Ptolomeu e Darwin souberam organizar as suas observações e os conhecimentos da sua época em modelos que os explicavam; o modelo de Ptolomeu já foi substituído por outro melhor; o de Darwin, embora baseado em conhecimentos de biologia muito primitivos, é muito mais recente e ainda não foi feito um melhor; para isso é preciso um "quantum leap" que ainda não foi dado, o que não impede que se saiba que o seu modelo está tão errado como o do Ptolomeu (como seria de esperar, pois em ambos os casos apenas as aparências das coisas eram conhecidas).
sexta-feira, janeiro 25, 2013
Darwin, o Ptolomeu da Biologia
(continuação da minha conversa com o Hans)
Ptolomeu e Darwin souberam organizar as suas observações e os conhecimentos da sua época em modelos que os explicavam; o modelo de Ptolomeu já foi substituído por outro melhor; o de Darwin, embora baseado em conhecimentos de biologia muito primitivos, é muito mais recente e ainda não foi feito um melhor; para isso é preciso um "quantum leap" que ainda não foi dado, o que não impede que se saiba que o seu modelo está tão errado como o do Ptolomeu (como seria de esperar, pois em ambos os casos apenas as aparências das coisas eram conhecidas).
Ptolomeu e Darwin souberam organizar as suas observações e os conhecimentos da sua época em modelos que os explicavam; o modelo de Ptolomeu já foi substituído por outro melhor; o de Darwin, embora baseado em conhecimentos de biologia muito primitivos, é muito mais recente e ainda não foi feito um melhor; para isso é preciso um "quantum leap" que ainda não foi dado, o que não impede que se saiba que o seu modelo está tão errado como o do Ptolomeu (como seria de esperar, pois em ambos os casos apenas as aparências das coisas eram conhecidas).
- Bem, queres
então saber que processo usa a Vida para conseguir evoluir.- Pigarreei, era
altura de passar de ouvinte a palestrante e tinha de descolar a voz da
garganta. - Sim, - respondeu o Hans, com ar de grande curiosidade; e
acrescentou, sábio: - o Darwin propôs um processo de geração de mutações por acaso e seleção
natural, que é hoje aceite incondicionalmente e, de certa forma, a base das
teorias económicas e sociais ocidentais.
- Bem –
interrompi- não foi bem isso que o Darwin propôs; e nem é correcto dizer que
isso seja a base das teorias, é antes a justificação para porem de pé teorias
que já existiam e que convêm a apenas alguns; é por isso que me parece
importante desmistificar tudo isso.
- Desmistificar?
Então um processo de acaso e seleção não é um processo de Inteligência?
Lembro-me de ler isso no teu blogue...
- Um processo de
acaso e seleção é um processo capaz de resolver certos problemas; é, por isso,
um processo de Inteligência, sem dúvida.
- É o que eu
estou a dizer... - o Hans com um sorriso maroto mas impaciente ao mesmo tempo.
- Então sabes que
a eficiência desse processo se pode medir pela probabilidade de a hipótese
certa ser gerada, admitindo que o mecanismo de seleção é infalível...
- Sim, sei,
conheço o teu modelo das condições iniciais da Terra que fazem com que a
probabilidade de se gerar por acaso as primeiras moléculas auto-reprodutoras
necessárias à vida seja elevada.
- Certo; nessas
condições gerou-se um número elevadíssimo de combinações de átomos e por isso a
solução, a estrutura certa, pode ser selecionada; estamos a falar de qualquer
coisa como 10^38 a 10^40 átomos a combinarem-se furiosamente durante perto de
500 milhões de anos, o que gera um número astronómico de hipóteses; e isto só
para a primeira pequena sequência auto-reprodutora, porque logo a partir daí já
não se trata de um mero processo de acaso. Isto mostra a dimensão que um
processo de acaso tem de ter para conseguir ser “Inteligente”.
- Mas se
isso foi capaz de criar vida, certamente que fazê-la evoluir será muito menos
exigente...
- Aí é que tu te
enganas. Tens de olhar sempre para a probabilidade de ser gerada a hipótese
certa. Por exemplo, se fosse como pensas, a Microsoft só tinha de por os seus
brutos computadores a gerar alterações ao acaso ao seu Windows Vista para gerar
um sistema operativo melhor, não é?
O Hans hesitou
– Beemm, não será assim... não estou a ver que alterar ao acaso o código de um
sistema operativo possa gerar um código melhor...
- Não estás a ver
porquê? O Windows 8 não é um código também? É uma sequência de bits, como o
Windows Vista, logo bastará alterar os bits do Windows Vista ao acaso para
acabar por obter o código do W8...
- Sssim, mas isso
parece-me uma impossibilidade... as combinações possíveis são uma enormidade...
e o tempo de teste...
- Exactamente!
Uma enormidade tal que fácil é concluir que nem o tempo todo do Universo
chegaria para conseguir gerar as combinações possíveis; ou seja, a
probabilidade de gerar a hipótese certa em tempo útil é tão ínfima que pode ser
considerada nula; é por isso que a Microsoft não segue esse processo. Agora
diz-me, o que é mais complexo, um sistema operativo ou um ser vivo?
- O ser vivo,
evidentemente!
- Claro; e neste
a produção de uma nova hipótese exige uma nova geração de seres, e isso é um
processo lento, muito lento; e tanto mais lento quanto mais evoluída é a Vida.
O número de hipóteses passível de ser gerado é ridiculamente baixo, a
probabilidade de conseguir uma mutação por acaso que dê certo é infinitesimal.
Pensar que a Vida evolui por um processo de acaso e seleção é uma ingenuidade.
- Mas não foi
isso que o Darwin disse?
- Não; o Darwin
falou de mutações e seleção, mas nunca disse, que eu saiba, que essas mutações
eram produzidas por acaso. Isso foi um aproveitamento das ideias dele, na
obsessão de substituir o conceito de Deus pelo de Acaso, que era o deus dos
cientistas e não só na época. Além disso, as evidências que o Darwin apresentou
foi como os seres vivos se adaptam às condições externas; mas adaptação não é
evolução, pensar isso é uma extrapolação ilegítima. Por exemplo, a espécie
humana está a aumentar de estatura, mas isso não é evolução, não há alteração
do projecto do ser, apenas ajustes nos valores dos seus parâmetros.
- Mas
ajustando parâmetros, a pouco e pouco, o ser vai-se modificando e acaba por
originar algo diferente...
- Isso é outra
ingenuidade; por mais que alteres o valor dos parâmetros, o projecto fica
sempre o mesmo. É como dizer que o automóvel de hoje se pode obter a partir do
projeto do Cugnot apenas alterando o valor dos parâmetros; ou que se passou do
primeiro micropressador para os atuais alterando parâmetros do projecto
inicial. Não é verdade. Qualquer engenheiro sabe bem que a evolução de um
projecto exige invenção. As alterações de parâmetros, como o tamanho ou forma
do bico de uma ave, são meras adaptações, não são evoluções.
- Então da teoria
do Darwin, de mutações + seleção, apenas se aproveita o lado da seleção? A
seleção natural?
- Isso então é
que é o disparate completo!
O Hans largou a
cabeça para trás na sua típica gargalhada. - Com essa é que me matas –
desabafou – não me digas que viraste criacionista!
A reação do Hans
não me surpreendeu, as pessoas reagem sempre com uma gargalhada quando
confrontam algo que conflitua com as suas certezas; ou gargalhada ou violência,
são as duas maneiras que o cérebro tem de fazer o “reset” duma situação de
bloqueio mental. Calmamente, continuei - Na natureza, todos os seres se
reproduzem salvo acidente; estes sim, fruto de acaso e circunstâncias; não é o
mérito ou demérito de pequenas alterações nos parâmetros que condicionam a
reprodução ou a sobrevivência. Conheces o estudo sobre a reprodução dos chocos
australianos?
