunismo representava desapareceu, eis
que essas castas ficaram livres para estabelecer a escravatura. De novo!
(note o leitor
que eu não sou comunista; o modelo de sociedade que prefiro, dos que conheço, é
o dinamarquês)
O nosso governo
vai reduzir a saúde pública ao indispensável dos indispensáveis. Irá degradar o
ensino público. Aumentará as cadeias e as polícias. E claro que vai baixar os
ordenados. A garantia de que os ordenados vão baixar já foi “dada” por Passos
Coelho – ele tem muito azar, sempre que garante uma coisa, acontece o
contrário... O Estado deixará de ter quadros de médicos, enfermeiros,
professores, etc – passa tudo a ser contratado a empresas de trabalho temporário.
E baixando os ordenados do Estado, baixam todos.
Então a classe
média queria ordenados europeus num país onde o ordenado mínimo é menos de 1/3
de outros países??? Se o ordenado mínimo é 500 euros, o das classes médias não
deve passar dos 750 euros – por agora, porque a seguir este ordenado mínimo
acabará e descerá até à sopa. Claro que os ordenados têm de descer!!! São as
“leis do mercado”!
É que economia
ultraliberal nivela por baixo. Quando cada um trata dos seus interesses, todos
perdem para o mais forte. Óbvio.
Mas notem que em
Portugal sempre foi assim; a única coisa que mudou para nós foi a escala – até ao 25 de Abril, ser licenciado em Portugal era pertencer ao 1% mais; hoje, ser português é pertencer aos 99% menos. A desigualdade sempre foi o nosso timbre,
é por isso que temos 40% de abandono escolar – que significa que 40% das
crianças têm condições de vida miseráveis. Contra isso, ninguém se indignou;
mas indignaram-se com as medidas para melhorar essa situação. A escolha agora é
bem clara: ou queremos a economia de mercado à escala europeia ou queremos um
Estado Social; mas têm de decidir já porque quando forem escravos já não
decidem nada. E isto vai piorar muito porque baixar os ordenados nada vai
resolver, o desemprego vai crescer imparavelmente (calculo que é preciso menos de uns 20% da população para
produzir tudo o que se consome actualmente, e quanto mais baixos os ordenados,
menos se consome) e em breve estarão soluções de extermínio em cima da mesa
(disfarçadas, é claro).
(um último pensamento:
eu apostava que o Deutsche Bank, ou o Barclays, devem ter uns buraquitos do
tamanho da dívida soberana portuguesa; o que irá acontecer quando isso vier a
lume?)
sábado, maio 26, 2012
O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 2
(continuado)
A Regulação é
imprescindível
(imagem daqui)
Vimos que uma
economia de competição tende (na ausência de regulação), como qualquer
competição pura, a terminar-se; e “terminar”, no caso desta economia, significa
chegar a um estado em que uns poucos controlam toda a riqueza produzida e os
outros subsistem no limiar de sobrevivência – que é o estado em que a sociedade
humana tem existido a maior parte do tempo desde que deixou a organização
tribal. A este estado terminal chamo “escravatura”. Neste estado, a sociedade
já não se desenvolve e a única forma dos ricos continuarem a enriquecer é
através da luta entre eles – o mais forte conquista a riqueza do mais fraco
(esta conquista pode ser feita pela força das armas ou pelas regras do mercado,
é para isso, em parte, que umas e outras são como são).
Vimos também, como
é evidente, que uma condição necessária ao sucesso deste sistema económico é
que ele origine o enriquecimento de toda a população, mesmo que desigual – ou
seja, o crescimento absoluto da riqueza dos mais ricos tem de ser inferior ao
crescimento absoluto da riqueza total porque o contrário implica o
empobrecimento de parte da população.
Uma
característica do crescimento económico que se pode intuir dos dados existentes
é que a taxa de crescimento parece ser inversamente proporcional à
desigualdade; este fenómeno torna, a partir de certo valor da desigualdade,
explosivo o empobrecimento de parte crescente da sociedade, e conduz
rapidamente à situação terminal, ou seja, à escravatura.
Ter estas 3
características dum sistema económico de competição bem presentes é muito
importante.
Portanto, um
sistema económico de competição não se auto-regula; ele carece de um sistema
político que exerça efectivamente essa regulação ou tende fatalmente para a
escravatura ou para uma revolução, militar ou popular.
Esta regulação
pode ser feita admitindo maior ou menor desigualdade; ou seja, mais regulação
para conseguir menor desigualdade, ou então reduzir a regulação para aumentar a
desigualdade. Não se presuma que existe um ponto ótimo de equilíbrio – os
sistemas activos nunca têm um equilíbrio estático, o equilíbrio é sempre
dinâmico, ou seja, é um estado oscilatório de amplitude controlada.
Num sistema
democrático, é o voto dos eleitores que decide isto, através de dois partidos
políticos, em que ambos se comprometem com as medidas comuns (combate à
corrupção, legislação clara, justiça eficiente) mas um aplica as medidas de
alargamento e reequilíbrio da competição (regulação) e o outro as destrói; os
eleitores escolhem um ou outro dos partidos para governar consoante sentem que
lhes convém mais o reforço da componente competitiva ou da equilibrante. Esses
dois partidos são os partidos ditos do “centro”, o da componente competitiva é
o do “centro-direita” e o da componente equilibrante é o do “centro-esquerda”.
No caso americano, são os Republicanos e os Democratas; no caso português são o
PSD e o PS. Ambos estes partidos defendem o sistema competitivo da economia mas
têm papéis opostos na sua regulação. O ponto de equilíbrio que definem pode
situar-se mais à direita, como acontece em nos EUA, ou mais à esquerda, como
acontece na Dinamarca. Note-se que a função dos partidos não é meramente
económica e a organização da sociedade não se resume à Economia, mas é apenas
disso que me ocupo agora.
