quarta-feira, janeiro 22, 2014

A Enorme Dívida do BCE a Portugal


Há uma questão básica, um princípio orientador, que tem de ser estabelecido antes de tudo o resto na organização de uma sociedade, seja ela qual for. E, claro, isto aplica-se à União Europeia.

A Democracia, por si só, sem esse princípio, conduz, como já expus em vários posts, a 1/3 de “descartados” tipicamente (no mínimo); algo altamente satisfatório para os outros 2/3 em condições de paz.

Há já muitos anos, os nórdicos perceberam que isto  não lhes servia: eram demasiadamente pequenos, inóspitas as suas condições, aflitiva a falta de recursos e muito má a vizinhança para poderem sobreviver assim. Precisavam de toda a gente. Por isso, adotaram como princípio “não deixamos ninguém na valeta”. Na Suécia e na Dinamarca não há “descartados”.

Chamo a este princípio o Princípio da Não Exclusão – PNE. Não é nada de novo, qualquer tribo funciona assim.

Não é esse porém o princípio que orienta a Europa e é por isso que Dinamarqueses e Suecos se mantêm à margem – já dizia o Rui Veloso que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. A União Europeia, na prática, orienta-se pelo interesse da mais forte, ou seja, a Alemanha.

É o drama destas uniões; uma Democracia sem PNE gera 1/3 de descartados; mas numa união como a UE ou a URSS a coisa é muito pior, pois os destinos são, na prática, decididos pelo interesse de 2/3 da população apenas do país mais forte, tudo o resto ficando na condição de “descartável”.

Lembro-me de que há uns anos largos atrás soube-se na Dinamarca que os planos de defesa da Nato para a Europa passavam por fazer da Dinamarca “terra queimada”. Típico dos mais fortes, a primeira questão que colocam é saber quem se vai sacrificar para maximizar a vantagem do “core”. Uma solução que certamente serve os interesses da França e da Alemanha; mas para que raio quereria a Dinamarca estar na NATO se a primeira coisa que aconteceria em caso de ataque seria ser destruída??

Ora este é o problema que ensombra a União Europeia. A atual crise económica não é mais do que o resultado da ausência do PNE e, portanto, a orientação é: “queimar” a periferia para salvar o centro.
A URSS também funcionava segundo o mesmo princípio que está a ser usado na Europa; por isso a evolução da UE está a seguir o percurso da URSS. É por isso que as periferias da URSS querem fugir da Rússia o mais que puderem – tal como as periferias da UE acabarão por perceber que têm de fugir desta.

A Portugal só interessa a EU se esta for construída na base do princípio de “não deixamos ninguém para trás”; porque doutra forma, à escala da Europa, nós seremos sempre o tal 1/3 de descartados e a “terra queimada” sempre que surgir uma crise – tal como na URSS, as desvantagens serão sempre para a periferia e as vantagens para o centro.

E note-se que é esta a "narrativa" da UE, é isto que suposto acontecer; mas não é o que acontece, por isso estamos a ser enganados.

A Dinamarca percebeu o engano e reagiu e hoje certamente que os cenários de defesa militar da Europa não passam pela destruição da Dinamarca; mas talvez passem por fazer dos países do Sul zona de guerra…

Houve longas discussões para acertar a organização política da Europa, onde cada país procurou defender os seus interesses; porém, houve uma grave distração: as regras do BCE.

O BCE é o Estado-maior da política monetária da Europa; hoje, não estamos à espera de lutar com armas, mas sim com o dinheiro. É ao BCE que cabe defender-nos de um ataque económico. E qual é o princípio que orienta o BCE? Maximizar o interesse do centro sacrificando a periferia.

O Banco Central é propriedade dos Estados, dos povos, não dos banqueiros – pelo contrário, cabe-lhe a fiscalização da banca. E cabe-lhe duas outras coisas: o controlo da quantidade de dinheiro e a introdução na economia do dinheiro criado.
A primeira prioridade do Banco Central de qualquer país do Mundo é defender o Estado e nomeadamente impedir qualquer tentativa de ataque especulativo, como é óbvio (sem Estado tudo o resto colapsa); mas o BCE não, o BCE defende o Euro e defende o “centro”, ou seja, o mais forte, ou seja, a Alemanha, não este ou aquele Estado membro.

Vejamos rapidamente a situação fora da Europa

No Japão, o Estado tem uma dívida soberana enorme, cerca de 250% do seu imenso PIB; mas uma dívida financiada pelo seu Banco Central, ao qual paga juros; que depois recebe como lucros do Banco Central e assim o seu financiamento fica à taxa 0%.
Nos EUA, o Fed compra os coupons dos juros no mercado secundário e arquiva-os, tal como arquiva os ativos tóxicos da banca que compra com o dinheiro novo (o que se chama o QE, ou quantity easing). Na prática, os EUA pouco ou nada pagam em juros. Embora o processo pelo qual o Fed o faz seja um pouco confuso.
Mesmo na Europa do Euro, a Alemanha financia-se nos “mercados” a uma taxa de juro perto de 0%. E ainda recebe os lucros do BCE – nomeadamente os que o BCE obtém com a especulação que a Banca faz sobre as dívidas dos países periféricos.

No Mundo, os Estados apenas precisam, na prática, de suportar juros quando precisam de moeda estrangeira, não para se financiarem na sua própria moeda – exceto os países do Euro

Para o BCE, se um país periférico falir mas a Alemanha beneficiar, isso é uma coisa boa, o balanço é positivo. Por isso é que face ao ataque especulativo de um conjunto de bancos às dívidas soberanas, a preocupação do BCE não foi fazer-lhe frente mas aproveitar-se disso – encarou-o como um bom processo para os bancos resolverem o seu enorme buraco e ajudou-os no processo especulativo. Claro que se o ataque especulativo atingisse a Alemanha, logo o BCE interviria forte e feio; e porque sabem isso, os banqueiros atacam os países periféricos e adulam a Alemanha.

A subida dos juros das dívidas dos países periféricos é a consequência necessária, óbvia, fatal, da entrada em vigor do Tratado de Lisboa em 1 de Dezembro de 2009 (por isso é que os juros disparam em 2010). Pelo seu art.º 123, este tratado assegura aos banqueiros que o BCE não intervirá na defesa destes países.

Reparem no seguinte: quando as empresas que existem num sector de atividade não variam muito, os empresários conhecem-se; ora os empresários não são loucos, por isso naturalmente não andam a fazer guerra uns aos outros, é muito melhor viverem em paz. Então, o preço do produto ou serviço é o que maximiza o lucro da atividade. E nem precisam de combinar nada, todos sabem que isso é o que lhes convém. Se algum se armar em esperto e baixar margens, os outros caem-lhe em cima. Eu sei, já fui empresário, conheço o código.

O caso dos combustíveis é claríssimo: o preço da gasolina é o que maximiza o lucro das petrolíferas; se subir uns cêntimos, o consumo desce e com ele os lucros. Isso é assim porque as pessoas têm alternativas: transportes coletivos, partilha de carros, opção por carros mais económicos, etc. Não são muitas, mas são algumas. O argumento do preço do crude é apenas a narrativa para esconder a realidade.
O mesmo acontece com a energia.

O controlo dos preços nestas circunstâncias não se faz pela concorrência, que não existe, mas pela existência de alternativas doutro tipo do lado do consumirdor.

