domingo, setembro 30, 2012

As 3 escolas de Economia



(continuação)

Ora aqui está a tua cervejola a chegar; explica-me então quais são as 3 formas de especulação. O Hans hesitou por um momento, o olhar seguindo atento as bolhinhas de gás no copo de cerveja e disse, decidido:

Não. Antes disso é melhor eu falar primeiro das 3 escolas de economia, para teres o adequado enquadramento e perceberes a profundidade, a eficiência e o poder do processo especulativo instalado.

Ok, assenti com ar conformado; mas depois interroguei, curioso: quais 3 escolas? Referes-te à escola de Milton Friedmann, à Keynesiana e...

Nada disso. As pessoas têm a ideia erradíssima que a sociedade funciona segundo uma teoria económica única e que pode optar entre várias teorias; mas que é uma opção, ou se usa uma ou outra. Não é nada disso. A realidade é completamente diferente.

Fiquei surpreendido. É diferente como? A Europa do euro segue claramente a teoria do Friedmann, basta ver os estatutos do BCE, que o configuram como um banco dos banqueiros e não dos estados!

Inspirando, o Hans começou a expor com ar paciente:
As escolas, como sabes, estão sujeitas a critérios de avaliação, o primeiro dos quais será a empregabilidade; isto conduz a que elas ministrem um ensino otimizado para o mercado de trabalho que visam, que assegure empregos bem remunerados; ora, há duas áreas de actividade distintas para os economistas.

Duas? A que te referes?

Uma é a que visa ganhar dinheiro com o dinheiro, a da chamada banca de investimento, a da bolsa. Nestas actividades não há lugar a nenhuma produção directa de riqueza, é apenas dinheiro que muda de dono. É uma actividade puramente especulativa.

Sim, entendo; e a outra é....?

A outra é as empresas que produzem bens e serviços, onde o ganho de dinheiro está baseado na produção de alguma coisa, onde há uma troca, mais ou menos equilibrada, de um bem ou serviço que não existia antes por dinheiro. Esta segunda actividade gera directamente riqueza para a sociedade, a primeira não.

Mas então um economista não sai de uma escola preparado para trabalhar tanto num banco como numa empresa?

Não. Actualmente, os melhores ordenados auferem-se na actividade especulativa; as escolas de economia das grandes cidades, das capitais, especializaram-se em formar economistas para a especulação. Se fores ver onde se empregam os alunos das escolas de Lisboa, da Nova ou da Católica, certamente que encontrarás um largo predomínio da banca e da bolsa.

Então onde se formam os economistas das empresas?

Nas escolas em zonas de actividade industrial; por exemplo, na vossa universidade do Minho.

Ok ok estou a compreender. Nunca tinha pensado nisso, mas não estranho, pois é mais ou menos assim em todas as profissões, há especialidades.

Exactamente; há engenheiros especialistas em diferentes áreas, médicos também etc, etc. Com os economistas é o mesmo. Estas duas áreas da economia são muito diferentes, tal como são diferentes as especialidades nas outras profissões.

Então qual é o problema?

Tu contratarias um engenheiro electrotécnico para te projectar uma ponte? Um dentista para te operar ao apêndice?

Abri a boca de espanto.  Que disparate! Que queres dizer com isso?

Sabes qual é a especialidade dos economistas especulativos, os que trabalham para a banca, para a bolsa, para as instituições financeiras, os das escolas de economia das grandes cidades.

Então... é aumentar os lucros dos seus patrões... como todos os empregados...

Sim, como todos; só que no caso deles, não havendo lugar à produção de riqueza, o enriquecimento dos seus patrões implica...  O Hans abriu a boca e os olhos e fez sinal com as mãos a convidar-me a acabar a frase.

Implica... se os seus patrões enriquecem e a riqueza não aumenta... alguém empobrece.

Isso! O empobrecimento da sociedade é o parâmetro que mede a eficiência da actividade especulativa. O dinheiro não se evapora e cria-se muito lentamente, para os seus patrões ficarem mais ricos ao ritmo que desejam, o resto da sociedade fica mais pobre. A princípio, a actividade especulativa tinha pouco peso em relação ao crescimento de riqueza da sociedade, mas hoje já não é assim. Esses economistas são especialistas no empobrecimento. Através dos processos especulativos, o enriquecimento dos seus patrões fica independente do crescimento do PIB, é por isso que a taxa de enriquecimento destas actividades é há muito superior a 30% ao ano. A sua cabeça está sempre a inventar processos de empobrecer a sociedade, de fazer crescer a desigualdade. São cientistas do empobrecimento.

Ainda recentemente, lembrei-me, inventaram um “cartão de débito diferido”, que introduziram sub-repticiamente no mercado, cuja finalidade é cobrarem mais aos comerciantes e ainda fazer as pessoas pensarem que têm um saldo à ordem maior do que o real, o que pode originar saldo negativo para os bancos cobrarem juros a descoberto.

O Hans assentiu. Estão sempre a inventar esquemas; a sua cabeça está formatada para empobrecer os outros. São os maiores especialistas do mundo na predação. E, como grandes especialistas que são, têm processos que nem imaginas, esse teu exemplo do cartão de débito diferido é só uma gracinha ao pé das coisas que eles fazem.

Estou a perceber onde queres chegar....

Talvez ainda não; ouve-me mais um bocadinho

(continua)

terça-feira, setembro 11, 2012

Existe um buraco negro no Deutsche??

