sexta-feira, dezembro 07, 2012

Por que há pobres?


(continuação da conversa com o Hans; aqui ele começa a explicar porque é que a sociedade ocidental tem a estrutura que tem e como evolui)
aqui

Então queres saber porque é que a Alemanha está tão empenhada neste ataque aos países do Sul... - O Hans suspendeu o que ia a dizer; os seus olhos cinzentos imobilizaram-se, apontando ao longe por sobre o meu ombro direito; durante uns segundos o tempo parou, como se o Hans fosse um robot que tivesse ficado sem energia - Não, espera, tenho de começar por esclarecer uma coisa que podes não saber. - Pelos vistos, foi activada a energia de reserva, fantasiei… Espero em silêncio.

As pessoas que não dedicaram especial atenção às questões económicas estão convencidas de que a economia liberal se auto-equilibra  pois que quem produz precisa de consumidores e por isso a existência de pobres seria contrário aos interesses de quem produz. O Hans especou, a olhar para mim atentamente. Admiro-me: E não é? Bem sei que num sistema competitivo as empresas estão sempre a lutar pelo máximo lucro, mas o empobrecimento das pessoas, o crescimento desenfreado da desigualdade é contrário aos interesses de quem produz, dos empresários, dos ricos, embora muitos pareçam não perceber isso.

Um sorriso varre a cara do Hans. Um sorriso meio trocista, meio triste. Fiquei intrigado.
 Estás muito enganado, tal como a generalidade das pessoas. - Inspirou fundo, preparando o esclarecimento, enquanto eu sentia um ar aparvalhado a colar-se à minha cara. - O grande equívoco é pensar que o consumo depende do número de consumidores. Não é verdade. O consumo depende da riqueza dos consumidores. Da riqueza total, não interessa a sua distribuição.

Não interessa? Como assim? Há um limite para o consumo individual….
 Estás enganado. Vamos ver exemplos. Carros por exemplo. Mudas de carro de quanto em quanto tempo?
Bem, eu sou um caso especial… o meu carro anterior durou uns 16 anos … este tem 10 anos…
 E está velho? - interrompeu o Hans.
 Não, nada – entusiasmei-me – está como novo. Tirando uns arranhões é claro.
 Qualquer carro funciona sem problemas uma dúzia de anos ou mais; no entanto, os teus colegas, amigos, familiares, fazem o mesmo que tu?
 Não – assenti – quase toda a gente muda de carro de 4 em 4 anos…
 Achas que isso é necessário?
 Claro que não!
 Pois não. As pessoas mudam de carro porque têm dinheiro para isso; e porque é criada uma pressão social que os faz sentir essa necessidade – uma necessidade meramente psicológica. Ou seja, tanto faz ter uma população onde a riqueza está distribuída por igual e compra carro novo de 8 em 8 anos ou concentrar a riqueza em metade da população e convencê-la a comprar carro todos os 4 anos.

Sim, o consumo é o mesmo … mas isso não deixa deter um limite, não estou a imaginar as pessoas a mudarem de carro de 2 em 2 anos, não é?
 Não estás? - O robot tornou-se subitamente humano, o Hans deitou a cabeça para trás e soltou uma sonora gargalhada - Muita gente nos EUA, por exemplo, muda de carro todos os anos, não é de 2 em 2 anos!!! Mas não fica por aí, alguns coleccionam carros, é um para a estrada, outro para a cidade, um para cada filho, outro para férias, pois tem de ser grande… e também há que acertar a cor do carro com a toilette  não é verdade? Afinal, o carro não é mesmo que um par de sapatos?? Não serve para ir de um sítio para outro? A mesma razão que leva as pessoas a terem vários pares de sapatos aplica-se aos carros, haja dinheiro para isso!

Fiquei siderado. Nunca me tinha ocorrido tal. Mudar carro de 4 em 4 anos já me parecia uma coisa ridícula, mudar de carro como quem muda de sapatos parecia-me surrealista; mas ele tinha razão…

Portanto, já viste quanto se pode concentrar a riqueza, sem que isso afete minimamente o consumo. Ouvia o Hans ao longe… a minha cabeça ainda estava atordoada com a ideia de as pessoas usarem carros como se fossem sapatos… claro que a ideia de as pessoas terem vários pares de sapatos também deve fazer confusão às pessoas que dantes só tinham um… e o outro para a missa… lembrei-me então dos telemóveis, como toda a gente que conheço muda constantemente de telemóvel... mais de 6 meses com o mesmo já é record... Mas vejo que o Hans tem razão, o consumo depende da riqueza total, não da sua distribuição. 
Ok, concordo contigo – digo, saindo do meu torpor meditativo. - Tanto faz que a riqueza esteja concentrada ou distribuída para efeitos do consumo, mas o que é que tiras daí?

Ahhh – os olhos do Hans abriram-se a acompanhar um largo sorriso – é que agora há o outro lado da equação!!!

Outro lado?
 Sim. O que interessa não é o consumo, é o lucro, a relação entre o preço de venda e de custo. O outro lado da equação é o custo de produção - os olhos abriram-se ainda mais, como se estivesse a revelar um segredo crucial – repara, para minimizar o custo da produção, o que é buscam constantemente as empresas?
 Mão-de-obra barata…- arrisquei.
 Exactamente! Agora diz-me qual é a distribuição de riqueza que maximiza o lucro? É a distribuição por igual?

Senti-me um aluno mal preparado a enfrentar o examinador numa prova oral - Não, não é a distribuição por igual, é preferível, numa ótica de lucro, ter a riqueza concentrada numa parte da população e a restante ser pobre para fornecer mão-de-obra barata.

E-xa-ta-men-te!– exultou o Hans - A sociedade da economia liberal é uma sociedade que começa por ser igual e depois divide-se em 3 classes: os ricos, a classe média e os pobres.

Fez-se-me luz.- Então é por isso, exclamei; a sociedade começou por duas classes, senhores e plebe; quando começou o comércio, o consumo, estratificou-se em 3 classes porque é o modelo que melhor serve os ricos!