Ora no caso do financiamento dos Estados, o que mantém os juros controlados é a possibilidade de intervenção do Banco Central e a capacidade dos Estados de pressionarem os bancos, porque há sempre grandes interesses cruzados entre Estado e bancos. Como o BCE, ao contrário de qualquer banco central, não defende os Estados da periferia, estes ficaram na mão dos Bancos.

A “confiança dos mercados” é a “narrativa” neste caso. Os mercados não correm riscos, o que determina o juro é a capacidade negocial e o interesse da banca - os ratings etc servem para medir essa capacidade negocial, a capacidade de um país dizer "não". Nesta altura, como se avizinham eleições europeias, convém descer os juros para garantir que tudo fica na mesma – a seguir às eleições, os juros voltarão a subir se os políticos forem da mesma linha.

Eu sei que os banqueiros sabiam muito bem as consequências do Tratado de Lisboa porque fui convidado a fazer parte do ataque especulativo. A crise não é a causa deste processo, ao contrário, a crise é o que veio atrapalhar o processo de assalto especulativo porque de repente os países não ficaram em condições de aguentar o assalto. É por isso que o BCP teve um enorme problema com a dívida pública grega – o BCP estava em grande neste assalto às dívidas públicas dos países do Sul e de repente ficou entalado com a possibilidade (imprevista) de falência grega.

Os juros que estamos a pagar são indevidos. Como já disse, no mundo, os países só pagam juros dos empréstimos de divisas, não da sua moeda; por isso é que a receita do FMI é a que é, porque para estes países a receita é deixar de comprar divisas, cortar as importações. Aqui, a aplicação da mesma receita não faz diminuir apenas as divisas mas todo o dinheiro e assim colapsa o mercado interno.

Portanto, estamos a ser vítimas de um assalto especulativo dos bancos e do compadrio do BCE no processo, baseado na ideia de que este processo é bom para a Alemanha e para o Euro. E é, a curto prazo - explorar uma parte da população traz sempre vantagens, no curto prazo, para a restante população.
Ora isto não nos interessa. Ou a Europa adota realmente o princípio de que ninguém fica para trás, ou então temos de sair dela, porque ela vai escravizar-nos. E se adota esse princípio, então deve-nos os juros que estamos a pagar.

É isto que temos de exigir:

1 -ser ressarcidos dos juros que temos estado a pagar PORQUE SÃO devidoS ao facto do BCE ter permitido (apoiado) o assalto especulativo às dívidas soberanas;

2 - modificação do processo de financiamento dos Estados para os colocar ao abrigo de assaltos especulativos.

Estamos a regredir 10 anos por cada ano, e em pouco tempo estaremos pior do que antes do Salazar. Ou obtemos isto ou saímos do Euro. E entramos numa união dos países da periferia ou outra em que o PNE vigore realmente. Uma união de cooperação e não de competição.


No próximo post apresento uma proposta de método de financiamento dos Estados europeus que assegure iguais e sustentáveis condições de financiamento para todos; a seguir vou mostrar como é que os banqueiros criaram a crise financeira – o processo da pirâmide usado pelo Maddof e pela D. Branca é para amadores; eles têm outro, fraudulento, muito melhor e muito antigo também; depois vou mostrar como os bancos ganham sempre, mas sempre, na bolsa, sem qualquer risco ou acaso; e por último vou mostrar como os bancos ganham rios de dinheiro com as dívidas soberanas.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

O Dia em que acabou a Crise




Recebi isto por email... já todos sabemos que é assim, mas para o caso de haver alguns distraídos..

trata-se de uma artigo escrito e publicado já em meados do corrente ano, mas que mantém toda a sua atualidade (ou terá mesmo mais), toda a sua perspicácia e toda a sua objetividade. Não deixem de ler.


Título:- O Dia em que acabou a crise.

Subtítulo:- 
Quando terminar a recessão teremos perdido 30 anos de direitos e salários.

Um dia no ano 2014 vamos acordar e vão anunciar-nos que a crise terminou. Correrão rios de tinta escrita com as nossas dores, celebrarão o fim do pesadelo, vão fazer-nos crer que o perigo passou embora nos advirtam que continua a haver sintomas de debilidade e que é necessário ser muito prudente para evitar recaídas. Conseguirão que respiremos aliviados, que celebremos o acontecimento, que dispamos a atitude critica contra os poderes e prometerão que, pouco a pouco, a tranquilidade voltará à nossas vidas.

Um dia no ano 2014, a crise terminará oficialmente e ficaremos com cara de tolos agradecidos, darão por boas as politicas de ajuste e voltarão a dar corda ao carrocel da economia. Obviamente a crise ecológica, a crise da distribuição desigual, a crise da impossibilidade de crescimento infinito permanecerá intacta mas essa ameaça nunca foi publicada nem difundida e os que de verdade dominam o mundo terão posto um ponto final a esta crise fraudulenta (metade realidade, metade ficção), cuja origem é difícil de decifrar mas cujos objetivos foram claros e contundentes
Fazer-nos retroceder 30 anos em direitos e em salários

Um dia no ano 2014, quando os salários tiverem descido a níveis terceiro-mundistas; quando o trabalho for tão barato que deixe de ser o fator determinante do produto; quando tiverem feito ajoelhar todas as profissões para que os seus saberes caibam numa folha de pagamento miserável; quando tiverem amestrado a juventude na arte de trabalhar quase de graça; quando dispuserem de uma reserva de uns milhões de pessoas desempregadas dispostas a ser polivalentes, descartáveis e maleáveis para fugir ao inferno do desesperoentão a crise terá terminado.

Um dia do ano 2014quando os alunos chegarem às aulas e se tenha conseguido expulsar do sistema educativo 30% dos estudantes sem deixar rastro visível da façanha; quando a saúde se compre e não se ofereça; quando o estado da nossa saúde se pareça com o da nossa conta bancária; quando nos cobrarem por cada serviço, por cada direito, por cada benefício; quando as pensões forem tardias e raquíticas; quando nos convençam que necessitamos de seguros privados para garantir as nossas vidasentão terá acabado a crise.

Um dia do ano 2014quando tiverem conseguido nivelar por baixo todos e toda a estrutura social (exceto a cúpula posta cuidadosamente a salvo em cada sector), pisemos os charcos da escassez ou sintamos o respirar do medo nas nossas costas; quando nos tivermos cansado de nos confrontarmos uns aos outros e se tenham destruído todas as pontes de solidariedade. Então anunciarão que a crise terminou.

Nunca em tão pouco tempo se conseguiu tanto. Somente cinco anos bastaram para reduzir a cinzas direitos que demoraram séculos a ser conquistados e a estenderem-se. Uma devastação tão brutal da paisagem social só se tinha conseguido na Europa através da guerra.
Ainda que, pensando bem, também neste caso foi o inimigo que ditou as regras, a duração dos combates, a estratégia a seguir e as condições do armistício.

Por isso, não só me preocupa quando sairemos da crise, mas como sairemos dela. O seu grande triunfo será não só fazer-nos mais pobres e desiguais, mas também mais cobardes e resignados já que sem estes últimos ingredientes o terreno que tão facilmente ganharam entraria novamente em disputa.

Neste momento puseram o relógio da história a andar para trás e ganharam 30 anos para os seus interesses. Agora faltam os últimos retoques ao novo marco social:Um pouco mais de privatizações por aqui, um pouco menos de gasto público por ali e“voila”: A sua obra estará concluída.

Quando o calendário marque um qualquer dia do ano 2014, mas as nossas vidas tiverem retrocedido até finais dos anos setenta, decretarão o fim da crise e escutaremos na rádio as condições da nossa rendição.

