terça-feira, maio 08, 2007

porque caem os impérios

Procupamo-nos muito com as catástrofes naturais que se repetem, desde tremores de terra à queda de meteoros, mas ignoramos as catástrofes que ocorrem no seio da sociedade humana e que até são mais destrutivas que as naturais. E não estamos conscientes deste tipo de catástrofes por duas razões: porque ignoramos a sua natureza e porque pensamos que eram coisas dum passado atrasado e ultrapassado - até falamos do "fim da história", tal como muitos cientistas falam do "fim da física", dois máximos exemplos da ilimitada estupidez que Eisntein referiu.

Eu estava convencido que razão principal da queda sistemática das grandes civilizações tinha a ver com o problema da sobrepopulação. Os grandes impérios formam-se na sequência de grandes desenvolvimentos na organização e na produção de alimentos, como foi o caso dos Fenícios, Egípcios, Romanos, etc.. As zonas vizinhas, sem esses avanços, suportam densidades populacionais mais baixas, e essas civilizações vão se expandido porque a aplicação do seu conhecimento nesses espaços cria zonas que suportam mais população; e têm de viver em continua expansão porque a população vai crescendo e atingindo a saturação no espaço existente.

Mas há sempre um limite para a expansão que a organização consegue suportar e quando já não há mais expansão possível, o Império deixa de ser capaz de assegurar a sobrevivência dos seus cidadãos e entra em colapso - primeiro instala-se a desordem, o salve-se quem puder, o sistema organizativo começa a degradar-se, a capacidade de prover a sobrevivência agrava-se e dá-se o colapso.

Depois do último post e graças aos comentários recebidos, a minha visão alargou-se. A razão do colapso continua a ser a mesma, i. e., a incapacidade da assegurar a sobrevivência, mas a sobrepopulação não é a única causa do colapso. E esta causa é que vai ser determinante no futuro próximo.

O que é preciso para a sobrevivência? Diz-se que a Guiné-Bissau é dos paises mais pobres do mundo. Quererá então isso dizer que que lá a sobrevivência é crítica?
Nada disso. Eu estive lá. No interior. Vi pessoas que nada tinham, praticamente nem roupa tinham e, no entanto, sentiam-se no paraiso. Nada lhes faltava. A comida estava nas árvores. E ainda tinham uns pequenos porcos pretos para quando queriam variar a ementa. Que se criavam à solta, por si sós, quase sem ser necessário cuidar deles. As suas tabancas eram tudo o que precisavam para dormir. E dei por mim a discutir complexos conceitos filosóficos com eles. Não admira: têm o tempo todo para pensar... e falavam uma data de linguas: o português, o crioulo, a lingua nativa deles, a da mulher deles, o francês do pais vizinho... no mínimo.

Portanto, aquela gente não é pobre, não tem carências, tem tudo o que precisa para a sua sobrevivência. Não têm a minha angústia com o dia seguinte ou com o fim do mês. (note-se, isto era no interior, em Bissau já não é bem assim)

Vejamos agora a situação na nossa sociedade ocidental. Para sobreviver uma pessoa precisa de dinheiro para comprar roupa, alimentação, casa (não pode fazer a sua com o que apanha na natureza...), luz, água, transportes, comunicações; precisa de dinheiro para ter filhos e para lhes dar a educação necessária à vida na nossa sociedade. Quanto dinheiro representa isso tudo? Será que a nossa sociedade está a assegurar esse montante à sua população? Será a sobrevivência mais fácil aqui ou na Guiné-Bissau? Quem é mais pobre: um português com ordenado mínimo ou um guineense do interior sem ordenado nenhum mas dispondo da natureza?

