quarta-feira, junho 12, 2013
O Conflito FMI - UE
Como já se
percebeu, há um “mal-estar” crescente entre o FMI e a União Europeia; o FMI
está a dizer que assim não dá mas a UE insiste em que não há outro caminho.
Ambos estão
certos; os objectivos de cada um é que são diferentes.
O objectivo do
FMI é ganhar dinheiro; ora, para isso é preciso manter o devedor com a corda na
garganta mas sem nunca o esganar. Esganar o devedor é matar a galinha dos ovos
de oiro.
O FMI está a
ficar em pânico porque está a ver que os devedores estão a ser esganados; e
assim não só o FMI vai deixar de ganhar dinheiro com eles como ainda se arrisca
a perder o dinheiro emprestado.
Isto é óbvio, não
é verdade? Qualquer tonto percebe isto.
Então porque é
que a UE acha que “estamos no bom caminho”?
Lembram-se de
qual é o grande argumento, que repetem incessantemente, para a construção da
UE? É o de que a UE existe para evitar a guerra na Europa! Até ganhou um prémio
Nobel da Paz, não foi?
Mas pensemos: que
guerra na Europa? Quem faz guerra na Europa? Nós? A Espanha? A Itália? A
Hungria? A Polónia? A República Checa? A Eslováquia? Chipre? Dinamarca? Suécia?
Quem????
A resposta é
clara: o único país que faz guerra na Europa é a Alemanha. Fazer guerra não
passa pela cabeça de mais ninguém na Europa.
Ou seja, a UE é
uma construção cujo objectivo é evitar que a Alemanha tente conquistar os
outros países europeus pela força das armas.
Não há nenhuma
outra interpretação possível. Quando se diz que a Europa está em paz há quase
um século está-se apenas a dizer que a Alemanha não fez nenhuma guerra nas
últimas décadas.
Bem, e como é que
a UE evita que a Alemanha faça guerra pelas armas? Simplesmente permitindo-lhe
que conquiste a Europa sem gastar balas. Que é o que a Alemanha está a fazer.
O objectivo da UE
(leia-se Alemanha) é a conquista dos outros países europeus; isso implica a
destruição dos seus Estados, porque só pode haver um Estado, o Estado Alemão.
É por isso que a
UE acha que estamos no bom caminho e o FMI está em pânico; e pela mesma razão:
estamos no caminho da destruição.
Haverá aqueles
que pensam que isso não é problema nenhum, porque depois ficaremos todos
alemães, a usufruir do desenvolvimento alemão. Os Ucranianos também pensaram
isso quando os alemães os “libertaram” dos russos na 2ª guerra mundial; para a
seguir serem escravizados pelos alemães como nunca tinham sido pelos russos.
Os alemães querem
escravos para trabalharem para eles. Sempre quiseram. Não querem misturas nem
igualdades, eles são a raça superior. É assim que pensam há séculos, já consta
dos almanaques do século XVIII.
Estou a publicar
uma série de posts a dizer como se pode tirar o país da crise económica; mas
isso é uma ingenuidade, não há qualquer intenção de tirar o país da crise, a
intenção é a oposta, é metê-lo num buraco do qual não haja saída possível. O
pós-troika são as condições de rendição à Alemanha.
Estes governantes
estão tão convencidos de que já não temos saída que o Gaspar se permite gozar
explicando a queda brutal do investimento com o clima e o Governo se permite
mandar o TC às urtigas, agora não pagando o subsídio de férias, a seguir
despedindo os FP (o Estado é para acabar). A TV pública grega acabou? Claro, TV
pública europeia é a Alemã, a Europa não precisa de mais nenhuma, não é? A nossa também
vai acabar.
E nós, vamos
fazer o quê?
Etiquetas:
Economia,
Portugal,
Prever Futuro,
Sociedade
terça-feira, maio 28, 2013
Os 4 problemas de Portugal (3b)
Vejamos agora a segunda
das 3 componentes do problema da dívida pública: a receita do Estado. Agora vou
só analisar a receita fiscal; há outra componente da receita do Estado mas fica
enquadrada no quarto problema do país.
Em Portugal, a carga
fiscal (33,2%) é das menores da Europa; 10% menos que em França (43,9%)!!
Abaixo da média europeia (39%) em 6%! Porém, é a mais alta sobre as pessoas de
menos rendimentos! Quase o dobro da Alemã para um empregado solteiro. Ou seja,
Portugal é onde os “ricos” (os 10% mais ricos) menos pagam e o “povo” (os 90%
mais pobres) mais paga!!!
Portanto, a carga fiscal
em Portugal pode ser muito aumentada do lado dos mais
ricos, combatendo as fugas e aumentando as taxas sobre os rendimentos mais
elevados, quer do IRS quer outras, como o IMI sobre as propriedades de valor
mais elevado, e acabando com os esquemas que as isentam de IMI. Em vez disso, o
que este governo faz é ir buscar dinheiro à classe média baixa e aos pobres. É
preciso empobrecer os portugueses, dizem eles: e não há alternativa, repetem
uma e outra vez. E a oposição parece confirmar, porque não apresenta
alternativa que se veja. Mais do que o governo, é a oposição que vai
convencendo os portugueses disso porque não apresenta alternativa. E, claro, as
classes acima da média adoram essa ideia porque pensam que assim serão os mais
pobres a pagar a crise e não eles.
Porém, o governo sabe
muito bem que empobrecer o povo não resolve o problema das contas públicas, e
por duas razões.
Uma é que simplesmente o “povo” não têm
dinheiro para tal pois os ricos, contrariamente ao que muita gente pensa, têm a
maioria do dinheiro. Não sei os números de Portugal mas nos EUA o rendimento da
metade mais pobre é apenas 4% do PIB e na Alemanha parece ser inferior. Se não
erro, em todos os países de economia capitalista, até na China, os 10% mais
ricos detêm mais de 50% da riqueza; e, nalguns casos, muito mais. Claro que
taxar os ricos é complicado porque o dinheiro deles tem asas, mas outros países
sempre conseguem mais do que nós.
A outra razão é que empobrecer
o “povo” leva à quebra do consumo interno e à recessão da economia, criando a
famosa espiral recessiva que estamos a ver. Se o empobrecimento fosse dos
ricos, isto não acontecia, porque o que determina o crescimento da economia não
é o dinheiro dos ricos, é o consumo, é o dinheiro dos pobres. E em Portugal
mais do que noutros lados, porque aqui os ricos não consomem produtos
nacionais, pois não? Nem os ricos nem as pessoas que sonham sê-lo.
Reparemos no seguinte: se
a carga fiscal aqui fosse igual à de França, ou seja, se os ricos aqui pagassem
tantos impostos como pagam em França e os pobres tão pouco como pagam em França,
a coleta aumentaria 10% do PIB e o Estado, em vez de um deficit de 5%, teria um
superavit de 5%!!!! Além de que a recessão seria muito menor e, logo, maior a
coleta.
Então serão completamente
estúpidos e ignorantes? Não sabem o que andam a fazer?
Claro que sabem. Sabem
muito bem.
Enquanto a dívida pública
for um problema, a banca ganha dinheiro. A especulação sobre as dívidas soberanas
é um processo tão conhecido como a especulação sobre os terrenos urbanizáveis,
por isso foram criadas defesas através dos bancos centrais e através da
captação das poupanças para ela. Para executar esta especulação, era preciso
controlar o banco central e destruir o mecanismo das poupanças no Estado. No
caso português, destruir este mecanismo foi apenas destruir os certificados de
aforro. Fácil. Mas o problema do banco central era mais complicado.
Esta operação foi
preparada ao pormenor e eu sei porque de certa forma fui convidado a tomar
parte no processo (não sei porquê, mas as pessoas da banca tendem a achar que
eu devo ter muito dinheiro e fazem-me propostas estranhíssimas; se eu quisesse,
tinha algos ganhos financeiros e não pagaria um tostão de impostos sobre eles).
Para resolver o problema do banco central, bastou o artigo 125 do tratado de
Lisboa, que anula a possibilidade de intervenção do BCE. Ficaram então criadas
as condições para o ataque especulativo às dívidas soberanas, para o qual fui
convidado. Isto antes da crise.
Entretanto, rebenta a
crise! A banca viu no assalto às dívidas soberanas a forma de compensar
as brutais perdas que estava a ter, porque a sua riqueza era de base
especulativa e as bolhas especulativas estoiraram.
Mas a crise trouxe um
problema ao plano: os juros altos, resultantes da ausência de poder negocial
dos Estados, em cenário de crise lançaram as dúvidas sobre os títulos de dívida:
o seu valor começou a cair muito, por um lado, enquanto os juros ficam descontrolados,
por outro. Ora a queda de valor dos títulos abria as portas a que os governos
resolvessem o problema, seguindo o exemplo do Equador: recomprando os títulos
de dívida a uma fração do valor, no mercado secundário!
