quinta-feira, março 07, 2013
A Importância da "Caixa Negra"
(continuado)
(aqui se fala do
que é o Bem e o Mal, do nível 2 de Inteligência e da importância de aprender
com os erros)
Caixa negra do avião que caiu ao largo do Brasil; a sua recuperação era essencial para análise do erro, que é essencial ao processo de Inteligência que promove a Evolução em tecnologia.
- Ena, que
ambicioso... terminar o reinado de ideias que minam a sociedade... substituir
pelas ideias que geram a evolução... livra!!!
- Na verdade, não
estou a inventar nada, como verás; mas é interessante o que tenho para dizer
porque cheguei à conclusão de que aquilo que definimos como o “Bem” será afinal
essencial ao processo evolutivo e é exatamente por isso que é o “Bem”. A
Evolução é o comportamento dominante do Universo, o Universo tem pressa de
evoluir, e tudo o que se lhe opõe surge como um Mal e tudo o que a favorece
como um Bem.
O Hans deu um
solavanco na cadeira. Entre o espanto e a descrença exclamou: - O “Bem” é
aquilo que serve a Evolução? É essa a razão de classificarmos uma acção como
boa ou má? Encontraste uma razão objetiva para o Bem e para o Mal? Tens de me
explicar isso muito devagarinho... – concluiu, com ar cético.
-Já vais
perceber. Como estarás de acordo, Evolução exige Inteligência e entender a
Evolução implica entender os processos de Inteligência; este é o busílis de
toda a questão, encontrar um processo de Inteligência natural que seja capaz de
gerar a Evolução até ao Humano e mais além.
- “Encontrar um
processo de Inteligência natural que seja capaz de gerar a Evolução...”
interessante maneira de colocar a questão da Evolução... embora ainda me faça
alguma confusão o teu conceito de Inteligência como um processo natural...
- Pois... é um
passo que tens de dar... essencial! Vê os meus posts mais antigos sobre "Inteligência", talvez ajude.
- Ok ok, mas
continua; que processo de Inteligência natural é esse?
- Já conheces o processo H+S, que eu chamaria
um processo de nível 1; já mostrei que esse processo só funciona em situações
especiais, que é o melhor processo para gerar a Vida mas que qualquer análise
racional conclui fatalmente que não pode explicar a evolução dos animais,
pensar que sim é uma mera crença. Nota que isso não questiona a evolução da
Vida; significa que o processo de Inteligência responsável por ela é mais
sofisticado que o H+S, apenas isso. Precisamos de descobrir esse processo.
- Bem, até posso
concordar contigo; se existir um processo natural mais sofisticado, será ele o
responsável pela evolução... mas que processo é esse?
- Olha, nem
precisamos de procurar longe, está mesmo atrás do nosso nariz...
- Atrás do... na
cabeça?
- Isso mesmo. É o processo utilizado pelo
cérebro quando queremos resolver um problema novo. Evidentemente que não o
fazemos gerando hipóteses ao acaso até encontrarmos uma que o resolve, não é?
- Sim, nunca mais
lá chegávamos... a não ser em casos especiais... usamos a lógica, mas não estou
a ver que isso possa ser um processo usado na Evolução.
- Não é bem assim. Ou melhor, não é nada
assim, a lógica, a dedução, são coisas que usamos à posteriori para organizar o
conhecimento mas não são o processo de descoberta. A descoberta faz-se através
daquilo que muitos chamam Intuição. O Poincaré explicou bem isso, e a
generalidade dos “descobridores” referiu que as suas descobertas vinham da
Intuição e não da Dedução.
-Intuição? Sexto
sentido? Isso é um processo de Inteligência?
- Funciona assim:
primeiro, nas profundezas do nosso cérebro, a nível do inconsciente, é gerada
uma hipótese de solução, por um processo H+S. A Geração da hipóteses é feita
por um processo parcialmente aleatório e parcialmente associativo. A Seleção da
hipótese a este nível inconsciente é feita pela sua compatibilidade com uma
série de conhecimentos que o nosso inconsciente admite como verdadeiros. Uma
vez selecionada, neste nível inconsciente, a hipótese é colocada no consciente.
Dizemos então que tivemos uma Ideia; atribuímos essa ideia a uma “inspiração”,
ou à intuição.
- Bem, é uma
teoria sobre a geração de ideias... há outras, há quem diga que são inspiração
divina, ou que vêm de um repositório de ideias... mas a tua parece-me melhor –
o Hans sublinhou com uma risada curta – e explica o facto de elas surgirem como
por magia, vêm simplesmente de um nível inconsciente.
- Não penses que
esta é a única origem das nossas ideias... – deixei um arzinho de mistério -
... mas é a que usa o processo de Inteligência que nos interessa. Bem,
continuando, a seguir a termos uma ideia vamos testá-la, de forma consciente,
ver se ela “funciona”. Se sim, problema resolvido. Porém, em problemas novos,
raramente é o caso. O resultado do teste fica a ser um novo conhecimento nosso
e um novo processo H+S é realizado então pelo inconsciente e uma nova ideia é
presente ao consciente. E assim sucessivamente até alcançarmos a solução do
problema. Há aqui uma sequência de dois processos: o H+S, que gera uma Ideia, é
realizado pelo inconsciente; a experimentação da Ideia e análise do resultado,
pelo consciente.
- Bem, isso será
um método... mas não estou a ver que na generalidade dos casos seja assim...
- Isso é porque
raramente temos de resolver problemas novos, apenas aplicamos aos problemas
soluções já conhecidas. O nosso cérebro funciona quase sempre no modo “motor de
busca”: a cada problema vai à memória buscar a solução que lá está. Dependemos
da Aprendizagem. Mas como resolvemos assim problemas, temos uma ilusão de
Inteligência; só quando enfrentamos um problema cuja solução não está em
memória e não temos onde a ir buscar, temos mesmo de a construir, aí é que
temos de recorrer a um processo de Inteligência; e esse processo é o que acabo
de te descrever.
- Então e o
conhecimento científico? O Einstein, o Newton, apresentaram um trabalho baseado
na dedução… o Newton até disse que não fazia hipóteses…
- Claro. A
dedução é o cimento do nosso conhecimento. Só que é feita à posteriori. O
Newton, ou o Einstein, primeiro tiveram a Ideia, aliás, muitas ideias, uma
sequência até chegarem à ideia certa, e depois realizaram um trabalho dedutivo
para construir a teoria suportada por essa Ideia. Não vou agora alongar-me
sobre o assunto, escrevi um texto sobre ele, depois lês quando for publicado. –
ri-me, naturalmente, o projecto da coletânea a que o meu texto pertence ainda
está um bocado verde. Sério, o Hans respondeu simplesmente:
-OK OK, por agora
aceito que seja assim; em resumo, tu consideras que o processo de inteligência
responsável pela Evolução é um processo H+S+Experimentação, é isso?
- Bem, é mais ou
menos; esse é o processo que chamo de 2º nível, ainda há o de 3º nível, mas lá
iremos. Para já, repara num aspecto importante do processo de nível 2: o
resultado da experimentação da Ideia é fundamental para a geração da segunda
Ideia. Para a primeira Ideia, o Inconsciente gera hipóteses algo às cegas, vai
buscar relações de semelhança, ou oposição, ou outras, com as características
do problema; para a segunda Ideia, ele já vai fazer uma procura em zonas de
conhecimento mais definidas, graças à análise do teste da primeira. É
esta realimentação que pode permitir encontrar a solução de problemas no caso geral. Ela é essencial ao processo, se faltar ficamos
reduzidos ao processo H+S, apenas complementamos a seleção inconsciente com
outra consciente mas não passamos de um processo de nível 1. Eu chamo a este
processo de 2º nível H+S+Reação porque o que é verdadeiramente relevante para
ele é o resultado da experimentação, a análise do erro.
- Estou a compreender; no fundo, é o que
chamamos “aprender com os erros”; quem não aprende com os erros nunca acerta... tem
apenas inteligência de nível 1... e é mesmo assim que fazemos na inovação
tecnológica, as experiências falhadas são objecto de cuidada análise porque é
ela que vai definir o caminho a seguir... O cerne da investigação em tecnologia
é a análise do que corre mal... Olha, vê o que gastaram para recuperar as
caixas negras do avião que caiu ao largo do Brasil, uma operação que parecia
impossível...
- Bom exemplo! Claro, isso mostra bem a
importância crucial de analisar as causas do erro, não se pouparam a esforços nem
a custos para recuperar as ditas caixas. A evolução tecnológica assenta em duas
coisas: a análise exaustiva dos erros e a capacidade de gerar hipóteses livres
de presunções.
