quarta-feira, outubro 24, 2012
A saída da crise (1)
No banho solucionou o Arquimedes o seu problema "impossível". A lição: todos os problemas têm solução (imagem da Wikipedia)
Embora a conversa
com o Hans seja importante para se compreender a crise (como eu a entendo),
parece-me conveniente apresentar já a solução que resulta desse entendimento;
para que se não comece a defender soluções erradas que depois podem agravar o
problema e torná-lo impossível. Depois continuarei com o Hans.
Então lá vai
Na última
conversa com o Hans já mostrei que crescimento económico e dinheiro disponível
estão associados; como estamos presos ao euro, isso não pode ser conseguido por
valorização da moeda, portanto só pode ser conseguido por aumento da massa
monetária. Esse aumento tem sido conseguido recorrendo a empréstimos ao
exterior, que deveriam ser pagos pelo saldo da balança externa; mas esta tem
sido deficitária por causa da enorme incompetência de toda a gente neste país
com responsabilidades no assunto e ainda pela fuga de capitais para o
estrangeiro. Agora, temos de arranjar dinheiro mas não podemos pedir emprestado
e não podemos depender do saldo da balança que mesmo que se torne positivo será
sempre demasiado pequeno para essa função.
Portanto, notemos
o primeiro problema: arranjar dinheiro sem pedir emprestado.
Agora, notemos
outra coisa: não podemos deixar de pagar a dívida; se os mercados tiverem
qualquer suspeita de que a nossa dívida pode não ser paga, não emprestam mais
um tostão.
A capacidade de
pagar a dívida é o nosso grande trunfo nesta altura. Admiram-se? Então reparem:
Contrariamente ao
que pensam, a Alemanha deve estar com graves problemas. O enorme saldo da
balança externa alemã não fica na Alemanha, vai logo para offshores; e paga
impostos na Holanda. Enquanto a generalidade dos empresários portugueses
apostam em Portugal, querem viver cá – exceptuam-se é claro as multinacionais e
o Pingo Doce – o empresários alemães não querem saber disso, querem é ganhar o
máximo, por isso a fuga de capitais deve ser imensa. O resultado disso é que o
nível de vida dos alemães é muito inferior ao que se esperaria de um país
supostamente tão rico. Como é que a Merkel explica isto aos alemães? Arranjando
um culpado. Não é novo, no passado culparam os judeus de ficarem com o
dinheiro, hoje culpam os países do Sul, esses preguiçosos, inúteis, que vivem à
custa deles e os condenam a uma vida remediada. Para os alemães, nós estamos hoje no
lugar dos judeus do século passado.
Mas há mais: a
crise dos bancos é tanto maior quanto maior o banco; porque quanto maior, mais
se envolveu em processos especulativos. Ou seja, o Deutsch Bank deve ter um
buraco imenso e o mercado já percebeu isso.
Contrariamente à
ideia propalada, os juros não são proporcionais ao risco de incumprimento; os
juros são função da capacidade negocial. É isso que as agências de rating
medem. Se os mercados suspeitam que há o mais pequeno risco de incumprimento, não
emprestam. Pura e simplesmente. Ou então aplicam juros para cima de 30%. Os
nossos juros dispararam porque ficámos sem qualquer capacidade negocial. Com a
corda na garganta. Os alemães conseguem empréstimos com juros até negativos,
porque têm alta capacidade negocial (ou porque a Merkel manda os bancos alemães
procederem assim) mas, por outro lado, não há quase ninguém a querer emprestar
à Alemanha, ao contrário do que acontece com Portugal.
Portanto,
obtermos empréstimos com juros baixos depende unicamente de duas coisas: de os
mercados saberem que pagamos e de termos capacidade negocial (claro, há também
procedimentos “por debaixo do pano”, como persuadir os bancos nacionais a
acorrer aos leilões de dívida...).
Aqui está o
segundo problema: adquirir capacidade negocial. Parafraseando o Salazar (citado
pelo vbm num comentário ao post anterior):
"Haveremos de pedir emprestado, não como quem pede uma
esmola, mas como quem propõe um negocio."
Isto não significa que tenhamos de ficar agarrados à
troika; a solução não passa por aí; a troika foi um erro (que o Sócrates bem
quis evitar…) e dela temos de nos livrar; mas livrarmo-nos da troika é uma
coisa, não pagar a dívida é outra. Nós pagamos, não somos caloteiros, não
ficamos a dever nada a ninguém.
(embora haja aí umas dívidas que precisam de ser
escalpelizadas, mas isso é outro assunto, importantíssimo mas diferente;
nomeadamente, porque haveremos de pagar um balúrdio à troika pela seu trabalho
de “assistência” se ela falhou todas as suas previsões e nos deixou pior? Não
só não devemos pagar essa fatia dos encargos com a troika como deveriamos pedir
uma indemnização pelos prejuízos causados; e porque haveremos de pagar os biliões do BPN e do BPP? Esse problema é da banca, ela que o resolva, que se solidarize, não é nosso!) A propósito, ver este texto importante
São estes os dois problemas que temos de solucionar para
resolver o problema financeiro; mas depois temos o problema económico e social
para resolver
Quanto ao problema económico, notemos o seguinte; hoje em
dia basta ter uma pequena percentagem da população envolvida na produção de
bens transacionáveis; foi para isso que se fez o progresso, para que nos pudéssemos dedicar a outras coisas, como arte, ciência, saúde, educação, lazer,
etc, etc; mas da maneira como as coisas estão organizadas, a produção de
riqueza não especulativa está concentrada nos bens transacionáveis; esta
riqueza é depois redistribuída através das outras actividades.
Ou seja, a cada emprego na produção de bens correspondem
uns 5 noutras actividades; cada empresa de 100 trabalhadores que fecha vai
implicar o desemprego de 500 pessoas nas outras actividades; e o desemprego faz
baixar o consumo e isto leva a fechar
mais empresas com o correspondente coeficiente multiplicativo de desemprego.