Quando um "império" está a começar, as pessoas são basicamente iguais em direitos e o que há é distribuido por todos; depois acontece um fenómeno: a taxa de enriquecimento de cada um torna-se proporcional à riqueza já adquirida. Então, os mais ricos vão ficando cada vez mais ricos e poderosos e os outros vão tendo uma fracção cada vez menor da riqueza produzida. Nos primeiros tempos esta situação é sustentável porque o aumento de riqueza produzido pela nova sociedade é tal que dá para ir enriquecendo todos, apenas mais uns do que outros; mas a partir de certa altura, quando metade da riqueza produzida passa a estar na posse de muito poucos, o crescimento da riqueza destes passa a fazer-se sobretudo à custa dos outros e não já da riqueza produzida pela sociedade. A consequência é que a maioria da população começa a empobrecer. Começa a ter dificuldade em reunir o dinheiro necessário à sua sobrevivênvia como seres humanos. Um primeiro sinal, na nossa sociedade capaz de controlar a natalidade, é o deixarem de ter filhos.

Será que o ordenado mínimo assegura a sobrevivência de uma familia que trabalha na zona de Lisboa? Eu gostava de saber como é que tantas familias conseguem sobreviver assim. Se calhar não conseguem - não têm filhos porque o dinheiro não dá, passam um frio de rachar no inverno porque não podem ter aquecimento, etc.

Claro que já foi pior para muitas pessoas. Houve um ciclo de melhoria, enquanto os mais ricos não enriqueceram à custa dos outros, não atingiram os 50% do PIB. Mas esso ciclo já acabou, agora o peso dos mais ricos determina necessariamente o empobrecimento sustentado de mais de 90% da população.

A Globalização não surge como uma necessidade de acabar com a fome e o atraso no mundo. É que nos paises onde os 10% mais ricos já ultrapassaram há muito os 50% do PIB, o enriquecimento destes já não pode ser feito à custa da sua própria população (nos EUA, esta já só representa menos de 30% do PIB). Então tem de ser feita sobre o resto do mundo. Claro que primeiro é preciso engordar o porco antes de o matar, por isso a globalização pode determinar uma primeira fase de "desenvolvimento" antes de entrar na fase do "esmagamento".

Eu tenho até agora falado de riqueza, mas esta e o poder são duas faces do mesmo. As democracias gregas sossobraram porque o poder foi-se concentrando e acabaram por degenerar em ditaduras. Por isso é que a solução para este ciclo infernal passa sempre por retirar poder a quem o tem a mais. Mas isso nem sempre é possivel, quando a população de um país deixa de ter peso económico, quando 90% representam menos de 20% do PIB, então ficam na condição de escravos. Estamos quase lá.

Um exemplo: os lucros dos bancos têm crescido brutalmente. À custa de quê? De gerarem mais riqueza para o país? Nada disso. Apenas os consumidores dos seus serviços estão a pagar mais e a serem mais aldrabados com propostas de investimento enganadoras. A EDP teve lucros fabulosos. E os consumidores ainda vão ter de pagar uma taxa adicional para compensar as baixas tarifas??? Vêem: a riqueza e poder dos mais ricos crescem aceleradamente. A "crise", isto é, o empobrecimento de 90% da população, e o aumento dos lucros dos mais ricos estão associados. E escusam de esperar que o partido A ou B resolva a situação, quem for para o Governo vai estar demasiadamente preocupado com a sobrevivência do Estado, sem perceber que a diminuição de receitas é inexorável, como referi no post anterior, e vai estar ocupado a inventar taxas novas... e só vai acelerar o empobrecimento da população.

Este problema terá de ser resolvido por nós ou pelos nosso filhos. Falta é descobrir como. Se não descobrirmos, cedo ou tarde teremos mais um colapso civilizacional.

Notem que eu não sou do Bloco de Esquerda, não tenho ideias comunistas nem estou integrado em nenhum movimento politico. Busco apenas entender. Como qualquer filósofo. No meu caso, formado no interior da Guiné-Bissau (não é nas universidades que aprende a procurar os Porquês).

Notem também que nada me move contra os "ricos". São pessoas como outras quaisquer, agindo em consequência das regras do Sistema e dos seus interesses. Como todas as pessoas. O Sistema é que tem falhas.

13 comentários:

Anónimo disse...

Gostei da parte:"como qualquer filósofo"

Vejamos, os gestores bancários que atingem quase os 10 milhões de euros/ano, devem viver bastante angustiados. Porque a sobrevivência a este nível obriga-os a esgravatar cada vez mais fundo na miséria dos outros.