(continuação)


Lentamente, direi mesmo a custo, voltei a pousar o olhar no Hans; ele recomeçou:

Como sabes, a actividade da banca dita de investimento gerou lucros superiores a 30% ao ano durante muitos anos; às vezes superior a 50%. Estes lucros não resultaram de nenhuma produção de riqueza, nada foi produzido nestes “investimentos”, estes lucros são o mero resultado de predação da riqueza alheia, ou seja, de “especulação”. Fez uma pausa para verificar se eu estava a par. Tranquilizei-o:

Sim, isso é bem sabido a nível dos economistas; todos os bancos e outras instituições financeiras trataram de entrar nessa actividade na medida das suas possibilidades. Cá, criaram-se dois bancos dedicados quase exclusivamente a isso, o BPN e o BPP.

Disseste uma coisa muito acertada: todos trataram de entrar nessa actividade ao nível das suas possibilidades! Ora quanto maior um banco, maior as suas possibilidades, não é verdade?

Sim… mais recursos financeiros para aplicar, maior pressão para aumentar os lucros, mais capacidade de contratar especialistas para inventarem novos processos especulativos…

Isso mesmo; portanto, os grandes bancos realizaram um imenso investimento especulativo, em produtos que o seu imenso corpo de especialistas foi inventando; e tudo isto em escala tanto maior quanto maior o banco. Uma nova pausa, a pedir para eu concluir o raciocínio. Fiz o que pude:

Queres dizer que quanto maior o banco maior o investimento especulativo… sim, e então? Evitei adiantar-me muito na resposta, quero saber o raciocínio dele

Maior o investimento e maior o corpo de especialistas em especulação, corrigiu-me. As duas coisas são importantes para perceberes o desenrolar dos acontecimentos. Agora, diz-me lá, qual foi a consequência deste enriquecimento tão rápido e sem produção real de riqueza?

Ah, isso é uma coisa que estou farto de tentar explicar aos meus amigos: quando essa predação da riqueza se tornou maior do que a riqueza produzida, a generalidade das pessoas começou a empobrecer; ora essa especulação só funciona enquanto as pessoas têm um horizonte de crescimento de riqueza. Quando as pessoas perceberam que estavam a empobrecer, fugiram desses esquemas e os balões especulativos estoiraram.

Claro, é o que acontece em qualquer esquema de pirâmide, vive da expectativa das pessoas de ganharem por entrar nele. É por isso que se diz que o sistema financeiro assenta na “confiança”, é “fiduciário”; só que não é confiança na honestidade dos processos e agentes, como muita gente pensa, é confiança em que o dinheiro aplicado vai gerar um retorno elevado– confiança em que ao entrar num esquema de pirâmide se vai sair a ganhar. Quando essa confiança desapareceu, as pirâmides estoiraram todas. As pirâmides e os investimentos de risco, foram os dois motores do enriquecimento rápido. Claro que os investimentos de risco dão retorno elevado a princípio mas depois colapsam. Disse, com ar definitivo, e recostou-se; tinha acabado a exposição e eu não estava a perceber onde queria ele chegar, não me tinha dado nenhuma novidade. Atrevi-me:

E …

Ergueu-se. Não estás a perceber? Não é óbvio? Quanto maior o banco, maior o estouro. Essas práticas agora ditas de tóxicas eram as práticas usadas por todos, quem as não usasse não tinha lucros, a banca de retalho rende pouco; e, quanto maior o banco, mais as usava.

Portanto…

Portanto – com ar impaciente - os grandes bancos, o Deutsche, o Barclay’s, estão falidos, falidíssimos! Têm um buraco dum tamanho incomensurável, do tamanho da riqueza especulativa de que se alimentaram durante muitos anos.

De repente, lembrei-me duma conversa que tive há dias com um gerente bancário; além de me explicar como é que eu podia fazer aplicações do capital que ele pensa que eu tenho mas não tenho sem pagar imposto, ou pagando muito pouco, dissera-me que o Deutsche tinha mudado radicalmente o seu perfil de investimento, que agia agora como os bancos em dificuldades, procurando apenas produtos de curto prazo e rendibilidade segura. Dei um sinal de concordância ao Hans e incitei-o a continuar:

E…

E então – como se dissesse algo óbvio - o seu imenso corpo de especialistas teve de encontrar maneira de salvar a situação; e a solução passa pela aposta em novas formas de especulação, pois só algo que permita grandes ganhos no curto prazo pode aguentar esses bancos.

E…

Bem, vamos por partes. A primeira coisa que podes começar já a perceber é que a única coisa que interessa à Alemanha agora é salvar o Deutsche. E depressa, depressinha, antes que o Zé povinho perceba – o Hans, nesta conversa em inglês, disse mesmo “Zé povinho”, o que me deixou boqueaberto. A Alemanha está a executar o plano traçado pelos especialistas em especulação do Deutsche, os matemáticos e outros cientistas pagos a peso de ouro, para salvar o banco; salvar à custa do dinheiro dos outros, naturalmente, não há outra maneira. O objectivo é sacar todo o dinheiro real, que é o dinheiro dos pobres, para tornar real o seu dinheiro especulativo.

Queres dizer que os países do Sul são verdadeiramente patéticos quando se viram para a Alemanha para os ajudar a enfrentar o ataque especulativo às suas dívidas soberanas?

Claro; a Alemanha é o motor desse ataque, delineado pelos seus especialistas. E o objetivo desse ataque é o empobrecimento dos povos, e rápido.

Estás a dizer que não podemos ter nenhumas esperanças que sejam tomadas medidas da parte do BCE ou da Alemanha no sentido de controlarem esse ataque?

