terça-feira, setembro 11, 2012
Existe um buraco negro no Deutsche??
(continuação)
Lentamente, direi
mesmo a custo, voltei a pousar o olhar no Hans; ele recomeçou:
Como sabes, a
actividade da banca dita de investimento gerou lucros superiores a 30% ao ano
durante muitos anos; às vezes superior a 50%. Estes lucros não resultaram de
nenhuma produção de riqueza, nada foi produzido nestes “investimentos”, estes
lucros são o mero resultado de predação da riqueza alheia, ou seja, de
“especulação”. Fez uma pausa para verificar se eu estava a par. Tranquilizei-o:
Sim, isso é bem
sabido a nível dos economistas; todos os bancos e outras instituições
financeiras trataram de entrar nessa actividade na medida das suas
possibilidades. Cá, criaram-se dois bancos dedicados quase exclusivamente a
isso, o BPN e o BPP.
Disseste uma
coisa muito acertada: todos trataram de entrar nessa actividade ao nível das
suas possibilidades! Ora quanto maior um banco, maior as suas possibilidades,
não é verdade?
Sim… mais
recursos financeiros para aplicar, maior pressão para aumentar os lucros, mais
capacidade de contratar especialistas para inventarem novos processos
especulativos…
Isso mesmo;
portanto, os grandes bancos realizaram um imenso investimento especulativo, em
produtos que o seu imenso corpo de especialistas foi inventando; e tudo isto em
escala tanto maior quanto maior o banco. Uma nova pausa, a pedir para eu
concluir o raciocínio. Fiz o que pude:
Queres dizer que
quanto maior o banco maior o investimento especulativo… sim, e então? Evitei
adiantar-me muito na resposta, quero saber o raciocínio dele
Maior o
investimento e maior o corpo de especialistas em especulação, corrigiu-me. As
duas coisas são importantes para perceberes o desenrolar dos acontecimentos.
Agora, diz-me lá, qual foi a consequência deste enriquecimento tão rápido e sem
produção real de riqueza?
Ah, isso é uma coisa
que estou farto de tentar explicar aos meus amigos: quando essa predação da
riqueza se tornou maior do que a riqueza produzida, a generalidade das pessoas
começou a empobrecer; ora essa especulação só funciona enquanto as pessoas têm
um horizonte de crescimento de riqueza. Quando as pessoas perceberam que
estavam a empobrecer, fugiram desses esquemas e os balões especulativos
estoiraram.
Claro, é o que
acontece em qualquer esquema de pirâmide, vive da expectativa das pessoas de
ganharem por entrar nele. É por isso que se diz que o sistema financeiro
assenta na “confiança”, é “fiduciário”; só que não é confiança na honestidade
dos processos e agentes, como muita gente pensa, é confiança em que o dinheiro
aplicado vai gerar um retorno elevado– confiança em que ao entrar num esquema
de pirâmide se vai sair a ganhar. Quando essa confiança desapareceu, as
pirâmides estoiraram todas. As pirâmides e os investimentos de risco, foram os
dois motores do enriquecimento rápido. Claro que os investimentos de risco dão
retorno elevado a princípio mas depois colapsam. Disse, com ar definitivo, e
recostou-se; tinha acabado a exposição e eu não estava a perceber onde queria
ele chegar, não me tinha dado nenhuma novidade. Atrevi-me:
E …
Ergueu-se. Não
estás a perceber? Não é óbvio? Quanto maior o banco, maior o estouro. Essas
práticas agora ditas de tóxicas eram as práticas usadas por todos, quem as não
usasse não tinha lucros, a banca de retalho rende pouco; e, quanto maior o
banco, mais as usava.
Portanto…
Portanto – com ar
impaciente - os grandes bancos, o Deutsche, o Barclay’s, estão falidos,
falidíssimos! Têm um buraco dum tamanho incomensurável, do tamanho da riqueza
especulativa de que se alimentaram durante muitos anos.
De repente,
lembrei-me duma conversa que tive há dias com um gerente bancário; além de me
explicar como é que eu podia fazer aplicações do capital que ele pensa que eu
tenho mas não tenho sem pagar imposto, ou pagando muito pouco, dissera-me que o
Deutsche tinha mudado radicalmente o seu perfil de investimento, que agia agora
como os bancos em dificuldades, procurando apenas produtos de curto prazo e
rendibilidade segura. Dei um sinal de concordância ao Hans e incitei-o a
continuar:
E…
E então – como se
dissesse algo óbvio - o seu imenso corpo de especialistas teve de encontrar
maneira de salvar a situação; e a solução passa pela aposta em novas formas de
especulação, pois só algo que permita grandes ganhos no curto prazo pode
aguentar esses bancos.
E…
Bem, vamos por
partes. A primeira coisa que podes começar já a perceber é que a única coisa
que interessa à Alemanha agora é salvar o Deutsche. E depressa, depressinha,
antes que o Zé povinho perceba – o Hans, nesta conversa em inglês, disse mesmo
“Zé povinho”, o que me deixou boqueaberto. A Alemanha está a executar o plano
traçado pelos especialistas em especulação do Deutsche, os matemáticos e outros
cientistas pagos a peso de ouro, para salvar o banco; salvar à custa do
dinheiro dos outros, naturalmente, não há outra maneira. O objectivo é sacar todo
o dinheiro real, que é o dinheiro dos pobres, para tornar real o seu dinheiro
especulativo.
Queres dizer que
os países do Sul são verdadeiramente patéticos quando se viram para a Alemanha
para os ajudar a enfrentar o ataque especulativo às suas dívidas soberanas?
Claro; a Alemanha
é o motor desse ataque, delineado pelos seus especialistas. E o objetivo desse
ataque é o empobrecimento dos povos, e rápido.
