quarta-feira, outubro 24, 2012

A saída da crise (1)

No banho solucionou o Arquimedes o seu problema "impossível". A lição: todos os problemas têm solução (imagem da Wikipedia)


Embora a conversa com o Hans seja importante para se compreender a crise (como eu a entendo), parece-me conveniente apresentar já a solução que resulta desse entendimento; para que se não comece a defender soluções erradas que depois podem agravar o problema e torná-lo impossível. Depois continuarei com o Hans.

Então lá vai

Na última conversa com o Hans já mostrei que crescimento económico e dinheiro disponível estão associados; como estamos presos ao euro, isso não pode ser conseguido por valorização da moeda, portanto só pode ser conseguido por aumento da massa monetária. Esse aumento tem sido conseguido recorrendo a empréstimos ao exterior, que deveriam ser pagos pelo saldo da balança externa; mas esta tem sido deficitária por causa da enorme incompetência de toda a gente neste país com responsabilidades no assunto e ainda pela fuga de capitais para o estrangeiro. Agora, temos de arranjar dinheiro mas não podemos pedir emprestado e não podemos depender do saldo da balança que mesmo que se torne positivo será sempre demasiado pequeno para essa função.

Portanto, notemos o primeiro problema: arranjar dinheiro sem pedir emprestado.

Agora, notemos outra coisa: não podemos deixar de pagar a dívida; se os mercados tiverem qualquer suspeita de que a nossa dívida pode não ser paga, não emprestam mais um tostão.

A capacidade de pagar a dívida é o nosso grande trunfo nesta altura. Admiram-se? Então reparem:

Contrariamente ao que pensam, a Alemanha deve estar com graves problemas. O enorme saldo da balança externa alemã não fica na Alemanha, vai logo para offshores; e paga impostos na Holanda. Enquanto a generalidade dos empresários portugueses apostam em Portugal, querem viver cá – exceptuam-se é claro as multinacionais e o Pingo Doce – o empresários alemães não querem saber disso, querem é ganhar o máximo, por isso a fuga de capitais deve ser imensa. O resultado disso é que o nível de vida dos alemães é muito inferior ao que se esperaria de um país supostamente tão rico. Como é que a Merkel explica isto aos alemães? Arranjando um culpado. Não é novo, no passado culparam os judeus de ficarem com o dinheiro, hoje culpam os países do Sul, esses preguiçosos, inúteis, que vivem à custa deles e os condenam a uma vida remediada. Para os alemães, nós estamos hoje no lugar dos judeus do século passado.

Mas há mais: a crise dos bancos é tanto maior quanto maior o banco; porque quanto maior, mais se envolveu em processos especulativos. Ou seja, o Deutsch Bank deve ter um buraco imenso e o mercado já percebeu isso.

Contrariamente à ideia propalada, os juros não são proporcionais ao risco de incumprimento; os juros são função da capacidade negocial. É isso que as agências de rating medem. Se os mercados suspeitam que há o mais pequeno risco de incumprimento, não emprestam. Pura e simplesmente. Ou então aplicam juros para cima de 30%. Os nossos juros dispararam porque ficámos sem qualquer capacidade negocial. Com a corda na garganta. Os alemães conseguem empréstimos com juros até negativos, porque têm alta capacidade negocial (ou porque a Merkel manda os bancos alemães procederem assim) mas, por outro lado, não há quase ninguém a querer emprestar à Alemanha, ao contrário do que acontece com Portugal.

Portanto, obtermos empréstimos com juros baixos depende unicamente de duas coisas: de os mercados saberem que pagamos e de termos capacidade negocial (claro, há também procedimentos “por debaixo do pano”, como persuadir os bancos nacionais a acorrer aos leilões de dívida...).

Aqui está o segundo problema: adquirir capacidade negocial. Parafraseando o Salazar (citado pelo vbm num comentário ao post anterior):

"Haveremos de pedir emprestado, não como quem pede uma esmola, mas como quem propõe um negocio."

Isto não significa que tenhamos de ficar agarrados à troika; a solução não passa por aí; a troika foi um erro (que o Sócrates bem quis evitar…) e dela temos de nos livrar; mas livrarmo-nos da troika é uma coisa, não pagar a dívida é outra. Nós pagamos, não somos caloteiros, não ficamos a dever nada a ninguém.

(embora haja aí umas dívidas que precisam de ser escalpelizadas, mas isso é outro assunto, importantíssimo mas diferente; nomeadamente, porque haveremos de pagar um balúrdio à troika pela seu trabalho de “assistência” se ela falhou todas as suas previsões e nos deixou pior? Não só não devemos pagar essa fatia dos encargos com a troika como deveriamos pedir uma indemnização pelos prejuízos causados; e porque haveremos de pagar os biliões do BPN e do BPP? Esse problema é da banca, ela que o resolva, que se solidarize, não é nosso!) A propósito, ver este texto importante

São estes os dois problemas que temos de solucionar para resolver o problema financeiro; mas depois temos o problema económico e social para resolver

Quanto ao problema económico, notemos o seguinte; hoje em dia basta ter uma pequena percentagem da população envolvida na produção de bens transacionáveis; foi para isso que se fez o progresso, para que nos pudéssemos dedicar a outras coisas, como arte, ciência, saúde, educação, lazer, etc, etc; mas da maneira como as coisas estão organizadas, a produção de riqueza não especulativa está concentrada nos bens transacionáveis; esta riqueza é depois redistribuída através das outras actividades.

Ou seja, a cada emprego na produção de bens correspondem uns 5 noutras actividades; cada empresa de 100 trabalhadores que fecha vai implicar o desemprego de 500 pessoas nas outras actividades; e o desemprego faz baixar o consumo  e isto leva a fechar mais empresas com o correspondente coeficiente multiplicativo de desemprego.