Bem, ainda não te disse tudo – o Hans fez um sinal com a mão, como quem diz “acalma-te” - A concentração da riqueza tem ainda outra consequência.
 Outra? Não estou a ver...
 É o seguinte: as pessoas querem comprar coisas tão caras quanto possível; compram sempre o carro mais caro que podem, não é verdade?
 O carro, o telemóvel, a viagem de férias... tudo!
 Exacto. Então a concentração de riqueza abre mercado para produtos de luxo, produtos de preço exorbitantes... que geram lucros exorbitantes. Quanto maior a concentração de riqueza, maior a diversidade de produtos que se podem produzir e maiores as margens de lucro. Os ricos geram entre si uma economia própria, que se sobrepõe à restante economia. Isto tem uma consequência: retira peso económico à classe média. A indústria automóvel não precisa de produzir carros de gama baixa, pode deixar isso para os chineses, o que dá dinheiro são os carros de gama alta, as casas de gama alta, a moda de gama alta, etc.

Queres dizer que a classe média pode desaparecer? Ficarem só duas classes, a dos muito ricos e dos pobres?
 Admirado? É essa a tendência clara em vários países, nomeadamente EUA, Canadá e Inglaterra e Austrália. Não conheces o famoso documento do Citygroup sobre a Plutonomia?
 Plutonomia? Nunca ouvi tal...
 Nunca ouviste tal? Esse documento é talvez o documento mais importante que já se fez sobre a nossa sociedade! – um riso de satisfação explodiu na face do Hans. – É um documento do Citygroup a aconselhar os seus clientes a investirem nas empresas que produzem artigos para ricos; na verdade, não diz nada que não se saiba, ou seja, que os 10% mais ricos representam mais de metade da economia, que o conceito de consumidor médio já não tem interesse porque são os ricos que comandam o mercado; e que será cada vez mais assim, o baixo custo da mão-de-obra assegurado pela globalização. A importância deste documento é vir de dentro do sistema, não ser uma opinião de pessoas que contestam o sistema e sempre descredibilizadas por essa razão.

Pois, não conheço...

Então não deixes de ler. Ele retrata lindamente o como e o porquê da transformação da sociedade de 3 classes em duas: Ricos e Pobres. Mas isso já é passado, a evolução da sociedade neo-liberal não acaba aí, a fase seguinte já se iniciou e isso é que é verdadeiramente dramático, muito mais do que possas imaginar. 

(continua)

segunda-feira, dezembro 03, 2012

A austeridade é só para alguns, já tinham notado?

Enquanto não vem o próximo texto do Hans, aqui fica um vídeo que serve de introdução:




segunda-feira, novembro 26, 2012

O Império dos Ricos

Imagem retirada deste blogue; recomendo a leitura, e do seu post mais recente, sobre Séneca


Os comentadores televisivos, os partidos da oposição, toda a gente, anda a dizer que o nosso governo tem falhado todos os objectivos: a dívida aumenta, o desemprego aumenta, o deficit público aumenta, a recessão aumenta. Segundo toda esta gente, o governo e a troika serão duma incompetência total, de uma burrice inacreditável pois insistem na mesma política que tem conduzido a estes resultados e necessariamente continuará a agravá-los. Paradoxalmente, a troika diz que Portugal está “ no bom caminho”, que as medidas são um sucesso; além de incompetentes serão loucos?

Na verdade, eles nem são incompetentes nem loucos, mas exactamente o contrário. E é bem verdade: as medidas têm sido um sucesso.

O equívoco está no que as pessoas pensam que é o objectivo das medidas; e não é por falta de esclarecimento do governo e da troika, que estão fartos de o dizer: o objectivo imediato é

Empobrecer os portugueses

Parece um objectivo disparatado? Mas não é, pelo contrário, é o objectivo adequado dentro do sistema político em que vivemos. Mas antes de percebermos isso, confirmemos que de facto o objectivo é esse.

Se este é o objetivo, as medidas têm sido um sucesso: estamos cada vez mais pobres. O ordenado médio já caiu perto de 20%! E o ministro da Economia parece só estar interessado nas concessões mineiras, a que não deve ser estranha a conexão canadiana com a estranhíssima empresa Colt. Até agora, já se viu alguma medida de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno e que são responsáveis pela quase totalidade do nosso PIB e do nosso emprego?

Mas “empobrecimento” como objetivo parece realmente uma coisa disparatada. Na verdade, o “empobrecimento” é só o meio para conseguir o verdadeiro objetivo: mão-de-obra barata de forma sustentada.

Não é isso que se procura constantemente no sistema capitalista? Mão-de-obra tão barata quanto possível? Não querem pagar o mínimo à mulher-a-dias? Pela refeição no restaurante? Pelo leitinho no supermercado? Pelo bilhete do futebol? Quem recebe quer receber o máximo, quem paga quer pagar o mínimo, estas são as regras do sistema. A ideia é que um sistema assim encontra o seu equilíbrio naturalmente. Uma ideia muito do agrado daqueles que esperam que o sistema se desequilibre cada vez mais a seu favor, sabendo-se como se sabe que este sistema se desequilibra sempre para o lado do mais rico.

Porque é que surge este problema agora aqui? Uma razão é porque já não há no mundo onde obter mão-de-obra barata de forma sustentada. Hoje, já ninguém aceita fábricas estrangeiras sem pesadas contrapartidas. As fábricas na China têm pelo menos metade de capital chinês, prazo de saída e são obrigadas à transferência de saber-fazer. A Volskwagen tem de sair da China até 2030. Mas sai antes, porque os chineses não nasceram para escravos e os ordenados lá têm de subir quase à taxa a que sobem os rendimentos dos ricos no mundo ocidental.

É por isso que os Ricos precisam de “mexicanizar” o sul da Europa, não têm alternativa.

Vejamos quais são as medidas que servem este objectivo:

1 – Empobrecimento
Para que as pessoas aceitem trabalhar por ordenados miseráveis é preciso que não tenham alternativa; isso implica duas coisas: cortar os apoios sociais e aumentar o desemprego. Como é que se aumenta o desemprego? Através da recessão, ou seja, fazendo cair a economia interna. Não são as empresas exportadoras que geram o grosso do emprego, são as empresas que trabalham para o mercado interno. Como é que se faz falir estas empresas? Empobrecendo os portugueses. Se os portugueses tiverem menos dinheiro, consomem menos e levam as empresas dependentes do mercado interno à falência. Daí a importância do empobrecimento e da falta de apoio às empresas que trabalham para o mercado interno; daí o facto de a recessão ser não um indicador do falhanço da política mas do seu sucesso!