- Não..
- Um grupo de
investigadores deu-se ao trabalho de estudar a seleção pela reprodução em
comunidades de chocos que se reproduzem em zonas pouco fundas, o que lhes
possibilitou um controlo rigoroso, e descobriram que apesar dos chocos
dominantes guardarem vigorosamente as suas fêmeas, cerca de 1/3 das crias eram
dos outros chocos, que usavam truques como disfarçarem-se de fêmeas para
iludirem os machos dominantes e se aproximarem das fêmeas destes, que os não
rejeitavam.
- Bem.. não me
admiro... mesmo na espécie humana isso acontece.. ou parecido... apesar da
rigidez das normas morais...
- Exactamente. A
verdade é que quase tudo o que se afirma sobre evolução está errado: nem há
geração de mutações úteis por acaso, nem estas são selecionadas pela natureza;
a ideia da Seleção Natural é um erro. Há seleção sim, é um facto que os seres
vivos surgem com alterações e selecionam aquelas que melhor os servem, mas nem
as alterações são fruto do acaso nem é a Natureza que faz essa seleção, são
eles mesmos; essas ideias são apenas ideias primitivas sobre o problema, uma
espécie de modelo de Ptolomeu da biologia, uma coisa que parece certa, lógica,
indiscutível à luz das aparência, mas errada. – Fiz uma pausa para verificar se o Hans me estava a
seguir, o olhar atento incitou a prosseguir:
- No tempo de Darwin a biologia estava nos
primórdios, nada se sabia sobre a célula, apenas se conhecia a aparência dos
seres vivos; o modelo de Darwin, tal como o de Ptolomeu, foram úteis,
organizaram o conhecimento que se tinha na altura, mas hoje temos outros
conhecimentos que mostram que esses modelos estão errados. No caso do Ptolomeu,
o seu modelo foi posto de lado porque outro melhor surgiu; mas para isso foi
preciso mais de um milénio. O de Darwin ainda subsiste apenas porque outro
ainda não foi apresentado; mas muita gente ligada à biologia compreende que as
coisas são bem mais complexas do que o modelo de Darwin e das sucessivas
adaptações que se têm feito dele.
- Espera aí,
deixa-me por as ideias em ordem; então tu afirmas que essa coisa das mutações e
seleção não tem a ver com evolução mas apenas com adaptação e que a seleção não
é feita pela natureza mas pelos próprios indivíduos??? Páaa... tens de me
explicar isso devagarinho... muito devagarinho mesmo... como se eu fosse
burro...
- Será um prazer.
Deixa-me começar pela Seleção.
(continua)
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quarta-feira, janeiro 09, 2013
Somos o que nos convém
(continuação da conversa com o Hans)
O Hans sorveu longos goles da caneca de cerveja acabadinha de chegar. O calor apertava. Eu continuei na minha água tónica, não estava ali num encontro social, queria aproveitar ao máximo as ideias do Hans. Bebeu meia caneca de uma vez só. Pousou-a, visivelmente satisfeito. Beber quando se tem sede é dos maiores prazeres da vida. Refeito, recomeçou a conversa.
Os Ricos são
espertos, tão espertos como todas as outras pessoas; cada um faz o que pode
para defender os seus interesses, não é? Na medida dos seus poderes, é claro...
Lá estás tu com
as tuas visões negativas da humanidade – ripostei.
O Hans ficou
pensativo. Um dia eu explico-te como funciona o cérebro humano, qual é o seu
algoritmo de decisão. Até lá, acredita em mim, o nosso cérebro, a nível
inconsciente, está programado para decidir sempre em função do que considera
ser o nosso interesse e constrói-nos um quadro mental, uma percepção da
realidade exterior, que torna legítimo e correto, em face da nossa moral,
agirmos em função desse interesse. Quando somos pobres defendemos a igualdade,
a redistribuição de riqueza, mas se por acaso ficamos menos pobres, em pouco
tempo consideramos que tal se deve ao nosso mérito e que os que são pobres o
são porque mais não merecem, e que têm muita sorte em haver empregos que lhes
paguem 500 euros; e continuando a enriquecer, depressa achamos que é bom que
existam pobres, precisamos de criados, que nos sirvam barato mas que
desapareçam da frente quando andamos de carro, ou vamos a espectáculos, ou
vamos à praia; não precisamos de muitos pobres, mas precisamos de suficientes
para nos sentirmos superiores, especiais, isso faz-nos muito bem ao Ego. Os que
estão para além disso, surgem-nos como empecilhos da sociedade, pensamos que
esta beneficiaria do seu desaparecimento – enquanto estamos na classe média
achamos isso dos ciganos, do pessoal do bairro da lata; à medida que
enriquecemos começamos a achar isso para aí de 1/3 da humanidade, demasiado
pobre para contribuir para o nosso enriquecimento, portanto inúteis, e
demasiado insignificantes para alimentar o nosso grandioso Ego.
Estou a
perceber-te... enquanto pobres temos uma visão solidária, romântica, da
humanidade, mas quando somos Ricos a nossa visão altera-se para o oposto.
Sim, mas o
busílis da questão não é esse. O pormenor importante é que as pessoas não têm
noção de que o seu entendimento se vai alterar se a sua situação mudar, pensam
que serão sempre como são hoje. Ora as pessoas da classe média ou média baixa,
que têm um certo sentido de solidariedade, pensam que os Ricos são como elas e
que, naturalmente, sendo ricos, exercem activa solidariedade, que é o que elas
pensam que fariam no lugar deles.
Ahh, estou a entender-te; estás a dizer que
os pobres, ou os “remediados”, pensam que são solidários genuinamente, não
sabem que o são apenas porque é isso que lhes convém na sua situação; e a razão
porque não sabem é que o seu inconsciente lhes cria um quadro mental e afetivo
de solidariedade que as pessoas tomam como correspondendo à sua natureza
profunda e imutável. E então eles pensam que é da natureza humana ser solidário
e pensam que os Ricos e os Poderosos têm essa natureza, que são solidários com
os que têm menos. Ora a verdade é que o que é da natureza humana é ser egoísta
e os Ricos e Poderosos não são solidários com os pobres porque não é isso que
lhes convém e o seu inconsciente constrói-lhes um quadro mental e afetivo
diferente.
Isso mesmo. E
dizes bem, Ricos ou Poderosos, porque se hoje quem está por cima são os
estupidamente ricos, os banqueiros, os financeiros, antes de haver tanta
riqueza eram as elites que se presumiam cultas, ou os senhores de muitos
terrenos, e que alimentavam as mesmas ideias de superioridade em relação à
restante humanidade que os Ricos de hoje.
Por um lado, sei
que tens razão; uma coisa que tenho verificado quando ando de metro é que quem
dá esmola aos pedintes são as pessoas que parecem ser mais pobres. Mas, por
outro lado, sei que há pessoas que parecem já nascer com esse sentimento de
superioridade absoluta e desprezo pelos outros, vejo isso logo pelo
comportamento das crianças num parque infantil.
Sim,claro;
é que nascemos com diferentes necessidades e a essas pessoas o que convém não é
a solidariedade. Suponho que ser estupidamente rico não é coisa que te
interesse, como não me interessa a mim, não é isso que queremos da vida,
seríamos muito infelizes se a nossas vidas se resumissem a isso; há muitas
pessoas como nós e que facilmente desenvolvem sentimentos de solidariedade
porque é isso que corresponde ao que querem, é esse o seu egoísmo. Mas há
também pessoas para quem a coisa mais importante é ser estupidamente rico ou
poderoso e logo, o que lhes convém é o desprezo pelos outros. E as pessoas que
são estupidamente ricas ou poderosas vêm geralmente desse lote de pessoas e não
são pessoas solidárias, não há um pingo de solidariedade nessas pessoas. O
grande equívoco dos pobres que não são obcecados com a riqueza é não saberem
isso.