Então, o BCE interveio no
mercado secundário, retirando aos governos essa possibilidade. Uma
possibilidade que eu penso que os governos não usariam, dado que são
completamente controlados pelos financeiros, mas… Aqui, curiosamente, o BCE já
se apressa a intervir para impedir os mercados de funcionarem; as leis do
mercado só são válidas enquanto privilegiam os financeiros, ou não fossem eles
o regulador. Assim o BCE interveio para manter os juros no valor adequado a
conseguir uma permanente sangria de recursos dos Estados.
Mas não pensem que o BCE
e a Merkel são os únicos responsáveis desta confusão. Este Governo pode tomar
medidas e deliberadamente não o faz; uma é abrir a dívida pública ao retalho,
coisa que já todos os outros países em crise fizeram. E não faz porque tem um
grave problema entre mãos: se o fizer, mais depressa vão os bancos nacionais à
falência porque lhes prejudica a negociata da dívida. Por isso é que as
colocações de dívida são “fechadas”. A continuarmos assim, em breve até os
gregos terão juros mais baixos do que nós.
Ou seja, no afã de salvar
a banca, o governo está a sacar o dinheiro aos portugueses para o canalizar
para a banca através dos juros da dívida pública.
Porém, não está a
perceber uma consequência colateral: os bancos nacionais também dependem do mercado
interno, tal como as empresas nacionais que trabalham para ele; o que o Governo
está a meter nos bancos através dos juros da dívida está a tirar pelo lado do
mercado interno, com um fator multiplicativo. Esta política vai levar à
falência das empresas nacionais e da banca nacional.
Existe a ideia de que
basta gerir para o imediato; se formos resolvendo os problemas à medida que
eles vão aparecendo, “empurrando para a frente com a barriga”, acabamos por
resolver tudo. Não é verdade. O governo, ao serviço da banca, não vai resolver
o problema dela, vai afundá-la.
Em resumo, a coleta
fiscal podia ser maior, mais justa e menos recessiva; mas o objetivo
prioritário não é resolver o problema das contas públicas, é salvar a banca, salvar os ricos! A
riqueza dos ricos foi conseguida através de processos especulativos e
determinou empobrecimento do “povo”; este empobrecimento, por sua vez, fez estoirar os
processos especulativos. A riqueza dos ricos deveria cair em
consequência. Naturalmente, eles não querem isso e procuram transferir o
empobrecimento deles para cima do “povo”. É por isso que o objetivo declarado
da Governo é “empobrecer os portugueses”. Alguém tem de empobrecer, não é? A ideia dos ricos, tal como no afundamento do Titanic, é saltar para os botes salva-vidas e o povo que afogue. Porque o povo aguenta tudo, ai aguenta aguenta... sempre aguentou...
domingo, maio 26, 2013
Quem escolhe os ministros?
No meio dos 4 problemas de que em minha opinião é
prioritário resolver para surgir luz ao fundo deste túnel, permitam-me uma
breve nota que talvez ajude a compreender melhor como as coisas se passam.
Oiço muitas vezes dizer-se que os ministros são corruptos
porque assim que saem do governo abicham logo belos lugares nas empresas que
andaram a favorecer durante o seu mandato.
ORA ISTO É UM ENORME DISPARATE
Esses ministros não foram contratados por essas empresas a
troco dos favores que lhes fizeram; eles já eram empregados dessas empresas e
foram por elas designados para o lugar de ministro.
As grandes empresas dão dinheiro aos partidos políticos; a
troco de quê? De poderem escolher os ministros relevantes na altura em que a
política do governo esteja orientada para a sua área de atividade. Isto não é tão estranho ou criticável como pode parecer à primeira vista, como vou explicar.
Onde se pode um PM ir buscar uma pessoa para ministro? Um
político do seu partido perceberá de política mas um ministro tem de saber do pelouro; há os
académicos, servem para umas coisas mas não para outras, não têm geralmente
experiência “de terreno”; há os funcionários do ministério, seria uma
possibilidade, mas esses também são normalmente apenas burocratas; e há os que
trabalham no sector, em grandes empresas – mas esses não vão perder o vínculo
laboral por uma comissão como ministro.
Há alternativas; por exemplo, ir buscar pessoas na reforma ou à beira dela; ou então promover dentro do Estado as
competências necessárias; e há também a profissionalização da política: pessoas
que são preparadas para gerir um país nas várias componentes, que é o que
acontece em Singapura e que acontece com algumas pessoas que seguem carreiras
políticas, por isso é que saem do governo e vão para Bruxelas ou para lugares
em organismos internacionais.
Se um PM pretende levar a cabo um plano de investimento em
infraestruturas, tem de o fazer em colaboração com as empresas nacionais do
setor; e nada como ter como ministro uma pessoa que seja simultaneamente da sua
confiança e apoiado por essas empresas; é então que a empresa do sector que
apoiou o partido do governo tem a oportunidade de escolher o ministro. (nota: tem de ser da confiança do Governo; se fosse apenas um empregado da empresa, serviria apenas os interesses desta e não os do país)
Há a ideia muito errada de que o Estado e privados defendem
interesses opostos e estão em conflito. Não é nem pode ser assim. Eu sei que essa é uma
visão muito espalhada, mas é apenas fruto da ignorância, de atavismos,
provincianismos, oportunismos e horizontes curtos. Uma visão de que precisamos de nos livrar.
E quem a promove, quem fomenta antagonismos entre público e privado, está a
fazê-lo para defender interesses ilegítimos.
Os casos dos ministros das obras públicas são bem
conhecidos, mas há outros menos conhecidos.
Neste Governo temos dois ministros que tudo indicam foram
nomeados por empresas: o da saúde e o da economia.
O Paulo Macedo é um empregado da banca, do sector da saúde;
foi para ministro ganhar 1/5 do seu ordenado na banca. Porquê?
Vejamos a sua ação: baixar custos de medicamentos e material
hospitalar. Uma boa medida para o sector público, sem dúvida. Porém, é também
uma boa medida para o sector privado; e uma medida que apenas o seu poder como
Ministro permite levar a cabo. Por outro lado, a Saúde foi a única área onde as
PPP cresceram. Nas obras públicas fala-se muito em renegociação e redução de
custos; na saúde não se fala nada, as PPP são indiscutíveis. Como é que umas
são más e as outras boas? Todas elas foram feitas com a banca… com a mesma banca...
Notem que isto não significa que o ministro pretenda
boicotar a saúde pública, acabar com ela, etc. Não o tenho nessa conta; como
disse atrás, isso é o pensamento das pessoas de horizontes curtos a defender interesses ainda mais curtos. A função do
ministro é conseguir coordenar a atividade pública e privada em benefício dos
cidadãos.
Claro que as origens do ministro pesam nas decisões; por
exemplo, foi veloz a aumentar os custos para os utentes, mas muito menos
eficiente a reduzir o abuso de análises que muitos médicos mandam fazer. Pelo
menos que eu notasse. Se o ministro fosse oriundo da indústria farmacêutica, as
soluções seriam outras.
Cabe ao PM saber a que sector deve ir buscar o ministro
para desenvolver a atividade no sentido em que pretende ou para compensar
desequilíbrios entre as forças atuantes no setor.
Portanto, estes casos, dos anteriores ministros das obras públicas ou do atual ministro da Saúde, são legítimos de um ponto de vista pragmático.
Mais complicado é o caso do Álvaro.
Há duas coisas que os países desenvolvidos querem dos
outros: mão-de-obra barata e recursos naturais. Estes são vários: climáticos,
águas, combustíveis, minérios. É bem sabido a importância que se dá ao controlo
das jazidas de combustíveis (petróleo, gás, carvão, urânio) e às de metais
indispensáveis à eletrónica. Mas todas elas, essas e as outras, são alvo das
maiores atenções. Portugal tem diversas jazidas de metais, a generalidade delas
sem viabilidade económica na atualidade; porém, elas existem e podem ser
importantes no futuro.
Existe uma empresa, a Colt, cuja atividade consiste na
descoberta e venda de concessões mineiras. É uma empresa canadiana que,
curiosamente, opera num único país: Portugal. Até este governo, nunca tinha
conseguido nenhum negócio relevante. Isso mudou com a chegada de um ministro da
Economia que, coincidência das coincidências, veio do Canadá. E, coincidência
das coincidências, esse ministro, até agora, a única coisa que parece ter feito
é mirabolantes concessões mineiras. O resto parece ser só “fogo de artifício”:
grandes anúncios com voz firme e hirta, e depois nada. Pode não ser culpa dele,
parece que na realidade não temos um governo, temos apenas um empregado das
finanças alemãs a gerir o país.
O que nos traz ao Gaspar; foi escolhido por Passos Coelho?