É por isso que na economia de hoje a recessão se torna
rapidamente de crescimento explosivo; a austeridade determina fatalmente uma
implosão da economia. Mas nem todos perdem: as empresas estrangeiras não são
afectadas porque não produzem para cá e passam a beneficiar de mão-de-obra
muito mais barata. Como não há emprego, as pessoas aceitam ordenados mais
baixos; o Estado, por outro lado, cai na asneira de subsidiar os postos de
trabalho.
É sabido que as empresas estrangeiras manobram no sentido
de causar recessão económica onde se situam; é por isso que todos os países,
menos os do Sul da Europa, não autorizam empresas em que o capital nacional não
seja maioritário ou de alguma forma o capacidade do país em intervir na empresa
esteja assegurada. Em parte nenhuma do mundo, nem sequer em África, só mesmo
aqui. Por cada posto de trabalho que criam destroem uma data deles para lhes garantir o fornecimento de mão de obra barata.
Estas empresas beneficiam duplamente da baixa de ordenados
porque depois fazem como a Autoeuropa, que leva os trabalhadores daqui para a
Alemanha com os ordenados daqui, torneando os sindicatos alemães. Não se trata
de uma “circulação de trabalhadores”, como dizem: não vêm trabalhadores da
Alemanha para cá, só vão daqui para lá.
Portanto, o terceiro problema é
aumentar a produção de bens para o mercado interno; é isso que vai gerar postos
de trabalho em cadeia e porque gera redistribuição de riqueza através do
consumo – os lucros das que exportam vão para o estrangeiro e para elas quanto
pior for a situação, melhor.
Temos pois 3 problemas a que responder. No próximo post
apresento a minha proposta de solução, mas podem ir desde já pensando nisto e dando
sugestões.
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Economia
quarta-feira, outubro 17, 2012
A Força do FMI
Acabei de saber que, mais uma vez, coisa que começou a seguir ao 15 de Setembro se a memória não me falha, Portugal se financiou nos mercados a juros muito baixos, menos de metade do que paga à troika. Juros inexplicavelmente baixos, muito inferiores ao que paga qualquer depósito a prazo.
Como entender isto?
Os nossos prolixos e esclarecidos comentadores económicos nem referem o assunto.
Uma hipótese é que estão com medo que Portugal mande a Europa às urtigas e apressam-se a "amaciar-nos" para que não entornemos o caldo que lhes tem sido tão proveitoso.
Outra é a de que estão a tentar convencer-nos a regressar rapidamente aos mercados, que estão tão apetitosos, para depois voltarem a subir os juros, porque isto da troika está a estragar-lhes as perspectivas de juros usuários
Mas há ainda uma terceira hipótese, para a qual me inclino: é a mão do FMI
Quem vir aqui o que diz a Lagarde, encontra um discurso completamente diferente. Afinal o problema são os bancos, o sector financeiro, as suas más práticas, que têm de ser corrigidas; é preciso cair em cima deles.
Quanto aos países, têm é de crescer, qual austeridade qual carapuça.
Os planos da Merkel vão por água abaixo. Afinal, quem manda é a Lagarde.
Mais uma sugestão para a recepção à Merkel: cartazes com a foto da Lagarde e do Hollande.
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Economia
segunda-feira, outubro 15, 2012
Proibido crescer!
(continuado - aqui o Hans mostra que a crise é propositada)
Bem, vou ajudar-te.
(continua)
Há sempre uma
razão por detrás de tudo; mas, antes de te mostrar a razão profunda dos
problemas que todos os países europeus menos a Alemanha enfrentam, vou-te
mostrar os factos que determinaram esses problemas.
A força de uma
economia está ligada ao valor do dinheiro total dessa economia. É por isso que
se um banco central imprimir dinheiro em excesso, este desvaloriza.
Sim, certo.
Ora bem; este
facto óbvio e indiscutível tem outro lado: uma economia para crescer precisa de
mais dinheiro. Ou seja, se tiveres um país isolado, o crescimento do seu PIB
vai estar associado ao crescimento da sua massa monetária – ou pelo aumento do
dinheiro em circulação ou pelo aumento do valor do dinheiro.
Sim, é óbvio; e
então?
Repara agora como
foi definido o Euro. Um país como Portugal tem de crescer muito para poder
aproximar-se dos países mais avançados da Europa, não é?
Claro.
Ora esse
crescimento tem de estar associado à massa monetária do país; portanto, esta
tem de poder crescer para que o PIB do país possa crescer.
Certo...
Porém, o BCE
apenas imprime dinheiro de acordo com uma fórmula associada ao crescimento
médio do PIB europeu, nem isso, pois era imprescindível conseguir que o euro
não se desvalorizasse face ao dólar, e redistribui esse dinheiro de acordo com
a força das economias de cada país. Ou seja, o crescimento da massa monetária
em Portugal está limitado ao crescimento médio da economia europeia. Isto
implica que Portugal não pode crescer mais do que a média europeia, a não ser
que arranje outra forma de aumentar a sua massa monetária.
Sim... estou a
perceber, as regras monetárias do euro impedem os países mais atrasados de
crescerem mais do que os mais avançados.
Exacto; mas ainda
é pior do que isso. Onde é que Portugal pode ir buscar dinheiro? Ou à balança
externa ou pedindo emprestado. Mas os países do Euro não se podem proteger das
importações. Num mercado aberto, uma economia mais fraca em concorrência com
uma mais forte não pode ter uma balança externa equilibrada; logo, a balança
externa será deficitária. Logo, o que as regras do Euro determinam é que a
massa monetária dos países mais atrasados diminua e, em consequência, o seu
PIB.
Mas o PIB não tem
diminuído... pelo menos até à crise...