Claro que não!!! Eles nem enganam, declaram mesmo que o que estão a fazer é empobrecer os povos. Empobrecer os pobres para que os ricos não abram falência. Vocês entrarem em recessão não é um falhanço da Troika, é um objetivo atingido; ou pensas que eles são tão estúpidos que não sabem aquilo que toda a gente sabe, que estas medidas implicam recessão e aumento do déficit, aumento do desemprego?

Sim, claro…

Legitimam esse empobrecimento com o argumento de que sem os ricos a sociedade inteira colapsa e por isso eles até estão a salvar toda a gente ao empobrecer os pobres e a classe média! Só que eles não estão a empobrecer toda a gente por igual, estão a empobrecer por baixo, é claro.

Isso é óbvio no caso de Portugal onde, ao contrário dos outros países, só existem medidas para empobrecimento do povo, nem uma medida reestruturante ou que afete os mais ricos.

E não é por acaso, como verás. Além de que os líderes alemães querem ganhar as suas eleições, por isso espalham a miséria nos outros lados. Vocês vão pagar o buraco do Deutsche. Vocês vão ser explorados até ao último tostão, e depois escravizados. Todos os direitos foram já riscados, como irás vendo, excepto o direito dos ricos à sua propriedade. Esqueçam a semana de trabalho de 5 dias, férias pagas, ordenado mínimo, horários de trabalho, reformas, etc, etc.; vão passar todos a ser pagos à hora (muitos já são) e miseravelmente, porque o poder negocial dos empregados desapareceu. E se as coisas ainda não estão mais graves é porque a Alemanha tem medo do Obama, que anda a investigar o Deutsche; mas se o Obama perder as eleições, vais ver o que acontece.

Sim, já vi qualquer coisa sobre os americanos exigirem investigar o Deutsch a pretexto de alegadas ligações ao Irão… Mas porque é que dizes que Portugal pode ter um papel crítico neste processo?

Bem, tenho de de explicar quais são as 3 formas de especulação. Pede-me aí outra cerveja.

(continua)

PS- este texto relata uma conversa, as opiniões do Hans (nome fictício) são as dele, não as do autor

terça-feira, agosto 21, 2012

O meu amigo alemão




Foi uma surpresa encontrar o Hans na esplanada de Odeceixe; foi ele quem me reconheceu, ser careca tem essa vantagem, não mudamos de cabeça com a idade...
Conheci o Hans há bem uns vinte anos atrás; era engenheiro de uma grande empresa alemã de equipamentos de telecomunicações e metrologia e viera a Portugal por causa de um concurso internacional aberto por uma empresa pública; contactara-me para saber as possibilidades de conseguir incorporação nacional para os seus equipamentos, crendo que isso seria uma vantagem para o concurso. Lá o informei que possibilidade existia, mas que seria um grave erro da parte dele porque os gestores das empresas públicas tinham horror a tudo o que fosse nacional, até porque não faltaria quem os acusasse de corrupção se se atrevessem a adjudicar alguma coisa no mercado nacional. Até as verbas do PEDIP, supostamente destinadas ao desenvolvimento da indústria nacional, eram preferencialmente atribuídas a empresas estrangeiras. Ele não me acreditou e lá lhe dei as informações que pretendia.

Mais tarde, pediu-me desculpa de ter duvidado de mim; contou-me que apresentou a sua proposta de incorporação nacional na primeira reunião de negociação e que a recepção foi tal que na reunião seguinte apresentou um declaração em como nem um parafuso dos seus equipamentos seria montado em Portugal! Disse-me então uma coisa de que nunca mais me esqueci:

 assim, o vosso país vai ao fundo e vão arrastar a Europa com vocês!

E foi exactamente com essa frase que começamos a conversa que se segue, enquanto as respectivas esposas iam apanhar sol para a praia. Tinhas toda a razão, e já várias vezes citei o que me disseste na blogoesfera, disse-lhe eu.

Não, não, esta crise não tem nada a ver com isso; aliás, o vosso primeiro-ministro anterior, o Sócrates, estava a colocar o vosso país no rumo certo. Esta crise é tão má para vocês como para nós.

Senti-me logo irritado; lembrei-me do Cavaco a dizer que também estava sem dinheiro ou do Vale e Azevedo a dizer que vivia da caridade dos amigos. Que mania esta a dos ricos de se vitimizarem. Ele deve ter percebido o meu desagrado porque se apressou a acrescentar:

Agora, pelo contrário, seriam vocês que podiam fazer qualquer coisa para se salvarem e salvarem-nos, a nós e à Europa.

Nós?!? Não pude reprimir o espanto. Como?

Lembro-me, do nosso contacto anterior, de que és uma pessoa lúcida; por isso, deves ter uma ideia do que esteja a causar a crise, não é verdade?

Sim, tenho, mas quero ouvir a tua versão, até porque não estou a ver como é que Portugal pode ter um papel na sua resolução, respondi-lhe, cauteloso, enquanto o olhar se distraía nas duas vistosas loiras que tinham acabado de chegar à esplanada

Já vais perceber. Deixa lá as loiras e presta atenção ao que te vou dizer.

(continua)


sábado, julho 28, 2012

Política de Terra Queimada


The burning of Troy


Há alguns anos, tornou-se público na Dinamarca o plano da NATO em caso de tentativa de invasão Russa; segundo esse plano, alguns países, nomeadamente a Dinamarca, seriam “terra queimada”. Plano muito “lógico”, havia que defender o coração da Europa, portanto destruía-se a periferia para estabelecer uma terra de ninguém onde fosse mais fácil combater os russos e proteger os cidadãos do coração. Estranhamente, os Dinamarqueses não gostaram nada do plano.

