sábado, maio 26, 2012
O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 2
(continuado)
A Regulação é
imprescindível
(imagem daqui)
Vimos que uma
economia de competição tende (na ausência de regulação), como qualquer
competição pura, a terminar-se; e “terminar”, no caso desta economia, significa
chegar a um estado em que uns poucos controlam toda a riqueza produzida e os
outros subsistem no limiar de sobrevivência – que é o estado em que a sociedade
humana tem existido a maior parte do tempo desde que deixou a organização
tribal. A este estado terminal chamo “escravatura”. Neste estado, a sociedade
já não se desenvolve e a única forma dos ricos continuarem a enriquecer é
através da luta entre eles – o mais forte conquista a riqueza do mais fraco
(esta conquista pode ser feita pela força das armas ou pelas regras do mercado,
é para isso, em parte, que umas e outras são como são).
Vimos também, como
é evidente, que uma condição necessária ao sucesso deste sistema económico é
que ele origine o enriquecimento de toda a população, mesmo que desigual – ou
seja, o crescimento absoluto da riqueza dos mais ricos tem de ser inferior ao
crescimento absoluto da riqueza total porque o contrário implica o
empobrecimento de parte da população.
Uma
característica do crescimento económico que se pode intuir dos dados existentes
é que a taxa de crescimento parece ser inversamente proporcional à
desigualdade; este fenómeno torna, a partir de certo valor da desigualdade,
explosivo o empobrecimento de parte crescente da sociedade, e conduz
rapidamente à situação terminal, ou seja, à escravatura.
Ter estas 3
características dum sistema económico de competição bem presentes é muito
importante.
Portanto, um
sistema económico de competição não se auto-regula; ele carece de um sistema
político que exerça efectivamente essa regulação ou tende fatalmente para a
escravatura ou para uma revolução, militar ou popular.
Esta regulação
pode ser feita admitindo maior ou menor desigualdade; ou seja, mais regulação
para conseguir menor desigualdade, ou então reduzir a regulação para aumentar a
desigualdade. Não se presuma que existe um ponto ótimo de equilíbrio – os
sistemas activos nunca têm um equilíbrio estático, o equilíbrio é sempre
dinâmico, ou seja, é um estado oscilatório de amplitude controlada.
Num sistema
democrático, é o voto dos eleitores que decide isto, através de dois partidos
políticos, em que ambos se comprometem com as medidas comuns (combate à
corrupção, legislação clara, justiça eficiente) mas um aplica as medidas de
alargamento e reequilíbrio da competição (regulação) e o outro as destrói; os
eleitores escolhem um ou outro dos partidos para governar consoante sentem que
lhes convém mais o reforço da componente competitiva ou da equilibrante. Esses
dois partidos são os partidos ditos do “centro”, o da componente competitiva é
o do “centro-direita” e o da componente equilibrante é o do “centro-esquerda”.
No caso americano, são os Republicanos e os Democratas; no caso português são o
PSD e o PS. Ambos estes partidos defendem o sistema competitivo da economia mas
têm papéis opostos na sua regulação. O ponto de equilíbrio que definem pode
situar-se mais à direita, como acontece em nos EUA, ou mais à esquerda, como
acontece na Dinamarca. Note-se que a função dos partidos não é meramente
económica e a organização da sociedade não se resume à Economia, mas é apenas
disso que me ocupo agora.
Os partidos ditos
da extrema, direita ou esquerda, são contra o sistema competitivo na economia e
é por isso que afirmam que os partidos do centro são apenas duas faces do
mesmo.
O problema maior
da regulação é que os governantes tendem a acabar reféns dos mais ricos e
deixarem de fazer a regulação do sistema; daí a necessidade de inventar um
poder “incorruptível” acima dos partidos, como um monarca ou um presidente, ou
de desenvolver sistemas de fiscalização da acção dos governantes; mas estes
sistemas também acabam reféns, propriedade, dos mais ricos, como acontece com
os media. Actualmente, há a esperança de que a internet, associada ao aumento
do conhecimento das pessoas, possa constituir um sistema de fiscalização
robusto (razão pela qual é alvo de ataques como este; qualquer dia, até os
comentários do tripadvisor serão proibidos...)
Quando se iniciou
a globalização económica, as medidas de controlo do enriquecimento dos mais
ricos deixaram de poder ser aplicadas porque o espaço económico transcendeu o
espaço político – impedir uma empresa nacional de crescer demasiado seria
limitar a sua capacidade competitiva a nível mundial. Instalou-se a
desregulação. Isto abriu portas à especulação financeira – os capitais deixaram
de “ter pátria”, fugiram aos impostos e a todos os mecanismos de controlo. O
desequilíbrio disparou e grande parte das pessoas deixou de enriquecer. A
regulação da economia “foi-se”.
As pessoas votaram “à esquerda” onde isso
estava a suceder – EUA e nos países do sul da Europa. Porém, controlar o
crescimento da desigualdade num quadro em que a economia ultrapassa a política
é impossível. Nos EUA esse controlo nunca foi totalmente perdido, mas nos
países da Europa foi; por isso, os governos de esquerda nos países do Sul da
Europa, apesar de tomarem algumas medidas correctas, apenas conseguiram atrasar
um pouco o agravar da situação. Os eleitores votaram então à direita e abriram
a porta à catástrofe, porque a receita da direita é a desregulação, o aumento
da desigualdade – exactamente o oposto do que precisam os países mais pobres.
Isso é bom porque como não há inteligência suficiente para entender o processo
económico, porque somos ignorantes, egoístas e gananciosos, dependemos de
sofrer na pele as consequências dessa ignorância e desse egoísmo para
percebermos porque é que temos de agir doutra maneira – e quanto mais depressa
o erro se tornar claro, mais depressa se poderá corrigi-lo.
Entretanto, em
todo o mundo se fecham agora as portas à globalização. Quem não quiser uma sociedade de escravos tem de repor rapidamente a regulação da Economia, submetê-la à política e não o contrário. O sábio
Obama comanda, as recentes nacionalizações na América do Sul terão o seu dedo.
Todas as potências emergentes têm ferozes políticas de proteção das actividades
nacionais, mais fortes do que alguma vez existiram, como a obrigatoriedade de
capitais nacionais para todas as empresas que queiram operar no seu país e a
aplicação de taxas alfandegárias elevadíssimas; e até o barramento de acesso a
conteúdos nacionais na net a partir do estrangeiro (?!). E na Europa?
quarta-feira, maio 09, 2012
O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 1
Uma coisa que nos
caracteriza é o nosso instinto competitivo; estamos sempre prontos para
competir seja em que área for; somos uma espécie de galos de combate.
Enquanto acharmos
que podemos ganhar, competimos. É por isso que não dispensamos os joguinhos de
computador. Competimos nos jogos e competimos em tudo o que tem a ver com a
vida: competimos para sermos o mais popular, competimos pelo emprego, para
sermos ricos, para ter o parceiro (a) mais interessante, o carro melhor, a casa
mais agradável, etc. Claro que cada um de nós não anda a competir em todas as
frentes, mas há sempre uma ou outra em que concentramos a nossa
competitividade. A “boa educação” é, em parte, sabermos controlar as nossas
reacções competitivas fora de contexto.
