"muitos governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito tempo"; ele está convencido de que já ganhou a guerra contra os povos, um sonho dos plutocratas com mais de um século.
O primeiro
problema que temos para resolver é o da falta de dinheiro.
Compreendamos
primeiro a trama perversa em que estamos enredados.
O dinheiro foi
inventado para mediar as trocas de bens e serviços. O dinheiro foi inventado
para ser o sangue da sociedade. O dinheiro é propriedade da sociedade, não é um
bem privatizável, evidentemente! Privatizar o dinheiro seria criar o monopólio
dos monopólios. O dinheiro é como o sangue, e o sangue não se compra nem se
vende.
Isto é bem
sabido e foi afirmado inúmeras vezes pelos mais ilustres estadistas, no tempo
em que os políticos eram pessoas que sabiam de política. É por isso que a
gestão do dinheiro sempre foi feita pelo Estado, dependente de governantes
eleitos.
Uma sociedade é
como um corpo: cresce. E, ao crescer, e para crescer, precisa de mais sangue,
ou seja mais dinheiro. Essa produção de dinheiro era feita pelo banco central
sob a supervisão do Estado, dos governantes eleitos.
O Dinheiro é uma
das duas coisas que são essenciais a uma sociedade humana. A outra é a garantia
de que todas as pessoas têm direito a uma vida minimamente digna. A sociedade
pretende substituir a selva, a natureza; e a natureza garante a subsistência
aos seus habitantes. A sociedade tira as pessoas da natureza mas tem de lhe
garantir o mesmo que a natureza garante ou não interessa. Isto foi sempre uma
preocupação fundamental das sociedades humanas estruturadas.
A isto se chama
agora “o Estado Social”. É uma redundância, porque o Estado ou é social ou não
é Estado; a única coisa que varia é o conceito de “vida minimamente digna.”
O testa de
ferro da oligarquia plutocrata que tenta dominar a Europa desde o princípio do
século passado, o sr. Draghi, está já tão seguro do seu sucesso no derrube dos
dois pilares do Estado que se permite declará-lo; assim, há tempos declarou que
“o Estado social já tinha acabado” e muito recentemente declarou que “muitos
governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito
tempo” (eu andava à espera de uma coisa deste género para publicar este texto,
doutra forma os meus leitores pensariam que eu estou a delirar). Um profeta,
este Draghi.
Porém, de
profeta não tem nada porque ele sabe bem do que fala. A grande golpada
consistiu nos estatutos do BCE, que lhe deu a propriedade do sangue da
sociedade, o dinheiro. Ele é o novo Hitler.
O esquema
montado é tão absurdo que as pessoas nem percebem, não acreditam que assim
seja, acham que não é possível; mas é.
O BCE ficou com
o nosso sangue, pois o seu capital foi-lhe dado pelos Estados; depois empresta
à Banca a juro tendencialmente nulo; e a Banca devolve-nos o nosso sangue
cobrando juros usuários. O Sangue da sociedade foi assim privatizado e de
borla, sendo agora gerido, pelo BCE e pela Banca, quase da mesma forma que as
petrolíferas gerem o petróleo. Digo quase porque, na verdade, é muito pior.
Por exemplo, o
BCE obriga-nos a aceitar um empréstimo de 12 mil milhões de euros, do qual
estamos a pagar juros elevados, para garantir que os bancos, em caso de
necessidade, têm os rácios que o BCE acha adequados – note-se, a banca
portuguesa já declarou que não precisa de 7 mil milhões desse dinheiro, mas o
BCE obriga-nos na mesma a pagar juros dele, juros de coisa nenhuma porque é
como se esse dinheiro não existisse, não pode ser usado. São 300 milhões de
euros por ano a troco de coisa nenhuma...
Por outro lado,
se o BCE é independente dos Estados e o dono do dinheiro, cabe-lhe a ele
assumir as responsabilidades sobre os bancos; mas não, nós é que estamos a
pagar para isso; e pior ainda, nos bancos que precisaram de dinheiro, o Estado
foi obrigado a entrar no capital do banco; para quê? Para, se o banco não
conseguir resolver os seus problemas, ficar automaticamente nacionalizado, ou
seja, o toooodo o seu prejuízo fica para nós, como o BPN.
Isto nunca se
fez nem aos países conquistados após dura guerra. Isto é terrorismo económico,
exploração infame, roubo descarado.
Por outro lado,
a destruição do direito à vida condigna, em curso, visa a destruição da
sociedade e a criação em seu lugar de um sistema de senhores e escravos; porque
numa sociedade organizada só os escravos não têm esse direito.
Em cúmulo de
todo este horror, note-se que vivemos na era da abundância, somos capazes de
produzir tudo o que necessitamos, tudo o que somos capazes de consumir, e muito
mais, dez vezes mais, a única coisa que limita a produção é a capacidade de
consumir; e o que limita o consumo é a redistribuição de riqueza.