Estás a dizer que
não podemos ter nenhumas esperanças que sejam tomadas medidas da parte do BCE
ou da Alemanha no sentido de controlarem esse ataque?
Claro que não!!!
Eles nem enganam, declaram mesmo que o que estão a fazer é empobrecer os povos.
Empobrecer os pobres para que os ricos não abram falência. Vocês entrarem em
recessão não é um falhanço da Troika, é um objetivo atingido; ou pensas que
eles são tão estúpidos que não sabem aquilo que toda a gente sabe, que estas
medidas implicam recessão e aumento do déficit, aumento do desemprego?
Sim, claro…
Legitimam esse
empobrecimento com o argumento de que sem os ricos a sociedade inteira colapsa
e por isso eles até estão a salvar toda a gente ao empobrecer os pobres e a
classe média! Só que eles não estão a empobrecer toda a gente por igual, estão
a empobrecer por baixo, é claro.
Isso é óbvio no caso
de Portugal onde, ao contrário dos outros países, só existem medidas para
empobrecimento do povo, nem uma medida reestruturante ou que afete os mais
ricos.
E não é por
acaso, como verás. Além de que os líderes alemães querem ganhar as suas
eleições, por isso espalham a miséria nos outros lados. Vocês vão pagar o
buraco do Deutsche. Vocês vão ser explorados até ao último tostão, e depois
escravizados. Todos os direitos foram já riscados, como irás vendo, excepto o
direito dos ricos à sua propriedade. Esqueçam a semana de trabalho de 5 dias,
férias pagas, ordenado mínimo, horários de trabalho, reformas, etc, etc.; vão
passar todos a ser pagos à hora (muitos já são) e miseravelmente, porque o
poder negocial dos empregados desapareceu. E se as coisas ainda não estão mais
graves é porque a Alemanha tem medo do Obama, que anda a investigar o Deutsche;
mas se o Obama perder as eleições, vais ver o que acontece.
Sim, já vi
qualquer coisa sobre os americanos exigirem investigar o Deutsch a pretexto de
alegadas ligações ao Irão… Mas porque é que dizes que Portugal pode ter um
papel crítico neste processo?
Bem, tenho de de
explicar quais são as 3 formas de especulação. Pede-me aí outra cerveja.
(continua)
PS- este texto relata uma conversa, as opiniões do Hans (nome fictício) são as dele, não as do autor
terça-feira, agosto 21, 2012
O meu amigo alemão
Foi uma surpresa
encontrar o Hans na esplanada de Odeceixe; foi ele quem me reconheceu, ser careca
tem essa vantagem, não mudamos de cabeça com a idade...
Conheci o Hans há
bem uns vinte anos atrás; era engenheiro de uma grande empresa alemã de
equipamentos de telecomunicações e metrologia e viera a Portugal por causa de
um concurso internacional aberto por uma empresa pública; contactara-me para
saber as possibilidades de conseguir incorporação nacional para os seus
equipamentos, crendo que isso seria uma vantagem para o concurso. Lá o informei
que possibilidade existia, mas que seria um grave erro da parte dele porque os
gestores das empresas públicas tinham horror a tudo o que fosse nacional, até
porque não faltaria quem os acusasse de corrupção se se atrevessem a adjudicar
alguma coisa no mercado nacional. Até as verbas do PEDIP, supostamente
destinadas ao desenvolvimento da indústria nacional, eram preferencialmente
atribuídas a empresas estrangeiras. Ele não me acreditou e lá lhe dei as
informações que pretendia.
Mais tarde, pediu-me desculpa de ter duvidado de mim; contou-me que apresentou a sua proposta de incorporação nacional na primeira reunião de
negociação e que a recepção foi tal que na reunião seguinte apresentou um
declaração em como nem um parafuso dos seus equipamentos seria montado em
Portugal! Disse-me então uma coisa de que nunca mais me esqueci:
assim, o vosso país vai ao fundo e vão
arrastar a Europa com vocês!
E foi exactamente
com essa frase que começamos a conversa que se segue, enquanto as respectivas
esposas iam apanhar sol para a praia. Tinhas toda a razão, e já várias vezes citei o que me disseste na blogoesfera, disse-lhe eu.
Não, não, esta
crise não tem nada a ver com isso; aliás, o vosso primeiro-ministro anterior, o
Sócrates, estava a colocar o vosso país no rumo certo. Esta crise é tão má para
vocês como para nós.
Senti-me logo
irritado; lembrei-me do Cavaco a dizer que também estava sem dinheiro ou do
Vale e Azevedo a dizer que vivia da caridade dos amigos. Que mania esta a dos
ricos de se vitimizarem. Ele deve ter percebido o meu desagrado porque se
apressou a acrescentar:
Agora, pelo contrário, seriam vocês que podiam fazer qualquer coisa para se salvarem e
salvarem-nos, a nós e à Europa.
Nós?!? Não pude
reprimir o espanto. Como?
Lembro-me, do
nosso contacto anterior, de que és uma pessoa lúcida; por isso,
deves ter uma ideia do que esteja a causar a crise, não é verdade?
Sim, tenho, mas
quero ouvir a tua versão, até porque não estou a ver como é que Portugal pode
ter um papel na sua resolução, respondi-lhe, cauteloso, enquanto o olhar se
distraía nas duas vistosas loiras que tinham acabado de chegar à esplanada
Já vais perceber.
Deixa lá as loiras e presta atenção ao que te vou dizer.