Os partidos ditos
da extrema, direita ou esquerda, são contra o sistema competitivo na economia e
é por isso que afirmam que os partidos do centro são apenas duas faces do
mesmo.
O problema maior
da regulação é que os governantes tendem a acabar reféns dos mais ricos e
deixarem de fazer a regulação do sistema; daí a necessidade de inventar um
poder “incorruptível” acima dos partidos, como um monarca ou um presidente, ou
de desenvolver sistemas de fiscalização da acção dos governantes; mas estes
sistemas também acabam reféns, propriedade, dos mais ricos, como acontece com
os media. Actualmente, há a esperança de que a internet, associada ao aumento
do conhecimento das pessoas, possa constituir um sistema de fiscalização
robusto (razão pela qual é alvo de ataques como este; qualquer dia, até os
comentários do tripadvisor serão proibidos...)
Quando se iniciou
a globalização económica, as medidas de controlo do enriquecimento dos mais
ricos deixaram de poder ser aplicadas porque o espaço económico transcendeu o
espaço político – impedir uma empresa nacional de crescer demasiado seria
limitar a sua capacidade competitiva a nível mundial. Instalou-se a
desregulação. Isto abriu portas à especulação financeira – os capitais deixaram
de “ter pátria”, fugiram aos impostos e a todos os mecanismos de controlo. O
desequilíbrio disparou e grande parte das pessoas deixou de enriquecer. A
regulação da economia “foi-se”.
As pessoas votaram “à esquerda” onde isso
estava a suceder – EUA e nos países do sul da Europa. Porém, controlar o
crescimento da desigualdade num quadro em que a economia ultrapassa a política
é impossível. Nos EUA esse controlo nunca foi totalmente perdido, mas nos
países da Europa foi; por isso, os governos de esquerda nos países do Sul da
Europa, apesar de tomarem algumas medidas correctas, apenas conseguiram atrasar
um pouco o agravar da situação. Os eleitores votaram então à direita e abriram
a porta à catástrofe, porque a receita da direita é a desregulação, o aumento
da desigualdade – exactamente o oposto do que precisam os países mais pobres.
Isso é bom porque como não há inteligência suficiente para entender o processo
económico, porque somos ignorantes, egoístas e gananciosos, dependemos de
sofrer na pele as consequências dessa ignorância e desse egoísmo para
percebermos porque é que temos de agir doutra maneira – e quanto mais depressa
o erro se tornar claro, mais depressa se poderá corrigi-lo.
Entretanto, em
todo o mundo se fecham agora as portas à globalização. Quem não quiser uma sociedade de escravos tem de repor rapidamente a regulação da Economia, submetê-la à política e não o contrário. O sábio
Obama comanda, as recentes nacionalizações na América do Sul terão o seu dedo.
Todas as potências emergentes têm ferozes políticas de proteção das actividades
nacionais, mais fortes do que alguma vez existiram, como a obrigatoriedade de
capitais nacionais para todas as empresas que queiram operar no seu país e a
aplicação de taxas alfandegárias elevadíssimas; e até o barramento de acesso a
conteúdos nacionais na net a partir do estrangeiro (?!). E na Europa?
quarta-feira, maio 09, 2012
O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 1
Uma coisa que nos
caracteriza é o nosso instinto competitivo; estamos sempre prontos para
competir seja em que área for; somos uma espécie de galos de combate.
Enquanto acharmos
que podemos ganhar, competimos. É por isso que não dispensamos os joguinhos de
computador. Competimos nos jogos e competimos em tudo o que tem a ver com a
vida: competimos para sermos o mais popular, competimos pelo emprego, para
sermos ricos, para ter o parceiro (a) mais interessante, o carro melhor, a casa
mais agradável, etc. Claro que cada um de nós não anda a competir em todas as
frentes, mas há sempre uma ou outra em que concentramos a nossa
competitividade. A “boa educação” é, em parte, sabermos controlar as nossas
reacções competitivas fora de contexto.
Eu distingo dois
tipos de competição: a primária, que visa o nosso exclusivo interesse, e a
secundária, que serve também os interesses dos outros – exemplo desta segunda é
o desejo de ser o mais útil, de contribuir para a máxima felicidade do nosso
parceiro (a), etc.
O desporto é uma
criação humana que representa o quadro mais perfeito de competição primária que
conseguimos conceber. E esse quadro tem uma característica fundamental: está
organizado de tal maneira que todos os competidores (os atletas) tenham, em
princípio, as mesmas possibilidades de ganhar. Isso reflete-se, por exemplo, no
facto de o desporto estar dividido por níveis, idades, sexo e, nalgumas
modalidades, por peso.
Uma modalidade é
o futebol profissional; ora bem, neste quadro de competição definido com tantos
cuidados de igualdade, o que acontece? Acontece que se estabelece uma enorme
desigualdade naquilo que os jogadores ganham: tal como na economia a que
pertencemos, o 1% dos jogadores mais bem pagos arrecadam uma fatia enorme das
receitas totais do futebol; e uma fatia cada vez maior.
Apesar das
abissais diferenças de salários, um clube mais pobre pode ainda ganhar uns
joguitos a clubes maiores – a razão é que a diferença de qualidade em valor
absoluto é pequena. A diferença de ordenados é que é enorme porque não
interessa quanto vale a diferença de um jogador para outro em valor absoluto
mas apenas em valor relativo – o jogador que pertence ao lote dos 1% melhores
adquire uma imensa cotação de mercado e vale imenso dinheiro porque há muito
dinheiro no mundo actual e essa pequena diferença que ele dá à sua equipa
permite a esta ganhar imenso dinheiro.
