terça-feira, outubro 08, 2013

Obrigado Rui Machete


Neste país inacreditável, uma pessoa está sujeita às coisas mais impensáveis – como esta de eu estar a agradecer a uma pessoa como o Rui Machete. Mas tenho de lhe agradecer porque ele defendeu os interesses das largas centenas de milhares de portugueses que estão em Angola, de outros tantos que estão em vias de ir para lá para conseguirem sobreviver e de todos nós que aqui vivemos e que podemos beneficiar do investimento angolano e do dinheiro que os angolanos para cá trazem.

Há uma coisa que nenhum país do mundo faz: investigar o dinheiro que entra! O que se investiga é o dinheiro que sai, não é nunca o que entra!

Além disso, se há investimento que convenha ao País é o investimento angolano. Como é óbvio, o investimento angolano não vem à procura da mão-de-obra barata, não é?
O investimento alemão só está interessado na mão-de-obra barata; para conseguir isso, os poderes alemães agem ativamente para manter o país atrasado, com alto desemprego, em recessão, porque é isso que lhes garante a mão-de-obra barata. Toda a gente neste vasto mundo sabe isso menos os nossos economistas e comentadores de TV; é por isso que hoje ninguém aceita investimento estrangeiro sem um sócio nacional e sem transferência de saber-fazer – ninguém exceto nós.

Então, se é ótimo para nós que os angolanos ponham cá dinheiro e invistam cá, porque é que a PGR se mete a investigar os angolanos????

Se olharmos para os resultados da acção da PGR, um quadro começa a emergir.

A primeira coisa que chama a atenção é a sistemática fuga de informação; só vejo uma explicação: alguém na PGR recebia bom dinheiro por essas fugas. Mas depois surge algo surpreendente: a PGR, a entidade de competência máxima na investigação criminal, não consegue descobrir os criminosos nem acabar com as fugas!!!! Como é possível?

Mas há mais. Olhamos para as investigações e elas parecem nunca chegar a um fim. Refiro-me às investigações que envolvem muito dinheiro, porque nas outras a PGR é implacável. O ministro grego da defesa já está em tribunal, mas cá continua sem se saber nada do caso dos submarinos; o Maddoff foi condenado em meses, mas o Oliveira e Costa parece que se perdeu dentro de casa; o Duarte Lima, com um caso de homicídio fortíssimo contra ele não há de ser incomodado enquanto o dinheiro que era do Feteira não se acabar… Curioso como a PGR se preocupa tanto com o dinheiro angolano mas não se preocupa nada em que um suspeito grave de assassínio seja julgado… ou estou a ver mal?

Então temos investigações sobre tudo o que envolve dinheiro, fugas convenientes para os jornais, e depois nada! O que vos sugere isto? A mim sugere-me um quadro de chantagem. Evidentemente, longe de mim pensar que a PGR é um centro de chantagem e corrupção! Não acredito nisso nem acredito em bruxas ;-) Há certamente outra explicação.

Claro que se a PGR fosse uma central de chantagem, já fazia sentido ela investigar os dinheiros angolanos: os chantagistas querem lá saber se estão a prejudicar os interesses do país e dos muitos portugueses que vivem em Angola!!! Que outra razão pode haver para tal investigação ser feita sem um pedido das autoridades angolanas e "soprada" para os media? Eu desconheço, dada a minha ignorância destas coisas, mas certamente que há!

E há mais coisas a respeito da PGR, como as suspeitas de abrir processos de acordo com as conveniências do PSD e CDS. Más línguas, é claro: a atuação da PGR é tão transparente como a do BCE.

Enfim, todas estas coisas transcendem a nossa humilde esfera mas há um facto inquestionável: esta investigação é altamente gravosa dos interesses nacionais e uma ofensa aos angolanos. O Rui Machete fez aquilo que tinha a fazer, face ao lamentável comportamento da PGR.

E não é que os líderes da oposição, em vez de agradecerem, desataram hipocritamente aos gritos a exigir a demissão do ministro que defendeu os interesses de Portugal? Com o Seguro à cabeça?!?

O que é vocês pensam do assunto?

quarta-feira, outubro 02, 2013

Economia, Poder Político e Poder Financeiro



Muita gente pensa que a Economia é o resultado das leis económicas e que o conhecimento destas permite prever a sua evolução, tal como em Física se pode prever a evolução de um sistema conhecendo as leis da natureza. Nada mais errado.
A Economia, como tudo o resto (Ciência, Justiça, Media, etc), está ao serviço dos dois poderes que existem: o Político e o Financeiro. Todos dependem do dinheiro que o poder político ou financeiro lhes atribui. Mesmo a Igreja, apesar de ter fontes próprias de receitas, tem de pactuar com esses dois poderes. Um exemplo de como a Ciência está subordinada a esses poderes é o caso do aquecimento global (ver esta notícia “fresquinha”).
É por isso que a Economia (não é só o Gaspar...) falha quase sempre as suas previsões – estas não dependem das leis económicas, dependem apenas dos interesses e força dos dois poderes. São eles que determinam a evolução da sociedade humana. Conhecendo-os, adquirimos uma capacidade preciosa: a capacidade de fazer futurologia. E, com ela, a capacidade de modificarmos o Futuro provável.
Vamos então ver como se organizam os Dois Poderes e como isso determina fatalmente a sociedade humana e a sua evolução.

1- Os Dois Poderes

Penso que o ser humano se move a longo prazo, primariamente, para 3 fins: poder, dinheiro e reconhecimento/estatuto; afinal, as características do Rei/Rainha... Destes 3 “atratores” da actividade humana, são os dois primeiros que a condicionam através dos tempos, na forma de poder Político e poder Financeiro.
Naturalmente, a Economia serve esses poderes. A Economia não serve “uma sociedade melhor”; os economistas estão ao serviço de quem lhes paga e as escolas de economia formam pessoas cuja habilidade consiste essencialmente em enriquecer os ricos, pois esses serão os seus empregadores.
(isto não envolve nenhum juízo de valor sobre as pessoas em si; os economistas são pessoas como quaisquer outras e as pessoas agem em função do seu interesse, mesmo que disso não tenham consciência)

O primeiro objetivo de qualquer poder é a sua perpetuação. Idealmente, ambos os poderes tendem para uma sociedade de senhores e servos; porém, a circulação atual de informação e a capacidade de mobilização das pessoas tornam isso impossível para o Poder Político, que é obrigado a estar ao serviço de parte ou de toda a sociedade, consoante a sua organização, para se poder perpetuar. O Poder Financeiro, ao contrário, continua a existir no obscurantismo.

2 - O Poder Político e a Economia.