É por isso que na economia de hoje a recessão se torna rapidamente de crescimento explosivo; a austeridade determina fatalmente uma implosão da economia. Mas nem todos perdem: as empresas estrangeiras não são afectadas porque não produzem para cá e passam a beneficiar de mão-de-obra muito mais barata. Como não há emprego, as pessoas aceitam ordenados mais baixos; o Estado, por outro lado, cai na asneira de subsidiar os postos de trabalho.

É sabido que as empresas estrangeiras manobram no sentido de causar recessão económica onde se situam; é por isso que todos os países, menos os do Sul da Europa, não autorizam empresas em que o capital nacional não seja maioritário ou de alguma forma o capacidade do país em intervir na empresa esteja assegurada. Em parte nenhuma do mundo, nem sequer em África, só mesmo aqui. Por cada posto de trabalho que criam destroem uma data deles para lhes garantir o fornecimento de mão de obra barata. 

Estas empresas beneficiam duplamente da baixa de ordenados porque depois fazem como a Autoeuropa, que leva os trabalhadores daqui para a Alemanha com os ordenados daqui, torneando os sindicatos alemães. Não se trata de uma “circulação de trabalhadores”, como dizem: não vêm trabalhadores da Alemanha para cá, só vão daqui para lá.

Portanto, o terceiro problema é aumentar a produção de bens para o mercado interno; é isso que vai gerar postos de trabalho em cadeia e porque gera redistribuição de riqueza através do consumo – os lucros das que exportam vão para o estrangeiro e para elas quanto pior for a situação, melhor.

Temos pois 3 problemas a que responder. No próximo post apresento a minha proposta de solução, mas podem ir desde já pensando nisto e dando sugestões.

quarta-feira, outubro 17, 2012

A Força do FMI


Acabei de saber que, mais uma vez, coisa que começou a seguir ao 15 de Setembro se a memória não me falha, Portugal se financiou nos mercados a juros muito baixos, menos de metade do que paga à troika. Juros inexplicavelmente baixos, muito inferiores ao que paga qualquer depósito a prazo.

Como entender isto?

Os nossos prolixos e esclarecidos comentadores económicos nem referem o assunto.

Uma hipótese é que estão com medo que Portugal mande a Europa às urtigas e apressam-se a "amaciar-nos" para que não entornemos o caldo que lhes tem sido tão proveitoso.

Outra é a de que estão a tentar convencer-nos a regressar rapidamente aos mercados, que estão tão apetitosos, para depois voltarem a subir os juros, porque isto da troika está a estragar-lhes as perspectivas de juros usuários

Mas há ainda uma terceira hipótese, para a qual me inclino: é a mão do FMI

Quem vir aqui o que diz a Lagarde, encontra um discurso completamente diferente. Afinal o problema são os bancos, o sector financeiro, as suas más práticas, que têm de ser corrigidas; é preciso cair em cima deles.

Quanto aos países, têm é de crescer, qual austeridade qual carapuça.

Os planos da Merkel vão por água abaixo. Afinal, quem manda é a Lagarde.

Mais uma sugestão para a recepção à Merkel: cartazes com a foto da Lagarde e do Hollande.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Proibido crescer!

(continuado - aqui o Hans mostra que a crise é propositada)


Há sempre uma razão por detrás de tudo; mas, antes de te mostrar a razão profunda dos problemas que todos os países europeus menos a Alemanha enfrentam, vou-te mostrar os factos que determinaram esses problemas.
A força de uma economia está ligada ao valor do dinheiro total dessa economia. É por isso que se um banco central imprimir dinheiro em excesso, este desvaloriza.

Sim, certo.

Ora bem; este facto óbvio e indiscutível tem outro lado: uma economia para crescer precisa de mais dinheiro. Ou seja, se tiveres um país isolado, o crescimento do seu PIB vai estar associado ao crescimento da sua massa monetária – ou pelo aumento do dinheiro em circulação ou pelo aumento do valor do dinheiro.

Sim, é óbvio; e então?

Repara agora como foi definido o Euro. Um país como Portugal tem de crescer muito para poder aproximar-se dos países mais avançados da Europa, não é?

Claro.

Ora esse crescimento tem de estar associado à massa monetária do país; portanto, esta tem de poder crescer para que o PIB do país possa crescer.

Certo...

Porém, o BCE apenas imprime dinheiro de acordo com uma fórmula associada ao crescimento médio do PIB europeu, nem isso, pois era imprescindível conseguir que o euro não se desvalorizasse face ao dólar, e redistribui esse dinheiro de acordo com a força das economias de cada país. Ou seja, o crescimento da massa monetária em Portugal está limitado ao crescimento médio da economia europeia. Isto implica que Portugal não pode crescer mais do que a média europeia, a não ser que arranje outra forma de aumentar a sua massa monetária.

Sim... estou a perceber, as regras monetárias do euro impedem os países mais atrasados de crescerem mais do que os mais avançados.

Exacto; mas ainda é pior do que isso. Onde é que Portugal pode ir buscar dinheiro? Ou à balança externa ou pedindo emprestado. Mas os países do Euro não se podem proteger das importações. Num mercado aberto, uma economia mais fraca em concorrência com uma mais forte não pode ter uma balança externa equilibrada; logo, a balança externa será deficitária. Logo, o que as regras do Euro determinam é que a massa monetária dos países mais atrasados diminua e, em consequência, o seu PIB.

Mas o PIB não tem diminuído... pelo menos até à crise...