Esta é uma
característica incontornável de um sistema de competição primário: as pequenas
vantagens pagam-se a peso de ouro e a desigualdade na distribuição das
recompensas cresce sempre.
Sendo os recursos
limitados, esta tendência dos sistemas competitivos faria desaparecer os mais
fracos, ou seja, os clubes mais pequenos; só que o futebol não pode reduzir-se
aos 3 ou 4 maiores, não é verdade? Contra quem jogariam eles? Então, o sistema
de futebol tem de manter os clubes pequenos e por isso tem de ter um sistema de
redistribuição de receitas que os aguente ou acaba-se o futebol.
Um sistema
competitivo primário tende para um vencedor que elimina todos os outros.
Aplica-se-lhe a frase do filme Duelo Imortal (Highlander): “no final só pode
haver um”. Para manter indefinidamente um sistema assim, só há duas maneiras:
ou o “jogo” recomeça sempre que chega ao fim ou existem mecanismos que
beneficiam os que ficam para trás e vão reequilibrando a competição.
Vejamos agora a
Economia
.
O objectivo da
Economia é maximizar a produção de riqueza; a solução capitalista é o uso da
competição. No entanto, como já se viu, esta competição tem de ser regulada
para que não se termine.
Consideremos o
caso dos fabricantes de automóveis – dos inúmeros que existiam há meio século,
hoje o número de fabricantes independentes conta-se pelos dedos (embora cada um
deles apresente várias marcas) e, deixando as regras da competição pura
funcionar, num futuro não muito distante existirá um único dono de toda a
indústria automóvel (será, provavelmente, um grupo chinês...). Ora a competição
findava-se nesta altura e isso não pode acontecer. Portanto, a Economia tem de
contemplar mecanismos que impeçam o fim da competição e isso é basicamente, por
um lado, estimular o aparecimento de novos competidores e, por outro, limitar o
crescimento dos maiores, nomeadamente impedindo aquisições, fusões,
cartelizações e mesmo cindindo empresas. É necessário, portanto, uma acção de
regulação. Saber quanta regulação aplicar é que não é fácil – se esta for excessiva,
abafa a competição e diminui a produção de riqueza; se for de menos, dispara a
desigualdade e cai-se na situação do futebol em que os clubes pequenos abririam
falência e os grandes deixavam de ter contra quem jogar. Como equilibrar a
regulação com a desregulação?
Isso poderia ser
feito “científicamente”, para isso existem múltiplos índices que permitem saber
em que direção actuar. Porém, definir o ponto de equilíbrio é um assunto
político; e como se resolve isso por via política?
(continua)
sábado, abril 28, 2012
O Mistério das Crises
A evolução das
sociedades humanas segue um padrão sistemático: começa por uma associação de
pessoas que têm de juntar esforços para sobreviverem; para cada um, é óbvio que a melhor forma de melhorar as suas condições de vida nesta fase inicial é agir em função do
interesse colectivo.
Depois, começando
a sociedade a ter riqueza, a organizar-se, surge a desigualdade de riqueza e de
poder; e a desigualdade tende a crescer imparavelmente porque os mais ricos têm
mais capacidade de enriquecer do que os outros.
A princípio, isto
não é um problema, porque o enriquecimento da sociedade chega para enriquecer
todos; mas como a taxa de crescimento dos ricos é superior à taxa média, ou
seja, do PIB, a taxa de enriquecimento da maioria das pessoas torna-se cada vez
mais pequena; por outro lado, por várias razões, a taxa de crescimento do PIB
também abranda em função do crescimento da desigualdade. Portanto, dois
fenómenos ocorrem: a taxa de enriquecimento dos ricos é crescente e a da
sociedade é decrescente a partir de certa altura.
Destes dois
efeitos chega-se fatalmente à situação em que o enriquecimento de uns, por ser maior em valor absoluto do que o enriquecimento da sociedade, acaba por implicar o
empobrecimento de outros; então, a desigualdade dispara até ao ponto em que
todos, menos os mais ricos dos ricos, atingem o limiar da sobrevivência. Este meu post de 2008 mostra isso, tal como o vídeo acima. Aí, a sociedade estagna, fica
no seu ponto extremo, em que uns poucos controlam a quase totalidade da riqueza
produzida pela sociedade e os outros subsistem no limiar da sobrevivência e da
dignidade, ou abaixo disto.
A Idade Média foi
isto, a sociedade dividida entre os senhores e os servos.
Esta situação é
nefasta por duas grandes razões; uma é que produz a estagnação ou mesmo o
retrocesso da sociedade e a outra é que este não é certamente o tipo de
sociedade desejado pela maioria das pessoas, não se assemelha em nada a um
“paraíso na Terra”, antes a um “castigo de Deus”.
Quando ocorre uma
súbita abundância, seja devida a uma conquista, a um período de melhor clima, a
um progresso tecnológico, que abre uma janela de crescimento da sociedade,
alguns dos pobres podem ficar menos pobres, originando o aparecimento da
chamada “classe média”; também as guerras, ao produzirem maciça destruição,
abrem no pós-guerra uma oportunidade de crescimento que decorre da reconstrução
do que foi destruído e fortalecem por isso a classe média. Quando se esgota
essa janela de crescimento, a classe média volta a desaparecer. De vez em
quando, aqui e ali, os pobres recorrem à força do seu número e fazem uma
revolução, que momentaneamente repõe alguma igualdade na sociedade, mas logo se
reinicia o mesmo processo infernal.