Ao Poder interessa manter os povos atrasados e pobres. Antes de haver capacidade de comunicação maciça entre as pessoas, isso era fácil de conseguir. A falta de informação e da capacidade de comunicação é essencial para que uma minoria mantenha o seu estatuto.
Com o aumento da capacidade de comunicação das pessoas, com a difusão de informação política, o Poder teve primeiro de alargar a sua “corte” de apoio para melhor enquadrar o povo, fazer surgir uma pequena “classe média” e, por fim, assumir a forma de democracia. A difusão de informação política obrigou o Poder Político a ter de desistir de uma sociedade de senhores e servos e a ter de aceitar uma sociedade em que parte suficiente dela já não é serva. No entanto, como veremos, a ausência de informação financeira (a informação financeira que existe é tão manipulada e obscura como a informação política na Coreia do Norte) permite que o Poder Financeiro venha ele a conseguir a sociedade de senhores e servos. Mas vejamos agora o lado político.

Numa democracia o Poder Político depende da maioria. Isto implica uma nova organização da Economia, que tem agora de servir os interesses da maioria.
Em vez de um quadro senhores/povo, surge uma “classe média” vasta na qual o Poder se suporta. A Economia é dirigida para manter essa classe média satisfeita. Em consequência, a sociedade (o “povo”) organiza-se com 1/3 de servos e 2/3 de classe média. Esta é a solução que maximiza a qualidade de vida da classe média com o mínimo de recursos – a solução que permite que os senhores fiquem com o máximo de recursos ao mesmo tempo que garante a estabilidade política. Note-se que são os eleitores que formatam assim a sociedade, pois elegem os partidos que propõem esta solução (por exemplo, quando o PS se propõe promover a igualdade de oportunidades, ou seja, acabar com os “servos”, a classe média portuguesa começa logo a contestar os “custos”). Numa ditadura, a classe média tem uma dimensão muito pequena, definida pelo Poder; numa democracia tem a dimensão de 2/3 da população, definida pela população.

Esta solução é sobretudo eficiente nos países de clima ameno, onde os “servos”, os “descartáveis”, podem sobreviver quase sem custos para os restantes. É por isso que a escravatura nunca foi possível nos países mais a norte, os escravos ou morreriam de frio e fome ou sairiam demasiado caros.
A guerra norte/sul dos EUA não teve um objetivo “humanitário”, destinou-se primariamente a destruir a vantagem competitiva do Sul que podia usar escravos enquanto o norte não podia. As guerras são sempre ditadas pelos interesses e justificadas pelos princípios morais. Não quer isto dizer que quem promoveu essa guerra não tivesse imperativos morais, mas ela só foi possível porque havia interesses de poder (políticos ou financeiros) nela.

A transição ditadura – democracia não aconteceu em todo o lado; na Rússia substituiu-se a ditadura dos senhores pela do povo (em teoria). A queda do regime comunista da URSS mostrou a impossibilidade de um sistema não legitimado por votos se manter se não estiver apoiado pela satisfação popular, ou seja, pela continuada subida da qualidade de vida do povo. A URSS não crescia economicamente, não estava em guerra nem endeusava os líderes, o Poder Político tinha necessariamente de cair.

A China percebeu bem isto e desenvolveu uma teoria económica com um novo objetivo: a subida sustentada do nível de vida de todo o povo. Este é o único objetivo económico que serve o Poder Político na era da comunicação quando este poder não é eleito.
Compreendamos: num sistema democrático, basta promover a satisfação de 2/3 da população; com jeitinho, esse número até pode descer, temporariamente, até ½. Mas num sistema de poder não legitimado pelo voto isso não chega, agora que as pessoas dispõem de uma grande capacidade de comunicação e mobilização. Por isso o regime chinês fez esta opção radical: enriquecer toda a gente.
Nesse sentido a China desenvolveu uma política nova. Separou as pessoas entre camponeses e urbanos para melhor gerir o crescimento de cada grupo, criando economias separadas para cada grupo, cada uma com a sua moeda. Depois, sabendo que o desenvolvimento é fruto do “know-how”, pôs em acção um plano de obtenção de know-how que hoje é seguido em todo o mundo não-ocidental. O saber académico é fácil de obter, está nos livros e na net. O problema é o know-how específico das empresas. Para o conseguir, a China desenhou um processo de atracção de empresas estrangeiras, condicionado à transferência de know-how e à partilha dos lucros.

Assim, uma empresa estrangeira para se instalar na China precisa de um sócio nacional (nas grandes atividades, os sócios são empresas feitas pelo estado com o dinheiro impresso pelo banco da China). Isto garante que essa actividade tem interesse para China, que há transferência de know-how e que pelo menos metade dos lucros fica na China (cá, as grandes empresas transferem a totalidade dos lucros para fora). As grandes atividades, como o fabrico de automóveis, estão sujeitas a um plano a longo prazo que visa que no fim dele a China tenha todo o know-how necessário. A Volkswagen está na China a prazo, até 2030. Mas este é um negócio muito bem construído pelos alemães, que ficarão fornecedores dos componentes de alto valor acrescentado do carro chinês e com garantia de não concorrência no mercado europeu pelo menos até essa data (se pensavam que íamos ter carros chineses baratos, desenganem-se).
 Esta teoria chinesa parece ser hoje seguida em todo mundo à excepção da Europa.

Por outro lado, também as democracias de países pequenos tiveram de tomar outro rumo para sobreviverem. Assim, na Dinamarca, Suécia e Noruega existe uma forte coesão social sem descartados (de qualquer forma, eles não poderiam sobreviver nesses climas...). Esta foi a solução destes países para resistirem à Alemanha, França e Inglaterra. A Holanda, Bélgica e Luxemburgo tornaram-se uma espécie de protectorados da Alemanha e da França.

Portanto, consoante a organização política, temos 4 casos diferentes de sociedades:
Numa democracia típica, existe 1/3 de “descartados”; o nível de vida da classe média pode ser estático porque basta a existência dos descartados para gerar um sentimento suficiente de satisfação. É o caso dos EUA.
Numa ditadura moderna, ao contrário, o nível de vida de toda a população tem de subir continuamente, pois só isso legitima o poder. A participação das pessoas no Poder é assegurada através do poder local, democraticamente eleito e com peso na decisão política central. É o caso da China. Mas note-se que neste sistema há um senão: o Poder Político está sempre apoiado na existência de um perigo global, um inimigo, porque nessas circunstâncias as pessoas estão menos dispostas a contestar a liderança. O Passos Coelho firma-se no Poder baseado na necessidade de “salvar o País” (numa Democracia, os eleitos têm de ser responsabilizados pelo programa que apresentaram às eleições; desta forma, este governo escapa a esse escrutínio). Num sistema como o Chinês, quando houver um crescimento mais débil, podemos esperar que o Poder Político crie um conflito, como uma guerra com o Japão (coisa que não desagradaria ao Japão, que também precisa de um inimigo para compensar a falta de crescimento).
As pequenas democracias, por seu lado, ou perdem a independência ou assentam numa forte coesão social. É o caso dos países nórdicos e, penso, de alguns “pequenos” (à escala asiática) países asiáticos
Subsistem ainda umas ditaduras clássicas, assentes no controlo e manipulação profunda da informação política. É o caso da Coreia do Norte.
Parece que esgotei os sistemas políticos relevantes, mas não, falta um: a Europa!