2 – Redução dos apoios sociais
A redução dos apoios sociais é indispensável à existência de mão-de-obra disponível para trabalhar por qualquer preço e em quaisquer condições; e também para reduzir a TSU, o que permite baixar o custo do trabalho.

3-Reduzir o Estado a um órgão executivo dos Mercados
Há um objectivo de acabar com o Estado como o órgão de gestão dos povos. Quem manda são os “Mercados”, as políticas económicas são definidas de fora, o Estado social acaba, o ensino, a saúde, os serviços públicos são privatizados, as forças armadas acabam por inúteis, , os transportes, as águas, a energia, o notariado... a justiça é “independente”, ou seja, continua ao serviço dos Ricos mas paga pelos pobres... a polícia acabará por ser transformada numa espécie de segurança privada dos ricos paga pelos pobres... o estado reduz-se assim a um mero órgão executivo dos Ricos.
Sabem quando foi feito o referendo a perguntar se prescindíamos de ter um país? nas últimas eleições, por isso é que o PSD apareceu a cantar o Hino Nacional e de pin na lapela, como as homenagens que se fazem aos que vão morrer; por isso houve acabar com certos feriados.

O mundo capitalista é um império dos ricos. Uma Plutocracia. E uma Plutocracia não quer saber de países e Estados, vistos como obstáculos e incómodos ao crescimento do seu poder.

Como os “mercados” são os Ricos, é por isso que o “regresso aos mercados” depende de empobrecermos de acordo com os objectivos de empobrecimento. O “regresso aos mercados” depende apenas de o governo conseguir que as fábricas europeias se possam instalar aqui com um custo bruto do trabalho de 2 euros por hora, isentas de impostos e de legislação laboral, não tem nada a ver com a dívida pública nem com o deficit.

Os governos dos países neste sistema obedecem aos mercados, ou seja, ao poder dos Ricos.

Mas há outra razão para isto acontecer e essa é inteiramente da nossa responsabilidade; e é essa que torna muito difícil sairmos desta situação (e também não tem nada a ver com a dívida)
(continua) 

segunda-feira, novembro 19, 2012

Peluches de Oleiros



Fico muito impressionado com a história da fábrica de peluches de Oleiros; ela retrata bem o nosso atraso.

Quando um empresário monta uma fábrica num país estrangeiro onde não tem mercado, na busca da redução de custos, há uma coisa que ele tem de acautelar: o saber-fazer.

Se ele não se acautelar, logo aparecerá quem fabrique o mesmo que ele e estabeleça concorrência.

Hoje, estas situações são definidas à partida em todo o Mundo. Os países aceitam fábricas estrangeiras na condição de a controlarem suficientemente (normalmente detendo metade do capital), de elas terem um prazo de saída que é fixado logo no inicio (a Volkswagen tem de sair da China até 2030, se não estou em erro), e de deixarem ficar as instalações operacionais.

A condição de os países hospedeiros terem controlo da empresa tem 3 objectivos: um é evitar que essas empresas desenvolvam políticas de esmagamento da mão-de-obra, fomento do desemprego, etc, conducentes a manter baixos os seus custos, outro é recuperação de parte dos lucros, e o terceiro é garantir a transferência de saber-fazer.

Em troca, esses países não desenvolvem concorrência até ao fim do prazo acordado a não ser de forma limitada. É por isso que os chineses não vão exportar carros para o ocidente até 2030.

No caso da fábrica de Oleiros, não é por acaso que ela foi para um sítio no “fim do mundo” em vez de ir para os arredores de Lisboa, onde teria menores custos de funcionamento – estas fábricas procuram lugares isolados para minimizar os riscos de concorrência. A fábrica estava “escondida” em Oleiros mas agora foi “descoberta”; os riscos disso, associados aos custos relativamente altos de funcionamento ditam a necessidade de se ir esconder para outro lado (e também pode ser que a Merkel não tenha gostado das conversas acerca de o peluche ser feito em Portugal e mandado a fábrica sair de cá; há que educar os inferiores, ensiná-los que não podem mandar bocas ao chefe)

A fábrica de Oleiros vai ser abandonada? Há um lado positivo nisso!

Com certeza que ao fim de tantos anos, numa actividade com tanta componente manual, já haverá pessoas com conhecimentos para dar continuidade à actividade de fabricar peluches de qualidade!!!

O que há a fazer é isso. Não é o que os chineses fariam?

Claro que a maior componente do valor dos peluches não é o seu fabrico, é o marketing; bom, mas aproveitemos o que temos e talvez sejamos capazes de dar a volta por cima. O presidente da câmara já analisou essa possibilidade? Deve haver cá empresários nacionais do ramo, ou de ramos próximos, como o calçado, que podem ver aí uma oportunidade de negócio.

Aqui, estou de acordo com o Passos Coelho; estas coisas são oportunidades. Essa fábrica, ao sair, liberta saber-fazer; e isso é valioso. Aproveitá-lo não será fácil mas é o que há a fazer. Ela não ia lá ficar para sempre, não é verdade?

segunda-feira, novembro 12, 2012

A Refundação da Banca



Tudo o que corre mal na sociedade humana pode ser melhorado corrigindo as regras da sociedade; e sempre que alguma coisa corre mal, há que corrigir as regras.

Os pequenos erros são difíceis de corrigir porque há sempre muitos interesses que beneficiam deles; mas as grandes catástrofes, ao contrário, são uma oportunidade de ouro para corrigir grandes e pequenos erros. O Tsunami do Japão acabou com o programa nuclear da Alemanha, por exemplo.

O sistema bancário atual tornou-se um paradoxo: o Estado é o garante do sistema sem ter nenhum controlo sobre os riscos. Um absurdo que importa corrigir rapidamente.

E é fácil corrigir.

Para começar, os depósitos a prazo saem da banca. O que cria o risco sistémico é as pessoas terem as poupanças na banca. Saindo de lá os depósitos a prazo, esse risco acaba.