Compreendo,
é a ilusão que os pobres têm de que as pessoas são assim, solidárias, “boas”,
que alimenta o poder dos Ricos; os pobres esperam indefinidamente que os Ricos
resolvam os seus problemas em vez de perceberem que eles são a causa deles.
Os Ricos
alimentam essa ilusão praticando a “Caridade”, que são atos isolados de
ajuda, não alteram a situação dos
desprotegidos mas servem por um lado para alimentar o Ego dos Ricos, e por
outro para alimentar essa ilusão dos pobres de que os Ricos cuidam deles! Que
são protetores, uma espécie de delegados de um Deus benfazejo... A
solidariedade existe apenas entre pessoas que se sentem iguais; as que se
julgam superiores podem ser caridosas mas não solidárias. Há aqui um duplo erro
de percepção, os pobres que pensam que os Ricos são solidários com eles e os
Ricos que pensam que são superiores aos outros
Eu oiço desde o
25 de Abril pessoas a reclamarem contra o facto de muito mais gente se
licenciar agora – de os filhos dos outros se licenciarem é claro, não os seus.
Argumentam que não há emprego para tanto licenciado mas esquecem que ainda há
menos para os não licenciados. O que os aflige é a diminuição da desigualdade,
nada mais, mas a sua mente constrói um quadro, falso, que justifica essa
manutenção da desigualdade.
O Hans assentiu
distraidamente, compenetrado no que queria dizer; continuou: - Há estudos e
experiências sobre essa ilusão de que somos independentes das circunstâncias. E
isto é verdade em relação a outras características. Por exemplo, a Honestidade
não existe, não faz parte do nosso algoritmo mental; o nosso inconsciente
decide sempre em função da sua análise custo/benefício.
Sim, isso eu sei;
ninguém põe a moeda no parquímetro se souber que o fiscal já não vai passar.
Certo; por isso a
sociedade organiza-se instituindo penalizações que fazem com que a relação
custo/benefício leve ao comportamento pretendido. Uma pessoa que vive num
ambiente onde isso está bem controlado, age conforme as regras porque é o que o
seu inconsciente conclui que lhe convém, mas essa pessoa está convencida que é
porque é honesta, porque esse é o quadro mental e afetivo que o inconsciente
lhe constrói para a levar a agir como ele acha que é vantajoso. Não sabe que se
for colocada numa situação onde o seu inconsciente conclua que a corrupção lhe
é vantajosa, tenderá a ser corrupta. As pessoas não são mais ou menos honestas,
fazem é diferentes análises custo/benefício, quer porque o que cada um
considera ser um benefício é diferente, quer porque as situações são
diferentes. Mais uma vez, os pobres, desde que não muito pobres, menos sujeitos
a tentações, tendem a ter uma auto-imagem de honestidade e a pensar que os
Ricos também o são; mas os Ricos sabem bem que a honestidade não existe.
Combater a corrupção é uma questão de instituir adequados sistemas de
fiscalização e punição, o que não é nada fácil e exige normalmente a acção de
uma pessoa “especial”; para controlar a corrupção do dinheiro é preciso uma
pessoa que não esteja interessada em ser rica.
Mas então, se não
somos honestos, nem solidários em situação de diferença, que esperança há para
a sociedade humana?
Todos os
problemas têm solução. A natureza não nos preparou para este problema porque
estas situações são específicas da sociedade humana, e por isso a solução não
está nos nossos instintos; e não adianta pensar que se consegue meter a
honestidade e a solidariedade à força nas nossas cabeças, que é o erro que tem
sido feito, associado a outro, o de presumir que as elites são pessoas melhores
do que as outras. A solução é diferente: é percebermos que somos assim e
construirmos uma sociedade que nos controle porque sabemos que apenas uma
sociedade solidária e honesta pode evoluir e ser boa para todos. Uma sociedade
com regras e sistemas que impeçam a corrupção e a falta de solidariedade. As
sociedades dos animais são definidas pelos seus “instintos”, ou seja, obedecem
a regras que estão programadas nas suas mentes; no nosso caso, essas regras não
estão nos instintos, temos de as instituir nós. Numa sociedade assim, todos
seremos “genuinamente” honestos e solidários porque é isso que convém a cada um
e o inconsciente formata-nos dessa maneira. Precisamos é de não cair no erro de pensar que podemos prescindir das regras porque "somos genuinamente honestos e solidários".
Sim, eu sei, nos
países mais avançados, nomeadamente nos EUA, há muito que isso se faz, eles não
presumem a honestidade ou a bondade de ninguém, nem do presidente.
Pois, mas
acontece que na sequência da Globalização deixaram cair as regras e os Ricos
adquiriram demasiado poder e controlam agora as regras que os devem controlar... e
acham isso legítimo porque, sendo Ricos, concluem que são “superiores”, logo
que são eles quem deve fazer as regras - até citam constantemente o Darwin, a
famosa frase da “sobrevivência dos mais aptos”, a ideia de que a Evolução da
sociedade humana se faz através da eliminação dos mais fracos e que sem isso a
evolução fica comprometida, o que justifica as ideias de eutanásia e outras
ainda mais terríveis. E é isso que se passa na Europa agora.
Ahh, mas é um enorme disparate, na Natureza as coisas passam-se exactamente ao
contrário!.
Ah é? Mas olha
que as teorias económicas atuais assentam nesse princípio, tido como
indiscutível! Ele é a base da economia atual, que é o mesmo que dizer que é a
base da sociedade ocidental.
Então está
explicado porque é que ela funciona tão mal; porque não é nada disso! Os
economistas não sabem nada de biologia e agarram nessas ideias estúpidas e
erradas, convencidos que são verdade. Do reino dos Humanos não sei muito, mas
do da Natureza sei alguma coisa.
Então como é?
(continua)
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quinta-feira, dezembro 20, 2012
A Democracia agoniza
(continuação da conversa com o Hans)
Espera lá – atalhei o entusiasmo do Hans – então tu achas que a classe média está condenada? Vai ficar uma sociedade só de Ricos e Pobres? Não pude deixar de soltar uma risada - Custa-me a acreditar nisso, a nossa sociedade está estruturada em torno da classe média...
O Hans inspirou
fundo; soou-me como se ele estivesse e pensar “deixa-me ir com calma para
iluminar as ideias deste ingénuo...”. A classe média foi sempre um joguete dos
Ricos, existiu na medida em que lhes convinha para manterem os seus
privilégios. Faz parte do processo de enriquecimento dos Ricos e do processo de
manutenção do Poder. O crescimento da classe média no Ocidente a seguir às
guerras mundiais deveu-se à necessidade de os Ricos fazerem frente ao
comunismo. O comunismo nasce para combater o poder absoluto e esclavagista dos
Ricos e a única maneira de conseguir travar o avanço do comunismo era deixar os
povos melhorarem as suas condições de vida, até aí infames e miseráveis. Para
isso, era preciso deixar as pessoas irem enriquecendo, deixar crescer uma
classe média.
Essa visão é
muito niilista... nos EUA houve muita preocupação com a igualdade de
direitos...
Sim, no
princípio. É que enquanto a Europa já é uma sociedade de Ricos e Pobres há
muitas gerações, os EUA foram formados pelos pobres que fugiram da Europa, por
isso os Ricos dos EUA são recentes e nas bases ideológicas dos EUA anda tens os
princípios que os pensadores de uma sociedade melhor sempre defenderam, já os
encontras na Revolução Francesa; e os EUA preocuparam-se muito em desenvolver
regras que limitavam o crescimento da desigualdade, que promoviam a
redistribuição de riqueza, sobretudo após a crise de 1930.