Portanto,
compreendamos bem o processo: o estado para que tende uma sociedade humana em
que cada um age em função do seu interesse imediato é caracterizado por
existirem uns poucos que detêm a quase totalidade da riqueza produzida e os
outros serem mais ou menos escravos desses. Como os ricos não podem coexistir,
porque cada um quer sempre ser mais rico, acabam por estabelecer “territórios”,
que podem ser geográficos ou por áreas de actividade. Portugal nasceu porque um
tal Afonso Henriques quis ser mais rico e poderoso do que o que lhe estava
destinado.
Os ricos não são
melhores nem piores do que os pobres, são simplesmente pessoas cujo objectivo
na vida é ser rico ou poderoso e o conseguiram. Apenas nos períodos em que uma sociedade é capaz de crescer surgem as “luzes da
civilização” porque então existem pessoas que podem sobreviver sem estar
inseridas na luta de ratos, uns contra os outros, pelo enriquecimento ou pela
sobrevivência.
Na Natureza as
coisas parecem não ser muito diferentes, ocorrendo saltos evolutivos a seguir a
catástrofes que eliminam grande parte dos seres vivos e deixam espaço para os
sobreviventes não terem de disputar a sobrevivência uns contra os outros - não
parece ser a adversidade que gera a evolução mas a oportunidade a seguir à adversidade.
Portanto, não
tenhamos ilusões: uma sociedade humana entregue a si mesma desemboca fatalmente
nesse quadro. Apenas a existência de um poder que permita que as pessoas ajam
em função do interesse colectivo pode conduzir a uma sociedade melhor; o
enfraquecimento ou incompetência desse poder determina a fatal evolução acima
descrita. Esse poder é o poder Político. Como é óbvio, o poder Político tem de
estar sempre acima do poder dos ricos, ou seja, do poder do Mercado.
Como é óbvio
também, não é isso que acontece na Europa. Compreender como chegámos a isto é
importante para percebermos como podemos corrigir a situação. Disso falarei no
próximo texto.
quarta-feira, abril 11, 2012
O Titanic Europeu
Desde que começou o corrente milénio que o mundo ocidental anda em crise. Ou seja, EUA e Europa, pois no resto do mundo não há crise, apenas os problemas do costume.
Apontam-se causas
para aqui e para ali, culpam-se estes e aqueles... os pobres culpam os ricos
por enriquecerem demais, os ricos culpam os pobres por "viverem acima das suas posses", todos culpamos a corrupção que por aí grassa... o ruído do
costume quando ninguém sabe o que se passa. Como todos têm culpas, é fácil
apontar o dedo; mas será que está aí a verdadeira causa do problema?
Hoje ainda não
está esclarecida a causa da crise de 1929, quase um século depois; diferentes
explicações estão ainda em discussão, as duas mais usuais sendo
a) tratou-se de
uma crise de superprodução devido ao aumento dos ganhos de eficiência e quebra
no boom de produção que se deu para a reconstrução da Europa a seguir à
primeira grande guerra, conforme previsto por Ford e Keynes;
b) deveu-se à
política anti-inflacionista da Reserva Monetária dos EUA.
Ambas estas
eventuais causas podem também ser apontadas à actual situação europeia (as
exportações podem entrar em crise devido ao fim da globalização económica, com
os países em todo o mundo a adoptarem fortes medidas proteccionistas).
A crise de 1929
resolveu-se, pensa a maioria dos analistas, pelas medidas do New Deal.
Estas políticas
económicas do New Deal, completamente inovadoras na altura, foram
racionalizadas por Keynes na sua obra clássica Teoria geral do juro, do
emprego e da moeda.
Duas dessas
medidas foram o investimento maciço em obras públicas e a diminuição da jornada
de trabalho – e por aqui se vê que estamos a andar ao contrário, pois se essas
medidas serviram para sair de uma depressão, certamente que o seu oposto não
serve o mesmo fim; a crise actual acontece apesar dessas medidas e não por
causa delas.
O certo é que
houve quem previsse a crise de 1929 e pusesse em prática uma política que a
resolveu (mas não foi fácil nem rápido nem indolor) e iniciou um longo período
de prosperidade. E agora estamos numa crise que ninguém parece entender e não
podemos pensar que quem não entende o que se passa lhe dê remédio.
O pensamento por
detrás do New Deal é o oposto do que está por detrás das actuais medidas, é o
que conduz a um Estado que é social, forte e interventivo na economia – exactamente
aquilo que os actuais gurus abominam. A resolução da crise deveu-se sobretudo à
acção de Roosevelt, que mobilizou a nação toda para enfrentar a crise e teve a
força política para fazer o que queria, especialmente no que se refere ao
sistema financeiro. Fez dos seus primeiros 100 dias de governo a “pedra de
toque” da saída da crise, tendo tomado uma imensidão de medidas, e é por isso
que desde então os governos são avaliados ao fim de 100 dias.
Não nos iludamos
com “boas” notícias como a de que o deficit das contas externas diminuiu – ao
que parece diminuiu porque estamos a exportar ouro! Nós não produzimos ouro,
pois não? Estamos literalmente a vender os anéis; quando se acabarem os anéis
vamos vender o quê? E o que é que isso significa em termos do drama social a
caminho? Quanto à produção industrial, está em queda, a factura dos combustíveis
não para de aumentar a uma taxa assustadora e a importação de alimentos tem uma
redução insignificante – ninguém consegue travar a importação de alimentos?
Na Europa, há
apenas preparações para a grande catástrofe, como o aprovisionamento de fundos
financeiros de socorro; será que os fundos vão conseguir aguentar a catástrofe?
E se não forem? Se não forem, começa-se por deixar cair a periferia para tentar
salvar o centro... por isso continuam a dizer que a “Grécia ainda não está
livre de sair do euro”... bem, e nós estamos no mesmo caminho, não é? Na
verdade, estamos tão acelerados que não tarda a nossa crise poderá ser muito
maior do que a grega.