Pois não; e porquê? Porque estes países foram buscar dinheiro para aumentar a massa monetária; onde? Endividando-se! Tiveram de se endividar para compensar o deficit da balança externa e ainda conseguir dinheiro para obter algum crescimento.

Ou seja, no quadro definido, os países mais atrasados estão condenados a endividar-se e estrangulados no seu crescimento.

Fatalmente.

E os quadros de apoio e essas coisas?

Os apoios são estabelecidos visando muito mais o interesse da Europa do que do país; a PAC é um exemplo claro disso, por isso é que os vossos agricultores recebem subsídios para não produzirem. A Europa não precisa que vocês produzam, mas vocês precisam. Ou seja, esse tipo de planos ainda impossibilita mais o vosso desenvolvimento. Agora vão cortar os apoios aos regadios porque a Europa não precisa mas vocês precisam.

E os apoios à indústria?

Foram quase todos absorvidos pelas empresas estrangeiras instaladas no vosso país; ou seja, basicamente, são uma forma habilidosa de os países mais desenvolvidos, especialmente a Alemanha, subsidiar as suas indústrias, violando as regras da concorrência.

Pois, isso eu sei... embora também tenha havido imensa corrupção por cá, grande parte das ajudas foi para aos bolsos de uns quantos...

Bem, quando se aumenta o dinheiro sem correspondentes medidas anticorrupção, esta dispara; esse foi um erro crasso do processo; de qualquer maneira, essas ajudas sempre foram uma maneira de aumentar a vossa massa monetária mas, infelizmente, no vosso caso, logo desperdiçada em importações de tudo e mais alguma coisa, acabando por ter o efeito contrário ao pretendido: afogar a produção nacional em vez de a desenvolver. Mas nisso a culpa é toda vossa, mais ninguém fez tamanho disparate, acho mesmo que vocês devem ter uma anomalia psicológica qualquer, pois ninguém pode ser tão inconsciente assim...

Novo riquismo – procurei minimizar, embora sabendo que ele tem razão; e contra-ataquei:  A Europa protege-se das importações que fazem concorrência aos produtos dos países ricos, mas não aos dos países mais atrasados. Por exemplo, a nossa indústria têxtil enfrenta altas protecções alfandegárias em todos os países do mundo, porque todos se protegem, mas a Europa não estabelece protecção alfandegária à importação de têxteis. Ou seja, a nossa indústria sofre uma concorrência desleal porque é isso que interessa a países como o teu, que não têm indústria têxtil.

O Hans assentiu. Já te disse, as regras europeias visam o interesse da Europa, dominada pela Alemanha e França, e são uma armadilha para os países menos desenvolvidos. Claro que os governantes não têm de ser parvos, e não foram em nenhum país à excepção do teu; todos trataram de proteger a sua balança externa e fizeram-no sem pejo nenhum e sem segredo nenhum. Já te contei que os emissores que vendemos para a Grécia foram pagos em fardos de feno.

Sim, lembro-me disso.

Os gregos são um exemplo de excelente gestão no quadro armadilhado do Euro; conseguiram manter sempre a sua balança externa equilibrada e conseguiram crescer. Cresceram muito, o seu PIB per capita quando a crise começou era 1,7 vezes o português quando não há muitos anos era inferior ao vosso. Os gregos sabem muito bem o mundo em que vivem.

Sim, é um resultado extraordinário

Claro que um tal crescimento do PIB implica endividamento porque não há mecanismos no euro para permitir o correspondente crescimento da massa monetária. Mas mesmo assim o endividamento grego não era nada de muito diferente do dos outros países. Os gregos foram atacados por causa do seu sucesso, por estarem a conseguir crescer demais. Era preciso fazer cair o seu PIB, e é isso que está a ser feito, é por isso que vão para o sexto ano de recessão com o PIB a descer vertiginosamente. O PIB grego tem de cair para metade para ficar de acordo com a massa monetária que a Alemanha quer que a Grécia tenha.

É preciso fazer cair o PIB? Então achas que não é consequência da crise financeira, é propositado?

Claro que é propositado; o ataque às dívidas soberanas acaba no dia em que a Alemanha quiser; este ataque da “praga de gafanhotos” é apenas o instrumento que permite à Alemanha fazer cair o PIB dos países do Sul. A Alemanha não só não o trava como o alimenta e de tal forma que até o FMI já está a ficar em pânico porque o empobrecimento excessivo não lhe interessa.

E porque é que a Alemanha haveria de querer isso?

És cá um ingénuo... mas só tens de te pôr no lugar da Alemanha para perceberes.

Achas?

Bem, vou ajudar-te.

(continua)

quarta-feira, outubro 10, 2012

A praga oportunista

 (continuado)
retirado de aqui


O Hans bebeu um longo golo de cerveja; o calor apertava e a cerveja dourada e efervescente criava securas de desejo na garganta. Resisti à tentação de beber mais uma e pedi outra garrafa de água, tinha de ir alternando a cerveja com água para manter o raciocínio alerta. Sossegada a sede, o Hans continuou:

Já te volto a falar desses economistas financeiros, especialistas na predação, mas primeiro vou falar-te dos economistas empresariais – nota que estas designações são minhas e são uma certa simplificação do assunto, mas que me parece adequada a apresentar o problema. Bebeu mais um golo da borbulhante cerveja, a tornar a minha água mais insípida. Os economistas empresariais também visam o lucro do patrão, é claro, mas há um aspecto que os distingue dos financeiros: o lucro do patrão depende do poder de compra dos consumidores. Para eles, qualquer teoria do empobrecimento, tão do agrado dos financeiros, deixa-os com os cabelos em pé.