Eu distingo dois
tipos de competição: a primária, que visa o nosso exclusivo interesse, e a
secundária, que serve também os interesses dos outros – exemplo desta segunda é
o desejo de ser o mais útil, de contribuir para a máxima felicidade do nosso
parceiro (a), etc.
O desporto é uma
criação humana que representa o quadro mais perfeito de competição primária que
conseguimos conceber. E esse quadro tem uma característica fundamental: está
organizado de tal maneira que todos os competidores (os atletas) tenham, em
princípio, as mesmas possibilidades de ganhar. Isso reflete-se, por exemplo, no
facto de o desporto estar dividido por níveis, idades, sexo e, nalgumas
modalidades, por peso.
Uma modalidade é
o futebol profissional; ora bem, neste quadro de competição definido com tantos
cuidados de igualdade, o que acontece? Acontece que se estabelece uma enorme
desigualdade naquilo que os jogadores ganham: tal como na economia a que
pertencemos, o 1% dos jogadores mais bem pagos arrecadam uma fatia enorme das
receitas totais do futebol; e uma fatia cada vez maior.
Apesar das
abissais diferenças de salários, um clube mais pobre pode ainda ganhar uns
joguitos a clubes maiores – a razão é que a diferença de qualidade em valor
absoluto é pequena. A diferença de ordenados é que é enorme porque não
interessa quanto vale a diferença de um jogador para outro em valor absoluto
mas apenas em valor relativo – o jogador que pertence ao lote dos 1% melhores
adquire uma imensa cotação de mercado e vale imenso dinheiro porque há muito
dinheiro no mundo actual e essa pequena diferença que ele dá à sua equipa
permite a esta ganhar imenso dinheiro.
Esta é uma
característica incontornável de um sistema de competição primário: as pequenas
vantagens pagam-se a peso de ouro e a desigualdade na distribuição das
recompensas cresce sempre.
Sendo os recursos
limitados, esta tendência dos sistemas competitivos faria desaparecer os mais
fracos, ou seja, os clubes mais pequenos; só que o futebol não pode reduzir-se
aos 3 ou 4 maiores, não é verdade? Contra quem jogariam eles? Então, o sistema
de futebol tem de manter os clubes pequenos e por isso tem de ter um sistema de
redistribuição de receitas que os aguente ou acaba-se o futebol.
Um sistema
competitivo primário tende para um vencedor que elimina todos os outros.
Aplica-se-lhe a frase do filme Duelo Imortal (Highlander): “no final só pode
haver um”. Para manter indefinidamente um sistema assim, só há duas maneiras:
ou o “jogo” recomeça sempre que chega ao fim ou existem mecanismos que
beneficiam os que ficam para trás e vão reequilibrando a competição.
Vejamos agora a
Economia
.
O objectivo da
Economia é maximizar a produção de riqueza; a solução capitalista é o uso da
competição. No entanto, como já se viu, esta competição tem de ser regulada
para que não se termine.
Consideremos o
caso dos fabricantes de automóveis – dos inúmeros que existiam há meio século,
hoje o número de fabricantes independentes conta-se pelos dedos (embora cada um
deles apresente várias marcas) e, deixando as regras da competição pura
funcionar, num futuro não muito distante existirá um único dono de toda a
indústria automóvel (será, provavelmente, um grupo chinês...). Ora a competição
findava-se nesta altura e isso não pode acontecer. Portanto, a Economia tem de
contemplar mecanismos que impeçam o fim da competição e isso é basicamente, por
um lado, estimular o aparecimento de novos competidores e, por outro, limitar o
crescimento dos maiores, nomeadamente impedindo aquisições, fusões,
cartelizações e mesmo cindindo empresas. É necessário, portanto, uma acção de
regulação. Saber quanta regulação aplicar é que não é fácil – se esta for excessiva,
abafa a competição e diminui a produção de riqueza; se for de menos, dispara a
desigualdade e cai-se na situação do futebol em que os clubes pequenos abririam
falência e os grandes deixavam de ter contra quem jogar. Como equilibrar a
regulação com a desregulação?
Isso poderia ser
feito “científicamente”, para isso existem múltiplos índices que permitem saber
em que direção actuar. Porém, definir o ponto de equilíbrio é um assunto
político; e como se resolve isso por via política?
(continua)
sábado, abril 28, 2012
O Mistério das Crises
A evolução das
sociedades humanas segue um padrão sistemático: começa por uma associação de
pessoas que têm de juntar esforços para sobreviverem; para cada um, é óbvio que a melhor forma de melhorar as suas condições de vida nesta fase inicial é agir em função do
interesse colectivo.
Depois, começando
a sociedade a ter riqueza, a organizar-se, surge a desigualdade de riqueza e de
poder; e a desigualdade tende a crescer imparavelmente porque os mais ricos têm
mais capacidade de enriquecer do que os outros.
A princípio, isto
não é um problema, porque o enriquecimento da sociedade chega para enriquecer
todos; mas como a taxa de crescimento dos ricos é superior à taxa média, ou
seja, do PIB, a taxa de enriquecimento da maioria das pessoas torna-se cada vez
mais pequena; por outro lado, por várias razões, a taxa de crescimento do PIB
também abranda em função do crescimento da desigualdade. Portanto, dois
fenómenos ocorrem: a taxa de enriquecimento dos ricos é crescente e a da
sociedade é decrescente a partir de certa altura.
Destes dois
efeitos chega-se fatalmente à situação em que o enriquecimento de uns, por ser maior em valor absoluto do que o enriquecimento da sociedade, acaba por implicar o
empobrecimento de outros; então, a desigualdade dispara até ao ponto em que
todos, menos os mais ricos dos ricos, atingem o limiar da sobrevivência. Este meu post de 2008 mostra isso, tal como o vídeo acima. Aí, a sociedade estagna, fica
no seu ponto extremo, em que uns poucos controlam a quase totalidade da riqueza
produzida pela sociedade e os outros subsistem no limiar da sobrevivência e da
dignidade, ou abaixo disto.
A Idade Média foi
isto, a sociedade dividida entre os senhores e os servos.
Esta situação é
nefasta por duas grandes razões; uma é que produz a estagnação ou mesmo o
retrocesso da sociedade e a outra é que este não é certamente o tipo de
sociedade desejado pela maioria das pessoas, não se assemelha em nada a um
“paraíso na Terra”, antes a um “castigo de Deus”.