O Guiniense, do interior, colhe o que a natureza produz em excesso, sem comprometer o ecosistema em que vive. Não esgota os recursos que tem à sua disposição,

O gestor bancário, tem que esgravatar numa população cada vez mais empobrecida, contribuindo assim para o seu maior empobrecimento; destruindo o ecosistema do qual depende.

Os impérios caiem por uma questão de ecologia!

antónio

alf disse...

Bem visto, muito bem visto!

Anónimo disse...

gostei dessa do antonio...os imperios caem por questoes de ecologia...eu iria menos fundo...os imperios caem por que ha um pequeno montro no ser humano e nao contradição da sua senda pelo desenvolvimento...acha se uma solução para melhoria (ex tecnologica) e ela traz imediatamente na cauda um problema qualquer que se detecta depois...mas de facto a questao...é complexa...bom te ler fred

Vanessa G.

Anónimo disse...

monstro escreveu se montro e na contradição...não contradição...percalsos
Vanessa G.

alf disse...

"acha se uma solução para melhoria (ex tecnologica) e ela traz imediatamente na cauda um problema qualquer que se detecta depois..." pois, no fundo, continua a ser um problema de ecologia - também na natureza quando se introduz uma espécie num habitat que não é o seu, por exemplo para combater uma praga qualquer, normalmente obtem-se um desastre ecológico.
O Homem primitivo está inserido no sistema ecologico da natureza e em equilibrio com ele; quando tenta organizar-se em sociedades próprias, cria um sistema com ecologia própria, endógena, só que ainda não conseguiu definir regras para esse sistema que estabeleçam o seu equilibrio num quadro evolutivo.
Sem dúvida, no fundo, isto é um problema ecológico, não é um problema que possa ser resolvido numa óptima economicista, religiosa etc. E também não pode ser resolvido pelos ecologistas porque esses só sabem preservar a natureza, pelo que a solução para eles é mesmo destruir a sociedade humana.
A peculariedade do sistema ecológico humano é que ele deve existir em rápida evolução e precisa de regras compatíveis com essa contínua mudança. Não há paralelo na Natureza, teremos de descobrir como conseguir isso.
É um prazer grande encontrar-te aqui Vanessa.

Anónimo disse...

Uma coisa é a teoria, outra é a realidade. A realidade é: todos os dias morrem centenas de africanos afogados que tentam a nado e em embarcações passar para a Europa. Se a vida fosse assim tão simples e agradàvel nesses paises, certamente que eles não arriscariam as suas vidas. Quantos morrem por falta de comida?? Quantos morrem por falta de cuidados médicos bàsicos??? Quantos morrem com o virus da sida??? Com a malària??? etc, etc, etc, Os paises ricos que não querem esses africanos deviam organizar ajudas economicas para desenvolver a riqueza nesses paises. Um territorio que tem SOL e não tem paineis solares para explorar essa fonte de energia gratuita é inconcebivel. No entanto uma coisa é certa : a felicidade, a paz, o contentamento, são sentimentos interiores e não se adquirem porque se é mais desenvolvido tècnologicamente; o brilho nos olhos é um reflexo de um bem estar interior e não da conta bancària que cada um tem. Mas hà coisas que são vitais, como a àgua potàvel e a alimentação bàsica e infelizmente Africa que é um continente de grandes riquezas naturais vê morrer os seus filhos apesar dessas riquezas. Algo està profundamente errado. Algo terà que ser feito. Muito està por modificar nas mentes dos nossos dirigentes.

alf disse...