Pois não; e
porquê? Porque estes países foram buscar dinheiro para aumentar a massa
monetária; onde? Endividando-se! Tiveram de se endividar para compensar o
deficit da balança externa e ainda conseguir dinheiro para obter algum
crescimento.
Ou seja, no
quadro definido, os países mais atrasados estão condenados a endividar-se e
estrangulados no seu crescimento.
Fatalmente.
E os quadros de
apoio e essas coisas?
Os apoios são
estabelecidos visando muito mais o interesse da Europa do que do país; a PAC é um exemplo
claro disso, por isso é que os vossos agricultores recebem subsídios para não
produzirem. A Europa não precisa que vocês produzam, mas vocês precisam. Ou
seja, esse tipo de planos ainda impossibilita mais o vosso desenvolvimento.
Agora vão cortar os apoios aos regadios porque a Europa não precisa mas vocês
precisam.
E os apoios à
indústria?
Foram quase todos
absorvidos pelas empresas estrangeiras instaladas no vosso país; ou seja,
basicamente, são uma forma habilidosa de os países mais desenvolvidos,
especialmente a Alemanha, subsidiar as suas indústrias, violando as regras da
concorrência.
Pois, isso eu
sei... embora também tenha havido imensa corrupção por cá, grande parte das
ajudas foi para aos bolsos de uns quantos...
Bem, quando se
aumenta o dinheiro sem correspondentes medidas anticorrupção, esta dispara;
esse foi um erro crasso do processo; de qualquer maneira, essas ajudas sempre
foram uma maneira de aumentar a vossa massa monetária mas, infelizmente, no
vosso caso, logo desperdiçada em importações de tudo e mais alguma coisa,
acabando por ter o efeito contrário ao pretendido: afogar a produção nacional
em vez de a desenvolver. Mas nisso a culpa é toda vossa, mais ninguém fez
tamanho disparate, acho mesmo que vocês devem ter uma anomalia psicológica
qualquer, pois ninguém pode ser tão inconsciente assim...
Novo riquismo –
procurei minimizar, embora sabendo que ele tem razão; e contra-ataquei: A Europa protege-se das importações que
fazem concorrência aos produtos dos países ricos, mas não aos dos países mais
atrasados. Por exemplo, a nossa indústria têxtil enfrenta altas protecções
alfandegárias em todos os países do mundo, porque todos se protegem, mas a
Europa não estabelece protecção alfandegária à importação de têxteis. Ou seja,
a nossa indústria sofre uma concorrência desleal porque é isso que interessa a
países como o teu, que não têm indústria têxtil.
O Hans assentiu.
Já te disse, as regras europeias visam o interesse da Europa, dominada pela
Alemanha e França, e são uma armadilha para os países menos desenvolvidos.
Claro que os governantes não têm de ser parvos, e não foram em nenhum país à
excepção do teu; todos trataram de proteger a sua balança externa e fizeram-no
sem pejo nenhum e sem segredo nenhum. Já te contei que os emissores que
vendemos para a Grécia foram pagos em fardos de feno.
Sim, lembro-me
disso.
Os gregos são um
exemplo de excelente gestão no quadro armadilhado do Euro; conseguiram manter
sempre a sua balança externa equilibrada e conseguiram crescer. Cresceram
muito, o seu PIB per capita quando a crise começou era 1,7 vezes o português
quando não há muitos anos era inferior ao vosso. Os gregos sabem muito bem o
mundo em que vivem.
Sim, é um
resultado extraordinário
Claro que um tal
crescimento do PIB implica endividamento porque não há mecanismos no euro para
permitir o correspondente crescimento da massa monetária. Mas mesmo assim o
endividamento grego não era nada de muito diferente do dos outros países. Os
gregos foram atacados por causa do seu sucesso, por estarem a conseguir crescer demais. Era preciso fazer cair o seu PIB, e é isso
que está a ser feito, é por isso que vão para o sexto ano de recessão com o PIB
a descer vertiginosamente. O PIB grego tem de cair para metade para ficar
de acordo com a massa monetária que a Alemanha quer que a Grécia tenha.
É preciso fazer
cair o PIB? Então achas que não é consequência da crise financeira, é
propositado?
Claro que é
propositado; o ataque às dívidas soberanas acaba no dia em que a Alemanha
quiser; este ataque da “praga de gafanhotos” é apenas o instrumento que permite
à Alemanha fazer cair o PIB dos países do Sul. A Alemanha não só não o trava
como o alimenta e de tal forma que até o FMI já está a ficar em pânico porque o
empobrecimento excessivo não lhe interessa.
E porque é que a
Alemanha haveria de querer isso?
És cá um
ingénuo... mas só tens de te pôr no lugar da Alemanha para perceberes.
Achas?
(continua)
quarta-feira, outubro 10, 2012
A praga oportunista
(continuado)
retirado de aqui
O Hans bebeu um
longo golo de cerveja; o calor apertava e a cerveja dourada e efervescente
criava securas de desejo na garganta. Resisti à tentação de beber mais uma e
pedi outra garrafa de água, tinha de ir alternando a cerveja com água para
manter o raciocínio alerta. Sossegada a sede, o Hans continuou:
Já te volto a
falar desses economistas financeiros, especialistas na predação, mas primeiro
vou falar-te dos economistas empresariais – nota que estas designações são
minhas e são uma certa simplificação do assunto, mas que me parece adequada a
apresentar o problema. Bebeu mais um golo da borbulhante cerveja, a tornar a
minha água mais insípida. Os economistas empresariais também visam o lucro do
patrão, é claro, mas há um aspecto que os distingue dos financeiros: o lucro do
patrão depende do poder de compra dos consumidores. Para eles, qualquer teoria
do empobrecimento, tão do agrado dos financeiros, deixa-os com os cabelos em
pé.