(***) -Concha Caballero
 é licenciada em Filologia Espanhola e professora de literatura num instituto público.

Abandonou a politica dececionada com a coligação eleitoral do seu partido.

Há anos que passou do exercício da politica ativa para analista e articulista, social e politica, de vários meios de comunicação, com destaque para o EL PAÍS.

É uma amante da literatura e firmemente humana com as questões sociais.

Clique no link abaixo e leia o artigo Original em Castelhano

domingo, dezembro 15, 2013

Os outros que paguem a crise



Os políticos do norte da Europa estão a ficar seriamente preocupados com o evoluir da situação, pois as eleições estão a aproximar-se aqui e ali e as populações estão altissimamente insatisfeitas; eles sabem que ou mudam rapidamente de políticas ou vão ficar fora do poder para o resto das suas vidas. (bemm... a não ser que consigam convencer o Zé que afinal está tudo muito bem... eles bem tentam... dizem que foram criadas muitas empresas mas não dizem que são empresas dos médicos que se reformaram antecipadamente para assim poderem continuar a trabalhar acumulando com a reforma... dizem que aumentou a venda dos carros mas não dizem que isso se deveu maioritariamente ao fato de os revendedores de automóveis estarem a vender muito para Angola... dizem que baixaram os inscritos nos centros de emprego mas não dizem que às pessoas com mais de 45 anos lhes é dito: "quer inscrever-se para quê? para as estatísticas?" e esquecem a verdadeira debandada de portugueses para o estrangeiro... enfim... nesta altura o Zé já devia saber que eles nunca, mas nunca, falam verdade).

Sucedem-se os discursos e as iniciativas; até a Grécia já bate o pé à troika. Os ventos de mudança sopram com força crescente. Bruxelas decidiu começar a investigar, a denunciar as manobras dos Bancos e propõe-se agora impor um corte nos lucros obscenos da Banca cortando os custos dos terminais de pagamento para ¼.

Foi uma excelente ideia de Bruxelas porque os banqueiros e os que os suportam deixaram logo cair a máscara. O douto conselheiro do PR Vitor Bento veio logo a terreiro afirmar que alguém iria pagar mas não eles. Os 100 milhões de lucros anuais que o sistema dá são intocáveis, no dinheiro deles não se toca. Nem neste nem no das PPP nem no das SWAPS nem em nada.

É assim: eles, que têm vivido à grande, muitíssimo acima das suas possibilidades e méritos, que nadam em dinheiro em contas em offshores, dinheiro obtido de formas ilícitas e até criminosas, e que geraram a enorme quantidade de “ativos” que nada valem e que são a causa desta crise, eles, os culpados, querem que sejamos nós a pagar o prejuízo, e não querem contribuir com um tostão que seja.

Nada de novo: eles enriqueceram roubando e é isso que continuam a fazer. É só o que sabem fazer. Por dinheiro, são como macaco por banana.

Como é que podemos acreditar que o Vitor Bento, conselheiro do PR, o aconselhe a defender os nossos interesses se a prioridade dele são os interesses opostos aos nossos? E para que quereria o PR alguém que o aconselhasse a defender os nossos interesses se ele sempre se preocupou foi com os interesses dele? (se não fosse assim não teria comprado ações do BPN nem teria a casa da Coelha nem estaria rodeado dos amigos que lhe conhecemos).

Para aqueles que, por comodidade, insistem em continuar a pensar que estes governantes governam para nós, aqui fica mais uma evidência gritante dos interesses que defendem. Não se iludam – eles, por dinheiro, são como macacos por banana. Os macacos estão no Poder.

Mas alegrem-se e festejem a saída deste ano – porque os ventos da mudança estão aí. Soprem com eles 

quarta-feira, novembro 27, 2013

O nó do problema


O Japão tem uma dívida pública imensa – 245% do PIB. Desde que me lembro (há seguramente mais de 30 anos) que oiço dizer que o Japão está no caos económico; está bom de ver que é assim… tanto é que agora anunciou que vai aumentar o IVA de … 5 para 8%!!!!! Isto porque o Japão, coitado, tem de fazer face a uma população envelhecida – tem a maior expectativa de vida do mundo e uma pirâmide etária invertida! (e ainda se orgulham disso… porque será?). Este aumento do IVA destina-se também a alimentar um programa de controlo da dívida pública, o “Abenomics”, que consiste em… maciço aumento do dinheiro novo impresso pelo banco central, enorme investimento público em infraestruturas e desvalorização do yen. Exatamente o que se faz por cá, não é verdade? Em resultado destas medidas estupidas como qualquer economista ao serviço deste governo bem sabe, a taxa de desemprego já passou de 4% para…. 3,7%!

Portanto, o Japão tem uma dívida pública estratosférica, de 245% do PIB, (e que PIB), uma população envelhecida com alto nível de vida e um desemprego baixíssimo, o que significa altos salários. Só pode ser estar num caos, não é? Assim não capta o imprescindível investimento estrangeiro sem o qual nenhum país se pode desenvolver, não é? O Japão é o oposto do que os economistas que por cá falam defendem; tem de estar um caos! Então porque é que não está?

Mas, perguntará o leitor, essa dívida não é um encargo enorme no orçamento japonês? Pois é; mas também é uma enorme fonte de entrada de receitas. Porque quem empresta ao governo japonês é o Banco Central do Japão, que é do Estado; e os lucros deste empréstimo, ou seja, os juros pagos pelo Governo, voltam para o Estado! E isto é mais ou menos assim na Inglaterra e nos EUA, com mais ou menos sofisticação.

Vejamos agora o que se passa com o BCE: o BCE é propriedade dos estados membros na proporção das suas economias; o BCE compra dívidas soberanas dos países do Sul no mercado secundário, com altas taxas de juro. Os lucros desta operação são depois distribuídos proporcionalmente à participação dos países no BCE – ou seja, a maioria dos lucros do BCE vai para a Alemanha e uma boa fatia para a França.

Percebamos isto: o BCE empresta aos bancos a 0.25%. Porque é que o juro é tão baixo para os bancos? Porque os bancos são garantidos pelos Estados! Porque é que as dívidas soberanas dispararam? Porque os Estados têm estado a meter dinheiro na banca! Ou seja, o problema de insustentabilidade da banca foi transferido para os Estados. Isso é um problema? No Japão, nos EUA e na Inglaterra não é, porque os bancos centrais, direta ou indiretamente, é que suportam as dívidas soberanas e portanto os lucros dos seus juros retornam para os Estados. Na prática, os Estados financiam-se à taxa 0%, como é lógico – por isso é que nesses países seria uma solução transferir a insustentabilidade dos bancos para o Estado. Seria mas não é – o Fed e o Banco Central do Japão têm um programa de compra maciça dos ativos tóxicos dos bancos, eles assumem diretamente a insustentabilidade da banca.

Só que na Europa os lucros do BCE vão para a França e a Alemanha! É isso que torna a nossa dívida insustentável, uma corda na garganta, a drenagem dos nossos recursos e futuro.

Percebamos: nos outros países, a insustentabilidade do sector financeiro é aguentada pelo Banco Central, que compra os ativos tóxicos, e a dívida soberana financiada pelo Banco Central (direta ou indiretamente), a uma taxa de juro que na prática é zero. Em Portugal, a insustentabilidade da banca foi transferida para o Estado, com o BCE a fazer exigências ao Estado em vez de assumir ele o problema, e o financiamento do Estado ainda serve para o BCE obter lucros, que vão para a Alemanha e a França.