Na Europa acontece uma coisa extraordinária: o seu sistema político é tal que o país mais forte manda na Europa toda! Então, é a classe média alemã que manda na Europa. Isto não acontece por acaso nem por burrice, é de propósitoas elites europeias não iam deixar os destinos da Europa nas mãos da maioria, não é? Então, criaram um sistema em que o Poder Político europeu depende apenas da classe média alemã. Naturalmente que esta escolherá o partido que se propuser transformar em “descartados” o resto dos Europeus.
Compreendamos: a classe média alemã pensa dos povos do Sul o mesmo que a classe média portuguesa pensa dos nossos descartados – esses preguiçosos e ignorantes que só entendem a linguagem do chicote; e vai eleger (já elegeu) o partido que tiver como programa a escravização destes calões do Sul. Aliás, isto é histórico, sempre que puderam os alemães promoveram a escravatura, tanto dentro como fora da Alemanha... os ucranianos que o digam... A classe média alemã pensa que esta é a solução que maximiza o seu interesse e, por isso, desenvolve a teoria moral que a suporta – a teoria de que estes povos não merecem mais do que a escravatura. Isto é normal, estou farto de ouvir a classe média portuguesa dizer isto dos operários, os alemães não são piores do que nós. Nós, humanos, somos muito menos inteligentes do que presumimos.
Portanto, face à estrutura política da Europa, é fácil perceber o sentido da sua evolução: as classes médias alemã e francesa (que pode atrapalhar os interesses alemães) vão continuar como estão; os restantes povos passarão à categoria de “descartados” e serão a fonte de mão-de-obra barata que tornará a indústria “europeia” (alemã) imbatível no mercado global (assim pensam eles, esquecendo que os outros países do mundo não são parvos e nem todos os líderes são compráveis).

Sobre a Guerra
Um pequeno apontamento sobre este importantíssimo processo do Poder: a Guerra.
A Guerra tem várias utilidades; no passado, tinha o importantíssimo papel de evitar a sobrepopulação. Hoje já não tem esse papel na generalidade dos países mas continua a ser fundamental para o Poder. Quando há Guerra, não há contestação ao Poder enquanto as pessoas se sentirem em perigo; quando acaba a guerra, é necessário recuperar da destruição por ela causada, o que inicia um período de crescimento onde o Poder se suporta. Portanto, ao Poder convém um ciclo crescimento-guerra-crescimento-guerra... tem-se feito os possíveis para inventar outras maneiras de manter o crescimento alto (a globalização, as novas tecnologias, etc), de inventar perigos diferentes (aquecimento global) mas parece que ainda não passamos sem recorrer periodicamente à guerra.

Bem, mas se acham isto negro, esperem até perceber a estrutura do poder Financeiro. Este vai afectar todo o mundo ocidental. No próximo texto.


sábado, agosto 31, 2013

Troika versus Paulo


Nos próximos meses vamos a assistir a uma batalha entre David e Golias. Uma luta completamente desigual que só tem alguma (mínima) hipótese de sucesso para o David se nós o apoiarmos. E devemos fazê-lo porque cairemos com ele.

Já ouviram certamente a afirmação de que “a Europa pretende ser a zona económica mais competitiva do mundo”; agora digam-me lá: como é que isso pode ser conseguido?

Até agora, soube-nos bem a mão-de-obra barata da China, não é verdade? Bom, mas não é isso que faz a Europa competitiva, pois não? O que falta para uma Europa competitiva é mão-de-obra barata, porque o resto tem ela . Têm alguma dúvida a esse respeito? Acham que há algum outro plano sobre a mesa, tipo como fizeram os Dinamarqueses? Claro que não, até porque a solução dinamarquesa levaria pelo menos duas gerações a realizar.

Agora pensemos: onde é que a Europa vai conseguir a sua mão-de-obra barata?

Imigrantes? Os imigrantes baratos são muçulmanos, já viram o perigo que é? Não pode ser.

Além disso, para serem realmente baratos têm de estar estacionados num país de clima temperado, onde os custos de sobrevivência são mínimos.

A escravatura não era solução para o norte dos EUA, porque fazia frio demais – aí a escravatura era impossível. Foi por isso que o norte fez a guerra ao sul, não pensemos que foi por algum princípio humanista. Foi simplesmente para eliminar essa vantagem competitiva do Sul.

Então, se a escravatura é impossível no Norte, necessariamente tem de ser implantada no Sul.
(se os dinamarqueses pudessem ter recorrido à escravatura, seria isso que teriam feito; foi só quando chegaram à conclusão que essa solução era inviável no clima deles que adotaram o atual modelo – porque é o que resulta melhor para os seus ricos no seu quadro)

Bom, mas a Europa pode recorrer à escravatura – nos países do Sul. E, naturalmente, se pode é o que vai fazer. Quem tem poder abusa sempre dele.

Portugal tem condições ideais para isso: talvez o povo mais atrasado e ignorante da Europa, fracas estruturas democráticas, população habituada a obedecer, e uma população capaz de sobreviver com um custo mínimo – os operários de uma fábrica no interior poderão sobreviver das suas hortas e pouco mais.

Na verdade, para obrigar as pessoas a trabalhar é necessário que as obriguem a ter dinheiro – por exemplo, acabando com o ensino gratuito para os filhos. Portanto, o que há a fazer para ter escravos é promover o desemprego e acabar com o ordenado mínimo e com a gratuitidade dos serviços essenciais. Assim as pessoas serão obrigadas a trabalhar para pagar esses serviços – ou seja, o valor alvo do custo total da mão-de-obra inferior a 2,5 euros/hora será conseguido. Isto não é teoria nova, é o velho “esquema da cantina”.

