segunda-feira, maio 28, 2007

por causa do 25 de Abril ou apesar dele?


Nesta altura em que vemos a Espanha disparar na nossa frente e o país afundar-se pesadamente nos lugares do ranking europeu merecedores de despromoção, a necessidade de encontrar o culpado começa a perfilar explicações mais ou menos óbvias: em Espanha não houve revolução, em Espanha há estabilidade... é isso, a instabilidade, a revolução são ao causa do nosso atraso!


Mas será mesmo?


Já reparam no seguinte: a Espanha é umas 5 vezes maior do que Portugal. Numa economia de mercado tendencialmente global, isso é uma vantagem enorme. Porquê? Por várias razões.


Uma das razões, talvez a mais importante para já, é o mercado interno. Qualquer indústria instalada num país produz prioritariamente para esse país. Só em casos muito especiais isto não se verifica, por exemplo, quando se trata de explorar mão-de-obra mais barata, ou outros esquemas de vantagem, como apoios estatais. Mas estes casos não contam, não têm peso no PIB, estas indústrias desaparecem assim que essas vantagens temporárias se esgotam. O mercado interno é ainda o suporte esmagador do PIB.


Por exemplo, faz sentido a cerveja produzida em Portugal ser destinada à exportação? Claro que não. Se houver um mercado para cerveja noutro país, faz-se lá uma fábrica de cerveja, não se exporta.


Para compensar o seu menor mercado interno, um país pequeno tem de ser intransigente na defesa da sua produção. E isso tem de ser feito pelos seus cidadãos - por exemplo, não passa pela cabeça de um dinamarquês comprar produtos alemães, ele compra produtos dinamarqueses, é claro! Claro que o Estado tem de dar uma ajudinha e ir encontrando formas de dar alguma vantagem à produção nacional.


Por outro lado, as empresas dos países pequenos são mais pequenas, logo, fáceis de comprar por empresas estrangeiras. A ideia de que as grandes empresas não têm nacionalidade, que são de inúmeros accionistas, é treta: na realidade, têm um conjunto muito pequeno de accionistas que controlam a empresa, que são os seus verdadeiros donos. Os lucros da empresa ficam com eles. São canalizados para os seus países de origem. Mas não só: por exemplo, as empresas espanholas que actuam em Portugal na área da construcção fazem a compra de bens e serviços a Espanha, naturalmente. E, naturalmente também, o estado Espanhol só adjudica a empresas espanholas! E nós (como é possível?!?) até já tivemos um PR que foi a Espanha pedir que ao menos uma vez adjudicassem a uma empresa portuguesa!!! Em vez de aprender com os espanhóis, o estado português quer que Espanha faça os mesmos erros! Como é possível?!?


Outro factor tem a ver com a capacidade de produzir indivíduos particularmente aptos para determinadas actividades. Como no futebol - hoje o poder futebolístico de um pais já não depende do número de pessoas do país porque nos países mais avançados a esmagadora maioria das pessoas não se dedica a jogar futebol, os futebolistas vêm quase sempre de meios de pobreza; mas ainda não há muitos anos a dimensão do pais tinha enorme peso nos seus feitos futebolisticos.


Em conclusão, precisamos de ter consciência de que somos um país pequeno e que isso representa um desafio acrescido ao desenvolvimento. Como os dinamarqueses, precisamos de ter uma atitude decidida na defesa do que é produzido em Portugal e temos de ter um esforço de investimento na formação muito maior que um pais maior. É assim que os paises pequenos sobrevivem, à custa de uma fortíssima união em torno do interesse colectivo e de um esforço enorme na formação e desenvolvimento. Nós partimos em desvantagem para esta corrida e temos de fazer um esforço mais concentrado para compensarmos a nossa pequenez.



11 comentários:

indomável disse...