Tanto como os elementos da Troika. O Gaspar foi escolhido para governar o país
e não foi pelo PM, em minha opinião. E o resto do governo, tirando o Macedo, é
ilusão, porque só fingem que governam, quando é apenas o Gaspar que manda. Como
é ilusão pensar somos governados por quem elegemos. O Monti já o disse… as pessoas
é que não prestam atenção…
Notem, por último, que a aparente inação de todos os
ministérios menos o da Saúde não é de estranhar: quando se fazem remodelações
não se fazem novas ações. A exceção da Saúde dever-se-á à existência de um
ministro que é empregado do sector privado e, por isso, não pode limitar-se à
função que o governo pretenderia: tem de organizar o sector para benefício do
seu patrão e não apenas emagrecer o sector público.
quinta-feira, maio 09, 2013
Os 4 problemas de Portugal (3a)
O terceiro
problema é a dívida pública.
Este problema tem três
componentes: a dívida propriamente dita, receitas e financiamento.
Para simplificar a vida ao leitor, vou dividir o assunto pelas 3 componentes, em 3 textos curtos. Este é sobre a dívida.
| (da wikipedia; dívidas públicas em função do PIB) |
Quanto à dívida,
o Estado é como qualquer empresa: quanto mais capital tiver disponível, mais
aumenta a sua capacidade competitiva. Todas as empresas dependem de capitais
alheios no montante máximo que as suas receitas suportam. Se não procederem
assim, não maximizam a sua capacidade competitiva e acabam “engolidas” pela
concorrência. É por isso que, contrariamente ao que o Gaspar tem andado a
dizer, apoiado num estudo que se sabe agora ser falso, muitas das maiores
economias e das que mais crescem são as de países com as maiores dívidas
públicas. O que torna uma dívida pública “excessiva” não é o seu valor em
função do PIB, é a receita que o Estado consegue (que corresponde à facturação de uma empresa) e a capacidade negocial do Estado para obter financiamento a
juros adequados.
Façamos uma analogia com nós mesmos: a vossa dívida à banca
nunca foi superior ao que ganham num ano? A minha já foi, e isso não foi problema porque o meu saldo receitas/despesas e as condições de financiamento que tive suportavam esse endividamento.
Portanto, não é a dívida pública que é excessiva, é a capacidade do Estado para obter receita e se
financiar que é insuficiente. Os teóricos que falam em que a dívida pública não pode exceder 60% do PIB não estão suportados em nenhuma razão objetiva; aliás, a da Espanha estava nesse valor quando começou a crise, o que mostra bem que não é o valor da dívida pública que interessa. A da Alemanha é de 80% do PIB e desconfio que seja mais do que isso porque os alemães não deixam que se veja totalidade das suas contas. A dívida pública, considerada isoladamente, é irrelevante. Gerir as finanças do Estado com o objetivo de redução da dívida pública é um erro; basta olha para a figura acima para perceber que só existe desenvolvimento com uma dívida pública baixa onde há importantes recursos naturais. Reduzir a dívida pública é estrangular o desenvolvimento, o que não é surpresa nenhuma, acontece o mesmo em qualquer empresa neste mundo competitivo.
Claro que interessa em que foi aplicado o dinheiro que se pediu emprestado, mas essa é outra discussão. Um Estado, como uma empresa, pode ser bem ou mal gerido.
quarta-feira, maio 01, 2013
Os 4 problemas de Portugal (2)
O segundo
problema é a balança de capitais.
A figura acima
mostra a repartição do investimento “estrangeiro” em Portugal (tirado deste vídeo promocional). Uma coisa chama
logo a atenção: o maior investidor em Portugal é a Holanda, seguido do...
Luxemburgo????
Sabem o que isto
quer dizer: as empresas põem a sede nesses países onde só pagam uma pequenina
taxa (2,5%, creio) sobre os lucros, que transitam para um offshore. Ou seja, grande
parte deste investimento só deixa cá ficar o dinheiro dos ordenados.
Agora uma novidade:
na verdade, muito pouco deste investimento será estrangeiro. É nacional! Como é
evidente, com as regras que existem, só quem não puder é que não mete a sede na
Holanda ou no Luxemburgo. Por isso, os investidores nacionais, quando abrem uma
empresa, é o que fazem. Portanto, a maior parte do investimento estrangeiro
será... nacional! Os lucros é que não ficam cá, e esta é uma forma eficiente de
fuga de capitais.
Então o
investimento mesmo mesmo estrangeiro é que será bom, é que paga impostos cá?
Nada disso. Uma
empresa estrangeira quando abre cá uma fábrica, nos moldes em que isso é
atualmente feito, essa fábrica é apenas um componente da sua cadeia de
produção, que compra à empresa mãe e vende à empresa mãe (ou do grupo). A
diferença entre o preço de compra e venda é o necessário para pagar os
ordenados, descontados os benefícios que o Estado sempre dá aos estrangeiros.
Para percebermos
as consequências disto, imaginemos uma família onde só o homem tem emprego e
coloca parte do que ganha numa conta só dele, para ele gastar como quiser,
deixando para a família o mínimo dos mínimos. A mulher e os filhos alimentam-se
de farinhas cerelac com água e vestem-se com as roupas que a igreja vai
arranjando. O homem come brutas almoçaradas e, à noite, quando chega a casa, finge
que “passa debaixo da mesa” para não “tirar o pão da boca aos filhos nestes
tempos difíceis”. Faz belas viagens de férias com a amante e diz em casa que
foi trabalhar na apanha do morango. Tira os filhos da escola e põe-nos a dar
serventia de pedreiro para que eles nunca abram os olhos e ainda contribuam
para as despesas da casa.
É mais ou menos
isto que se passa. É claro que numa família consideramos que as pessoas são
responsáveis umas pelas outras e na nossa sociedade nem pensar nisso, é cada um por
si. Mas o resultado assim é mau e por isso é preciso regras que substituam a
moral que se exige a uma família. Nomeadamente, são precisas regras que tornem
vantajoso que quem tem lucros aqui, os aplique aqui.
Isto é mais do
que sabido, há décadas que essas regras existem noutros lados, por exemplo, nos
EUA. Mas cá não. E não é baixando o IRC que isso se consegue, porque a taxa
holandesa é imbatível. É como fazem os EUA.
A conversa de “captar investimento
estrangeiro” é um disparate por duas razões. Uma delas é que se queremos
investimento, apenas precisamos de criar condições para os investidores
nacionais investirem aqui pois, como mostra o gráfico do investimento
“estrangeiro”, grande parte dele é nacional mascarado de estrangeiro. A outra
razão porque isso é um disparate, nos moldes em que é feito, é a seguinte:
Se uma empresa
que opera em Portugal se limita a pagar salários e leva para fora todas as
mais-valias aqui geradas, o país nunca pode aumentar o nível de vida. Pelo
contrário, essa empresa só existe aqui enquanto não conseguir pagar menos
noutra qq parte do mundo. É por isso que nos outros lados a entrada de empresas
estrangeiras é definida com um objectivo muito diferente: a transferência de
saber-fazer.
É que não é
através das empresas exportadoras que um país se desenvolve, é à custa do
mercado interno; é por isso que a transferência de saber-fazer é o objectivo
das políticas de atracção de empreendedores estrangeiros. É o velho ditado: o
que interessa é aprender a pescar.
É por isso que em
todo o lado as empresas estrangeiras têm de ter um sócio nacional, que pode ser
o Estado, e têm um prazo de saída, são concessões a prazo. Quando a Volkswagen
sair da China, em 2030, a indústria automóvel chinesa estará pronta. Claro que
os alemães foram inteligentes e negociaram bem o assunto, os carros chineses
vão estar cheios de electrónica alemã, que é onde estão as mais-valias que
interessam aos alemães; e assim, através dos chineses, os alemães vão acabar
por dominar o mercado mundial dos componentes especializados para automóveis.
Claro que
exportar é muito importante, nenhum país é auto suficiente. Nos países mais
desenvolvidos, grande parte das suas exportações são de bens produzidos noutros
lados; por exemplo, uma empresa alemã coloca uma fábrica na Grécia onde realiza
a parte do produto que carece de mão-de-obra intensiva, para a qual exporta
componentes e da qual importa produtos quase acabados, que depois exporta a
partir da Alemanha, ficando aí a mais-valia. Claro que a Grécia é muito melhor
do que a China, porque a China exige 50% do capital, transferência de
saber-fazer e prazo de saída.
A Grécia será o
maior caso de sucesso dentro do Euro; no começo da crise, o seu PIB per capita
já era 1,7 vezes o português!! Mas a Grécia fez uma coisa errada: permitiu a
instalação de mais de uma centena de fábricas alemãs. Ora essas fábricas
dependem de mão-de-obra barata e isso estava a desaparecer da Grécia. Logo,
havia que fazer algo para empobrecer os gregos e levar o desemprego para níveis
acima dos 20%, que é o que coloca os ordenados em espiral decrescente.