- Sim, sem dúvida que é esse processo o
responsável pela evolução tecnológica, que é a mais relevante evolução da humanidade nos último milénios, mas tem por detrás a inteligência
humana; como é que passas daí para a Evolução da Vida sem meteres uma
inteligência exterior, um Criador?
(continua)
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sexta-feira, março 01, 2013
A Evolução é por camadas e implica Inteligência

A Evolução, como um arcoíris, estrutura-se em camadas
Portanto –
comecei, fazendo um ponto da situação – já deu para perceber que a evolução dos
seres vivos não é muito diferente da evolução das coisas feitas pelo Humano,
nomeadamente dos computadores. Esta resulta da evolução da tecnologia, dos
componentes e dos programas de baixo e alto nível. Cada uma destas 4 evoluções
é independente. Ou seja, as pessoas que trabalham a desenvolver a tecnologia atual,
ou que buscam novas tecnologias, como a orgânica, a quântica, a luminosa, nada
sabem dos sistemas operativos; as pessoas que se ocupam do fabrico dos
microprocessadores e memórias só estão preocupadas em conseguir dispositivos
que realizem o máximo de instruções por segundo (IPS), que minimizem o consumo
de energia, o custo de fabrico; também nada sabem dos programas que hão de
utilizar essas capacidades; mesmo as pessoas que desenvolvem os sistemas
operativos também nada ou quase nada precisam de saber dos programas de
aplicação que sobre eles vão funcionar. É uma evolução por camadas, onde cada
camada depende das capacidades da anterior mas ignora a camada seguinte.
- Estou a
perceber a tua analogia; parece que tens alguma razão, a tecnologia orgânica
que suporta a célula teve que evoluir, necessariamente, não surgiu do nada...
não sei é se ainda evolui, ou quando deixou de evoluir. Da mesma forma, até se
chegar à nossa célula teve de haver um longo processo evolutivo, e sabemos que
este acompanhou a evolução das formas de vida, pois as nossas células são mais
complexas e sofisticadas do que as das bactérias, das plantas e certamente dos
animais inferiores; tu pensas que as nossas células serão mesmo mais evoluídas
que as do chimpanzé, e isso é que eu já não sei se estou de acordo contigo. –
Aqui o Hans fez uma pausa, à espera de uma reação minha, bebeu lentamente um gole de cerveja, observando-me, mas eu mantive-me impávido, forçando-o continuar o seu raciocínio:
– Depois, tu consideras que o programa que define o ser vivo, codificado no DNA, evoluiu aproveitando cada nova capacidade celular; provavelmente, atendendo à analogia que fizeste com os programas de baixo e alto nível nos computadores, suspeito que pensarás que também existe uma programação intrínseca às células, uma espécie de sistema operativo, que determina as operações a realizar pela célula para construir uma proteína a partir do código genético, bem como todas as imensas operações que as células realizam independentemente do organismo a que pertencem; o DNA corresponderá ao programa de alto nível, o programa que define o ser. – Esperto o Hans, percebeu bem o meu pensamento. Confirmei o seu raciocínio:
– Depois, tu consideras que o programa que define o ser vivo, codificado no DNA, evoluiu aproveitando cada nova capacidade celular; provavelmente, atendendo à analogia que fizeste com os programas de baixo e alto nível nos computadores, suspeito que pensarás que também existe uma programação intrínseca às células, uma espécie de sistema operativo, que determina as operações a realizar pela célula para construir uma proteína a partir do código genético, bem como todas as imensas operações que as células realizam independentemente do organismo a que pertencem; o DNA corresponderá ao programa de alto nível, o programa que define o ser. – Esperto o Hans, percebeu bem o meu pensamento. Confirmei o seu raciocínio:
-Acertaste no
essencial. – exprimi um sorriso de aprovação - Isso define uma base para
começarmos agora a analisar como se faz a evolução.
- Pois é, pois é,
- ar malandro aflorou na face do Hans – só há uma pequena grande dificuldade
nesse teu raciocínio que parece tão acertadinho..
- Qual?
- Tu
estabeleceste uma analogia com a evolução dos computadores; mas esta acontece
devido à acção de uma Inteligência exterior, a Humana; ora, sendo assim, a tua
analogia aponta para a existência de uma Inteligência exterior, um Deus; e,
sendo assim, então já não estás a falar de Evolução mas de Criação. – o Hans terminou definitivo; para ele, este
argumento arrumaria todo o meu raciocínio.
- Há um erro no
teu raciocínio, mais uma das presunções que tanto inquinam o nosso pensamento.
– foi a vez do Hans ficar desorientado – Erro? Onde?
- Claro que
Evolução implica Inteligência, seja evolução dos produtos que fazemos ou da vida;
é mesmo por isso que há tantas semelhanças entre a evolução dos computadores e
a da vida, ambas são o resultado de processos Inteligentes; o teu erro é
presumir que a Inteligência que produz a evolução da vida tem de ser exterior a
ela. Estás a presumir que Inteligência é algo que só a nós ou a um Deus
pertence; ora a Inteligência necessária à evolução da vida é intrínseca,
interior, ao sistema vivo, não precisa de ser exterior. Esse é o busílis de
toda esta questão, compreender o processo Inteligente intrínseco à Vida que
gera a Evolução. O grande mérito do Darwin foi ter proposto um tal processo, o
processo de geração de hipóteses e seleção, que é o processo mais básico de
Inteligência. Ao fazer isso, ele criou uma alternativa à Inteligência Divina. É
essa a sua grande, genial, contribuição.
- Ok ok, já me
estou a lembrar do que disseste sobre os processos de Inteligência, de como um
processo H+S é capaz de resolver problemas... – O Hans calou-se por momentos,
pensava em qualquer coisa – Mas.... não começaste esta conversa por dizer que o
Darwin estava errado, como o Ptolomeu, que a Seleção Natural nunca poderia
explicar a evolução dos animais superiores?
- O processo que
o Darwin propôs, o processo H+S, é o processo mais básico de Inteligência; só
funciona em situações muito especiais, quando a probabilidade de gerar e testar
a hipótese certa em tempo útil é aceitável. Serviu para encontrar as primeiras
sequências orgânicas auto-reprodutíveis, depois para obter destas outras mais
complexas e, naturalmente, para se chegar a sistemas com processos de
inteligência mais sofisticados, que foram gerando processos ainda mais
sofisticados até se chegar ao nosso cérebro. A nossa Inteligência não surge do
nada nem da inspiração divina, não é verdade?
- Bem, eu penso
que não é uma inspiração divina... – o meu sorriso enigmático instava o Hans a
prosseguir o raciocínio - ah, estou a perceber-te, se não é de origem divina
mas natural, então teve de iniciar-se num processo H+S; porém, ela é muito mais
sofisticada que um tal processo, portanto é a prova que um processo H+S é capaz
de gerar um processo mais sofisticado de Inteligência, a nossa; e como isto já
é verdade para formas de Inteligência menos desenvolvidas que a nossa, então há
um contínuo de processos de inteligência mais sofisticados que o H+S, o qual só
terá servido para o primeiro passo, para o arranque do processo...
- Ora vês? Desde
que não se presuma que a nossa Inteligência tem origem divina, somos
necessariamente levados à conclusão que o processo H+S, o proposto pelo Darwin,
apenas pode ter servido para o arranque do processo evolutivo da vida, sendo
esta o resultado de processos sucessivamente mais inteligentes. Estes processos
já não funcionam no esquema H+S, portanto a evolução das espécies não resulta
da forma elementar de inteligência proposta por Darwin, não depende de uma
geração mais ou menos aleatória de hipóteses nem de uma seleção natural.
- Bem, estás a
adiantar-te nas tuas conclusões... o facto de depender de um processo mais
sofisticado que o H+S, o que eu aceito, não significa que não dependa de uma
Seleção Natural! Era preciso que soubéssemos como são esses processos
sofisticados para saber se dependem ou não de uma seleção natural!
- Tens toda a
razão; é precisamente por saber que processos serão esses que eu faço essa
afirmação.
O Hans pousou
bruscamente o copo que ia levar à boca e, esbugalhando os olhos, disse: - Ah,
mas isso surpreende-me muito! Nunca me falaste noutros processos de
Inteligência além do H+S... isso interessa-me muito!
(continua)
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sexta-feira, fevereiro 22, 2013
A Célula Evolui!