Olha que tens
toda a razão; aqui em Portugal sente-se claramente duas correntes de
economistas, os que estão ligados a empresas que produzem para o mercado
interno e os da área da banca e das grandes empresas cuja actividade é
independente do poder de compra dos portugueses. Os primeiros estão fartos de
reclamar contra o empobrecimento em curso e os segundos acham muito bem.
Claro, os seus
interesses são afectados de maneiras opostas.
Nesse caso... os
governos deveriam ser entregues aos economistas empresariais, pois esses querem
o enriquecimento dos povos?
Não, nada disso;
eles querem o enriquecimento dos povos, mas não fazem ideia de como isso se
consegue. Eles querem que alguém assegure esse enriquecimento, mas eles não
sabem como fazê-lo, eles só sabem como enriquecer o seu patrão.
Agora é que me
deixaste baralhado; então são os financeiros que devem ir para o Governo?
Credo! O Hans até
deu um salto na cadeira! Esses nunca, são especialistas do empobrecimento.
Então...
Repara, todos esses economistas que falam nos media são tipos bem sucedidos em enriquecer o patrão, por isso são bem pagos, essa é a sua especialidade, uma transferência de dinheiro da
sociedade para os patrões; como é que se enriquece a sociedade, eles não fazem
ideia, isso pertence a outro pelouro que não é o deles; de macroeconomia não têm mais do que vagas ideias, conceitos
simplórios e ultrapassados.
Estou a perceber.
Todos dizem que é preciso medidas para relançar a economia, para evitar que os
bolsos das pessoas fiquem vazios. Só que não fazem ideia nenhuma de como isso
se faz. Até as troikas dizem isso mas, ao contrário das medidas de
empobrecimento, não têm nenhuma ideia a apresentar para enriquecer os povos.
Na verdade, nem
tentam, a sua estratégia é outra.
Outra? Qual?
A da praga dos
gafanhotos: eles ocupam um país, devoram tudo o que há a devorar enquanto
conseguirem, e depois mudam-se para outro país – para isso criaram um sistema
onde o capital se pode mover livremente.
Então estamos a
ser vítimas de uma praga de gafanhotos?
Estão a ser vítimas de várias coisas, uma delas é uma praga de gafanhotos. Mas nota
que estas pragas são pragas oportunistas, elas surgem porque foram criadas
condições para que se pudessem instalar e vão-se embora na altura em que essas
condições acabam.
As condições para
elas surgirem... penso que te referes a uma política de gastos excessivos, isso
percebo eu; agora, como é que se consegue que a praga se vá embora é que não
vislumbro... pois se ela só faz aumentar a dívida... vai-se embora quando já
sacou tudo o que havia a sacar?
Percebes mal,
muito mal, isso são ideias simplórias. Há duas grandes razões para esta praga ter surgido
e continuar estabelecida e não são nada do que pensas.
(continua)
domingo, setembro 30, 2012
As 3 escolas de Economia
(continuação)
Ora aqui está a
tua cervejola a chegar; explica-me então quais são as 3 formas de especulação.
O Hans hesitou por um momento, o olhar seguindo atento as bolhinhas de gás no
copo de cerveja e disse, decidido:
Não. Antes disso
é melhor eu falar primeiro das 3 escolas de economia, para teres o adequado
enquadramento e perceberes a profundidade, a eficiência e o poder do processo
especulativo instalado.
Ok, assenti com
ar conformado; mas depois interroguei, curioso: quais 3 escolas? Referes-te à
escola de Milton Friedmann, à Keynesiana e...
Nada disso. As
pessoas têm a ideia erradíssima que a sociedade funciona segundo uma teoria
económica única e que pode optar entre várias teorias; mas que é uma opção, ou
se usa uma ou outra. Não é nada disso. A realidade é completamente diferente.
Fiquei
surpreendido. É diferente como? A Europa do euro segue claramente a teoria do
Friedmann, basta ver os estatutos do BCE, que o configuram como um banco dos
banqueiros e não dos estados!
Inspirando, o
Hans começou a expor com ar paciente:
As escolas, como
sabes, estão sujeitas a critérios de avaliação, o primeiro dos quais será a
empregabilidade; isto conduz a que elas ministrem um ensino otimizado para o
mercado de trabalho que visam, que assegure empregos bem remunerados; ora, há duas áreas de actividade distintas para os economistas.
Duas? A que te
referes?
Uma é a que visa ganhar dinheiro com o dinheiro, a da chamada banca de investimento, a da bolsa. Nestas actividades não há lugar a nenhuma produção directa de riqueza, é
apenas dinheiro que muda de dono. É uma actividade puramente especulativa.
Sim, entendo; e a
outra é....?
A outra é as
empresas que produzem bens e serviços, onde o ganho de dinheiro está baseado na
produção de alguma coisa, onde há uma troca, mais ou menos equilibrada, de um
bem ou serviço que não existia antes por dinheiro. Esta segunda actividade gera
directamente riqueza para a sociedade, a primeira não.
Mas então um economista
não sai de uma escola preparado para trabalhar tanto num banco como numa
empresa?
Não. Actualmente,
os melhores ordenados auferem-se na actividade especulativa; as escolas de
economia das grandes cidades, das capitais, especializaram-se em formar
economistas para a especulação. Se fores ver onde se empregam os alunos das
escolas de Lisboa, da Nova ou da Católica, certamente que encontrarás um largo
predomínio da banca e da bolsa.
Então onde se
formam os economistas das empresas?
Nas escolas em zonas
de actividade industrial; por exemplo, na vossa universidade do Minho.
Ok ok estou a
compreender. Nunca tinha pensado nisso, mas não estranho, pois é mais ou menos
assim em todas as profissões, há especialidades.
Exactamente; há
engenheiros especialistas em diferentes áreas, médicos também etc, etc. Com os
economistas é o mesmo. Estas duas áreas da economia são muito diferentes, tal
como são diferentes as especialidades nas outras profissões.
