(continuação da conversa com o Hans)
O Hans sorveu
longos goles da caneca de cerveja acabadinha de chegar. O calor apertava. Eu
continuei na minha água tónica, não estava ali num encontro social, queria
aproveitar ao máximo as ideias do Hans. Bebeu meia caneca de uma vez só.
Pousou-a, visivelmente satisfeito. Beber quando se tem sede é dos maiores
prazeres da vida. Refeito, recomeçou a conversa.
Os Ricos são
espertos, tão espertos como todas as outras pessoas; cada um faz o que pode
para defender os seus interesses, não é? Na medida dos seus poderes, é claro...
Lá estás tu com
as tuas visões negativas da humanidade – ripostei.
O Hans ficou
pensativo. Um dia eu explico-te como funciona o cérebro humano, qual é o seu
algoritmo de decisão. Até lá, acredita em mim, o nosso cérebro, a nível
inconsciente, está programado para decidir sempre em função do que considera
ser o nosso interesse e constrói-nos um quadro mental, uma percepção da
realidade exterior, que torna legítimo e correto, em face da nossa moral,
agirmos em função desse interesse. Quando somos pobres defendemos a igualdade,
a redistribuição de riqueza, mas se por acaso ficamos menos pobres, em pouco
tempo consideramos que tal se deve ao nosso mérito e que os que são pobres o
são porque mais não merecem, e que têm muita sorte em haver empregos que lhes
paguem 500 euros; e continuando a enriquecer, depressa achamos que é bom que
existam pobres, precisamos de criados, que nos sirvam barato mas que
desapareçam da frente quando andamos de carro, ou vamos a espectáculos, ou
vamos à praia; não precisamos de muitos pobres, mas precisamos de suficientes
para nos sentirmos superiores, especiais, isso faz-nos muito bem ao Ego. Os que
estão para além disso, surgem-nos como empecilhos da sociedade, pensamos que
esta beneficiaria do seu desaparecimento – enquanto estamos na classe média
achamos isso dos ciganos, do pessoal do bairro da lata; à medida que
enriquecemos começamos a achar isso para aí de 1/3 da humanidade, demasiado
pobre para contribuir para o nosso enriquecimento, portanto inúteis, e
demasiado insignificantes para alimentar o nosso grandioso Ego.
Estou a
perceber-te... enquanto pobres temos uma visão solidária, romântica, da
humanidade, mas quando somos Ricos a nossa visão altera-se para o oposto.
Sim, mas o
busílis da questão não é esse. O pormenor importante é que as pessoas não têm
noção de que o seu entendimento se vai alterar se a sua situação mudar, pensam
que serão sempre como são hoje. Ora as pessoas da classe média ou média baixa,
que têm um certo sentido de solidariedade, pensam que os Ricos são como elas e
que, naturalmente, sendo ricos, exercem activa solidariedade, que é o que elas
pensam que fariam no lugar deles.
Ahh, estou a entender-te; estás a dizer que
os pobres, ou os “remediados”, pensam que são solidários genuinamente, não
sabem que o são apenas porque é isso que lhes convém na sua situação; e a razão
porque não sabem é que o seu inconsciente lhes cria um quadro mental e afetivo
de solidariedade que as pessoas tomam como correspondendo à sua natureza
profunda e imutável. E então eles pensam que é da natureza humana ser solidário
e pensam que os Ricos e os Poderosos têm essa natureza, que são solidários com
os que têm menos. Ora a verdade é que o que é da natureza humana é ser egoísta
e os Ricos e Poderosos não são solidários com os pobres porque não é isso que
lhes convém e o seu inconsciente constrói-lhes um quadro mental e afetivo
diferente.
Isso mesmo. E
dizes bem, Ricos ou Poderosos, porque se hoje quem está por cima são os
estupidamente ricos, os banqueiros, os financeiros, antes de haver tanta
riqueza eram as elites que se presumiam cultas, ou os senhores de muitos
terrenos, e que alimentavam as mesmas ideias de superioridade em relação à
restante humanidade que os Ricos de hoje.
Por um lado, sei
que tens razão; uma coisa que tenho verificado quando ando de metro é que quem
dá esmola aos pedintes são as pessoas que parecem ser mais pobres. Mas, por
outro lado, sei que há pessoas que parecem já nascer com esse sentimento de
superioridade absoluta e desprezo pelos outros, vejo isso logo pelo
comportamento das crianças num parque infantil.
Sim,claro;
é que nascemos com diferentes necessidades e a essas pessoas o que convém não é
a solidariedade. Suponho que ser estupidamente rico não é coisa que te
interesse, como não me interessa a mim, não é isso que queremos da vida,
seríamos muito infelizes se a nossas vidas se resumissem a isso; há muitas
pessoas como nós e que facilmente desenvolvem sentimentos de solidariedade
porque é isso que corresponde ao que querem, é esse o seu egoísmo. Mas há
também pessoas para quem a coisa mais importante é ser estupidamente rico ou
poderoso e logo, o que lhes convém é o desprezo pelos outros. E as pessoas que
são estupidamente ricas ou poderosas vêm geralmente desse lote de pessoas e não
são pessoas solidárias, não há um pingo de solidariedade nessas pessoas. O
grande equívoco dos pobres que não são obcecados com a riqueza é não saberem
isso.
Compreendo,
é a ilusão que os pobres têm de que as pessoas são assim, solidárias, “boas”,
que alimenta o poder dos Ricos; os pobres esperam indefinidamente que os Ricos
resolvam os seus problemas em vez de perceberem que eles são a causa deles.