(continua)
sábado, julho 28, 2012
Política de Terra Queimada
![]() |
| The burning of Troy |
Há alguns anos,
tornou-se público na Dinamarca o plano da NATO em caso de tentativa de invasão
Russa; segundo esse plano, alguns países, nomeadamente a Dinamarca, seriam
“terra queimada”. Plano muito “lógico”, havia que defender o coração da Europa,
portanto destruía-se a periferia para estabelecer uma terra de ninguém onde
fosse mais fácil combater os russos e proteger os cidadãos do coração.
Estranhamente, os Dinamarqueses não gostaram nada do plano.
A Europa, e não
só, embarcou numa perigosa e desajustada teoria económica (de que falarei
noutro texto), de uma particular escola. Em consequência, os grandes bancos
europeus, nomeadamente o Barclay’s e o Deutshe, devem ter um buraco financeiro
de dimensão apocalíptica. Isto pode parecer surpreendente mas não é, o buraco
não é decorrente de “incompetência” ou “corrupção” mas a necessária
consequência da referida teoria económica. Quanto maior o banco, maior o
buraco.
Qual é a
estratégia para resolver esta situação?
A mesma de
sempre: sacrificar a periferia.
A política de
“empobrecimento” não é para os funcionários públicos, ou para os portugueses
empregados, é para toda a periferia europeia. Na verdade, o buraco central será
tão grande que o “empobrecimento” é para toda a Europa à excepção da Alemanha e
da Inglaterra. A ideia é sacar todo o dinheiro que seja possível sacar para
tapar esse buraco. A política de empobrecimento é apenas
um nome para uma política de terra queimada, que vai abranger toda a gente com
atividade nos países envolvidos, ricos ou pobres.
A medida mais
recente é recusar um mecanismo de suporte aos depósitos bancários; isto é um
convite aos depositantes para correrem para esses dois bancos, vistos como
“sólidos”. Na verdade, é uma armadilha: um banco pequeno pode ser muito mais
seguro do que um grande porque está muito menos envolvido nas práticas
financeiras agora ditas de risco – basta que saiba gerir a bolha imobiliária
com inteligência, o ponto frágil dos bancos pequenos.
(um banco cujo
presidente atribui o mau momento à Constituição Portuguesa não dá garantias de
uma gestão inteligente; um gestor para a crise tem de ter um entendimento
oposto aos gestores que conduziram a ela e que agora só sabem encontrar culpados
em todo o lado menos neles – ele é o Sócrates, ele é a Constituição, ele é...)
Até ao fim deste
ano vamos decidir o nosso futuro. Por acção ou omissão.
segunda-feira, julho 16, 2012
Porque é que empobrecemos na era da abundância?
No ocidente,
vivemos na era da abundância; o que limita esta abundância é apenas a
capacidade de consumo, porque podemos produzir muito mais sem qualquer
dificuldade; sendo assim, como é que ainda há tanta pobreza no mundo ocidental
e, pior do que isso, porque estamos num processo de empobrecimento?
Um exemplo que me
parece excelente para compreendermos como evolui o sistema liberal é o caso dos
supermercados.
Como é que os
supermercados maximizam o lucro? Vendendo o máximo e com a margem de lucro máxima,
lógico.
O que é que
limita o volume de vendas? O preço de venda.
O que é que
limita a margem de lucro? A possibilidade dos produtores terem circuitos
alternativos de distribuição.
Então, como é que
se maximiza o lucro?
A solução de
médio prazo é a seguinte: baixar continuamente o preço de venda.
Parece um absurdo, não é? Mas vejam como funciona.
Baixar o preço de
venda tem uma influência positiva no volume de vendas; porém, degrada a margem
de lucro. A seguir, baixa-se o preço que se oferece ao produtor. Como o preço
de mercado é o definido pelo supermercado, as mercearias de bairro têm de o
seguir e o produtor não tem alternativa. Então, o produtor procura aumentar a
eficiência e baixar os seus custos – vai buscar trabalhadores à Tailândia ou à
Argélia, pressiona os fornecedores de adubos e rações para pagar menos. Assim,
os supermercados recuperam a margem de lucro, que usam para continuar a baixar
os preços. Este processo tem uma consequência positiva – aumento de eficiência
– e uma negativa – empobrecimento do lado de baixo da cadeia produtiva.
Na atual situação
de crise, em que há empobrecimento da maioria dos clientes, para manter o
volume de vendas os supermercados tiveram de fazer um corte muito grande nos
preços. Não tem problema, a seguir os produtores vão ter de lhes vender mais
barato ou não vendem.
Os consumidores
acham ótimo que assim seja, porque pagam menos pelos produtos (exceto se também
forem produtores).
Este processo é
geral, a competição gera necessariamente este fenómeno.
Os governos,
porém, são eleitos para melhorarem a qualidade de vida das pessoas. Precisam de
contrariar este processo. Mas, incapazes de uma solução sistémica, o que fazem
é tratar os sintomas: subsidiam as pessoas. Subsidiam a saúde, a educação, os
transportes. Com isto, as pessoas precisam de menos dinheiro para viver, os
empresários podem pagar menos ordenado. Mas a competição não tem limite. Então
os estados subsidiam mais: subsidiam o desemprego, subsidiam os períodos de
menor atividade das empresas (em França), subsidiam os produtores (PAC). Mas
não chega. Então começam a subsidiar o emprego, com os incentivos ao primeiro
emprego. Os empresários passam a só ter de pagar uma parte dos ordenados. Mas
não chega. Passam a subsidiar os empresários para criarem emprego, dar emprego
passa a ser uma actividade geradora de lucros – por exemplo, o Estado paga
estágios profissionais a 690 euros, os empresários contratam licenciados a 490
euros e lucram 200 euros com cada um. Licenciados com experiência, não se trata
de um custo de formação.