O "processador central" do computador de Babbage; ver aqui um interessante resumo da evolução das máquinas de computar
(continuação)
O que eu tinha
para dizer sobre evolução era muito diferente de qualquer coisa que o Hans já
tivesse ouvido; há que ter cuidado com a apresentação de ideias novas. Como
disse o Vergílio Ferreira “No
afirmes o erro de uma verdade antes de mudar o seu contexto. A menos que te dê
gozo levar pedradas.” Um sábio o Vergílio; comecei, cauteloso:
- As teorias que
vamos fazendo dependem do entendimento que temos do assunto na altura. Disse o
Heisenberg que por detrás de uma nova teoria está um novo entendimento do
Universo. A teoria do Ptolomeu enquadrava-se no conhecimento do Universo que
havia na altura. Também a teoria de Darwin se enquadra no conhecimento da
biologia que havia na altura. Num e noutro caso, esse conhecimento era muito
limitado e determinou um enorme erro de perspectiva.
- Erro de
perspectiva? De que falas?
- Nós vemos os
seres vivos como complexas estruturas feitas de uma espécie de tijolo a que
chamamos célula. Numa casa, a complexidade está toda na estrutura da casa, não
está nos tijolos de que é feita. Mas nos seres vivos é ao contrário.
- Ao contrário?
- Sim; as células
são imensas estruturas definidas ao nível do átomo, uma complexa máquina
construída átomo a átomo; hoje somos capazes de observar algo da sua
sofisticada maquinaria, as suas complexas capacidades de comunicação, de
analisar como elas são capazes de fazer coisas como reparar um osso partido… já
pensaste na complexidade que é reparar um osso?
- Bem... nem por
isso…
- Pois… é banal,
por isso não pensamos muito no assunto… mas as células têm de ir buscar as duas
partes do osso fraturado, alinhá-lo como se tivessem um GPS e proceder à
reconstrução da estrutura. Isto é duma complexidade transcendente para nós, nem
de longe somos capazes de idealizar dispositivos com inteligência artificial
que fossem capazes de, autonomamente, conseguirem realizar coordenadamente um
trabalho deste tipo; e isto é apenas o exemplo mais simples de que me lembrei,
porque elas fazem coisas muitíssimo mais complexas, como seja a construção do
ser a partir do ovo.- O Hans meditou um pouco e concordou:
- Sim, de facto
isso é quase mágico…
- Contrariamente
à ideia usual, os seres vivos são um pouco como os computadores, cuja
capacidade depende não da sua arquitetura, a mesma ou quase para todos, e
bastante simples, mas da capacidade dos seus componentes, cuja evolução
determina a evolução dos computadores. Podem os computadores evoluir sem
evolução tecnológica?
- Não me parece…
- Pois não; sem a
electrónica ainda estaríamos com o computador de Babbage, sem a
microelectrónica ainda estaríamos com o computador de transístores discretos e
leitores de cartões perfurados; e sem internet, é claro. É também um pouco como
acontece com a sociedade humana; a nossa sociedade não é o resultado da
evolução da sociedade dos macacos, é o resultado de nós termos capacidades que
os macacos não têm e que suportam uma sociedade mais evoluída. Da mesma
maneira, a evolução dos seres vivos é suportada na evolução das suas células. –
Calei-me, à espera da reação do Hans. Primeiro hesitou, depois arriscou:
- E nós? Somos o
resultado da evolução do chimpanzé, ou da evolução das células do chimpanzé?
- Penso que as
células evoluem e depois o ser evolui tirando partido das novas capacidades
tornadas possíveis. Em que é que consiste uma evolução celular? Aparentemente,
na capacidade de produzir proteínas mais complexas. As células dos peixes, por
exemplo, não podem produzir proteínas com a complexidade que as nossas podem.
Ora bem, sempre que isso aconteceu, seres com melhores capacidades,
nomeadamente velocidade, tamanho, cérebro, adaptabilidade a diferentes meios,
passaram a ser possíveis. O cérebro tornou-se a vantagem decisiva. Mas um novo
cérebro não se forma de um momento para o outro, um chimpanzé não dá à luz um
humano, há um processo evolutivo até que são obtidos animais com a máxima
capacidade mental que o novo grau de complexidade proteica permite. A partir
daqui podem ainda ocorrer processos de adaptação e mesmo evolução sem que, no
entanto, haja mais incremento da capacidade mental. Para existir um novo
incremento da capacidade mental é preciso que exista uma nova evolução celular.
Ou seja, se a capacidade mental dos chimpanzés não evolui é porque eles já
atingiram o máximo que as suas células suportam; e se nós temos mais capacidade
mental, é porque temos células mais evoluídas. – Os olhos do Hans iluminaram-se
subitamente e ele exclamou:
- Então será por isso que os seres que
existem não evoluem e será por isso que não existem seres intermédios! A célula
de um qualquer chimpanzé evoluiu, gerando uma descendência de seres cada vez
mais evoluídos até chegar ao Humano! Todos os humanos têm a mesma capacidade
porque todos têm a mesma célula; podem diferir em aspectos acessórios, mas os
limites são os mesmos para todos, porque o Humano é o limite evolutivo das suas
células, como o chimpanzé o é das células dele, a tartaruga idem, etc! - O Hans estava extasiado com a sua
descoberta; tinha encontrado uma explicação para o facto de não existir um
contínuo de seres desenhando o percurso da evolução e para o facto de os seres
que existem parecerem ter parado de evoluir, como a tartaruga ou o chimpanzé. Mas
havia uma pequena correção a fazer; ri-me com o súbito entusiasmo dele e
acrescentei:
- Isso mesmo! Há
só um pormenor a corrigir no que disseste: não é verdade que os seres que
existem não evoluem; todos os seres vivos mantêm os seus mecanismos de evolução,
simplesmente esta está limitada pela capacidade das suas células; as suas
células é que não evoluem.
- Os seres vivos
evoluem? Onde é que vês isso? A tartaruga evoluiu nos últimos 400 milhões de
anos? O espanto do Hans era quase indignação.
- Evoluem sim;
por exemplo, há uma rã que desenvolveu uma adaptação ao gelo, as suas células
não congelam graças a uma proteína que ela produz; ora os gelos só existem na
Terra há uns dez milhões de anos, antes disso a Terra era mais quente;
portanto, a rã, uma espécie muito mais antiga que os gelos, desenvolveu essa
adaptação muito depois de terem surgido células mais evoluídas do que as suas,
o que significa que ela fez uma evolução numa altura em que as suas células já
não evoluíam. Mas há muito mais casos, desde a hibernação dos ursos à adaptação
das flores à polinização por insectos. Os seres vivos adaptam-se / evoluem
continuamente, as células é que não, apenas em determinadas ocasiões.
- Acho que te
estou a perceber... então, para ti, os seres vivos são como os computadores; a
célula é o hardware e o ser vivo o resultado do software; o software está
limitado pela capacidade da célula; sempre que esta evolui e passa a suportar
um software mais complexo, dá-se uma evolução do software, ou seja, do ser
vivo, até esgotar a capacidade da célula... como nos computadores, onde um
avanço tecnológico origina microprocessadores e memórias mais poderosos e estes
um novo desenvolvimento dos sistemas operativos e programas.
-Sim, é uma
razoável analogia... colocaste aí 3 níveis de evolução: tecnologia, hardware e
software... estás mais certo do que imaginarás no que toca à comparação com a
biologia mas por agora vamos apenas considerar dois níveis, a célula e o
software de cada ser, escrito no seu DNA; cada um destes níveis tem o seu
processo evolutivo. O que interessa para questionar as ideias darwinianas é a
evolução do software dos seres vivos, do seu DNA; é saber se esta resulta de
mutações e seleção natural ou se usa outros processos. Já te mostrei que a
evolução por seleção é uma impossibilidade que apenas continua a ser referida
porque ainda ninguém apresentou uma alternativa melhor; é isso que me proponho
fazer agora; estás com paciência para me ouvir?
O Hans sorriu-se;
- Tens até eu acabar esta cerveja!
- Chega e sobra!
Ora presta atenção.
(continua)
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sexta-feira, janeiro 25, 2013
Darwin, o Ptolomeu da Biologia
(continuação da minha conversa com o Hans)
Ptolomeu e Darwin souberam organizar as suas observações e os conhecimentos da sua época em modelos que os explicavam; o modelo de Ptolomeu já foi substituído por outro melhor; o de Darwin, embora baseado em conhecimentos de biologia muito primitivos, é muito mais recente e ainda não foi feito um melhor; para isso é preciso um "quantum leap" que ainda não foi dado, o que não impede que se saiba que o seu modelo está tão errado como o do Ptolomeu (como seria de esperar, pois em ambos os casos apenas as aparências das coisas eram conhecidas).