Olha que tens toda a razão; aqui em Portugal sente-se claramente duas correntes de economistas, os que estão ligados a empresas que produzem para o mercado interno e os da área da banca e das grandes empresas cuja actividade é independente do poder de compra dos portugueses. Os primeiros estão fartos de reclamar contra o empobrecimento em curso e os segundos acham muito bem.

Claro, os seus interesses são afectados de maneiras opostas.

Nesse caso... os governos deveriam ser entregues aos economistas empresariais, pois esses querem o enriquecimento dos povos?

Não, nada disso; eles querem o enriquecimento dos povos, mas não fazem ideia de como isso se consegue. Eles querem que alguém assegure esse enriquecimento, mas eles não sabem como fazê-lo, eles só sabem como enriquecer o seu patrão.

Agora é que me deixaste baralhado; então são os financeiros que devem ir para o Governo?

Credo! O Hans até deu um salto na cadeira! Esses nunca, são especialistas do empobrecimento.

Então...

Repara, todos esses economistas que falam nos media são tipos bem sucedidos em enriquecer o patrão, por isso são bem pagos, essa é a sua especialidade, uma transferência de dinheiro da sociedade para os patrões; como é que se enriquece a sociedade, eles não fazem ideia, isso pertence a outro pelouro que não é o deles; de macroeconomia não têm mais do que vagas ideias, conceitos simplórios e ultrapassados.

Estou a perceber. Todos dizem que é preciso medidas para relançar a economia, para evitar que os bolsos das pessoas fiquem vazios. Só que não fazem ideia nenhuma de como isso se faz. Até as troikas dizem isso mas, ao contrário das medidas de empobrecimento, não têm nenhuma ideia a apresentar para enriquecer os povos.

Na verdade, nem tentam, a sua estratégia é outra.

Outra? Qual?

A da praga dos gafanhotos: eles ocupam um país, devoram tudo o que há a devorar enquanto conseguirem, e depois mudam-se para outro país – para isso criaram um sistema onde o capital se pode mover livremente.

Então estamos a ser vítimas de uma praga de gafanhotos?

Estão a ser vítimas de várias coisas, uma delas é uma praga de gafanhotos. Mas nota que estas pragas são pragas oportunistas,  elas surgem porque foram criadas condições para que se pudessem instalar e vão-se embora na altura em que essas condições acabam.

As condições para elas surgirem... penso que te referes a uma política de gastos excessivos, isso percebo eu; agora, como é que se consegue que a praga se vá embora é que não vislumbro... pois se ela só faz aumentar a dívida... vai-se embora quando já sacou tudo o que havia a sacar?

Percebes mal, muito mal, isso são ideias simplórias. Há duas grandes razões para esta praga ter surgido e continuar estabelecida e não são nada do que pensas. 

(continua)

domingo, setembro 30, 2012

As 3 escolas de Economia



(continuação)

Ora aqui está a tua cervejola a chegar; explica-me então quais são as 3 formas de especulação. O Hans hesitou por um momento, o olhar seguindo atento as bolhinhas de gás no copo de cerveja e disse, decidido:

Não. Antes disso é melhor eu falar primeiro das 3 escolas de economia, para teres o adequado enquadramento e perceberes a profundidade, a eficiência e o poder do processo especulativo instalado.

Ok, assenti com ar conformado; mas depois interroguei, curioso: quais 3 escolas? Referes-te à escola de Milton Friedmann, à Keynesiana e...

Nada disso. As pessoas têm a ideia erradíssima que a sociedade funciona segundo uma teoria económica única e que pode optar entre várias teorias; mas que é uma opção, ou se usa uma ou outra. Não é nada disso. A realidade é completamente diferente.

Fiquei surpreendido. É diferente como? A Europa do euro segue claramente a teoria do Friedmann, basta ver os estatutos do BCE, que o configuram como um banco dos banqueiros e não dos estados!

Inspirando, o Hans começou a expor com ar paciente:
As escolas, como sabes, estão sujeitas a critérios de avaliação, o primeiro dos quais será a empregabilidade; isto conduz a que elas ministrem um ensino otimizado para o mercado de trabalho que visam, que assegure empregos bem remunerados; ora, há duas áreas de actividade distintas para os economistas.

Duas? A que te referes?

Uma é a que visa ganhar dinheiro com o dinheiro, a da chamada banca de investimento, a da bolsa. Nestas actividades não há lugar a nenhuma produção directa de riqueza, é apenas dinheiro que muda de dono. É uma actividade puramente especulativa.

Sim, entendo; e a outra é....?

A outra é as empresas que produzem bens e serviços, onde o ganho de dinheiro está baseado na produção de alguma coisa, onde há uma troca, mais ou menos equilibrada, de um bem ou serviço que não existia antes por dinheiro. Esta segunda actividade gera directamente riqueza para a sociedade, a primeira não.

Mas então um economista não sai de uma escola preparado para trabalhar tanto num banco como numa empresa?

Não. Actualmente, os melhores ordenados auferem-se na actividade especulativa; as escolas de economia das grandes cidades, das capitais, especializaram-se em formar economistas para a especulação. Se fores ver onde se empregam os alunos das escolas de Lisboa, da Nova ou da Católica, certamente que encontrarás um largo predomínio da banca e da bolsa.

Então onde se formam os economistas das empresas?

Nas escolas em zonas de actividade industrial; por exemplo, na vossa universidade do Minho.

Ok ok estou a compreender. Nunca tinha pensado nisso, mas não estranho, pois é mais ou menos assim em todas as profissões, há especialidades.

Exactamente; há engenheiros especialistas em diferentes áreas, médicos também etc, etc. Com os economistas é o mesmo. Estas duas áreas da economia são muito diferentes, tal como são diferentes as especialidades nas outras profissões.