Meu caro Alf,
já não era sem tempo que mais alguém tivesse a mesma opinião que eu.
Então vamos lá ver. espanha é maior que Portugal, o que só por si não é coisa pouca, mas depois ainda têm outra coisa que sempre marcou a sua História - a defesa arreigada da sua nacionalidade. Desculpa esta breve aula de história diplomática que te vou dar, mas é necessária para que percebamos bem as diferenças em relação a nuestros hermanos. Os portugueses sempre foram um povo humilde, mesmo quando eramos considerados os senhores do mundo, convenciamos mais do que venciamos. A nossa experiência colonial sempre teve mais a ver com trocas diplomáticas comerciais do que o vencer pela força. A espanha tem outro tipo de experiência - alguns teóricos afirmam que os países sem fronteiras marítimas, tal como Espanha na maior parte do território, são muito mais agressivos e quando conquistam conquistam pela força. Daí que nos territórios colonizados por Portugal tivessem permanecido os povvos tal qual estavam antes de os portugueses chegarem. Em compensação, onde os espanhois chegavam os povos eram dizimados...
Isto diz qualquer coisa acerca de uns e outros, não achas?
Entã, perguntas tu, onde quero eu chegar com isto?
Então não se vê logo?
Os espanhois sempre afirmaram a sua nacionalidade, é deles, faz parte deles como povo. Os portugueses, para além de passarem por um periodo de colonização e antes disso descoberta de outros continentes, nunca se afirmaram como povo, apenas individuos que embarcavam em busca de novas terras, de novas aventuras.
Agora irás perguntar, então onde reside o nosso problema, ou melhor, como solucionar este grave problema que é o da identidade nacional?
Mas então não está cristalino como a água que nos corre nas veias desde tempos imemoriais?
Nós não temos de ser iguais a ninguém, nem sequer temos de nos comparar a ninguém. O Português é o povo - aquele que está bem em qualquer lado, aquele que se adapta como nenhum outro a qualquer situação, a qualquer aventura. Conheces alguma outra lingua que consiga absorver tão bem todas as outras? Um português que se convença a aprender outra lingua e a falá-la sem sotaque português fá-lo sem p+roblemas. Dir-me-ás que isso é mau, que nos falta a coluna vertebral de um povo com honra. Dir-te-ei que não estás completamente certo.
O facto de nos adaptarmos não faz de nós menos portugueses, apenas mais inteligentes. Nenhum outro povo tem a palavra saudade... já alguma vez questionaste por que será? Talvez porque desde sempre temos sido marinheiros, navegadores, aventureiros... Partimos e nem sempre voltamos... o que fica?
A saudade!
Pode parecer que somos menos que os outros e neste momento mais que nunca isso aparenta ser evidente. Eu acho apenas que andamos meio perdidos. Saramago dizia que navegamos numa jangada de pedra com o formato de Portugal. Eu digo que andamos de facto à deriva, em busca de um sentido para esta nossa identidade.
Mas mais uma vez a história dar-nos-á razão, quando mostrar que o ser humano não foi concebido para estar atado a um sitio só por toda a sua vida. Por isso o português navega este mundo maravilhoso, mas a sua saudade trá-lo sempre de volta este cantinho. O que nos liga a todos, povo português - a nação com fronteiras estabelecidas mais antiga da Europa (e portanto do mundo ocidental!) é a nossa vontade de ser portugueses.
p.s. - sabes o que torna uma nação nação? - a vontade de todo um povo falar a mesma lingua, residir no mesmo território, pertencer à mesma nacionalidade. Se nós somos o povo nação mais antigo da Europa, isso só por si já diz alguma coisa a nosso respeito, não achas?

antonio disse...

Bem a jangada de Saramago era a península Ibérica e deixava de fora Gibraltar.

Agora vejamos países ricos: Suiça, Mónaco, Luxemburgo, Singapura… a teoria da dimensão parece não explicar o sucesso destes países, muito menos o facto de serem proteccionistas.

Concordo com a análise feita aos portugueses pela Indomável, julgo mesmo que por aí passa a explicação: os portugueses foram-se desenrascando.

O Africano da Guiné sobrevive praticamente com o que a natureza dá e vive num país sem organização ou futuro, não precisa de mais. Em contrapartida, Cabo Verde, sendo muito mais pobre que a Guiné, não podendo a sua população sobreviver à custa do que a natureza dá, foram obrigados a organizarem-se, a terem um sistema de ensino que funciona e tornaram-se à sua medida, também colonizadores do mundo.

O português tal como o guineense tem um limiar de satisfação das suas necessidades muito baixo. É pouco exigente e adapta-se facilmente: emigra e quando regressa já não sabe falar a sua língua materna (algo que sempre me espantou), é basicamente um ser inculto.