Vão para onde os depósitos a prazo? Para o Estado. O Estado só pode ser o garante desse dinheiro se tiver a sua gestão direta. Os depósitos a prazo vão para os Certificados de Aforro. Dupla vantagem para o Estado, ou seja, para todos os contribuintes: o Estado tem o controlo do risco e financia-se livre de ataques especulativos.


Para a Banca fica a prestação de serviços bancários – gestão de contas à ordem, multibanco, etc. Serviços de que ela naturalmente se cobrará. E fica o crédito ao consumo e a actividade financeira dita de “investimento”, ou seja, a actividade que consiste em ganhar dinheiro com o dinheiro. As pessoas que querem ganhar dinheiro com o dinheiro aderem aos produtos que a banca lhes propuser mas ficam com os riscos, ou fazem seguros, o que quiserem, tudo menos querer que seja o Estado, ou seja, os contribuintes, as pessoas que não querem correr riscos, a assumir os prejuízos quando as coisas correm mal e eles ficarem com os lucros quando as coisas correm bem. Se falir, faliu. Todas as iniciativas privadas têm de poder falir; o que não puder falir tem de ficar sob o controlo do Estado.

Como é que se consegue esta profunda mudança? Facílimo: o Estado remunera os certificados de Aforro adequadamente e as pessoas mudam. Os Bancos financiam-se agora no BCE a 0,75%, não precisam dos depósitos a prazo, até porque estão limitados no volume de empréstimos que podem fazer. 

O Estado ainda tem de assegurar duas outras coisas.

Uma é o crédito às empresas nacionais. Essencial para garantir igualdade de competitividade. O Estado tem de ter um Banco de Fomento ou um banco dependente do Estado que assegure essa função. Podia ser a CGD, mas teria de levar uma escovadela enorme; talvez o mais simples seja começar de novo, fazer um novo banco e privatizar a CGD, ou talvez a CGD consiga fazer uma inversão de percurso. A ver vamos.

A outra coisa é o crédito para assegurar dois direitos fundamentais: à habitação e à educação.

O crédito à habitação tem servido de capa para todo o tipo de crédito ao consumo e fugas aos impostos; mas não pode ser, este é um crédito com regras especiais, que tem de ser controlado pelo Estado. Como a Banca não é agora controlada pelo Estado, este crédito deve ser função do Estado ou, pelo menos, o Estado deve ter uma relevante capacidade de intervenção. É o que se passa na Suécia, segundo creio.

O mesmo se passa com créditos necessários a garantir a igualdade de oportunidades, nomeadamente para a educação. É o que têm os países nórdicos.


Como vêm, não só é fácil resolver estes problemas como até já está feito nos países nórdicos; já ouviram falar de alguma crise financeira na Suécia?

Claro que ainda há uma questão de fundo a resolver com a circulação de capitais e os offshores. Mas lá chegaremos.

quinta-feira, novembro 08, 2012

A Carta



Excelências

Venho comunicar-vos que a chanceler decidiu arrancar já com a 3ª fase do plano de mexicanização do Sul. A chanceler considerou existirem condições invulgarmente favoráveis em Portugal que é preciso aproveitar de imediato, tendo dado a 2ª fase do plano por concluída, atendendo a que o abaixamento dos custos laborais já conseguido é excelente e suficiente, conforme anunciou no seu discurso de ontem.

As condições em Portugal são actualmente ideais, pois o povo aceita tudo sem reagir, o PM é completamente submisso, o PR está isolado e nunca fará nada que belisque os seus interesses pessoais imediatos.

Ao abrigo do previsto para a 3ª fase, foi já acordado com o Ministro da Educação português o nosso controlo sobre o ensino público, que irá formar o pessoal necessário às nossas empresas, as quais beneficiarão de períodos longos de estágio suportados pelo ME português, ou seja, mão-de-obra paga pelo Estado Português. Habilidosamente, o ministro anunciou a adopção do plano de ensino “dual” alemão. Ninguém reagiu.

Segue-se a instalação de filiais de empresas alemãs em Portugal. Isto será apresentado como o esforço alemão para o desenvolvimento económico de Portugal e a primeira acção será a visita da Chanceler a Portugal acompanhada da equipa seleccionada para a ocupação. Garantirá mão-de-obra muito barata em Portugal, que começaremos a trazer para a Alemanha a título de “circulação de trabalhadores”, torneando a resistência dos nossos sindicatos. Actualmente estamos a importar especialistas de Portugal a metade do preço praticado na Alemanha mas por este processo vamos reduzir para 1/5 o seu custo. Recordo que o objectivo final é reduzir a 1/10 o custo do trabalho, que será atingido através do processo de redução progressiva de salários que se retomará na quarta fase, uma vez assegurado o fim de qualquer possibilidade de autonomia. Já lançamos um movimento a apelar à abstenção e isso dará o pretexto para ocuparmos politicamente o país, uma vez que os portugueses irão dessa forma declarar que não querem ser governados por portugueses.

Há um único aspecto que temos de manter controlado: o Ministro das Finanças português, Gaspar, é um agente do FMI e é muito mais perigoso do que pensávamos. Combinou com os chineses uma privatização fictícia da EDP que nos obrigou a suspender o plano de privatizações; só podemos retomar o plano depois de corrermos com ele, pois aplicará um golpe semelhante em todas as privatizações e nem uma virá para as nossas mãos. Já avisámos que as privatizações não vão contar para as contas do deficit, a fim de suspender o processo.

Além disso, há um movimento de bastidores que pretende que o PR nomeie um governo de iniciativa presidencial com o Gaspar em Primeiro-Ministro. Em caso algum podemos consentir nisso ou ele tornar-se-á um novo Salazar e boicotará todos os nossos planos. Não estamos muito preocupados porque o PR deles nunca faria isso, sabendo como nós o podemos prejudicar. À cautela, vamos aproveitar o próximo buraco orçamental para responsabilizar o Gaspar e propiciar a sua remodelação. Aproveitaremos para correr também com o Ministro da Saúde que parece ser competente demais e essas pessoas tendem a tornar-se perigosas.

Quanto à oposição política: como prevíamos, sem o Sócrates o PS não existe, limita-se a fingir que existe; e a esquerda é marginal. A direita está controlada, não representa qualquer ameaça.