Teoricamente, com
estes apoios, as empresas ficariam mais competitivas, teriam lucros, e a estes
lucros ia o Estado buscar o dinheiro para os subsídios. Só que não é verdade,
neste esquema competitivo só tem lucros quem está o topo da pirâmide, os
grandes grupos financeiros, os super-ricos – e estes não pagam impostos.
Os países da
europa do Norte estão na metade superior desta cadeia; nós na inferior. Não é
por acaso, nem é apenas porque têm mais formação, é porque eles sempre
defenderam os seus interesses a todo o transe, desse por onde desse,
independentemente de quaisquer teorias académicas. Eles vivem na economia real,
não na dos académicos, como cá.
Quem está no meio
desta cadeia não entende porque há-de estar a pagar para subsidiar os que estão
na base. Esses gulosos que querem viver acima das suas posses. Por isso, há que
acabar com o “Estado Social”. E assim as pessoas da base (nós) vão ter de viver
do ar. E eles ameaçam: se não gostam vamos buscar empregados à Nigéria. África
e Ásia são fornecedores infindáveis de escravos porque não têm controle de
natalidade.
À nossa frente
está um interminável processo de empobrecimento. Miséria absoluta. Não haja
ilusões. A mesma miséria a que nós temos condenado uma parte significativa da
população portuguesa. Os Alemães não são piores do que nós, são até melhores. Só
que agora vamos ficar no papel em que andamos a pôr muitos portugueses desde há
muitos anos. Agora vamos todos para o bairro da lata.
domingo, julho 01, 2012
O Mistério Português
Na última cimeira
europeia o impossível aconteceu: o BCE (tanto quanto percebi) vai financiar as
dívidas soberanas através do fundo de resgate. A pedra de toque de todo este
processo de destruição dos Estados caiu. Como foi isto possível?
Toda a evolução
das sociedades humanas, os diferentes sistemas políticos, as leis, as regras,
praticamente toda a estrutura da sociedade humana, decorre de uma única coisa:
o poder negocial dos interesses em jogo.
O Poder Negocial
é a Grande Lei da Sociedade, tudo o resto é consequência desta lei.
Por exemplo, foi
o movimento sindical que deu poder negocial aos trabalhadores e lhes permitiu
acordos que foram fixados em Leis, garantidas pelo Estado.
Na última
cimeira, França, Espanha e Itália uniram-se e obtiveram um poder negocial
superior ao da Alemanha; e assim conseguiram o que queriam. E o que queriam
eles? Salvar os Estados; porque a destruição dos Estados é o objectivo dos
“ricos”, pois já não precisam deles, quem precisa deles é sobretudo a classe
média porque já não tem sindicatos, já não tem organização, já não tem poder
negocial, não tem outro poder que não seja o que vem do Estado; e a classe mais
pobre já pouco tem a perder com o fim do Estado.
Há várias
maneiras de ter poder negocial; uma é pela força bruta, “pelo número de
espingardas”, que foi o que aconteceu nesta cimeira; a outra é sendo “um grão
na engrenagem”, que foi o que fizeram os gregos; outra ainda é ameaçar causar
algum prejuízo porque, na sociedade humana como na selva, raramente alguém está
disposto a ficar ferido para matar o outro, que foi o que tentou fazer o
Sócrates, à mistura com algum bluff (mal sucedido, pois a fragilidade da sua
situação condenava à partida qualquer possibilidade de sucesso negocial).
E nós agora? Como
é evidente, Portugal não só não negoceia como, pelo contrário, o governo agrava
unilateralmente as exigências da outra parte; que estratégia é esta, que merece
o apoio dos portugueses dado que não há contestação significativa nem quebra
nas intenções de voto? Nem sequer o líder da oposição contesta a não ser com
palavras de circunstância e vazias de consequências? Que mistério é este?
(continua)
sexta-feira, junho 22, 2012
O Monstro devora-se
achei esta imagem genial.. tirei daqui
A economia neoliberal é um ser autónomo, programado para buscar o enriquecimento; enriquecer ou morrer, esse é o lema dele. Enquanto é pequenino, é um encanto, toda a gente gosta do seu ar maroto, divertido, sempre ocupado a amealhar; muito travesso, é preciso que os pais estejam sempre de olho nele. Mas sem dúvida que enquanto pequenino dá outra vida e alegria à casa.
Mas ele cresce.
Cresce sempre.
E assim, o encantador e promissor ser torna-se um Monstro. Um Monstro insaciável que precisa de crescer continuamente ou morre, assim foi concebido este ser. Mas tem pai que é cego e para os seus pais o Monstro continua a ser o seu menino querido de sempre. Faz dos pais o que quer e eles em tudo o apoiam.
Lança a sua voracidade para fora da casa onde nasceu, porta onde conseguir entrar tudo devora. As outras casas são primeiro apanhadas na conversa encantatória do Monstro; até que a primeira lhe bate com a porta e logo as outras começam a perceber o perigo e, uma a uma, fecham a porta ao Monstro. Não sabem que o Monstro deixou lá a sua semente, em breve novos monstrinhos surgirão nessas casas; mas, por agora, a sua preocupação é manter longe o Monstro.
O Monstro está com um problema; para continuar a crescer, a existir afinal, porque se não cresce morre, tem de se alimentar do recheio da sua própria casa.
E assim o Monstro começou a autodevorar-se; está a devorar a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, já começou a petiscar a Itália.
Os pais do Monstro, cegos como todos os pais, não vêm problema nenhum nisso, nada a criticar ao seu “menino”: a autofagia é uma prática sanitária, dizem, as células praticam-na regularmente para se livrarem dos resíduos da sua actividade. Está tudo bem. O seu monstrinho está apenas a devorar o Lixo.
