sexta-feira, fevereiro 22, 2013

A Célula Evolui!

O "processador central" do computador de Babbage; ver aqui um interessante resumo da evolução das máquinas de computar
(continuação)


O que eu tinha para dizer sobre evolução era muito diferente de qualquer coisa que o Hans já tivesse ouvido; há que ter cuidado com a apresentação de ideias novas. Como disse o Vergílio Ferreira  “No afirmes o erro de uma verdade antes de mudar o seu contexto. A menos que te dê gozo levar pedradas.” Um sábio o Vergílio; comecei, cauteloso:

- As teorias que vamos fazendo dependem do entendimento que temos do assunto na altura. Disse o Heisenberg que por detrás de uma nova teoria está um novo entendimento do Universo. A teoria do Ptolomeu enquadrava-se no conhecimento do Universo que havia na altura. Também a teoria de Darwin se enquadra no conhecimento da biologia que havia na altura. Num e noutro caso, esse conhecimento era muito limitado e determinou um enorme erro de perspectiva.

- Erro de perspectiva? De que falas?

- Nós vemos os seres vivos como complexas estruturas feitas de uma espécie de tijolo a que chamamos célula. Numa casa, a complexidade está toda na estrutura da casa, não está nos tijolos de que é feita. Mas nos seres vivos é ao contrário.

- Ao contrário?

- Sim; as células são imensas estruturas definidas ao nível do átomo, uma complexa máquina construída átomo a átomo; hoje somos capazes de observar algo da sua sofisticada maquinaria, as suas complexas capacidades de comunicação, de analisar como elas são capazes de fazer coisas como reparar um osso partido… já pensaste na complexidade que é reparar um osso?

- Bem... nem por isso…

- Pois… é banal, por isso não pensamos muito no assunto… mas as células têm de ir buscar as duas partes do osso fraturado, alinhá-lo como se tivessem um GPS e proceder à reconstrução da estrutura. Isto é duma complexidade transcendente para nós, nem de longe somos capazes de idealizar dispositivos com inteligência artificial que fossem capazes de, autonomamente, conseguirem realizar coordenadamente um trabalho deste tipo; e isto é apenas o exemplo mais simples de que me lembrei, porque elas fazem coisas muitíssimo mais complexas, como seja a construção do ser a partir do ovo.- O Hans meditou um pouco e concordou:

- Sim, de facto isso é quase mágico…

- Contrariamente à ideia usual, os seres vivos são um pouco como os computadores, cuja capacidade depende não da sua arquitetura, a mesma ou quase para todos, e bastante simples, mas da capacidade dos seus componentes, cuja evolução determina a evolução dos computadores. Podem os computadores evoluir sem evolução tecnológica?

- Não me parece…

- Pois não; sem a electrónica ainda estaríamos com o computador de Babbage, sem a microelectrónica ainda estaríamos com o computador de transístores discretos e leitores de cartões perfurados; e sem internet, é claro. É também um pouco como acontece com a sociedade humana; a nossa sociedade não é o resultado da evolução da sociedade dos macacos, é o resultado de nós termos capacidades que os macacos não têm e que suportam uma sociedade mais evoluída. Da mesma maneira, a evolução dos seres vivos é suportada na evolução das suas células. – Calei-me, à espera da reação do Hans. Primeiro hesitou, depois arriscou:

- E nós? Somos o resultado da evolução do chimpanzé, ou da evolução das células do chimpanzé?

- Penso que as células evoluem e depois o ser evolui tirando partido das novas capacidades tornadas possíveis. Em que é que consiste uma evolução celular? Aparentemente, na capacidade de produzir proteínas mais complexas. As células dos peixes, por exemplo, não podem produzir proteínas com a complexidade que as nossas podem. Ora bem, sempre que isso aconteceu, seres com melhores capacidades, nomeadamente velocidade, tamanho, cérebro, adaptabilidade a diferentes meios, passaram a ser possíveis. O cérebro tornou-se a vantagem decisiva. Mas um novo cérebro não se forma de um momento para o outro, um chimpanzé não dá à luz um humano, há um processo evolutivo até que são obtidos animais com a máxima capacidade mental que o novo grau de complexidade proteica permite. A partir daqui podem ainda ocorrer processos de adaptação e mesmo evolução sem que, no entanto, haja mais incremento da capacidade mental. Para existir um novo incremento da capacidade mental é preciso que exista uma nova evolução celular. Ou seja, se a capacidade mental dos chimpanzés não evolui é porque eles já atingiram o máximo que as suas células suportam; e se nós temos mais capacidade mental, é porque temos células mais evoluídas. – Os olhos do Hans iluminaram-se subitamente e ele exclamou:

 - Então será por isso que os seres que existem não evoluem e será por isso que não existem seres intermédios! A célula de um qualquer chimpanzé evoluiu, gerando uma descendência de seres cada vez mais evoluídos até chegar ao Humano! Todos os humanos têm a mesma capacidade porque todos têm a mesma célula; podem diferir em aspectos acessórios, mas os limites são os mesmos para todos, porque o Humano é o limite evolutivo das suas células, como o chimpanzé o é das células dele, a tartaruga idem, etc!  - O Hans estava extasiado com a sua descoberta; tinha encontrado uma explicação para o facto de não existir um contínuo de seres desenhando o percurso da evolução e para o facto de os seres que existem parecerem ter parado de evoluir, como a tartaruga ou o chimpanzé. Mas havia uma pequena correção a fazer; ri-me com o súbito entusiasmo dele e acrescentei:

- Isso mesmo! Há só um pormenor a corrigir no que disseste: não é verdade que os seres que existem não evoluem; todos os seres vivos mantêm os seus mecanismos de evolução, simplesmente esta está limitada pela capacidade das suas células; as suas células é que não evoluem.

- Os seres vivos evoluem? Onde é que vês isso? A tartaruga evoluiu nos últimos 400 milhões de anos? O espanto do Hans era quase indignação.

- Evoluem sim; por exemplo, há uma rã que desenvolveu uma adaptação ao gelo, as suas células não congelam graças a uma proteína que ela produz; ora os gelos só existem na Terra há uns dez milhões de anos, antes disso a Terra era mais quente; portanto, a rã, uma espécie muito mais antiga que os gelos, desenvolveu essa adaptação muito depois de terem surgido células mais evoluídas do que as suas, o que significa que ela fez uma evolução numa altura em que as suas células já não evoluíam. Mas há muito mais casos, desde a hibernação dos ursos à adaptação das flores à polinização por insectos. Os seres vivos adaptam-se / evoluem continuamente, as células é que não, apenas em determinadas ocasiões.

- Acho que te estou a perceber... então, para ti, os seres vivos são como os computadores; a célula é o hardware e o ser vivo o resultado do software; o software está limitado pela capacidade da célula; sempre que esta evolui e passa a suportar um software mais complexo, dá-se uma evolução do software, ou seja, do ser vivo, até esgotar a capacidade da célula... como nos computadores, onde um avanço tecnológico origina microprocessadores e memórias mais poderosos e estes um novo desenvolvimento dos sistemas operativos e programas.

-Sim, é uma razoável analogia... colocaste aí 3 níveis de evolução: tecnologia, hardware e software... estás mais certo do que imaginarás no que toca à comparação com a biologia mas por agora vamos apenas considerar dois níveis, a célula e o software de cada ser, escrito no seu DNA; cada um destes níveis tem o seu processo evolutivo. O que interessa para questionar as ideias darwinianas é a evolução do software dos seres vivos, do seu DNA; é saber se esta resulta de mutações e seleção natural ou se usa outros processos. Já te mostrei que a evolução por seleção é uma impossibilidade que apenas continua a ser referida porque ainda ninguém apresentou uma alternativa melhor; é isso que me proponho fazer agora; estás com paciência para me ouvir?