Face a estes bons desenvolvimentos da situação, venho solicitar o pagamento acordado para a 2ª fase; é certo que esta ainda não está concluída nos outros países, mas Portugal irá funcionar como locomotiva e a instalação de empresas alemãs em Portugal irá levar os outros, face aos seus crescentes e insolúveis problemas de emprego, a aderir à 3ª fase.

Com os melhores cumprimentos,

Dr. Jordan

terça-feira, novembro 06, 2012

Quem tem o Poder?



Um aspecto que me parece importante salientar nesta altura é o seguinte: fala-se muito da importância dos mercados, que estamos submetidos aos mercados, são as leis dos mercados que nos regem, o sistema é baseado na confiança nos mercados, etc, etc.

Tretas!!!

O sistema é baseado na confiança sim, mas não nos mercados – na confiança no Estado. É por isso que o Estado é que avaliza os depósitos e avaliza os próprios bancos. O sistema financeiro é tão independente, tão independente, tem impressoras para imprimir dinheiro à sua vontade, o BCE empresta à banca a juro quase nulo, a fiscalização é toda sua, mas quando se trata de aguentar com os prejuízos é o Estado que tem de por a mão por debaixo.

Um paradoxo, não é?

Na verdade, quem tem o Poder é quem faz as Leis e os Decretos-Lei.

O Estado está sujeito à chantagem dos mercados? Só enquanto o quiser – basta-lhe ameaçar tirar “ a mão debaixo” para os mercados se ajoelharem. E para acorrerem a emprestar dinheiro às dívidas soberanas que é onde ele está seguro; não é o Estado o avalista final?

Não quer isto dizer que os financeiros não tenham poder; têm, mas um Estado na mão de quem tenha cabecinha acaba sempre por levar a melhor. Pode abanar se apanhado de surpresa, mas depois acaba por sair vitorioso (desde que tenha governantes à altura...)

Os mercados são altamente previsíveis no seu comportamento, funcionam para o lucro máximo no prazo mínimo; e os Estados, querendo, manobram-nos à sua vontade. As crises financeiras não são nenhum fenómeno natural, algo que nos ultrapassa e submerge; são o mero resultado da acção predatória de uns que querem enriquecer à custa dos outros. Uma acção de consequências previsíveis com antecedência para quem percebe um mínimo do assunto, por um lado; por outro lado, a previsibilidade do comportamento dos mercados faz das crises um fenómeno manipulável, programável, por quem percebe do assunto. Ou seja, a crise tanto pode surgir periodicamente porque a ganância financeira gera ciclos presa-predador como pode surgir porque um Estado fez manipulação para a produzir.

Quando olhamos para a actual crise do Euro, a primeira coisa que é evidente é que ela não se deve a uma dívida soberana excessiva. A nossa é igual à da generalidade dos países e a de Espanha é metade. Nem é devida a uma balança externa deficitária, a da Grécia não o era; nem à fraqueza da economia, a da Itália é pujante. Nem sequer é devida à crise financeira porque os países fora do euro não estão com um problema desta dimensão. Não há nada de comum entre os países afectados a não ser uma coisa: não estão sob o domínio Franco-Alemão na Europa.

Quem faz uma guerra, o primeiro cuidado que tem de ter é esconder isso. A primeira habilidade de quem quer fazer a guerra é a arte da dissimulação.

“Deus é Subtil” disse o Einstein; a nossa inteligência é muito limitada e tudo o que nos parece lógico, acertado, óbvio, nunca o é. Se é tão óbvio que são os financeiros quem puxa os cordelinhos da actual situação, é porque... não são!

Esta crise foi produzida de propósito para gerar uma situação que permite atingir outro objectivo; numa guerra começa-se sempre por criar uma diversão. A diversão é a primeira operação no terreno.

Os financeiros são altamente previsíveis, fáceis de manipular, ideais para manobras de diversão. O verdadeiro problema não é financeiro, essa é a diversão.Tentar combater o problema olhando apenas para o lado financeiro é cair no engodo! É uma ingenuidade...

Eu andava convencido que o Governo não percebia nada desta tramóia; ela é sofisticada, comecei a desenhá-la com as conversas com o Dr. Jordan, depois percebi que tinha de ir mais devagar e comecei com as conversas com o Hans. Mas eis que em pleno dia de finados uma luz se me acendeu:

Imaginemos que o Governo conhece perfeitamente todo o plano. E suponhamos que não é conivente com ele. Como deve proceder?

A primeira coisa é não o mostrar: a arte da dissimulação é fundamental numa guerra, sobretudo quando se está em guerra com algo muito mais forte. Portanto, o primeiro cuidado a ter é manter o adversário convencido de que se está completamente apanhado no engodo.

A seguir, é preciso agir como um seguidor submisso e estúpido, desastrado, burro. Isso vai permitir fazer “erros” que irão comprometendo o sucesso da operação do outro.

Eu não vou divulgar aqui as minhas conclusões, seria fazer o jogo do inimigo. Esta guerra ainda está no começo. Mas uma coisa lhes digo: vou dormir muito mais descansado, desde que descobri que há génios neste Governo. De facto, o custo enorme da formação do ministro foi um belo investimento que este país fez. Penso mesmo que vamos dispensar a troika antes do fim do período acordado.

A única coisa que preciso fazer é colocar as minhas economias em certificados de aforro.

Reparemos agora na estratégia de Espanha: a Espanha é muito mais forte que Portugal, por isso a estratégia dela é outra – é a estratégia do porco-espinho. A Espanha não é suficientemente forte para ganhar a guerra, mas é suficientemente forte para poder causar estragos relevantes: a Espanha tem poder de dissuasão, empata o inimigo e isso enfraquece-o, desorienta-o, desorganiza o ataque. Nós não temos, por isso temos outra estratégia.

Ganhar tempo é fundamental porque existe mesmo uma crise financeira e ela vai cair em cima da Alemanha. Paradoxalmente, a crise financeira é algo que os arquitectos desta guerra não previram, estavam convencidos que iam desenhar um ataque imparável às dívidas soberanas; mas em breve será a própria crise que obrigará os financeiros a correrem para o porto seguro das dívidas soberanas dos países do Alho...

Ou seja, a resistência a este ataque não está descoordenada como poderia parecer.