Portanto, esta é a Agenda da Europa. Não é preciso ser bruxo para o perceber, basta abrir olhos e ouvidos. Há anos que sei que é assim e tenho tentado explicá-lo, por isso é que escrevi os posts sobre o Dr. Jordan, as conversas com o Hans e outros.
(na verdade, essa Agenda ainda tem aspetos piores, mas eu nem digo porque não acreditariam)

Estas pessoas que nos gerem não têm quaisquer escrúpulos ou princípios – destruí-los é o primeiro objetivo de qualquer escola de gestão ou economia. Toda esta gente trabalha para os ricos e não tem outro objetivo que não seja servi-los, pois são eles que lhes pagam, agora ou quando saírem do governo. Ou seja, fazem o mesmo que 99% de nós faria no lugar deles…

O António Borges era “frontal”, dizem; percebem o que isso significa? Que o que ele dizia era o que o que todos “eles” pensam mas não dizem…

Bem, mas o que é que tudo isto tem a ver com o Paulo Portas?
Até agora, a Troika executou um plano muito fácil e simples: combinava os seus objetivos com o Governo mas punha nos memorandos só parte. A justificação é que se pusesse tudo por escrito, isso poderia originar um movimento anti-europa. Assim, é o governo que é acusado de “ir além da Troika” mas isso não tem consequências perigosas para a “Agenda”. Até o Sócrates engoliu esta, acha que é o Governo que está a fazer “front load”…

O único que não é ingénuo nem vendido nisto tudo é o Paulo Portas. A direita portuguesa não sobreviverá a esta Agenda e ele sabe disso.

A Troika sabe que esta linda estratégia que tem desenvolvido com tanto sucesso não pode continuar com o Portas. O que vai ela fazer?

Esta gente age sempre da mesma maneira, por isso é fácil prever: esmagar e derrubar o Portas. Como? Levando a austeridade ao limite; e passando a mensagem que a culpa é do Portas para que o Zé corra com o Portas. Causar a desgraça e apontar o “culpado” resulta sempre, não é? Até agora era o Sócrates, de agora em diante vai ser o Portas.


Temos de mostrar que temos estatura para sermos “cidadãos”; caso contrário seremos “escravos”. 

quarta-feira, julho 31, 2013

A Crise Escalpelizada e Profetizada


Durante os próximos meses vou estar ocupado com a promoção das minhas teorias sobre o universo – aquela coisa óbvia de que não é o espaço que expande, somos nós que diminuímos; não se assustem porque a diminuição é tão lenta, mas tão lenta, que é completamente indetectável à nossa escala. Queria deixar neste interregno um texto a sumarizar como entendo a atual crise.

  1. A causa da crise.
 a) É sabido que o sistema financeiro só funciona enquanto a sociedade estiver a enriquecer. O sistema financeiro ganha dinheiro por processos especulativos, processos para ganhar dinheiro com o dinheiro, assentes na perspectiva de valorização das “coisas” em que o dinheiro é aplicado, seja um quadro do Miró ou uma acção da EDP. Esta perspectiva de valorização só existe havendo enriquecimento da sociedade. A atividade financeira vai buscar este acréscimo de riqueza das pessoas.
Quando uma sociedade, ao contrário, está a empobrecer, as pessoas deixam de colocar dinheiro nestas “coisas” e a perspectiva de valorização desaparece. Todo o sistema que permite aos bancos e entidades financeiras grandes lucros colapsa.
É claro que mesmo em recessão podem continuar a ganhar algum dinheiro com o casino bolsista, dado que são jogadores privilegiados que conseguem comandar as subidas e descidas – mesmo com uma tendência decrescente, podem ganhar nas oscilações. Mas é pouco.

b) O enriquecimento das sociedades financeiras na década anterior ao fim do século XX foi fabuloso: 30 % ao ano. Uma maravilha. Mas isto teve uma consequência: a riqueza absorvida por estas sociedades tornou-se maior que a riqueza gerada pelo crescimento do PIB. Então, a restante sociedade começou a empobrecer. Logicamente, deixaram de investir nas “coisas” e os ganhos do sistema financeiro colapsaram.

c) Portanto, a causa da crise é só uma: o excesso de desigualdade. O sistema capitalista só funciona enquanto a generalidade da sociedade enriquece. O brutal enriquecimento dos mais ricos determinou o empobrecimento dos restantes; mas esse enriquecimento era feito à custa do resto da sociedade e por isso colapsou. Secou a sua fonte por excesso de cupidez.

  1. A solução para a crise
 O Obama sabe isto tudo e sabe qual é a solução, fartou-se de o dizer: redistribuir a riqueza. É por isso que os EUA já voltaram ao crescimento, a crise nos EUA já é passado. Teve custos, muitos bancos fecharam as portas. Os impostos sobre os ricos aumentaram.
Não se pense porém que os EUA já estão seguros. As medidas tomadas foram mínimas, só o suficiente para pôr o barco a navegar. Os ricos são gananciosos e só abdicaram um mínimo da sua riqueza especulativa. A ideia deles é manterem agora a sua riqueza estacionária enquanto crescimento do PIB vai alimentando o esfomeado “porquinho”.

  1. A solução europeia
 A Europa é um saco de gatos; por isso, os gatos mais fortes trataram de resolver o assunto como mais lhes convinha. Os mais ricos, em vez de prescindirem de uma pequenina parte da sua riqueza especulativa, viram na crise uma oportunidade para enriquecerem mais. É o processo de enriquecimento usado nos cartões de créditos: nada como encontrar alguém em dificuldades para extorquir juros. Isso é possível na Europa porque o BCE não está ao serviço dos povos e não existe um orçamento europeu. Além disso, serve perfeitamente os objectivos hegemónicos da Alemanha e da França.

  1. Portugal no presente
 Em Portugal, o Governo está inteiramente focado em resolver o problema da banca. Os banqueiros são os seus pares, não é? O Estado tornou-se uma máquina de sugar dinheiro aos portugueses para colocar na banca. A Luís mexeu nos SWAP quando eles se tornaram mau negócio para a banca. Para disfarçar que estava a fazer o frete à banca, levantou um escândalo sobre os mesmos, para parecer que veio resolver um problema ao Estado quando o que ela terá feito (penso eu) foi resolver um problema à banca.
 A redução dos custos do Estado com as pessoas não visa diminuir o défice das contas públicas, visa apenas libertar dinheiro para Banca.
Há também uma questão ideológica: a ideia de um país de senhores e servos. Uma ideia obsessiva nas elites portuguesas dos últimos 4 ou 5 séculos. É por isso que o Crato acabou com o ensino de informática e quer ensinar as pessoas a usarem tornos quando já só há robots nas fábricas.