Temos de ter isto
bem presente: a Europa não está a resolver a crise, está a barricar-se; e nós vamos ficar do lado de fora da barricada assim que as
coisas se agravarem. Nenhuma medida foi tomada que altere o quadro de fundo e
não, o problema não está na dívida soberana – se estivesse, a Espanha não estava
em crise porque tem uma dívida soberana mínima.
Quando se afundou
o Titanic, o que aconteceu aos passageiros de terceira classe? Ficaram fechados
no interior do navio enquanto os passageiros de primeira se punham a salvo nos
botes. E havia botes para quase toda a gente porque o Titanic só levava cerca
de 1/3 dos passageiros que podia levar; o pânico dos ricos determinou a morte
dos pobres.
É isto que está a
acontecer: os passageiros de primeira estão a ocupar os seus lugares nos botes
salva-vidas e enquanto a tripulação vai entretendo os de terceira, dando-lhes
coisas para fazerem e dizendo-lhes: a gente já vos vem salvar, estejam tranquilos, estamos a tratar de tudo. É o que os
países “ricos” da Europa estão a fazer com os outros países e é o que os ricos (os muito e os pouco ricos) em Portugal estão a fazer com outros portugueses – a tripulação são os
governos, fraquinhos perante os ricos, a tentarem manter a maralha sossegada
enquanto os ricos se salvam. Aquilo que Roosevelt fez, a mobilização geral da
nação, não existe aqui, apenas se pede ao povo sacrifícios e paciência; e
que não sejam piegas. O governo fala para os portugueses tal como os tripulantes do
Titanic para os passageiros da terceira classe.
Para que serve a
actual discussão dos limites ao deficit? É para levar a sério? Tem alguma
hipótese de ser cumprida? Claro que não, é só para manter os “passageiros da
terceira” entretidos, dar a ilusão de que se está a fazer alguma coisa para
evitar a crise e no fim poder dizer: a culpa é vossa, não cumpriram o pacto.
Notem que eu não
estou a apelar uma qualquer revolta, pelo contrário, estou a tentar evitá-la;
porque quando for necessário reduzir de novo o ordenado dos funcionários
públicos e as pensões dos reformados, e a taxa de desemprego passar dos 20%, ou
dos 25%, é o que pode acontecer; e depois é que será o caos completo. E é isso
que vai acontecer em breve. Sacrifícios vai ser preciso fazer, mas as pessoas
precisam de sentir que os sacrifícios são iguais e não é isso que está
acontecer – o sacrifício dos subsídios não é o mesmo para uma pessoa que ganha
1000 euros ou para uma que ganha dez vezes mais. E, além disso, as pessoas
precisam de saber que os sacrifícios conduzem a algum lado, e também não é isso
que está a acontecer, não há nenhum desenho de uma sociedade melhor pela
frente, apenas se perspectiva um progressivo afundar das condições de vida.
Tive uma avó que
dizia que só a morte não tem remédio; e é bem verdade. O que temos a fazer é
encontrar uma solução para isto. Os americanos resolveram a crise de 1929 e
estão a resolver esta também, aplicando basicamente a mesma receita, que é o oposto
do que a Europa anda a fazer. Nós também havemos de ser capazes de encontrar
uma solução, desde que pensemos no assunto.
sexta-feira, março 30, 2012
Manda quem for O Mais Rico
D. Dinis, o "Rei Rico"
Há tempos, vi uma
reportagem na TV onde um jornalista perguntava a um angolano se achava bem que
o J. Eduardo dos Santos (JES) fosse a pessoa mais rica de Angola; a resposta,
dada com toda a tranquilidade, foi: se fosse outro o mais rico, seria outro a
mandar.
Esse angolano
está certíssimo mas nós, com a cabeça cheia de utopias simplórias e ideias
erradas, não percebemos que essa é tendencialmente a realidade. Não é o Puttin
o mais rico da Rússia? A sua fortuna pessoal passou do zero às dezenas de
milhares de milhões de euros em duas décadas... Os Bush e os Kennedy não são
das famílias mais ricas dos EUA? O candidato republicano Mitt Romney também tem
uma fortuna pessoal de umas centenas de milhões de euros... que se saiba...
A história mostra
que a riqueza é indispensável ao Poder, mesmo a nossa: o rei D. Dinis, na
sequência do esforço iniciado por D. Afonso II, tratou de se tornar o mais rico
do país, enfrentando nobres e clero, e assim ter o poder que lhe permitiu,
graças à sua enorme visão política, fazer finalmente de Portugal um país.
A Igreja Católica
tornou-se poderosa porque enriqueceu; aqueles que criticam a riqueza da Igreja
percebem muito pouco do ser humano; e a ostentação da riqueza é tão essencial à
Igreja como a qualquer pessoa que queira ter poder pessoal.
O Poder escorre
para as mãos dos ricos naturalmente; qualquer pequenina manifestação de riqueza
dá logo vantagem. Os ricos não têm de fazer nada para terem
mais poder, são as outras pessoas que se apressam a elevá-los, a endeusá-los.
Além disso, a verdade é que a generalidade das pessoas se vende, a honestidade
é um mito que se alimenta da falta de oportunidade, toda a pessoa (as eventuais excepções são irrelevantes) tem o seu
preço.
Esta relação
entre poder e riqueza existe à escala dos países – o país mais poderoso é o que
for mais rico. Na Europa, é a Alemanha; no mundo, são os EUA. E ser mais rico é
evidentemente uma vantagem porque o mais rico tem mais capacidade de enriquecer
do que os outros. A única forma de um país
menos rico não ser esmagado nesta economia é violando as suas regras, que é o
que fazem todos os países, protegendo as suas actividades internas e gerindo a
globalização na medida dos seus interesses. A comunidade europeia faz o mesmo
em relação à sua fronteira externa, enquanto internamente franceses e alemães
enriquecem à custa dos países do sul do Europa, que deixaram de proteger os
seus interesses; os pequenos países da CE desenvolveram esquemas que lhes
permitem subsistir parasitando os outros países, nomeadamente através das
offshores que criam e mantêm em territórios fora do controlo económico.