Então qual é o
problema?
Tu contratarias
um engenheiro electrotécnico para te projectar uma ponte? Um dentista para te
operar ao apêndice?
Abri a boca de
espanto. Que disparate! Que queres dizer com isso?
Sabes qual é a
especialidade dos economistas especulativos, os que trabalham para a banca,
para a bolsa, para as instituições financeiras, os das escolas de economia das
grandes cidades.
Então... é
aumentar os lucros dos seus patrões... como todos os empregados...
Sim, como todos;
só que no caso deles, não havendo lugar à produção de riqueza, o enriquecimento
dos seus patrões implica... O Hans
abriu a boca e os olhos e fez sinal com as mãos a convidar-me a acabar a frase.
Implica... se os
seus patrões enriquecem e a riqueza não aumenta... alguém empobrece.
Isso! O
empobrecimento da sociedade é o parâmetro que mede a eficiência da actividade
especulativa. O dinheiro não se evapora e cria-se muito lentamente, para os seus patrões
ficarem mais ricos ao ritmo que desejam, o resto da sociedade fica mais pobre. A princípio, a
actividade especulativa tinha pouco peso em relação ao crescimento de riqueza
da sociedade, mas hoje já não é assim. Esses economistas são especialistas no
empobrecimento. Através dos processos especulativos, o enriquecimento dos seus
patrões fica independente do crescimento do PIB, é por isso que a taxa de
enriquecimento destas actividades é há muito superior a 30% ao ano. A sua
cabeça está sempre a inventar processos de empobrecer a sociedade, de fazer
crescer a desigualdade. São cientistas do empobrecimento.
Ainda
recentemente, lembrei-me, inventaram um “cartão de débito diferido”, que
introduziram sub-repticiamente no mercado, cuja finalidade é cobrarem mais aos
comerciantes e ainda fazer as pessoas pensarem que têm um saldo à ordem maior
do que o real, o que pode originar saldo negativo para os bancos cobrarem juros
a descoberto.
O Hans assentiu. Estão sempre a
inventar esquemas; a sua cabeça está formatada para empobrecer os outros. São
os maiores especialistas do mundo na predação. E, como grandes especialistas
que são, têm processos que nem imaginas, esse teu exemplo do cartão de débito
diferido é só uma gracinha ao pé das coisas que eles fazem.
Estou a perceber
onde queres chegar....
Talvez ainda não;
ouve-me mais um bocadinho
(continua)
terça-feira, setembro 11, 2012
Existe um buraco negro no Deutsche??
(continuação)
Lentamente, direi
mesmo a custo, voltei a pousar o olhar no Hans; ele recomeçou:
Como sabes, a
actividade da banca dita de investimento gerou lucros superiores a 30% ao ano
durante muitos anos; às vezes superior a 50%. Estes lucros não resultaram de
nenhuma produção de riqueza, nada foi produzido nestes “investimentos”, estes
lucros são o mero resultado de predação da riqueza alheia, ou seja, de
“especulação”. Fez uma pausa para verificar se eu estava a par. Tranquilizei-o:
Sim, isso é bem
sabido a nível dos economistas; todos os bancos e outras instituições
financeiras trataram de entrar nessa actividade na medida das suas
possibilidades. Cá, criaram-se dois bancos dedicados quase exclusivamente a
isso, o BPN e o BPP.
Disseste uma
coisa muito acertada: todos trataram de entrar nessa actividade ao nível das
suas possibilidades! Ora quanto maior um banco, maior as suas possibilidades,
não é verdade?
Sim… mais
recursos financeiros para aplicar, maior pressão para aumentar os lucros, mais
capacidade de contratar especialistas para inventarem novos processos
especulativos…
Isso mesmo;
portanto, os grandes bancos realizaram um imenso investimento especulativo, em
produtos que o seu imenso corpo de especialistas foi inventando; e tudo isto em
escala tanto maior quanto maior o banco. Uma nova pausa, a pedir para eu
concluir o raciocínio. Fiz o que pude:
Queres dizer que
quanto maior o banco maior o investimento especulativo… sim, e então? Evitei
adiantar-me muito na resposta, quero saber o raciocínio dele
Maior o
investimento e maior o corpo de especialistas em especulação, corrigiu-me. As
duas coisas são importantes para perceberes o desenrolar dos acontecimentos.
Agora, diz-me lá, qual foi a consequência deste enriquecimento tão rápido e sem
produção real de riqueza?
Ah, isso é uma coisa
que estou farto de tentar explicar aos meus amigos: quando essa predação da
riqueza se tornou maior do que a riqueza produzida, a generalidade das pessoas
começou a empobrecer; ora essa especulação só funciona enquanto as pessoas têm
um horizonte de crescimento de riqueza. Quando as pessoas perceberam que
estavam a empobrecer, fugiram desses esquemas e os balões especulativos
estoiraram.
Claro, é o que
acontece em qualquer esquema de pirâmide, vive da expectativa das pessoas de
ganharem por entrar nele. É por isso que se diz que o sistema financeiro
assenta na “confiança”, é “fiduciário”; só que não é confiança na honestidade
dos processos e agentes, como muita gente pensa, é confiança em que o dinheiro
aplicado vai gerar um retorno elevado– confiança em que ao entrar num esquema
de pirâmide se vai sair a ganhar. Quando essa confiança desapareceu, as
pirâmides estoiraram todas. As pirâmides e os investimentos de risco, foram os
dois motores do enriquecimento rápido. Claro que os investimentos de risco dão
retorno elevado a princípio mas depois colapsam. Disse, com ar definitivo, e
recostou-se; tinha acabado a exposição e eu não estava a perceber onde queria
ele chegar, não me tinha dado nenhuma novidade. Atrevi-me:
E …
Ergueu-se. Não
estás a perceber? Não é óbvio? Quanto maior o banco, maior o estouro. Essas
práticas agora ditas de tóxicas eram as práticas usadas por todos, quem as não
usasse não tinha lucros, a banca de retalho rende pouco; e, quanto maior o
banco, mais as usava.