  1. O Futuro para Portugal
 A atual política de austeridade vai levar ao colapso do sistema bancário português. Estas luminárias esqueceram-se que os bancos, como as empresas, precisam do mercado interno. Por agora, estão todos os bancos a ser aguentados pelo BCE; mas a negociata das dívidas públicas não chega para os sustentar e a mãozinha do BCE não vai lá estar para sempre. Até porque a falência dos bancos “pequenos” é uma conveniência dos grandes... há apenas que aguardar pelo momento conveniente, porque os grandes têm ainda graves problemas a resolver.
Assim, ou a banca faz como as empresas e se vira para os mercados em crescimento, ou vai falir. Acontece que os mercados em crescimento estão muito pouco abertos à banca estrangeira – porque haveriam de estar? O que é que têm a ganhar com ela? Já as empresas levam “saber-fazer” e podem ser fonte de desenvolvimento, desde que devidamente enquadradas; e como enquadrá-las já é hoje teoria sólida, desenvolvida pelos chineses. Teoria para enquadrar a banca é que só há uma: entrada proibida!


Assim, se a política de austeridade continuar, a banca portuguesa vai falir. Provavelmente, antes do fim do programa da troika.

domingo, julho 07, 2013

Passos é subtil?


À primeira vista, o Paulo Portas fez um brilhante e bem sucedido golpe palaciano. É o que dizem.

Interpretar os fatos é complicado. Para a generalidade dos comentadores, a interpretação é linear e assenta na ideia de que os protagonistas são pessoas de pouco carácter e reduzida inteligência.

Pode ser que tenham razão mas tal interpretação "sensata" é bastante desinteressante. Um amador pode jogar xadrez sem analisar as jogadas seguintes, mas estes protagonistas não são amadores.

Há uma coisa que nos deve alertar. Reparem no que aconteceu:

Numa altura em que a troika está dividida, "cai-nos do céu" um governo capaz aproveitar essa divisão e de dar uma volta de 180º na política que nos têm imposto até agora; uma política imposta mas não seguida em aspectos essenciais - por exemplo, o plano de privatizações tem sido um falhanço colossal em relação ao que alemães e franceses tinham planeado. Incompetência? Ou Génio?

Já a propósito das privatizações eu levantei a possibilidade de haver um génio neste governo.

Reparem que chegamos a esta situação ideal em que os encontramos hoje, pois temos agora um governo que se prepara para governar na direção que me parece certa, duma forma que a troika e a Merckel não podem questionar nem interferir. São capazes de imaginar alguma outra maneira de chegar a este ponto? Eu não consigo. Um governo saído de eleições com esta linha seria logo massacrado pela Merckel através dos seus representantes na troika.

Lembro ainda as conversas com o Hans, onde "ele" dizia que a esperança dele de se inverter esta situação de guerra económica na Europa residia em Portugal. Mas o Hans não disse isto por inspiração divina - há muito quem entenda o que se passa; e muitas dessas pessoas, nomeadamente economistas americanos, disseram na altura que Portugal tinha condições para estragar os planos de guerra - e por duas razões: porque tem onde se apoiar fora da Europa e porque tem uma longa história que demonstra a sua capacidade de adaptação a situações adversas. E a capacidade de adaptação, mais do que a Inteligência e a Força, é o que determina a sobrevivência - sabe-se desde o tempo de Darwin.

O leitor que escolha a sua interpretação dos factos. Cavaco, Passos, Portas e Relvas são jogadores primários, que só fazem burrices e birras, ou médios, que vão aproveitando as circunstâncias, ou geniais, capazes de gerar as circunstâncias?




sexta-feira, junho 28, 2013

Para que serve o investimento estrangeiro


Como tenho andado sem tempo para o blogue mas não quero deixar os meus leitores abandonados, vou fazer algo que nunca fiz: escrever um post em directo!

Fala-se muito por cá da importância e necessidade do investimento estrangeiro. Parece ser uma necessidade óbvia, indiscutível, evidente - pois não são postos de trabalho, dar de comer a gente desempregada? Bem bom, não é?

Pensemos um pouco: os EUA, a Alemanha, a França, a Inglaterra, andam atrás de investimento estrangeiro?   A Itália? A Dinamarca? A Suécia? Não andam pois não?

serão então esses países geridos por governantes que não sabem o fazem?
Não, pois não?

Mas podemos olhar para outros países; o Brasil anda atrás de investimento estrangeiro? Não consta. O Canadá? Também não? África do Sul? Népia.

Afinal, quem é que quer o "investimento estrangeiro"?

Só há uma razão para um país querer investimento estrangeiro: obter know how, saber-fazer. Porque é isso que pode gerar riqueza.

É por isso que em todos os países do mundo excepto nos colonizados, como Portugal e Grécia, não se aceita investimento estrangeiro que não tenha um sócio nacional. Essa é apenas uma das condições que estabeleceram para garantir que o país tem interesse nessa actividade, que há transferência de know how, que parte importante dos lucros ficam no país. Mas há mais condições - na China, as empresas estrangeiras têm um plano de transferência de know-how e prazo de saída da China.

E, claro, isso apenas nos países menos desenvolvidos, que procuram transferência de know how.

É o know-how que gera desenvolvimento e riqueza. Portugal de há um século era miserável porque era atrasado, ignorante, não tinha saber-fazer.

Quando se permite a instalação de uma unidade de produção estrangeira sem contrapartidas, o que acontece é que essa empresa tudo fará para manter o país atrasado e pobre, pois o seu objetivo é minimizar o custo da mão-de-obra e não pagar impostos. Não deixa um tostão de lucros, ainda recebe subsídios desse país. Uma empresa estrangeira sem controlo, sem sócio nacional, é um predador do país.

É por isso que hoje, nenhum país do mundo que eu conheça, permite tal coisa. Nem S. Tomé e Princípe. Isso é tão inaceitável em qualquer parte do mundo como o trabalho escravo, a prostituição de menores, o trabalho infantil, etc, etc.

Ou seja, aquilo porque os nossos governantes tanto anseiam e apresentam como a salvação do País é algo proibido fora da Europa e algo que só acontecerá nestes ínfimos países do sul do Europa. Talvez aconteça também no México, cujo norte foi colonizado pelos EUA. Então porquê o empenho dos nossos governantes num investimento estrangeiro sem controlo?

O que o país precisa é de investimento nacional; mas esse pode contar com todos os obstáculos, todas as burocracias. Porquê?

Deixo-vos estas duas perguntas.


quarta-feira, junho 12, 2013

O Conflito FMI - UE


Como já se percebeu, há um “mal-estar” crescente entre o FMI e a União Europeia; o FMI está a dizer que assim não dá mas a UE insiste em que não há outro caminho.

Ambos estão certos; os objectivos de cada um é que são diferentes.