O Hans sorriu-se; - Tens até eu acabar esta cerveja!

- Chega e sobra! Ora presta atenção.

(continua)

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Darwin, o Ptolomeu da Biologia

(continuação da minha conversa com o Hans)
Ptolomeu e Darwin souberam organizar as suas observações e os conhecimentos da sua época em modelos que os explicavam; o modelo de Ptolomeu já foi substituído por outro melhor; o de Darwin, embora baseado em conhecimentos de biologia muito primitivos, é muito mais recente e ainda não foi feito um melhor; para isso é preciso um "quantum leap" que ainda não foi dado, o que não impede que se saiba que o seu modelo está tão errado como o do Ptolomeu (como seria de esperar, pois em ambos os casos apenas as aparências das coisas eram conhecidas).


- Bem, queres então saber que processo usa a Vida para conseguir evoluir.- Pigarreei, era altura de passar de ouvinte a palestrante e tinha de descolar a voz da garganta. - Sim, - respondeu o Hans, com ar de grande curiosidade; e acrescentou, sábio: - o Darwin propôs um processo de geração de mutações por acaso e seleção natural, que é hoje aceite incondicionalmente e, de certa forma, a base das teorias económicas e sociais ocidentais.

- Bem – interrompi- não foi bem isso que o Darwin propôs; e nem é correcto dizer que isso seja a base das teorias, é antes a justificação para porem de pé teorias que já existiam e que convêm a apenas alguns; é por isso que me parece importante desmistificar tudo isso.

- Desmistificar? Então um processo de acaso e seleção não é um processo de Inteligência? Lembro-me de ler isso no teu blogue...

- Um processo de acaso e seleção é um processo capaz de resolver certos problemas; é, por isso, um processo de Inteligência, sem dúvida.

- É o que eu estou a dizer... - o Hans com um sorriso maroto mas impaciente ao mesmo tempo.

- Então sabes que a eficiência desse processo se pode medir pela probabilidade de a hipótese certa ser gerada, admitindo que o mecanismo de seleção é infalível...

- Sim, sei, conheço o teu modelo das condições iniciais da Terra que fazem com que a probabilidade de se gerar por acaso as primeiras moléculas auto-reprodutoras necessárias à vida seja elevada.

- Certo; nessas condições gerou-se um número elevadíssimo de combinações de átomos e por isso a solução, a estrutura certa, pode ser selecionada; estamos a falar de qualquer coisa como 10^38 a 10^40 átomos a combinarem-se furiosamente durante perto de 500 milhões de anos, o que gera um número astronómico de hipóteses; e isto só para a primeira pequena sequência auto-reprodutora, porque logo a partir daí já não se trata de um mero processo de acaso. Isto mostra a dimensão que um processo de acaso tem de ter para conseguir ser “Inteligente”.

- Mas se isso foi capaz de criar vida, certamente que fazê-la evoluir será muito menos exigente...

- Aí é que tu te enganas. Tens de olhar sempre para a probabilidade de ser gerada a hipótese certa. Por exemplo, se fosse como pensas, a Microsoft só tinha de por os seus brutos computadores a gerar alterações ao acaso ao seu Windows Vista para gerar um sistema operativo melhor, não é?

O Hans hesitou – Beemm, não será assim... não estou a ver que alterar ao acaso o código de um sistema operativo possa gerar um código melhor...

- Não estás a ver porquê? O Windows 8 não é um código também? É uma sequência de bits, como o Windows Vista, logo bastará alterar os bits do Windows Vista ao acaso para acabar por obter o código do W8...

- Sssim, mas isso parece-me uma impossibilidade... as combinações possíveis são uma enormidade... e o tempo de teste...

- Exactamente! Uma enormidade tal que fácil é concluir que nem o tempo todo do Universo chegaria para conseguir gerar as combinações possíveis; ou seja, a probabilidade de gerar a hipótese certa em tempo útil é tão ínfima que pode ser considerada nula; é por isso que a Microsoft não segue esse processo. Agora diz-me, o que é mais complexo, um sistema operativo ou um ser vivo?

- O ser vivo, evidentemente!

- Claro; e neste a produção de uma nova hipótese exige uma nova geração de seres, e isso é um processo lento, muito lento; e tanto mais lento quanto mais evoluída é a Vida. O número de hipóteses passível de ser gerado é ridiculamente baixo, a probabilidade de conseguir uma mutação por acaso que dê certo é infinitesimal. Pensar que a Vida evolui por um processo de acaso e seleção é uma ingenuidade.

- Mas não foi isso que o Darwin disse?

- Não; o Darwin falou de mutações e seleção, mas nunca disse, que eu saiba, que essas mutações eram produzidas por acaso. Isso foi um aproveitamento das ideias dele, na obsessão de substituir o conceito de Deus pelo de Acaso, que era o deus dos cientistas e não só na época. Além disso, as evidências que o Darwin apresentou foi como os seres vivos se adaptam às condições externas; mas adaptação não é evolução, pensar isso é uma extrapolação ilegítima. Por exemplo, a espécie humana está a aumentar de estatura, mas isso não é evolução, não há alteração do projecto do ser, apenas ajustes nos valores dos seus parâmetros.

- Mas ajustando parâmetros, a pouco e pouco, o ser vai-se modificando e acaba por originar algo diferente...

- Isso é outra ingenuidade; por mais que alteres o valor dos parâmetros, o projecto fica sempre o mesmo. É como dizer que o automóvel de hoje se pode obter a partir do projeto do Cugnot apenas alterando o valor dos parâmetros; ou que se passou do primeiro micropressador para os atuais alterando parâmetros do projecto inicial. Não é verdade. Qualquer engenheiro sabe bem que a evolução de um projecto exige invenção. As alterações de parâmetros, como o tamanho ou forma do bico de uma ave, são meras adaptações, não são evoluções.

- Então da teoria do Darwin, de mutações + seleção, apenas se aproveita o lado da seleção? A seleção natural?

- Isso então é que é o disparate completo!

O Hans largou a cabeça para trás na sua típica gargalhada. - Com essa é que me matas – desabafou – não me digas que viraste criacionista!

A reação do Hans não me surpreendeu, as pessoas reagem sempre com uma gargalhada quando confrontam algo que conflitua com as suas certezas; ou gargalhada ou violência, são as duas maneiras que o cérebro tem de fazer o “reset” duma situação de bloqueio mental. Calmamente, continuei - Na natureza, todos os seres se reproduzem salvo acidente; estes sim, fruto de acaso e circunstâncias; não é o mérito ou demérito de pequenas alterações nos parâmetros que condicionam a reprodução ou a sobrevivência. Conheces o estudo sobre a reprodução dos chocos australianos?

- Não..

- Um grupo de investigadores deu-se ao trabalho de estudar a seleção pela reprodução em comunidades de chocos que se reproduzem em zonas pouco fundas, o que lhes possibilitou um controlo rigoroso, e descobriram que apesar dos chocos dominantes guardarem vigorosamente as suas fêmeas, cerca de 1/3 das crias eram dos outros chocos, que usavam truques como disfarçarem-se de fêmeas para iludirem os machos dominantes e se aproximarem das fêmeas destes, que os não rejeitavam.

- Bem.. não me admiro... mesmo na espécie humana isso acontece.. ou parecido... apesar da rigidez das normas morais...