Claro! Regras
inerentes ao sistema capitalista que promoviam a distribuição de riqueza pelo
próprio sistema, nomeadamente a distribuição de dividendos nas sociedades por
acções ou a participação dos empregados na empresa, uma prática muito comum nos
EUA; e, antes da globalização, obrigavam as empresas que se tornassem grandes
demais a cindirem-se. O que aconteceu é que deixaram os mecanismos de
supervisão nas mãos dos financeiros e estes destruíram e perverteram tudo
através da especulação financeira.
Pois... e ficaram
estupidamente ricos! É isso mesmo que eu te estou a dizer...
Fiquei um pouco baralhado... que quer ele dizer afinal? Resolvo fazer um ponto da situação: - Então a tua ideia
é a de que a classe média europeia, que é uma sociedade dominada há muitas
gerações por uma casta de Ricos, foi criada apenas para fazer frente ao
comunismo e que agora que o perigo comunista desapareceu deixou de ter
utilidade para os Ricos e vai desaparecer? Vamos voltar a ser uma sociedade de
Ricos e Miseráveis?
Sim. O vosso PCP
sempre percebeu isso, por isso é que se manteve fiel às suas raízes, sabe muito
bem que a Europa voltará a ser o que sempre foi, uma coutada dos Ricos.
Sabes, não é isso
que eu penso; eu penso que se está a construir uma sociedade global e que
portanto muitas das coisas a que estávamos habituados em termos de país perdem
o sentido, não têm lugar numa sociedade global; o que está a acontecer é essa
transformação, apenas isso.
Seria bom... mas
há um problema... neste sistema em que cada um trata dos seus interesses ganha
sempre o mais forte, ou seja, o mais rico; a perversão de que falas não foi um
erro, um acidente de percurso; enquanto existir a mentalidade de cada um por
isso, faças as regras que fizeres elas serão sempre pervertidas.
Eu tenho muita
confiança na Democracia. Se a maioria das pessoas se sentir a empobrecer,
votará em políticos que lutem contra esta situação; e eles aparecerão
certamente, porque quem ambiciona o poder defende sempre a ideologia que lhe dá
acesso a ele; foi o que o Hitler fez.
Sim... – um
sorriso maroto elevou os cantos da boca do Hans – quem quer o Poder
defende sempre a ideologia que lhe dá acesso a ele... foi exactamente isso que
os Ricos fizeram e estão a fazer na Europa...
Fizeram como? A
Europa é uma democracia, logo comandada pelas maiorias, não pelas minorias!!
Ai meu Deus –
desabafou o Hans, com aquele ar de desalento que se tem perante um ignorante
sem remissão – como tu estás enganado!! Ainda não percebeste quem manda na
Europa?
A... Merkel...
Claro! Na Europa
manda quem ganhar as eleições alemãs! Para ter o poder na Europa basta
controlar a classe média alemã; não estás a ver? Na Europa, o poder político depende de
apenas 10% dos seus cidadãos.
Não é assim tão
simples – ripostei indignado – Se os governos dos vários países não conseguirem segurar
as suas classes médias perderão as eleições! – disse, com ar de quem sabe do que
fala. A minha segurança desmoronou-se de imediato perante a gargalhada do Hans.
E onde é que os
países têm governo?! Um governo só o é se tiver poder; e só há duas maneiras de
ter poder: por via militar e por via económica. Ora a via militar está fora de
questão e a via económica... já não depende dos governos! Os governos não têm
poder! E rematou com outra gargalhada.
Estás a
referir-te aos estatutos de BCE? Tinha de ser assim, para que o sistema
financeiro europeu não ficasse dependente dos interesses particulares de cada
país! Como é que querias caminhar para uma globalização com um sistema
financeiro ao sabor dos interesses de cada país?? Com esta senti que marquei
pontos na discussão. O Hans ficou subitamente sério. Quase agressivo,
respondeu:
Tu já reparaste
bem na enormidade do que acabas de dizer? O sistema financeiro ficaria
dependente dos interesses de cada país??? Claro!!! Ficaria dependente dos
interesses da maioria das pessoas! É isso a democracia!! Por esse raciocínio
também podíamos acabar com a ONU e entregar o mundo aos EUA, ou acabar com as
eleições em cada país. Ou tornar os militares independentes do poder político,
porque não?
O que se passa na
Europa é que o poder foi totalmente entregue aos Ricos, tornou-se independente
do voto dos cidadãos. Quem manda na Europa são os grandes financeiros porque os
cidadãos europeus não têm qualquer espécie de poder sobre eles, o seu voto é
totalmente inútil. Pior: agora, a supervisão dos financeiros passou
inteiramente para eles, tornaram-se intocáveis!
A teimosia impedia-me de concordar com o Hans; tentei encontrar argumentação contrária - Não estou nada de
acordo contigo; em Portugal, por exemplo, é diferente ter um governo PSD ou PS
– disse, inseguro a lembrar-me do Seguro... O Hans poupou-me agora à gargalhada
e com ar paternalista “esclareceu-me”:
Em Portugal, quem
manda é a troika, ou os patrões da troika, os governantes são meros executantes
das decisões deles; e é indiferente o governo ser PS ou PSD. Os eleitores têm
uma única opção: ou votam na submissão ao poder dos Ricos ou votam pela saída
do Euro. Mas como as pessoas têm horror à mudança, é garantido que continuarão
no Euro, a caminho da miséria total.
Acho esse
panorama muito negro; afinal os países europeus são Estados Sociais e é
intrínseco ao Estado Social a melhoria das condições de vida de toda a
população; basta pôr os olhos na Dinamarca que se transformou num dos países
mais ricos do mundo sem dispor de quaisquer recursos... mesmo a Troika diz que
se quisermos ter um Estado Social isso é uma opção nossa... Na cara do Hans li
imediatamente um “Meu Deus dai-me paciência”. Com toda a calma disse: Pede-me
outra imperial por favor, tu secas-me a garganta... eu já te explico o que é o
Estado Social da tua Troika.
(continua)
(continua)
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Por que há pobres?
(continuação da conversa com o Hans; aqui ele começa a explicar porque é que a sociedade ocidental tem a estrutura que tem e como evolui)
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Então queres
saber porque é que a Alemanha está tão empenhada neste ataque aos países do
Sul... - O Hans suspendeu o que ia a dizer; os seus olhos cinzentos
imobilizaram-se, apontando ao longe por sobre o meu ombro direito; durante uns
segundos o tempo parou, como se o Hans fosse um robot que tivesse ficado sem
energia - Não, espera, tenho de começar por esclarecer uma coisa que podes não
saber. - Pelos vistos, foi activada a energia de reserva, fantasiei… Espero em
silêncio.
As pessoas que
não dedicaram especial atenção às questões económicas estão convencidas de que
a economia liberal se auto-equilibra pois que quem produz precisa de
consumidores e por isso a existência de pobres seria contrário aos interesses
de quem produz. O Hans especou, a olhar para mim atentamente. Admiro-me: E não é? Bem sei
que num sistema competitivo as empresas estão sempre a lutar pelo máximo lucro,
mas o empobrecimento das pessoas, o crescimento desenfreado da desigualdade é
contrário aos interesses de quem produz, dos empresários, dos ricos, embora
muitos pareçam não perceber isso.
Um sorriso varre
a cara do Hans. Um sorriso meio trocista, meio triste. Fiquei intrigado.