Quando ocorre uma
súbita abundância, seja devida a uma conquista, a um período de melhor clima, a
um progresso tecnológico, que abre uma janela de crescimento da sociedade,
alguns dos pobres podem ficar menos pobres, originando o aparecimento da
chamada “classe média”; também as guerras, ao produzirem maciça destruição,
abrem no pós-guerra uma oportunidade de crescimento que decorre da reconstrução
do que foi destruído e fortalecem por isso a classe média. Quando se esgota
essa janela de crescimento, a classe média volta a desaparecer. De vez em
quando, aqui e ali, os pobres recorrem à força do seu número e fazem uma
revolução, que momentaneamente repõe alguma igualdade na sociedade, mas logo se
reinicia o mesmo processo infernal.
Portanto,
compreendamos bem o processo: o estado para que tende uma sociedade humana em
que cada um age em função do seu interesse imediato é caracterizado por
existirem uns poucos que detêm a quase totalidade da riqueza produzida e os
outros serem mais ou menos escravos desses. Como os ricos não podem coexistir,
porque cada um quer sempre ser mais rico, acabam por estabelecer “territórios”,
que podem ser geográficos ou por áreas de actividade. Portugal nasceu porque um
tal Afonso Henriques quis ser mais rico e poderoso do que o que lhe estava
destinado.
Os ricos não são
melhores nem piores do que os pobres, são simplesmente pessoas cujo objectivo
na vida é ser rico ou poderoso e o conseguiram. Apenas nos períodos em que uma sociedade é capaz de crescer surgem as “luzes da
civilização” porque então existem pessoas que podem sobreviver sem estar
inseridas na luta de ratos, uns contra os outros, pelo enriquecimento ou pela
sobrevivência.
Na Natureza as
coisas parecem não ser muito diferentes, ocorrendo saltos evolutivos a seguir a
catástrofes que eliminam grande parte dos seres vivos e deixam espaço para os
sobreviventes não terem de disputar a sobrevivência uns contra os outros - não
parece ser a adversidade que gera a evolução mas a oportunidade a seguir à adversidade.
Portanto, não
tenhamos ilusões: uma sociedade humana entregue a si mesma desemboca fatalmente
nesse quadro. Apenas a existência de um poder que permita que as pessoas ajam
em função do interesse colectivo pode conduzir a uma sociedade melhor; o
enfraquecimento ou incompetência desse poder determina a fatal evolução acima
descrita. Esse poder é o poder Político. Como é óbvio, o poder Político tem de
estar sempre acima do poder dos ricos, ou seja, do poder do Mercado.
Como é óbvio
também, não é isso que acontece na Europa. Compreender como chegámos a isto é
importante para percebermos como podemos corrigir a situação. Disso falarei no
próximo texto.
quarta-feira, abril 11, 2012
O Titanic Europeu
Desde que começou o corrente milénio que o mundo ocidental anda em crise. Ou seja, EUA e Europa, pois no resto do mundo não há crise, apenas os problemas do costume.
Apontam-se causas
para aqui e para ali, culpam-se estes e aqueles... os pobres culpam os ricos
por enriquecerem demais, os ricos culpam os pobres por "viverem acima das suas posses", todos culpamos a corrupção que por aí grassa... o ruído do
costume quando ninguém sabe o que se passa. Como todos têm culpas, é fácil
apontar o dedo; mas será que está aí a verdadeira causa do problema?
Hoje ainda não
está esclarecida a causa da crise de 1929, quase um século depois; diferentes
explicações estão ainda em discussão, as duas mais usuais sendo
a) tratou-se de
uma crise de superprodução devido ao aumento dos ganhos de eficiência e quebra
no boom de produção que se deu para a reconstrução da Europa a seguir à
primeira grande guerra, conforme previsto por Ford e Keynes;
b) deveu-se à
política anti-inflacionista da Reserva Monetária dos EUA.
Ambas estas
eventuais causas podem também ser apontadas à actual situação europeia (as
exportações podem entrar em crise devido ao fim da globalização económica, com
os países em todo o mundo a adoptarem fortes medidas proteccionistas).
A crise de 1929
resolveu-se, pensa a maioria dos analistas, pelas medidas do New Deal.
Estas políticas
económicas do New Deal, completamente inovadoras na altura, foram
racionalizadas por Keynes na sua obra clássica Teoria geral do juro, do
emprego e da moeda.
Duas dessas
medidas foram o investimento maciço em obras públicas e a diminuição da jornada
de trabalho – e por aqui se vê que estamos a andar ao contrário, pois se essas
medidas serviram para sair de uma depressão, certamente que o seu oposto não
serve o mesmo fim; a crise actual acontece apesar dessas medidas e não por
causa delas.
O certo é que
houve quem previsse a crise de 1929 e pusesse em prática uma política que a
resolveu (mas não foi fácil nem rápido nem indolor) e iniciou um longo período
de prosperidade. E agora estamos numa crise que ninguém parece entender e não
podemos pensar que quem não entende o que se passa lhe dê remédio.
O pensamento por
detrás do New Deal é o oposto do que está por detrás das actuais medidas, é o
que conduz a um Estado que é social, forte e interventivo na economia – exactamente
aquilo que os actuais gurus abominam. A resolução da crise deveu-se sobretudo à
acção de Roosevelt, que mobilizou a nação toda para enfrentar a crise e teve a
força política para fazer o que queria, especialmente no que se refere ao
sistema financeiro. Fez dos seus primeiros 100 dias de governo a “pedra de
toque” da saída da crise, tendo tomado uma imensidão de medidas, e é por isso
que desde então os governos são avaliados ao fim de 100 dias.
Não nos iludamos
com “boas” notícias como a de que o deficit das contas externas diminuiu – ao
que parece diminuiu porque estamos a exportar ouro! Nós não produzimos ouro,
pois não? Estamos literalmente a vender os anéis; quando se acabarem os anéis
vamos vender o quê? E o que é que isso significa em termos do drama social a
caminho? Quanto à produção industrial, está em queda, a factura dos combustíveis
não para de aumentar a uma taxa assustadora e a importação de alimentos tem uma
redução insignificante – ninguém consegue travar a importação de alimentos?
Na Europa, há
apenas preparações para a grande catástrofe, como o aprovisionamento de fundos
financeiros de socorro; será que os fundos vão conseguir aguentar a catástrofe?
E se não forem? Se não forem, começa-se por deixar cair a periferia para tentar
salvar o centro... por isso continuam a dizer que a “Grécia ainda não está
livre de sair do euro”... bem, e nós estamos no mesmo caminho, não é? Na
verdade, estamos tão acelerados que não tarda a nossa crise poderá ser muito
maior do que a grega.
Temos de ter isto
bem presente: a Europa não está a resolver a crise, está a barricar-se; e nós vamos ficar do lado de fora da barricada assim que as
coisas se agravarem. Nenhuma medida foi tomada que altere o quadro de fundo e
não, o problema não está na dívida soberana – se estivesse, a Espanha não estava
em crise porque tem uma dívida soberana mínima.
Quando se afundou
o Titanic, o que aconteceu aos passageiros de terceira classe? Ficaram fechados
no interior do navio enquanto os passageiros de primeira se punham a salvo nos
botes. E havia botes para quase toda a gente porque o Titanic só levava cerca
de 1/3 dos passageiros que podia levar; o pânico dos ricos determinou a morte
dos pobres.