- Exactamente. A verdade é que quase tudo o que se afirma sobre evolução está errado: nem há geração de mutações úteis por acaso, nem estas são selecionadas pela natureza; a ideia da Seleção Natural é um erro. Há seleção sim, é um facto que os seres vivos surgem com alterações e selecionam aquelas que melhor os servem, mas nem as alterações são fruto do acaso nem é a Natureza que faz essa seleção, são eles mesmos; essas ideias são apenas ideias primitivas sobre o problema, uma espécie de modelo de Ptolomeu da biologia, uma coisa que parece certa, lógica, indiscutível à luz das aparência, mas errada. – Fiz uma pausa para verificar se o Hans me estava a seguir, o olhar atento incitou a prosseguir:

 - No tempo de Darwin a biologia estava nos primórdios, nada se sabia sobre a célula, apenas se conhecia a aparência dos seres vivos; o modelo de Darwin, tal como o de Ptolomeu, foram úteis, organizaram o conhecimento que se tinha na altura, mas hoje temos outros conhecimentos que mostram que esses modelos estão errados. No caso do Ptolomeu, o seu modelo foi posto de lado porque outro melhor surgiu; mas para isso foi preciso mais de um milénio. O de Darwin ainda subsiste apenas porque outro ainda não foi apresentado; mas muita gente ligada à biologia compreende que as coisas são bem mais complexas do que o modelo de Darwin e das sucessivas adaptações que se têm feito dele.

- Espera aí, deixa-me por as ideias em ordem; então tu afirmas que essa coisa das mutações e seleção não tem a ver com evolução mas apenas com adaptação e que a seleção não é feita pela natureza mas pelos próprios indivíduos??? Páaa... tens de me explicar isso devagarinho... muito devagarinho mesmo... como se eu fosse burro...

- Será um prazer. Deixa-me começar pela Seleção.

(continua)

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Somos o que nos convém


(continuação da conversa com o Hans)


O Hans sorveu longos goles da caneca de cerveja acabadinha de chegar. O calor apertava. Eu continuei na minha água tónica, não estava ali num encontro social, queria aproveitar ao máximo as ideias do Hans. Bebeu meia caneca de uma vez só. Pousou-a, visivelmente satisfeito. Beber quando se tem sede é dos maiores prazeres da vida. Refeito, recomeçou a conversa.


Os Ricos são espertos, tão espertos como todas as outras pessoas; cada um faz o que pode para defender os seus interesses, não é? Na medida dos seus poderes, é claro...

Lá estás tu com as tuas visões negativas da humanidade – ripostei.

O Hans ficou pensativo. Um dia eu explico-te como funciona o cérebro humano, qual é o seu algoritmo de decisão. Até lá, acredita em mim, o nosso cérebro, a nível inconsciente, está programado para decidir sempre em função do que considera ser o nosso interesse e constrói-nos um quadro mental, uma percepção da realidade exterior, que torna legítimo e correto, em face da nossa moral, agirmos em função desse interesse. Quando somos pobres defendemos a igualdade, a redistribuição de riqueza, mas se por acaso ficamos menos pobres, em pouco tempo consideramos que tal se deve ao nosso mérito e que os que são pobres o são porque mais não merecem, e que têm muita sorte em haver empregos que lhes paguem 500 euros; e continuando a enriquecer, depressa achamos que é bom que existam pobres, precisamos de criados, que nos sirvam barato mas que desapareçam da frente quando andamos de carro, ou vamos a espectáculos, ou vamos à praia; não precisamos de muitos pobres, mas precisamos de suficientes para nos sentirmos superiores, especiais, isso faz-nos muito bem ao Ego. Os que estão para além disso, surgem-nos como empecilhos da sociedade, pensamos que esta beneficiaria do seu desaparecimento – enquanto estamos na classe média achamos isso dos ciganos, do pessoal do bairro da lata; à medida que enriquecemos começamos a achar isso para aí de 1/3 da humanidade, demasiado pobre para contribuir para o nosso enriquecimento, portanto inúteis, e demasiado insignificantes para alimentar o nosso grandioso Ego.

Estou a perceber-te... enquanto pobres temos uma visão solidária, romântica, da humanidade, mas quando somos Ricos a nossa visão altera-se para o oposto.

Sim, mas o busílis da questão não é esse. O pormenor importante é que as pessoas não têm noção de que o seu entendimento se vai alterar se a sua situação mudar, pensam que serão sempre como são hoje. Ora as pessoas da classe média ou média baixa, que têm um certo sentido de solidariedade, pensam que os Ricos são como elas e que, naturalmente, sendo ricos, exercem activa solidariedade, que é o que elas pensam que fariam no lugar deles.

 Ahh, estou a entender-te; estás a dizer que os pobres, ou os “remediados”, pensam que são solidários genuinamente, não sabem que o são apenas porque é isso que lhes convém na sua situação; e a razão porque não sabem é que o seu inconsciente lhes cria um quadro mental e afetivo de solidariedade que as pessoas tomam como correspondendo à sua natureza profunda e imutável. E então eles pensam que é da natureza humana ser solidário e pensam que os Ricos e os Poderosos têm essa natureza, que são solidários com os que têm menos. Ora a verdade é que o que é da natureza humana é ser egoísta e os Ricos e Poderosos não são solidários com os pobres porque não é isso que lhes convém e o seu inconsciente constrói-lhes um quadro mental e afetivo diferente.

Isso mesmo. E dizes bem, Ricos ou Poderosos, porque se hoje quem está por cima são os estupidamente ricos, os banqueiros, os financeiros, antes de haver tanta riqueza eram as elites que se presumiam cultas, ou os senhores de muitos terrenos, e que alimentavam as mesmas ideias de superioridade em relação à restante humanidade que os Ricos de hoje.

Por um lado, sei que tens razão; uma coisa que tenho verificado quando ando de metro é que quem dá esmola aos pedintes são as pessoas que parecem ser mais pobres. Mas, por outro lado, sei que há pessoas que parecem já nascer com esse sentimento de superioridade absoluta e desprezo pelos outros, vejo isso logo pelo comportamento das crianças num parque infantil.

Sim,claro; é que nascemos com diferentes necessidades e a essas pessoas o que convém não é a solidariedade. Suponho que ser estupidamente rico não é coisa que te interesse, como não me interessa a mim, não é isso que queremos da vida, seríamos muito infelizes se a nossas vidas se resumissem a isso; há muitas pessoas como nós e que facilmente desenvolvem sentimentos de solidariedade porque é isso que corresponde ao que querem, é esse o seu egoísmo. Mas há também pessoas para quem a coisa mais importante é ser estupidamente rico ou poderoso e logo, o que lhes convém é o desprezo pelos outros. E as pessoas que são estupidamente ricas ou poderosas vêm geralmente desse lote de pessoas e não são pessoas solidárias, não há um pingo de solidariedade nessas pessoas. O grande equívoco dos pobres que não são obcecados com a riqueza é não saberem isso.

Compreendo, é a ilusão que os pobres têm de que as pessoas são assim, solidárias, “boas”, que alimenta o poder dos Ricos; os pobres esperam indefinidamente que os Ricos resolvam os seus problemas em vez de perceberem que eles são a causa deles.