Portanto,
compreendamos, fomos assaltados, roubados, conquistados. Roubaram-nos o sangue
e estão a deixar-nos anémicos, indefesos, a asfixiar-nos! Claro que também
temos culpas, mas elas estão a ser usadas como argumento para nos roubarem, não
nos deixemos enganar com a conversa culpabilizadora.
Por último,
esta destruição dos Estados não visa criar espaço para a criação de uma
verdadeira união europeia, uma sociedade democrática europeia, visa apenas, ao
que entendo, estabelecer um poder oligárquico plutocrata sobre uma sociedade escravizada,
um sonho que vem a ser perseguido desde o princípio do século passado.
E agora vem o
mais absurdo de tudo: é que nós estamos a deixar!!!
Porque,
entendamo-nos, o dinheiro não é uma criação da natureza, é uma criação nossa!!
Está na nossa mão criar o dinheiro de que precisamos. Não temos de ir neste
engano. Além de roubados, estamos ainda a ser vigarizados, ludibriados, com a
ideia de que o sangue que existe é só o Euro e não há mais nenhum, ou usamos o
Euro ou morremos de anemia. É MENTIRA!!!
Uma vez
compreendido isto, só temos de ser espertos e encontrar uma solução. E, na
verdade, nem temos de ser muito espertos, pois os alemães já passaram por algo
semelhante a seguir à primeira grande guerra e desenvolveram uma solução, que
já expus aqui: as MEFO bills. Notas de
crédito que substituíram o dinheiro controlado pelos vencedores da guerra.
Agora é preciso
alguma imaginação para implementar o sistema. Uma forma de começar é a
seguinte: em vez de cortar ordenados e pensões, o Estado passa a pagar parte
deles em vales, notas de crédito, certificados. Que o Estado aceita para o
pagamento parcial de impostos e contribuições.
(e aqui até
poderão ser tomadas medidas de correção de outros gritantes roubos; por
exemplo, as pensões vitalícias dos ex-governantes do BP podiam ser
integralmente pagas em vales, uma vez que essas pessoas não descontaram para
essas pensões e não é legítimo estar a exigir aos portugueses que lhes paguem
pensões milionárias que eles se autoatribuiram fazendo uso de poderes que se
autoconferiram.)
Poderão dizer:
mas se o Estado aceita parte dos impostos em créditos, as receitas em euros do
Estado vão diminuir e depois fica sem dinheiro para pagar a dívida. Não é
verdade. A redução dos salários e pensões reflecte-se ampliadamente nas
receitas do Estado por causa do seu efeito recessivo, que até o FMI já diz ter
um factor multiplicativo maior que 1 (1,3 +- 0,4 dizem eles; o que só nos pode
levar a pensar que é ainda superior). A substituição dessa redução por notas de
crédito vai evitar o efeito recessivo e por isso conduzirá a uma cobrança de
impostos maior.
Isto é um
começo apenas; podemos fazer também como fazem há muito certas regiões da
Alemanha e suponho que em Inglaterra também: dinheiro de circulação regional,
válido numa cadeia de produtores e comerciantes locais ou regionais; ou
nacionais. Creio que os gregos já começaram a fazer isto.
Não interessa
de que cor é o sangue, não interessa se é vermelho ou azul, ou mesmo amarelo, o
que interessa é que cumpra a função de mediar bens e serviços. Temos de criar o
nosso próprio sangue e, a pouco e pouco, ir despejando as veias do sangue
envenenado do Euro. Porque, não haja ilusões, os euros vão desaparecer dos
nossos bolsos de qualquer maneira; e ou pomos lá outra coisa ou ficamos
miseráveis. E quem duvida só tem de por os olhos na Grécia.
Claro que o
Estado vai ter de fazer mais do que substituir parte dos encargos com pessoal
por créditos pois, contrariamente ao que constantemente afirmam os indivíduos
que nos andam a enganar, o Estado apenas gasta 70% das suas despesas em custos
de pessoal; ora o Estado não é uma fábrica, não consome matérias primas, os
seus custos são necessariamente quase todos com pessoal; se ainda há 30% de
despesas para além do pessoal, é porque há muito onde cortar. Por exemplo,
trocar Microsoft por Linux que é gratuito e mais seguro, acabar com as
calculadoras científicas nas escolas porque não servem para nada desde que se
inventaram os PC, fazer um acordo com a Fiat, ou a Dacia, para fornecer as
viaturas do Estado e empresas públicas, cortar nas despesas luxuosas da AR e do
PR; estamos em guerra, não há lugar para pieguices, não se ganham guerras com
políticos piegas que cortam a sopa aos pobres mas não prescindem das suas
ostras. Este é o tipo de medidas que mostra aos mercados – e aos portugueses -
que temos um governo empenhado em resolver o problema, que granjeia respeito e
confiança.