Claro que há duas frentes de batalha: temos não só de furar os planos do inimigo como pôr de pé a nossa actividade económica; o Governo está a tratar da primeira, que é prioritária, eu vou continuar a pensar na segunda. É que temos de aproveitar a austeridade para endireitar o país, que tem vindo a ganhar uns podrezitos aqui e ali...


quarta-feira, outubro 31, 2012

A saída da crise (2)

"muitos governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito tempo"; ele está convencido de que já ganhou a guerra contra os povos, um sonho dos plutocratas com mais de um século. 


O primeiro problema que temos para resolver é o da falta de dinheiro.

Compreendamos primeiro a trama perversa em que estamos enredados.

O dinheiro foi inventado para mediar as trocas de bens e serviços. O dinheiro foi inventado para ser o sangue da sociedade. O dinheiro é propriedade da sociedade, não é um bem privatizável, evidentemente! Privatizar o dinheiro seria criar o monopólio dos monopólios. O dinheiro é como o sangue, e o sangue não se compra nem se vende.

Isto é bem sabido e foi afirmado inúmeras vezes pelos mais ilustres estadistas, no tempo em que os políticos eram pessoas que sabiam de política. É por isso que a gestão do dinheiro sempre foi feita pelo Estado, dependente de governantes eleitos.

Uma sociedade é como um corpo: cresce. E, ao crescer, e para crescer, precisa de mais sangue, ou seja mais dinheiro. Essa produção de dinheiro era feita pelo banco central sob a supervisão do Estado, dos governantes eleitos.

O Dinheiro é uma das duas coisas que são essenciais a uma sociedade humana. A outra é a garantia de que todas as pessoas têm direito a uma vida minimamente digna. A sociedade pretende substituir a selva, a natureza; e a natureza garante a subsistência aos seus habitantes. A sociedade tira as pessoas da natureza mas tem de lhe garantir o mesmo que a natureza garante ou não interessa. Isto foi sempre uma preocupação fundamental das sociedades humanas estruturadas.

A isto se chama agora “o Estado Social”. É uma redundância, porque o Estado ou é social ou não é Estado; a única coisa que varia é o conceito de “vida minimamente digna.”

O testa de ferro da oligarquia plutocrata que tenta dominar a Europa desde o princípio do século passado, o sr. Draghi, está já tão seguro do seu sucesso no derrube dos dois pilares do Estado que se permite declará-lo; assim, há tempos declarou que “o Estado social já tinha acabado” e muito recentemente declarou que “muitos governos ainda não perceberam que perderam a sua soberania nacional há muito tempo” (eu andava à espera de uma coisa deste género para publicar este texto, doutra forma os meus leitores pensariam que eu estou a delirar). Um profeta, este Draghi.

Porém, de profeta não tem nada porque ele sabe bem do que fala. A grande golpada consistiu nos estatutos do BCE, que lhe deu a propriedade do sangue da sociedade, o dinheiro. Ele é o novo Hitler.

O esquema montado é tão absurdo que as pessoas nem percebem, não acreditam que assim seja, acham que não é possível; mas é.

O BCE ficou com o nosso sangue, pois o seu capital foi-lhe dado pelos Estados; depois empresta à Banca a juro tendencialmente nulo; e a Banca devolve-nos o nosso sangue cobrando juros usuários. O Sangue da sociedade foi assim privatizado e de borla, sendo agora gerido, pelo BCE e pela Banca, quase da mesma forma que as petrolíferas gerem o petróleo. Digo quase porque, na verdade, é muito pior.

Por exemplo, o BCE obriga-nos a aceitar um empréstimo de 12 mil milhões de euros, do qual estamos a pagar juros elevados, para garantir que os bancos, em caso de necessidade, têm os rácios que o BCE acha adequados – note-se, a banca portuguesa já declarou que não precisa de 7 mil milhões desse dinheiro, mas o BCE obriga-nos na mesma a pagar juros dele, juros de coisa nenhuma porque é como se esse dinheiro não existisse, não pode ser usado. São 300 milhões de euros por ano a troco de coisa nenhuma...

Por outro lado, se o BCE é independente dos Estados e o dono do dinheiro, cabe-lhe a ele assumir as responsabilidades sobre os bancos; mas não, nós é que estamos a pagar para isso; e pior ainda, nos bancos que precisaram de dinheiro, o Estado foi obrigado a entrar no capital do banco; para quê? Para, se o banco não conseguir resolver os seus problemas, ficar automaticamente nacionalizado, ou seja, o toooodo o seu prejuízo fica para nós, como o BPN.

Isto nunca se fez nem aos países conquistados após dura guerra. Isto é terrorismo económico, exploração infame, roubo descarado.

Por outro lado, a destruição do direito à vida condigna, em curso, visa a destruição da sociedade e a criação em seu lugar de um sistema de senhores e escravos; porque numa sociedade organizada só os escravos não têm esse direito.

Em cúmulo de todo este horror, note-se que vivemos na era da abundância, somos capazes de produzir tudo o que necessitamos, tudo o que somos capazes de consumir, e muito mais, dez vezes mais, a única coisa que limita a produção é a capacidade de consumir; e o que limita o consumo é a redistribuição de riqueza.

Portanto, compreendamos, fomos assaltados, roubados, conquistados. Roubaram-nos o sangue e estão a deixar-nos anémicos, indefesos, a asfixiar-nos! Claro que também temos culpas, mas elas estão a ser usadas como argumento para nos roubarem, não nos deixemos enganar com a conversa culpabilizadora.

Por último, esta destruição dos Estados não visa criar espaço para a criação de uma verdadeira união europeia, uma sociedade democrática europeia, visa apenas, ao que entendo, estabelecer um poder oligárquico plutocrata sobre uma sociedade escravizada, um sonho que vem a ser perseguido desde o princípio do século passado.

E agora vem o mais absurdo de tudo: é que nós estamos a deixar!!!

Porque, entendamo-nos, o dinheiro não é uma criação da natureza, é uma criação nossa!! Está na nossa mão criar o dinheiro de que precisamos. Não temos de ir neste engano. Além de roubados, estamos ainda a ser vigarizados, ludibriados, com a ideia de que o sangue que existe é só o Euro e não há mais nenhum, ou usamos o Euro ou morremos de anemia. É MENTIRA!!!

