sábado, maio 26, 2012

O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 2



(continuado)

A Regulação é imprescindível


 (imagem daqui)

Vimos que uma economia de competição tende (na ausência de regulação), como qualquer competição pura, a terminar-se; e “terminar”, no caso desta economia, significa chegar a um estado em que uns poucos controlam toda a riqueza produzida e os outros subsistem no limiar de sobrevivência – que é o estado em que a sociedade humana tem existido a maior parte do tempo desde que deixou a organização tribal. A este estado terminal chamo “escravatura”. Neste estado, a sociedade já não se desenvolve e a única forma dos ricos continuarem a enriquecer é através da luta entre eles – o mais forte conquista a riqueza do mais fraco (esta conquista pode ser feita pela força das armas ou pelas regras do mercado, é para isso, em parte, que umas e outras são como são).

Vimos também, como é evidente, que uma condição necessária ao sucesso deste sistema económico é que ele origine o enriquecimento de toda a população, mesmo que desigual – ou seja, o crescimento absoluto da riqueza dos mais ricos tem de ser inferior ao crescimento absoluto da riqueza total porque o contrário implica o empobrecimento de parte da população.

Uma característica do crescimento económico que se pode intuir dos dados existentes é que a taxa de crescimento parece ser inversamente proporcional à desigualdade; este fenómeno torna, a partir de certo valor da desigualdade, explosivo o empobrecimento de parte crescente da sociedade, e conduz rapidamente à situação terminal, ou seja, à escravatura.

Ter estas 3 características dum sistema económico de competição bem presentes é muito importante.

Portanto, um sistema económico de competição não se auto-regula; ele carece de um sistema político que exerça efectivamente essa regulação ou tende fatalmente para a escravatura ou para uma revolução, militar ou popular.

Esta regulação pode ser feita admitindo maior ou menor desigualdade; ou seja, mais regulação para conseguir menor desigualdade, ou então reduzir a regulação para aumentar a desigualdade. Não se presuma que existe um ponto ótimo de equilíbrio – os sistemas activos nunca têm um equilíbrio estático, o equilíbrio é sempre dinâmico, ou seja, é um estado oscilatório de amplitude controlada.

Num sistema democrático, é o voto dos eleitores que decide isto, através de dois partidos políticos, em que ambos se comprometem com as medidas comuns (combate à corrupção, legislação clara, justiça eficiente) mas um aplica as medidas de alargamento e reequilíbrio da competição (regulação) e o outro as destrói; os eleitores escolhem um ou outro dos partidos para governar consoante sentem que lhes convém mais o reforço da componente competitiva ou da equilibrante. Esses dois partidos são os partidos ditos do “centro”, o da componente competitiva é o do “centro-direita” e o da componente equilibrante é o do “centro-esquerda”. No caso americano, são os Republicanos e os Democratas; no caso português são o PSD e o PS. Ambos estes partidos defendem o sistema competitivo da economia mas têm papéis opostos na sua regulação. O ponto de equilíbrio que definem pode situar-se mais à direita, como acontece em nos EUA, ou mais à esquerda, como acontece na Dinamarca. Note-se que a função dos partidos não é meramente económica e a organização da sociedade não se resume à Economia, mas é apenas disso que me ocupo agora.

Os partidos ditos da extrema, direita ou esquerda, são contra o sistema competitivo na economia e é por isso que afirmam que os partidos do centro são apenas duas faces do mesmo.

O problema maior da regulação é que os governantes tendem a acabar reféns dos mais ricos e deixarem de fazer a regulação do sistema; daí a necessidade de inventar um poder “incorruptível” acima dos partidos, como um monarca ou um presidente, ou de desenvolver sistemas de fiscalização da acção dos governantes; mas estes sistemas também acabam reféns, propriedade, dos mais ricos, como acontece com os media. Actualmente, há a esperança de que a internet, associada ao aumento do conhecimento das pessoas, possa constituir um sistema de fiscalização robusto (razão pela qual é alvo de ataques como este; qualquer dia, até os comentários do tripadvisor serão proibidos...)

Quando se iniciou a globalização económica, as medidas de controlo do enriquecimento dos mais ricos deixaram de poder ser aplicadas porque o espaço económico transcendeu o espaço político – impedir uma empresa nacional de crescer demasiado seria limitar a sua capacidade competitiva a nível mundial. Instalou-se a desregulação. Isto abriu portas à especulação financeira – os capitais deixaram de “ter pátria”, fugiram aos impostos e a todos os mecanismos de controlo. O desequilíbrio disparou e grande parte das pessoas deixou de enriquecer. A regulação da economia “foi-se”.