Estás muito
enganado, tal como a generalidade das pessoas. - Inspirou fundo, preparando o
esclarecimento, enquanto eu sentia um ar aparvalhado a colar-se à minha cara. -
O grande equívoco é pensar que o consumo depende do número de consumidores. Não
é verdade. O consumo depende da riqueza dos consumidores. Da riqueza total, não
interessa a sua distribuição.
Não interessa?
Como assim? Há um limite para o consumo individual….
Estás enganado.
Vamos ver exemplos. Carros por exemplo. Mudas de carro de quanto em quanto
tempo?
Bem, eu sou um
caso especial… o meu carro anterior durou uns 16 anos … este tem 10 anos…
E está velho? -
interrompeu o Hans.
Não, nada –
entusiasmei-me – está como novo. Tirando uns arranhões é claro.
Qualquer
carro funciona sem problemas uma dúzia de anos ou mais; no entanto, os teus
colegas, amigos, familiares, fazem o mesmo que tu?
Não – assenti –
quase toda a gente muda de carro de 4 em 4 anos…
Achas que isso é
necessário?
Claro que não!
Pois não. As
pessoas mudam de carro porque têm dinheiro para isso; e porque é criada uma
pressão social que os faz sentir essa necessidade – uma necessidade meramente
psicológica. Ou seja, tanto faz ter uma população onde a riqueza está
distribuída por igual e compra carro novo de 8 em 8 anos ou concentrar a
riqueza em metade da população e convencê-la a comprar carro todos os 4 anos.
Sim, o consumo é
o mesmo … mas isso não deixa deter um limite, não estou a imaginar as pessoas a
mudarem de carro de 2 em 2 anos, não é?
Não estás? - O
robot tornou-se subitamente humano, o Hans deitou a cabeça para trás e soltou
uma sonora gargalhada - Muita gente nos EUA, por exemplo, muda de carro todos
os anos, não é de 2 em 2 anos!!! Mas não fica por aí, alguns coleccionam
carros, é um para a estrada, outro para a cidade, um para cada filho, outro
para férias, pois tem de ser grande… e também há que acertar a cor do carro com
a toilette não é verdade? Afinal, o carro não é mesmo que um par de sapatos??
Não serve para ir de um sítio para outro? A mesma razão que leva as pessoas a
terem vários pares de sapatos aplica-se aos carros, haja dinheiro para isso!
Fiquei siderado.
Nunca me tinha ocorrido tal. Mudar carro de 4 em 4 anos já me parecia uma coisa
ridícula, mudar de carro como quem muda de sapatos parecia-me surrealista; mas
ele tinha razão…
Portanto, já
viste quanto se pode concentrar a riqueza, sem que isso afete minimamente o
consumo. Ouvia o Hans ao
longe… a minha cabeça ainda estava atordoada com a ideia de as pessoas usarem
carros como se fossem sapatos… claro que a ideia de as pessoas terem vários
pares de sapatos também deve fazer confusão às pessoas que dantes só tinham um…
e o outro para a missa… lembrei-me então dos telemóveis, como toda a gente que
conheço muda constantemente de telemóvel... mais de 6 meses com o mesmo já é
record... Mas vejo que o Hans tem razão, o consumo depende da riqueza total,
não da sua distribuição.
Ok, concordo
contigo – digo, saindo do meu torpor meditativo. - Tanto faz que a riqueza
esteja concentrada ou distribuída para efeitos do consumo, mas o que é que
tiras daí?
Ahhh – os olhos
do Hans abriram-se a acompanhar um largo sorriso – é que agora há o outro lado
da equação!!!
Outro lado?
Sim. O que
interessa não é o consumo, é o lucro, a relação entre o preço de venda e de
custo. O outro lado da equação é o custo de produção - os olhos abriram-se
ainda mais, como se estivesse a revelar um segredo crucial – repara, para
minimizar o custo da produção, o que é buscam constantemente as empresas?
Mão-de-obra
barata…- arrisquei.
Exactamente!
Agora diz-me qual é a distribuição de riqueza que maximiza o lucro? É a
distribuição por igual?
Senti-me um aluno
mal preparado a enfrentar o examinador numa prova oral - Não, não é a
distribuição por igual, é preferível, numa ótica de lucro, ter a riqueza concentrada numa parte da
população e a restante ser pobre para fornecer mão-de-obra barata.
E-xa-ta-men-te!–
exultou o Hans - A sociedade da economia liberal é uma sociedade que começa por
ser igual e depois divide-se em 3 classes: os ricos, a classe média e os
pobres.
Fez-se-me luz.- Então é por isso, exclamei; a sociedade começou por duas classes, senhores e
plebe; quando começou o comércio, o consumo, estratificou-se em 3 classes
porque é o modelo que melhor serve os ricos!
Bem, ainda não te
disse tudo – o Hans fez um sinal com a mão, como quem diz “acalma-te” - A
concentração da riqueza tem ainda outra consequência.
Outra? Não estou
a ver...
É o seguinte: as
pessoas querem comprar coisas tão caras quanto possível; compram sempre o carro
mais caro que podem, não é verdade?
O carro, o
telemóvel, a viagem de férias... tudo!
Exacto. Então a
concentração de riqueza abre mercado para produtos de luxo, produtos de preço
exorbitantes... que geram lucros exorbitantes. Quanto maior a concentração de
riqueza, maior a diversidade de produtos que se podem produzir e maiores as
margens de lucro. Os ricos geram entre si uma economia própria, que se sobrepõe
à restante economia. Isto tem uma consequência: retira peso económico à classe
média. A indústria automóvel não precisa de produzir carros de gama baixa, pode
deixar isso para os chineses, o que dá dinheiro são os carros de gama alta, as
casas de gama alta, a moda de gama alta, etc.
Queres dizer que
a classe média pode desaparecer? Ficarem só duas classes, a dos muito ricos e
dos pobres?
Admirado? É essa
a tendência clara em vários países, nomeadamente EUA, Canadá e Inglaterra e
Austrália. Não conheces o famoso documento do Citygroup sobre a Plutonomia?
Plutonomia? Nunca
ouvi tal...
Nunca ouviste
tal? Esse documento é talvez o documento mais importante que já se fez sobre a
nossa sociedade! – um riso de satisfação explodiu na face do Hans. – É um
documento do Citygroup a aconselhar os seus clientes a investirem nas empresas
que produzem artigos para ricos; na verdade, não diz nada que não se saiba, ou
seja, que os 10% mais ricos representam mais de metade da economia, que o
conceito de consumidor médio já não tem interesse porque são os ricos que
comandam o mercado; e que será cada vez mais assim, o baixo custo da
mão-de-obra assegurado pela globalização. A importância deste documento é vir
de dentro do sistema, não ser uma opinião de pessoas que contestam o sistema e
sempre descredibilizadas por essa razão.
Pois, não
conheço...
Então não deixes
de ler. Ele retrata lindamente o como e o porquê da transformação da sociedade
de 3 classes em duas: Ricos e Pobres. Mas isso já é passado, a evolução da
sociedade neo-liberal não acaba aí, a fase seguinte já se iniciou e isso é que
é verdadeiramente dramático, muito mais do que possas imaginar.
(continua)
segunda-feira, dezembro 03, 2012
A austeridade é só para alguns, já tinham notado?
Enquanto não vem o próximo texto do Hans, aqui fica um vídeo que serve de introdução:
segunda-feira, novembro 26, 2012
O Império dos Ricos
Imagem retirada deste blogue; recomendo a leitura, e do seu post mais recente, sobre Séneca
Os comentadores
televisivos, os partidos da oposição, toda a gente, anda a dizer que o nosso
governo tem falhado todos os objectivos: a dívida aumenta, o desemprego
aumenta, o deficit público aumenta, a recessão aumenta. Segundo toda esta
gente, o governo e a troika serão duma incompetência total, de uma burrice
inacreditável pois insistem na mesma política que tem conduzido a estes
resultados e necessariamente continuará a agravá-los. Paradoxalmente, a troika
diz que Portugal está “ no bom caminho”, que as medidas são um sucesso; além de
incompetentes serão loucos?