Em conclusão, é
preciso:
1- criar condições para que os lucros das
empresas que operam em Portugal sejam investidos em Portugal;
2- a instalação de empresas estrangeiras em
Portugal deve ser feita nos mesmos moldes em que se faz em quase todos os países
soberanos (participação nacional, transferência de saber-fazer, efeito
multiplicativo sobre a economia, concessão a prazo)
sábado, abril 20, 2013
Os 4 problemas de Portugal (1)
Portugal tem
muitos problemas; mas, para sair da crise, basta-lhe, em minha opinião, resolver 4!
Primeiro, vou
apresentar sucintamente esses 4 problemas. Depois, vou analisar sucintamente
como é que eles se podem resolver. Como irão perceber, está nas nossas mãos
resolver todos eles, e sem grande dificuldade. Desde que queiramos é claro.
Primeiro
problema: Vivemos acima das nossas capacidades
Um país é como
uma família: obtém dinheiro vendendo coisas e com esse dinheiro compra coisas.
Se a família
compra mais do que o dinheiro que obtém, ela está a “viver acima das suas
possibilidades”.
Da mesma maneira,
um país que importa mais do que exporta está a “viver acima das suas
possibilidades”.
É assim que nasce
esta designação técnica para o desequilíbrio entre exportações e importações.
Notem bem: é uma designação técnica, com um significado preciso em economia:
significa que se importa mais do que se exporta. Não significa que as pessoas
gastem mais do que ganham, não tem nada a ver com isso, tem é a ver com a
maneira como as pessoas gastam o dinheiro, que percentagem gastamos na compra de produtos nacionais e na de importados.
Além do aspecto do consumo, há outro; a valorização do que se exporta. Uma fábrica estrangeira que importa componentes da fábrica mãe e exporta para ela a preço de custo está a roubar a mais valia do nosso trabalho e recursos; uma empresa de turismo estrangeiro que vende pacotes no seu país para férias num resort seu no algarve donde os turistas nem chegam a sair, está a usufruir do nosso clima e paisagens sem pagar nada. Embora com consequências graves neste problema do desequilíbrio das exportações, vou considerar este um outro problema e restringir o primeiro problema ao lado do consumo.
Felizmente para
nós, basta mudarmos ligeiramente a maneira como gastamos o dinheiro, fazer algumas opções. Meia dúzia de
medidas chegam para resolver este magno problema apenas pelo lado do consumo; um problema que afunda a nossa economia há
décadas.
segunda-feira, abril 15, 2013
Na morte da amiga de Pinochet (Alfredo Barroso)
Recebi este texto por email, dizendo que se trata de um texto do Alfredo Barroso cuja publicação o Público recusou. Não sei se isto é verdade ou não, mas aqui fica o texto porque ele mostra porque é importante contestar a ideia da Seleção Natural, sistematicamente usada para justificar a opressão.
Decididamente,
tenho cada vez mais dificuldade em publicar textos meus nos jornais, e não será
certamente pelo facto de estar a escrever pior do que já escrevi - nem
certamente pior do que os artigos escritos com os pés publicados quase todos os
dias nos jornais.
Poucas horas
depois de saber que Margaret Thatcher tinha morrido, escrevi, ontem, dia 8, o
artigo que a seguir reproduzo («NA MORTE DA AMIGA DE PINOCHET») e enviei-o,
ainda ontem à tarde à direcção do PÚBLICO solicitando a
publicação.
Recebi hoje a
resposta (não interessa de quem) do seguinte teor:
«Caro
Alfredo Barroso: neste momento, excepcionalmente, tenho compromissos para
publicação de artigos extra praticamente todos os dias até terça-feira. Fica
tarde de mais…».
Só me resta,
assim, enviá-lo aos amigos e conhecidos do costume, que constam das listas
(porventura desactualizadas por acção e por omissão) arquivadas no meu
computador, e publicá-lo na minha página do «facebook», onde não muito
apropriado afixar textos longos. Há certamente directores de jornais que
esfregarão as mãos de satisfação ao constatarem que estão a fechar-se todas as
portas a este «dissidente» politicamente incorrecto, incómodo e «impertinente».
Não sou crente mas apetece-me dizer-lhes: deus os guarde e lhes conceda muitos
«frutos» do trabalho tão «dedicado» que estão a fazer… Aqui vai, então, o meu
artigo:
NA
MORTE DA AMIGA DE PINOCHET
por
ALFREDO BARROSO
Morreu
Margaret Thatcher, uma das principais responsáveis pela contra-revolução
neoliberal que há mais de 30 anos vem devastando os regimes democráticos
ocidentais, deformando a economia, tornando as sociedades democráticas cada vez
mais desiguais, destruindo a coesão social, impondo o «casino da especulação
monetária» e a ditadura dos mercados financeiros globais que hoje mandam em
nós.
Morreu,
além disso, a amiga de Pinochet, um dos ditadores mais sanguinários e corruptos
da América Latina, que permitiu que o Chile se tornasse banco de ensaio das
políticas ultraliberais preconizadas pela famigerada «escola de Chicago» e
levadas a cabo pelos «Chicago boys», apadrinhados por Milton Friedman e
Friederich von Hayek, figuras tutelares do pensamento de Margaret Thatcher, além
da mercearia do pai.
Não
faço esta acusação de ânimo leve. São factos conhecidos, designadamente a sua
acendrada admiração por Augusto Pinochet, como se projectasse nele aquilo que
ela desejaria impor, mas nunca conseguiria, na velha democracia inglesa. Há
muitas fotos em que aparecem ambos sorridentes, lado a lado, quer quando o
ditador estava no poder, quer quando o detiveram em Londres na sequência do
pedido de extradição efectuado pelo juiz espanhol Baltazar Garzon, que o acusou
de ser responsável, durante a ditadura, pelo assassínio e desaparecimento de
vários cidadãos espanhóis.
Esta
mulher a quem chamaram «dama de ferro», como poderiam ter chamado «de zinco» ou
«de chumbo», nutria um profundo desprezo pelos grandes intelectuais ingleses do
seu tempo, designadamente Aldous Huxley, John Maynard Keynes, Bertrand Russell,
Virgínia Woolf e T. S. Eliot, conhecidos como o «círculo de Bloomsbury» (do nome
do famoso bairro londrino de editores e livreiros e de boémia intelectual). A
frustração dela perante o talento e a inteligência que irradiavam deles, e que
ela não conseguia captar, levaram-na a considerá-los «intelectuais estouvados,
que conduziram o Reino (Unido) pelos caminhos nada recomendáveis da segunda
metade do século XX». Ao diabo as «literatices» da «clique de Bloomsbury», dizia
ela. «O meu Bloomsbury foi Grantham» (onde o pai tinha a famosa mercearia) (…)
Para compreender a economia de mercado, não há melhor escola do que a mercearia
da esquina». Deve ser por isso que as mercearias estão a
falir…
Thatcher
considerava «a distância entre ricos e pobres perfeitamente legítima» e
proclamava «as virtudes da desigualdade social» como motor da economia. A
verdade dos números é, no entanto, bastante diferente. Como salienta John Gray,
um dos mais importantes pensadores contemporâneos, na Grã-Bretanha da chamada
«dama de ferro» os níveis dos impostos e das despesas públicas eram tão ou mais
altos, ao fim de 18 anos de governos conservadores, do que quando os
trabalhistas deixaram o poder, em 1979. Ao mesmo tempo, nos EUA de Ronald
Reagan, co-autor da «contra-revolução neoliberal», o mercado livre e desregulado
destruiu a civilização de capitalismo liberal baseada no New Deal de
Roosevelt, em que assentou a prosperidade do
pós-guerra.
Convém
dizer que John Gray, autor de vários livros editados em português, entre os
quais Falso Amanhecer (False Dawn), chegou a ser uma das figuras
dominantes do pensamento da chamada «Nova Direita», que teve uma grande
influência nas políticas que Thatcher pôs em prática. Mas ficou desiludido e
alarmado com as terríveis consequências dessas políticas e tornou-se um dos
críticos mais lúcidos e implacáveis dos «mercados livres globais», cuja
desregulação tem causado os efeitos mais perversos nas sociedades
contemporâneas, provocando a desintegração social e o colapso de muitas
economias. O capitalismo global parece funcionar, segundo Gray, de acordo com as
regras da selecção natural, destruindo e eliminando os que não conseguem
adaptar-se e recompensando, quase sempre de maneira desproporcionada, os que se
adaptam com sucesso. Estas são, logicamente, as inevitáveis consequências do
pensamento de Thatcher, ao pôr em prática «as virtudes da desigualdade social»
como motor da economia.