O objectivo do FMI é ganhar dinheiro; ora, para isso é preciso manter o devedor com a corda na garganta mas sem nunca o esganar. Esganar o devedor é matar a galinha dos ovos de oiro.

O FMI está a ficar em pânico porque está a ver que os devedores estão a ser esganados; e assim não só o FMI vai deixar de ganhar dinheiro com eles como ainda se arrisca a perder o dinheiro emprestado.

Isto é óbvio, não é verdade? Qualquer tonto percebe isto.

Então porque é que a UE acha que “estamos no bom caminho”?

Lembram-se de qual é o grande argumento, que repetem incessantemente, para a construção da UE? É o de que a UE existe para evitar a guerra na Europa! Até ganhou um prémio Nobel da Paz, não foi?

Mas pensemos: que guerra na Europa? Quem faz guerra na Europa? Nós? A Espanha? A Itália? A Hungria? A Polónia? A República Checa? A Eslováquia? Chipre? Dinamarca? Suécia? Quem????

A resposta é clara: o único país que faz guerra na Europa é a Alemanha. Fazer guerra não passa pela cabeça de mais ninguém na Europa.

Ou seja, a UE é uma construção cujo objectivo é evitar que a Alemanha tente conquistar os outros países europeus pela força das armas.

Não há nenhuma outra interpretação possível. Quando se diz que a Europa está em paz há quase um século está-se apenas a dizer que a Alemanha não fez nenhuma guerra nas últimas décadas.

Bem, e como é que a UE evita que a Alemanha faça guerra pelas armas? Simplesmente permitindo-lhe que conquiste a Europa sem gastar balas. Que é o que a Alemanha está a fazer.

O objectivo da UE (leia-se Alemanha) é a conquista dos outros países europeus; isso implica a destruição dos seus Estados, porque só pode haver um Estado, o Estado Alemão.

É por isso que a UE acha que estamos no bom caminho e o FMI está em pânico; e pela mesma razão: estamos no caminho da destruição.

Haverá aqueles que pensam que isso não é problema nenhum, porque depois ficaremos todos alemães, a usufruir do desenvolvimento alemão. Os Ucranianos também pensaram isso quando os alemães os “libertaram” dos russos na 2ª guerra mundial; para a seguir serem escravizados pelos alemães como nunca tinham sido pelos russos.

Os alemães querem escravos para trabalharem para eles. Sempre quiseram. Não querem misturas nem igualdades, eles são a raça superior. É assim que pensam há séculos, já consta dos almanaques do século XVIII.

Estou a publicar uma série de posts a dizer como se pode tirar o país da crise económica; mas isso é uma ingenuidade, não há qualquer intenção de tirar o país da crise, a intenção é a oposta, é metê-lo num buraco do qual não haja saída possível. O pós-troika são as condições de rendição à Alemanha.

Estes governantes estão tão convencidos de que já não temos saída que o Gaspar se permite gozar explicando a queda brutal do investimento com o clima e o Governo se permite mandar o TC às urtigas, agora não pagando o subsídio de férias, a seguir despedindo os FP (o Estado é para acabar). A TV pública grega acabou? Claro, TV pública europeia é a Alemã, a Europa não precisa de mais nenhuma, não é? A nossa também vai acabar.


E nós, vamos fazer o quê? 

terça-feira, maio 28, 2013

Os 4 problemas de Portugal (3b)


Vejamos agora a segunda das 3 componentes do problema da dívida pública: a receita do Estado. Agora vou só analisar a receita fiscal; há outra componente da receita do Estado mas fica enquadrada no quarto problema do país.

Em Portugal, a carga fiscal (33,2%) é das menores da Europa; 10% menos que em França (43,9%)!! Abaixo da média europeia (39%) em 6%! Porém, é a mais alta sobre as pessoas de menos rendimentos! Quase o dobro da Alemã para um empregado solteiro. Ou seja, Portugal é onde os “ricos” (os 10% mais ricos) menos pagam e o “povo” (os 90% mais pobres) mais paga!!!

Portanto, a carga fiscal em Portugal pode ser muito aumentada do lado dos mais ricos, combatendo as fugas e aumentando as taxas sobre os rendimentos mais elevados, quer do IRS quer outras, como o IMI sobre as propriedades de valor mais elevado, e acabando com os esquemas que as isentam de IMI. Em vez disso, o que este governo faz é ir buscar dinheiro à classe média baixa e aos pobres. É preciso empobrecer os portugueses, dizem eles: e não há alternativa, repetem uma e outra vez. E a oposição parece confirmar, porque não apresenta alternativa que se veja. Mais do que o governo, é a oposição que vai convencendo os portugueses disso porque não apresenta alternativa. E, claro, as classes acima da média adoram essa ideia porque pensam que assim serão os mais pobres a pagar a crise e não eles.

Porém, o governo sabe muito bem que empobrecer o povo não resolve o problema das contas públicas, e por duas razões.

 Uma é que simplesmente o “povo” não têm dinheiro para tal pois os ricos, contrariamente ao que muita gente pensa, têm a maioria do dinheiro. Não sei os números de Portugal mas nos EUA o rendimento da metade mais pobre é apenas 4% do PIB e na Alemanha parece ser inferior. Se não erro, em todos os países de economia capitalista, até na China, os 10% mais ricos detêm mais de 50% da riqueza; e, nalguns casos, muito mais. Claro que taxar os ricos é complicado porque o dinheiro deles tem asas, mas outros países sempre conseguem mais do que nós.

A outra razão é que empobrecer o “povo” leva à quebra do consumo interno e à recessão da economia, criando a famosa espiral recessiva que estamos a ver. Se o empobrecimento fosse dos ricos, isto não acontecia, porque o que determina o crescimento da economia não é o dinheiro dos ricos, é o consumo, é o dinheiro dos pobres. E em Portugal mais do que noutros lados, porque aqui os ricos não consomem produtos nacionais, pois não? Nem os ricos nem as pessoas que sonham sê-lo.

Reparemos no seguinte: se a carga fiscal aqui fosse igual à de França, ou seja, se os ricos aqui pagassem tantos impostos como pagam em França e os pobres tão pouco como pagam em França, a coleta aumentaria 10% do PIB e o Estado, em vez de um deficit de 5%, teria um superavit de 5%!!!! Além de que a recessão seria muito menor e, logo, maior a coleta.

Então serão completamente estúpidos e ignorantes? Não sabem o que andam a fazer?

Claro que sabem. Sabem muito bem.

Enquanto a dívida pública for um problema, a banca ganha dinheiro. A especulação sobre as dívidas soberanas é um processo tão conhecido como a especulação sobre os terrenos urbanizáveis, por isso foram criadas defesas através dos bancos centrais e através da captação das poupanças para ela. Para executar esta especulação, era preciso controlar o banco central e destruir o mecanismo das poupanças no Estado. No caso português, destruir este mecanismo foi apenas destruir os certificados de aforro. Fácil. Mas o problema do banco central era mais complicado.