E o Monstro, para o qual tudo é lixo menos a sua boca, come, come-se...
quinta-feira, junho 07, 2012
Os ultraliberais são como os nazis das SS
fiquem com este texto que eu vou andar de bicicleta (imagem tirada daqui)
O quadro a que
conduz a economia ultraliberal é bem claro. É como no futebol: entre os muitos
jogadores de futebol profissional portugueses, há uns poucos que ganham
muitíssimo (e jogam no estrangeiro), mais uns pouquinhos que ganham menos mal e
a esmagadora maioria, talvez mais de 80 ou 90%, ganha miseravelmente. Contrariamente
ao que se possa pensar, não há nada tão igualizador como o ultraliberalismo,
que tende a gerar 1% de privilegiados e 99% de miseráveis.
Mas o futebol não
são só os jogadores, há os presidentes e donos dos clubes, alguns são eleitos e
é aqui que há uma enorme diferença: a sociedade da economia ultraliberal é uma
sociedade de castas. Há a casta dominante e depois a maralha em competição.
Esta maralha ganha o mínimo possível – mesmo o Cristiano Ronaldo ganha o mínimo
que o Real Madrid teve de pagar para o ter. Qual é o mínimo que o patrão do
leitor precisa de pagar para o contratar? Vá fazendo as contas... Se não
pertence ao lote dos 1% melhores, ficará no lote dos restantes, e os restantes
vão estar dispostos a trabalhar por uma sopa.
O que resulta desta
economia ultraliberal é uma massa de escravos e miseráveis. Para estes
economistas, como a Lagarde já o disse, não há razão nenhuma para um grego – ou
um português – ganhar mais do que um nigeriano. E não há razão porque ambos
pertencem ao “povo”, não pertencem ou estão ao serviço da casta dominante, como
a Lagarde ou o António Borges ou o Constâncio.
O que tem travado
este caminhar para a escravatura são as ideias do Estado Social e a força
organizada dos trabalhadores que, entre outras coisas, impuseram ordenados
mínimos. A classe média na Europa consegue ganhar actualmente uns 50 a 100%
mais do que o ordenado mínimo. Se ganham o que ganham, é porque o ordenado
mínimo é o que é.
Mas a economia
ultraliberal não quer saber de ordenados mínimos e nem pensar em Estado Social.
O objectivo não é uma sociedade melhor, é separar águas, isolar a casta
dominante do povão.
É por isso que é
preciso acabar com o “Estado Social”, cujo fim o director do BCE já declarou. Sonham com o fim do Estado Social. Sem o Estado Social, só os ricos terão
acesso a educação de qualidade e a condições de vida que permitam garantir aos
seus filhos um mínimo de condições de sucesso. Sem o Estado Social, a sociedade
de castas fica definitivamente estabelecida. Voilà!
É por isso que os
ricos e seus servidores não pagam impostos – nem a Lagarde paga impostos. Não
pagam porque o Estado é para servir os interesses do povo, não deles, logo, o
povo que o pague. A única coisa que os ricos precisam é de uma polícia para
manter o povo controlado.
Não se pense,
porém, que isto é uma novidade, algo que está a acontecer pela primeira vez.
Nada disso, isto já vem do fundo dos tempos e do fundo da natureza humana. Foi
por causa disto que se fizeram as guerras mundiais do século passado. Na altura,
o argumento encontrado pelos economistas de serviço foi o de que não havia
“espaço vital” para toda a gente, logo, as “raças superiores” tinham de dominar
as outras por direito genético e exterminar os que não fossem domináveis, como
ciganos, judeus e comunistas. As guerras mundiais nasceram do mesmo tipo de
ideias “económicas” que dominam agora a Europa. Ideias ao serviço de um único
objectivo: a defesa da casta superior. É por isso que o comunismo foi tão
violentamente combatido e denegrido. Mas agora que o muro de Berlim caiu, que a
ameaça para as castas superiores que o comunismo representava desapareceu, eis
que essas castas ficaram livres para estabelecer a escravatura. De novo!
(note o leitor
que eu não sou comunista; o modelo de sociedade que prefiro, dos que conheço, é
o dinamarquês)
O nosso governo
vai reduzir a saúde pública ao indispensável dos indispensáveis. Irá degradar o
ensino público. Aumentará as cadeias e as polícias. E claro que vai baixar os
ordenados. A garantia de que os ordenados vão baixar já foi “dada” por Passos
Coelho – ele tem muito azar, sempre que garante uma coisa, acontece o
contrário... O Estado deixará de ter quadros de médicos, enfermeiros,
professores, etc – passa tudo a ser contratado a empresas de trabalho temporário.
E baixando os ordenados do Estado, baixam todos.
Então a classe
média queria ordenados europeus num país onde o ordenado mínimo é menos de 1/3
de outros países??? Se o ordenado mínimo é 500 euros, o das classes médias não
deve passar dos 750 euros – por agora, porque a seguir este ordenado mínimo
acabará e descerá até à sopa. Claro que os ordenados têm de descer!!! São as
“leis do mercado”!
É que economia
ultraliberal nivela por baixo. Quando cada um trata dos seus interesses, todos
perdem para o mais forte. Óbvio.
Mas notem que em
Portugal sempre foi assim; a única coisa que mudou para nós foi a escala – até ao 25 de Abril, ser licenciado em Portugal era pertencer ao 1% mais; hoje, ser português é pertencer aos 99% menos. A desigualdade sempre foi o nosso timbre,
é por isso que temos 40% de abandono escolar – que significa que 40% das
crianças têm condições de vida miseráveis. Contra isso, ninguém se indignou;
mas indignaram-se com as medidas para melhorar essa situação. A escolha agora é
bem clara: ou queremos a economia de mercado à escala europeia ou queremos um
Estado Social; mas têm de decidir já porque quando forem escravos já não
decidem nada. E isto vai piorar muito porque baixar os ordenados nada vai
resolver, o desemprego vai crescer imparavelmente (calculo que é preciso menos de uns 20% da população para
produzir tudo o que se consome actualmente, e quanto mais baixos os ordenados,
menos se consome) e em breve estarão soluções de extermínio em cima da mesa
(disfarçadas, é claro).