Ptolomeu e Darwin souberam organizar as suas observações e os conhecimentos da sua época em modelos que os explicavam; o modelo de Ptolomeu já foi substituído por outro melhor; o de Darwin, embora baseado em conhecimentos de biologia muito primitivos, é muito mais recente e ainda não foi feito um melhor; para isso é preciso um "quantum leap" que ainda não foi dado, o que não impede que se saiba que o seu modelo está tão errado como o do Ptolomeu (como seria de esperar, pois em ambos os casos apenas as aparências das coisas eram conhecidas).
- Bem, queres
então saber que processo usa a Vida para conseguir evoluir.- Pigarreei, era
altura de passar de ouvinte a palestrante e tinha de descolar a voz da
garganta. - Sim, - respondeu o Hans, com ar de grande curiosidade; e
acrescentou, sábio: - o Darwin propôs um processo de geração de mutações por acaso e seleção
natural, que é hoje aceite incondicionalmente e, de certa forma, a base das
teorias económicas e sociais ocidentais.
- Bem –
interrompi- não foi bem isso que o Darwin propôs; e nem é correcto dizer que
isso seja a base das teorias, é antes a justificação para porem de pé teorias
que já existiam e que convêm a apenas alguns; é por isso que me parece
importante desmistificar tudo isso.
- Desmistificar?
Então um processo de acaso e seleção não é um processo de Inteligência?
Lembro-me de ler isso no teu blogue...
- Um processo de
acaso e seleção é um processo capaz de resolver certos problemas; é, por isso,
um processo de Inteligência, sem dúvida.
- É o que eu
estou a dizer... - o Hans com um sorriso maroto mas impaciente ao mesmo tempo.
- Então sabes que
a eficiência desse processo se pode medir pela probabilidade de a hipótese
certa ser gerada, admitindo que o mecanismo de seleção é infalível...
- Sim, sei,
conheço o teu modelo das condições iniciais da Terra que fazem com que a
probabilidade de se gerar por acaso as primeiras moléculas auto-reprodutoras
necessárias à vida seja elevada.
- Certo; nessas
condições gerou-se um número elevadíssimo de combinações de átomos e por isso a
solução, a estrutura certa, pode ser selecionada; estamos a falar de qualquer
coisa como 10^38 a 10^40 átomos a combinarem-se furiosamente durante perto de
500 milhões de anos, o que gera um número astronómico de hipóteses; e isto só
para a primeira pequena sequência auto-reprodutora, porque logo a partir daí já
não se trata de um mero processo de acaso. Isto mostra a dimensão que um
processo de acaso tem de ter para conseguir ser “Inteligente”.
- Mas se
isso foi capaz de criar vida, certamente que fazê-la evoluir será muito menos
exigente...
- Aí é que tu te
enganas. Tens de olhar sempre para a probabilidade de ser gerada a hipótese
certa. Por exemplo, se fosse como pensas, a Microsoft só tinha de por os seus
brutos computadores a gerar alterações ao acaso ao seu Windows Vista para gerar
um sistema operativo melhor, não é?
O Hans hesitou
– Beemm, não será assim... não estou a ver que alterar ao acaso o código de um
sistema operativo possa gerar um código melhor...
- Não estás a ver
porquê? O Windows 8 não é um código também? É uma sequência de bits, como o
Windows Vista, logo bastará alterar os bits do Windows Vista ao acaso para
acabar por obter o código do W8...
- Sssim, mas isso
parece-me uma impossibilidade... as combinações possíveis são uma enormidade...
e o tempo de teste...
- Exactamente!
Uma enormidade tal que fácil é concluir que nem o tempo todo do Universo
chegaria para conseguir gerar as combinações possíveis; ou seja, a
probabilidade de gerar a hipótese certa em tempo útil é tão ínfima que pode ser
considerada nula; é por isso que a Microsoft não segue esse processo. Agora
diz-me, o que é mais complexo, um sistema operativo ou um ser vivo?
- O ser vivo,
evidentemente!
- Claro; e neste
a produção de uma nova hipótese exige uma nova geração de seres, e isso é um
processo lento, muito lento; e tanto mais lento quanto mais evoluída é a Vida.
O número de hipóteses passível de ser gerado é ridiculamente baixo, a
probabilidade de conseguir uma mutação por acaso que dê certo é infinitesimal.
Pensar que a Vida evolui por um processo de acaso e seleção é uma ingenuidade.
- Mas não foi
isso que o Darwin disse?
- Não; o Darwin
falou de mutações e seleção, mas nunca disse, que eu saiba, que essas mutações
eram produzidas por acaso. Isso foi um aproveitamento das ideias dele, na
obsessão de substituir o conceito de Deus pelo de Acaso, que era o deus dos
cientistas e não só na época. Além disso, as evidências que o Darwin apresentou
foi como os seres vivos se adaptam às condições externas; mas adaptação não é
evolução, pensar isso é uma extrapolação ilegítima. Por exemplo, a espécie
humana está a aumentar de estatura, mas isso não é evolução, não há alteração
do projecto do ser, apenas ajustes nos valores dos seus parâmetros.
- Mas
ajustando parâmetros, a pouco e pouco, o ser vai-se modificando e acaba por
originar algo diferente...
- Isso é outra
ingenuidade; por mais que alteres o valor dos parâmetros, o projecto fica
sempre o mesmo. É como dizer que o automóvel de hoje se pode obter a partir do
projeto do Cugnot apenas alterando o valor dos parâmetros; ou que se passou do
primeiro micropressador para os atuais alterando parâmetros do projecto
inicial. Não é verdade. Qualquer engenheiro sabe bem que a evolução de um
projecto exige invenção. As alterações de parâmetros, como o tamanho ou forma
do bico de uma ave, são meras adaptações, não são evoluções.
- Então da teoria
do Darwin, de mutações + seleção, apenas se aproveita o lado da seleção? A
seleção natural?
- Isso então é
que é o disparate completo!
O Hans largou a
cabeça para trás na sua típica gargalhada. - Com essa é que me matas –
desabafou – não me digas que viraste criacionista!
A reação do Hans
não me surpreendeu, as pessoas reagem sempre com uma gargalhada quando
confrontam algo que conflitua com as suas certezas; ou gargalhada ou violência,
são as duas maneiras que o cérebro tem de fazer o “reset” duma situação de
bloqueio mental. Calmamente, continuei - Na natureza, todos os seres se
reproduzem salvo acidente; estes sim, fruto de acaso e circunstâncias; não é o
mérito ou demérito de pequenas alterações nos parâmetros que condicionam a
reprodução ou a sobrevivência. Conheces o estudo sobre a reprodução dos chocos
australianos?
- Não..
- Um grupo de
investigadores deu-se ao trabalho de estudar a seleção pela reprodução em
comunidades de chocos que se reproduzem em zonas pouco fundas, o que lhes
possibilitou um controlo rigoroso, e descobriram que apesar dos chocos
dominantes guardarem vigorosamente as suas fêmeas, cerca de 1/3 das crias eram
dos outros chocos, que usavam truques como disfarçarem-se de fêmeas para
iludirem os machos dominantes e se aproximarem das fêmeas destes, que os não
rejeitavam.
- Bem.. não me
admiro... mesmo na espécie humana isso acontece.. ou parecido... apesar da
rigidez das normas morais...
- Exactamente. A
verdade é que quase tudo o que se afirma sobre evolução está errado: nem há
geração de mutações úteis por acaso, nem estas são selecionadas pela natureza;
a ideia da Seleção Natural é um erro. Há seleção sim, é um facto que os seres
vivos surgem com alterações e selecionam aquelas que melhor os servem, mas nem
as alterações são fruto do acaso nem é a Natureza que faz essa seleção, são
eles mesmos; essas ideias são apenas ideias primitivas sobre o problema, uma
espécie de modelo de Ptolomeu da biologia, uma coisa que parece certa, lógica,
indiscutível à luz das aparência, mas errada. – Fiz uma pausa para verificar se o Hans me estava a
seguir, o olhar atento incitou a prosseguir:
- No tempo de Darwin a biologia estava nos
primórdios, nada se sabia sobre a célula, apenas se conhecia a aparência dos
seres vivos; o modelo de Darwin, tal como o de Ptolomeu, foram úteis,
organizaram o conhecimento que se tinha na altura, mas hoje temos outros
conhecimentos que mostram que esses modelos estão errados. No caso do Ptolomeu,
o seu modelo foi posto de lado porque outro melhor surgiu; mas para isso foi
preciso mais de um milénio. O de Darwin ainda subsiste apenas porque outro
ainda não foi apresentado; mas muita gente ligada à biologia compreende que as
coisas são bem mais complexas do que o modelo de Darwin e das sucessivas
adaptações que se têm feito dele.