Então qual é o problema?

Tu contratarias um engenheiro electrotécnico para te projectar uma ponte? Um dentista para te operar ao apêndice?

Abri a boca de espanto.  Que disparate! Que queres dizer com isso?

Sabes qual é a especialidade dos economistas especulativos, os que trabalham para a banca, para a bolsa, para as instituições financeiras, os das escolas de economia das grandes cidades.

Então... é aumentar os lucros dos seus patrões... como todos os empregados...

Sim, como todos; só que no caso deles, não havendo lugar à produção de riqueza, o enriquecimento dos seus patrões implica...  O Hans abriu a boca e os olhos e fez sinal com as mãos a convidar-me a acabar a frase.

Implica... se os seus patrões enriquecem e a riqueza não aumenta... alguém empobrece.

Isso! O empobrecimento da sociedade é o parâmetro que mede a eficiência da actividade especulativa. O dinheiro não se evapora e cria-se muito lentamente, para os seus patrões ficarem mais ricos ao ritmo que desejam, o resto da sociedade fica mais pobre. A princípio, a actividade especulativa tinha pouco peso em relação ao crescimento de riqueza da sociedade, mas hoje já não é assim. Esses economistas são especialistas no empobrecimento. Através dos processos especulativos, o enriquecimento dos seus patrões fica independente do crescimento do PIB, é por isso que a taxa de enriquecimento destas actividades é há muito superior a 30% ao ano. A sua cabeça está sempre a inventar processos de empobrecer a sociedade, de fazer crescer a desigualdade. São cientistas do empobrecimento.

Ainda recentemente, lembrei-me, inventaram um “cartão de débito diferido”, que introduziram sub-repticiamente no mercado, cuja finalidade é cobrarem mais aos comerciantes e ainda fazer as pessoas pensarem que têm um saldo à ordem maior do que o real, o que pode originar saldo negativo para os bancos cobrarem juros a descoberto.

O Hans assentiu. Estão sempre a inventar esquemas; a sua cabeça está formatada para empobrecer os outros. São os maiores especialistas do mundo na predação. E, como grandes especialistas que são, têm processos que nem imaginas, esse teu exemplo do cartão de débito diferido é só uma gracinha ao pé das coisas que eles fazem.

Estou a perceber onde queres chegar....

Talvez ainda não; ouve-me mais um bocadinho

(continua)

terça-feira, setembro 11, 2012

Existe um buraco negro no Deutsche??

(continuação)


Lentamente, direi mesmo a custo, voltei a pousar o olhar no Hans; ele recomeçou:

Como sabes, a actividade da banca dita de investimento gerou lucros superiores a 30% ao ano durante muitos anos; às vezes superior a 50%. Estes lucros não resultaram de nenhuma produção de riqueza, nada foi produzido nestes “investimentos”, estes lucros são o mero resultado de predação da riqueza alheia, ou seja, de “especulação”. Fez uma pausa para verificar se eu estava a par. Tranquilizei-o:

Sim, isso é bem sabido a nível dos economistas; todos os bancos e outras instituições financeiras trataram de entrar nessa actividade na medida das suas possibilidades. Cá, criaram-se dois bancos dedicados quase exclusivamente a isso, o BPN e o BPP.

Disseste uma coisa muito acertada: todos trataram de entrar nessa actividade ao nível das suas possibilidades! Ora quanto maior um banco, maior as suas possibilidades, não é verdade?

Sim… mais recursos financeiros para aplicar, maior pressão para aumentar os lucros, mais capacidade de contratar especialistas para inventarem novos processos especulativos…

Isso mesmo; portanto, os grandes bancos realizaram um imenso investimento especulativo, em produtos que o seu imenso corpo de especialistas foi inventando; e tudo isto em escala tanto maior quanto maior o banco. Uma nova pausa, a pedir para eu concluir o raciocínio. Fiz o que pude:

Queres dizer que quanto maior o banco maior o investimento especulativo… sim, e então? Evitei adiantar-me muito na resposta, quero saber o raciocínio dele

Maior o investimento e maior o corpo de especialistas em especulação, corrigiu-me. As duas coisas são importantes para perceberes o desenrolar dos acontecimentos. Agora, diz-me lá, qual foi a consequência deste enriquecimento tão rápido e sem produção real de riqueza?

Ah, isso é uma coisa que estou farto de tentar explicar aos meus amigos: quando essa predação da riqueza se tornou maior do que a riqueza produzida, a generalidade das pessoas começou a empobrecer; ora essa especulação só funciona enquanto as pessoas têm um horizonte de crescimento de riqueza. Quando as pessoas perceberam que estavam a empobrecer, fugiram desses esquemas e os balões especulativos estoiraram.

Claro, é o que acontece em qualquer esquema de pirâmide, vive da expectativa das pessoas de ganharem por entrar nele. É por isso que se diz que o sistema financeiro assenta na “confiança”, é “fiduciário”; só que não é confiança na honestidade dos processos e agentes, como muita gente pensa, é confiança em que o dinheiro aplicado vai gerar um retorno elevado– confiança em que ao entrar num esquema de pirâmide se vai sair a ganhar. Quando essa confiança desapareceu, as pirâmides estoiraram todas. As pirâmides e os investimentos de risco, foram os dois motores do enriquecimento rápido. Claro que os investimentos de risco dão retorno elevado a princípio mas depois colapsam. Disse, com ar definitivo, e recostou-se; tinha acabado a exposição e eu não estava a perceber onde queria ele chegar, não me tinha dado nenhuma novidade. Atrevi-me:

E …

Ergueu-se. Não estás a perceber? Não é óbvio? Quanto maior o banco, maior o estouro. Essas práticas agora ditas de tóxicas eram as práticas usadas por todos, quem as não usasse não tinha lucros, a banca de retalho rende pouco; e, quanto maior o banco, mais as usava.