Na verdade, eles
nem são incompetentes nem loucos, mas exactamente o contrário. E é bem verdade:
as medidas têm sido um sucesso.
O equívoco está
no que as pessoas pensam que é o objectivo das medidas; e não é por falta de
esclarecimento do governo e da troika, que estão fartos de o dizer: o objectivo
imediato é
Empobrecer os
portugueses
Parece um
objectivo disparatado? Mas não é, pelo contrário, é o objectivo adequado dentro
do sistema político em que vivemos. Mas antes de percebermos isso, confirmemos
que de facto o objectivo é esse.
Se este é o objetivo, as medidas têm sido um sucesso: estamos cada vez mais pobres. O
ordenado médio já caiu perto de 20%! E o ministro da
Economia parece só estar interessado nas concessões mineiras, a que não deve ser
estranha a conexão canadiana com a estranhíssima empresa Colt. Até agora, já se
viu alguma medida de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno e
que são responsáveis pela quase totalidade do nosso PIB e do nosso emprego?
Mas
“empobrecimento” como objetivo parece realmente uma coisa disparatada. Na
verdade, o “empobrecimento” é só o meio para conseguir o verdadeiro objetivo:
mão-de-obra barata de forma sustentada.
Não é isso que se
procura constantemente no sistema capitalista? Mão-de-obra tão barata quanto
possível? Não querem pagar o mínimo à mulher-a-dias? Pela refeição no
restaurante? Pelo leitinho no supermercado? Pelo bilhete do futebol? Quem
recebe quer receber o máximo, quem paga quer pagar o mínimo, estas são as
regras do sistema. A ideia é que um sistema assim encontra o seu equilíbrio
naturalmente. Uma ideia muito do agrado daqueles que esperam que o sistema se
desequilibre cada vez mais a seu favor, sabendo-se como se sabe que este
sistema se desequilibra sempre para o lado do mais rico.
Porque é que
surge este problema agora aqui? Uma razão é porque já não há no mundo onde
obter mão-de-obra barata de forma sustentada. Hoje, já ninguém aceita fábricas estrangeiras sem pesadas
contrapartidas. As fábricas na China têm pelo menos metade de capital chinês,
prazo de saída e são obrigadas à transferência de saber-fazer. A Volskwagen tem
de sair da China até 2030. Mas sai antes, porque os chineses não nasceram para
escravos e os ordenados lá têm de subir quase à taxa a que sobem os rendimentos
dos ricos no mundo ocidental.
É por isso que os
Ricos precisam de “mexicanizar” o sul da Europa, não têm alternativa.
Vejamos quais são
as medidas que servem este objectivo:
1 – Empobrecimento
Para que as
pessoas aceitem trabalhar por ordenados miseráveis é preciso que não tenham
alternativa; isso implica duas coisas: cortar os apoios sociais e aumentar o
desemprego. Como é que se aumenta o desemprego? Através da recessão, ou seja,
fazendo cair a economia interna. Não são as empresas exportadoras que geram o
grosso do emprego, são as empresas que trabalham para o mercado interno. Como é
que se faz falir estas empresas? Empobrecendo os portugueses. Se os portugueses
tiverem menos dinheiro, consomem menos e levam as empresas dependentes do
mercado interno à falência. Daí a importância do empobrecimento e da falta de
apoio às empresas que trabalham para o mercado interno; daí o facto de a
recessão ser não um indicador do falhanço da política mas do seu sucesso!
2 – Redução dos
apoios sociais
A redução dos
apoios sociais é indispensável à existência de mão-de-obra disponível para
trabalhar por qualquer preço e em quaisquer condições; e também para reduzir a
TSU, o que permite baixar o custo do trabalho.
3-Reduzir o Estado a um órgão executivo dos Mercados
Há um objectivo
de acabar com o Estado como o órgão de gestão dos povos. Quem manda são os “Mercados”,
as políticas económicas são definidas de fora, o Estado social acaba, o ensino,
a saúde, os serviços públicos são privatizados, as forças armadas acabam por
inúteis, , os transportes, as águas, a energia, o notariado... a justiça é
“independente”, ou seja, continua ao serviço dos Ricos mas paga pelos pobres...
a polícia acabará por ser transformada numa espécie de segurança privada dos
ricos paga pelos pobres... o estado reduz-se assim a um mero órgão executivo
dos Ricos.
Sabem quando foi
feito o referendo a perguntar se prescindíamos de ter um país? nas últimas
eleições, por isso é que o PSD apareceu a cantar o Hino Nacional e de pin na
lapela, como as homenagens que se fazem aos que vão morrer; por isso houve acabar com certos feriados.
O mundo
capitalista é um império dos ricos. Uma Plutocracia. E uma Plutocracia não quer
saber de países e Estados, vistos como obstáculos e incómodos ao crescimento do
seu poder.
Como os
“mercados” são os Ricos, é por isso que o “regresso aos mercados” depende de
empobrecermos de acordo com os objectivos de empobrecimento. O “regresso aos
mercados” depende apenas de o governo conseguir que as fábricas europeias se
possam instalar aqui com um custo bruto do trabalho de 2 euros por hora,
isentas de impostos e de legislação laboral, não tem nada a ver com a dívida pública nem com o deficit.
Os governos dos
países neste sistema obedecem aos mercados, ou seja, ao poder dos Ricos.
Mas há outra razão para isto acontecer e essa é inteiramente da nossa responsabilidade; e é essa que torna muito difícil sairmos desta situação (e também não tem nada a ver com a dívida)
(continua)
segunda-feira, novembro 19, 2012
Peluches de Oleiros
Fico muito
impressionado com a história da fábrica de peluches de Oleiros; ela retrata bem
o nosso atraso.
Quando um
empresário monta uma fábrica num país estrangeiro onde não tem mercado, na
busca da redução de custos, há uma coisa que ele tem de acautelar: o
saber-fazer.
Se ele não se
acautelar, logo aparecerá quem fabrique o mesmo que ele e estabeleça
concorrência.
Hoje, estas
situações são definidas à partida em todo o Mundo. Os países aceitam fábricas
estrangeiras na condição de a controlarem suficientemente (normalmente detendo
metade do capital), de elas terem um prazo de saída que é fixado logo no inicio
(a Volkswagen tem de sair da China até 2030, se não estou em erro), e de
deixarem ficar as instalações operacionais.
A condição de os
países hospedeiros terem controlo da empresa tem 3 objectivos: um é evitar que
essas empresas desenvolvam políticas de esmagamento da mão-de-obra, fomento do
desemprego, etc, conducentes a manter baixos os seus custos, outro é
recuperação de parte dos lucros, e o terceiro é garantir a transferência de
saber-fazer.
Em troca, esses
países não desenvolvem concorrência até ao fim do prazo acordado a não ser de
forma limitada. É por isso que os chineses não vão exportar carros para o ocidente até 2030.
No caso da
fábrica de Oleiros, não é por acaso que ela foi para um sítio no “fim do mundo”
em vez de ir para os arredores de Lisboa, onde teria menores custos de
funcionamento – estas fábricas procuram lugares isolados para minimizar os riscos
de concorrência. A fábrica estava “escondida” em Oleiros mas agora foi
“descoberta”; os riscos disso, associados aos custos relativamente altos de
funcionamento ditam a necessidade de se ir esconder para outro lado (e também
pode ser que a Merkel não tenha gostado das conversas acerca de o peluche ser
feito em Portugal e mandado a fábrica sair de cá; há que educar os inferiores,
ensiná-los que não podem mandar bocas ao chefe)
A fábrica de
Oleiros vai ser abandonada? Há um lado positivo nisso!