Esta operação foi preparada ao pormenor e eu sei porque de certa forma fui convidado a tomar parte no processo (não sei porquê, mas as pessoas da banca tendem a achar que eu devo ter muito dinheiro e fazem-me propostas estranhíssimas; se eu quisesse, tinha algos ganhos financeiros e não pagaria um tostão de impostos sobre eles). Para resolver o problema do banco central, bastou o artigo 125 do tratado de Lisboa, que anula a possibilidade de intervenção do BCE. Ficaram então criadas as condições para o ataque especulativo às dívidas soberanas, para o qual fui convidado. Isto antes da crise.

Entretanto, rebenta a crise! A banca viu no assalto às dívidas soberanas a forma de compensar as brutais perdas que estava a ter, porque a sua riqueza era de base especulativa e as bolhas especulativas estoiraram.

Mas a crise trouxe um problema ao plano: os juros altos, resultantes da ausência de poder negocial dos Estados, em cenário de crise lançaram as dúvidas sobre os títulos de dívida: o seu valor começou a cair muito, por um lado, enquanto os juros ficam descontrolados, por outro. Ora a queda de valor dos títulos abria as portas a que os governos resolvessem o problema, seguindo o exemplo do Equador: recomprando os títulos de dívida a uma fração do valor, no mercado secundário!

Então, o BCE interveio no mercado secundário, retirando aos governos essa possibilidade. Uma possibilidade que eu penso que os governos não usariam, dado que são completamente controlados pelos financeiros, mas… Aqui, curiosamente, o BCE já se apressa a intervir para impedir os mercados de funcionarem; as leis do mercado só são válidas enquanto privilegiam os financeiros, ou não fossem eles o regulador. Assim o BCE interveio para manter os juros no valor adequado a conseguir uma permanente sangria de recursos dos Estados.

Mas não pensem que o BCE e a Merkel são os únicos responsáveis desta confusão. Este Governo pode tomar medidas e deliberadamente não o faz; uma é abrir a dívida pública ao retalho, coisa que já todos os outros países em crise fizeram. E não faz porque tem um grave problema entre mãos: se o fizer, mais depressa vão os bancos nacionais à falência porque lhes prejudica a negociata da dívida. Por isso é que as colocações de dívida são “fechadas”. A continuarmos assim, em breve até os gregos terão juros mais baixos do que nós.

Ou seja, no afã de salvar a banca, o governo está a sacar o dinheiro aos portugueses para o canalizar para a banca através dos juros da dívida pública.

Porém, não está a perceber uma consequência colateral: os bancos nacionais também dependem do mercado interno, tal como as empresas nacionais que trabalham para ele; o que o Governo está a meter nos bancos através dos juros da dívida está a tirar pelo lado do mercado interno, com um fator multiplicativo. Esta política vai levar à falência das empresas nacionais e da banca nacional.

Existe a ideia de que basta gerir para o imediato; se formos resolvendo os problemas à medida que eles vão aparecendo, “empurrando para a frente com a barriga”, acabamos por resolver tudo. Não é verdade. O governo, ao serviço da banca, não vai resolver o problema dela, vai afundá-la.


Em resumo, a coleta fiscal podia ser maior, mais justa e menos recessiva; mas o objetivo prioritário não é resolver o problema das contas públicas, é salvar a banca, salvar os ricos! A riqueza dos ricos foi conseguida através de processos especulativos e determinou empobrecimento do “povo”; este empobrecimento, por sua vez, fez estoirar os processos especulativos. A riqueza dos ricos deveria cair em consequência. Naturalmente, eles não querem isso e procuram transferir o empobrecimento deles para cima do “povo”. É por isso que o objetivo declarado da Governo é “empobrecer os portugueses”. Alguém tem de empobrecer, não é? A ideia dos ricos, tal como no afundamento do Titanic, é saltar para os botes salva-vidas e o povo que afogue. Porque o povo aguenta tudo, ai aguenta aguenta... sempre aguentou...

domingo, maio 26, 2013

Quem escolhe os ministros?


No meio dos 4 problemas de que em minha opinião é prioritário resolver para surgir luz ao fundo deste túnel, permitam-me uma breve nota que talvez ajude a compreender melhor como as coisas se passam.
Oiço muitas vezes dizer-se que os ministros são corruptos porque assim que saem do governo abicham logo belos lugares nas empresas que andaram a favorecer durante o seu mandato.

ORA ISTO É UM ENORME DISPARATE

Esses ministros não foram contratados por essas empresas a troco dos favores que lhes fizeram; eles já eram empregados dessas empresas e foram por elas designados para o lugar de ministro.

As grandes empresas dão dinheiro aos partidos políticos; a troco de quê? De poderem escolher os ministros relevantes na altura em que a política do governo esteja orientada para a sua área de atividade. Isto não é tão estranho ou criticável como pode parecer à primeira vista, como vou explicar.

Onde se pode um PM ir buscar uma pessoa para ministro? Um político do seu partido perceberá de política mas um ministro tem de saber do pelouro; há os académicos, servem para umas coisas mas não para outras, não têm geralmente experiência “de terreno”; há os funcionários do ministério, seria uma possibilidade, mas esses também são normalmente apenas burocratas; e há os que trabalham no sector, em grandes empresas – mas esses não vão perder o vínculo laboral por uma comissão como ministro.

Há alternativas; por exemplo, ir buscar pessoas na reforma ou à beira dela; ou então promover dentro do Estado as competências necessárias; e há também a profissionalização da política: pessoas que são preparadas para gerir um país nas várias componentes, que é o que acontece em Singapura e que acontece com algumas pessoas que seguem carreiras políticas, por isso é que saem do governo e vão para Bruxelas ou para lugares em organismos internacionais.

Se um PM pretende levar a cabo um plano de investimento em infraestruturas, tem de o fazer em colaboração com as empresas nacionais do setor; e nada como ter como ministro uma pessoa que seja simultaneamente da sua confiança e apoiado por essas empresas; é então que a empresa do sector que apoiou o partido do governo tem a oportunidade de escolher o ministro. (nota: tem de ser da confiança do Governo; se fosse apenas um empregado da empresa, serviria apenas os interesses desta e não os do país)

Há a ideia muito errada de que o Estado e privados defendem interesses opostos e estão em conflito. Não é nem pode ser assim. Eu sei que essa é uma visão muito espalhada, mas é apenas fruto da ignorância, de atavismos, provincianismos, oportunismos e horizontes curtos. Uma visão de que precisamos de nos livrar. E quem a promove, quem fomenta antagonismos entre público e privado, está a fazê-lo para defender interesses ilegítimos.