Portanto…

Portanto – com ar impaciente - os grandes bancos, o Deutsche, o Barclay’s, estão falidos, falidíssimos! Têm um buraco dum tamanho incomensurável, do tamanho da riqueza especulativa de que se alimentaram durante muitos anos.

De repente, lembrei-me duma conversa que tive há dias com um gerente bancário; além de me explicar como é que eu podia fazer aplicações do capital que ele pensa que eu tenho mas não tenho sem pagar imposto, ou pagando muito pouco, dissera-me que o Deutsche tinha mudado radicalmente o seu perfil de investimento, que agia agora como os bancos em dificuldades, procurando apenas produtos de curto prazo e rendibilidade segura. Dei um sinal de concordância ao Hans e incitei-o a continuar:

E…

E então – como se dissesse algo óbvio - o seu imenso corpo de especialistas teve de encontrar maneira de salvar a situação; e a solução passa pela aposta em novas formas de especulação, pois só algo que permita grandes ganhos no curto prazo pode aguentar esses bancos.

E…

Bem, vamos por partes. A primeira coisa que podes começar já a perceber é que a única coisa que interessa à Alemanha agora é salvar o Deutsche. E depressa, depressinha, antes que o Zé povinho perceba – o Hans, nesta conversa em inglês, disse mesmo “Zé povinho”, o que me deixou boqueaberto. A Alemanha está a executar o plano traçado pelos especialistas em especulação do Deutsche, os matemáticos e outros cientistas pagos a peso de ouro, para salvar o banco; salvar à custa do dinheiro dos outros, naturalmente, não há outra maneira. O objectivo é sacar todo o dinheiro real, que é o dinheiro dos pobres, para tornar real o seu dinheiro especulativo.

Queres dizer que os países do Sul são verdadeiramente patéticos quando se viram para a Alemanha para os ajudar a enfrentar o ataque especulativo às suas dívidas soberanas?

Claro; a Alemanha é o motor desse ataque, delineado pelos seus especialistas. E o objetivo desse ataque é o empobrecimento dos povos, e rápido.

Estás a dizer que não podemos ter nenhumas esperanças que sejam tomadas medidas da parte do BCE ou da Alemanha no sentido de controlarem esse ataque?

Claro que não!!! Eles nem enganam, declaram mesmo que o que estão a fazer é empobrecer os povos. Empobrecer os pobres para que os ricos não abram falência. Vocês entrarem em recessão não é um falhanço da Troika, é um objetivo atingido; ou pensas que eles são tão estúpidos que não sabem aquilo que toda a gente sabe, que estas medidas implicam recessão e aumento do déficit, aumento do desemprego?

Sim, claro…

Legitimam esse empobrecimento com o argumento de que sem os ricos a sociedade inteira colapsa e por isso eles até estão a salvar toda a gente ao empobrecer os pobres e a classe média! Só que eles não estão a empobrecer toda a gente por igual, estão a empobrecer por baixo, é claro.

Isso é óbvio no caso de Portugal onde, ao contrário dos outros países, só existem medidas para empobrecimento do povo, nem uma medida reestruturante ou que afete os mais ricos.

E não é por acaso, como verás. Além de que os líderes alemães querem ganhar as suas eleições, por isso espalham a miséria nos outros lados. Vocês vão pagar o buraco do Deutsche. Vocês vão ser explorados até ao último tostão, e depois escravizados. Todos os direitos foram já riscados, como irás vendo, excepto o direito dos ricos à sua propriedade. Esqueçam a semana de trabalho de 5 dias, férias pagas, ordenado mínimo, horários de trabalho, reformas, etc, etc.; vão passar todos a ser pagos à hora (muitos já são) e miseravelmente, porque o poder negocial dos empregados desapareceu. E se as coisas ainda não estão mais graves é porque a Alemanha tem medo do Obama, que anda a investigar o Deutsche; mas se o Obama perder as eleições, vais ver o que acontece.

Sim, já vi qualquer coisa sobre os americanos exigirem investigar o Deutsch a pretexto de alegadas ligações ao Irão… Mas porque é que dizes que Portugal pode ter um papel crítico neste processo?

Bem, tenho de de explicar quais são as 3 formas de especulação. Pede-me aí outra cerveja.

(continua)

PS- este texto relata uma conversa, as opiniões do Hans (nome fictício) são as dele, não as do autor

terça-feira, agosto 21, 2012

O meu amigo alemão




Foi uma surpresa encontrar o Hans na esplanada de Odeceixe; foi ele quem me reconheceu, ser careca tem essa vantagem, não mudamos de cabeça com a idade...
Conheci o Hans há bem uns vinte anos atrás; era engenheiro de uma grande empresa alemã de equipamentos de telecomunicações e metrologia e viera a Portugal por causa de um concurso internacional aberto por uma empresa pública; contactara-me para saber as possibilidades de conseguir incorporação nacional para os seus equipamentos, crendo que isso seria uma vantagem para o concurso. Lá o informei que possibilidade existia, mas que seria um grave erro da parte dele porque os gestores das empresas públicas tinham horror a tudo o que fosse nacional, até porque não faltaria quem os acusasse de corrupção se se atrevessem a adjudicar alguma coisa no mercado nacional. Até as verbas do PEDIP, supostamente destinadas ao desenvolvimento da indústria nacional, eram preferencialmente atribuídas a empresas estrangeiras. Ele não me acreditou e lá lhe dei as informações que pretendia.