Com certeza que
ao fim de tantos anos, numa actividade com tanta componente manual, já haverá
pessoas com conhecimentos para dar continuidade à actividade de fabricar
peluches de qualidade!!!
O que há a fazer
é isso. Não é o que os chineses fariam?
Claro que a maior
componente do valor dos peluches não é o seu fabrico, é o marketing; bom, mas
aproveitemos o que temos e talvez sejamos capazes de dar a volta por cima. O
presidente da câmara já analisou essa possibilidade? Deve haver cá empresários
nacionais do ramo, ou de ramos próximos, como o calçado, que podem ver aí uma
oportunidade de negócio.
Aqui, estou de
acordo com o Passos Coelho; estas coisas são oportunidades. Essa fábrica, ao
sair, liberta saber-fazer; e isso é valioso. Aproveitá-lo não será fácil mas é
o que há a fazer. Ela não ia lá ficar para sempre, não é verdade?
segunda-feira, novembro 12, 2012
A Refundação da Banca
Tudo o que
corre mal na sociedade humana pode ser melhorado corrigindo as regras da
sociedade; e sempre que alguma coisa corre mal, há que corrigir as regras.
Os pequenos
erros são difíceis de corrigir porque há sempre muitos interesses que
beneficiam deles; mas as grandes catástrofes, ao contrário, são uma
oportunidade de ouro para corrigir grandes e pequenos erros. O Tsunami do Japão
acabou com o programa nuclear da Alemanha, por exemplo.
O sistema
bancário atual tornou-se um paradoxo: o Estado é o garante do sistema sem ter
nenhum controlo sobre os riscos. Um absurdo que importa corrigir rapidamente.
E é fácil corrigir.
Para começar,
os depósitos a prazo saem da banca. O que cria o risco sistémico é as pessoas
terem as poupanças na banca. Saindo de lá os depósitos a prazo, esse risco
acaba.
Vão para onde
os depósitos a prazo? Para o Estado. O Estado só pode ser o garante desse
dinheiro se tiver a sua gestão direta. Os depósitos a prazo vão para os
Certificados de Aforro. Dupla vantagem para o Estado, ou seja, para todos os
contribuintes: o Estado tem o controlo do risco e financia-se livre de ataques
especulativos.
Para a Banca
fica a prestação de serviços bancários – gestão de contas à ordem, multibanco,
etc. Serviços de que ela naturalmente se cobrará. E fica o crédito ao consumo e
a actividade financeira dita de “investimento”, ou seja, a actividade que
consiste em ganhar dinheiro com o dinheiro. As pessoas que querem ganhar dinheiro com o dinheiro aderem aos produtos que a banca lhes propuser mas ficam com os riscos, ou fazem seguros, o que quiserem, tudo menos querer que seja o Estado, ou seja, os contribuintes, as pessoas que não querem correr riscos, a assumir os prejuízos quando as coisas correm mal e eles ficarem com os lucros quando as coisas correm bem. Se falir, faliu. Todas as iniciativas privadas têm de poder falir; o que não puder falir tem de ficar sob o controlo do Estado.
Como é que se consegue esta profunda mudança? Facílimo: o Estado remunera os certificados de Aforro adequadamente e as pessoas mudam. Os Bancos financiam-se agora no BCE a 0,75%, não precisam dos depósitos a prazo, até porque estão limitados no volume de empréstimos que podem fazer.
O Estado ainda
tem de assegurar duas outras coisas.
Uma é o crédito
às empresas nacionais. Essencial para garantir igualdade de competitividade. O
Estado tem de ter um Banco de Fomento ou um banco dependente do Estado que
assegure essa função. Podia ser a CGD, mas teria de levar uma escovadela
enorme; talvez o mais simples seja começar de novo, fazer um novo banco e
privatizar a CGD, ou talvez a CGD consiga fazer uma inversão de percurso. A ver vamos.
A outra coisa é
o crédito para assegurar dois direitos fundamentais: à habitação e à educação.
O crédito à
habitação tem servido de capa para todo o tipo de crédito ao consumo e fugas
aos impostos; mas não pode ser, este é um crédito com regras especiais, que tem
de ser controlado pelo Estado. Como a Banca não é agora controlada pelo Estado, este
crédito deve ser função do Estado ou, pelo menos, o Estado deve ter uma relevante capacidade de intervenção. É o que se passa na Suécia, segundo creio.
O mesmo se
passa com créditos necessários a garantir a igualdade de oportunidades,
nomeadamente para a educação. É o que têm os países nórdicos.
Como vêm, não
só é fácil resolver estes problemas como até já está feito nos países nórdicos;
já ouviram falar de alguma crise financeira na Suécia?
Claro que ainda
há uma questão de fundo a resolver com a circulação de capitais e os offshores.
Mas lá chegaremos.
quinta-feira, novembro 08, 2012
A Carta
Excelências
Venho
comunicar-vos que a chanceler decidiu arrancar já com a 3ª fase do plano de
mexicanização do Sul. A chanceler considerou existirem condições invulgarmente
favoráveis em Portugal que é preciso aproveitar de imediato, tendo dado a 2ª
fase do plano por concluída, atendendo a que o abaixamento dos custos laborais
já conseguido é excelente e suficiente, conforme anunciou no seu discurso de
ontem.
As condições em
Portugal são actualmente ideais, pois o povo aceita tudo sem reagir, o PM é
completamente submisso, o PR está isolado e nunca fará nada que belisque os
seus interesses pessoais imediatos.
Ao abrigo do
previsto para a 3ª fase, foi já acordado com o Ministro da Educação português o
nosso controlo sobre o ensino público, que irá formar o pessoal necessário às
nossas empresas, as quais beneficiarão de períodos longos de estágio suportados
pelo ME português, ou seja, mão-de-obra paga pelo Estado Português.
Habilidosamente, o ministro anunciou a adopção do plano de ensino “dual”
alemão. Ninguém reagiu.
Segue-se a
instalação de filiais de empresas alemãs em Portugal. Isto será apresentado
como o esforço alemão para o desenvolvimento económico de Portugal e a primeira
acção será a visita da Chanceler a Portugal acompanhada da equipa seleccionada
para a ocupação. Garantirá mão-de-obra muito barata em Portugal, que
começaremos a trazer para a Alemanha a título de “circulação de trabalhadores”,
torneando a resistência dos nossos sindicatos. Actualmente estamos a importar
especialistas de Portugal a metade do preço praticado na Alemanha mas por este
processo vamos reduzir para 1/5 o seu custo. Recordo que o objectivo
final é reduzir a 1/10 o custo do trabalho, que será atingido através do
processo de redução progressiva de salários que se retomará na quarta fase, uma
vez assegurado o fim de qualquer possibilidade de autonomia. Já lançamos um
movimento a apelar à abstenção e isso dará o pretexto para ocuparmos
politicamente o país, uma vez que os portugueses irão dessa forma declarar que
não querem ser governados por portugueses.
Há um único
aspecto que temos de manter controlado: o Ministro das Finanças português,
Gaspar, é um agente do FMI e é muito mais perigoso do que pensávamos. Combinou
com os chineses uma privatização fictícia da EDP que nos obrigou a suspender o
plano de privatizações; só podemos retomar o plano depois de corrermos com ele,
pois aplicará um golpe semelhante em todas as privatizações e nem uma virá para
as nossas mãos. Já avisámos que as privatizações não vão contar para as contas
do deficit, a fim de suspender o processo.