A
pesada herança de Margaret Thatcher, tal como a de Ronald Reagan - adoptadas não
apenas pela direita ultraliberal, mas também por uma certa esquerda neoliberal
(Tony Blair, Gerhard Schröder e alguns discípulos da Europa do Sul,
designadamente lusitanos) - é esta crise brutal em que a UE e os EUA estão
mergulhados há já cinco anos. E o mais terrível é que é o pensamento dos
principais responsáveis por esta crise que continua e prevalecer na maioria dos
governos que prometem acabar com ela à custa da austeridade, do empobrecimento
dos cidadãos e do confisco dos seus direitos
sociais.
Lisboa, 8
de Abril de 2013
quarta-feira, abril 10, 2013
As Duas Economias e a Crise
Como o tempo
urge, proponho-me colocar 3 ou 4 textos em que exponho tão sucintamente quanto
possível o meu entendimento da causa da crise do Euro, de quais são os
problemas fulcrais do país e qual é a solução para sairmos deste buraco.
Este texto aborda
a causa da crise da Europa do Euro: a falta de Economia Sistémica.
...............................................................................................
Fala-se de
Economia como se fosse uma Ciência única; mas não é, há duas Economias
Uma visa o
Enriquecimento por predação: como deve um indivíduo, uma empresa, uma qualquer
entidade proceder para obter a máxima parcela da riqueza disponível. As
consequências para a sociedade das actuações dos sujeitos na busca do
enriquecimento são irrelevantes para esta Economia; designa-se por “microeconomia”.
A outra visa
gerir a sociedade para que os esforços que cada indivíduo, empresa, entidade,
faz para enriquecer, convirjam para o enriquecimento de toda a sociedade; ou
seja, façam a sociedade evoluir. Inicialmente, isto era designado por “macroeconomia”;
hoje pertencerá talvez ao campo da “ciência política” ou “filosofia política”.
São duas ciências
bem diferentes. Opostas.
A microeconomia é
a cientifização daquilo que as pessoas fazem para conseguirem mais dinheiro;
abrange desde comportamentos absolutamente legítimos até ao que podemos
designar por cientifização da vigarice. (tudo o que serve o interesse individual está "cientifizado", desde o dopping à religião - já ouviram falar da cientologia?)
A antigamente
chamada macroeconomia é a ciência a que se dedicaram pessoas como Marx ou
Keynes. A microeconomia leva fatalmente a uma situação em que uns poucos ficam
com tudo, que é a situação mais frequente na sociedade humana. Um sistema
competitivo puro acaba sempre em “the winner takes it all”. Então, a actividade
microeconómica precisa de ser compensada. A forma com é feita esta compensação
é que define o sistema económico; por isso, vou passar a designar esse ramo da
economia, antigamente designado por macroeconomia, por Economia de Sistema ou
economia sistémica.
A evolução da
sociedade só é conseguida quando as duas economias equilibram o fluxo
económico.
A microeconomia
desenvolve-se naturalmente, pois as pessoas querem ser ricas, querem ser mais
do que os outros, querem de alguma forma ser especiais. Porém, sem mecanismos
de compensação conduz fatalmente à situação em uns poucos oprimem os restantes
e passam a monopolizar a actividade económica. E justificam esse estatuto com a
ideia da “Seleção Natural” (uma ideia que parece ser muito do agrado do nosso
actual PM).
Apenas nos curtos
intervalos de tempo em que uma economia sistémica se desenvolveu e equilibrou a
microeconomia sem a abafar, experimentou a humanidade breves momentos de grande
evolução; no resto do tempo, durante séculos e mesmo milénios, viveu idades
negras, de fome, miséria, opressão, retrocesso evolutivo.
Este problema é
conhecido desde que a humanidade existe e muitas formas de evitar este desfecho
têm sido tentadas, nomeadamente através da religião e da política. Essas
formas, porém, acabam sempre não só derrotadas como capturadas e colocadas ao
serviço dos “Senhores”.
O desenvolvimento
da sociedade depende criticamente do fluxo económico. A microeconomia produz
uma desigualdade crescente; se é verdade que a desigualdade (moderada) funciona
como motor da actividade individual, é igualmente verdade que ela estrangula o
fluxo económico e trava, por essa razão, o crescimento da economia. Esta
questão do fluxo económico foi “redescoberta” no começo da recente crise e
levou muitos economistas nos EUA ao estudo da física dos fluxos, na esperança
de encontrarem nela bases para um modelo do fluxo económico.
É o desequilíbrio
entre a microeconomia e a economia sistémica que dita o colapso dos sistemas.
Foi isto que os chineses perceberam depois do colapso da URSS, por falta de
microeconomia. Os Chineses criaram uma economia com estas duas componentes da
economia igualmente fortes e que, em larga medida, está a servir de modelo para
muitos países em desenvolvimento.
No ocidente, o
problema é o oposto ao da URSS: a falta de economia sistémica levou à grande
depressão de 1929; o equilíbrio das duas levou a uma extraordinária fase de
desenvolvimento até à última década do século passado, altura em o excesso de
microeconomia conduziu a uma crise de consequências que se adivinham
dramáticas.
No Ocidente, a
economia sistémica está morta. Nas universidades só se ensina microeconomia.
Hoje, chama-se macroeconomia a uma microeconomia que se ocupa de grandes
sociedades, países, mas o objectivo é o mesmo: enriquecer por predação; o nome
retrata apenas uma diferença de escala.
O famoso
jornalista norte-americano Gary North definiu assim: “Microeconomia: o estudo
de quem tem o dinheiro e de como posso deitar-lhe a mão. Macroeconomia: o
estudo de que agência do governo tem a massa e de como podemos deitar-lhe a
mão.”
Com a
globalização, não havendo uma economia sistémica à escala global, cada país
tratou de agir como predador dos outros. Os EUA reorganizaram a sua economia
para que as suas empresas sejam o mais forte possível, as medidas sistémicas de
controlo de crescimento de desigualdade foram anuladas.
No tempo em que
os bancos centrais dependiam dos governos, uma forma essencial de contrariar o
crescimento da desigualdade era introduzindo o dinheiro novo “por baixo”. Ou
seja, os bancos centrais imprimiam dinheiro (à medida que as economias crescem,
é preciso mais dinheiro) e este era introduzido pelo Estado através de grandes
obras públicas, de grandes projectos nacionais que promovessem a investigação,
como a NASA, e até de grandes projectos militares, que é a área onde é mais
fácil os governos investirem.
Com o
desaparecimento dos economistas sistémicos, convertidos em macroeconomistas
porque isso é que dá dinheiro, os bancos centrais foram “libertados” das
tutelas dos Governos. Hoje, o mundo ocidental é governado por bancos centrais
cujos estatutos são obscuros e funcionam à margem de qualquer controlo
democrático. Sabe-se mais sobre as sociedades maçónicas do que sobre os bancos
centrais.
Tornados
autónomos, os bancos centrais passaram a injectar dinheiro na economia “por
cima”, entregando-o aos banqueiros através de operações como compra de dívidas
incobráveis e de “injeções de liquidez” (feitas através do Estado à custa do
dinheiro dos contribuintes, ou seja, da classe média). Os Ricos ficam assim
mais ricos, os preços dos artigos de luxo sobem mas isso não afecta os cálculos
da inflação.
Perguntarão: mas
não vêm que assim estrangulam o fluxo económico? Não vêm a recessão, o
desemprego, o empobrecimento que estão a gerar?
Claro que vêem;
mas esse não é um problema deles. Eles defendem os seus interesses como
toda a gente faz. As pessoas da classe média agem em função da sociedade ou dos
seus interesses? Claro que é em função dos seus interesses (as excepções não
contam). Os 40% de abandono escolar nunca geraram nenhum movimento de
indignação popular, mas a medidas para corrigir isso geraram. E as “novas
oportunidades” também. E tudo o que se faça para diminuir a desigualdade,
melhorar as oportunidades dos mais pobres, gera logo movimentos indignados de
pessoas que acham que “lhes estão a ir ao bolso”.
A classe média
faz o estranho erro de pensar que os ricos estão ao seu serviço. Não estão, é
claro, tal como a classe média não está ao serviço dos mais pobres, acha sempre
que isso é uma responsabilidade de quem é mais rico do que ela. O Amorim pensa
exactamente o mesmo. (para toda a gente, a definição de "rico" é: aquele que tem mais do que eu)
Assim, os ricos
preocupam-se com eles, não com a sociedade, tal como toda a gente. Aprenderam
que se cada um tratar de si, todos beneficiam. Se a economia não cresce, a culpa
será de alguém mas não deles, porque eles estão a fazer o que é suposto:
tratarem deles! Não é essa a base da microeconomia? Mas se não cresce, ai
alguém vai empobrecer para que eles continuem a enriquecer. Portanto, olhem,
aguentem-se! Afinal, ainda estamos melhor que as crianças do Biafra (Lagarde)
ou que os sem-abrigo (Ulrich)...
Comprendamos: os
ricos não vão resolver o problema do nosso empobrecimento, nem os conselhos dos
economistas de serviço nos servem: eles são todos microeconomistas e estão a
defender os seus interesses imediatos.