É isto que está a
acontecer: os passageiros de primeira estão a ocupar os seus lugares nos botes
salva-vidas e enquanto a tripulação vai entretendo os de terceira, dando-lhes
coisas para fazerem e dizendo-lhes: a gente já vos vem salvar, estejam tranquilos, estamos a tratar de tudo. É o que os
países “ricos” da Europa estão a fazer com os outros países e é o que os ricos (os muito e os pouco ricos) em Portugal estão a fazer com outros portugueses – a tripulação são os
governos, fraquinhos perante os ricos, a tentarem manter a maralha sossegada
enquanto os ricos se salvam. Aquilo que Roosevelt fez, a mobilização geral da
nação, não existe aqui, apenas se pede ao povo sacrifícios e paciência; e
que não sejam piegas. O governo fala para os portugueses tal como os tripulantes do
Titanic para os passageiros da terceira classe.
Para que serve a
actual discussão dos limites ao deficit? É para levar a sério? Tem alguma
hipótese de ser cumprida? Claro que não, é só para manter os “passageiros da
terceira” entretidos, dar a ilusão de que se está a fazer alguma coisa para
evitar a crise e no fim poder dizer: a culpa é vossa, não cumpriram o pacto.
Notem que eu não
estou a apelar uma qualquer revolta, pelo contrário, estou a tentar evitá-la;
porque quando for necessário reduzir de novo o ordenado dos funcionários
públicos e as pensões dos reformados, e a taxa de desemprego passar dos 20%, ou
dos 25%, é o que pode acontecer; e depois é que será o caos completo. E é isso
que vai acontecer em breve. Sacrifícios vai ser preciso fazer, mas as pessoas
precisam de sentir que os sacrifícios são iguais e não é isso que está
acontecer – o sacrifício dos subsídios não é o mesmo para uma pessoa que ganha
1000 euros ou para uma que ganha dez vezes mais. E, além disso, as pessoas
precisam de saber que os sacrifícios conduzem a algum lado, e também não é isso
que está a acontecer, não há nenhum desenho de uma sociedade melhor pela
frente, apenas se perspectiva um progressivo afundar das condições de vida.
Tive uma avó que
dizia que só a morte não tem remédio; e é bem verdade. O que temos a fazer é
encontrar uma solução para isto. Os americanos resolveram a crise de 1929 e
estão a resolver esta também, aplicando basicamente a mesma receita, que é o oposto
do que a Europa anda a fazer. Nós também havemos de ser capazes de encontrar
uma solução, desde que pensemos no assunto.
sexta-feira, março 30, 2012
Manda quem for O Mais Rico
D. Dinis, o "Rei Rico"
Há tempos, vi uma
reportagem na TV onde um jornalista perguntava a um angolano se achava bem que
o J. Eduardo dos Santos (JES) fosse a pessoa mais rica de Angola; a resposta,
dada com toda a tranquilidade, foi: se fosse outro o mais rico, seria outro a
mandar.
Esse angolano
está certíssimo mas nós, com a cabeça cheia de utopias simplórias e ideias
erradas, não percebemos que essa é tendencialmente a realidade. Não é o Puttin
o mais rico da Rússia? A sua fortuna pessoal passou do zero às dezenas de
milhares de milhões de euros em duas décadas... Os Bush e os Kennedy não são
das famílias mais ricas dos EUA? O candidato republicano Mitt Romney também tem
uma fortuna pessoal de umas centenas de milhões de euros... que se saiba...
A história mostra
que a riqueza é indispensável ao Poder, mesmo a nossa: o rei D. Dinis, na
sequência do esforço iniciado por D. Afonso II, tratou de se tornar o mais rico
do país, enfrentando nobres e clero, e assim ter o poder que lhe permitiu,
graças à sua enorme visão política, fazer finalmente de Portugal um país.
A Igreja Católica
tornou-se poderosa porque enriqueceu; aqueles que criticam a riqueza da Igreja
percebem muito pouco do ser humano; e a ostentação da riqueza é tão essencial à
Igreja como a qualquer pessoa que queira ter poder pessoal.
O Poder escorre
para as mãos dos ricos naturalmente; qualquer pequenina manifestação de riqueza
dá logo vantagem. Os ricos não têm de fazer nada para terem
mais poder, são as outras pessoas que se apressam a elevá-los, a endeusá-los.
Além disso, a verdade é que a generalidade das pessoas se vende, a honestidade
é um mito que se alimenta da falta de oportunidade, toda a pessoa (as eventuais excepções são irrelevantes) tem o seu
preço.
Esta relação
entre poder e riqueza existe à escala dos países – o país mais poderoso é o que
for mais rico. Na Europa, é a Alemanha; no mundo, são os EUA. E ser mais rico é
evidentemente uma vantagem porque o mais rico tem mais capacidade de enriquecer
do que os outros. A única forma de um país
menos rico não ser esmagado nesta economia é violando as suas regras, que é o
que fazem todos os países, protegendo as suas actividades internas e gerindo a
globalização na medida dos seus interesses. A comunidade europeia faz o mesmo
em relação à sua fronteira externa, enquanto internamente franceses e alemães
enriquecem à custa dos países do sul do Europa, que deixaram de proteger os
seus interesses; os pequenos países da CE desenvolveram esquemas que lhes
permitem subsistir parasitando os outros países, nomeadamente através das
offshores que criam e mantêm em territórios fora do controlo económico.
O sistema
democrático visa ultrapassar o maior problema das sociedades humanas: o abuso
do poder, tornando-o temporário, limitado, e acessível a qualquer pessoa que as
outras entendam ser a mais adequada. Mas quem é escolhido para governar tem de
ter poder e isso só é possível se, enquanto governante, for o mais rico – o
Estado tem de ser mais rico que o mais rico dos ricos. Como é que os pais fundadores
da democracia conseguiram isso? De diversas maneiras, nomeadamente estas 3: impostos, leis anti-monopólio e o poder de emitir dinheiro,
através do controlo do “banco central”; esta é a pedra de toque do poder do
Estado.
No entanto, se
essas medidas garantiam poder aos vencedores das eleições, não impediam que
quem for mais rico tenha mais capacidade de ganhar eleições; e, assim, e por
diversos caminhos, os mais ricos passaram geralmente a controlar o poder
político. O sistema americano dá a um candidato a possibilidade de ser momentaneamente rico com as doações para a campanha, o que teoricamente dá a qualquer pessoa a possibilidade de fazer frente aos ricos.
Como se sabe, o
poder exerce uma enorme atração e, por isso, não falta quem se julgue como o
mais capaz de exercer o poder. Os Reis e os Religiosos, porque são uma emanação
de Deus, os Militares porque a Força está com eles, os Cientistas porque são
donos do Conhecimento, os Juízes porque são o poder acima de todos os outros,
os Tecnocratas porque são eles que fazem as coisas, os Financeiros porque são
eles quem controla o dinheiro. Todos eles já sonharam conquistar o poder
político, directa ou indirectamente.