Além disso, há
um movimento de bastidores que pretende que o PR nomeie um governo de
iniciativa presidencial com o Gaspar em Primeiro-Ministro. Em caso algum
podemos consentir nisso ou ele tornar-se-á um novo Salazar e boicotará todos os
nossos planos. Não estamos muito preocupados porque o PR deles nunca faria
isso, sabendo como nós o podemos prejudicar. À cautela, vamos aproveitar o
próximo buraco orçamental para responsabilizar o Gaspar e propiciar a sua
remodelação. Aproveitaremos para correr também com o Ministro da Saúde que
parece ser competente demais e essas pessoas tendem a tornar-se perigosas.
Quanto à
oposição política: como prevíamos, sem o Sócrates o PS não existe, limita-se a
fingir que existe; e a esquerda é marginal. A direita está controlada, não
representa qualquer ameaça.
Face a estes
bons desenvolvimentos da situação, venho solicitar o pagamento acordado para a
2ª fase; é certo que esta ainda não está concluída nos outros países, mas
Portugal irá funcionar como locomotiva e a instalação de empresas alemãs em
Portugal irá levar os outros, face aos seus crescentes e insolúveis problemas
de emprego, a aderir à 3ª fase.
Com os melhores
cumprimentos,
Dr. Jordan
Etiquetas:
Dr. Jordan,
Economia
terça-feira, novembro 06, 2012
Quem tem o Poder?
Um aspecto que
me parece importante salientar nesta altura é o seguinte: fala-se muito da
importância dos mercados, que estamos submetidos aos mercados, são as leis dos
mercados que nos regem, o sistema é baseado na confiança nos mercados, etc,
etc.
Tretas!!!
O sistema é
baseado na confiança sim, mas não nos mercados – na confiança no Estado. É por
isso que o Estado é que avaliza os depósitos e avaliza os próprios bancos. O
sistema financeiro é tão independente, tão independente, tem impressoras para
imprimir dinheiro à sua vontade, o BCE empresta à banca a juro quase nulo, a fiscalização
é toda sua, mas quando se trata de aguentar com os prejuízos é o Estado que tem
de por a mão por debaixo.
Um paradoxo,
não é?
Na verdade,
quem tem o Poder é quem faz as Leis e os Decretos-Lei.
O Estado está
sujeito à chantagem dos mercados? Só enquanto o quiser – basta-lhe ameaçar
tirar “ a mão debaixo” para os mercados se ajoelharem. E para acorrerem a
emprestar dinheiro às dívidas soberanas que é onde ele está seguro; não é o
Estado o avalista final?
Não quer isto
dizer que os financeiros não tenham poder; têm, mas um Estado na mão de quem
tenha cabecinha acaba sempre por levar a melhor. Pode abanar se apanhado de
surpresa, mas depois acaba por sair vitorioso (desde que tenha governantes à
altura...)
Os mercados são
altamente previsíveis no seu comportamento, funcionam para o lucro máximo no
prazo mínimo; e os Estados, querendo, manobram-nos à sua vontade. As crises
financeiras não são nenhum fenómeno natural, algo que nos ultrapassa e
submerge; são o mero resultado da acção predatória de uns que querem enriquecer
à custa dos outros. Uma acção de consequências previsíveis com antecedência
para quem percebe um mínimo do assunto, por um lado; por outro lado, a
previsibilidade do comportamento dos mercados faz das crises um fenómeno
manipulável, programável, por quem percebe do assunto. Ou seja, a crise tanto
pode surgir periodicamente porque a ganância financeira gera ciclos
presa-predador como pode surgir porque um Estado fez manipulação para a
produzir.
Quando olhamos
para a actual crise do Euro, a primeira coisa que é evidente é que ela não se
deve a uma dívida soberana excessiva. A nossa é igual à da generalidade dos
países e a de Espanha é metade. Nem é devida a uma balança externa deficitária,
a da Grécia não o era; nem à fraqueza da economia, a da Itália é pujante. Nem
sequer é devida à crise financeira porque os países fora do euro não estão com
um problema desta dimensão. Não há nada de comum entre os países afectados a
não ser uma coisa: não estão sob o domínio Franco-Alemão na Europa.
Quem faz uma
guerra, o primeiro cuidado que tem de ter é esconder isso. A primeira
habilidade de quem quer fazer a guerra é a arte da dissimulação.
“Deus é Subtil”
disse o Einstein; a nossa inteligência é muito limitada e tudo o que nos parece
lógico, acertado, óbvio, nunca o é. Se é tão óbvio que são os financeiros quem
puxa os cordelinhos da actual situação, é porque... não são!
Esta crise foi
produzida de propósito para gerar uma situação que permite atingir outro
objectivo; numa guerra começa-se sempre por criar uma diversão. A diversão é a
primeira operação no terreno.
Os financeiros
são altamente previsíveis, fáceis de manipular, ideais para manobras de
diversão. O verdadeiro problema não é financeiro, essa é a diversão.Tentar combater o problema olhando apenas para o lado financeiro é cair no engodo! É uma ingenuidade...
Eu andava
convencido que o Governo não percebia nada desta tramóia; ela é sofisticada,
comecei a desenhá-la com as conversas com o Dr. Jordan, depois percebi que
tinha de ir mais devagar e comecei com as conversas com o Hans. Mas eis que em
pleno dia de finados uma luz se me acendeu:
Imaginemos que
o Governo conhece perfeitamente todo o plano. E suponhamos que não é conivente
com ele. Como deve proceder?
A primeira
coisa é não o mostrar: a arte da dissimulação é fundamental numa guerra,
sobretudo quando se está em guerra com algo muito mais forte. Portanto, o
primeiro cuidado a ter é manter o adversário convencido de que se está
completamente apanhado no engodo.
A seguir, é preciso
agir como um seguidor submisso e estúpido, desastrado, burro. Isso vai permitir
fazer “erros” que irão comprometendo o sucesso da operação do outro.
Eu não vou
divulgar aqui as minhas conclusões, seria fazer o jogo do inimigo. Esta guerra
ainda está no começo. Mas uma coisa lhes digo: vou dormir muito mais
descansado, desde que descobri que há génios neste Governo. De facto, o custo
enorme da formação do ministro foi um belo investimento que este país fez.
Penso mesmo que vamos dispensar a troika antes do fim do período acordado.
A única coisa
que preciso fazer é colocar as minhas economias em certificados de
aforro.
Reparemos agora
na estratégia de Espanha: a Espanha é muito mais forte que Portugal, por isso a
estratégia dela é outra – é a estratégia do porco-espinho. A Espanha não é
suficientemente forte para ganhar a guerra, mas é suficientemente forte para
poder causar estragos relevantes: a Espanha tem poder de dissuasão, empata o
inimigo e isso enfraquece-o, desorienta-o, desorganiza o ataque. Nós não temos,
por isso temos outra estratégia.
Ganhar tempo é
fundamental porque existe mesmo uma crise financeira e ela vai cair em cima da
Alemanha. Paradoxalmente, a crise financeira é algo que os arquitectos desta
guerra não previram, estavam convencidos que iam desenhar um ataque imparável
às dívidas soberanas; mas em breve será a própria crise que obrigará os
financeiros a correrem para o porto seguro das dívidas soberanas dos países do
Alho...
Ou seja, a
resistência a este ataque não está descoordenada como poderia parecer.
Claro que há
duas frentes de batalha: temos não só de furar os planos do inimigo como pôr de
pé a nossa actividade económica; o Governo está a tratar da primeira, que é
prioritária, eu vou continuar a pensar na segunda. É que temos de aproveitar a
austeridade para endireitar o país, que tem vindo a ganhar uns podrezitos aqui
e ali...
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