A Europa, e não só, embarcou numa perigosa e desajustada teoria económica (de que falarei noutro texto), de uma particular escola. Em consequência, os grandes bancos europeus, nomeadamente o Barclay’s e o Deutshe, devem ter um buraco financeiro de dimensão apocalíptica. Isto pode parecer surpreendente mas não é, o buraco não é decorrente de “incompetência” ou “corrupção” mas a necessária consequência da referida teoria económica. Quanto maior o banco, maior o buraco.

Qual é a estratégia para resolver esta situação?

A mesma de sempre: sacrificar a periferia.

A política de “empobrecimento” não é para os funcionários públicos, ou para os portugueses empregados, é para toda a periferia europeia. Na verdade, o buraco central será tão grande que o “empobrecimento” é para toda a Europa à excepção da Alemanha e da Inglaterra. A ideia é sacar todo o dinheiro que seja possível sacar para tapar esse buraco. A política de empobrecimento é apenas um nome para uma política de terra queimada, que vai abranger toda a gente com atividade nos países envolvidos, ricos ou pobres.

A medida mais recente é recusar um mecanismo de suporte aos depósitos bancários; isto é um convite aos depositantes para correrem para esses dois bancos, vistos como “sólidos”. Na verdade, é uma armadilha: um banco pequeno pode ser muito mais seguro do que um grande porque está muito menos envolvido nas práticas financeiras agora ditas de risco – basta que saiba gerir a bolha imobiliária com inteligência, o ponto frágil dos bancos pequenos.

(um banco cujo presidente atribui o mau momento à Constituição Portuguesa não dá garantias de uma gestão inteligente; um gestor para a crise tem de ter um entendimento oposto aos gestores que conduziram a ela e que agora só sabem encontrar culpados em todo o lado menos neles – ele é o Sócrates, ele é a Constituição, ele é...)

Até ao fim deste ano vamos decidir o nosso futuro. Por acção ou omissão.

segunda-feira, julho 16, 2012

Porque é que empobrecemos na era da abundância?



No ocidente, vivemos na era da abundância; o que limita esta abundância é apenas a capacidade de consumo, porque podemos produzir muito mais sem qualquer dificuldade; sendo assim, como é que ainda há tanta pobreza no mundo ocidental e, pior do que isso, porque estamos num processo de empobrecimento?

Um exemplo que me parece excelente para compreendermos como evolui o sistema liberal é o caso dos supermercados.

Como é que os supermercados maximizam o lucro? Vendendo o máximo e com a margem de lucro máxima, lógico.
O que é que limita o volume de vendas? O preço de venda.
O que é que limita a margem de lucro? A possibilidade dos produtores terem circuitos alternativos de distribuição.
Então, como é que se maximiza o lucro?

A solução de médio prazo é a seguinte: baixar continuamente o preço de venda.

Parece um absurdo, não é? Mas vejam como funciona. 
Baixar o preço de venda tem uma influência positiva no volume de vendas; porém, degrada a margem de lucro. A seguir, baixa-se o preço que se oferece ao produtor. Como o preço de mercado é o definido pelo supermercado, as mercearias de bairro têm de o seguir e o produtor não tem alternativa. Então, o produtor procura aumentar a eficiência e baixar os seus custos – vai buscar trabalhadores à Tailândia ou à Argélia, pressiona os fornecedores de adubos e rações para pagar menos. Assim, os supermercados recuperam a margem de lucro, que usam para continuar a baixar os preços. Este processo tem uma consequência positiva – aumento de eficiência – e uma negativa – empobrecimento do lado de baixo da cadeia produtiva.

Na atual situação de crise, em que há empobrecimento da maioria dos clientes, para manter o volume de vendas os supermercados tiveram de fazer um corte muito grande nos preços. Não tem problema, a seguir os produtores vão ter de lhes vender mais barato ou não vendem.

Os consumidores acham ótimo que assim seja, porque pagam menos pelos produtos (exceto se também forem produtores).

Este processo é geral, a competição gera necessariamente este fenómeno.

Os governos, porém, são eleitos para melhorarem a qualidade de vida das pessoas. Precisam de contrariar este processo. Mas, incapazes de uma solução sistémica, o que fazem é tratar os sintomas: subsidiam as pessoas. Subsidiam a saúde, a educação, os transportes. Com isto, as pessoas precisam de menos dinheiro para viver, os empresários podem pagar menos ordenado. Mas a competição não tem limite. Então os estados subsidiam mais: subsidiam o desemprego, subsidiam os períodos de menor atividade das empresas (em França), subsidiam os produtores (PAC). Mas não chega. Então começam a subsidiar o emprego, com os incentivos ao primeiro emprego. Os empresários passam a só ter de pagar uma parte dos ordenados. Mas não chega. Passam a subsidiar os empresários para criarem emprego, dar emprego passa a ser uma actividade geradora de lucros – por exemplo, o Estado paga estágios profissionais a 690 euros, os empresários contratam licenciados a 490 euros e lucram 200 euros com cada um. Licenciados com experiência, não se trata de um custo de formação.

Teoricamente, com estes apoios, as empresas ficariam mais competitivas, teriam lucros, e a estes lucros ia o Estado buscar o dinheiro para os subsídios. Só que não é verdade, neste esquema competitivo só tem lucros quem está o topo da pirâmide, os grandes grupos financeiros, os super-ricos – e estes não pagam impostos.