A Grécia já exigiu que o BCE lhe pague os lucros que tem tido com a sua dívida. Nós recebemos apenas o que o BP decide dar ao Estado (trocos), sem prestar contas de coisa nenhuma, protegido por um conselho de auditoria que não presta contas ao Governo; as contas do BP são secretas (não há um hacker que as ponha cá fora?).


Como é evidente, estamos a funcionar em regras suicidárias. Isto é tão absurdo que a maior parte das pessoas comuns se recusa a acreditar que seja mesmo assim. Como é que diabo nos metemos nisto? Foi malandrice da Alemanha, a grande beneficiária de tudo isto? Nada disso, os culpados são outros, como veremos. E ao percebermos quem é culpado, percebemos também como podemos alterar esta situação. 

quarta-feira, novembro 20, 2013

O "Milagre" Irlandês


Vamos lá a ver a Verdade sobre a Irlanda

Nesta interessante página do Google podemos ver como tem variado a dívida pública irlandesa. Surpresa! Em 2007 era de apenas 24,9% do PIB! Uma dívida sem expressão. Mínima! E em 2012, depois desta fantástica intervenção da Troika? 117, 4%!!! Aumentou 4,7 vezes.

ver o original aqui - vale a pena, podem ver outros países e ler sobre o gráfico

Agora reparem. Afirmam os “sábios” que a Irlanda está numa situação ótima, pois os juros da dívida pública caíram para os 3,5%; ora bem, se abrirem a máquina de calcular e multiplicarem pelo aumento da dívida (4,7) concluirão que o encargo da dívida irlandesa será agora o mesmo que tinham em 2007 se estivessem a pagar juros de 16,5%!!!! (este lindo resultado foi conseguido em cima de sacrifícios pesadíssimos do povo irlandês, enquanto os ricos enriqueciam em toda a Europa; os irlandeses foram roubados no presente e continuarão a ser roubados no futuro).

Estão a ver como a banca consegue enriquecer facilmente? O montante da dívida é irrelevante para a banca (o dinheiro que emprestam nem chega a sair). Os juros é que são o ganho dos bancos! Esta “bem sucedida” operação teve como resultado aumentar enormemente aquilo que o povo irlandês vai passar a pagar à banca, sem que disso tenha tido qualquer benefício.

Porque reparem: quando se contrai uma dívida para fazer um investimento, há um retorno. Quando uma empresa pede um empréstimo, não é para comprometer o seu futuro, é para o assegurar. Um Estado, tal como uma empresa, tem de investir e deve usar para isso mais dinheiro do que o que tem, pois esse investimento pagará o custo desse empréstimo com lucro. Se o Estado não investir, acontece-lhe o mesmo que às empresas que o não fazem: não crescem e desaparecem. Vivemos num mundo em competição, quem não se esforça por ir para a frente vai ser eliminado. É por isso que todos os países têm dívidas públicas (a da Alemanha era muito maior do que a da Irlanda quando isto começou, e continua a crescer apesar de todos os seus “superavit”).

Mas aqui acontece que a Irlanda não contraiu esta fabulosa dívida para investir! Não há retorno! Contraiu dívida para emprestar aos bancos para estes lhe emprestarem a ela…Confusos? Não admira, estamos perante o maior esbulho da história…

Contrariamente ao que dizem esses economistas e políticos da linha do governo, o que compromete o futuro das próximas geração é esta dívida contraída agora, não é a dívida que existia antes de 2008 – essa era para assegurar o futuro, não para o comprometer.

Em resumo, o que aconteceu à Irlanda é que ficou com um enorme encargo bancário que não corresponde a nenhum dívida para investimento que tenha contraído. Esta situação impede que ela possa continuar a investir. É um país condenado.


Veem como temos sido enganados? Como estamos todos a ser roubados? Veem como o futuro dos nossos filhos foi roubado com a nossa complacência? Como as frases feitas que nos repetem são mentiras descaradas, construídas de propósito para conseguir a nossa anuência ao roubo? Para nos tornar cúmplices do roubo do Futuro?

domingo, outubro 20, 2013

Poder Financeiro e Coreia do Norte




A sociedade humana é, no fundo, muito fácil de perceber, porque as pessoas agem sempre (em termos médios, que é o que comanda na ausência de pessoas extraordinárias) em função daquilo que presumem ser o seu interesse individual. Por isso, a evolução da sociedade humana depende linearmente de 3 coisas:

1 – Das regras (de como elas condicionam os interesses)
2 – Da capacidade de determinados grupos de interesses definirem /alterarem /manipularem as regras
3 – Da capacidade de cada um de violar as regras

O que limita a violação das regras, ou seja, a corrupção, é essencialmente a circulação de informação, que impede que uns retirem mais vantagens da sociedade do que outros. É por isso que quem está numa situação de privilégio tem como a primeira preocupação manter o segredo. É por isso que os subsídios dos políticos passaram a ser secretos, entre muitas outras coisas que são secretas.

No penúltimo post mostrei como o sistema político determina fatalmente o tipo de sociedade, em consequência da forma como o poder se suporta e do comportamento egoísta das pessoas. Mostrei como um sistema democrático como o que temos determina necessariamente uma sociedade com 1/3 de descartados, de miseráveis, ignorantes, pobres, escravos. Apesar de tudo, um progresso em relação aos sistemas de poder hereditário ou militar porque esses geram sociedades em que todos são “descartáveis” menos o pequeno grupo que apoia diretamente o Poder.

Neste texto vou começar a analisar a estrutura do Poder Financeiro.

Como percebem, o Poder Financeiro tem enorme importância nas nossas vidas – no nosso caso, até já comanda o poder Político. Portanto, a sua estrutura de poder deve ser tal que cada pessoa possa defender o seu interesse dentro dele. Os idealistas fartaram-se de conceber regras destinadas a assegurar isso – por exemplo, a ideia das sociedades anónimas. Mas bastou uma pequena manipulação das regras para obter o oposto do que se pretendia. Uma enorme ingenuidade deixar as regras à mercê dos interessados.

Foi para evitar isto na Política que se inventou a Constituição, cujo objetivo é impedir a violação dos princípios e alteração das regras essenciais; mas ninguém se lembrou ainda de fazer uma Constituição Financeira

A realidade nua e crua é que a estrutura do Sistema Financeiro é do tipo do sistema político da Coreia do Norte. Com uma agravante muito séria. Atualmente, a Coreia do Norte existe num mundo vasto e a existência de sistemas democráticos é uma dificuldade e uma limitação para o regime. Imaginem agora que a Coreia do Norte dominava o mundo todo! Então desgraçados de nós, pois todas as pessoas (menos os indispensáveis ao Poder) seriam transformadas em escravos, insetos, formigas, às ordens do Grande Líder.
Pois o que se passa com o sistema Financeiro corresponde a termos o mundo controlado pela Coreia do Norte!

O Ford disse que se as pessoas soubessem como funciona o sistema financeiro, haveria uma revolução antes do nascer do dia seguinte; bem, e isso era no tempo dele, pois agora é muito pior.
É por isso que a Lagarde acha que não há razão para as crianças portuguesas estarem melhor do que as da Somália ou Biafra em vez de achar que não há razão que essas crianças estejam pior do que as portuguesas. Para essa gente, o sistema ideal é o dos marajás da Índia e desvios dessa situação só o que for indispensável.