Por outro lado,
não pensemos também que vamos resolver o nosso problema à custa dos ricos. Não
vamos.
(continua)
terça-feira, abril 02, 2013
A Afectividade serve a Evolução
Observem a
fascinante sequência de operações realizadas por este vírus (todos os vírus têm
processos de complexidade semelhante); dado que um vírus está para uma célula
como um barco a remos está para um porta-aviões, podemos perceber que as
células desenvolvem operações de uma complexidade avassaladora.
(continuação da conversa com o Hans, interrompida pelos últimos 2 textos)
“- Sim, sem
dúvida que é esse processo, H+S+R, o responsável pela evolução tecnológica, mas
tem por detrás a inteligência humana; como é que passas daí para a Evolução da
Vida sem meteres uma inteligência exterior, um Criador?”
- Estás certo, a
evolução tecnológica resulta de um processo de Inteligência que é exterior ao
que evolui. Porém, isso, parecendo pertinente, é um falso problema pois a
Inteligência ser exterior não é relevante, o que é relevante é que exista um
processo de inteligência capaz de suportar a evolução observada.
- Então era
preciso que a Vida fosse Inteligente, mas isso parece-me um salto muito grande,
não estou a ver as nossas células a desenvolverem processos H+S+R... ainda se
fosse só H+S como o Darwin propôs... mas como é que a célula pode adquirir o
conhecimento resultante de uma experimentação? Não estou a ver...
- O nosso cérebro também realiza esse
processo H+S+R sem precisar de uma inteligência exterior sempre que temos de
resolver um problema novo. Uma estrela-do-mar também e não tem cérebro. O
cérebro tem Inteligência, é um sistema organizado para maximizar essa capacidade,
mas a Inteligência não é exclusiva do cérebro.
-Sim, eu sei o
que pensas sobre o assunto; mesmo assim não estou a ver como uma célula pode
realizar um processo H+S+R...
- Bem, as
bactérias realizam-no, não é? Encontram soluções para os seus problemas
ambientais, adquirem esse conhecimento e transmitem-no umas às outras. Na
verdade, as bactérias realizam também processos de inteligência de nível 3, mas
isso veremos mais adiante. Em relação a este nível 2, o H+S+R, nas células
passa-se algo semelhante ao processo que o cérebro desenvolve: a célula gera
mudanças no código genético e seleciona uma que seja viável, ou seja, que gere
proteínas viáveis e que seja compatível com certos equilíbrios, tal como o
inconsciente escolhe uma hipótese que esteja de acordo com as suas verdades;
depois nasce um ser com esta modificação, esta “Ideia”. Ela determina uma
pequenina mudança no ser, nada de dramático, nada que o ponha em causa. Durante
a sua existência, o ser verifica se esta diferença para os seus semelhantes lhe
traz vantagem ou desvantagem e de que tipo. Esta informação é adquirida pelas
células, elas estão todas em permanente comunicação umas com as outras, dispõem
de um complexo e sofisticado sistema de comunicações, é esse sistema que
permite, por exemplo, que cada célula saiba a função que lhe compete no
organismo.
-Ok, eu sei que
têm esse sistema, mas e daí?
- Daí, as células
reprodutoras recebem essa informação e ela vai condicionar a modificação
seguinte a efectuar pelas células reprodutoras; o próximo descendente nasce
equipado com a segunda Ideia. – Fiz uma pausa, aguardando a reação.
- Beeemm… não me
parece disparatado de todo… tenho lido umas coisas sobre a epigenética… creio
que já li um texto teu sobre a Evo-Devo... há muito quem pense que a experiência
de vida dos progenitores pode influenciar as características dos descendentes…
- De várias
maneiras até, mas o que interessa agora é o seguinte: tal como a primeira ideia
que temos para resolver um problema é normalmente má, também a primeira modificação,
mutação, tem consequências desfavoráveis para o ser; o processo de Inteligência
precisa de recolher informação sobre essas consequências e gerar uma segunda
“ideia”, ou seja, uma segunda geração. Para que isso seja possível, é
indispensável que este ser mutante e menos apto se reproduza. Se existisse algo
como a Seleção Natural, o processo de Inteligência H+S+R não poderia funcionar
porque não haveria uma segunda “ideia”, ou seja, uma segunda geração; a
reprodução é essencial e a seleção é de todo indesejada no nível 2, a natureza
não quer fazer seleção nenhuma dos seres. A sobrevivência ou não, a reprodução
ou não, é sobretudo um resultado das circunstâncias, um acontecimento
aleatório, irrelevante para a evolução; na verdade, uma inconveniência para a
evolução.
- Ena, com essa
estás a cilindrar-me!!!! O Darwin disse o oposto!
- Já vamos ao
Darwin – ri-me – Estamos a chegar à parte verdadeiramente interessante; ora
repara ainda no seguinte. Fiz uma pequena pausa, precisava de beber água, pedi
outra garrafa. Enquanto não chegava, continuei:
- Essas pequenas modificações têm minúsculas
consequências; se o ser vive folgadamente, sem ter de se esforçar, de se levar
aos limites, os efeitos das modificações não são detectáveis, não há
realimentação, o nível 2 não funciona. Portanto, os veículos especialmente
úteis ao processo evolutivo são os seres sujeitos a situações adversas,
sobretudo em inferioridade com os seus semelhantes porque o principal fator de
stress é a competição com eles. Ou seja, são os seres com alguma inferioridade,
nomeadamente mais pequenos, mais frágeis, menos bonitos, etc. Estes são os
primeiros responsáveis pela evolução. Portanto, exactamente aqueles que segundo
a versão corrente da teoria de Darwin seriam eliminados. A Evolução é obra dos
menos aptos, os mais aptos são inúteis para ela.
Os olhos do Hans
ficaram esgazeados; senti-me feliz, ele tinha percebido. Entusiasmou-se
subitamente:
- Claro! É por
isso que a Evolução dispara nas situações de adversidade, porque são aquelas
que tornam todos os seres menos aptos, e é essa situação de um ser se sentir
pouco apto que força a evolução!
- Exacto. E não
só. Quando as espécies estão muito otimizadas para um nicho ecológico, qualquer
alteração tem consequências negativas e não há mais evolução. Uma forma de
impedir a evolução da sociedade humana é através da discriminação acentuada das
diferenças, o que torna os efeitos de qualquer modificação excessivamente
negativos e bloqueia o processo evolutivo da sociedade. Alguma adversidade é
bom mas não pode ser tal que torne demasiado perigoso para um ser ter alguma
mutação. É por isso que as águias só têm um descendente por ninhada.
- O quê? Como é
isso?
-Vamos então ao
Darwin. Um peixe fêmea pode pôr um milhão de ovos mas só alguns sobrevivem;
para o Darwin, os sobreviventes teriam sido “selecionados” mas não é verdade,
tiveram apenas “sorte”. Os grandes predadores, ao contrário, geram pouquíssimas
crias porque a sobrevivência delas depende muito menos do acaso, da sorte. O
número de descendentes parece depender essencialmente da necessidade de fazer
face às mortes por acaso (doença, acidente, predadores) de forma a manter a
espécie a reproduzir-se. As águias apenas geram um descendente por ano, apesar
de porem 2 a 3 ovos, consoante as espécies; mas se nasce mais de uma cria (os
ovos caem do ninho, há predadores, nem todos eclodem), então, ou uma das crias
assim que nasce atira a outra fora do ninho ou os pais alimentam apenas a
primeira nascer; ora se a evolução dependesse de um processo H+S, como proposto
pelo Darwin, as águias teriam muitos descendentes, que sobreviveriam até à
maturidade, e só aí seriam sujeitos a uma qualquer “seleção natural”. Num
processo H+S+R, ao contrário, não é o número de descendentes que mais importa –
o que importa é que eles se reproduzam e que a população esteja em equilíbrio
com o meio para que a adversidade não seja excessiva.
- Então aquela
ideia de que as espécies se reproduzem em grande quantidade para que a Seleção
Natural faça a sua escolha não está certa?
- Evidentemente
que não; a taxa de reprodução parece ser a adequada a assegurar a manutenção da
espécie em equilíbrio com o seu meio e fazer face às suas variações, apenas
isso; o milhão de ovos dos peixes ou o descendente único das águias conduzem apenas
a isso, nada têm a ver com a evolução. Se tivessem, os peixes estariam em
evolução aceleradíssima...
-Estou a ver...
mas como encontram as espécies esse equilíbrio reprodutivo?
- Penso que o
ponto de equilíbrio é quando a principal causa de morte passa a ser o conflito
entre os indivíduos da mesma espécie. Ou seja, aquilo que segundo as ideias
correntes seria desejável para promover a seleção é exactamente o ponto de
alarme da reprodução. Mas agora chamo-te a atenção para outra coisa muito
interessante, a raiz da solidariedade.
- A raiz da
solidariedade? Que queres dizer com isso?