Quando a seguir à segunda guerra mundial os ingleses deram a independência a Singapura, o rei tomou uma decisão: não aceitava viver num país pobre. E tirou partido da sua única vantagem competitiva: um excelente sistema de ensino e uma excelente organização (herdadas dos Britânicos). Hoje Singapura é a maior plataforma logística do mundo.

Tudo o que é tráfego aéreo ou marítimo na Ásia, passa por Singapura, não existe outro local com serviço igual (eu próprio já pude testemunhar isso mesmo).

Só um povo com um limiar bastante elevado para as suas necessidades básicas e vivendo num país não rico, em termos de recursos naturais, pode atingir o limiar da excelência e libertar-se da dimensão ou de proteccionismos.

alf disse...

Tudo o que dizem é interessante, muito mesmo. E, parece-me, vem dar mais razão ao que digo, ou seja, o futuro de um povo pequeno depende da sua coesão e do seu esforço de aperfeiçoamento.
É isso que caracteriza os países que o António enunciou. Por isso é que eles são bem sucedidos, e são a prova da minha afirmação.
A questão do limiar de sobrevivência é importante, porque é ela que faz os povos entenderem a importância da coesão e da busca de excelência. A emigração, como o nomadismo, é um mal, porque surge como solução individual para este problema e não resolve o problema colectivo. A emigração é uma das causas do atraso de Portugal, porque se não existisse esta possibilidade, os portugueses teriam que ter promovido o desenvolvimento cá dentro para resolverem o seu problema de sobrevivência. De certa forma, a epopeia dos descobrimentos tem a mesma consequência: os portugueses foram buscar a sobrevivência nos novos territórios. Cada português foi "safando-se" como pôde.

Se metermos na cabeça que temos de contruir o futuro UNS COM OS OUTROS, os nossos filhos terão um futuro; se o não fizermos, terão um... passado!

Rodinsky disse...

Gostei muito do post! Antonio: Monaco, Andorra, Luxemburgo nao sao exemplo. Sao "paises" inexistentes criados para servir os interesses de uma minoria de pessoas muito ricas que para ai se mudam para nao pagarem impostos, disparando o rendimento per capita. Ja a Suica é diferente... mas o seu rendimento vem muito dos bancos, e tambem se sabe porquê, nao é? E de qualquer forma, a Suica é um pais ultra-proteccionista (como o sao o Japao, a Franca, Espanha, etc.), todos os que se desenvolveram tirando o Reino Unido, que continua o seu declinio (em relacao aos outros paises desenvolvidos).

alf disse...

muitos portugueses têm uma mentalidade de "sobreviventes" e o seu objectivo de vida é ser mais do que os outros portugueses. Não é ser alguém importante para a humanidade, ou ser útil, nada disso - o objectivo é ser mais que os que existem no seu horizonte de contactos, seja a aldeia, a cidade ou a país.
Por isso, muitos portugueses não estão nada interessados no desenvolvimento do país e, como tal, detestam a ideia da coesão. Como não é politicamente correcto manifestar-se contra a coesão, a saída é falar contra o "proteccionismo". Isso é conversa para camelos, mas que vai enganando muita gente.
Eu não penso que muitos portugueses sejam assim por uma questão genética mas por uma questão cultural. O assunto será dificil de discutir. Mas uma coisa é certa: têm de deixar de ser assim para sobreviver. Se isso não acontecer, a selecção natural resolverá o assunto: o pais ficará cada vez mais pobre, os pobres actualmente já não conseguem ter filhos, e a população portuguesa extinguir-se-á naturalmente.

Lívio Cipriano disse...

Então ... E a Suiça é do tamanho de quem ?

alf disse...

Meu caro Lívio, as coisas parecem bem claras: um país desenvolve-se tanto mais quanto mais preparados forem os seus cidadãos e quanto maior o seu grau de coesão; e se o tamanho é uma vantagem, pelas duas razões principais expostas no post, logo, os países têm de apostar tanto mais na formação e na coesão quanto mais pequenos forem. Como os países de topo têm já níveis de formação muito elevados, é na coesão que os países pequenos têm de ir buscar a compensação do tamanho.
Essa coesão tem de estar sobretudo na cabeça das pessoas porque a nível do que é possível ser feito pelo Estado é dificil ultrapassar o que fazem grandes países como os EUA e a Alemanha, estes eu conheço, e mais o que diz Rodinsky.
Estes conceitos de coesão, protecção dos interesses nacionais, etc, são óbvios em quase todos os países. Só conheço dois países que parecem ter dificuldade em entender isso: Portugal e a Argentina. A Argentina parece que já começou a perceber. Estes conceitos são já claros mesmo nos países mais atrasados. Portugal tem sido vítima, para além de questões culturais, também de uma geração de economistas da escola errada. É que há duas teorias económicas: a que serve os interesses internos de um país e a que serve os interesses externos.

indomável disse...