Portanto…
Portanto – com ar
impaciente - os grandes bancos, o Deutsche, o Barclay’s, estão falidos,
falidíssimos! Têm um buraco dum tamanho incomensurável, do tamanho da riqueza
especulativa de que se alimentaram durante muitos anos.
De repente,
lembrei-me duma conversa que tive há dias com um gerente bancário; além de me
explicar como é que eu podia fazer aplicações do capital que ele pensa que eu
tenho mas não tenho sem pagar imposto, ou pagando muito pouco, dissera-me que o
Deutsche tinha mudado radicalmente o seu perfil de investimento, que agia agora
como os bancos em dificuldades, procurando apenas produtos de curto prazo e
rendibilidade segura. Dei um sinal de concordância ao Hans e incitei-o a
continuar:
E…
E então – como se
dissesse algo óbvio - o seu imenso corpo de especialistas teve de encontrar
maneira de salvar a situação; e a solução passa pela aposta em novas formas de
especulação, pois só algo que permita grandes ganhos no curto prazo pode
aguentar esses bancos.
E…
Bem, vamos por
partes. A primeira coisa que podes começar já a perceber é que a única coisa
que interessa à Alemanha agora é salvar o Deutsche. E depressa, depressinha,
antes que o Zé povinho perceba – o Hans, nesta conversa em inglês, disse mesmo
“Zé povinho”, o que me deixou boqueaberto. A Alemanha está a executar o plano
traçado pelos especialistas em especulação do Deutsche, os matemáticos e outros
cientistas pagos a peso de ouro, para salvar o banco; salvar à custa do
dinheiro dos outros, naturalmente, não há outra maneira. O objectivo é sacar todo
o dinheiro real, que é o dinheiro dos pobres, para tornar real o seu dinheiro
especulativo.
Queres dizer que
os países do Sul são verdadeiramente patéticos quando se viram para a Alemanha
para os ajudar a enfrentar o ataque especulativo às suas dívidas soberanas?
Claro; a Alemanha
é o motor desse ataque, delineado pelos seus especialistas. E o objetivo desse
ataque é o empobrecimento dos povos, e rápido.
Estás a dizer que
não podemos ter nenhumas esperanças que sejam tomadas medidas da parte do BCE
ou da Alemanha no sentido de controlarem esse ataque?
Claro que não!!!
Eles nem enganam, declaram mesmo que o que estão a fazer é empobrecer os povos.
Empobrecer os pobres para que os ricos não abram falência. Vocês entrarem em
recessão não é um falhanço da Troika, é um objetivo atingido; ou pensas que
eles são tão estúpidos que não sabem aquilo que toda a gente sabe, que estas
medidas implicam recessão e aumento do déficit, aumento do desemprego?
Sim, claro…
Legitimam esse
empobrecimento com o argumento de que sem os ricos a sociedade inteira colapsa
e por isso eles até estão a salvar toda a gente ao empobrecer os pobres e a
classe média! Só que eles não estão a empobrecer toda a gente por igual, estão
a empobrecer por baixo, é claro.
Isso é óbvio no caso
de Portugal onde, ao contrário dos outros países, só existem medidas para
empobrecimento do povo, nem uma medida reestruturante ou que afete os mais
ricos.
E não é por
acaso, como verás. Além de que os líderes alemães querem ganhar as suas
eleições, por isso espalham a miséria nos outros lados. Vocês vão pagar o
buraco do Deutsche. Vocês vão ser explorados até ao último tostão, e depois
escravizados. Todos os direitos foram já riscados, como irás vendo, excepto o
direito dos ricos à sua propriedade. Esqueçam a semana de trabalho de 5 dias,
férias pagas, ordenado mínimo, horários de trabalho, reformas, etc, etc.; vão
passar todos a ser pagos à hora (muitos já são) e miseravelmente, porque o
poder negocial dos empregados desapareceu. E se as coisas ainda não estão mais
graves é porque a Alemanha tem medo do Obama, que anda a investigar o Deutsche;
mas se o Obama perder as eleições, vais ver o que acontece.
Sim, já vi
qualquer coisa sobre os americanos exigirem investigar o Deutsch a pretexto de
alegadas ligações ao Irão… Mas porque é que dizes que Portugal pode ter um
papel crítico neste processo?
Bem, tenho de de
explicar quais são as 3 formas de especulação. Pede-me aí outra cerveja.
(continua)
PS- este texto relata uma conversa, as opiniões do Hans (nome fictício) são as dele, não as do autor
terça-feira, agosto 21, 2012
O meu amigo alemão
Foi uma surpresa
encontrar o Hans na esplanada de Odeceixe; foi ele quem me reconheceu, ser careca
tem essa vantagem, não mudamos de cabeça com a idade...
Conheci o Hans há
bem uns vinte anos atrás; era engenheiro de uma grande empresa alemã de
equipamentos de telecomunicações e metrologia e viera a Portugal por causa de
um concurso internacional aberto por uma empresa pública; contactara-me para
saber as possibilidades de conseguir incorporação nacional para os seus
equipamentos, crendo que isso seria uma vantagem para o concurso. Lá o informei
que possibilidade existia, mas que seria um grave erro da parte dele porque os
gestores das empresas públicas tinham horror a tudo o que fosse nacional, até
porque não faltaria quem os acusasse de corrupção se se atrevessem a adjudicar
alguma coisa no mercado nacional. Até as verbas do PEDIP, supostamente
destinadas ao desenvolvimento da indústria nacional, eram preferencialmente
atribuídas a empresas estrangeiras. Ele não me acreditou e lá lhe dei as
informações que pretendia.