Porém, agora está
a ocorrer algo de novo!
Se existe esta
relação directa entre riqueza e poder, então para quê perder tempo com o poder
político? Se se puder ser mais rico que os Estados, comanda-se o Mundo; o papel dos políticos é tornado inútil, e com eles esse custo improdutivo representado pelas eleições, o mundo gere-se como se fosse uma grande empresa.
Como é que se
pode ser mais rico que os Estados? Controlando os bancos centrais e
sobrecarregando os Estados com despesas para que as receitas de impostos se
tornem insuficientes. Por isso, a obtenção do poder absoluto, a capacidade de
regular os destinos do mundo, passa por estas duas únicas coisas; e quem é pode
conseguir isto? Apenas os Financeiros.
Notemos que os
Financeiros já conseguiram ser donos de quase tudo – neste mundo competitivo
todas as empresas têm de recorrer à banca para aumentarem a sua capacidade
competitiva; mas ao fazê-lo colocam-se na dependência destes e acabam
controladas pelos bancos. É por isso que actualmente quase todas as grandes
empresas são controladas por grupos financeiros. Um pequeno número de grupos
financeiros domina quase toda a actividade económica; as leis anti-monopólio perderam a eficácia porque as empresas "concorrentes" têm por detrás, em muitos casos, os mesmos grupos. Este pilar do poder do Estado já caiu.
No próximo post
vamos ver o esquema genial inventado pelos financeiros para controlarem totalmente o mundo
ocidental.
Notemos que os
financeiros não são “os maus” – eles são tão “maus” como todos nós sempre
prontos a abusar do poder, disponíveis para ficarmos mais ricos se surgir a
oportunidade (apenas a falta desta nos alimenta a ilusão de que “somos
melhores”); mas foram mais espertos e conseguiram aquilo que nós não
conseguimos; porém, se continuarmos a ser burros, vamos ter uma vidinha
miserável, por isso é melhor que comecemos a abrir os olhos.
sábado, março 17, 2012
A malandrice do BCE
tirei esta imagem daqui; recomendo vivamente o blogue.
Ao ler a coluna
do Luís Duque no Expresso tive um “flash”: percebi a última malandrice do BCE!
Este texto não é
o que estava previsto na sequência do anterior mas vem muito a propósito do que
ando a querer expor; ora vejam:
Sabem como é que
alguns ou todos os países que têm sido intervencionados pelo FMI por este mundo
fora (as intervenções do FMI são como as operações militares dos EUA... há
sempre uma razão para intervirem nesta ou naquela parte do mundo...) se têm
livrado dele?
Como a
intervenção do FMI conduz a uma recessão crescente, os títulos da dívida
soberana desse país caem no mercado secundário; e como a recessão cresce
sempre, os títulos caem sempre. Quando estão suficientemente baixos, o país vai
ao mercado secundário e compra os seus próprios títulos de dívida – e é assim
que se vê livre dela, comprando-a por uma fracção do preço.
Mas quem é que
fica perder, perguntarão vocês? Bem, entendam, o negócio financeiro não tem por
objectivo criar riqueza, é tudo “dona branca”, é tudo esquemas em que uns
tentam sacar dinheiro a outros. Podia não ser assim, os países nórdicos vão
implementando esquemas para impedir que assim seja, mas nesta parte do mundo
dita de economia liberal é assim. No balanço, eles ganham sempre, mesmo quando
perdem alguma coisa, porque já ganharam antes nos juros usuários e já estão a
ganhar de novo noutra qualquer parte do mundo; por isso, o seu objectivo é
manter o processo.
Mas agora, ao FMI
juntou-se o BCE. Aparentemente, o BCE é muito mais sinistro que o FMI. E tem objectivos de Poder, não apenas de Dinheiro.
Sabendo que a
válvula de escape tem sido os países comprarem a sua própria dívida soberana no
mercado secundário, que faz o BCE? Adianta-se aos países e compra ele mesmo a
dita dívida, impedindo uma queda demasiadamente acentuada, impedindo essa
válvula de escape dos países.
Em nome de que teoria liberal é que o BCE intervém no mercado secundário?? O mercado não se
“auto-regula?” Ou o mercado só é “livre” quando convém aos bancos e “regulado”
quando não lhes convém??
Se o BCE fosse
uma instituição para defender os países, faria o mesmo que faz a reserva
federal americana e os outros bancos centrais – compram dívida para arquivar.
Mas não, o BCE não vai fazer nada disso, vai depois exigir aos países o
pagamento dessa dívida. E quem é o BCE? São os alemães!
Os gregos
conseguiram renegociar a sua dívida com os credores privados pois a estes o que
interessa é manter o processo; mas nós, quando a quisermos renegociar, ela vai
estar na mão do BCE; e acham que o BCE vai “perdoar” como fizeram os privados?
Não pode, não é verdade? Pois se os títulos foram comprados com o dinheiro dos
contribuintes alemães... então, o que acham que eles vão fazer?
sábado, março 03, 2012
As Teorias que nos regem são Ciência ou Bruxaria?
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| exadventistas.blogspot.com |
Há um conjunto de teorias que moldam o nosso entendimento do mundo e condicionam a tomada de decisões; serão teorias fiáveis?
Começando pela
teoria económica; vemos a situação económica resvalar continuamente, a
realidade sempre pior do que as previsões, um total desacerto entre as medidas
que se tomam, baseadas em certezas inabaláveis, e os resultados que delas se
obtêm.
Diz-se que a
Economia é muito boa a explicar o passado mas nula a prever o futuro. É
fantástico como a notícia da subida ou descida da bolsa é sempre acompanhada de
uma explicação “lógica”; mas se a bolsa tem um comportamento lógico, porque é
que nunca sabem prever o dia seguinte?
Será que a
Economia é simplesmente algo que ultrapassa a nossa inteligência, a realidade é
tão complexa que a não conseguimos dominar? Estamos condenados a sofrer crise
atrás de crise, mesmo nesta era de abundância?
Na análise desta questão, ocorre-me uma
pergunta: o que é que os dinamarqueses pensarão da Economia? Para os
dinamarqueses, a Economia é Ciência certa! As previsões batem certinho, se é
preciso mudar alguma coisa, tomam-se medidas e as coisas aparecem corrigidas
como pretendido. Para os dinamarqueses, suecos, noruegueses... para quase toda
a gente, afinal... para os chineses...
Os chineses sabem
exactamente o que pretendem e como o conseguir. A sua Economia é Ciência certa.
Não interessa se o gato é branco ou preto, eles caçam sempre o rato! Já quase
não há ratos na China, desaparecem a um ritmo vertiginoso.
Aqui, ao
contrário, nada caça os ratos! Os ratos são a miséria das pessoas, a pobreza, o
atraso, a exploração.
Afinal, a
Economia só não é Ciência certa nos países que seguem a economia dita liberal,
a economia do Milton Friedman! Nos outros países, a Economia parece funcionar
muito bem. O problema não está na ciência económica, está na teoria que aqui se
segue!