(um último pensamento:
eu apostava que o Deutsche Bank, ou o Barclays, devem ter uns buraquitos do
tamanho da dívida soberana portuguesa; o que irá acontecer quando isso vier a
lume?)
sábado, maio 26, 2012
O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 2
(continuado)
A Regulação é
imprescindível
(imagem daqui)
Vimos que uma
economia de competição tende (na ausência de regulação), como qualquer
competição pura, a terminar-se; e “terminar”, no caso desta economia, significa
chegar a um estado em que uns poucos controlam toda a riqueza produzida e os
outros subsistem no limiar de sobrevivência – que é o estado em que a sociedade
humana tem existido a maior parte do tempo desde que deixou a organização
tribal. A este estado terminal chamo “escravatura”. Neste estado, a sociedade
já não se desenvolve e a única forma dos ricos continuarem a enriquecer é
através da luta entre eles – o mais forte conquista a riqueza do mais fraco
(esta conquista pode ser feita pela força das armas ou pelas regras do mercado,
é para isso, em parte, que umas e outras são como são).
Vimos também, como
é evidente, que uma condição necessária ao sucesso deste sistema económico é
que ele origine o enriquecimento de toda a população, mesmo que desigual – ou
seja, o crescimento absoluto da riqueza dos mais ricos tem de ser inferior ao
crescimento absoluto da riqueza total porque o contrário implica o
empobrecimento de parte da população.
Uma
característica do crescimento económico que se pode intuir dos dados existentes
é que a taxa de crescimento parece ser inversamente proporcional à
desigualdade; este fenómeno torna, a partir de certo valor da desigualdade,
explosivo o empobrecimento de parte crescente da sociedade, e conduz
rapidamente à situação terminal, ou seja, à escravatura.
Ter estas 3
características dum sistema económico de competição bem presentes é muito
importante.
Portanto, um
sistema económico de competição não se auto-regula; ele carece de um sistema
político que exerça efectivamente essa regulação ou tende fatalmente para a
escravatura ou para uma revolução, militar ou popular.
Esta regulação
pode ser feita admitindo maior ou menor desigualdade; ou seja, mais regulação
para conseguir menor desigualdade, ou então reduzir a regulação para aumentar a
desigualdade. Não se presuma que existe um ponto ótimo de equilíbrio – os
sistemas activos nunca têm um equilíbrio estático, o equilíbrio é sempre
dinâmico, ou seja, é um estado oscilatório de amplitude controlada.
Num sistema
democrático, é o voto dos eleitores que decide isto, através de dois partidos
políticos, em que ambos se comprometem com as medidas comuns (combate à
corrupção, legislação clara, justiça eficiente) mas um aplica as medidas de
alargamento e reequilíbrio da competição (regulação) e o outro as destrói; os
eleitores escolhem um ou outro dos partidos para governar consoante sentem que
lhes convém mais o reforço da componente competitiva ou da equilibrante. Esses
dois partidos são os partidos ditos do “centro”, o da componente competitiva é
o do “centro-direita” e o da componente equilibrante é o do “centro-esquerda”.
No caso americano, são os Republicanos e os Democratas; no caso português são o
PSD e o PS. Ambos estes partidos defendem o sistema competitivo da economia mas
têm papéis opostos na sua regulação. O ponto de equilíbrio que definem pode
situar-se mais à direita, como acontece em nos EUA, ou mais à esquerda, como
acontece na Dinamarca. Note-se que a função dos partidos não é meramente
económica e a organização da sociedade não se resume à Economia, mas é apenas
disso que me ocupo agora.
Os partidos ditos
da extrema, direita ou esquerda, são contra o sistema competitivo na economia e
é por isso que afirmam que os partidos do centro são apenas duas faces do
mesmo.
O problema maior
da regulação é que os governantes tendem a acabar reféns dos mais ricos e
deixarem de fazer a regulação do sistema; daí a necessidade de inventar um
poder “incorruptível” acima dos partidos, como um monarca ou um presidente, ou
de desenvolver sistemas de fiscalização da acção dos governantes; mas estes
sistemas também acabam reféns, propriedade, dos mais ricos, como acontece com
os media. Actualmente, há a esperança de que a internet, associada ao aumento
do conhecimento das pessoas, possa constituir um sistema de fiscalização
robusto (razão pela qual é alvo de ataques como este; qualquer dia, até os
comentários do tripadvisor serão proibidos...)
Quando se iniciou
a globalização económica, as medidas de controlo do enriquecimento dos mais
ricos deixaram de poder ser aplicadas porque o espaço económico transcendeu o
espaço político – impedir uma empresa nacional de crescer demasiado seria
limitar a sua capacidade competitiva a nível mundial. Instalou-se a
desregulação. Isto abriu portas à especulação financeira – os capitais deixaram
de “ter pátria”, fugiram aos impostos e a todos os mecanismos de controlo. O
desequilíbrio disparou e grande parte das pessoas deixou de enriquecer. A
regulação da economia “foi-se”.