Os Ricos alimentam essa ilusão praticando a “Caridade”, que são atos isolados de ajuda,  não alteram a situação dos desprotegidos mas servem por um lado para alimentar o Ego dos Ricos, e por outro para alimentar essa ilusão dos pobres de que os Ricos cuidam deles! Que são protetores, uma espécie de delegados de um Deus benfazejo... A solidariedade existe apenas entre pessoas que se sentem iguais; as que se julgam superiores podem ser caridosas mas não solidárias. Há aqui um duplo erro de percepção, os pobres que pensam que os Ricos são solidários com eles e os Ricos que pensam que são superiores aos outros

Eu oiço desde o 25 de Abril pessoas a reclamarem contra o facto de muito mais gente se licenciar agora – de os filhos dos outros se licenciarem é claro, não os seus. Argumentam que não há emprego para tanto licenciado mas esquecem que ainda há menos para os não licenciados. O que os aflige é a diminuição da desigualdade, nada mais, mas a sua mente constrói um quadro, falso, que justifica essa manutenção da desigualdade.

O Hans assentiu distraidamente, compenetrado no que queria dizer; continuou: - Há estudos e experiências sobre essa ilusão de que somos independentes das circunstâncias. E isto é verdade em relação a outras características. Por exemplo, a Honestidade não existe, não faz parte do nosso algoritmo mental; o nosso inconsciente decide sempre em função da sua análise custo/benefício.

Sim, isso eu sei; ninguém põe a moeda no parquímetro se souber que o fiscal já não vai passar.

Certo; por isso a sociedade organiza-se instituindo penalizações que fazem com que a relação custo/benefício leve ao comportamento pretendido. Uma pessoa que vive num ambiente onde isso está bem controlado, age conforme as regras porque é o que o seu inconsciente conclui que lhe convém, mas essa pessoa está convencida que é porque é honesta, porque esse é o quadro mental e afetivo que o inconsciente lhe constrói para a levar a agir como ele acha que é vantajoso. Não sabe que se for colocada numa situação onde o seu inconsciente conclua que a corrupção lhe é vantajosa, tenderá a ser corrupta. As pessoas não são mais ou menos honestas, fazem é diferentes análises custo/benefício, quer porque o que cada um considera ser um benefício é diferente, quer porque as situações são diferentes. Mais uma vez, os pobres, desde que não muito pobres, menos sujeitos a tentações, tendem a ter uma auto-imagem de honestidade e a pensar que os Ricos também o são; mas os Ricos sabem bem que a honestidade não existe. Combater a corrupção é uma questão de instituir adequados sistemas de fiscalização e punição, o que não é nada fácil e exige normalmente a acção de uma pessoa “especial”; para controlar a corrupção do dinheiro é preciso uma pessoa que não esteja interessada em ser rica.

Mas então, se não somos honestos, nem solidários em situação de diferença, que esperança há para a sociedade humana?

Todos os problemas têm solução. A natureza não nos preparou para este problema porque estas situações são específicas da sociedade humana, e por isso a solução não está nos nossos instintos; e não adianta pensar que se consegue meter a honestidade e a solidariedade à força nas nossas cabeças, que é o erro que tem sido feito, associado a outro, o de presumir que as elites são pessoas melhores do que as outras. A solução é diferente: é percebermos que somos assim e construirmos uma sociedade que nos controle porque sabemos que apenas uma sociedade solidária e honesta pode evoluir e ser boa para todos. Uma sociedade com regras e sistemas que impeçam a corrupção e a falta de solidariedade. As sociedades dos animais são definidas pelos seus “instintos”, ou seja, obedecem a regras que estão programadas nas suas mentes; no nosso caso, essas regras não estão nos instintos, temos de as instituir nós. Numa sociedade assim, todos seremos “genuinamente” honestos e solidários porque é isso que convém a cada um e o inconsciente formata-nos dessa maneira. Precisamos é de não cair no erro de pensar que podemos prescindir das regras porque "somos genuinamente honestos e solidários".

Sim, eu sei, nos países mais avançados, nomeadamente nos EUA, há muito que isso se faz, eles não presumem a honestidade ou a bondade de ninguém, nem do presidente.

Pois, mas acontece que na sequência da Globalização deixaram cair as regras e os Ricos adquiriram demasiado poder e controlam agora as regras que os devem controlar... e acham isso legítimo porque, sendo Ricos, concluem que são “superiores”, logo que são eles quem deve fazer as regras - até citam constantemente o Darwin, a famosa frase da “sobrevivência dos mais aptos”, a ideia de que a Evolução da sociedade humana se faz através da eliminação dos mais fracos e que sem isso a evolução fica comprometida, o que justifica as ideias de eutanásia e outras ainda mais terríveis. E é isso que se passa na Europa agora.

Ahh, mas é um enorme disparate, na Natureza as coisas passam-se exactamente ao contrário!.

Ah é? Mas olha que as teorias económicas atuais assentam nesse princípio, tido como indiscutível! Ele é a base da economia atual, que é o mesmo que dizer que é a base da sociedade ocidental.

Então está explicado porque é que ela funciona tão mal; porque não é nada disso! Os economistas não sabem nada de biologia e agarram nessas ideias estúpidas e erradas, convencidos que são verdade. Do reino dos Humanos não sei muito, mas do da Natureza sei alguma coisa.

Então como é?

(continua)

quinta-feira, dezembro 20, 2012

A Democracia agoniza


(continuação da conversa com o Hans)

Espera lá – atalhei o entusiasmo do Hans – então tu achas que a classe média está condenada? Vai ficar uma sociedade só de Ricos e Pobres? Não pude deixar de soltar uma risada - Custa-me a acreditar nisso, a nossa sociedade está estruturada em torno da classe média...


O Hans inspirou fundo; soou-me como se ele estivesse e pensar “deixa-me ir com calma para iluminar as ideias deste ingénuo...”. A classe média foi sempre um joguete dos Ricos, existiu na medida em que lhes convinha para manterem os seus privilégios. Faz parte do processo de enriquecimento dos Ricos e do processo de manutenção do Poder. O crescimento da classe média no Ocidente a seguir às guerras mundiais deveu-se à necessidade de os Ricos fazerem frente ao comunismo. O comunismo nasce para combater o poder absoluto e esclavagista dos Ricos e a única maneira de conseguir travar o avanço do comunismo era deixar os povos melhorarem as suas condições de vida, até aí infames e miseráveis. Para isso, era preciso deixar as pessoas irem enriquecendo, deixar crescer uma classe média.

Essa visão é muito niilista... nos EUA houve muita preocupação com a igualdade de direitos...

Sim, no princípio. É que enquanto a Europa já é uma sociedade de Ricos e Pobres há muitas gerações, os EUA foram formados pelos pobres que fugiram da Europa, por isso os Ricos dos EUA são recentes e nas bases ideológicas dos EUA anda tens os princípios que os pensadores de uma sociedade melhor sempre defenderam, já os encontras na Revolução Francesa; e os EUA preocuparam-se muito em desenvolver regras que limitavam o crescimento da desigualdade, que promoviam a redistribuição de riqueza, sobretudo após a crise de 1930.

Claro! Regras inerentes ao sistema capitalista que promoviam a distribuição de riqueza pelo próprio sistema, nomeadamente a distribuição de dividendos nas sociedades por acções ou a participação dos empregados na empresa, uma prática muito comum nos EUA; e, antes da globalização, obrigavam as empresas que se tornassem grandes demais a cindirem-se. O que aconteceu é que deixaram os mecanismos de supervisão nas mãos dos financeiros e estes destruíram e perverteram tudo através da especulação financeira.

Pois... e ficaram estupidamente ricos! É isso mesmo que eu te estou a dizer...