Os países da europa do Norte estão na metade superior desta cadeia; nós na inferior. Não é por acaso, nem é apenas porque têm mais formação, é porque eles sempre defenderam os seus interesses a todo o transe, desse por onde desse, independentemente de quaisquer teorias académicas. Eles vivem na economia real, não na dos académicos, como cá. 
Quem está no meio desta cadeia não entende porque há-de estar a pagar para subsidiar os que estão na base. Esses gulosos que querem viver acima das suas posses. Por isso, há que acabar com o “Estado Social”. E assim as pessoas da base (nós) vão ter de viver do ar. E eles ameaçam: se não gostam vamos buscar empregados à Nigéria. África e Ásia são fornecedores infindáveis de escravos porque não têm controle de natalidade.

À nossa frente está um interminável processo de empobrecimento. Miséria absoluta. Não haja ilusões. A mesma miséria a que nós temos condenado uma parte significativa da população portuguesa. Os Alemães não são piores do que nós, são até melhores. Só que agora vamos ficar no papel em que andamos a pôr muitos portugueses desde há muitos anos. Agora vamos todos para o bairro da lata.

Mas há solução. Há sempre solução. 

domingo, julho 01, 2012

O Mistério Português



Na última cimeira europeia o impossível aconteceu: o BCE (tanto quanto percebi) vai financiar as dívidas soberanas através do fundo de resgate. A pedra de toque de todo este processo de destruição dos Estados caiu. Como foi isto possível?

Toda a evolução das sociedades humanas, os diferentes sistemas políticos, as leis, as regras, praticamente toda a estrutura da sociedade humana, decorre de uma única coisa: o poder negocial dos interesses em jogo.

O Poder Negocial é a Grande Lei da Sociedade, tudo o resto é consequência desta lei.



Por exemplo, foi o movimento sindical que deu poder negocial aos trabalhadores e lhes permitiu acordos que foram fixados em Leis, garantidas pelo Estado.

Na última cimeira, França, Espanha e Itália uniram-se e obtiveram um poder negocial superior ao da Alemanha; e assim conseguiram o que queriam. E o que queriam eles? Salvar os Estados; porque a destruição dos Estados é o objectivo dos “ricos”, pois já não precisam deles, quem precisa deles é sobretudo a classe média porque já não tem sindicatos, já não tem organização, já não tem poder negocial, não tem outro poder que não seja o que vem do Estado; e a classe mais pobre já pouco tem a perder com o fim do Estado.

Há várias maneiras de ter poder negocial; uma é pela força bruta, “pelo número de espingardas”, que foi o que aconteceu nesta cimeira; a outra é sendo “um grão na engrenagem”, que foi o que fizeram os gregos; outra ainda é ameaçar causar algum prejuízo porque, na sociedade humana como na selva, raramente alguém está disposto a ficar ferido para matar o outro, que foi o que tentou fazer o Sócrates, à mistura com algum bluff (mal sucedido, pois a fragilidade da sua situação condenava à partida qualquer possibilidade de sucesso negocial).

E nós agora? Como é evidente, Portugal não só não negoceia como, pelo contrário, o governo agrava unilateralmente as exigências da outra parte; que estratégia é esta, que merece o apoio dos portugueses dado que não há contestação significativa nem quebra nas intenções de voto? Nem sequer o líder da oposição contesta a não ser com palavras de circunstância e vazias de consequências? Que mistério é este?

(continua)

sexta-feira, junho 22, 2012

O Monstro devora-se


achei esta imagem genial.. tirei daqui


A economia neoliberal é um ser autónomo, programado para buscar o enriquecimento; enriquecer ou morrer, esse é o lema dele. Enquanto é pequenino, é um encanto, toda a gente gosta do seu ar maroto, divertido, sempre ocupado a amealhar; muito travesso, é preciso que os pais estejam sempre de olho nele. Mas sem dúvida que enquanto pequenino dá outra vida e alegria à casa.

Mas ele cresce.
Cresce sempre.

E assim, o encantador e promissor ser torna-se um Monstro. Um Monstro insaciável que precisa de crescer continuamente ou morre, assim foi concebido este ser. Mas tem pai que é cego e para os seus pais o Monstro continua a ser o seu menino querido de sempre. Faz dos pais o que quer e eles em tudo o apoiam.

Lança a sua voracidade para fora da casa onde nasceu, porta onde conseguir entrar tudo devora. As outras casas são primeiro apanhadas na conversa encantatória do Monstro; até que a primeira lhe bate com a porta e logo as outras começam a perceber o perigo e, uma a uma, fecham a porta ao Monstro. Não sabem que o Monstro deixou lá a sua semente, em breve novos monstrinhos surgirão nessas casas; mas, por agora, a sua preocupação é manter longe o Monstro.

O Monstro está com um problema; para continuar a crescer, a existir afinal, porque se não cresce morre, tem de se alimentar do recheio da sua própria casa.
E assim o Monstro começou a autodevorar-se; está a devorar a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, já começou a petiscar a Itália.

Os pais do Monstro, cegos como todos os pais, não vêm problema nenhum nisso, nada a criticar ao seu “menino”: a autofagia é uma prática sanitária, dizem, as células praticam-na regularmente para se livrarem dos resíduos da sua actividade. Está tudo bem. O seu monstrinho está apenas a devorar o Lixo.

E o Monstro, para o qual tudo é lixo menos a sua boca, come, come-se...

quinta-feira, junho 07, 2012

Os ultraliberais são como os nazis das SS


fiquem com este texto que eu vou andar de bicicleta (imagem tirada daqui)


O quadro a que conduz a economia ultraliberal é bem claro. É como no futebol: entre os muitos jogadores de futebol profissional portugueses, há uns poucos que ganham muitíssimo (e jogam no estrangeiro), mais uns pouquinhos que ganham menos mal e a esmagadora maioria, talvez mais de 80 ou 90%, ganha miseravelmente. Contrariamente ao que se possa pensar, não há nada tão igualizador como o ultraliberalismo, que tende a gerar 1% de privilegiados e 99% de miseráveis.