Uma vez compreendido isto, só temos de ser espertos e encontrar uma solução. E, na verdade, nem temos de ser muito espertos, pois os alemães já passaram por algo semelhante a seguir à primeira grande guerra e desenvolveram uma solução, que já expus aqui: as MEFO  bills. Notas de crédito que substituíram o dinheiro controlado pelos vencedores da guerra.

Agora é preciso alguma imaginação para implementar o sistema. Uma forma de começar é a seguinte: em vez de cortar ordenados e pensões, o Estado passa a pagar parte deles em vales, notas de crédito, certificados. Que o Estado aceita para o pagamento parcial de impostos e contribuições.

(e aqui até poderão ser tomadas medidas de correção de outros gritantes roubos; por exemplo, as pensões vitalícias dos ex-governantes do BP podiam ser integralmente pagas em vales, uma vez que essas pessoas não descontaram para essas pensões e não é legítimo estar a exigir aos portugueses que lhes paguem pensões milionárias que eles se autoatribuiram fazendo uso de poderes que se autoconferiram.)

Poderão dizer: mas se o Estado aceita parte dos impostos em créditos, as receitas em euros do Estado vão diminuir e depois fica sem dinheiro para pagar a dívida. Não é verdade. A redução dos salários e pensões reflecte-se ampliadamente nas receitas do Estado por causa do seu efeito recessivo, que até o FMI já diz ter um factor multiplicativo maior que 1 (1,3 +- 0,4 dizem eles; o que só nos pode levar a pensar que é ainda superior). A substituição dessa redução por notas de crédito vai evitar o efeito recessivo e por isso conduzirá a uma cobrança de impostos maior.

Isto é um começo apenas; podemos fazer também como fazem há muito certas regiões da Alemanha e suponho que em Inglaterra também: dinheiro de circulação regional, válido numa cadeia de produtores e comerciantes locais ou regionais; ou nacionais. Creio que os gregos já começaram a fazer isto.

Não interessa de que cor é o sangue, não interessa se é vermelho ou azul, ou mesmo amarelo, o que interessa é que cumpra a função de mediar bens e serviços. Temos de criar o nosso próprio sangue e, a pouco e pouco, ir despejando as veias do sangue envenenado do Euro. Porque, não haja ilusões, os euros vão desaparecer dos nossos bolsos de qualquer maneira; e ou pomos lá outra coisa ou ficamos miseráveis. E quem duvida só tem de por os olhos na Grécia.

Claro que o Estado vai ter de fazer mais do que substituir parte dos encargos com pessoal por créditos pois, contrariamente ao que constantemente afirmam os indivíduos que nos andam a enganar, o Estado apenas gasta 70% das suas despesas em custos de pessoal; ora o Estado não é uma fábrica, não consome matérias primas, os seus custos são necessariamente quase todos com pessoal; se ainda há 30% de despesas para além do pessoal, é porque há muito onde cortar. Por exemplo, trocar Microsoft por Linux que é gratuito e mais seguro, acabar com as calculadoras científicas nas escolas porque não servem para nada desde que se inventaram os PC, fazer um acordo com a Fiat, ou a Dacia, para fornecer as viaturas do Estado e empresas públicas, cortar nas despesas luxuosas da AR e do PR; estamos em guerra, não há lugar para pieguices, não se ganham guerras com políticos piegas que cortam a sopa aos pobres mas não prescindem das suas ostras. Este é o tipo de medidas que mostra aos mercados – e aos portugueses - que temos um governo empenhado em resolver o problema, que granjeia respeito e confiança.

quarta-feira, outubro 24, 2012

A saída da crise (1)

No banho solucionou o Arquimedes o seu problema "impossível". A lição: todos os problemas têm solução (imagem da Wikipedia)


Embora a conversa com o Hans seja importante para se compreender a crise (como eu a entendo), parece-me conveniente apresentar já a solução que resulta desse entendimento; para que se não comece a defender soluções erradas que depois podem agravar o problema e torná-lo impossível. Depois continuarei com o Hans.

Então lá vai

Na última conversa com o Hans já mostrei que crescimento económico e dinheiro disponível estão associados; como estamos presos ao euro, isso não pode ser conseguido por valorização da moeda, portanto só pode ser conseguido por aumento da massa monetária. Esse aumento tem sido conseguido recorrendo a empréstimos ao exterior, que deveriam ser pagos pelo saldo da balança externa; mas esta tem sido deficitária por causa da enorme incompetência de toda a gente neste país com responsabilidades no assunto e ainda pela fuga de capitais para o estrangeiro. Agora, temos de arranjar dinheiro mas não podemos pedir emprestado e não podemos depender do saldo da balança que mesmo que se torne positivo será sempre demasiado pequeno para essa função.

Portanto, notemos o primeiro problema: arranjar dinheiro sem pedir emprestado.

Agora, notemos outra coisa: não podemos deixar de pagar a dívida; se os mercados tiverem qualquer suspeita de que a nossa dívida pode não ser paga, não emprestam mais um tostão.

A capacidade de pagar a dívida é o nosso grande trunfo nesta altura. Admiram-se? Então reparem:

Contrariamente ao que pensam, a Alemanha deve estar com graves problemas. O enorme saldo da balança externa alemã não fica na Alemanha, vai logo para offshores; e paga impostos na Holanda. Enquanto a generalidade dos empresários portugueses apostam em Portugal, querem viver cá – exceptuam-se é claro as multinacionais e o Pingo Doce – o empresários alemães não querem saber disso, querem é ganhar o máximo, por isso a fuga de capitais deve ser imensa. O resultado disso é que o nível de vida dos alemães é muito inferior ao que se esperaria de um país supostamente tão rico. Como é que a Merkel explica isto aos alemães? Arranjando um culpado. Não é novo, no passado culparam os judeus de ficarem com o dinheiro, hoje culpam os países do Sul, esses preguiçosos, inúteis, que vivem à custa deles e os condenam a uma vida remediada. Para os alemães, nós estamos hoje no lugar dos judeus do século passado.

Mas há mais: a crise dos bancos é tanto maior quanto maior o banco; porque quanto maior, mais se envolveu em processos especulativos. Ou seja, o Deutsch Bank deve ter um buraco imenso e o mercado já percebeu isso.