Mais tarde, pediu-me desculpa de ter duvidado de mim; contou-me que apresentou a sua proposta de incorporação nacional na primeira reunião de negociação e que a recepção foi tal que na reunião seguinte apresentou um declaração em como nem um parafuso dos seus equipamentos seria montado em Portugal! Disse-me então uma coisa de que nunca mais me esqueci:

 assim, o vosso país vai ao fundo e vão arrastar a Europa com vocês!

E foi exactamente com essa frase que começamos a conversa que se segue, enquanto as respectivas esposas iam apanhar sol para a praia. Tinhas toda a razão, e já várias vezes citei o que me disseste na blogoesfera, disse-lhe eu.

Não, não, esta crise não tem nada a ver com isso; aliás, o vosso primeiro-ministro anterior, o Sócrates, estava a colocar o vosso país no rumo certo. Esta crise é tão má para vocês como para nós.

Senti-me logo irritado; lembrei-me do Cavaco a dizer que também estava sem dinheiro ou do Vale e Azevedo a dizer que vivia da caridade dos amigos. Que mania esta a dos ricos de se vitimizarem. Ele deve ter percebido o meu desagrado porque se apressou a acrescentar:

Agora, pelo contrário, seriam vocês que podiam fazer qualquer coisa para se salvarem e salvarem-nos, a nós e à Europa.

Nós?!? Não pude reprimir o espanto. Como?

Lembro-me, do nosso contacto anterior, de que és uma pessoa lúcida; por isso, deves ter uma ideia do que esteja a causar a crise, não é verdade?

Sim, tenho, mas quero ouvir a tua versão, até porque não estou a ver como é que Portugal pode ter um papel na sua resolução, respondi-lhe, cauteloso, enquanto o olhar se distraía nas duas vistosas loiras que tinham acabado de chegar à esplanada

Já vais perceber. Deixa lá as loiras e presta atenção ao que te vou dizer.

(continua)


sábado, julho 28, 2012

Política de Terra Queimada


The burning of Troy


Há alguns anos, tornou-se público na Dinamarca o plano da NATO em caso de tentativa de invasão Russa; segundo esse plano, alguns países, nomeadamente a Dinamarca, seriam “terra queimada”. Plano muito “lógico”, havia que defender o coração da Europa, portanto destruía-se a periferia para estabelecer uma terra de ninguém onde fosse mais fácil combater os russos e proteger os cidadãos do coração. Estranhamente, os Dinamarqueses não gostaram nada do plano.

A Europa, e não só, embarcou numa perigosa e desajustada teoria económica (de que falarei noutro texto), de uma particular escola. Em consequência, os grandes bancos europeus, nomeadamente o Barclay’s e o Deutshe, devem ter um buraco financeiro de dimensão apocalíptica. Isto pode parecer surpreendente mas não é, o buraco não é decorrente de “incompetência” ou “corrupção” mas a necessária consequência da referida teoria económica. Quanto maior o banco, maior o buraco.

Qual é a estratégia para resolver esta situação?

A mesma de sempre: sacrificar a periferia.

A política de “empobrecimento” não é para os funcionários públicos, ou para os portugueses empregados, é para toda a periferia europeia. Na verdade, o buraco central será tão grande que o “empobrecimento” é para toda a Europa à excepção da Alemanha e da Inglaterra. A ideia é sacar todo o dinheiro que seja possível sacar para tapar esse buraco. A política de empobrecimento é apenas um nome para uma política de terra queimada, que vai abranger toda a gente com atividade nos países envolvidos, ricos ou pobres.

A medida mais recente é recusar um mecanismo de suporte aos depósitos bancários; isto é um convite aos depositantes para correrem para esses dois bancos, vistos como “sólidos”. Na verdade, é uma armadilha: um banco pequeno pode ser muito mais seguro do que um grande porque está muito menos envolvido nas práticas financeiras agora ditas de risco – basta que saiba gerir a bolha imobiliária com inteligência, o ponto frágil dos bancos pequenos.

(um banco cujo presidente atribui o mau momento à Constituição Portuguesa não dá garantias de uma gestão inteligente; um gestor para a crise tem de ter um entendimento oposto aos gestores que conduziram a ela e que agora só sabem encontrar culpados em todo o lado menos neles – ele é o Sócrates, ele é a Constituição, ele é...)

Até ao fim deste ano vamos decidir o nosso futuro. Por acção ou omissão.

segunda-feira, julho 16, 2012

Porque é que empobrecemos na era da abundância?



No ocidente, vivemos na era da abundância; o que limita esta abundância é apenas a capacidade de consumo, porque podemos produzir muito mais sem qualquer dificuldade; sendo assim, como é que ainda há tanta pobreza no mundo ocidental e, pior do que isso, porque estamos num processo de empobrecimento?

Um exemplo que me parece excelente para compreendermos como evolui o sistema liberal é o caso dos supermercados.

Como é que os supermercados maximizam o lucro? Vendendo o máximo e com a margem de lucro máxima, lógico.
O que é que limita o volume de vendas? O preço de venda.
O que é que limita a margem de lucro? A possibilidade dos produtores terem circuitos alternativos de distribuição.
Então, como é que se maximiza o lucro?

A solução de médio prazo é a seguinte: baixar continuamente o preço de venda.