Fiquei um pouco baralhado... que quer ele dizer afinal? Resolvo fazer um ponto da situação: - Então a tua ideia é a de que a classe média europeia, que é uma sociedade dominada há muitas gerações por uma casta de Ricos, foi criada apenas para fazer frente ao comunismo e que agora que o perigo comunista desapareceu deixou de ter utilidade para os Ricos e vai desaparecer? Vamos voltar a ser uma sociedade de Ricos e Miseráveis?

Sim. O vosso PCP sempre percebeu isso, por isso é que se manteve fiel às suas raízes, sabe muito bem que a Europa voltará a ser o que sempre foi, uma coutada dos Ricos.

Sabes, não é isso que eu penso; eu penso que se está a construir uma sociedade global e que portanto muitas das coisas a que estávamos habituados em termos de país perdem o sentido, não têm lugar numa sociedade global; o que está a acontecer é essa transformação, apenas isso.

Seria bom... mas há um problema... neste sistema em que cada um trata dos seus interesses ganha sempre o mais forte, ou seja, o mais rico; a perversão de que falas não foi um erro, um acidente de percurso; enquanto existir a mentalidade de cada um por isso, faças as regras que fizeres elas serão sempre pervertidas.

Eu tenho muita confiança na Democracia. Se a maioria das pessoas se sentir a empobrecer, votará em políticos que lutem contra esta situação; e eles aparecerão certamente, porque quem ambiciona o poder defende sempre a ideologia que lhe dá acesso a ele; foi o que o Hitler fez.

Sim... – um sorriso maroto elevou os cantos da boca do Hans – quem quer o Poder defende sempre a ideologia que lhe dá acesso a ele... foi exactamente isso que os Ricos fizeram e estão a fazer na Europa...

Fizeram como? A Europa é uma democracia, logo comandada pelas maiorias, não pelas minorias!!

Ai meu Deus – desabafou o Hans, com aquele ar de desalento que se tem perante um ignorante sem remissão – como tu estás enganado!! Ainda não percebeste quem manda na Europa?

A... Merkel...

Claro! Na Europa manda quem ganhar as eleições alemãs! Para ter o poder na Europa basta controlar a classe média alemã; não estás a ver? Na Europa, o poder político depende de apenas 10% dos seus cidadãos.

Não é assim tão simples – ripostei indignado – Se os governos dos vários países não conseguirem segurar as suas classes médias perderão as eleições! – disse, com ar de quem sabe do que fala. A minha segurança desmoronou-se de imediato perante a gargalhada do Hans.

E onde é que os países têm governo?! Um governo só o é se tiver poder; e só há duas maneiras de ter poder: por via militar e por via económica. Ora a via militar está fora de questão e a via económica... já não depende dos governos! Os governos não têm poder! E rematou com outra gargalhada.

Estás a referir-te aos estatutos de BCE? Tinha de ser assim, para que o sistema financeiro europeu não ficasse dependente dos interesses particulares de cada país! Como é que querias caminhar para uma globalização com um sistema financeiro ao sabor dos interesses de cada país?? Com esta senti que marquei pontos na discussão. O Hans ficou subitamente sério. Quase agressivo, respondeu:

Tu já reparaste bem na enormidade do que acabas de dizer? O sistema financeiro ficaria dependente dos interesses de cada país??? Claro!!! Ficaria dependente dos interesses da maioria das pessoas! É isso a democracia!! Por esse raciocínio também podíamos acabar com a ONU e entregar o mundo aos EUA, ou acabar com as eleições em cada país. Ou tornar os militares independentes do poder político, porque não?
O que se passa na Europa é que o poder foi totalmente entregue aos Ricos, tornou-se independente do voto dos cidadãos. Quem manda na Europa são os grandes financeiros porque os cidadãos europeus não têm qualquer espécie de poder sobre eles, o seu voto é totalmente inútil. Pior: agora, a supervisão dos financeiros passou inteiramente para eles, tornaram-se intocáveis!

A teimosia impedia-me de concordar com o Hans; tentei encontrar argumentação contrária - Não estou nada de acordo contigo; em Portugal, por exemplo, é diferente ter um governo PSD ou PS – disse, inseguro a lembrar-me do Seguro... O Hans poupou-me agora à gargalhada e com ar paternalista “esclareceu-me”:

Em Portugal, quem manda é a troika, ou os patrões da troika, os governantes são meros executantes das decisões deles; e é indiferente o governo ser PS ou PSD. Os eleitores têm uma única opção: ou votam na submissão ao poder dos Ricos ou votam pela saída do Euro. Mas como as pessoas têm horror à mudança, é garantido que continuarão no Euro, a caminho da miséria total.

Acho esse panorama muito negro; afinal os países europeus são Estados Sociais e é intrínseco ao Estado Social a melhoria das condições de vida de toda a população; basta pôr os olhos na Dinamarca que se transformou num dos países mais ricos do mundo sem dispor de quaisquer recursos... mesmo a Troika diz que se quisermos ter um Estado Social isso é uma opção nossa... Na cara do Hans li imediatamente um “Meu Deus dai-me paciência”. Com toda a calma disse: Pede-me outra imperial por favor, tu secas-me a garganta... eu já te explico o que é o Estado Social da tua Troika.

(continua)

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Por que há pobres?


(continuação da conversa com o Hans; aqui ele começa a explicar porque é que a sociedade ocidental tem a estrutura que tem e como evolui)
aqui

Então queres saber porque é que a Alemanha está tão empenhada neste ataque aos países do Sul... - O Hans suspendeu o que ia a dizer; os seus olhos cinzentos imobilizaram-se, apontando ao longe por sobre o meu ombro direito; durante uns segundos o tempo parou, como se o Hans fosse um robot que tivesse ficado sem energia - Não, espera, tenho de começar por esclarecer uma coisa que podes não saber. - Pelos vistos, foi activada a energia de reserva, fantasiei… Espero em silêncio.

As pessoas que não dedicaram especial atenção às questões económicas estão convencidas de que a economia liberal se auto-equilibra  pois que quem produz precisa de consumidores e por isso a existência de pobres seria contrário aos interesses de quem produz. O Hans especou, a olhar para mim atentamente. Admiro-me: E não é? Bem sei que num sistema competitivo as empresas estão sempre a lutar pelo máximo lucro, mas o empobrecimento das pessoas, o crescimento desenfreado da desigualdade é contrário aos interesses de quem produz, dos empresários, dos ricos, embora muitos pareçam não perceber isso.

Um sorriso varre a cara do Hans. Um sorriso meio trocista, meio triste. Fiquei intrigado.
 Estás muito enganado, tal como a generalidade das pessoas. - Inspirou fundo, preparando o esclarecimento, enquanto eu sentia um ar aparvalhado a colar-se à minha cara. - O grande equívoco é pensar que o consumo depende do número de consumidores. Não é verdade. O consumo depende da riqueza dos consumidores. Da riqueza total, não interessa a sua distribuição.

Não interessa? Como assim? Há um limite para o consumo individual….
 Estás enganado. Vamos ver exemplos. Carros por exemplo. Mudas de carro de quanto em quanto tempo?
Bem, eu sou um caso especial… o meu carro anterior durou uns 16 anos … este tem 10 anos…
 E está velho? - interrompeu o Hans.
 Não, nada – entusiasmei-me – está como novo. Tirando uns arranhões é claro.
 Qualquer carro funciona sem problemas uma dúzia de anos ou mais; no entanto, os teus colegas, amigos, familiares, fazem o mesmo que tu?
 Não – assenti – quase toda a gente muda de carro de 4 em 4 anos…
 Achas que isso é necessário?
 Claro que não!
 Pois não. As pessoas mudam de carro porque têm dinheiro para isso; e porque é criada uma pressão social que os faz sentir essa necessidade – uma necessidade meramente psicológica. Ou seja, tanto faz ter uma população onde a riqueza está distribuída por igual e compra carro novo de 8 em 8 anos ou concentrar a riqueza em metade da população e convencê-la a comprar carro todos os 4 anos.