É também essa umas razões porque pretendem acabar com a nossa Constituição – num mundo comandado pelo Poder Financeiro não há direitos, logo não pode haver Constituições.

Reparem nisto: as pessoas do BCE ou do FMI não respondem perante ninguém! São independentes do voto das pessoas, são independentes do poder Político – ou seja, dos representantes das pessoas - não estão sujeitos a uma declaração de princípios, nem a qualquer fiscalização. Então que interesses privilegiam eles? Obviamente, os deles – que são os dos Ricos. Já imaginaram terem um emprego com o poder de tomar decisões sobre o dinheiro e não terem de responder perante ninguém? De poderem até definir os vossos próprios ordenados?

O Poder Financeiro é absoluto e fechado. O governo quis saber quanto ganhavam os colaboradores do Banco de Portugal; resposta do BP: não digo!!! É assim, eles não prestam contas. Mas nós é que pagamos as pensões vitalícias dos seus ex-quadros!!! Para eles, isso é normal, dado que consideram que são os donos do dinheiro. É por isso que o Vitor Constâncio dizia que os portugueses estavam a ganhar demais. Esta clareza de ideias e a ajudinha dada ao sistema no caso BPN certamente que o identificaram como um membro ideal do BCE. E é assim que se forma o grupinho que o comanda, selecionando aqueles que já deram provas de sua dedicação ao Dinheiro… Em política, o Constâncio nunca teria lugar, não é verdade? Mas no sistema Financeiro não pára de subir, agora é apontado para supervisor da banca Europeia. Isto porque a sua carreira não depende minimamente dos interesses das pessoas mas sim dos Ricos.

Há uma enorme confusão entre independência de poderes e desresponsabilização de poderes. O Poder Judicial ou o Financeiro podem ser independentes do Poder Político, não podem é ser irresponsáveis perante a sociedade. Tal como o Poder Político se sujeita ao voto, obedece à Constituição e está sujeito a diversas fiscalizações e controlo, também os outros poderes têm ser enquadrados da alguma maneira. Mas não são.

Sabem como é que os bancos centrais injetam dinheiro na economia? Muito antigamente, era através do orçamento de Estado, que o usava em obras públicas, no desenvolvimento do país. Mas agora não: é na compra dos ativos “tóxicos” dos bancos. Os bancos centrais compram aos Bancos todos os negócios falidos destes. O Fed está a comprar 85 mil milhões destes negócios por mês! Todos os meses, desde há muito tempo.
Sabem como surgem estes negócios “tóxicos”?


(continua)

terça-feira, outubro 08, 2013

Obrigado Rui Machete


Neste país inacreditável, uma pessoa está sujeita às coisas mais impensáveis – como esta de eu estar a agradecer a uma pessoa como o Rui Machete. Mas tenho de lhe agradecer porque ele defendeu os interesses das largas centenas de milhares de portugueses que estão em Angola, de outros tantos que estão em vias de ir para lá para conseguirem sobreviver e de todos nós que aqui vivemos e que podemos beneficiar do investimento angolano e do dinheiro que os angolanos para cá trazem.

Há uma coisa que nenhum país do mundo faz: investigar o dinheiro que entra! O que se investiga é o dinheiro que sai, não é nunca o que entra!

Além disso, se há investimento que convenha ao País é o investimento angolano. Como é óbvio, o investimento angolano não vem à procura da mão-de-obra barata, não é?
O investimento alemão só está interessado na mão-de-obra barata; para conseguir isso, os poderes alemães agem ativamente para manter o país atrasado, com alto desemprego, em recessão, porque é isso que lhes garante a mão-de-obra barata. Toda a gente neste vasto mundo sabe isso menos os nossos economistas e comentadores de TV; é por isso que hoje ninguém aceita investimento estrangeiro sem um sócio nacional e sem transferência de saber-fazer – ninguém exceto nós.

Então, se é ótimo para nós que os angolanos ponham cá dinheiro e invistam cá, porque é que a PGR se mete a investigar os angolanos????

Se olharmos para os resultados da acção da PGR, um quadro começa a emergir.

A primeira coisa que chama a atenção é a sistemática fuga de informação; só vejo uma explicação: alguém na PGR recebia bom dinheiro por essas fugas. Mas depois surge algo surpreendente: a PGR, a entidade de competência máxima na investigação criminal, não consegue descobrir os criminosos nem acabar com as fugas!!!! Como é possível?

Mas há mais. Olhamos para as investigações e elas parecem nunca chegar a um fim. Refiro-me às investigações que envolvem muito dinheiro, porque nas outras a PGR é implacável. O ministro grego da defesa já está em tribunal, mas cá continua sem se saber nada do caso dos submarinos; o Maddoff foi condenado em meses, mas o Oliveira e Costa parece que se perdeu dentro de casa; o Duarte Lima, com um caso de homicídio fortíssimo contra ele não há de ser incomodado enquanto o dinheiro que era do Feteira não se acabar… Curioso como a PGR se preocupa tanto com o dinheiro angolano mas não se preocupa nada em que um suspeito grave de assassínio seja julgado… ou estou a ver mal?

Então temos investigações sobre tudo o que envolve dinheiro, fugas convenientes para os jornais, e depois nada! O que vos sugere isto? A mim sugere-me um quadro de chantagem. Evidentemente, longe de mim pensar que a PGR é um centro de chantagem e corrupção! Não acredito nisso nem acredito em bruxas ;-) Há certamente outra explicação.

Claro que se a PGR fosse uma central de chantagem, já fazia sentido ela investigar os dinheiros angolanos: os chantagistas querem lá saber se estão a prejudicar os interesses do país e dos muitos portugueses que vivem em Angola!!! Que outra razão pode haver para tal investigação ser feita sem um pedido das autoridades angolanas e "soprada" para os media? Eu desconheço, dada a minha ignorância destas coisas, mas certamente que há!

E há mais coisas a respeito da PGR, como as suspeitas de abrir processos de acordo com as conveniências do PSD e CDS. Más línguas, é claro: a atuação da PGR é tão transparente como a do BCE.

Enfim, todas estas coisas transcendem a nossa humilde esfera mas há um facto inquestionável: esta investigação é altamente gravosa dos interesses nacionais e uma ofensa aos angolanos. O Rui Machete fez aquilo que tinha a fazer, face ao lamentável comportamento da PGR.

E não é que os líderes da oposição, em vez de agradecerem, desataram hipocritamente aos gritos a exigir a demissão do ministro que defendeu os interesses de Portugal? Com o Seguro à cabeça?!?

O que é vocês pensam do assunto?

quarta-feira, outubro 02, 2013

Economia, Poder Político e Poder Financeiro



Muita gente pensa que a Economia é o resultado das leis económicas e que o conhecimento destas permite prever a sua evolução, tal como em Física se pode prever a evolução de um sistema conhecendo as leis da natureza. Nada mais errado.
A Economia, como tudo o resto (Ciência, Justiça, Media, etc), está ao serviço dos dois poderes que existem: o Político e o Financeiro. Todos dependem do dinheiro que o poder político ou financeiro lhes atribui. Mesmo a Igreja, apesar de ter fontes próprias de receitas, tem de pactuar com esses dois poderes. Um exemplo de como a Ciência está subordinada a esses poderes é o caso do aquecimento global (ver esta notícia “fresquinha”).
É por isso que a Economia (não é só o Gaspar...) falha quase sempre as suas previsões – estas não dependem das leis económicas, dependem apenas dos interesses e força dos dois poderes. São eles que determinam a evolução da sociedade humana. Conhecendo-os, adquirimos uma capacidade preciosa: a capacidade de fazer futurologia. E, com ela, a capacidade de modificarmos o Futuro provável.
Vamos então ver como se organizam os Dois Poderes e como isso determina fatalmente a sociedade humana e a sua evolução.