Mas o futebol não são só os jogadores, há os presidentes e donos dos clubes, alguns são eleitos e é aqui que há uma enorme diferença: a sociedade da economia ultraliberal é uma sociedade de castas. Há a casta dominante e depois a maralha em competição. Esta maralha ganha o mínimo possível – mesmo o Cristiano Ronaldo ganha o mínimo que o Real Madrid teve de pagar para o ter. Qual é o mínimo que o patrão do leitor precisa de pagar para o contratar? Vá fazendo as contas... Se não pertence ao lote dos 1% melhores, ficará no lote dos restantes, e os restantes vão estar dispostos a trabalhar por uma sopa.

O que resulta desta economia ultraliberal é uma massa de escravos e miseráveis. Para estes economistas, como a Lagarde já o disse, não há razão nenhuma para um grego – ou um português – ganhar mais do que um nigeriano. E não há razão porque ambos pertencem ao “povo”, não pertencem ou estão ao serviço da casta dominante, como a Lagarde ou o António Borges ou o Constâncio.

O que tem travado este caminhar para a escravatura são as ideias do Estado Social e a força organizada dos trabalhadores que, entre outras coisas, impuseram ordenados mínimos. A classe média na Europa consegue ganhar actualmente uns 50 a 100% mais do que o ordenado mínimo. Se ganham o que ganham, é porque o ordenado mínimo é o que é.

Mas a economia ultraliberal não quer saber de ordenados mínimos e nem pensar em Estado Social. O objectivo não é uma sociedade melhor, é separar águas, isolar a casta dominante do povão.

É por isso que é preciso acabar com o “Estado Social”, cujo fim o director do BCE já declarou. Sonham com o fim do Estado Social. Sem o Estado Social, só os ricos terão acesso a educação de qualidade e a condições de vida que permitam garantir aos seus filhos um mínimo de condições de sucesso. Sem o Estado Social, a sociedade de castas fica definitivamente estabelecida. Voilà!

É por isso que os ricos e seus servidores não pagam impostos – nem a Lagarde paga impostos. Não pagam porque o Estado é para servir os interesses do povo, não deles, logo, o povo que o pague. A única coisa que os ricos precisam é de uma polícia para manter o povo controlado.

Não se pense, porém, que isto é uma novidade, algo que está a acontecer pela primeira vez. Nada disso, isto já vem do fundo dos tempos e do fundo da natureza humana. Foi por causa disto que se fizeram as guerras mundiais do século passado. Na altura, o argumento encontrado pelos economistas de serviço foi o de que não havia “espaço vital” para toda a gente, logo, as “raças superiores” tinham de dominar as outras por direito genético e exterminar os que não fossem domináveis, como ciganos, judeus e comunistas. As guerras mundiais nasceram do mesmo tipo de ideias “económicas” que dominam agora a Europa. Ideias ao serviço de um único objectivo: a defesa da casta superior. É por isso que o comunismo foi tão violentamente combatido e denegrido. Mas agora que o muro de Berlim caiu, que a ameaça para as castas superiores que o comunismo representava desapareceu, eis que essas castas ficaram livres para estabelecer a escravatura. De novo!

(note o leitor que eu não sou comunista; o modelo de sociedade que prefiro, dos que conheço, é o dinamarquês)

O nosso governo vai reduzir a saúde pública ao indispensável dos indispensáveis. Irá degradar o ensino público. Aumentará as cadeias e as polícias. E claro que vai baixar os ordenados. A garantia de que os ordenados vão baixar já foi “dada” por Passos Coelho – ele tem muito azar, sempre que garante uma coisa, acontece o contrário... O Estado deixará de ter quadros de médicos, enfermeiros, professores, etc – passa tudo a ser contratado a empresas de trabalho temporário. E baixando os ordenados do Estado, baixam todos.

Então a classe média queria ordenados europeus num país onde o ordenado mínimo é menos de 1/3 de outros países??? Se o ordenado mínimo é 500 euros, o das classes médias não deve passar dos 750 euros – por agora, porque a seguir este ordenado mínimo acabará e descerá até à sopa. Claro que os ordenados têm de descer!!! São as “leis do mercado”!

É que economia ultraliberal nivela por baixo. Quando cada um trata dos seus interesses, todos perdem para o mais forte. Óbvio.

Mas notem que em Portugal sempre foi assim; a única coisa que mudou para nós foi a escala – até ao 25 de Abril, ser licenciado em Portugal era pertencer ao 1% mais; hoje, ser português é pertencer aos 99% menos. A desigualdade sempre foi o nosso timbre, é por isso que temos 40% de abandono escolar – que significa que 40% das crianças têm condições de vida miseráveis. Contra isso, ninguém se indignou; mas indignaram-se com as medidas para melhorar essa situação. A escolha agora é bem clara: ou queremos a economia de mercado à escala europeia ou queremos um Estado Social; mas têm de decidir já porque quando forem escravos já não decidem nada. E isto vai piorar muito porque baixar os ordenados nada vai resolver, o desemprego vai crescer imparavelmente (calculo que  é preciso menos de uns 20% da população para produzir tudo o que se consome actualmente, e quanto mais baixos os ordenados, menos se consome) e em breve estarão soluções de extermínio em cima da mesa (disfarçadas, é claro).