As pessoas votaram “à esquerda” onde isso
estava a suceder – EUA e nos países do sul da Europa. Porém, controlar o
crescimento da desigualdade num quadro em que a economia ultrapassa a política
é impossível. Nos EUA esse controlo nunca foi totalmente perdido, mas nos
países da Europa foi; por isso, os governos de esquerda nos países do Sul da
Europa, apesar de tomarem algumas medidas correctas, apenas conseguiram atrasar
um pouco o agravar da situação. Os eleitores votaram então à direita e abriram
a porta à catástrofe, porque a receita da direita é a desregulação, o aumento
da desigualdade – exactamente o oposto do que precisam os países mais pobres.
Isso é bom porque como não há inteligência suficiente para entender o processo
económico, porque somos ignorantes, egoístas e gananciosos, dependemos de
sofrer na pele as consequências dessa ignorância e desse egoísmo para
percebermos porque é que temos de agir doutra maneira – e quanto mais depressa
o erro se tornar claro, mais depressa se poderá corrigi-lo.
Entretanto, em
todo o mundo se fecham agora as portas à globalização. Quem não quiser uma sociedade de escravos tem de repor rapidamente a regulação da Economia, submetê-la à política e não o contrário. O sábio
Obama comanda, as recentes nacionalizações na América do Sul terão o seu dedo.
Todas as potências emergentes têm ferozes políticas de proteção das actividades
nacionais, mais fortes do que alguma vez existiram, como a obrigatoriedade de
capitais nacionais para todas as empresas que queiram operar no seu país e a
aplicação de taxas alfandegárias elevadíssimas; e até o barramento de acesso a
conteúdos nacionais na net a partir do estrangeiro (?!). E na Europa?
quarta-feira, maio 09, 2012
O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 1
Uma coisa que nos
caracteriza é o nosso instinto competitivo; estamos sempre prontos para
competir seja em que área for; somos uma espécie de galos de combate.
Enquanto acharmos
que podemos ganhar, competimos. É por isso que não dispensamos os joguinhos de
computador. Competimos nos jogos e competimos em tudo o que tem a ver com a
vida: competimos para sermos o mais popular, competimos pelo emprego, para
sermos ricos, para ter o parceiro (a) mais interessante, o carro melhor, a casa
mais agradável, etc. Claro que cada um de nós não anda a competir em todas as
frentes, mas há sempre uma ou outra em que concentramos a nossa
competitividade. A “boa educação” é, em parte, sabermos controlar as nossas
reacções competitivas fora de contexto.
Eu distingo dois
tipos de competição: a primária, que visa o nosso exclusivo interesse, e a
secundária, que serve também os interesses dos outros – exemplo desta segunda é
o desejo de ser o mais útil, de contribuir para a máxima felicidade do nosso
parceiro (a), etc.
O desporto é uma
criação humana que representa o quadro mais perfeito de competição primária que
conseguimos conceber. E esse quadro tem uma característica fundamental: está
organizado de tal maneira que todos os competidores (os atletas) tenham, em
princípio, as mesmas possibilidades de ganhar. Isso reflete-se, por exemplo, no
facto de o desporto estar dividido por níveis, idades, sexo e, nalgumas
modalidades, por peso.
Uma modalidade é
o futebol profissional; ora bem, neste quadro de competição definido com tantos
cuidados de igualdade, o que acontece? Acontece que se estabelece uma enorme
desigualdade naquilo que os jogadores ganham: tal como na economia a que
pertencemos, o 1% dos jogadores mais bem pagos arrecadam uma fatia enorme das
receitas totais do futebol; e uma fatia cada vez maior.
Apesar das
abissais diferenças de salários, um clube mais pobre pode ainda ganhar uns
joguitos a clubes maiores – a razão é que a diferença de qualidade em valor
absoluto é pequena. A diferença de ordenados é que é enorme porque não
interessa quanto vale a diferença de um jogador para outro em valor absoluto
mas apenas em valor relativo – o jogador que pertence ao lote dos 1% melhores
adquire uma imensa cotação de mercado e vale imenso dinheiro porque há muito
dinheiro no mundo actual e essa pequena diferença que ele dá à sua equipa
permite a esta ganhar imenso dinheiro.
Esta é uma
característica incontornável de um sistema de competição primário: as pequenas
vantagens pagam-se a peso de ouro e a desigualdade na distribuição das
recompensas cresce sempre.
Sendo os recursos
limitados, esta tendência dos sistemas competitivos faria desaparecer os mais
fracos, ou seja, os clubes mais pequenos; só que o futebol não pode reduzir-se
aos 3 ou 4 maiores, não é verdade? Contra quem jogariam eles? Então, o sistema
de futebol tem de manter os clubes pequenos e por isso tem de ter um sistema de
redistribuição de receitas que os aguente ou acaba-se o futebol.
Um sistema
competitivo primário tende para um vencedor que elimina todos os outros.
Aplica-se-lhe a frase do filme Duelo Imortal (Highlander): “no final só pode
haver um”. Para manter indefinidamente um sistema assim, só há duas maneiras:
ou o “jogo” recomeça sempre que chega ao fim ou existem mecanismos que
beneficiam os que ficam para trás e vão reequilibrando a competição.
Vejamos agora a
Economia
.
O objectivo da
Economia é maximizar a produção de riqueza; a solução capitalista é o uso da
competição. No entanto, como já se viu, esta competição tem de ser regulada
para que não se termine.