Mais tarde, pediu-me desculpa de ter duvidado de mim; contou-me que apresentou a sua proposta de incorporação nacional na primeira reunião de
negociação e que a recepção foi tal que na reunião seguinte apresentou um
declaração em como nem um parafuso dos seus equipamentos seria montado em
Portugal! Disse-me então uma coisa de que nunca mais me esqueci:
assim, o vosso país vai ao fundo e vão
arrastar a Europa com vocês!
E foi exactamente
com essa frase que começamos a conversa que se segue, enquanto as respectivas
esposas iam apanhar sol para a praia. Tinhas toda a razão, e já várias vezes citei o que me disseste na blogoesfera, disse-lhe eu.
Não, não, esta
crise não tem nada a ver com isso; aliás, o vosso primeiro-ministro anterior, o
Sócrates, estava a colocar o vosso país no rumo certo. Esta crise é tão má para
vocês como para nós.
Senti-me logo
irritado; lembrei-me do Cavaco a dizer que também estava sem dinheiro ou do
Vale e Azevedo a dizer que vivia da caridade dos amigos. Que mania esta a dos
ricos de se vitimizarem. Ele deve ter percebido o meu desagrado porque se
apressou a acrescentar:
Agora, pelo contrário, seriam vocês que podiam fazer qualquer coisa para se salvarem e
salvarem-nos, a nós e à Europa.
Nós?!? Não pude
reprimir o espanto. Como?
Lembro-me, do
nosso contacto anterior, de que és uma pessoa lúcida; por isso,
deves ter uma ideia do que esteja a causar a crise, não é verdade?
Sim, tenho, mas
quero ouvir a tua versão, até porque não estou a ver como é que Portugal pode
ter um papel na sua resolução, respondi-lhe, cauteloso, enquanto o olhar se
distraía nas duas vistosas loiras que tinham acabado de chegar à esplanada
Já vais perceber.
Deixa lá as loiras e presta atenção ao que te vou dizer.
(continua)
sábado, julho 28, 2012
Política de Terra Queimada
![]() |
| The burning of Troy |
Há alguns anos,
tornou-se público na Dinamarca o plano da NATO em caso de tentativa de invasão
Russa; segundo esse plano, alguns países, nomeadamente a Dinamarca, seriam
“terra queimada”. Plano muito “lógico”, havia que defender o coração da Europa,
portanto destruía-se a periferia para estabelecer uma terra de ninguém onde
fosse mais fácil combater os russos e proteger os cidadãos do coração.
Estranhamente, os Dinamarqueses não gostaram nada do plano.
A Europa, e não
só, embarcou numa perigosa e desajustada teoria económica (de que falarei
noutro texto), de uma particular escola. Em consequência, os grandes bancos
europeus, nomeadamente o Barclay’s e o Deutshe, devem ter um buraco financeiro
de dimensão apocalíptica. Isto pode parecer surpreendente mas não é, o buraco
não é decorrente de “incompetência” ou “corrupção” mas a necessária
consequência da referida teoria económica. Quanto maior o banco, maior o
buraco.
Qual é a
estratégia para resolver esta situação?
A mesma de
sempre: sacrificar a periferia.
A política de
“empobrecimento” não é para os funcionários públicos, ou para os portugueses
empregados, é para toda a periferia europeia. Na verdade, o buraco central será
tão grande que o “empobrecimento” é para toda a Europa à excepção da Alemanha e
da Inglaterra. A ideia é sacar todo o dinheiro que seja possível sacar para
tapar esse buraco. A política de empobrecimento é apenas
um nome para uma política de terra queimada, que vai abranger toda a gente com
atividade nos países envolvidos, ricos ou pobres.
A medida mais
recente é recusar um mecanismo de suporte aos depósitos bancários; isto é um
convite aos depositantes para correrem para esses dois bancos, vistos como
“sólidos”. Na verdade, é uma armadilha: um banco pequeno pode ser muito mais
seguro do que um grande porque está muito menos envolvido nas práticas
financeiras agora ditas de risco – basta que saiba gerir a bolha imobiliária
com inteligência, o ponto frágil dos bancos pequenos.
(um banco cujo
presidente atribui o mau momento à Constituição Portuguesa não dá garantias de
uma gestão inteligente; um gestor para a crise tem de ter um entendimento
oposto aos gestores que conduziram a ela e que agora só sabem encontrar culpados
em todo o lado menos neles – ele é o Sócrates, ele é a Constituição, ele é...)
Até ao fim deste
ano vamos decidir o nosso futuro. Por acção ou omissão.
segunda-feira, julho 16, 2012
Porque é que empobrecemos na era da abundância?
No ocidente,
vivemos na era da abundância; o que limita esta abundância é apenas a
capacidade de consumo, porque podemos produzir muito mais sem qualquer
dificuldade; sendo assim, como é que ainda há tanta pobreza no mundo ocidental
e, pior do que isso, porque estamos num processo de empobrecimento?
Um exemplo que me
parece excelente para compreendermos como evolui o sistema liberal é o caso dos
supermercados.
Como é que os
supermercados maximizam o lucro? Vendendo o máximo e com a margem de lucro máxima,
lógico.
O que é que
limita o volume de vendas? O preço de venda.
O que é que
limita a margem de lucro? A possibilidade dos produtores terem circuitos
alternativos de distribuição.
Então, como é que
se maximiza o lucro?
A solução de
médio prazo é a seguinte: baixar continuamente o preço de venda.
Parece um absurdo, não é? Mas vejam como funciona.