(um último pensamento: eu apostava que o Deutsche Bank, ou o Barclays, devem ter uns buraquitos do tamanho da dívida soberana portuguesa; o que irá acontecer quando isso vier a lume?)

sábado, maio 26, 2012

O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 2



(continuado)

A Regulação é imprescindível


 (imagem daqui)

Vimos que uma economia de competição tende (na ausência de regulação), como qualquer competição pura, a terminar-se; e “terminar”, no caso desta economia, significa chegar a um estado em que uns poucos controlam toda a riqueza produzida e os outros subsistem no limiar de sobrevivência – que é o estado em que a sociedade humana tem existido a maior parte do tempo desde que deixou a organização tribal. A este estado terminal chamo “escravatura”. Neste estado, a sociedade já não se desenvolve e a única forma dos ricos continuarem a enriquecer é através da luta entre eles – o mais forte conquista a riqueza do mais fraco (esta conquista pode ser feita pela força das armas ou pelas regras do mercado, é para isso, em parte, que umas e outras são como são).

Vimos também, como é evidente, que uma condição necessária ao sucesso deste sistema económico é que ele origine o enriquecimento de toda a população, mesmo que desigual – ou seja, o crescimento absoluto da riqueza dos mais ricos tem de ser inferior ao crescimento absoluto da riqueza total porque o contrário implica o empobrecimento de parte da população.

Uma característica do crescimento económico que se pode intuir dos dados existentes é que a taxa de crescimento parece ser inversamente proporcional à desigualdade; este fenómeno torna, a partir de certo valor da desigualdade, explosivo o empobrecimento de parte crescente da sociedade, e conduz rapidamente à situação terminal, ou seja, à escravatura.

Ter estas 3 características dum sistema económico de competição bem presentes é muito importante.

Portanto, um sistema económico de competição não se auto-regula; ele carece de um sistema político que exerça efectivamente essa regulação ou tende fatalmente para a escravatura ou para uma revolução, militar ou popular.

Esta regulação pode ser feita admitindo maior ou menor desigualdade; ou seja, mais regulação para conseguir menor desigualdade, ou então reduzir a regulação para aumentar a desigualdade. Não se presuma que existe um ponto ótimo de equilíbrio – os sistemas activos nunca têm um equilíbrio estático, o equilíbrio é sempre dinâmico, ou seja, é um estado oscilatório de amplitude controlada.

Num sistema democrático, é o voto dos eleitores que decide isto, através de dois partidos políticos, em que ambos se comprometem com as medidas comuns (combate à corrupção, legislação clara, justiça eficiente) mas um aplica as medidas de alargamento e reequilíbrio da competição (regulação) e o outro as destrói; os eleitores escolhem um ou outro dos partidos para governar consoante sentem que lhes convém mais o reforço da componente competitiva ou da equilibrante. Esses dois partidos são os partidos ditos do “centro”, o da componente competitiva é o do “centro-direita” e o da componente equilibrante é o do “centro-esquerda”. No caso americano, são os Republicanos e os Democratas; no caso português são o PSD e o PS. Ambos estes partidos defendem o sistema competitivo da economia mas têm papéis opostos na sua regulação. O ponto de equilíbrio que definem pode situar-se mais à direita, como acontece em nos EUA, ou mais à esquerda, como acontece na Dinamarca. Note-se que a função dos partidos não é meramente económica e a organização da sociedade não se resume à Economia, mas é apenas disso que me ocupo agora.

Os partidos ditos da extrema, direita ou esquerda, são contra o sistema competitivo na economia e é por isso que afirmam que os partidos do centro são apenas duas faces do mesmo.

O problema maior da regulação é que os governantes tendem a acabar reféns dos mais ricos e deixarem de fazer a regulação do sistema; daí a necessidade de inventar um poder “incorruptível” acima dos partidos, como um monarca ou um presidente, ou de desenvolver sistemas de fiscalização da acção dos governantes; mas estes sistemas também acabam reféns, propriedade, dos mais ricos, como acontece com os media. Actualmente, há a esperança de que a internet, associada ao aumento do conhecimento das pessoas, possa constituir um sistema de fiscalização robusto (razão pela qual é alvo de ataques como este; qualquer dia, até os comentários do tripadvisor serão proibidos...)

Quando se iniciou a globalização económica, as medidas de controlo do enriquecimento dos mais ricos deixaram de poder ser aplicadas porque o espaço económico transcendeu o espaço político – impedir uma empresa nacional de crescer demasiado seria limitar a sua capacidade competitiva a nível mundial. Instalou-se a desregulação. Isto abriu portas à especulação financeira – os capitais deixaram de “ter pátria”, fugiram aos impostos e a todos os mecanismos de controlo. O desequilíbrio disparou e grande parte das pessoas deixou de enriquecer. A regulação da economia “foi-se”.

 As pessoas votaram “à esquerda” onde isso estava a suceder – EUA e nos países do sul da Europa. Porém, controlar o crescimento da desigualdade num quadro em que a economia ultrapassa a política é impossível. Nos EUA esse controlo nunca foi totalmente perdido, mas nos países da Europa foi; por isso, os governos de esquerda nos países do Sul da Europa, apesar de tomarem algumas medidas correctas, apenas conseguiram atrasar um pouco o agravar da situação. Os eleitores votaram então à direita e abriram a porta à catástrofe, porque a receita da direita é a desregulação, o aumento da desigualdade – exactamente o oposto do que precisam os países mais pobres. Isso é bom porque como não há inteligência suficiente para entender o processo económico, porque somos ignorantes, egoístas e gananciosos, dependemos de sofrer na pele as consequências dessa ignorância e desse egoísmo para percebermos porque é que temos de agir doutra maneira – e quanto mais depressa o erro se tornar claro, mais depressa se poderá corrigi-lo.