- Espera aí,
deixa-me por as ideias em ordem; então tu afirmas que essa coisa das mutações e
seleção não tem a ver com evolução mas apenas com adaptação e que a seleção não
é feita pela natureza mas pelos próprios indivíduos??? Páaa... tens de me
explicar isso devagarinho... muito devagarinho mesmo... como se eu fosse
burro...
- Será um prazer.
Deixa-me começar pela Seleção.
(continua)
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quarta-feira, janeiro 09, 2013
Somos o que nos convém
(continuação da conversa com o Hans)
O Hans sorveu longos goles da caneca de cerveja acabadinha de chegar. O calor apertava. Eu continuei na minha água tónica, não estava ali num encontro social, queria aproveitar ao máximo as ideias do Hans. Bebeu meia caneca de uma vez só. Pousou-a, visivelmente satisfeito. Beber quando se tem sede é dos maiores prazeres da vida. Refeito, recomeçou a conversa.
Os Ricos são
espertos, tão espertos como todas as outras pessoas; cada um faz o que pode
para defender os seus interesses, não é? Na medida dos seus poderes, é claro...
Lá estás tu com
as tuas visões negativas da humanidade – ripostei.
O Hans ficou
pensativo. Um dia eu explico-te como funciona o cérebro humano, qual é o seu
algoritmo de decisão. Até lá, acredita em mim, o nosso cérebro, a nível
inconsciente, está programado para decidir sempre em função do que considera
ser o nosso interesse e constrói-nos um quadro mental, uma percepção da
realidade exterior, que torna legítimo e correto, em face da nossa moral,
agirmos em função desse interesse. Quando somos pobres defendemos a igualdade,
a redistribuição de riqueza, mas se por acaso ficamos menos pobres, em pouco
tempo consideramos que tal se deve ao nosso mérito e que os que são pobres o
são porque mais não merecem, e que têm muita sorte em haver empregos que lhes
paguem 500 euros; e continuando a enriquecer, depressa achamos que é bom que
existam pobres, precisamos de criados, que nos sirvam barato mas que
desapareçam da frente quando andamos de carro, ou vamos a espectáculos, ou
vamos à praia; não precisamos de muitos pobres, mas precisamos de suficientes
para nos sentirmos superiores, especiais, isso faz-nos muito bem ao Ego. Os que
estão para além disso, surgem-nos como empecilhos da sociedade, pensamos que
esta beneficiaria do seu desaparecimento – enquanto estamos na classe média
achamos isso dos ciganos, do pessoal do bairro da lata; à medida que
enriquecemos começamos a achar isso para aí de 1/3 da humanidade, demasiado
pobre para contribuir para o nosso enriquecimento, portanto inúteis, e
demasiado insignificantes para alimentar o nosso grandioso Ego.
Estou a
perceber-te... enquanto pobres temos uma visão solidária, romântica, da
humanidade, mas quando somos Ricos a nossa visão altera-se para o oposto.
Sim, mas o
busílis da questão não é esse. O pormenor importante é que as pessoas não têm
noção de que o seu entendimento se vai alterar se a sua situação mudar, pensam
que serão sempre como são hoje. Ora as pessoas da classe média ou média baixa,
que têm um certo sentido de solidariedade, pensam que os Ricos são como elas e
que, naturalmente, sendo ricos, exercem activa solidariedade, que é o que elas
pensam que fariam no lugar deles.
Ahh, estou a entender-te; estás a dizer que
os pobres, ou os “remediados”, pensam que são solidários genuinamente, não
sabem que o são apenas porque é isso que lhes convém na sua situação; e a razão
porque não sabem é que o seu inconsciente lhes cria um quadro mental e afetivo
de solidariedade que as pessoas tomam como correspondendo à sua natureza
profunda e imutável. E então eles pensam que é da natureza humana ser solidário
e pensam que os Ricos e os Poderosos têm essa natureza, que são solidários com
os que têm menos. Ora a verdade é que o que é da natureza humana é ser egoísta
e os Ricos e Poderosos não são solidários com os pobres porque não é isso que
lhes convém e o seu inconsciente constrói-lhes um quadro mental e afetivo
diferente.
Isso mesmo. E
dizes bem, Ricos ou Poderosos, porque se hoje quem está por cima são os
estupidamente ricos, os banqueiros, os financeiros, antes de haver tanta
riqueza eram as elites que se presumiam cultas, ou os senhores de muitos
terrenos, e que alimentavam as mesmas ideias de superioridade em relação à
restante humanidade que os Ricos de hoje.
Por um lado, sei
que tens razão; uma coisa que tenho verificado quando ando de metro é que quem
dá esmola aos pedintes são as pessoas que parecem ser mais pobres. Mas, por
outro lado, sei que há pessoas que parecem já nascer com esse sentimento de
superioridade absoluta e desprezo pelos outros, vejo isso logo pelo
comportamento das crianças num parque infantil.
Sim,claro;
é que nascemos com diferentes necessidades e a essas pessoas o que convém não é
a solidariedade. Suponho que ser estupidamente rico não é coisa que te
interesse, como não me interessa a mim, não é isso que queremos da vida,
seríamos muito infelizes se a nossas vidas se resumissem a isso; há muitas
pessoas como nós e que facilmente desenvolvem sentimentos de solidariedade
porque é isso que corresponde ao que querem, é esse o seu egoísmo. Mas há
também pessoas para quem a coisa mais importante é ser estupidamente rico ou
poderoso e logo, o que lhes convém é o desprezo pelos outros. E as pessoas que
são estupidamente ricas ou poderosas vêm geralmente desse lote de pessoas e não
são pessoas solidárias, não há um pingo de solidariedade nessas pessoas. O
grande equívoco dos pobres que não são obcecados com a riqueza é não saberem
isso.
Compreendo,
é a ilusão que os pobres têm de que as pessoas são assim, solidárias, “boas”,
que alimenta o poder dos Ricos; os pobres esperam indefinidamente que os Ricos
resolvam os seus problemas em vez de perceberem que eles são a causa deles.
Os Ricos
alimentam essa ilusão praticando a “Caridade”, que são atos isolados de
ajuda, não alteram a situação dos
desprotegidos mas servem por um lado para alimentar o Ego dos Ricos, e por
outro para alimentar essa ilusão dos pobres de que os Ricos cuidam deles! Que
são protetores, uma espécie de delegados de um Deus benfazejo... A
solidariedade existe apenas entre pessoas que se sentem iguais; as que se
julgam superiores podem ser caridosas mas não solidárias. Há aqui um duplo erro
de percepção, os pobres que pensam que os Ricos são solidários com eles e os
Ricos que pensam que são superiores aos outros
Eu oiço desde o
25 de Abril pessoas a reclamarem contra o facto de muito mais gente se
licenciar agora – de os filhos dos outros se licenciarem é claro, não os seus.
Argumentam que não há emprego para tanto licenciado mas esquecem que ainda há
menos para os não licenciados. O que os aflige é a diminuição da desigualdade,
nada mais, mas a sua mente constrói um quadro, falso, que justifica essa
manutenção da desigualdade.
O Hans assentiu
distraidamente, compenetrado no que queria dizer; continuou: - Há estudos e
experiências sobre essa ilusão de que somos independentes das circunstâncias. E
isto é verdade em relação a outras características. Por exemplo, a Honestidade
não existe, não faz parte do nosso algoritmo mental; o nosso inconsciente
decide sempre em função da sua análise custo/benefício.
Sim, isso eu sei;
ninguém põe a moeda no parquímetro se souber que o fiscal já não vai passar.
Certo; por isso a
sociedade organiza-se instituindo penalizações que fazem com que a relação
custo/benefício leve ao comportamento pretendido. Uma pessoa que vive num
ambiente onde isso está bem controlado, age conforme as regras porque é o que o
seu inconsciente conclui que lhe convém, mas essa pessoa está convencida que é
porque é honesta, porque esse é o quadro mental e afetivo que o inconsciente
lhe constrói para a levar a agir como ele acha que é vantajoso. Não sabe que se
for colocada numa situação onde o seu inconsciente conclua que a corrupção lhe
é vantajosa, tenderá a ser corrupta. As pessoas não são mais ou menos honestas,
fazem é diferentes análises custo/benefício, quer porque o que cada um
considera ser um benefício é diferente, quer porque as situações são
diferentes. Mais uma vez, os pobres, desde que não muito pobres, menos sujeitos
a tentações, tendem a ter uma auto-imagem de honestidade e a pensar que os
Ricos também o são; mas os Ricos sabem bem que a honestidade não existe.