Baixar o preço de
venda tem uma influência positiva no volume de vendas; porém, degrada a margem
de lucro. A seguir, baixa-se o preço que se oferece ao produtor. Como o preço
de mercado é o definido pelo supermercado, as mercearias de bairro têm de o
seguir e o produtor não tem alternativa. Então, o produtor procura aumentar a
eficiência e baixar os seus custos – vai buscar trabalhadores à Tailândia ou à
Argélia, pressiona os fornecedores de adubos e rações para pagar menos. Assim,
os supermercados recuperam a margem de lucro, que usam para continuar a baixar
os preços. Este processo tem uma consequência positiva – aumento de eficiência
– e uma negativa – empobrecimento do lado de baixo da cadeia produtiva.
Na atual situação
de crise, em que há empobrecimento da maioria dos clientes, para manter o
volume de vendas os supermercados tiveram de fazer um corte muito grande nos
preços. Não tem problema, a seguir os produtores vão ter de lhes vender mais
barato ou não vendem.
Os consumidores
acham ótimo que assim seja, porque pagam menos pelos produtos (exceto se também
forem produtores).
Este processo é
geral, a competição gera necessariamente este fenómeno.
Os governos,
porém, são eleitos para melhorarem a qualidade de vida das pessoas. Precisam de
contrariar este processo. Mas, incapazes de uma solução sistémica, o que fazem
é tratar os sintomas: subsidiam as pessoas. Subsidiam a saúde, a educação, os
transportes. Com isto, as pessoas precisam de menos dinheiro para viver, os
empresários podem pagar menos ordenado. Mas a competição não tem limite. Então
os estados subsidiam mais: subsidiam o desemprego, subsidiam os períodos de
menor atividade das empresas (em França), subsidiam os produtores (PAC). Mas
não chega. Então começam a subsidiar o emprego, com os incentivos ao primeiro
emprego. Os empresários passam a só ter de pagar uma parte dos ordenados. Mas
não chega. Passam a subsidiar os empresários para criarem emprego, dar emprego
passa a ser uma actividade geradora de lucros – por exemplo, o Estado paga
estágios profissionais a 690 euros, os empresários contratam licenciados a 490
euros e lucram 200 euros com cada um. Licenciados com experiência, não se trata
de um custo de formação.
Teoricamente, com
estes apoios, as empresas ficariam mais competitivas, teriam lucros, e a estes
lucros ia o Estado buscar o dinheiro para os subsídios. Só que não é verdade,
neste esquema competitivo só tem lucros quem está o topo da pirâmide, os
grandes grupos financeiros, os super-ricos – e estes não pagam impostos.
Os países da
europa do Norte estão na metade superior desta cadeia; nós na inferior. Não é
por acaso, nem é apenas porque têm mais formação, é porque eles sempre
defenderam os seus interesses a todo o transe, desse por onde desse,
independentemente de quaisquer teorias académicas. Eles vivem na economia real,
não na dos académicos, como cá.
Quem está no meio
desta cadeia não entende porque há-de estar a pagar para subsidiar os que estão
na base. Esses gulosos que querem viver acima das suas posses. Por isso, há que
acabar com o “Estado Social”. E assim as pessoas da base (nós) vão ter de viver
do ar. E eles ameaçam: se não gostam vamos buscar empregados à Nigéria. África
e Ásia são fornecedores infindáveis de escravos porque não têm controle de
natalidade.
À nossa frente
está um interminável processo de empobrecimento. Miséria absoluta. Não haja
ilusões. A mesma miséria a que nós temos condenado uma parte significativa da
população portuguesa. Os Alemães não são piores do que nós, são até melhores. Só
que agora vamos ficar no papel em que andamos a pôr muitos portugueses desde há
muitos anos. Agora vamos todos para o bairro da lata.
domingo, julho 01, 2012
O Mistério Português
Na última cimeira
europeia o impossível aconteceu: o BCE (tanto quanto percebi) vai financiar as
dívidas soberanas através do fundo de resgate. A pedra de toque de todo este
processo de destruição dos Estados caiu. Como foi isto possível?
Toda a evolução
das sociedades humanas, os diferentes sistemas políticos, as leis, as regras,
praticamente toda a estrutura da sociedade humana, decorre de uma única coisa:
o poder negocial dos interesses em jogo.
O Poder Negocial
é a Grande Lei da Sociedade, tudo o resto é consequência desta lei.
Por exemplo, foi
o movimento sindical que deu poder negocial aos trabalhadores e lhes permitiu
acordos que foram fixados em Leis, garantidas pelo Estado.
Na última
cimeira, França, Espanha e Itália uniram-se e obtiveram um poder negocial
superior ao da Alemanha; e assim conseguiram o que queriam. E o que queriam
eles? Salvar os Estados; porque a destruição dos Estados é o objectivo dos
“ricos”, pois já não precisam deles, quem precisa deles é sobretudo a classe
média porque já não tem sindicatos, já não tem organização, já não tem poder
negocial, não tem outro poder que não seja o que vem do Estado; e a classe mais
pobre já pouco tem a perder com o fim do Estado.
Há várias
maneiras de ter poder negocial; uma é pela força bruta, “pelo número de
espingardas”, que foi o que aconteceu nesta cimeira; a outra é sendo “um grão
na engrenagem”, que foi o que fizeram os gregos; outra ainda é ameaçar causar
algum prejuízo porque, na sociedade humana como na selva, raramente alguém está
disposto a ficar ferido para matar o outro, que foi o que tentou fazer o
Sócrates, à mistura com algum bluff (mal sucedido, pois a fragilidade da sua
situação condenava à partida qualquer possibilidade de sucesso negocial).
E nós agora? Como
é evidente, Portugal não só não negoceia como, pelo contrário, o governo agrava
unilateralmente as exigências da outra parte; que estratégia é esta, que merece
o apoio dos portugueses dado que não há contestação significativa nem quebra
nas intenções de voto? Nem sequer o líder da oposição contesta a não ser com
palavras de circunstância e vazias de consequências? Que mistério é este?
(continua)
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