Entretanto, em todo o mundo se fecham agora as portas à globalização. Quem não quiser uma sociedade de escravos tem de repor rapidamente a regulação da Economia, submetê-la à política e não o contrário. O sábio Obama comanda, as recentes nacionalizações na América do Sul terão o seu dedo. Todas as potências emergentes têm ferozes políticas de proteção das actividades nacionais, mais fortes do que alguma vez existiram, como a obrigatoriedade de capitais nacionais para todas as empresas que queiram operar no seu país e a aplicação de taxas alfandegárias elevadíssimas; e até o barramento de acesso a conteúdos nacionais na net a partir do estrangeiro (?!). E na Europa?

quarta-feira, maio 09, 2012

O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 1


Uma coisa que nos caracteriza é o nosso instinto competitivo; estamos sempre prontos para competir seja em que área for; somos uma espécie de galos de combate.

Enquanto acharmos que podemos ganhar, competimos. É por isso que não dispensamos os joguinhos de computador. Competimos nos jogos e competimos em tudo o que tem a ver com a vida: competimos para sermos o mais popular, competimos pelo emprego, para sermos ricos, para ter o parceiro (a) mais interessante, o carro melhor, a casa mais agradável, etc. Claro que cada um de nós não anda a competir em todas as frentes, mas há sempre uma ou outra em que concentramos a nossa competitividade. A “boa educação” é, em parte, sabermos controlar as nossas reacções competitivas fora de contexto.

Eu distingo dois tipos de competição: a primária, que visa o nosso exclusivo interesse, e a secundária, que serve também os interesses dos outros – exemplo desta segunda é o desejo de ser o mais útil, de contribuir para a máxima felicidade do nosso parceiro (a), etc.

O desporto é uma criação humana que representa o quadro mais perfeito de competição primária que conseguimos conceber. E esse quadro tem uma característica fundamental: está organizado de tal maneira que todos os competidores (os atletas) tenham, em princípio, as mesmas possibilidades de ganhar. Isso reflete-se, por exemplo, no facto de o desporto estar dividido por níveis, idades, sexo e, nalgumas modalidades, por peso.

Uma modalidade é o futebol profissional; ora bem, neste quadro de competição definido com tantos cuidados de igualdade, o que acontece? Acontece que se estabelece uma enorme desigualdade naquilo que os jogadores ganham: tal como na economia a que pertencemos, o 1% dos jogadores mais bem pagos arrecadam uma fatia enorme das receitas totais do futebol; e uma fatia cada vez maior.

Apesar das abissais diferenças de salários, um clube mais pobre pode ainda ganhar uns joguitos a clubes maiores – a razão é que a diferença de qualidade em valor absoluto é pequena. A diferença de ordenados é que é enorme porque não interessa quanto vale a diferença de um jogador para outro em valor absoluto mas apenas em valor relativo – o jogador que pertence ao lote dos 1% melhores adquire uma imensa cotação de mercado e vale imenso dinheiro porque há muito dinheiro no mundo actual e essa pequena diferença que ele dá à sua equipa permite a esta ganhar imenso dinheiro.

Esta é uma característica incontornável de um sistema de competição primário: as pequenas vantagens pagam-se a peso de ouro e a desigualdade na distribuição das recompensas cresce sempre.

Sendo os recursos limitados, esta tendência dos sistemas competitivos faria desaparecer os mais fracos, ou seja, os clubes mais pequenos; só que o futebol não pode reduzir-se aos 3 ou 4 maiores, não é verdade? Contra quem jogariam eles? Então, o sistema de futebol tem de manter os clubes pequenos e por isso tem de ter um sistema de redistribuição de receitas que os aguente ou acaba-se o futebol.

Um sistema competitivo primário tende para um vencedor que elimina todos os outros. Aplica-se-lhe a frase do filme Duelo Imortal (Highlander): “no final só pode haver um”. Para manter indefinidamente um sistema assim, só há duas maneiras: ou o “jogo” recomeça sempre que chega ao fim ou existem mecanismos que beneficiam os que ficam para trás e vão reequilibrando a competição.

Vejamos agora a Economia
.
O objectivo da Economia é maximizar a produção de riqueza; a solução capitalista é o uso da competição. No entanto, como já se viu, esta competição tem de ser regulada para que não se termine.

Consideremos o caso dos fabricantes de automóveis – dos inúmeros que existiam há meio século, hoje o número de fabricantes independentes conta-se pelos dedos (embora cada um deles apresente várias marcas) e, deixando as regras da competição pura funcionar, num futuro não muito distante existirá um único dono de toda a indústria automóvel (será, provavelmente, um grupo chinês...). Ora a competição findava-se nesta altura e isso não pode acontecer. Portanto, a Economia tem de contemplar mecanismos que impeçam o fim da competição e isso é basicamente, por um lado, estimular o aparecimento de novos competidores e, por outro, limitar o crescimento dos maiores, nomeadamente impedindo aquisições, fusões, cartelizações e mesmo cindindo empresas. É necessário, portanto, uma acção de regulação. Saber quanta regulação aplicar é que não é fácil – se esta for excessiva, abafa a competição e diminui a produção de riqueza; se for de menos, dispara a desigualdade e cai-se na situação do futebol em que os clubes pequenos abririam falência e os grandes deixavam de ter contra quem jogar. Como equilibrar a regulação com a desregulação?

Isso poderia ser feito “científicamente”, para isso existem múltiplos índices que permitem saber em que direção actuar. Porém, definir o ponto de equilíbrio é um assunto político; e como se resolve isso por via política?

(continua)