O que eu vi foi o seguinte: as pessoas vivem no interior de África sentindo-se felizes e sem carências. A doença é uma coisa que praticamente ignoram, não faz parte do mundo deles: lá não há gripes nem constipações e as outras doenças matam logo, pelo que eles dão-lhes tanta importância como nós damos aos desastres de automóvel. A única manifestação de doença que vi foi a poliomielite.
Mas depois as pessoas sabem que existem outros mundos, vão até à cidade, onde já não podem colher o fruto da árvore, têm de arranjar trabalho para ter dinheiro, e não há trabalho, e acabam à procura doutros mundos mais longícuos
Esse fenómeno da emigração é sobretudo do norte de África, onde existe um problema de sobrepopulação em relação às condições naturais, cada vez mais degradadas pela desertificação.
A sobrepopulação expulsa as pessoas do paraíso.

antonio disse...

A perda da inocência é que nos expulsa do Paraíso (essa catequese anda muito esquecida!)

Com efeito, a procura de outros mundos, que começa pela cidade mais próxima, rouba ao africano a sua inocência e atira-o para o mesmo tipo de dificuldades que encontrará como emigrante. É o início do seu calvário e da sua exploração.

alf disse...

Esse é o grande equivoco da Igreja... a procura de outras mundos é consequência da sobrepopulação. Esta determina falta de condições de sobrevivência e a necessidade de ou lutar por elas ou emigrar. Como a reprodução está associada ao sexo, e dantes não existiam contraceptivos eficazes, a Igreja decidiu culpar o sexo e as mulheres dos males da humanidade, pois são a causa da sobrepopulação

antonio disse...

Não nos precipitemos em desculpabilizar logo as mulheres.

A passagem em causa, a da perda da inocência por Adão (por causa da Eva), é anterior à Igreja tal como hoje a conhecemos.

Ela está ligada ao conceito de que o homem é absolutamente livre de escolher entre o bem e o mal; e qualquer que seja essa escolha ela não será inocente.

Se no Paraíso o homem teria direito a sexo (só pelo prazer) é algo não nos é revelado, mas em principio poderia dispor de todos os animais…

alf disse...

Não tenho essa visão. Para mim, a parábola da expulsão do paraíso representa a forma de sintetizar um aspecto crítico da história da humanidade de maneira a que este conhecimento pudesse ser transmitido por tradição oral. Que conhecimento era esse? O de que a sobrepopulação, que resulta do sexo, determina o fim dos paraísos terrestres. A sobrepopulação determinou a necessidade do Homem emigrar de Africa para climas bem mais agrestes e determinou a luta pela sobrevivência entre os homens, moldando todo o percurso da humanidade até hoje. Não há conceitos abstratos e absolutos de Bem e de Mal, eles medem-se pelas suas consequências. Na altura, o sexo era o Mal porque determinava soprepopulação. Deixou de ser quando as mulheres passaram a poder decidir sobre a sua gravidez.

leprechaun disse...

É isso mesmo, sou pretinho da Guiné... o escravo Barnabé! :)

Puxa! Mas não sabia que eram assim tão cultos como eu esses outros amiguinhos da savana! Pois isso convem-me, palrar e passear... comigo é o que está a dar!

E, contudo, há um modo de também podermos participar nessa tal riqueza global, ainda que esta até possa estar desviada para os mais ricos. E o exemplo da banca ou da EDP ilustra isso. As empresas públicas cotadas em Bolsa pertencem aos seus accionistas e distribuem lucros sob a forma de dividendos.

Estatisticamente, comprova-se que ao longo de um período mais longo, tipo 10 anos, o rendimento de capital é superior nesse investimento mobiliário do que em qualquer outro, fora a actividade empresarial, que já é uma actividade profissional.

Ora aqui, só falta é saber se o Zé Povinho tem $ para investir, claro! Muitos não têm, óbvio, mas outros só não o fazem por mera ignorância ou então escolha pessoal que até pode ser ideológica ou moral.

Em suma: $ é o que mais há, mas não abunda por cá... ó pá! :)

alf disse...

leprechaun

Essa é uma ilusão do sistema. As empresas praticamente não distribuem dividendos, os lucros ficam na posse dos administradores e dos sócios que comandam a empresa, através de mecanismos licitos ou nem por isso.

As acções servem apenas para o jogo da bolsa; que é um jogo viciado onde o pequeno apostador perde sempre.

Não adianta a ilusão, que esta só alimenta o problema.