O sistema
democrático visa ultrapassar o maior problema das sociedades humanas: o abuso
do poder, tornando-o temporário, limitado, e acessível a qualquer pessoa que as
outras entendam ser a mais adequada. Mas quem é escolhido para governar tem de
ter poder e isso só é possível se, enquanto governante, for o mais rico – o
Estado tem de ser mais rico que o mais rico dos ricos. Como é que os pais fundadores
da democracia conseguiram isso? De diversas maneiras, nomeadamente estas 3: impostos, leis anti-monopólio e o poder de emitir dinheiro,
através do controlo do “banco central”; esta é a pedra de toque do poder do
Estado.
No entanto, se
essas medidas garantiam poder aos vencedores das eleições, não impediam que
quem for mais rico tenha mais capacidade de ganhar eleições; e, assim, e por
diversos caminhos, os mais ricos passaram geralmente a controlar o poder
político. O sistema americano dá a um candidato a possibilidade de ser momentaneamente rico com as doações para a campanha, o que teoricamente dá a qualquer pessoa a possibilidade de fazer frente aos ricos.
Como se sabe, o
poder exerce uma enorme atração e, por isso, não falta quem se julgue como o
mais capaz de exercer o poder. Os Reis e os Religiosos, porque são uma emanação
de Deus, os Militares porque a Força está com eles, os Cientistas porque são
donos do Conhecimento, os Juízes porque são o poder acima de todos os outros,
os Tecnocratas porque são eles que fazem as coisas, os Financeiros porque são
eles quem controla o dinheiro. Todos eles já sonharam conquistar o poder
político, directa ou indirectamente.
Porém, agora está
a ocorrer algo de novo!
Se existe esta
relação directa entre riqueza e poder, então para quê perder tempo com o poder
político? Se se puder ser mais rico que os Estados, comanda-se o Mundo; o papel dos políticos é tornado inútil, e com eles esse custo improdutivo representado pelas eleições, o mundo gere-se como se fosse uma grande empresa.
Como é que se
pode ser mais rico que os Estados? Controlando os bancos centrais e
sobrecarregando os Estados com despesas para que as receitas de impostos se
tornem insuficientes. Por isso, a obtenção do poder absoluto, a capacidade de
regular os destinos do mundo, passa por estas duas únicas coisas; e quem é pode
conseguir isto? Apenas os Financeiros.
Notemos que os
Financeiros já conseguiram ser donos de quase tudo – neste mundo competitivo
todas as empresas têm de recorrer à banca para aumentarem a sua capacidade
competitiva; mas ao fazê-lo colocam-se na dependência destes e acabam
controladas pelos bancos. É por isso que actualmente quase todas as grandes
empresas são controladas por grupos financeiros. Um pequeno número de grupos
financeiros domina quase toda a actividade económica; as leis anti-monopólio perderam a eficácia porque as empresas "concorrentes" têm por detrás, em muitos casos, os mesmos grupos. Este pilar do poder do Estado já caiu.
No próximo post
vamos ver o esquema genial inventado pelos financeiros para controlarem totalmente o mundo
ocidental.
Notemos que os
financeiros não são “os maus” – eles são tão “maus” como todos nós sempre
prontos a abusar do poder, disponíveis para ficarmos mais ricos se surgir a
oportunidade (apenas a falta desta nos alimenta a ilusão de que “somos
melhores”); mas foram mais espertos e conseguiram aquilo que nós não
conseguimos; porém, se continuarmos a ser burros, vamos ter uma vidinha
miserável, por isso é melhor que comecemos a abrir os olhos.
sábado, março 17, 2012
A malandrice do BCE
tirei esta imagem daqui; recomendo vivamente o blogue.
Ao ler a coluna
do Luís Duque no Expresso tive um “flash”: percebi a última malandrice do BCE!
Este texto não é
o que estava previsto na sequência do anterior mas vem muito a propósito do que
ando a querer expor; ora vejam:
Sabem como é que
alguns ou todos os países que têm sido intervencionados pelo FMI por este mundo
fora (as intervenções do FMI são como as operações militares dos EUA... há
sempre uma razão para intervirem nesta ou naquela parte do mundo...) se têm
livrado dele?
Como a
intervenção do FMI conduz a uma recessão crescente, os títulos da dívida
soberana desse país caem no mercado secundário; e como a recessão cresce
sempre, os títulos caem sempre. Quando estão suficientemente baixos, o país vai
ao mercado secundário e compra os seus próprios títulos de dívida – e é assim
que se vê livre dela, comprando-a por uma fracção do preço.
Mas quem é que
fica perder, perguntarão vocês? Bem, entendam, o negócio financeiro não tem por
objectivo criar riqueza, é tudo “dona branca”, é tudo esquemas em que uns
tentam sacar dinheiro a outros. Podia não ser assim, os países nórdicos vão
implementando esquemas para impedir que assim seja, mas nesta parte do mundo
dita de economia liberal é assim. No balanço, eles ganham sempre, mesmo quando
perdem alguma coisa, porque já ganharam antes nos juros usuários e já estão a
ganhar de novo noutra qualquer parte do mundo; por isso, o seu objectivo é
manter o processo.
Mas agora, ao FMI
juntou-se o BCE. Aparentemente, o BCE é muito mais sinistro que o FMI. E tem objectivos de Poder, não apenas de Dinheiro.