Sim, o consumo é o mesmo … mas isso não deixa deter um limite, não estou a imaginar as pessoas a mudarem de carro de 2 em 2 anos, não é?
 Não estás? - O robot tornou-se subitamente humano, o Hans deitou a cabeça para trás e soltou uma sonora gargalhada - Muita gente nos EUA, por exemplo, muda de carro todos os anos, não é de 2 em 2 anos!!! Mas não fica por aí, alguns coleccionam carros, é um para a estrada, outro para a cidade, um para cada filho, outro para férias, pois tem de ser grande… e também há que acertar a cor do carro com a toilette  não é verdade? Afinal, o carro não é mesmo que um par de sapatos?? Não serve para ir de um sítio para outro? A mesma razão que leva as pessoas a terem vários pares de sapatos aplica-se aos carros, haja dinheiro para isso!

Fiquei siderado. Nunca me tinha ocorrido tal. Mudar carro de 4 em 4 anos já me parecia uma coisa ridícula, mudar de carro como quem muda de sapatos parecia-me surrealista; mas ele tinha razão…

Portanto, já viste quanto se pode concentrar a riqueza, sem que isso afete minimamente o consumo. Ouvia o Hans ao longe… a minha cabeça ainda estava atordoada com a ideia de as pessoas usarem carros como se fossem sapatos… claro que a ideia de as pessoas terem vários pares de sapatos também deve fazer confusão às pessoas que dantes só tinham um… e o outro para a missa… lembrei-me então dos telemóveis, como toda a gente que conheço muda constantemente de telemóvel... mais de 6 meses com o mesmo já é record... Mas vejo que o Hans tem razão, o consumo depende da riqueza total, não da sua distribuição. 
Ok, concordo contigo – digo, saindo do meu torpor meditativo. - Tanto faz que a riqueza esteja concentrada ou distribuída para efeitos do consumo, mas o que é que tiras daí?

Ahhh – os olhos do Hans abriram-se a acompanhar um largo sorriso – é que agora há o outro lado da equação!!!

Outro lado?
 Sim. O que interessa não é o consumo, é o lucro, a relação entre o preço de venda e de custo. O outro lado da equação é o custo de produção - os olhos abriram-se ainda mais, como se estivesse a revelar um segredo crucial – repara, para minimizar o custo da produção, o que é buscam constantemente as empresas?
 Mão-de-obra barata…- arrisquei.
 Exactamente! Agora diz-me qual é a distribuição de riqueza que maximiza o lucro? É a distribuição por igual?

Senti-me um aluno mal preparado a enfrentar o examinador numa prova oral - Não, não é a distribuição por igual, é preferível, numa ótica de lucro, ter a riqueza concentrada numa parte da população e a restante ser pobre para fornecer mão-de-obra barata.

E-xa-ta-men-te!– exultou o Hans - A sociedade da economia liberal é uma sociedade que começa por ser igual e depois divide-se em 3 classes: os ricos, a classe média e os pobres.

Fez-se-me luz.- Então é por isso, exclamei; a sociedade começou por duas classes, senhores e plebe; quando começou o comércio, o consumo, estratificou-se em 3 classes porque é o modelo que melhor serve os ricos!

Bem, ainda não te disse tudo – o Hans fez um sinal com a mão, como quem diz “acalma-te” - A concentração da riqueza tem ainda outra consequência.
 Outra? Não estou a ver...
 É o seguinte: as pessoas querem comprar coisas tão caras quanto possível; compram sempre o carro mais caro que podem, não é verdade?
 O carro, o telemóvel, a viagem de férias... tudo!
 Exacto. Então a concentração de riqueza abre mercado para produtos de luxo, produtos de preço exorbitantes... que geram lucros exorbitantes. Quanto maior a concentração de riqueza, maior a diversidade de produtos que se podem produzir e maiores as margens de lucro. Os ricos geram entre si uma economia própria, que se sobrepõe à restante economia. Isto tem uma consequência: retira peso económico à classe média. A indústria automóvel não precisa de produzir carros de gama baixa, pode deixar isso para os chineses, o que dá dinheiro são os carros de gama alta, as casas de gama alta, a moda de gama alta, etc.

Queres dizer que a classe média pode desaparecer? Ficarem só duas classes, a dos muito ricos e dos pobres?
 Admirado? É essa a tendência clara em vários países, nomeadamente EUA, Canadá e Inglaterra e Austrália. Não conheces o famoso documento do Citygroup sobre a Plutonomia?
 Plutonomia? Nunca ouvi tal...
 Nunca ouviste tal? Esse documento é talvez o documento mais importante que já se fez sobre a nossa sociedade! – um riso de satisfação explodiu na face do Hans. – É um documento do Citygroup a aconselhar os seus clientes a investirem nas empresas que produzem artigos para ricos; na verdade, não diz nada que não se saiba, ou seja, que os 10% mais ricos representam mais de metade da economia, que o conceito de consumidor médio já não tem interesse porque são os ricos que comandam o mercado; e que será cada vez mais assim, o baixo custo da mão-de-obra assegurado pela globalização. A importância deste documento é vir de dentro do sistema, não ser uma opinião de pessoas que contestam o sistema e sempre descredibilizadas por essa razão.

Pois, não conheço...

Então não deixes de ler. Ele retrata lindamente o como e o porquê da transformação da sociedade de 3 classes em duas: Ricos e Pobres. Mas isso já é passado, a evolução da sociedade neo-liberal não acaba aí, a fase seguinte já se iniciou e isso é que é verdadeiramente dramático, muito mais do que possas imaginar. 

(continua)

segunda-feira, dezembro 03, 2012

A austeridade é só para alguns, já tinham notado?

Enquanto não vem o próximo texto do Hans, aqui fica um vídeo que serve de introdução:




segunda-feira, novembro 26, 2012

O Império dos Ricos

Imagem retirada deste blogue; recomendo a leitura, e do seu post mais recente, sobre Séneca


Os comentadores televisivos, os partidos da oposição, toda a gente, anda a dizer que o nosso governo tem falhado todos os objectivos: a dívida aumenta, o desemprego aumenta, o deficit público aumenta, a recessão aumenta. Segundo toda esta gente, o governo e a troika serão duma incompetência total, de uma burrice inacreditável pois insistem na mesma política que tem conduzido a estes resultados e necessariamente continuará a agravá-los. Paradoxalmente, a troika diz que Portugal está “ no bom caminho”, que as medidas são um sucesso; além de incompetentes serão loucos?

Na verdade, eles nem são incompetentes nem loucos, mas exactamente o contrário. E é bem verdade: as medidas têm sido um sucesso.

O equívoco está no que as pessoas pensam que é o objectivo das medidas; e não é por falta de esclarecimento do governo e da troika, que estão fartos de o dizer: o objectivo imediato é

Empobrecer os portugueses

Parece um objectivo disparatado? Mas não é, pelo contrário, é o objectivo adequado dentro do sistema político em que vivemos. Mas antes de percebermos isso, confirmemos que de facto o objectivo é esse.