1- Os Dois Poderes

Penso que o ser humano se move a longo prazo, primariamente, para 3 fins: poder, dinheiro e reconhecimento/estatuto; afinal, as características do Rei/Rainha... Destes 3 “atratores” da actividade humana, são os dois primeiros que a condicionam através dos tempos, na forma de poder Político e poder Financeiro.
Naturalmente, a Economia serve esses poderes. A Economia não serve “uma sociedade melhor”; os economistas estão ao serviço de quem lhes paga e as escolas de economia formam pessoas cuja habilidade consiste essencialmente em enriquecer os ricos, pois esses serão os seus empregadores.
(isto não envolve nenhum juízo de valor sobre as pessoas em si; os economistas são pessoas como quaisquer outras e as pessoas agem em função do seu interesse, mesmo que disso não tenham consciência)

O primeiro objetivo de qualquer poder é a sua perpetuação. Idealmente, ambos os poderes tendem para uma sociedade de senhores e servos; porém, a circulação atual de informação e a capacidade de mobilização das pessoas tornam isso impossível para o Poder Político, que é obrigado a estar ao serviço de parte ou de toda a sociedade, consoante a sua organização, para se poder perpetuar. O Poder Financeiro, ao contrário, continua a existir no obscurantismo.

2 - O Poder Político e a Economia.

Ao Poder interessa manter os povos atrasados e pobres. Antes de haver capacidade de comunicação maciça entre as pessoas, isso era fácil de conseguir. A falta de informação e da capacidade de comunicação é essencial para que uma minoria mantenha o seu estatuto.
Com o aumento da capacidade de comunicação das pessoas, com a difusão de informação política, o Poder teve primeiro de alargar a sua “corte” de apoio para melhor enquadrar o povo, fazer surgir uma pequena “classe média” e, por fim, assumir a forma de democracia. A difusão de informação política obrigou o Poder Político a ter de desistir de uma sociedade de senhores e servos e a ter de aceitar uma sociedade em que parte suficiente dela já não é serva. No entanto, como veremos, a ausência de informação financeira (a informação financeira que existe é tão manipulada e obscura como a informação política na Coreia do Norte) permite que o Poder Financeiro venha ele a conseguir a sociedade de senhores e servos. Mas vejamos agora o lado político.

Numa democracia o Poder Político depende da maioria. Isto implica uma nova organização da Economia, que tem agora de servir os interesses da maioria.
Em vez de um quadro senhores/povo, surge uma “classe média” vasta na qual o Poder se suporta. A Economia é dirigida para manter essa classe média satisfeita. Em consequência, a sociedade (o “povo”) organiza-se com 1/3 de servos e 2/3 de classe média. Esta é a solução que maximiza a qualidade de vida da classe média com o mínimo de recursos – a solução que permite que os senhores fiquem com o máximo de recursos ao mesmo tempo que garante a estabilidade política. Note-se que são os eleitores que formatam assim a sociedade, pois elegem os partidos que propõem esta solução (por exemplo, quando o PS se propõe promover a igualdade de oportunidades, ou seja, acabar com os “servos”, a classe média portuguesa começa logo a contestar os “custos”). Numa ditadura, a classe média tem uma dimensão muito pequena, definida pelo Poder; numa democracia tem a dimensão de 2/3 da população, definida pela população.

Esta solução é sobretudo eficiente nos países de clima ameno, onde os “servos”, os “descartáveis”, podem sobreviver quase sem custos para os restantes. É por isso que a escravatura nunca foi possível nos países mais a norte, os escravos ou morreriam de frio e fome ou sairiam demasiado caros.
A guerra norte/sul dos EUA não teve um objetivo “humanitário”, destinou-se primariamente a destruir a vantagem competitiva do Sul que podia usar escravos enquanto o norte não podia. As guerras são sempre ditadas pelos interesses e justificadas pelos princípios morais. Não quer isto dizer que quem promoveu essa guerra não tivesse imperativos morais, mas ela só foi possível porque havia interesses de poder (políticos ou financeiros) nela.

A transição ditadura – democracia não aconteceu em todo o lado; na Rússia substituiu-se a ditadura dos senhores pela do povo (em teoria). A queda do regime comunista da URSS mostrou a impossibilidade de um sistema não legitimado por votos se manter se não estiver apoiado pela satisfação popular, ou seja, pela continuada subida da qualidade de vida do povo. A URSS não crescia economicamente, não estava em guerra nem endeusava os líderes, o Poder Político tinha necessariamente de cair.

A China percebeu bem isto e desenvolveu uma teoria económica com um novo objetivo: a subida sustentada do nível de vida de todo o povo. Este é o único objetivo económico que serve o Poder Político na era da comunicação quando este poder não é eleito.
Compreendamos: num sistema democrático, basta promover a satisfação de 2/3 da população; com jeitinho, esse número até pode descer, temporariamente, até ½. Mas num sistema de poder não legitimado pelo voto isso não chega, agora que as pessoas dispõem de uma grande capacidade de comunicação e mobilização. Por isso o regime chinês fez esta opção radical: enriquecer toda a gente.
Nesse sentido a China desenvolveu uma política nova. Separou as pessoas entre camponeses e urbanos para melhor gerir o crescimento de cada grupo, criando economias separadas para cada grupo, cada uma com a sua moeda. Depois, sabendo que o desenvolvimento é fruto do “know-how”, pôs em acção um plano de obtenção de know-how que hoje é seguido em todo o mundo não-ocidental. O saber académico é fácil de obter, está nos livros e na net. O problema é o know-how específico das empresas. Para o conseguir, a China desenhou um processo de atracção de empresas estrangeiras, condicionado à transferência de know-how e à partilha dos lucros.

Assim, uma empresa estrangeira para se instalar na China precisa de um sócio nacional (nas grandes atividades, os sócios são empresas feitas pelo estado com o dinheiro impresso pelo banco da China). Isto garante que essa actividade tem interesse para China, que há transferência de know-how e que pelo menos metade dos lucros fica na China (cá, as grandes empresas transferem a totalidade dos lucros para fora). As grandes atividades, como o fabrico de automóveis, estão sujeitas a um plano a longo prazo que visa que no fim dele a China tenha todo o know-how necessário. A Volkswagen está na China a prazo, até 2030. Mas este é um negócio muito bem construído pelos alemães, que ficarão fornecedores dos componentes de alto valor acrescentado do carro chinês e com garantia de não concorrência no mercado europeu pelo menos até essa data (se pensavam que íamos ter carros chineses baratos, desenganem-se).
 Esta teoria chinesa parece ser hoje seguida em todo mundo à excepção da Europa.

Por outro lado, também as democracias de países pequenos tiveram de tomar outro rumo para sobreviverem. Assim, na Dinamarca, Suécia e Noruega existe uma forte coesão social sem descartados (de qualquer forma, eles não poderiam sobreviver nesses climas...). Esta foi a solução destes países para resistirem à Alemanha, França e Inglaterra. A Holanda, Bélgica e Luxemburgo tornaram-se uma espécie de protectorados da Alemanha e da França.