Combater a corrupção é uma questão de instituir adequados sistemas de
fiscalização e punição, o que não é nada fácil e exige normalmente a acção de
uma pessoa “especial”; para controlar a corrupção do dinheiro é preciso uma
pessoa que não esteja interessada em ser rica.
Mas então, se não
somos honestos, nem solidários em situação de diferença, que esperança há para
a sociedade humana?
Todos os
problemas têm solução. A natureza não nos preparou para este problema porque
estas situações são específicas da sociedade humana, e por isso a solução não
está nos nossos instintos; e não adianta pensar que se consegue meter a
honestidade e a solidariedade à força nas nossas cabeças, que é o erro que tem
sido feito, associado a outro, o de presumir que as elites são pessoas melhores
do que as outras. A solução é diferente: é percebermos que somos assim e
construirmos uma sociedade que nos controle porque sabemos que apenas uma
sociedade solidária e honesta pode evoluir e ser boa para todos. Uma sociedade
com regras e sistemas que impeçam a corrupção e a falta de solidariedade. As
sociedades dos animais são definidas pelos seus “instintos”, ou seja, obedecem
a regras que estão programadas nas suas mentes; no nosso caso, essas regras não
estão nos instintos, temos de as instituir nós. Numa sociedade assim, todos
seremos “genuinamente” honestos e solidários porque é isso que convém a cada um
e o inconsciente formata-nos dessa maneira. Precisamos é de não cair no erro de pensar que podemos prescindir das regras porque "somos genuinamente honestos e solidários".
Sim, eu sei, nos
países mais avançados, nomeadamente nos EUA, há muito que isso se faz, eles não
presumem a honestidade ou a bondade de ninguém, nem do presidente.
Pois, mas
acontece que na sequência da Globalização deixaram cair as regras e os Ricos
adquiriram demasiado poder e controlam agora as regras que os devem controlar... e
acham isso legítimo porque, sendo Ricos, concluem que são “superiores”, logo
que são eles quem deve fazer as regras - até citam constantemente o Darwin, a
famosa frase da “sobrevivência dos mais aptos”, a ideia de que a Evolução da
sociedade humana se faz através da eliminação dos mais fracos e que sem isso a
evolução fica comprometida, o que justifica as ideias de eutanásia e outras
ainda mais terríveis. E é isso que se passa na Europa agora.
Ahh, mas é um enorme disparate, na Natureza as coisas passam-se exactamente ao
contrário!.
Ah é? Mas olha
que as teorias económicas atuais assentam nesse princípio, tido como
indiscutível! Ele é a base da economia atual, que é o mesmo que dizer que é a
base da sociedade ocidental.
Então está
explicado porque é que ela funciona tão mal; porque não é nada disso! Os
economistas não sabem nada de biologia e agarram nessas ideias estúpidas e
erradas, convencidos que são verdade. Do reino dos Humanos não sei muito, mas
do da Natureza sei alguma coisa.
Então como é?
(continua)
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quinta-feira, dezembro 20, 2012
A Democracia agoniza
(continuação da conversa com o Hans)
Espera lá – atalhei o entusiasmo do Hans – então tu achas que a classe média está condenada? Vai ficar uma sociedade só de Ricos e Pobres? Não pude deixar de soltar uma risada - Custa-me a acreditar nisso, a nossa sociedade está estruturada em torno da classe média...
O Hans inspirou
fundo; soou-me como se ele estivesse e pensar “deixa-me ir com calma para
iluminar as ideias deste ingénuo...”. A classe média foi sempre um joguete dos
Ricos, existiu na medida em que lhes convinha para manterem os seus
privilégios. Faz parte do processo de enriquecimento dos Ricos e do processo de
manutenção do Poder. O crescimento da classe média no Ocidente a seguir às
guerras mundiais deveu-se à necessidade de os Ricos fazerem frente ao
comunismo. O comunismo nasce para combater o poder absoluto e esclavagista dos
Ricos e a única maneira de conseguir travar o avanço do comunismo era deixar os
povos melhorarem as suas condições de vida, até aí infames e miseráveis. Para
isso, era preciso deixar as pessoas irem enriquecendo, deixar crescer uma
classe média.
Essa visão é
muito niilista... nos EUA houve muita preocupação com a igualdade de
direitos...
Sim, no
princípio. É que enquanto a Europa já é uma sociedade de Ricos e Pobres há
muitas gerações, os EUA foram formados pelos pobres que fugiram da Europa, por
isso os Ricos dos EUA são recentes e nas bases ideológicas dos EUA anda tens os
princípios que os pensadores de uma sociedade melhor sempre defenderam, já os
encontras na Revolução Francesa; e os EUA preocuparam-se muito em desenvolver
regras que limitavam o crescimento da desigualdade, que promoviam a
redistribuição de riqueza, sobretudo após a crise de 1930.
Claro! Regras
inerentes ao sistema capitalista que promoviam a distribuição de riqueza pelo
próprio sistema, nomeadamente a distribuição de dividendos nas sociedades por
acções ou a participação dos empregados na empresa, uma prática muito comum nos
EUA; e, antes da globalização, obrigavam as empresas que se tornassem grandes
demais a cindirem-se. O que aconteceu é que deixaram os mecanismos de
supervisão nas mãos dos financeiros e estes destruíram e perverteram tudo
através da especulação financeira.
Pois... e ficaram
estupidamente ricos! É isso mesmo que eu te estou a dizer...
Fiquei um pouco baralhado... que quer ele dizer afinal? Resolvo fazer um ponto da situação: - Então a tua ideia
é a de que a classe média europeia, que é uma sociedade dominada há muitas
gerações por uma casta de Ricos, foi criada apenas para fazer frente ao
comunismo e que agora que o perigo comunista desapareceu deixou de ter
utilidade para os Ricos e vai desaparecer? Vamos voltar a ser uma sociedade de
Ricos e Miseráveis?
Sim. O vosso PCP
sempre percebeu isso, por isso é que se manteve fiel às suas raízes, sabe muito
bem que a Europa voltará a ser o que sempre foi, uma coutada dos Ricos.
Sabes, não é isso
que eu penso; eu penso que se está a construir uma sociedade global e que
portanto muitas das coisas a que estávamos habituados em termos de país perdem
o sentido, não têm lugar numa sociedade global; o que está a acontecer é essa
transformação, apenas isso.
Seria bom... mas
há um problema... neste sistema em que cada um trata dos seus interesses ganha
sempre o mais forte, ou seja, o mais rico; a perversão de que falas não foi um
erro, um acidente de percurso; enquanto existir a mentalidade de cada um por
isso, faças as regras que fizeres elas serão sempre pervertidas.
Eu tenho muita
confiança na Democracia. Se a maioria das pessoas se sentir a empobrecer,
votará em políticos que lutem contra esta situação; e eles aparecerão
certamente, porque quem ambiciona o poder defende sempre a ideologia que lhe dá
acesso a ele; foi o que o Hitler fez.
Sim... – um
sorriso maroto elevou os cantos da boca do Hans – quem quer o Poder
defende sempre a ideologia que lhe dá acesso a ele... foi exactamente isso que
os Ricos fizeram e estão a fazer na Europa...
Fizeram como? A
Europa é uma democracia, logo comandada pelas maiorias, não pelas minorias!!
Ai meu Deus –
desabafou o Hans, com aquele ar de desalento que se tem perante um ignorante
sem remissão – como tu estás enganado!! Ainda não percebeste quem manda na
Europa?
A... Merkel...
Claro! Na Europa
manda quem ganhar as eleições alemãs! Para ter o poder na Europa basta
controlar a classe média alemã; não estás a ver? Na Europa, o poder político depende de
apenas 10% dos seus cidadãos.
Não é assim tão
simples – ripostei indignado – Se os governos dos vários países não conseguirem segurar
as suas classes médias perderão as eleições! – disse, com ar de quem sabe do que
fala. A minha segurança desmoronou-se de imediato perante a gargalhada do Hans.
E onde é que os
países têm governo?! Um governo só o é se tiver poder; e só há duas maneiras de
ter poder: por via militar e por via económica. Ora a via militar está fora de
questão e a via económica... já não depende dos governos! Os governos não têm
poder! E rematou com outra gargalhada.