Se este é o objetivo, as medidas têm sido um sucesso: estamos cada vez mais pobres. O ordenado médio já caiu perto de 20%! E o ministro da Economia parece só estar interessado nas concessões mineiras, a que não deve ser estranha a conexão canadiana com a estranhíssima empresa Colt. Até agora, já se viu alguma medida de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno e que são responsáveis pela quase totalidade do nosso PIB e do nosso emprego?

Mas “empobrecimento” como objetivo parece realmente uma coisa disparatada. Na verdade, o “empobrecimento” é só o meio para conseguir o verdadeiro objetivo: mão-de-obra barata de forma sustentada.

Não é isso que se procura constantemente no sistema capitalista? Mão-de-obra tão barata quanto possível? Não querem pagar o mínimo à mulher-a-dias? Pela refeição no restaurante? Pelo leitinho no supermercado? Pelo bilhete do futebol? Quem recebe quer receber o máximo, quem paga quer pagar o mínimo, estas são as regras do sistema. A ideia é que um sistema assim encontra o seu equilíbrio naturalmente. Uma ideia muito do agrado daqueles que esperam que o sistema se desequilibre cada vez mais a seu favor, sabendo-se como se sabe que este sistema se desequilibra sempre para o lado do mais rico.

Porque é que surge este problema agora aqui? Uma razão é porque já não há no mundo onde obter mão-de-obra barata de forma sustentada. Hoje, já ninguém aceita fábricas estrangeiras sem pesadas contrapartidas. As fábricas na China têm pelo menos metade de capital chinês, prazo de saída e são obrigadas à transferência de saber-fazer. A Volskwagen tem de sair da China até 2030. Mas sai antes, porque os chineses não nasceram para escravos e os ordenados lá têm de subir quase à taxa a que sobem os rendimentos dos ricos no mundo ocidental.

É por isso que os Ricos precisam de “mexicanizar” o sul da Europa, não têm alternativa.

Vejamos quais são as medidas que servem este objectivo:

1 – Empobrecimento
Para que as pessoas aceitem trabalhar por ordenados miseráveis é preciso que não tenham alternativa; isso implica duas coisas: cortar os apoios sociais e aumentar o desemprego. Como é que se aumenta o desemprego? Através da recessão, ou seja, fazendo cair a economia interna. Não são as empresas exportadoras que geram o grosso do emprego, são as empresas que trabalham para o mercado interno. Como é que se faz falir estas empresas? Empobrecendo os portugueses. Se os portugueses tiverem menos dinheiro, consomem menos e levam as empresas dependentes do mercado interno à falência. Daí a importância do empobrecimento e da falta de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno; daí o facto de a recessão ser não um indicador do falhanço da política mas do seu sucesso!

2 – Redução dos apoios sociais
A redução dos apoios sociais é indispensável à existência de mão-de-obra disponível para trabalhar por qualquer preço e em quaisquer condições; e também para reduzir a TSU, o que permite baixar o custo do trabalho.

3-Reduzir o Estado a um órgão executivo dos Mercados
Há um objectivo de acabar com o Estado como o órgão de gestão dos povos. Quem manda são os “Mercados”, as políticas económicas são definidas de fora, o Estado social acaba, o ensino, a saúde, os serviços públicos são privatizados, as forças armadas acabam por inúteis, , os transportes, as águas, a energia, o notariado... a justiça é “independente”, ou seja, continua ao serviço dos Ricos mas paga pelos pobres... a polícia acabará por ser transformada numa espécie de segurança privada dos ricos paga pelos pobres... o estado reduz-se assim a um mero órgão executivo dos Ricos.
Sabem quando foi feito o referendo a perguntar se prescindíamos de ter um país? nas últimas eleições, por isso é que o PSD apareceu a cantar o Hino Nacional e de pin na lapela, como as homenagens que se fazem aos que vão morrer; por isso houve acabar com certos feriados.

O mundo capitalista é um império dos ricos. Uma Plutocracia. E uma Plutocracia não quer saber de países e Estados, vistos como obstáculos e incómodos ao crescimento do seu poder.

Como os “mercados” são os Ricos, é por isso que o “regresso aos mercados” depende de empobrecermos de acordo com os objectivos de empobrecimento. O “regresso aos mercados” depende apenas de o governo conseguir que as fábricas europeias se possam instalar aqui com um custo bruto do trabalho de 2 euros por hora, isentas de impostos e de legislação laboral, não tem nada a ver com a dívida pública nem com o deficit.

Os governos dos países neste sistema obedecem aos mercados, ou seja, ao poder dos Ricos.

Mas há outra razão para isto acontecer e essa é inteiramente da nossa responsabilidade; e é essa que torna muito difícil sairmos desta situação (e também não tem nada a ver com a dívida)
(continua) 

segunda-feira, novembro 19, 2012

Peluches de Oleiros



Fico muito impressionado com a história da fábrica de peluches de Oleiros; ela retrata bem o nosso atraso.

Quando um empresário monta uma fábrica num país estrangeiro onde não tem mercado, na busca da redução de custos, há uma coisa que ele tem de acautelar: o saber-fazer.

Se ele não se acautelar, logo aparecerá quem fabrique o mesmo que ele e estabeleça concorrência.

Hoje, estas situações são definidas à partida em todo o Mundo. Os países aceitam fábricas estrangeiras na condição de a controlarem suficientemente (normalmente detendo metade do capital), de elas terem um prazo de saída que é fixado logo no inicio (a Volkswagen tem de sair da China até 2030, se não estou em erro), e de deixarem ficar as instalações operacionais.

A condição de os países hospedeiros terem controlo da empresa tem 3 objectivos: um é evitar que essas empresas desenvolvam políticas de esmagamento da mão-de-obra, fomento do desemprego, etc, conducentes a manter baixos os seus custos, outro é recuperação de parte dos lucros, e o terceiro é garantir a transferência de saber-fazer.

Em troca, esses países não desenvolvem concorrência até ao fim do prazo acordado a não ser de forma limitada. É por isso que os chineses não vão exportar carros para o ocidente até 2030.

No caso da fábrica de Oleiros, não é por acaso que ela foi para um sítio no “fim do mundo” em vez de ir para os arredores de Lisboa, onde teria menores custos de funcionamento – estas fábricas procuram lugares isolados para minimizar os riscos de concorrência. A fábrica estava “escondida” em Oleiros mas agora foi “descoberta”; os riscos disso, associados aos custos relativamente altos de funcionamento ditam a necessidade de se ir esconder para outro lado (e também pode ser que a Merkel não tenha gostado das conversas acerca de o peluche ser feito em Portugal e mandado a fábrica sair de cá; há que educar os inferiores, ensiná-los que não podem mandar bocas ao chefe)

A fábrica de Oleiros vai ser abandonada? Há um lado positivo nisso!

Com certeza que ao fim de tantos anos, numa actividade com tanta componente manual, já haverá pessoas com conhecimentos para dar continuidade à actividade de fabricar peluches de qualidade!!!

O que há a fazer é isso. Não é o que os chineses fariam?

Claro que a maior componente do valor dos peluches não é o seu fabrico, é o marketing; bom, mas aproveitemos o que temos e talvez sejamos capazes de dar a volta por cima. O presidente da câmara já analisou essa possibilidade? Deve haver cá empresários nacionais do ramo, ou de ramos próximos, como o calçado, que podem ver aí uma oportunidade de negócio.

Aqui, estou de acordo com o Passos Coelho; estas coisas são oportunidades. Essa fábrica, ao sair, liberta saber-fazer; e isso é valioso. Aproveitá-lo não será fácil mas é o que há a fazer. Ela não ia lá ficar para sempre, não é verdade?

segunda-feira, novembro 12, 2012

A Refundação da Banca



Tudo o que corre mal na sociedade humana pode ser melhorado corrigindo as regras da sociedade; e sempre que alguma coisa corre mal, há que corrigir as regras.