Portanto, consoante a organização política, temos 4 casos diferentes de sociedades:
Numa democracia típica, existe 1/3 de “descartados”; o nível de vida da classe média pode ser estático porque basta a existência dos descartados para gerar um sentimento suficiente de satisfação. É o caso dos EUA.
Numa ditadura moderna, ao contrário, o nível de vida de toda a população tem de subir continuamente, pois só isso legitima o poder. A participação das pessoas no Poder é assegurada através do poder local, democraticamente eleito e com peso na decisão política central. É o caso da China. Mas note-se que neste sistema há um senão: o Poder Político está sempre apoiado na existência de um perigo global, um inimigo, porque nessas circunstâncias as pessoas estão menos dispostas a contestar a liderança. O Passos Coelho firma-se no Poder baseado na necessidade de “salvar o País” (numa Democracia, os eleitos têm de ser responsabilizados pelo programa que apresentaram às eleições; desta forma, este governo escapa a esse escrutínio). Num sistema como o Chinês, quando houver um crescimento mais débil, podemos esperar que o Poder Político crie um conflito, como uma guerra com o Japão (coisa que não desagradaria ao Japão, que também precisa de um inimigo para compensar a falta de crescimento).
As pequenas democracias, por seu lado, ou perdem a independência ou assentam numa forte coesão social. É o caso dos países nórdicos e, penso, de alguns “pequenos” (à escala asiática) países asiáticos
Subsistem ainda umas ditaduras clássicas, assentes no controlo e manipulação profunda da informação política. É o caso da Coreia do Norte.
Parece que esgotei os sistemas políticos relevantes, mas não, falta um: a Europa!

Na Europa acontece uma coisa extraordinária: o seu sistema político é tal que o país mais forte manda na Europa toda! Então, é a classe média alemã que manda na Europa. Isto não acontece por acaso nem por burrice, é de propósitoas elites europeias não iam deixar os destinos da Europa nas mãos da maioria, não é? Então, criaram um sistema em que o Poder Político europeu depende apenas da classe média alemã. Naturalmente que esta escolherá o partido que se propuser transformar em “descartados” o resto dos Europeus.
Compreendamos: a classe média alemã pensa dos povos do Sul o mesmo que a classe média portuguesa pensa dos nossos descartados – esses preguiçosos e ignorantes que só entendem a linguagem do chicote; e vai eleger (já elegeu) o partido que tiver como programa a escravização destes calões do Sul. Aliás, isto é histórico, sempre que puderam os alemães promoveram a escravatura, tanto dentro como fora da Alemanha... os ucranianos que o digam... A classe média alemã pensa que esta é a solução que maximiza o seu interesse e, por isso, desenvolve a teoria moral que a suporta – a teoria de que estes povos não merecem mais do que a escravatura. Isto é normal, estou farto de ouvir a classe média portuguesa dizer isto dos operários, os alemães não são piores do que nós. Nós, humanos, somos muito menos inteligentes do que presumimos.
Portanto, face à estrutura política da Europa, é fácil perceber o sentido da sua evolução: as classes médias alemã e francesa (que pode atrapalhar os interesses alemães) vão continuar como estão; os restantes povos passarão à categoria de “descartados” e serão a fonte de mão-de-obra barata que tornará a indústria “europeia” (alemã) imbatível no mercado global (assim pensam eles, esquecendo que os outros países do mundo não são parvos e nem todos os líderes são compráveis).

Sobre a Guerra
Um pequeno apontamento sobre este importantíssimo processo do Poder: a Guerra.
A Guerra tem várias utilidades; no passado, tinha o importantíssimo papel de evitar a sobrepopulação. Hoje já não tem esse papel na generalidade dos países mas continua a ser fundamental para o Poder. Quando há Guerra, não há contestação ao Poder enquanto as pessoas se sentirem em perigo; quando acaba a guerra, é necessário recuperar da destruição por ela causada, o que inicia um período de crescimento onde o Poder se suporta. Portanto, ao Poder convém um ciclo crescimento-guerra-crescimento-guerra... tem-se feito os possíveis para inventar outras maneiras de manter o crescimento alto (a globalização, as novas tecnologias, etc), de inventar perigos diferentes (aquecimento global) mas parece que ainda não passamos sem recorrer periodicamente à guerra.

Bem, mas se acham isto negro, esperem até perceber a estrutura do poder Financeiro. Este vai afectar todo o mundo ocidental. No próximo texto.


sábado, agosto 31, 2013

Troika versus Paulo


Nos próximos meses vamos a assistir a uma batalha entre David e Golias. Uma luta completamente desigual que só tem alguma (mínima) hipótese de sucesso para o David se nós o apoiarmos. E devemos fazê-lo porque cairemos com ele.

Já ouviram certamente a afirmação de que “a Europa pretende ser a zona económica mais competitiva do mundo”; agora digam-me lá: como é que isso pode ser conseguido?

Até agora, soube-nos bem a mão-de-obra barata da China, não é verdade? Bom, mas não é isso que faz a Europa competitiva, pois não? O que falta para uma Europa competitiva é mão-de-obra barata, porque o resto tem ela . Têm alguma dúvida a esse respeito? Acham que há algum outro plano sobre a mesa, tipo como fizeram os Dinamarqueses? Claro que não, até porque a solução dinamarquesa levaria pelo menos duas gerações a realizar.

Agora pensemos: onde é que a Europa vai conseguir a sua mão-de-obra barata?

Imigrantes? Os imigrantes baratos são muçulmanos, já viram o perigo que é? Não pode ser.

Além disso, para serem realmente baratos têm de estar estacionados num país de clima temperado, onde os custos de sobrevivência são mínimos.

A escravatura não era solução para o norte dos EUA, porque fazia frio demais – aí a escravatura era impossível. Foi por isso que o norte fez a guerra ao sul, não pensemos que foi por algum princípio humanista. Foi simplesmente para eliminar essa vantagem competitiva do Sul.

Então, se a escravatura é impossível no Norte, necessariamente tem de ser implantada no Sul.
(se os dinamarqueses pudessem ter recorrido à escravatura, seria isso que teriam feito; foi só quando chegaram à conclusão que essa solução era inviável no clima deles que adotaram o atual modelo – porque é o que resulta melhor para os seus ricos no seu quadro)

Bom, mas a Europa pode recorrer à escravatura – nos países do Sul. E, naturalmente, se pode é o que vai fazer. Quem tem poder abusa sempre dele.

Portugal tem condições ideais para isso: talvez o povo mais atrasado e ignorante da Europa, fracas estruturas democráticas, população habituada a obedecer, e uma população capaz de sobreviver com um custo mínimo – os operários de uma fábrica no interior poderão sobreviver das suas hortas e pouco mais.

Na verdade, para obrigar as pessoas a trabalhar é necessário que as obriguem a ter dinheiro – por exemplo, acabando com o ensino gratuito para os filhos. Portanto, o que há a fazer para ter escravos é promover o desemprego e acabar com o ordenado mínimo e com a gratuitidade dos serviços essenciais. Assim as pessoas serão obrigadas a trabalhar para pagar esses serviços – ou seja, o valor alvo do custo total da mão-de-obra inferior a 2,5 euros/hora será conseguido. Isto não é teoria nova, é o velho “esquema da cantina”.