Sabendo que a
válvula de escape tem sido os países comprarem a sua própria dívida soberana no
mercado secundário, que faz o BCE? Adianta-se aos países e compra ele mesmo a
dita dívida, impedindo uma queda demasiadamente acentuada, impedindo essa
válvula de escape dos países.
Em nome de que teoria liberal é que o BCE intervém no mercado secundário?? O mercado não se
“auto-regula?” Ou o mercado só é “livre” quando convém aos bancos e “regulado”
quando não lhes convém??
Se o BCE fosse
uma instituição para defender os países, faria o mesmo que faz a reserva
federal americana e os outros bancos centrais – compram dívida para arquivar.
Mas não, o BCE não vai fazer nada disso, vai depois exigir aos países o
pagamento dessa dívida. E quem é o BCE? São os alemães!
Os gregos
conseguiram renegociar a sua dívida com os credores privados pois a estes o que
interessa é manter o processo; mas nós, quando a quisermos renegociar, ela vai
estar na mão do BCE; e acham que o BCE vai “perdoar” como fizeram os privados?
Não pode, não é verdade? Pois se os títulos foram comprados com o dinheiro dos
contribuintes alemães... então, o que acham que eles vão fazer?
sábado, março 03, 2012
As Teorias que nos regem são Ciência ou Bruxaria?
![]() |
exadventistas.blogspot.com |
Há um conjunto de teorias que moldam o nosso entendimento do mundo e condicionam a tomada de decisões; serão teorias fiáveis?
Começando pela
teoria económica; vemos a situação económica resvalar continuamente, a
realidade sempre pior do que as previsões, um total desacerto entre as medidas
que se tomam, baseadas em certezas inabaláveis, e os resultados que delas se
obtêm.
Diz-se que a
Economia é muito boa a explicar o passado mas nula a prever o futuro. É
fantástico como a notícia da subida ou descida da bolsa é sempre acompanhada de
uma explicação “lógica”; mas se a bolsa tem um comportamento lógico, porque é
que nunca sabem prever o dia seguinte?
Será que a
Economia é simplesmente algo que ultrapassa a nossa inteligência, a realidade é
tão complexa que a não conseguimos dominar? Estamos condenados a sofrer crise
atrás de crise, mesmo nesta era de abundância?
Na análise desta questão, ocorre-me uma
pergunta: o que é que os dinamarqueses pensarão da Economia? Para os
dinamarqueses, a Economia é Ciência certa! As previsões batem certinho, se é
preciso mudar alguma coisa, tomam-se medidas e as coisas aparecem corrigidas
como pretendido. Para os dinamarqueses, suecos, noruegueses... para quase toda
a gente, afinal... para os chineses...
Os chineses sabem
exactamente o que pretendem e como o conseguir. A sua Economia é Ciência certa.
Não interessa se o gato é branco ou preto, eles caçam sempre o rato! Já quase
não há ratos na China, desaparecem a um ritmo vertiginoso.
Aqui, ao
contrário, nada caça os ratos! Os ratos são a miséria das pessoas, a pobreza, o
atraso, a exploração.
Afinal, a
Economia só não é Ciência certa nos países que seguem a economia dita liberal,
a economia do Milton Friedman! Nos outros países, a Economia parece funcionar
muito bem. O problema não está na ciência económica, está na teoria que aqui se
segue!
Mas não é só a
Economia; a teoria do Aquecimento Global não acerta e, no entanto, continua a
ser afirmada como um facto. Desde que há registos de temperaturas por estes
lados, só houve um mês de Fevereiro tão frio como o último. A Terra está a
arrefecer há mais de uma década, mas isso não perturba os cientistas nem os
políticos: a Terra arrefece por causa do aquecimento! Isto depois de terem negado o
arrefecimento durante anos, até que a wikileaks invadiu o seu correio e
desmascarou o encobrimento do arrefecimento. As pessoas comuns não sabem, mas
quem tem um mínimo de conhecimentos de Física sabe há muito tempo que o
aquecimento global é uma fraude. Descarada. Despudorada. Como é possível manter
tal embuste a tão larga escala e contra as evidências? Afinal, pode-se enganar
toda a gente durante todo o tempo?
Bom, e que dizer
da teoria do Big Bang? O Universo é composto em 96% por matéria negra e energia
negra?? Como a teoria não acerta com o Universo... cria-se um Universo de
fantasia e afirma-se que o que conhecemos... não existe! Nem o Ptolomeu chegou
a tanto. Pura bruxaria. Mas, para as pessoas comuns, crentes hoje na Ciência
como dantes na Igreja, nada disto é estranho; nem o facto de os próprios nomes
serem os mesmos que os bruxos usam é capaz de as alertar, pelo contrário!
Espantoso. A verdade é que parece mesmo possível enganar toda a gente durante
todo o tempo – no fundo, as religiões sempre o fizeram...
Bem, e a Teoria
Atómica? A “partícula de Deus” ia ser descoberta no dealbar deste terceiro
milénio com o novo mega-acelerador, não era? Que piada! Desde a invenção do
neutrino que a teoria atómica não acerta uma previsão, esta “partícula de Deus”
é apenas o culminar da cadeia de disparates que tem sido construída. Claro que
não descobriu nada nem descobrirá – como eu previ e escrevi, o mega-acelerador
começou por não entrar em funcionamento e agora finge que vai obtendo
resultados importantes. Para quem lá trabalha, trata-se de ir aguentado a coisa
até à reforma.
E não acaba aqui,
há mais disparates, como este que já referi em post antigo. E, é claro, não foi
um meteoro que aniquilou os Dinossáurios; e sim, isso é um fenómeno repetitivo
e vai voltar a acontecer.