Parece um absurdo, não é? Mas vejam como funciona. 
Baixar o preço de venda tem uma influência positiva no volume de vendas; porém, degrada a margem de lucro. A seguir, baixa-se o preço que se oferece ao produtor. Como o preço de mercado é o definido pelo supermercado, as mercearias de bairro têm de o seguir e o produtor não tem alternativa. Então, o produtor procura aumentar a eficiência e baixar os seus custos – vai buscar trabalhadores à Tailândia ou à Argélia, pressiona os fornecedores de adubos e rações para pagar menos. Assim, os supermercados recuperam a margem de lucro, que usam para continuar a baixar os preços. Este processo tem uma consequência positiva – aumento de eficiência – e uma negativa – empobrecimento do lado de baixo da cadeia produtiva.

Na atual situação de crise, em que há empobrecimento da maioria dos clientes, para manter o volume de vendas os supermercados tiveram de fazer um corte muito grande nos preços. Não tem problema, a seguir os produtores vão ter de lhes vender mais barato ou não vendem.

Os consumidores acham ótimo que assim seja, porque pagam menos pelos produtos (exceto se também forem produtores).

Este processo é geral, a competição gera necessariamente este fenómeno.

Os governos, porém, são eleitos para melhorarem a qualidade de vida das pessoas. Precisam de contrariar este processo. Mas, incapazes de uma solução sistémica, o que fazem é tratar os sintomas: subsidiam as pessoas. Subsidiam a saúde, a educação, os transportes. Com isto, as pessoas precisam de menos dinheiro para viver, os empresários podem pagar menos ordenado. Mas a competição não tem limite. Então os estados subsidiam mais: subsidiam o desemprego, subsidiam os períodos de menor atividade das empresas (em França), subsidiam os produtores (PAC). Mas não chega. Então começam a subsidiar o emprego, com os incentivos ao primeiro emprego. Os empresários passam a só ter de pagar uma parte dos ordenados. Mas não chega. Passam a subsidiar os empresários para criarem emprego, dar emprego passa a ser uma actividade geradora de lucros – por exemplo, o Estado paga estágios profissionais a 690 euros, os empresários contratam licenciados a 490 euros e lucram 200 euros com cada um. Licenciados com experiência, não se trata de um custo de formação.

Teoricamente, com estes apoios, as empresas ficariam mais competitivas, teriam lucros, e a estes lucros ia o Estado buscar o dinheiro para os subsídios. Só que não é verdade, neste esquema competitivo só tem lucros quem está o topo da pirâmide, os grandes grupos financeiros, os super-ricos – e estes não pagam impostos.

Os países da europa do Norte estão na metade superior desta cadeia; nós na inferior. Não é por acaso, nem é apenas porque têm mais formação, é porque eles sempre defenderam os seus interesses a todo o transe, desse por onde desse, independentemente de quaisquer teorias académicas. Eles vivem na economia real, não na dos académicos, como cá. 
Quem está no meio desta cadeia não entende porque há-de estar a pagar para subsidiar os que estão na base. Esses gulosos que querem viver acima das suas posses. Por isso, há que acabar com o “Estado Social”. E assim as pessoas da base (nós) vão ter de viver do ar. E eles ameaçam: se não gostam vamos buscar empregados à Nigéria. África e Ásia são fornecedores infindáveis de escravos porque não têm controle de natalidade.

À nossa frente está um interminável processo de empobrecimento. Miséria absoluta. Não haja ilusões. A mesma miséria a que nós temos condenado uma parte significativa da população portuguesa. Os Alemães não são piores do que nós, são até melhores. Só que agora vamos ficar no papel em que andamos a pôr muitos portugueses desde há muitos anos. Agora vamos todos para o bairro da lata.

Mas há solução. Há sempre solução. 

domingo, julho 01, 2012

O Mistério Português



Na última cimeira europeia o impossível aconteceu: o BCE (tanto quanto percebi) vai financiar as dívidas soberanas através do fundo de resgate. A pedra de toque de todo este processo de destruição dos Estados caiu. Como foi isto possível?

Toda a evolução das sociedades humanas, os diferentes sistemas políticos, as leis, as regras, praticamente toda a estrutura da sociedade humana, decorre de uma única coisa: o poder negocial dos interesses em jogo.

O Poder Negocial é a Grande Lei da Sociedade, tudo o resto é consequência desta lei.



Por exemplo, foi o movimento sindical que deu poder negocial aos trabalhadores e lhes permitiu acordos que foram fixados em Leis, garantidas pelo Estado.

Na última cimeira, França, Espanha e Itália uniram-se e obtiveram um poder negocial superior ao da Alemanha; e assim conseguiram o que queriam. E o que queriam eles? Salvar os Estados; porque a destruição dos Estados é o objectivo dos “ricos”, pois já não precisam deles, quem precisa deles é sobretudo a classe média porque já não tem sindicatos, já não tem organização, já não tem poder negocial, não tem outro poder que não seja o que vem do Estado; e a classe mais pobre já pouco tem a perder com o fim do Estado.

Há várias maneiras de ter poder negocial; uma é pela força bruta, “pelo número de espingardas”, que foi o que aconteceu nesta cimeira; a outra é sendo “um grão na engrenagem”, que foi o que fizeram os gregos; outra ainda é ameaçar causar algum prejuízo porque, na sociedade humana como na selva, raramente alguém está disposto a ficar ferido para matar o outro, que foi o que tentou fazer o Sócrates, à mistura com algum bluff (mal sucedido, pois a fragilidade da sua situação condenava à partida qualquer possibilidade de sucesso negocial).

E nós agora? Como é evidente, Portugal não só não negoceia como, pelo contrário, o governo agrava unilateralmente as exigências da outra parte; que estratégia é esta, que merece o apoio dos portugueses dado que não há contestação significativa nem quebra nas intenções de voto? Nem sequer o líder da oposição contesta a não ser com palavras de circunstância e vazias de consequências? Que mistério é este?

(continua)