Os casos dos ministros das obras públicas são bem conhecidos, mas há outros menos conhecidos.
Neste Governo temos dois ministros que tudo indicam foram nomeados por empresas: o da saúde e o da economia.

O Paulo Macedo é um empregado da banca, do sector da saúde; foi para ministro ganhar 1/5 do seu ordenado na banca. Porquê?
Vejamos a sua ação: baixar custos de medicamentos e material hospitalar. Uma boa medida para o sector público, sem dúvida. Porém, é também uma boa medida para o sector privado; e uma medida que apenas o seu poder como Ministro permite levar a cabo. Por outro lado, a Saúde foi a única área onde as PPP cresceram. Nas obras públicas fala-se muito em renegociação e redução de custos; na saúde não se fala nada, as PPP são indiscutíveis. Como é que umas são más e as outras boas? Todas elas foram feitas com a banca… com a mesma banca...

Notem que isto não significa que o ministro pretenda boicotar a saúde pública, acabar com ela, etc. Não o tenho nessa conta; como disse atrás, isso é o pensamento das pessoas de horizontes curtos a defender interesses ainda mais curtos. A função do ministro é conseguir coordenar a atividade pública e privada em benefício dos cidadãos.
Claro que as origens do ministro pesam nas decisões; por exemplo, foi veloz a aumentar os custos para os utentes, mas muito menos eficiente a reduzir o abuso de análises que muitos médicos mandam fazer. Pelo menos que eu notasse. Se o ministro fosse oriundo da indústria farmacêutica, as soluções seriam outras. 

Cabe ao PM saber a que sector deve ir buscar o ministro para desenvolver a atividade no sentido em que pretende ou para compensar desequilíbrios entre as forças atuantes no setor.

Portanto, estes casos, dos anteriores ministros das obras públicas ou do atual ministro da Saúde, são legítimos de um ponto de vista pragmático.

Mais complicado é o caso do Álvaro.

Há duas coisas que os países desenvolvidos querem dos outros: mão-de-obra barata e recursos naturais. Estes são vários: climáticos, águas, combustíveis, minérios. É bem sabido a importância que se dá ao controlo das jazidas de combustíveis (petróleo, gás, carvão, urânio) e às de metais indispensáveis à eletrónica. Mas todas elas, essas e as outras, são alvo das maiores atenções. Portugal tem diversas jazidas de metais, a generalidade delas sem viabilidade económica na atualidade; porém, elas existem e podem ser importantes no futuro.
Existe uma empresa, a Colt, cuja atividade consiste na descoberta e venda de concessões mineiras. É uma empresa canadiana que, curiosamente, opera num único país: Portugal. Até este governo, nunca tinha conseguido nenhum negócio relevante. Isso mudou com a chegada de um ministro da Economia que, coincidência das coincidências, veio do Canadá. E, coincidência das coincidências, esse ministro, até agora, a única coisa que parece ter feito é mirabolantes concessões mineiras. O resto parece ser só “fogo de artifício”: grandes anúncios com voz firme e hirta, e depois nada. Pode não ser culpa dele, parece que na realidade não temos um governo, temos apenas um empregado das finanças alemãs a gerir o país.

O que nos traz ao Gaspar; foi escolhido por Passos Coelho? Tanto como os elementos da Troika. O Gaspar foi escolhido para governar o país e não foi pelo PM, em minha opinião. E o resto do governo, tirando o Macedo, é ilusão, porque só fingem que governam, quando é apenas o Gaspar que manda. Como é ilusão pensar somos governados por quem elegemos. O Monti já o disse… as pessoas é que não prestam atenção…


Notem, por último, que a aparente inação de todos os ministérios menos o da Saúde não é de estranhar: quando se fazem remodelações não se fazem novas ações. A exceção da Saúde dever-se-á à existência de um ministro que é empregado do sector privado e, por isso, não pode limitar-se à função que o governo pretenderia: tem de organizar o sector para benefício do seu patrão e não apenas emagrecer o sector público.

quinta-feira, maio 09, 2013

Os 4 problemas de Portugal (3a)



O terceiro problema é a dívida pública.

Este problema tem três componentes: a dívida propriamente dita, receitas e financiamento.

Para simplificar a vida ao leitor, vou dividir o assunto pelas 3 componentes, em 3 textos curtos. Este é sobre a dívida.

(da wikipedia; dívidas públicas em função do PIB)
Quanto à dívida, o Estado é como qualquer empresa: quanto mais capital tiver disponível, mais aumenta a sua capacidade competitiva. Todas as empresas dependem de capitais alheios no montante máximo que as suas receitas suportam. Se não procederem assim, não maximizam a sua capacidade competitiva e acabam “engolidas” pela concorrência. É por isso que, contrariamente ao que o Gaspar tem andado a dizer, apoiado num estudo que se sabe agora ser falso, muitas das maiores economias e das que mais crescem são as de países com as maiores dívidas públicas. O que torna uma dívida pública “excessiva” não é o seu valor em função do PIB, é a receita que o Estado consegue (que corresponde à facturação de uma empresa) e a capacidade negocial do Estado para obter financiamento a juros adequados. 

Façamos uma analogia com nós mesmos: a vossa dívida à banca nunca foi superior ao que ganham num ano? A minha já foi, e isso não foi problema porque o meu saldo receitas/despesas e as condições de financiamento que tive suportavam esse endividamento.

Portanto, não é a dívida pública que é excessiva, é a capacidade do Estado para obter receita e se financiar que é insuficiente. Os teóricos que falam em que a dívida pública não pode exceder 60% do PIB não estão suportados em nenhuma razão objetiva; aliás, a da Espanha estava nesse valor quando começou a crise, o que mostra bem que não é o valor da dívida pública que interessa. A da Alemanha é de 80% do PIB e desconfio que seja mais do que isso porque os alemães não deixam que se veja totalidade das suas contas. A dívida pública, considerada isoladamente, é irrelevante. Gerir as finanças do Estado com o objetivo de redução da dívida pública é um erro; basta olha para a figura acima para perceber que só existe desenvolvimento com uma dívida pública baixa onde há importantes recursos naturais. Reduzir a dívida pública é estrangular o desenvolvimento, o que não é surpresa nenhuma, acontece o mesmo em qualquer empresa neste mundo competitivo.

Claro que interessa em que foi aplicado o dinheiro que se pediu emprestado, mas essa é outra discussão. Um Estado, como uma empresa, pode ser bem ou mal gerido.