- A Evolução
depende da sobrevivência dos menos aptos; portanto, podemos esperar instintos
que velem por isso, tal como temos o instinto maternal para velar pela sobrevivência
das crias. Neste caso, temos a solidariedade e a compaixão. A compaixão
funciona a nível individual mas quando os seres se organizam em sociedades, a
compaixão torna-se solidariedade, um instinto social. A chave da evolução, seja
dos seres vivos ou da sociedade, é a Solidariedade, não é a Seleção. E esta,
hem?
- Páaa... com
essa impressionaste-me... estás a recuperar o conhecimento dos antigos; afinal,
é isso que dizem os livros religiosos... compaixão, solidariedade... estás a
falar do Amor nas suas várias formas... estás a dizer que a chave da Evolução é
o Amor! O Hans estava entusiasmadíssimo com a sua descoberta.
- Olha, bem
visto, não tinha pensado nisso... sim, podemos pôr as coisas nesses termos, o
Amor pelos outros é o instinto que suporta a evolução da Vida... bem visto...
- Beeemm, já
estou a imaginar umas conversas que vou ter com uns amigos que são grandes
entusiastas de Darwin... vão passar-se com essa ideia! O Hans parecia-me já um
pouco alegre demais, seria das cervejas? Achei por bem esfriá-lo um pouco:
- Nota que o
Darwin não disse asneiras; ele nunca falou da “sobrevivência dos mais aptos”,
essa frase nem é dele. O Darwin foi muito mais brilhante do que isso.
(continua)
Etiquetas:
A Evolução da Vida,
Hans,
inteligência,
Sociedade
terça-feira, março 26, 2013
Economia, Egoísmo, Altruísmo e Darwin (2/2)
Para desenharmos
a sociedade humana precisamos de saber qual é o objetivo a atingir. E não há
muitas dúvidas a esse respeito: o objetivo é a Evolução da sociedade.
O problema é
saber como se faz a sociedade evoluir. A História mostra que temos andado em
altos e baixos, civilizações que avançam e recuam. A construcão da sociedade
humana não é algo que decorra naturalmente das nossas características e
instintos, pois se temos características que a favorecem, temos outras que
podem conflituar com ela.
Como se pervertem as ideias
Uma das nossas
características que gera mais problemas é o Egoísmo de curto prazo; a nível das
relações pessoais e de vizinhança, somos capazes de lidar com ele porque
rapidamente aprendemos que ele nos é prejudicial, mas para sociedades grandes,
onde as pessoas não se conhecem, foi preciso inventar a Religião de Estado, que
pôde estabelecer comportamentos em prol da sociedade usando um chicote, o medo
de um Deus colérico, e uma cenoura, a promessa de um paraíso eterno.
Esta solução tem
uma limitação: só funciona enquanto as pessoas acreditarem na existência de um
Deus castigador.
As elites antigas
sabem que esta solução lhes é vantajosa, porque a Igreja prega a obediência, a
pobreza e a subserviência. As elites antigas, representadas pelos partidos da
direita, defendem esta solução para combater o destruidor egoísmo e para
manterem os seus privilégios, atribuídos à divina preferência.
Porém, a
diminuição da influência da Igreja abriu a necessidade de arranjar um novo
suporte para o direito a privilégios dos mais ricos: já que esse direito não
podia ser de origem divina, precisaram de outra origem; e foram buscá-la à
teoria de Darwin; este constatou, da sua observação da natureza, que:
“It is not the strongest of the species that survive, nor the
most intelligent, but the one most responsive to change.”
Isto foi resumido
à ideia da “sobrevivência do mais apto”, uma frase que, contrariamente ao que
quase toda a gente pensa não é de Darwin mas do filósofo Herbert Spencer, e que
contrariamente ao que toda a gente diz não traduz a ideia de Darwin; a partir
desta frase passou-se à conclusão de que os mais bem sucedidos, ou seja, mais
ricos, eram os mais aptos, logo os escolhidos pela natureza, o futuro da espécie,
aqueles a que se deveria dar todo o apoio, conceder todos os direitos porque
seriam eles o motor da evolução. Os outros têm apenas os direitos que os mais
ricos, na sua sabedoria, lhes concedem e enquanto lhes concedem.
Esta ideia casou
muito bem com a ideia anterior de Adam Smith de que "se cada indivíduo
prosseguir o interesse próprio, frequentemente promove o interesse da sociedade
de maneira mais eficiente do que se efectivamente tencionasse promovê-lo". Isto
é verdade mas está longe de ser o equivalente a dizer que se cada um agir em
função do seu interesse imediato, todos beneficiam, que é a forma com que essa
afirmação é usualmente apresentada. Ou seja, tanto a ideia de Adam Smith como a
de Darwin foram desvirtuadas para servir os interesses dos ricos. A de Adam
Smith defende o direito de cada um, ou seja, toda a gente e não apenas os
ricos, a prosseguir os seus interesses, contrariamente à ideia anterior
veiculada pelas elites e pela Igreja. Como os ricos têm mais capacidade de
promover os seus interesses do que os pobres, esta ideia sem mecanismos que
garantam aos pobres capacidade competitiva resulta em puro benefício dos ricos.
O resultado
prático destas ideias foi o foco na atividade produtiva como motor da economia,
assente na exploração dos empregados, o que conduziu à grande depressão. A
solução para sair dela veio pela mão de Keynes e de outras pessoas que
aplicaram o seu tipo de ideias, como o Ford. Keynes inverteu o motor da
economia, que passou a ser o consumo. Segundo Keynes, o dinheiro dos pobres
gerava procura e a procura é que fomentava a produção. O dinheiro posto no
bolso dos pobres tinha um factor multiplicativo da economia e por isso a
economia devia ser desenhada para que a riqueza produzida circulasse de volta
para os consumidores. As sociedades por acções, pagantes de dividendos, eram
uma forma de o conseguir. As diversas medidas postas em prática para realizar
as ideias de Keynes geraram o enorme boom de desenvolvimento ocidental que
serviram para estabelecer a ideia de que o capitalismo era o melhor sistema
possível.
No entanto, as
desvirtuadas ideias de Darwin e Adam Smith estavam mesmo ali à mão para
suportar todas as ganâncias, (a ganância chegou a ser considerada uma
qualidade) e as ideias racistas e as teorias de que os mais ricos são o escol
da humanidade e os restantes os falhados da evolução cuja sobrevivência apenas
acontece na medida das conveniências dos mais ricos e até por caridade destes.
Isto não é
falado, mas muita gente, essencialmente mulheres, foi esterilizada contra
vontade ao longo do século XX nos nossos “civilizados” países. A eugenia, uma
prática logicamente decorrente destas ideias, foi institucionalizada em todos
ou quase todos os países onde a revolução industrial fez surgir as novas
elites. Na Suécia apenas foi abolida em 1976!!! Já depois do nosso 25 de
Abril...
Os mecanismos
postos em prática para implementação das ideias de Keynes foram sendo
sucessivamente destruídos, dando o poder absoluto aos ricos. Os lucros das
empresas passaram a ficar no bolso dos grandes accionistas, nomeadamente
através dos ordenados dos administradores, os dividendos passaram a ser
simbólicos, a bolsa tornou-se um casino, a especulação financeira ficou
descontrolada, as leis antimonopólio postas de lado. A Globalização veio ajudar
ao desmantelar da estrutura Keynesiana, que ficou reduzida ao esquema de
proteções sociais, que impediam o excessivo empobrecimento das pessoas. O
objectivo atual é acabar com ele, deixando toda a gente na completa dependência
dos ricos; isso tornou-se fácil porque os ricos não pagam impostos e assim o
estado social tem de ser sustentado pelos ordenados dos empregados e pequenos
empresários e estes não ganham o suficiente para tal. Já está estabelecido no
ocidente que os direitos dos ricos não podem ser beliscados, os outros não têm
direitos, apenas a ilusão que os ricos lhes consentem. As Constituições são
torneadas com o argumento das necessidades especiais da situação.
Alimentando a Cultura do Egoísmo
Os economistas
“mainstream” trabalham para os ricos; assim, a habilidade que lhes interessa,
aquilo que as escolas de economia ensinam, é como enriquecer os ricos. A sua
especialidade é inventar processos de retirar dinheiro às pessoas para dar aos
ricos. As consultoras quase só tratam de despedimentos e redução de ordenados,
os financeiros inventam esquemas de extorsão. Linhas telefónicas de valor
acrescentado cujo único objetivo é vigarizar as pessoas são legais e quem é
enganado não tem recurso. Um bom gerente de conta, pelo menos para alguns
bancos, é alguém que seja um bom vigarista; é por isso que de vez em quando há
fraudes bancárias, as pessoas que eles contratam para vigarizarem os clientes
às vezes não resistem a vigarizar para além do previsto
Nas escolas de
hoje, no ocidente, o que se ensina às criancinhas é o direito dos mais ricos a
terem direitos. É fácil encontrar livros para crianças que sob a capa de
tratarem da evolução das espécies mais não fazem do que a apologia do direito
dos mais ricos. É a nova Religião, agora sob a capa da Ciência. Os construtores
de “religiões” optam agora pela Ciência em vez da Divindade, pois a Ciência
tornou-se mais credível.