Bem, parece que
toda a Ciência que se tem feito depois de Einstein no chamado ocidente não
passa de ... Bruxaria!!!! Não é assim, há muita Ciência para além dessa; mas há
uma Ciência feita ao serviço das crenças e dos interesses, que se recusa a
aceitar o erro. É por isso que a Economia do ocidente é tão disparatada como
tudo o resto – isso não é uma limitação da Economia, é apenas desta Economia.
Isto tudo é
disfarçado com a Tecnologia, essa sim, essa é que tem evoluído e é responsável
por toda a evolução da sociedade – é que na tecnologia o projecto tem mesmo de
estar correcto, inventar energias negras ou partículas divinas não resolve.
Não são inócuos
estes disparates; em relação à Economia, o resultado é que em plena época da
abundância, fruto da árvore da Tecnologia, grande parte da população ocidental
vive em condições crescentemente miseráveis; em relação às outras teorias,
roubam-nos o entendimento deste fantástico Universo e atrasam o nosso
desenvolvimento, tal como as teorias do Aristóteles e do Ptolomeu o fizeram
durante 2 milénios (não por culpa deles, mas por quem não foi capaz de as
ultrapassar) e deixam-nos à mercê de catástrofes como a que vitimou os
Dinossáurios e não só. Como pode uma humanidade que acredita em energias
negras, matérias negras, partículas de Deus e outras coisas do mesmo calibre,
que adopta teorias económicas baseadas no elogio da Ganância, ganhar o direito ao
Futuro?
Estes disparates
teóricos subsistem porque há quem tenha interesse neles, evidentemente; claro
que há interesses fortes por detrás do Aquecimento Global, tão fortes que
conseguem que as pessoas aceitem como certa uma teoria que prevê o oposto do
que toda a gente vê; e as pessoas aceitam esta teoria porque no fundo lhes
agrada, o truque está aí, em dar às pessoas o que elas querem e que sirva o
interesse de quem o promove – é assim que funcionam as igrejas, os vigaristas,
os políticos.
E no caso da
Economia? Que interesses são esses?
É isso que vamos
ver... é uma pena a wikileaks não ter
violado o correio dos bancos centrais... mas isso seria perigoso demais é
claro...
domingo, fevereiro 26, 2012
O TABU
(foto tirada do blogue tabusdecavaco; origem desconhecida)
Lembram-se
daquele episódio das escutas do Cavaco? Não estranharam tanta histeria? O que é
que o Cavaco não quereria que fosse escutado? Se só havia uma suspeita, baseada nem se sabe em quê, não seria aconselhável alguma investigação antes
de se pôr a fazer comunicações ao País, como se alguém nos tivesse declarado
guerra, ou uma qualquer catástrofe natural tivesse assolado o território? Compreende-se a indignação mas não tanto a histeria; como
se explica isto?
Depois soube-se a
história do BPN, o Dias Loureiro, as acções, a casa no Algarve; pode-se
imaginar as conversas entre o Cavaco e o Dias Loureiro e os outros amigos
premiados com vivendas no Algarve. Isso sim, isso é motivo para pânico. Basta
passar os olhos sobre a matéria aqui exposta. Na dúvida de estar a ser
escutado, certamente que uma boa estratégia seria vir a público bramar que
estava a ser alvo de uma tramóia qualquer – quem quer que estivesse a escutá-lo
temeria divulgar essas escutas de forma assumida uma vez que a sua ilegalidade
já estava declarada (no caso do Sócrates, a ilegalidade das escutas já não serviu
de nada porque só foi “descoberta” depois da sua divulgação).
Esta história do
BPN também nos ajudou a perceber a política do TABU do Cavaco. Vejamos:
com os seus colegas economistas a nadarem em dinheiro, o Cavaco devia estar a
sentir-se algo estúpido em optar por cargos políticos de responsabilidade. Até
estou a ouvir a Maria a dizer: “então tu é que és o líder, o chefe, o mais
competente, e são os outros que andam a encher-se de dinheiro enquanto tu
pensas em candidatar-te a Presidente de República para teres imensas
responsabilidades e ganhares quase nada?” E agora, depois da nomeação do
Catroga, dirá: “Estás a ver? Os portugueses acham que tu ganhas muito, mas
pagam dez vezes mais ao Catroga, através da continha da electricidade, para ele
não fazer nada, e não refilam!!!” Sempre achei a Maria uma primeira-dama muito
contrariada e compreende-se: teve de prescindir da vida de professora, da sua
liberdade e de uma vida faustosa por causa da vontade política do marido. Ao contrário de outras primeiras-damas, a Maria só perde em sê-lo. Ou
seja, os tabus do Cavaco não foram tabus, ele simplesmente não sabia o que
decidir, se optar pela política e condenar-se a si e à família a ser o “parente pobre” e sem vida pessoal, ou
mandar passear a política e viver à grande e à francesa. Decisão difícil, de
facto. Respeito-o pela decisão que tomou porque ele tinha outras opções,
claramente vantajosas do ponto de vista pessoal.
Tudo isto faz
algum sentido, tanto o pânico com as escutas como as penosas decisões que aparentaram tabu. A verdade, porém, é sempre algo subtil, para além da lógica
aparente das coisas. Temos de procurar mais fundo. E, procurando mais fundo,
surge-me uma outra coisa: quem passou pelo Banco de Portugal está obrigado a
Sigilo para toda a vida. Sigilo indiscriminado, sobre tudo. Não será um pouco
excessivo? O Banco de Portugal não tem segredos comerciais, a sua actuação
deveria ser transparente, clara. Sigilo como os maçons? O Banco de Portugal é
alguma sociedade secreta?
É isso que
veremos no próximo post.
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