Estás a
referir-te aos estatutos de BCE? Tinha de ser assim, para que o sistema
financeiro europeu não ficasse dependente dos interesses particulares de cada
país! Como é que querias caminhar para uma globalização com um sistema
financeiro ao sabor dos interesses de cada país?? Com esta senti que marquei
pontos na discussão. O Hans ficou subitamente sério. Quase agressivo,
respondeu:
Tu já reparaste
bem na enormidade do que acabas de dizer? O sistema financeiro ficaria
dependente dos interesses de cada país??? Claro!!! Ficaria dependente dos
interesses da maioria das pessoas! É isso a democracia!! Por esse raciocínio
também podíamos acabar com a ONU e entregar o mundo aos EUA, ou acabar com as
eleições em cada país. Ou tornar os militares independentes do poder político,
porque não?
O que se passa na
Europa é que o poder foi totalmente entregue aos Ricos, tornou-se independente
do voto dos cidadãos. Quem manda na Europa são os grandes financeiros porque os
cidadãos europeus não têm qualquer espécie de poder sobre eles, o seu voto é
totalmente inútil. Pior: agora, a supervisão dos financeiros passou
inteiramente para eles, tornaram-se intocáveis!
A teimosia impedia-me de concordar com o Hans; tentei encontrar argumentação contrária - Não estou nada de
acordo contigo; em Portugal, por exemplo, é diferente ter um governo PSD ou PS
– disse, inseguro a lembrar-me do Seguro... O Hans poupou-me agora à gargalhada
e com ar paternalista “esclareceu-me”:
Em Portugal, quem
manda é a troika, ou os patrões da troika, os governantes são meros executantes
das decisões deles; e é indiferente o governo ser PS ou PSD. Os eleitores têm
uma única opção: ou votam na submissão ao poder dos Ricos ou votam pela saída
do Euro. Mas como as pessoas têm horror à mudança, é garantido que continuarão
no Euro, a caminho da miséria total.
Acho esse
panorama muito negro; afinal os países europeus são Estados Sociais e é
intrínseco ao Estado Social a melhoria das condições de vida de toda a
população; basta pôr os olhos na Dinamarca que se transformou num dos países
mais ricos do mundo sem dispor de quaisquer recursos... mesmo a Troika diz que
se quisermos ter um Estado Social isso é uma opção nossa... Na cara do Hans li
imediatamente um “Meu Deus dai-me paciência”. Com toda a calma disse: Pede-me
outra imperial por favor, tu secas-me a garganta... eu já te explico o que é o
Estado Social da tua Troika.
(continua)
(continua)
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Por que há pobres?
(continuação da conversa com o Hans; aqui ele começa a explicar porque é que a sociedade ocidental tem a estrutura que tem e como evolui)
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| aqui |
Então queres
saber porque é que a Alemanha está tão empenhada neste ataque aos países do
Sul... - O Hans suspendeu o que ia a dizer; os seus olhos cinzentos
imobilizaram-se, apontando ao longe por sobre o meu ombro direito; durante uns
segundos o tempo parou, como se o Hans fosse um robot que tivesse ficado sem
energia - Não, espera, tenho de começar por esclarecer uma coisa que podes não
saber. - Pelos vistos, foi activada a energia de reserva, fantasiei… Espero em
silêncio.
As pessoas que
não dedicaram especial atenção às questões económicas estão convencidas de que
a economia liberal se auto-equilibra pois que quem produz precisa de
consumidores e por isso a existência de pobres seria contrário aos interesses
de quem produz. O Hans especou, a olhar para mim atentamente. Admiro-me: E não é? Bem sei
que num sistema competitivo as empresas estão sempre a lutar pelo máximo lucro,
mas o empobrecimento das pessoas, o crescimento desenfreado da desigualdade é
contrário aos interesses de quem produz, dos empresários, dos ricos, embora
muitos pareçam não perceber isso.
Um sorriso varre
a cara do Hans. Um sorriso meio trocista, meio triste. Fiquei intrigado.
Estás muito
enganado, tal como a generalidade das pessoas. - Inspirou fundo, preparando o
esclarecimento, enquanto eu sentia um ar aparvalhado a colar-se à minha cara. -
O grande equívoco é pensar que o consumo depende do número de consumidores. Não
é verdade. O consumo depende da riqueza dos consumidores. Da riqueza total, não
interessa a sua distribuição.
Não interessa?
Como assim? Há um limite para o consumo individual….
Estás enganado.
Vamos ver exemplos. Carros por exemplo. Mudas de carro de quanto em quanto
tempo?
Bem, eu sou um
caso especial… o meu carro anterior durou uns 16 anos … este tem 10 anos…
E está velho? -
interrompeu o Hans.
Não, nada –
entusiasmei-me – está como novo. Tirando uns arranhões é claro.
Qualquer
carro funciona sem problemas uma dúzia de anos ou mais; no entanto, os teus
colegas, amigos, familiares, fazem o mesmo que tu?
Não – assenti –
quase toda a gente muda de carro de 4 em 4 anos…
Achas que isso é
necessário?
Claro que não!
Pois não. As
pessoas mudam de carro porque têm dinheiro para isso; e porque é criada uma
pressão social que os faz sentir essa necessidade – uma necessidade meramente
psicológica. Ou seja, tanto faz ter uma população onde a riqueza está
distribuída por igual e compra carro novo de 8 em 8 anos ou concentrar a
riqueza em metade da população e convencê-la a comprar carro todos os 4 anos.
Sim, o consumo é
o mesmo … mas isso não deixa deter um limite, não estou a imaginar as pessoas a
mudarem de carro de 2 em 2 anos, não é?
Não estás? - O
robot tornou-se subitamente humano, o Hans deitou a cabeça para trás e soltou
uma sonora gargalhada - Muita gente nos EUA, por exemplo, muda de carro todos
os anos, não é de 2 em 2 anos!!! Mas não fica por aí, alguns coleccionam
carros, é um para a estrada, outro para a cidade, um para cada filho, outro
para férias, pois tem de ser grande… e também há que acertar a cor do carro com
a toilette não é verdade? Afinal, o carro não é mesmo que um par de sapatos??
Não serve para ir de um sítio para outro? A mesma razão que leva as pessoas a
terem vários pares de sapatos aplica-se aos carros, haja dinheiro para isso!
Fiquei siderado.
Nunca me tinha ocorrido tal. Mudar carro de 4 em 4 anos já me parecia uma coisa
ridícula, mudar de carro como quem muda de sapatos parecia-me surrealista; mas
ele tinha razão…
Portanto, já
viste quanto se pode concentrar a riqueza, sem que isso afete minimamente o
consumo. Ouvia o Hans ao
longe… a minha cabeça ainda estava atordoada com a ideia de as pessoas usarem
carros como se fossem sapatos… claro que a ideia de as pessoas terem vários
pares de sapatos também deve fazer confusão às pessoas que dantes só tinham um…
e o outro para a missa… lembrei-me então dos telemóveis, como toda a gente que
conheço muda constantemente de telemóvel... mais de 6 meses com o mesmo já é
record... Mas vejo que o Hans tem razão, o consumo depende da riqueza total,
não da sua distribuição.
Ok, concordo
contigo – digo, saindo do meu torpor meditativo. - Tanto faz que a riqueza
esteja concentrada ou distribuída para efeitos do consumo, mas o que é que
tiras daí?
Ahhh – os olhos
do Hans abriram-se a acompanhar um largo sorriso – é que agora há o outro lado
da equação!!!
Outro lado?
Sim. O que
interessa não é o consumo, é o lucro, a relação entre o preço de venda e de
custo. O outro lado da equação é o custo de produção - os olhos abriram-se
ainda mais, como se estivesse a revelar um segredo crucial – repara, para
minimizar o custo da produção, o que é buscam constantemente as empresas?
Mão-de-obra
barata…- arrisquei.
Exactamente!
Agora diz-me qual é a distribuição de riqueza que maximiza o lucro? É a
distribuição por igual?
Senti-me um aluno
mal preparado a enfrentar o examinador numa prova oral - Não, não é a
distribuição por igual, é preferível, numa ótica de lucro, ter a riqueza concentrada numa parte da
população e a restante ser pobre para fornecer mão-de-obra barata.
E-xa-ta-men-te!–
exultou o Hans - A sociedade da economia liberal é uma sociedade que começa por
ser igual e depois divide-se em 3 classes: os ricos, a classe média e os
pobres.
Fez-se-me luz.- Então é por isso, exclamei; a sociedade começou por duas classes, senhores e
plebe; quando começou o comércio, o consumo, estratificou-se em 3 classes
porque é o modelo que melhor serve os ricos!
Bem, ainda não te
disse tudo – o Hans fez um sinal com a mão, como quem diz “acalma-te” - A
concentração da riqueza tem ainda outra consequência.
Outra? Não estou
a ver...