Mas não é só a
Economia; a teoria do Aquecimento Global não acerta e, no entanto, continua a
ser afirmada como um facto. Desde que há registos de temperaturas por estes
lados, só houve um mês de Fevereiro tão frio como o último. A Terra está a
arrefecer há mais de uma década, mas isso não perturba os cientistas nem os
políticos: a Terra arrefece por causa do aquecimento! Isto depois de terem negado o
arrefecimento durante anos, até que a wikileaks invadiu o seu correio e
desmascarou o encobrimento do arrefecimento. As pessoas comuns não sabem, mas
quem tem um mínimo de conhecimentos de Física sabe há muito tempo que o
aquecimento global é uma fraude. Descarada. Despudorada. Como é possível manter
tal embuste a tão larga escala e contra as evidências? Afinal, pode-se enganar
toda a gente durante todo o tempo?
Bom, e que dizer
da teoria do Big Bang? O Universo é composto em 96% por matéria negra e energia
negra?? Como a teoria não acerta com o Universo... cria-se um Universo de
fantasia e afirma-se que o que conhecemos... não existe! Nem o Ptolomeu chegou
a tanto. Pura bruxaria. Mas, para as pessoas comuns, crentes hoje na Ciência
como dantes na Igreja, nada disto é estranho; nem o facto de os próprios nomes
serem os mesmos que os bruxos usam é capaz de as alertar, pelo contrário!
Espantoso. A verdade é que parece mesmo possível enganar toda a gente durante
todo o tempo – no fundo, as religiões sempre o fizeram...
Bem, e a Teoria
Atómica? A “partícula de Deus” ia ser descoberta no dealbar deste terceiro
milénio com o novo mega-acelerador, não era? Que piada! Desde a invenção do
neutrino que a teoria atómica não acerta uma previsão, esta “partícula de Deus”
é apenas o culminar da cadeia de disparates que tem sido construída. Claro que
não descobriu nada nem descobrirá – como eu previ e escrevi, o mega-acelerador
começou por não entrar em funcionamento e agora finge que vai obtendo
resultados importantes. Para quem lá trabalha, trata-se de ir aguentado a coisa
até à reforma.
E não acaba aqui,
há mais disparates, como este que já referi em post antigo. E, é claro, não foi
um meteoro que aniquilou os Dinossáurios; e sim, isso é um fenómeno repetitivo
e vai voltar a acontecer.
Bem, parece que
toda a Ciência que se tem feito depois de Einstein no chamado ocidente não
passa de ... Bruxaria!!!! Não é assim, há muita Ciência para além dessa; mas há
uma Ciência feita ao serviço das crenças e dos interesses, que se recusa a
aceitar o erro. É por isso que a Economia do ocidente é tão disparatada como
tudo o resto – isso não é uma limitação da Economia, é apenas desta Economia.
Isto tudo é
disfarçado com a Tecnologia, essa sim, essa é que tem evoluído e é responsável
por toda a evolução da sociedade – é que na tecnologia o projecto tem mesmo de
estar correcto, inventar energias negras ou partículas divinas não resolve.
Não são inócuos
estes disparates; em relação à Economia, o resultado é que em plena época da
abundância, fruto da árvore da Tecnologia, grande parte da população ocidental
vive em condições crescentemente miseráveis; em relação às outras teorias,
roubam-nos o entendimento deste fantástico Universo e atrasam o nosso
desenvolvimento, tal como as teorias do Aristóteles e do Ptolomeu o fizeram
durante 2 milénios (não por culpa deles, mas por quem não foi capaz de as
ultrapassar) e deixam-nos à mercê de catástrofes como a que vitimou os
Dinossáurios e não só. Como pode uma humanidade que acredita em energias
negras, matérias negras, partículas de Deus e outras coisas do mesmo calibre,
que adopta teorias económicas baseadas no elogio da Ganância, ganhar o direito ao
Futuro?
Estes disparates
teóricos subsistem porque há quem tenha interesse neles, evidentemente; claro
que há interesses fortes por detrás do Aquecimento Global, tão fortes que
conseguem que as pessoas aceitem como certa uma teoria que prevê o oposto do
que toda a gente vê; e as pessoas aceitam esta teoria porque no fundo lhes
agrada, o truque está aí, em dar às pessoas o que elas querem e que sirva o
interesse de quem o promove – é assim que funcionam as igrejas, os vigaristas,
os políticos.
E no caso da
Economia? Que interesses são esses?
É isso que vamos
ver... é uma pena a wikileaks não ter
violado o correio dos bancos centrais... mas isso seria perigoso demais é
claro...
domingo, fevereiro 26, 2012
O TABU
(foto tirada do blogue tabusdecavaco; origem desconhecida)
Lembram-se
daquele episódio das escutas do Cavaco? Não estranharam tanta histeria? O que é
que o Cavaco não quereria que fosse escutado? Se só havia uma suspeita, baseada nem se sabe em quê, não seria aconselhável alguma investigação antes
de se pôr a fazer comunicações ao País, como se alguém nos tivesse declarado
guerra, ou uma qualquer catástrofe natural tivesse assolado o território? Compreende-se a indignação mas não tanto a histeria; como
se explica isto?
Depois soube-se a
história do BPN, o Dias Loureiro, as acções, a casa no Algarve; pode-se
imaginar as conversas entre o Cavaco e o Dias Loureiro e os outros amigos
premiados com vivendas no Algarve. Isso sim, isso é motivo para pânico. Basta
passar os olhos sobre a matéria aqui exposta. Na dúvida de estar a ser
escutado, certamente que uma boa estratégia seria vir a público bramar que
estava a ser alvo de uma tramóia qualquer – quem quer que estivesse a escutá-lo
temeria divulgar essas escutas de forma assumida uma vez que a sua ilegalidade
já estava declarada (no caso do Sócrates, a ilegalidade das escutas já não serviu
de nada porque só foi “descoberta” depois da sua divulgação).
Esta história do
BPN também nos ajudou a perceber a política do TABU do Cavaco. Vejamos:
com os seus colegas economistas a nadarem em dinheiro, o Cavaco devia estar a
sentir-se algo estúpido em optar por cargos políticos de responsabilidade. Até
estou a ouvir a Maria a dizer: “então tu é que és o líder, o chefe, o mais
competente, e são os outros que andam a encher-se de dinheiro enquanto tu
pensas em candidatar-te a Presidente de República para teres imensas
responsabilidades e ganhares quase nada?” E agora, depois da nomeação do
Catroga, dirá: “Estás a ver? Os portugueses acham que tu ganhas muito, mas
pagam dez vezes mais ao Catroga, através da continha da electricidade, para ele
não fazer nada, e não refilam!!!” Sempre achei a Maria uma primeira-dama muito
contrariada e compreende-se: teve de prescindir da vida de professora, da sua
liberdade e de uma vida faustosa por causa da vontade política do marido. Ao contrário de outras primeiras-damas, a Maria só perde em sê-lo. Ou
seja, os tabus do Cavaco não foram tabus, ele simplesmente não sabia o que
decidir, se optar pela política e condenar-se a si e à família a ser o “parente pobre” e sem vida pessoal, ou
mandar passear a política e viver à grande e à francesa. Decisão difícil, de
facto. Respeito-o pela decisão que tomou porque ele tinha outras opções,
claramente vantajosas do ponto de vista pessoal.