Este descalabro
não acontece contra a vontade das pessoas; na verdade, a classe média
portuguesa é grande responsável por isto, achando que o bom é um sistema em que
cada um trate de si e os outros que se cuidem. Se alguns professores levassem um
pouco mais a sério a sua profissão, não havia 40% de abandono escolar; mas a
verdade é que para a classe média isso não é visto como um “mal” mas como um
“bem” porque aumenta as possibilidades de sucesso dos seus filhos. Ou pensam
que há alguma dificuldade em acabar com o abandono escolar? A única dificuldade
são os interesses da classe média. O mesmo se pode dizer de quase qualquer
profissão, onde gente suficiente não está nada interessada em contribuir para o
bem colectivo mas em tratar da sua vidinha. Por outro lado, se as pessoas não
comprassem tantos carros novos e tão caros, a nossa balança externa estaria
muito melhor. Se não comprassem tantas roupas e sapatos importados, a nossa
indústria estaria muito melhor. Se não comprassem tantos produtos alimentares
importados, o Pingo Doce e o Continente teriam de ter uma política diferente em
relação aos produtores nacionais. São estas coisas que fazem da Dinamarca um
país onde não há descartados nem crise. É a classe média que dá o poder aos
ricos porque adopta como comportamento o egoísmo de curto prazo convencida que
isso a favorece mas a prazo quem ganha são os ricos. E agora algo relevante:
não é a classe média toda; na verdade, é apenas uma minoria, 10% a 15% dela. No
entanto, perante a complacência dos restantes, esta minoria é suficiente para
gerar este descalabro.
Felizmente há mais mundo
Noutras partes do
mundo nada disto se passa, não porque as pessoas sejam melhores ou mais sábias
mas porque os governantes estão obrigados a desenvolver a sociedade toda para
ela poder sobreviver no contexto global. O indicador que interessa, que pode
ser tomado como objetivo sobre o qual se pode actuar directamente, ao contrário
do PIB, é o nível de vida dos mais pobres. Esse é o “rato que tem de ser caçado
e não interessa se o gato é branco ou preto”. Ou seja, não interessa se se
aplica as ideias de Adam Smith ou Keynes ou seja o for, o que interessa é a
chegar a resultados. Foi assim que os chineses começaram o seu desenvolvimento.
Mas nem foram os primeiros a perceber isso: antes deles já os nórdicos
(Dinamarca, Suécia, e Finlândia) o tinham percebido e adoptado como orientação
“não deixamos ninguém na valeta”. Isto não significa caridadezinha, significa
que a todas as pessoas são dados máximos conhecimentos para serem úteis à
sociedade, protecção para não serem explorados e condições para serem
competitivos. Nomeadamente, significa um grande investimento na educação, o
abandono escolar é coisa impensável, controlo da actividade financeira para
garantir adequadas condições de competitividade de toda a gente e controlo da
balança externa
Há regras que
mudam tudo; uma é que o investimento estrangeiro só é autorizado se for um
investimento que possa gerar desenvolvimento. Investimentos apenas para
aproveitar vantagens comparativas, daqueles que se limitam a pagar uns
ordenadozitos, que é o tipo de investimento estrangeiro que cá se faz, não são
autorizados. Para conseguir isso, uma regra é a necessidade de ter um sócio
nacional, tipicamente 50% de comparticipação nacional. O sócio pode ser uma
empresa do Estado. Esta regra já é seguida em praticamente todo o mundo (exceto
aqui). Esta regra garante que pelo menos metade dos lucros fica no país e que a
actividade interessa ao país, vai gerar desenvolvimento e subida do nível de
vida dos mais pobres. (claro que surge logo o negócio de cobrar uma taxa para
se fingir que é sócio, mas o balanço final do sistema é positivo para o país e
é por isso que ele se tornou quase universal).
Outra regra é a
de que os lucros gerados no país têm de pagar impostos no país, exceto no que
for reinvestido no país. Isto de os lucros irem direitinhos para offshores e
não pagarem impostos não acontece nem nos EUA. Já ninguém pensa em ter uma
empresa em Portugal que não tenha sede na Holanda. De que nos serve a Jerónimo
Martins? Parece que não contribui em nada para a produção nacional mas, pelo
contrário, esmaga-a, e os seus lucros vão para a Holanda. A sua contribuição
para as balanças externas será negativa, ou seja, contribui para o nosso
empobrecimento.
Para acabar com
os “descartados” bastará um investimento da ordem dos 5% do PIB. Não há
dinheiro para isso, diz-se na europa do euro, mas deixa-se muito mais do que
isso ser transferido para offshores.
Estive na China
há dois anos; uma das inúmeras coisas que me surpreenderam foi a vaidade que
eles tinham nos indicadores que para nós “são um problema”, nomeadamente o
número de centenários – já estavam em segundo no ranking mundial, diziam com
orgulho; a qualidade de vida dos velhos é uma preocupação constante e em todo o
lado se viam os jardins cheios deles, aulas de ginástica e dança para velhos
gratuitas por todo o lado. Aprendi muito sobre economia na China, é fantástico
as soluções que se encontram para levar ao desenvolvimento de toda uma
sociedade quando se deixa de funcionar por “teorias” e se passa a resolver
os problemas um a um.
Os “Sábios” que nos (des)governam
Recentemente, o
FMI fez uma descoberta fantástica: a austeridade tem um factor recessivo maior
do que 1! Espanto dos espantos. Os nossos brilhantes economistas, do ministro
aos comentadores dos media não cabiam em si de espanto. “Uma coisa dos países
do Sul”, disseram alguns. Então estes economistas não sabem que isso é a base
de toda a teoria de Keynes? Isso é que é verdadeiramente espantoso. O FMI e
estes economistas que nos (des)governam não sabem o B-A-BA da teoria económica!!
Como diz um dos
meus leitores, os economistas de hoje são como os padres de antigamente,
convencem os pobres de que lhes cabe ser pobres, até é uma sorte terem o pouco
que têm, e que os ricos são intocáveis. Não é isso que eles dizem cada vez que
abrem a boca? A verdadeira economia paralela é a dos ricos, pois não pagam
impostos, com uma agravante: enquanto a economia paralela dos pobres alimenta o
consumo e este a economia, a dos ricos não, os seus ganhos simplesmente se
amontoam na banca, alimentam a economia dos artigos de luxo, que é a sua
economia privada, e empobrecem a economia que serve todas as outras pessoas.
Quanto aos investimentos dos ricos, eles destinam-se essencialmente a diminuir
postos de trabalhos, directamente ou pela realização de “sinergias” através da
compra de empresas, e a eliminar concorrência.
Assim, enquanto
algumas partes do mundo já estão para além do Keynes, na Europa do Euro estamos
anteriores ao Adam Smith; a consequência fatal é que vai haver um enorme
estouro, não vale a pena ter ilusões. Não pensem que a Alemanha está a ser
“injusta” ou “exploradora”; penso é que a Alemanha está aflita, o seu sistema
bancário deve estar um caos, apenas a ilusão de que ela está bem permite
esconder o cancro que a corrói. Mas não se pode enganar toda a gente durante
todo o tempo, e penso que em breve a Alemanha entrará em recessão e aí não
haverá troika nem FMI nem fundos europeus que aguentem o desastre. Isto porque
na Alemanha, tal como aqui, o dinheiro vai para offshores e os ordenados são
miseráveis; ganham mais do que nós? Pois ganham, mas raramente há dois empregos
numa família e os seus custos de sobrevivência são muito mais altos. Ou seja, o
poder de consumo é baixo e está a baixar, com a importação de empregados
doutros lados, como Portugal. Os empresários baixam os custos mas aniquilam o
mercado interno; e este é que domina a economia, embora não pareça pela
conversa dos economistas e políticos. Na Alemanha, os 50% mais pobres recebem
1% da riqueza, segundo o Soromenho-Marques (Visão); ou seja, já metade da população foi
“descartada”.
Os comportamentos
de egoísmo de curto prazo exacerbam-se quando no horizonte não há esperança de
crescimento. É por isso que a Europa vai fechar-se nos egoísmos e afundar-se
com fragor, porque esse é o caminho oposto ao da salvação.
Uma das razões
porque este bicentenário do Darwin foi tão badalado é porque era uma
oportunidade de agitar a bandeira do “cada um por si”, tão conveniente aos
ricos, certificando pela Ciência que eles têm mais direitos que os outros,
outorgados pela Mãe Natureza.
A minha esperança
Subscrever:
Mensagens (Atom)