É o seguinte: as
pessoas querem comprar coisas tão caras quanto possível; compram sempre o carro
mais caro que podem, não é verdade?
O carro, o
telemóvel, a viagem de férias... tudo!
Exacto. Então a
concentração de riqueza abre mercado para produtos de luxo, produtos de preço
exorbitantes... que geram lucros exorbitantes. Quanto maior a concentração de
riqueza, maior a diversidade de produtos que se podem produzir e maiores as
margens de lucro. Os ricos geram entre si uma economia própria, que se sobrepõe
à restante economia. Isto tem uma consequência: retira peso económico à classe
média. A indústria automóvel não precisa de produzir carros de gama baixa, pode
deixar isso para os chineses, o que dá dinheiro são os carros de gama alta, as
casas de gama alta, a moda de gama alta, etc.
Queres dizer que
a classe média pode desaparecer? Ficarem só duas classes, a dos muito ricos e
dos pobres?
Admirado? É essa
a tendência clara em vários países, nomeadamente EUA, Canadá e Inglaterra e
Austrália. Não conheces o famoso documento do Citygroup sobre a Plutonomia?
Plutonomia? Nunca
ouvi tal...
Nunca ouviste
tal? Esse documento é talvez o documento mais importante que já se fez sobre a
nossa sociedade! – um riso de satisfação explodiu na face do Hans. – É um
documento do Citygroup a aconselhar os seus clientes a investirem nas empresas
que produzem artigos para ricos; na verdade, não diz nada que não se saiba, ou
seja, que os 10% mais ricos representam mais de metade da economia, que o
conceito de consumidor médio já não tem interesse porque são os ricos que
comandam o mercado; e que será cada vez mais assim, o baixo custo da
mão-de-obra assegurado pela globalização. A importância deste documento é vir
de dentro do sistema, não ser uma opinião de pessoas que contestam o sistema e
sempre descredibilizadas por essa razão.
Pois, não
conheço...
Então não deixes
de ler. Ele retrata lindamente o como e o porquê da transformação da sociedade
de 3 classes em duas: Ricos e Pobres. Mas isso já é passado, a evolução da
sociedade neo-liberal não acaba aí, a fase seguinte já se iniciou e isso é que
é verdadeiramente dramático, muito mais do que possas imaginar.
(continua)
segunda-feira, dezembro 03, 2012
A austeridade é só para alguns, já tinham notado?
Enquanto não vem o próximo texto do Hans, aqui fica um vídeo que serve de introdução:
segunda-feira, novembro 26, 2012
O Império dos Ricos
Imagem retirada deste blogue; recomendo a leitura, e do seu post mais recente, sobre Séneca
Os comentadores
televisivos, os partidos da oposição, toda a gente, anda a dizer que o nosso
governo tem falhado todos os objectivos: a dívida aumenta, o desemprego
aumenta, o deficit público aumenta, a recessão aumenta. Segundo toda esta
gente, o governo e a troika serão duma incompetência total, de uma burrice
inacreditável pois insistem na mesma política que tem conduzido a estes
resultados e necessariamente continuará a agravá-los. Paradoxalmente, a troika
diz que Portugal está “ no bom caminho”, que as medidas são um sucesso; além de
incompetentes serão loucos?
Na verdade, eles
nem são incompetentes nem loucos, mas exactamente o contrário. E é bem verdade:
as medidas têm sido um sucesso.
O equívoco está
no que as pessoas pensam que é o objectivo das medidas; e não é por falta de
esclarecimento do governo e da troika, que estão fartos de o dizer: o objectivo
imediato é
Empobrecer os
portugueses
Parece um
objectivo disparatado? Mas não é, pelo contrário, é o objectivo adequado dentro
do sistema político em que vivemos. Mas antes de percebermos isso, confirmemos
que de facto o objectivo é esse.
Se este é o objetivo, as medidas têm sido um sucesso: estamos cada vez mais pobres. O
ordenado médio já caiu perto de 20%! E o ministro da
Economia parece só estar interessado nas concessões mineiras, a que não deve ser
estranha a conexão canadiana com a estranhíssima empresa Colt. Até agora, já se
viu alguma medida de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno e
que são responsáveis pela quase totalidade do nosso PIB e do nosso emprego?
Mas
“empobrecimento” como objetivo parece realmente uma coisa disparatada. Na
verdade, o “empobrecimento” é só o meio para conseguir o verdadeiro objetivo:
mão-de-obra barata de forma sustentada.
Não é isso que se
procura constantemente no sistema capitalista? Mão-de-obra tão barata quanto
possível? Não querem pagar o mínimo à mulher-a-dias? Pela refeição no
restaurante? Pelo leitinho no supermercado? Pelo bilhete do futebol? Quem
recebe quer receber o máximo, quem paga quer pagar o mínimo, estas são as
regras do sistema. A ideia é que um sistema assim encontra o seu equilíbrio
naturalmente. Uma ideia muito do agrado daqueles que esperam que o sistema se
desequilibre cada vez mais a seu favor, sabendo-se como se sabe que este
sistema se desequilibra sempre para o lado do mais rico.
Porque é que
surge este problema agora aqui? Uma razão é porque já não há no mundo onde
obter mão-de-obra barata de forma sustentada. Hoje, já ninguém aceita fábricas estrangeiras sem pesadas
contrapartidas. As fábricas na China têm pelo menos metade de capital chinês,
prazo de saída e são obrigadas à transferência de saber-fazer. A Volskwagen tem
de sair da China até 2030. Mas sai antes, porque os chineses não nasceram para
escravos e os ordenados lá têm de subir quase à taxa a que sobem os rendimentos
dos ricos no mundo ocidental.
É por isso que os
Ricos precisam de “mexicanizar” o sul da Europa, não têm alternativa.
Vejamos quais são
as medidas que servem este objectivo:
1 – Empobrecimento
Para que as
pessoas aceitem trabalhar por ordenados miseráveis é preciso que não tenham
alternativa; isso implica duas coisas: cortar os apoios sociais e aumentar o
desemprego. Como é que se aumenta o desemprego? Através da recessão, ou seja,
fazendo cair a economia interna. Não são as empresas exportadoras que geram o
grosso do emprego, são as empresas que trabalham para o mercado interno. Como é
que se faz falir estas empresas? Empobrecendo os portugueses. Se os portugueses
tiverem menos dinheiro, consomem menos e levam as empresas dependentes do
mercado interno à falência. Daí a importância do empobrecimento e da falta de
apoio às empresas que trabalham para o mercado interno; daí o facto de a
recessão ser não um indicador do falhanço da política mas do seu sucesso!
2 – Redução dos
apoios sociais
A redução dos
apoios sociais é indispensável à existência de mão-de-obra disponível para
trabalhar por qualquer preço e em quaisquer condições; e também para reduzir a
TSU, o que permite baixar o custo do trabalho.
3-Reduzir o Estado a um órgão executivo dos Mercados
Há um objectivo
de acabar com o Estado como o órgão de gestão dos povos. Quem manda são os “Mercados”,
as políticas económicas são definidas de fora, o Estado social acaba, o ensino,
a saúde, os serviços públicos são privatizados, as forças armadas acabam por
inúteis, , os transportes, as águas, a energia, o notariado... a justiça é
“independente”, ou seja, continua ao serviço dos Ricos mas paga pelos pobres...
a polícia acabará por ser transformada numa espécie de segurança privada dos
ricos paga pelos pobres... o estado reduz-se assim a um mero órgão executivo
dos Ricos.
Sabem quando foi
feito o referendo a perguntar se prescindíamos de ter um país? nas últimas
eleições, por isso é que o PSD apareceu a cantar o Hino Nacional e de pin na
lapela, como as homenagens que se fazem aos que vão morrer; por isso houve acabar com certos feriados.
O mundo
capitalista é um império dos ricos. Uma Plutocracia. E uma Plutocracia não quer
saber de países e Estados, vistos como obstáculos e incómodos ao crescimento do
seu poder.
Como os
“mercados” são os Ricos, é por isso que o “regresso aos mercados” depende de
empobrecermos de acordo com os objectivos de empobrecimento. O “regresso aos
mercados” depende apenas de o governo conseguir que as fábricas europeias se
possam instalar aqui com um custo bruto do trabalho de 2 euros por hora,
isentas de impostos e de legislação laboral, não tem nada a ver com a dívida pública nem com o deficit.
Os governos dos
países neste sistema obedecem aos mercados, ou seja, ao poder dos Ricos.
Mas há outra razão para isto acontecer e essa é inteiramente da nossa responsabilidade; e é essa que torna muito difícil sairmos desta situação (e também não tem nada a ver com a dívida)
(continua)
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