Tudo isto faz
algum sentido, tanto o pânico com as escutas como as penosas decisões que aparentaram tabu. A verdade, porém, é sempre algo subtil, para além da lógica
aparente das coisas. Temos de procurar mais fundo. E, procurando mais fundo,
surge-me uma outra coisa: quem passou pelo Banco de Portugal está obrigado a
Sigilo para toda a vida. Sigilo indiscriminado, sobre tudo. Não será um pouco
excessivo? O Banco de Portugal não tem segredos comerciais, a sua actuação
deveria ser transparente, clara. Sigilo como os maçons? O Banco de Portugal é
alguma sociedade secreta?
É isso que
veremos no próximo post.
domingo, fevereiro 12, 2012
E se fosse ao contrário?
E se o BCE
emprestasse aos estados à mesma taxa de juro que empresta aos bancos? Se
injectasse 490 mil milhões de euros nas dívidas soberanas como fez com a banca?
É que, afinal, o
problema não é das dívidas soberanas, elas só se tornaram insustentáveis com a
subida da taxa de juro; o problema é da banca, que agora não tem como receber o
dinheiro emprestado porque com o aumento da desigualdade as pessoas estão mais
pobres. É por isso que os bancos começaram a falir. QUEM ESTÁ EM CRISE SÃO OS
BANCOS.
Portanto, nada
como ajudar os bancos, nomeando uma troika para os fiscalizar e impor-lhes
medidas de austeridade – ordenados obscenos dos seus gestores, pagos com a
nossa ajuda? Nem pensar. Luxos e regalias de toda a espécie para os empregados
da banca? Um corte já nos salários, um corte nos subsídios, um corte nas
pensões. Uma agência bancária em casa esquina? Sedes palacianas? Como se admite
um tal gasto de dinheiro em obras de construção civil? Redução das agências
bancárias para metade já (afinal, para que servem quando quase tudo se trata
pela net?) e despedimento dos empregados. Austeridade para a Banca!
Isto é o que
seria lógico, não é verdade? E seria assim se o banco central fosse nosso – dos
cidadãos – em vez de ser dos bancos.
Mas como quem
comanda está ao serviço dos bancos, o que fazem? Tapam os buracos dos bancos à custa dos dinheiros públicos,
cobrando taxas usuárias às dívidas soberanas, e à custa dos funcionários
públicos e, por arrasto, de todos os outros excepto (!!!!) os funcionários da
banca que mantêm todos os seus privilégios, dos administradores ao porteiro –
da banca que está à beira da falência.
Mas se a banca
falisse seria o caos, dirão; pois, mas assim vai falir na mesma; porque ao
empobrecerem as pessoas, mais as dívidas se tornarão incobráveis; ao subirem as
taxas de juro, menos as pessoas recorrerão ao crédito – estão a subir o preço
de um produto para além do seu valor ótimo, gerando lucros decrescentes.
Claro que estas coisas começam pelos mais fracos - o pessoal comenta à boca pequena: põe o dinheiro neste banco holandês, ou neste banco alemão; os depósitos nos bancos portugueses caem, as taxas são mais altas mas o pessoal não arrisca, os bancos portugueses vão falir mas entretanto os bancos alemães e holandeses estão a encher-se, para eles tudo bem, nada há a mudar no sistema. As regras são definidas pelos mais fortes desde que deixámos de ter governos ao serviço do povo.
Na verdade, o
verdadeiro problema não é a banca, é o empobrecimento da maioria das pessoas; e
só se sai daqui redistribuindo a riqueza e alterando as regras para que o
limite mínimo dos ordenados não seja o limiar da sobrevivência ou da revolta;
ora o que se está a fazer é o contrário, evidentemente, querem lá agora os mais
ricos “redistribuir a riqueza”? Lutarão até ao fim contra essa ideia. Só que
antigamente as pessoas podiam sobreviver da horta e hoje já não podem,
portanto, isto só não acabará numa revolta se entretanto os ricos perceberem
que não conseguem conservar a sua riqueza quando as pessoas empobrecem.
As sociedades
cuja riqueza está baseada na produção de bens, como a Alemanha, vão em breve
começar a perceber que a situação actual é insustentável. O actual sistema
económico implode quando a desigualdade ultrapassa certo valor porque isso
estrangula o fluxo financeiro.
terça-feira, janeiro 31, 2012
O capitalismo desenfreado dos financeiros
O actual sistema
económico ocidental caminha, conduzido pelas suas próprias regras, para um
desfecho: um mundo de escravos governado por uma pequenina minoria. Nada de
verdadeiramente novo na história da humanidade, que quase sempre existiu nesse
estado, pontualmente cortado por uma revolução que repôs alguma igualdade...
mas sempre durante pouco tempo.
A razão deste
desfecho no quadro actual é a seguinte.
Nas pequenas
actividades económicas, como os cafés, os cabeleireiros, as mercearias, é fácil
surgir uma nova empresa, um concorrente; isto estabelece pressão sobre a
qualidade dos serviços prestados ou dos bens produzidos, força a inovação, a
eficiência e mantém os preços baixos.
Nestas
actividades não se enriquece, vive-se.
Mas no mundo das
grandes empresas não é assim. Onde há grandes empresas, as pequenas
desaparecem, comidas pelas grandes; como uma nova grande empresa, ao contrário
das pequenas, não pode surgir do nada, não há novos concorrentes. Isto tem uma
consequência: estas empresas competem em termos de qualidade e inovação, mas
não em termos de preço. As áreas onde existem grandes empresas tornam-se
inacessíveis às outras e, por isso, estas cartelizam e tornam-se muito
lucrativas (repare-se no prodígio da TDT portuguesa, limitada a 4 canais para não provocar descida dos preços no cabo).
O preço nas áreas
de actividade onde as grandes empresas já eliminaram as pequenas é o que maximiza
o lucro global na respectiva área de actividade.
Por exemplo, o
preço da gasolina é o que maximiza o ganho das petrolíferas. Aumentar o preço
provocaria redução de consumo e menores lucros. O mesmo com o preço dos
chamadas de telemóveis, dos juros bancários, etc, etc.
A única área onde
as grandes empresas não fazem subir os preços é no retalho – porque aí o que
elas fazem é esmifrar os produtores, porque elas controlam o acesso ao mercado.
É por isso que os
juros das dívidas soberanas europeias sobem tanto – porque como o dinheiro
passou a ser propriedade do BCE e a sua colocação no mercado monopólio dos
bancos, estes fazem-no ao preço que maximiza os seus lucros – se subissem mais
os juros ou os Estados deixariam de pagar, como a Grécia, ou passariam sem o
empréstimo, como fez a Alemanha há pouco tempo.