Os Ricos
alimentam essa ilusão praticando a “Caridade”, que são atos isolados de
ajuda, não alteram a situação dos
desprotegidos mas servem por um lado para alimentar o Ego dos Ricos, e por
outro para alimentar essa ilusão dos pobres de que os Ricos cuidam deles! Que
são protetores, uma espécie de delegados de um Deus benfazejo... A
solidariedade existe apenas entre pessoas que se sentem iguais; as que se
julgam superiores podem ser caridosas mas não solidárias. Há aqui um duplo erro
de percepção, os pobres que pensam que os Ricos são solidários com eles e os
Ricos que pensam que são superiores aos outros
Eu oiço desde o
25 de Abril pessoas a reclamarem contra o facto de muito mais gente se
licenciar agora – de os filhos dos outros se licenciarem é claro, não os seus.
Argumentam que não há emprego para tanto licenciado mas esquecem que ainda há
menos para os não licenciados. O que os aflige é a diminuição da desigualdade,
nada mais, mas a sua mente constrói um quadro, falso, que justifica essa
manutenção da desigualdade.
O Hans assentiu
distraidamente, compenetrado no que queria dizer; continuou: - Há estudos e
experiências sobre essa ilusão de que somos independentes das circunstâncias. E
isto é verdade em relação a outras características. Por exemplo, a Honestidade
não existe, não faz parte do nosso algoritmo mental; o nosso inconsciente
decide sempre em função da sua análise custo/benefício.
Sim, isso eu sei;
ninguém põe a moeda no parquímetro se souber que o fiscal já não vai passar.
Certo; por isso a
sociedade organiza-se instituindo penalizações que fazem com que a relação
custo/benefício leve ao comportamento pretendido. Uma pessoa que vive num
ambiente onde isso está bem controlado, age conforme as regras porque é o que o
seu inconsciente conclui que lhe convém, mas essa pessoa está convencida que é
porque é honesta, porque esse é o quadro mental e afetivo que o inconsciente
lhe constrói para a levar a agir como ele acha que é vantajoso. Não sabe que se
for colocada numa situação onde o seu inconsciente conclua que a corrupção lhe
é vantajosa, tenderá a ser corrupta. As pessoas não são mais ou menos honestas,
fazem é diferentes análises custo/benefício, quer porque o que cada um
considera ser um benefício é diferente, quer porque as situações são
diferentes. Mais uma vez, os pobres, desde que não muito pobres, menos sujeitos
a tentações, tendem a ter uma auto-imagem de honestidade e a pensar que os
Ricos também o são; mas os Ricos sabem bem que a honestidade não existe.
Combater a corrupção é uma questão de instituir adequados sistemas de
fiscalização e punição, o que não é nada fácil e exige normalmente a acção de
uma pessoa “especial”; para controlar a corrupção do dinheiro é preciso uma
pessoa que não esteja interessada em ser rica.
Mas então, se não
somos honestos, nem solidários em situação de diferença, que esperança há para
a sociedade humana?
Todos os
problemas têm solução. A natureza não nos preparou para este problema porque
estas situações são específicas da sociedade humana, e por isso a solução não
está nos nossos instintos; e não adianta pensar que se consegue meter a
honestidade e a solidariedade à força nas nossas cabeças, que é o erro que tem
sido feito, associado a outro, o de presumir que as elites são pessoas melhores
do que as outras. A solução é diferente: é percebermos que somos assim e
construirmos uma sociedade que nos controle porque sabemos que apenas uma
sociedade solidária e honesta pode evoluir e ser boa para todos. Uma sociedade
com regras e sistemas que impeçam a corrupção e a falta de solidariedade. As
sociedades dos animais são definidas pelos seus “instintos”, ou seja, obedecem
a regras que estão programadas nas suas mentes; no nosso caso, essas regras não
estão nos instintos, temos de as instituir nós. Numa sociedade assim, todos
seremos “genuinamente” honestos e solidários porque é isso que convém a cada um
e o inconsciente formata-nos dessa maneira. Precisamos é de não cair no erro de pensar que podemos prescindir das regras porque "somos genuinamente honestos e solidários".
Sim, eu sei, nos
países mais avançados, nomeadamente nos EUA, há muito que isso se faz, eles não
presumem a honestidade ou a bondade de ninguém, nem do presidente.
Pois, mas
acontece que na sequência da Globalização deixaram cair as regras e os Ricos
adquiriram demasiado poder e controlam agora as regras que os devem controlar... e
acham isso legítimo porque, sendo Ricos, concluem que são “superiores”, logo
que são eles quem deve fazer as regras - até citam constantemente o Darwin, a
famosa frase da “sobrevivência dos mais aptos”, a ideia de que a Evolução da
sociedade humana se faz através da eliminação dos mais fracos e que sem isso a
evolução fica comprometida, o que justifica as ideias de eutanásia e outras
ainda mais terríveis. E é isso que se passa na Europa agora.
Ahh, mas é um enorme disparate, na Natureza as coisas passam-se exactamente ao
contrário!.
Ah é? Mas olha
que as teorias económicas atuais assentam nesse princípio, tido como
indiscutível! Ele é a base da economia atual, que é o mesmo que dizer que é a
base da sociedade ocidental.
Então está
explicado porque é que ela funciona tão mal; porque não é nada disso! Os
economistas não sabem nada de biologia e agarram nessas ideias estúpidas e
erradas, convencidos que são verdade. Do reino dos Humanos não sei muito, mas
do da Natureza sei alguma coisa.
Então como é?
(continua)