Contrariamente à ideia propalada, os juros não são proporcionais ao risco de incumprimento; os juros são função da capacidade negocial. É isso que as agências de rating medem. Se os mercados suspeitam que há o mais pequeno risco de incumprimento, não emprestam. Pura e simplesmente. Ou então aplicam juros para cima de 30%. Os nossos juros dispararam porque ficámos sem qualquer capacidade negocial. Com a corda na garganta. Os alemães conseguem empréstimos com juros até negativos, porque têm alta capacidade negocial (ou porque a Merkel manda os bancos alemães procederem assim) mas, por outro lado, não há quase ninguém a querer emprestar à Alemanha, ao contrário do que acontece com Portugal.

Portanto, obtermos empréstimos com juros baixos depende unicamente de duas coisas: de os mercados saberem que pagamos e de termos capacidade negocial (claro, há também procedimentos “por debaixo do pano”, como persuadir os bancos nacionais a acorrer aos leilões de dívida...).

Aqui está o segundo problema: adquirir capacidade negocial. Parafraseando o Salazar (citado pelo vbm num comentário ao post anterior):

"Haveremos de pedir emprestado, não como quem pede uma esmola, mas como quem propõe um negocio."

Isto não significa que tenhamos de ficar agarrados à troika; a solução não passa por aí; a troika foi um erro (que o Sócrates bem quis evitar…) e dela temos de nos livrar; mas livrarmo-nos da troika é uma coisa, não pagar a dívida é outra. Nós pagamos, não somos caloteiros, não ficamos a dever nada a ninguém.

(embora haja aí umas dívidas que precisam de ser escalpelizadas, mas isso é outro assunto, importantíssimo mas diferente; nomeadamente, porque haveremos de pagar um balúrdio à troika pela seu trabalho de “assistência” se ela falhou todas as suas previsões e nos deixou pior? Não só não devemos pagar essa fatia dos encargos com a troika como deveriamos pedir uma indemnização pelos prejuízos causados; e porque haveremos de pagar os biliões do BPN e do BPP? Esse problema é da banca, ela que o resolva, que se solidarize, não é nosso!) A propósito, ver este texto importante

São estes os dois problemas que temos de solucionar para resolver o problema financeiro; mas depois temos o problema económico e social para resolver

Quanto ao problema económico, notemos o seguinte; hoje em dia basta ter uma pequena percentagem da população envolvida na produção de bens transacionáveis; foi para isso que se fez o progresso, para que nos pudéssemos dedicar a outras coisas, como arte, ciência, saúde, educação, lazer, etc, etc; mas da maneira como as coisas estão organizadas, a produção de riqueza não especulativa está concentrada nos bens transacionáveis; esta riqueza é depois redistribuída através das outras actividades.

Ou seja, a cada emprego na produção de bens correspondem uns 5 noutras actividades; cada empresa de 100 trabalhadores que fecha vai implicar o desemprego de 500 pessoas nas outras actividades; e o desemprego faz baixar o consumo  e isto leva a fechar mais empresas com o correspondente coeficiente multiplicativo de desemprego.

É por isso que na economia de hoje a recessão se torna rapidamente de crescimento explosivo; a austeridade determina fatalmente uma implosão da economia. Mas nem todos perdem: as empresas estrangeiras não são afectadas porque não produzem para cá e passam a beneficiar de mão-de-obra muito mais barata. Como não há emprego, as pessoas aceitam ordenados mais baixos; o Estado, por outro lado, cai na asneira de subsidiar os postos de trabalho.

É sabido que as empresas estrangeiras manobram no sentido de causar recessão económica onde se situam; é por isso que todos os países, menos os do Sul da Europa, não autorizam empresas em que o capital nacional não seja maioritário ou de alguma forma o capacidade do país em intervir na empresa esteja assegurada. Em parte nenhuma do mundo, nem sequer em África, só mesmo aqui. Por cada posto de trabalho que criam destroem uma data deles para lhes garantir o fornecimento de mão de obra barata. 

Estas empresas beneficiam duplamente da baixa de ordenados porque depois fazem como a Autoeuropa, que leva os trabalhadores daqui para a Alemanha com os ordenados daqui, torneando os sindicatos alemães. Não se trata de uma “circulação de trabalhadores”, como dizem: não vêm trabalhadores da Alemanha para cá, só vão daqui para lá.

Portanto, o terceiro problema é aumentar a produção de bens para o mercado interno; é isso que vai gerar postos de trabalho em cadeia e porque gera redistribuição de riqueza através do consumo – os lucros das que exportam vão para o estrangeiro e para elas quanto pior for a situação, melhor.

Temos pois 3 problemas a que responder. No próximo post apresento a minha proposta de solução, mas podem ir desde já pensando nisto e dando sugestões.

quarta-feira, outubro 17, 2012

A Força do FMI


Acabei de saber que, mais uma vez, coisa que começou a seguir ao 15 de Setembro se a memória não me falha, Portugal se financiou nos mercados a juros muito baixos, menos de metade do que paga à troika. Juros inexplicavelmente baixos, muito inferiores ao que paga qualquer depósito a prazo.

Como entender isto?

Os nossos prolixos e esclarecidos comentadores económicos nem referem o assunto.

Uma hipótese é que estão com medo que Portugal mande a Europa às urtigas e apressam-se a "amaciar-nos" para que não entornemos o caldo que lhes tem sido tão proveitoso.

Outra é a de que estão a tentar convencer-nos a regressar rapidamente aos mercados, que estão tão apetitosos, para depois voltarem a subir os juros, porque isto da troika está a estragar-lhes as perspectivas de juros usuários

Mas há ainda uma terceira hipótese, para a qual me inclino: é a mão do FMI

Quem vir aqui o que diz a Lagarde, encontra um discurso completamente diferente. Afinal o problema são os bancos, o sector financeiro, as suas más práticas, que têm de ser corrigidas; é preciso cair em cima deles.

Quanto aos países, têm é de crescer, qual austeridade qual carapuça.

Os planos da Merkel vão por água abaixo. Afinal, quem manda é a Lagarde.

Mais uma sugestão para a recepção à Merkel: cartazes com a foto da Lagarde e do Hollande.