Consideremos o
caso dos fabricantes de automóveis – dos inúmeros que existiam há meio século,
hoje o número de fabricantes independentes conta-se pelos dedos (embora cada um
deles apresente várias marcas) e, deixando as regras da competição pura
funcionar, num futuro não muito distante existirá um único dono de toda a
indústria automóvel (será, provavelmente, um grupo chinês...). Ora a competição
findava-se nesta altura e isso não pode acontecer. Portanto, a Economia tem de
contemplar mecanismos que impeçam o fim da competição e isso é basicamente, por
um lado, estimular o aparecimento de novos competidores e, por outro, limitar o
crescimento dos maiores, nomeadamente impedindo aquisições, fusões,
cartelizações e mesmo cindindo empresas. É necessário, portanto, uma acção de
regulação. Saber quanta regulação aplicar é que não é fácil – se esta for excessiva,
abafa a competição e diminui a produção de riqueza; se for de menos, dispara a
desigualdade e cai-se na situação do futebol em que os clubes pequenos abririam
falência e os grandes deixavam de ter contra quem jogar. Como equilibrar a
regulação com a desregulação?
Isso poderia ser
feito “científicamente”, para isso existem múltiplos índices que permitem saber
em que direção actuar. Porém, definir o ponto de equilíbrio é um assunto
político; e como se resolve isso por via política?
(continua)
sábado, abril 28, 2012
O Mistério das Crises
A evolução das
sociedades humanas segue um padrão sistemático: começa por uma associação de
pessoas que têm de juntar esforços para sobreviverem; para cada um, é óbvio que a melhor forma de melhorar as suas condições de vida nesta fase inicial é agir em função do
interesse colectivo.
Depois, começando
a sociedade a ter riqueza, a organizar-se, surge a desigualdade de riqueza e de
poder; e a desigualdade tende a crescer imparavelmente porque os mais ricos têm
mais capacidade de enriquecer do que os outros.
A princípio, isto
não é um problema, porque o enriquecimento da sociedade chega para enriquecer
todos; mas como a taxa de crescimento dos ricos é superior à taxa média, ou
seja, do PIB, a taxa de enriquecimento da maioria das pessoas torna-se cada vez
mais pequena; por outro lado, por várias razões, a taxa de crescimento do PIB
também abranda em função do crescimento da desigualdade. Portanto, dois
fenómenos ocorrem: a taxa de enriquecimento dos ricos é crescente e a da
sociedade é decrescente a partir de certa altura.
Destes dois
efeitos chega-se fatalmente à situação em que o enriquecimento de uns, por ser maior em valor absoluto do que o enriquecimento da sociedade, acaba por implicar o
empobrecimento de outros; então, a desigualdade dispara até ao ponto em que
todos, menos os mais ricos dos ricos, atingem o limiar da sobrevivência. Este meu post de 2008 mostra isso, tal como o vídeo acima. Aí, a sociedade estagna, fica
no seu ponto extremo, em que uns poucos controlam a quase totalidade da riqueza
produzida pela sociedade e os outros subsistem no limiar da sobrevivência e da
dignidade, ou abaixo disto.
A Idade Média foi
isto, a sociedade dividida entre os senhores e os servos.
Esta situação é
nefasta por duas grandes razões; uma é que produz a estagnação ou mesmo o
retrocesso da sociedade e a outra é que este não é certamente o tipo de
sociedade desejado pela maioria das pessoas, não se assemelha em nada a um
“paraíso na Terra”, antes a um “castigo de Deus”.
Quando ocorre uma
súbita abundância, seja devida a uma conquista, a um período de melhor clima, a
um progresso tecnológico, que abre uma janela de crescimento da sociedade,
alguns dos pobres podem ficar menos pobres, originando o aparecimento da
chamada “classe média”; também as guerras, ao produzirem maciça destruição,
abrem no pós-guerra uma oportunidade de crescimento que decorre da reconstrução
do que foi destruído e fortalecem por isso a classe média. Quando se esgota
essa janela de crescimento, a classe média volta a desaparecer. De vez em
quando, aqui e ali, os pobres recorrem à força do seu número e fazem uma
revolução, que momentaneamente repõe alguma igualdade na sociedade, mas logo se
reinicia o mesmo processo infernal.
Portanto,
compreendamos bem o processo: o estado para que tende uma sociedade humana em
que cada um age em função do seu interesse imediato é caracterizado por
existirem uns poucos que detêm a quase totalidade da riqueza produzida e os
outros serem mais ou menos escravos desses. Como os ricos não podem coexistir,
porque cada um quer sempre ser mais rico, acabam por estabelecer “territórios”,
que podem ser geográficos ou por áreas de actividade. Portugal nasceu porque um
tal Afonso Henriques quis ser mais rico e poderoso do que o que lhe estava
destinado.
Os ricos não são
melhores nem piores do que os pobres, são simplesmente pessoas cujo objectivo
na vida é ser rico ou poderoso e o conseguiram. Apenas nos períodos em que uma sociedade é capaz de crescer surgem as “luzes da
civilização” porque então existem pessoas que podem sobreviver sem estar
inseridas na luta de ratos, uns contra os outros, pelo enriquecimento ou pela
sobrevivência.
Na Natureza as
coisas parecem não ser muito diferentes, ocorrendo saltos evolutivos a seguir a
catástrofes que eliminam grande parte dos seres vivos e deixam espaço para os
sobreviventes não terem de disputar a sobrevivência uns contra os outros - não
parece ser a adversidade que gera a evolução mas a oportunidade a seguir à adversidade.
Portanto, não
tenhamos ilusões: uma sociedade humana entregue a si mesma desemboca fatalmente
nesse quadro. Apenas a existência de um poder que permita que as pessoas ajam
em função do interesse colectivo pode conduzir a uma sociedade melhor; o
enfraquecimento ou incompetência desse poder determina a fatal evolução acima
descrita. Esse poder é o poder Político. Como é óbvio, o poder Político tem de
estar sempre acima do poder dos ricos, ou seja, do poder do Mercado.
Como é óbvio
também, não é isso que acontece na Europa. Compreender como chegámos a isto é
importante para percebermos como podemos corrigir a situação. Disso falarei no
próximo texto.
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