Portanto, esta é a Agenda da Europa. Não é preciso ser bruxo para o perceber, basta abrir olhos e ouvidos. Há anos que sei que é assim e tenho tentado explicá-lo, por isso é que escrevi os posts sobre o Dr. Jordan, as conversas com o Hans e outros.
(na verdade, essa Agenda ainda tem aspetos piores, mas eu nem digo porque não acreditariam)

Estas pessoas que nos gerem não têm quaisquer escrúpulos ou princípios – destruí-los é o primeiro objetivo de qualquer escola de gestão ou economia. Toda esta gente trabalha para os ricos e não tem outro objetivo que não seja servi-los, pois são eles que lhes pagam, agora ou quando saírem do governo. Ou seja, fazem o mesmo que 99% de nós faria no lugar deles…

O António Borges era “frontal”, dizem; percebem o que isso significa? Que o que ele dizia era o que o que todos “eles” pensam mas não dizem…

Bem, mas o que é que tudo isto tem a ver com o Paulo Portas?
Até agora, a Troika executou um plano muito fácil e simples: combinava os seus objetivos com o Governo mas punha nos memorandos só parte. A justificação é que se pusesse tudo por escrito, isso poderia originar um movimento anti-europa. Assim, é o governo que é acusado de “ir além da Troika” mas isso não tem consequências perigosas para a “Agenda”. Até o Sócrates engoliu esta, acha que é o Governo que está a fazer “front load”…

O único que não é ingénuo nem vendido nisto tudo é o Paulo Portas. A direita portuguesa não sobreviverá a esta Agenda e ele sabe disso.

A Troika sabe que esta linda estratégia que tem desenvolvido com tanto sucesso não pode continuar com o Portas. O que vai ela fazer?

Esta gente age sempre da mesma maneira, por isso é fácil prever: esmagar e derrubar o Portas. Como? Levando a austeridade ao limite; e passando a mensagem que a culpa é do Portas para que o Zé corra com o Portas. Causar a desgraça e apontar o “culpado” resulta sempre, não é? Até agora era o Sócrates, de agora em diante vai ser o Portas.


Temos de mostrar que temos estatura para sermos “cidadãos”; caso contrário seremos “escravos”. 

quarta-feira, julho 31, 2013

A Crise Escalpelizada e Profetizada


Durante os próximos meses vou estar ocupado com a promoção das minhas teorias sobre o universo – aquela coisa óbvia de que não é o espaço que expande, somos nós que diminuímos; não se assustem porque a diminuição é tão lenta, mas tão lenta, que é completamente indetectável à nossa escala. Queria deixar neste interregno um texto a sumarizar como entendo a atual crise.

  1. A causa da crise.
 a) É sabido que o sistema financeiro só funciona enquanto a sociedade estiver a enriquecer. O sistema financeiro ganha dinheiro por processos especulativos, processos para ganhar dinheiro com o dinheiro, assentes na perspectiva de valorização das “coisas” em que o dinheiro é aplicado, seja um quadro do Miró ou uma acção da EDP. Esta perspectiva de valorização só existe havendo enriquecimento da sociedade. A atividade financeira vai buscar este acréscimo de riqueza das pessoas.
Quando uma sociedade, ao contrário, está a empobrecer, as pessoas deixam de colocar dinheiro nestas “coisas” e a perspectiva de valorização desaparece. Todo o sistema que permite aos bancos e entidades financeiras grandes lucros colapsa.
É claro que mesmo em recessão podem continuar a ganhar algum dinheiro com o casino bolsista, dado que são jogadores privilegiados que conseguem comandar as subidas e descidas – mesmo com uma tendência decrescente, podem ganhar nas oscilações. Mas é pouco.

b) O enriquecimento das sociedades financeiras na década anterior ao fim do século XX foi fabuloso: 30 % ao ano. Uma maravilha. Mas isto teve uma consequência: a riqueza absorvida por estas sociedades tornou-se maior que a riqueza gerada pelo crescimento do PIB. Então, a restante sociedade começou a empobrecer. Logicamente, deixaram de investir nas “coisas” e os ganhos do sistema financeiro colapsaram.

c) Portanto, a causa da crise é só uma: o excesso de desigualdade. O sistema capitalista só funciona enquanto a generalidade da sociedade enriquece. O brutal enriquecimento dos mais ricos determinou o empobrecimento dos restantes; mas esse enriquecimento era feito à custa do resto da sociedade e por isso colapsou. Secou a sua fonte por excesso de cupidez.

  1. A solução para a crise
 O Obama sabe isto tudo e sabe qual é a solução, fartou-se de o dizer: redistribuir a riqueza. É por isso que os EUA já voltaram ao crescimento, a crise nos EUA já é passado. Teve custos, muitos bancos fecharam as portas. Os impostos sobre os ricos aumentaram.
Não se pense porém que os EUA já estão seguros. As medidas tomadas foram mínimas, só o suficiente para pôr o barco a navegar. Os ricos são gananciosos e só abdicaram um mínimo da sua riqueza especulativa. A ideia deles é manterem agora a sua riqueza estacionária enquanto crescimento do PIB vai alimentando o esfomeado “porquinho”.

  1. A solução europeia
 A Europa é um saco de gatos; por isso, os gatos mais fortes trataram de resolver o assunto como mais lhes convinha. Os mais ricos, em vez de prescindirem de uma pequenina parte da sua riqueza especulativa, viram na crise uma oportunidade para enriquecerem mais. É o processo de enriquecimento usado nos cartões de créditos: nada como encontrar alguém em dificuldades para extorquir juros. Isso é possível na Europa porque o BCE não está ao serviço dos povos e não existe um orçamento europeu. Além disso, serve perfeitamente os objectivos hegemónicos da Alemanha e da França.

  1. Portugal no presente
 Em Portugal, o Governo está inteiramente focado em resolver o problema da banca. Os banqueiros são os seus pares, não é? O Estado tornou-se uma máquina de sugar dinheiro aos portugueses para colocar na banca. A Luís mexeu nos SWAP quando eles se tornaram mau negócio para a banca. Para disfarçar que estava a fazer o frete à banca, levantou um escândalo sobre os mesmos, para parecer que veio resolver um problema ao Estado quando o que ela terá feito (penso eu) foi resolver um problema à banca.
 A redução dos custos do Estado com as pessoas não visa diminuir o défice das contas públicas, visa apenas libertar dinheiro para Banca.
Há também uma questão ideológica: a ideia de um país de senhores e servos. Uma ideia obsessiva nas elites portuguesas dos últimos 4 ou 5 séculos. É por isso que o Crato acabou com o ensino de informática e quer ensinar as pessoas a usarem tornos quando já só há robots nas fábricas.

  1. O Futuro para Portugal
 A atual política de austeridade vai levar ao colapso do sistema bancário português. Estas luminárias esqueceram-se que os bancos, como as empresas, precisam do mercado interno. Por agora, estão todos os bancos a ser aguentados pelo BCE; mas a negociata das dívidas públicas não chega para os sustentar e a mãozinha do BCE não vai lá estar para sempre. Até porque a falência dos bancos “pequenos” é uma conveniência dos grandes... há apenas que aguardar pelo momento conveniente, porque os grandes têm ainda graves problemas a resolver.
Assim, ou a banca faz como as empresas e se vira para os mercados em crescimento, ou vai falir. Acontece que os mercados em crescimento estão muito pouco abertos à banca estrangeira – porque haveriam de estar? O que é que têm a ganhar com ela? Já as empresas levam “saber-fazer” e podem ser fonte de desenvolvimento, desde que devidamente enquadradas; e como enquadrá-las já é hoje teoria sólida, desenvolvida pelos chineses. Teoria para enquadrar a banca é que só há uma: entrada proibida!


Assim, se a política de austeridade continuar, a banca portuguesa vai falir. Provavelmente, antes do fim do programa da troika.