Vejamos o caso do
petróleo; o preço do barril de petróleo continua muito baixo (muito mais baixo
do que o preço pelo qual pagamos a gasolina) porque não se consente que os
países produtores controlem o preço deste (quando estes ameaçam fazê-lo, são
atacados militarmente; é por isso que o Irão quer uma bomba nuclear ou, pelo
menos, quer conseguir chegar a uma situação em que os EUA pensem mesmo que eles
a podem ter, para poder controlar o preço do petróleo sem receio de que lhe
aconteça o mesmo que ao Iraque e Líbia).
Ora o dinheiro,
ao contrário do petróleo, é livremente controlado pelo BCE e sua clique de
banqueiros que, na Europa, se tornaram independentes do poder político. Os
árabes não podem controlar o preço do petróleo mas o BCE e os banqueiros podem
controlar o preço do dinheiro.
As grandes
empresas, como estão cotadas em bolsa, estão à mercê (nem todas, algumas
blindaram os estatutos) de quem disponha de uma coisa: dinheiro. Ora isso é o que
os bancos e os vários tipos de instituições financeiras têm. Por isso, as
grandes empresas vão sendo, uma após a outra, directamente ou indirectamente,
propriedade de bancos ou doutras instituições financeiras. Sabem qual é a
empresa mais poderosa do mundo ocidental? O Barclays. Entre as 10 empresas mais
poderosas do mundo há apenas um grupo industrial; ver aqui. E os bancos são
propriedade de quem? De uns quantos financeiros no mundo ocidental.
Assim, o mundo
ocidental acaba governado pelos seus financeiros. Como têm o dinheiro, são o
sustentáculo, logo os donos, dos partidos políticos. É por isso que temos os
governos a servirem o interesse dos banqueiros e não o das pessoas, em toda a
Europa, com a eventual excepção da Islândia. É por isso que os bancos centrais
são mais autónomos do poder político do que a justiça e se gerem por regras
mais secretas que as da maçonaria – como é que funciona o Banco de Portugal?
Donde vêm os seus lucros? Quem paga as pensões milionárias aos seus
ex-gestores? A quinta com cavalos? O BdP não pode cortar os subsídios e o de
Espanha pode??
Para acabar com a
actual crise das dívidas soberanas, basta o BCE emprestar aos Estados como o
faz à banca; mas essa possibilidade nem se põe. Porquê? Pode-se mudar os
tratados europeus, pode-se exigir perdas de soberania, alterar Constituições,
mas mexer no estatuto do BCE é que não!!! Em vez disso, o BCE andará a gastar
(imprimir) centenas de milhar de milhões de euros (até agora 500 mil milhões
segundo ouvi dizer) a comprar dívida soberana no mercado secundário a juros
fabulosos para enriquecer os bancos. Claro que há um problema de solvência da
banca, mas o dinheiro que falta aí não está nos bolsos das pessoas, está no incalculável poder económico acumulado pelos financeiros.
Os financeiros
não actuam para produzir uma sociedade melhor; o seu único objectivo é serem
cada vez mais ricos e a curto prazo. Aliás, nem têm muita escolha: neste sistema, ou se luta
para se ser o mais rico ou se fica o mais pobre.
O plano dos
financeiros, após terem conseguido a sua independência do poder político e o
controlo deste, consiste em ficarem donos de todas empresas dos chamados
monopólios naturais. As pessoas dependem da actividade dessas empresas, por
isso quem as detém pode espoliar todos os rendimentos das pessoas – é o
conhecido “golpe da cantina”, uma velha técnica de escravização de que já
falei. Reparem: estas empresas não podem ser compradas na bolsa, foi preciso
inventar um esquema para conseguir pôr a mão nelas, estão a perceber?
Com a
privatização das empresas públicas e a consequente instauração do “sistema de
cantina”, rapidamente se chegará a um estado final tipo marajás das Índias: uns
quantos imensamente ricos servidos por uma multidão de escravos. Esta situação
desenha-se a traços largos em todos os países da Europa; não nos iludamos pelos
altos valores dos ordenados mínimos noutros países: em termos de paridade de
poder de compra, uma grande parte da população em toda a Europa vive em
condições mínimas de sobrevivência, qualquer que seja o país
Este é o objectivo
essencial do plano dos banqueiros; o ataque às dívidas soberanas é apenas um
passo intermédio, que serve este objectivo. Vender as empresas públicas não
altera rigorosamente nada o problema da dívida soberana, este existe qualquer
que seja o valor da dívida (a dívida da Espanha é das mais pequenas da Europa,
do mundo); essa exigência das troikas não tem nada a ver com a regularização
das contas públicas, é um objectivo em si mesmo. Repare-se na metodologia:
começa-se por privatizar as empresas lucrativas, como a EDP, e tornam-se
lucrativas as que o não são, como nos transportes com a subida dos preços, e
depois é que se privatizam; ora vender empresas lucrativas só piora as contas
públicas, não as melhora. Além disso, as verbas que se encaixam com estas
privatizações são ridiculamente pequenas, sem qualquer significado no montante
da dívida pública.
Este plano teria
sido inexoravelmente bem sucedido se, felizmente para nós, não existisse um
país no mundo com outro sistema económico, com força suficiente para intervir e
com boas relações com os portugueses.
Na China, o
Governo é que detém o poder económico. Um Governo é eleito e tem sempre na sua
agenda melhorar as condições de vida das pessoas. Por isso, entre o capitalismo
desenfreado dos financeiros, que não têm quaisquer responsabilidades sociais, e
um capitalismo regulado pelo Estado, o segundo é muito melhor para as pessoas.
Foi assim que os países ocidentais se desenvolveram, até que os Estados
perderam o poder económico e desde então as condições de vida de grande parte
das pessoas só piorou. Evidentemente. Porque o poder financeiro visa
objectivamente o empobrecimento das pessoas, o aumento da desigualdade, o único
processo de conseguirem o enriquecimento rápido.
Mas atenção: não
são os chineses que vão fazer esta guerra por nós. Eles estão na guerra deles,
os governantes chineses não são eleitos por nós, estão apenas a usar-nos para
os seus objectivos, que não são os nossos, embora tenhamos um inimigo comum. Os
nossos aliados têm de ser os povos europeus, a começar pelos gregos, espanhóis
e italianos. A união faz a força e quem tiver medo do “contágio” vai morrer;
somos patos a serem caçados de trás para a frente, sem perceberem que o que
aconteceu ao de trás acontece depois a eles.
Esta guerra ainda
está a começar. E nós, os portugueses, podemos ter uma responsabilidade
especial nela. Penso mesmo que aqui é o único sítio da Europa
onde a guerra se pode começar a ganhar.
No próximo post
vou falar de uma coisa muito interessante: o tabu do Cavaco Silva, o pânico das
escutas, o papel do Constâncio e outros detalhes desta operação. E depois vou
começar a apresentar a minha contribuição para esta guerra.
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