Meu caro Alf,
Recordo-me na Universidade estudar as várias teorias políticas e de vários analistas terem feito um estudo, em vários paises, mas maioritariamente nos EUA, sobre a participação activa dos cidadãos na vida política do país.
Na altura, isto foi na década de 50, vivia-se ainda o fantasma da II Guerra Mundial e despertava-se também para o outro fantasma - o da guerra Fria. A crise dos mísseis de Cuba, depois de um terrivel descalabro da Baía dos porcos, em que a imagem dos EUA ficou tudo menos límpida, chegaram À conclusão, estes analistas, que o poder político nos EUA tem a força que tem, pela participação e apoio dado pelo povo americano.
Não esqueçamos que o melting pot norte americano, poderia dar origem a guerras civis intermináveis, mas isso não acontece, porquê?
Porque as pessoas de facto se interessam pela politica que é feita no seu pais. Questionam, investigam, estudam. Apesar de viverem da imagem, os politicos norte americanos têm de suar as estopinhas se querem manter as suas posições cimeiras. Têm de agradar a mais que gregos e troianos, eles são mexicanos, portoriquenhos, irlandeses, holandeses, sulamericanos imigrados, ingleses, ricos, pobres, negros, brancos, amarelos, vermelhos...
Em Portugal o que se vê? Um completo desapego por parte do cidadão comum em relação ao poder politico, à politica que aqui se pratica.
Ainda não nos separa meio século da revolução que era suposto dar-nos a liberdade e as pessoas já esqueceram que a participação activa na politica através do voto é imprescindivel, para que esse direito se mantenha. Todas as desculpas servem para não se ir votar e todos se esquecem que houve quem morresse para os outros poderem ter esse direito e, o que é mais grave, muitos dos que não exercem esse direito que é ao mesmo tempo um dever (e isto não é apenas propaganda) são algumas pessoas que viveram sob o anterior regime. Os adultos passam a ideia aos mais jovens que a liberdade é um dado adquirido e que para isso se manter nem sequer necessitam de votar (dando eles próprios esse exemplo).
A consciência colectiva ainda não é suficientemente madura para compreender que há que reinvindicar direitos quando se quer usufruir deles.
Já dizia o povo - "quem não chora, não mama!"

alf disse...

Indomável amiga, ainda bem que referes isso. Não é por acaso que o voto dos portugueses é descrente e o de outros povos o não é. É que os outros têm uma Democracia e em Portugal só existe uma imitação. Os deputados nos outros países respondem perante os cidadãos que os elegeram - fazem-no semanalmente em muitos sítios. Cá, os deputados não estão ao serviço dos interesses dos cidadãos mas dos seus interesses. É por isso que existe essa coisa anti-democrática chamada de "disciplina partidária" - a imposição da coesão ao nível do partido para melhor servir os objectivos dos seus membros.
Na prática, o nosso sistema político está tanto ao serviço do país como o estava o de Salazar. A única diferença é que agora a comunicação social pode chatear. Mas limita-se demasiado a servir o jogo de interesses dos partidos... já viste a comunicação social questionar a representatividade dos deputados, aspecto essencial do conceito de democracia e inexistente em Portugal? E tudo isto se reflete na coesão dos portugueses, ninguém é, nem quer ser responsável perante os outros... Por isso eu digo, a revolução ainda está por fazer, só as aparências mudaram...e há mais moscas...

Tarzan disse...

Islândia?

leprechaun disse...

Uma pergunta que agora me surgiu, ao ler a bela aula de diplomacia da nossa mui querida professora... indómita e encantadora! :)

E o tal Quinto Império... dele fala este mistério? Eu continuo para aí a ler que vamos seres os maiores e os melhores, que até vai cá nascer o avatar e que temos um destino de espantar!

Será?... não será?... sei lá!...

Rui leprechaun

(...quando ele vier já não ando cá! :))