Os pequenos erros são difíceis de corrigir porque há sempre muitos interesses que beneficiam deles; mas as grandes catástrofes, ao contrário, são uma oportunidade de ouro para corrigir grandes e pequenos erros. O Tsunami do Japão acabou com o programa nuclear da Alemanha, por exemplo.

O sistema bancário atual tornou-se um paradoxo: o Estado é o garante do sistema sem ter nenhum controlo sobre os riscos. Um absurdo que importa corrigir rapidamente.

E é fácil corrigir.

Para começar, os depósitos a prazo saem da banca. O que cria o risco sistémico é as pessoas terem as poupanças na banca. Saindo de lá os depósitos a prazo, esse risco acaba.

Vão para onde os depósitos a prazo? Para o Estado. O Estado só pode ser o garante desse dinheiro se tiver a sua gestão direta. Os depósitos a prazo vão para os Certificados de Aforro. Dupla vantagem para o Estado, ou seja, para todos os contribuintes: o Estado tem o controlo do risco e financia-se livre de ataques especulativos.


Para a Banca fica a prestação de serviços bancários – gestão de contas à ordem, multibanco, etc. Serviços de que ela naturalmente se cobrará. E fica o crédito ao consumo e a actividade financeira dita de “investimento”, ou seja, a actividade que consiste em ganhar dinheiro com o dinheiro. As pessoas que querem ganhar dinheiro com o dinheiro aderem aos produtos que a banca lhes propuser mas ficam com os riscos, ou fazem seguros, o que quiserem, tudo menos querer que seja o Estado, ou seja, os contribuintes, as pessoas que não querem correr riscos, a assumir os prejuízos quando as coisas correm mal e eles ficarem com os lucros quando as coisas correm bem. Se falir, faliu. Todas as iniciativas privadas têm de poder falir; o que não puder falir tem de ficar sob o controlo do Estado.

Como é que se consegue esta profunda mudança? Facílimo: o Estado remunera os certificados de Aforro adequadamente e as pessoas mudam. Os Bancos financiam-se agora no BCE a 0,75%, não precisam dos depósitos a prazo, até porque estão limitados no volume de empréstimos que podem fazer. 

O Estado ainda tem de assegurar duas outras coisas.

Uma é o crédito às empresas nacionais. Essencial para garantir igualdade de competitividade. O Estado tem de ter um Banco de Fomento ou um banco dependente do Estado que assegure essa função. Podia ser a CGD, mas teria de levar uma escovadela enorme; talvez o mais simples seja começar de novo, fazer um novo banco e privatizar a CGD, ou talvez a CGD consiga fazer uma inversão de percurso. A ver vamos.

A outra coisa é o crédito para assegurar dois direitos fundamentais: à habitação e à educação.

O crédito à habitação tem servido de capa para todo o tipo de crédito ao consumo e fugas aos impostos; mas não pode ser, este é um crédito com regras especiais, que tem de ser controlado pelo Estado. Como a Banca não é agora controlada pelo Estado, este crédito deve ser função do Estado ou, pelo menos, o Estado deve ter uma relevante capacidade de intervenção. É o que se passa na Suécia, segundo creio.

O mesmo se passa com créditos necessários a garantir a igualdade de oportunidades, nomeadamente para a educação. É o que têm os países nórdicos.


Como vêm, não só é fácil resolver estes problemas como até já está feito nos países nórdicos; já ouviram falar de alguma crise financeira na Suécia?

Claro que ainda há uma questão de fundo a resolver com a circulação de capitais e os offshores. Mas lá chegaremos.

quinta-feira, novembro 08, 2012

A Carta



Excelências

Venho comunicar-vos que a chanceler decidiu arrancar já com a 3ª fase do plano de mexicanização do Sul. A chanceler considerou existirem condições invulgarmente favoráveis em Portugal que é preciso aproveitar de imediato, tendo dado a 2ª fase do plano por concluída, atendendo a que o abaixamento dos custos laborais já conseguido é excelente e suficiente, conforme anunciou no seu discurso de ontem.

As condições em Portugal são actualmente ideais, pois o povo aceita tudo sem reagir, o PM é completamente submisso, o PR está isolado e nunca fará nada que belisque os seus interesses pessoais imediatos.

Ao abrigo do previsto para a 3ª fase, foi já acordado com o Ministro da Educação português o nosso controlo sobre o ensino público, que irá formar o pessoal necessário às nossas empresas, as quais beneficiarão de períodos longos de estágio suportados pelo ME português, ou seja, mão-de-obra paga pelo Estado Português. Habilidosamente, o ministro anunciou a adopção do plano de ensino “dual” alemão. Ninguém reagiu.

Segue-se a instalação de filiais de empresas alemãs em Portugal. Isto será apresentado como o esforço alemão para o desenvolvimento económico de Portugal e a primeira acção será a visita da Chanceler a Portugal acompanhada da equipa seleccionada para a ocupação. Garantirá mão-de-obra muito barata em Portugal, que começaremos a trazer para a Alemanha a título de “circulação de trabalhadores”, torneando a resistência dos nossos sindicatos. Actualmente estamos a importar especialistas de Portugal a metade do preço praticado na Alemanha mas por este processo vamos reduzir para 1/5 o seu custo. Recordo que o objectivo final é reduzir a 1/10 o custo do trabalho, que será atingido através do processo de redução progressiva de salários que se retomará na quarta fase, uma vez assegurado o fim de qualquer possibilidade de autonomia. Já lançamos um movimento a apelar à abstenção e isso dará o pretexto para ocuparmos politicamente o país, uma vez que os portugueses irão dessa forma declarar que não querem ser governados por portugueses.

Há um único aspecto que temos de manter controlado: o Ministro das Finanças português, Gaspar, é um agente do FMI e é muito mais perigoso do que pensávamos. Combinou com os chineses uma privatização fictícia da EDP que nos obrigou a suspender o plano de privatizações; só podemos retomar o plano depois de corrermos com ele, pois aplicará um golpe semelhante em todas as privatizações e nem uma virá para as nossas mãos. Já avisámos que as privatizações não vão contar para as contas do deficit, a fim de suspender o processo.

Além disso, há um movimento de bastidores que pretende que o PR nomeie um governo de iniciativa presidencial com o Gaspar em Primeiro-Ministro. Em caso algum podemos consentir nisso ou ele tornar-se-á um novo Salazar e boicotará todos os nossos planos. Não estamos muito preocupados porque o PR deles nunca faria isso, sabendo como nós o podemos prejudicar. À cautela, vamos aproveitar o próximo buraco orçamental para responsabilizar o Gaspar e propiciar a sua remodelação. Aproveitaremos para correr também com o Ministro da Saúde que parece ser competente demais e essas pessoas tendem a tornar-se perigosas.

Quanto à oposição política: como prevíamos, sem o Sócrates o PS não existe, limita-se a fingir que existe; e a esquerda é marginal. A direita está controlada, não representa qualquer ameaça.

Face a estes bons desenvolvimentos da situação, venho solicitar o pagamento acordado para a 2ª fase; é certo que esta ainda não está concluída nos outros países, mas Portugal irá funcionar como locomotiva e a instalação de empresas alemãs em Portugal irá levar os outros, face aos seus crescentes e insolúveis problemas de emprego, a aderir à 3ª fase.

Com os melhores cumprimentos,

Dr. Jordan