 As pessoas votaram “à esquerda” onde isso estava a suceder – EUA e nos países do sul da Europa. Porém, controlar o crescimento da desigualdade num quadro em que a economia ultrapassa a política é impossível. Nos EUA esse controlo nunca foi totalmente perdido, mas nos países da Europa foi; por isso, os governos de esquerda nos países do Sul da Europa, apesar de tomarem algumas medidas correctas, apenas conseguiram atrasar um pouco o agravar da situação. Os eleitores votaram então à direita e abriram a porta à catástrofe, porque a receita da direita é a desregulação, o aumento da desigualdade – exactamente o oposto do que precisam os países mais pobres. Isso é bom porque como não há inteligência suficiente para entender o processo económico, porque somos ignorantes, egoístas e gananciosos, dependemos de sofrer na pele as consequências dessa ignorância e desse egoísmo para percebermos porque é que temos de agir doutra maneira – e quanto mais depressa o erro se tornar claro, mais depressa se poderá corrigi-lo.

Entretanto, em todo o mundo se fecham agora as portas à globalização. Quem não quiser uma sociedade de escravos tem de repor rapidamente a regulação da Economia, submetê-la à política e não o contrário. O sábio Obama comanda, as recentes nacionalizações na América do Sul terão o seu dedo. Todas as potências emergentes têm ferozes políticas de proteção das actividades nacionais, mais fortes do que alguma vez existiram, como a obrigatoriedade de capitais nacionais para todas as empresas que queiram operar no seu país e a aplicação de taxas alfandegárias elevadíssimas; e até o barramento de acesso a conteúdos nacionais na net a partir do estrangeiro (?!). E na Europa?

quarta-feira, maio 09, 2012

O que a Economia e o Desporto têm de comum? - 1


Uma coisa que nos caracteriza é o nosso instinto competitivo; estamos sempre prontos para competir seja em que área for; somos uma espécie de galos de combate.

Enquanto acharmos que podemos ganhar, competimos. É por isso que não dispensamos os joguinhos de computador. Competimos nos jogos e competimos em tudo o que tem a ver com a vida: competimos para sermos o mais popular, competimos pelo emprego, para sermos ricos, para ter o parceiro (a) mais interessante, o carro melhor, a casa mais agradável, etc. Claro que cada um de nós não anda a competir em todas as frentes, mas há sempre uma ou outra em que concentramos a nossa competitividade. A “boa educação” é, em parte, sabermos controlar as nossas reacções competitivas fora de contexto.

Eu distingo dois tipos de competição: a primária, que visa o nosso exclusivo interesse, e a secundária, que serve também os interesses dos outros – exemplo desta segunda é o desejo de ser o mais útil, de contribuir para a máxima felicidade do nosso parceiro (a), etc.

O desporto é uma criação humana que representa o quadro mais perfeito de competição primária que conseguimos conceber. E esse quadro tem uma característica fundamental: está organizado de tal maneira que todos os competidores (os atletas) tenham, em princípio, as mesmas possibilidades de ganhar. Isso reflete-se, por exemplo, no facto de o desporto estar dividido por níveis, idades, sexo e, nalgumas modalidades, por peso.

Uma modalidade é o futebol profissional; ora bem, neste quadro de competição definido com tantos cuidados de igualdade, o que acontece? Acontece que se estabelece uma enorme desigualdade naquilo que os jogadores ganham: tal como na economia a que pertencemos, o 1% dos jogadores mais bem pagos arrecadam uma fatia enorme das receitas totais do futebol; e uma fatia cada vez maior.

Apesar das abissais diferenças de salários, um clube mais pobre pode ainda ganhar uns joguitos a clubes maiores – a razão é que a diferença de qualidade em valor absoluto é pequena. A diferença de ordenados é que é enorme porque não interessa quanto vale a diferença de um jogador para outro em valor absoluto mas apenas em valor relativo – o jogador que pertence ao lote dos 1% melhores adquire uma imensa cotação de mercado e vale imenso dinheiro porque há muito dinheiro no mundo actual e essa pequena diferença que ele dá à sua equipa permite a esta ganhar imenso dinheiro.

Esta é uma característica incontornável de um sistema de competição primário: as pequenas vantagens pagam-se a peso de ouro e a desigualdade na distribuição das recompensas cresce sempre.

Sendo os recursos limitados, esta tendência dos sistemas competitivos faria desaparecer os mais fracos, ou seja, os clubes mais pequenos; só que o futebol não pode reduzir-se aos 3 ou 4 maiores, não é verdade? Contra quem jogariam eles? Então, o sistema de futebol tem de manter os clubes pequenos e por isso tem de ter um sistema de redistribuição de receitas que os aguente ou acaba-se o futebol.

Um sistema competitivo primário tende para um vencedor que elimina todos os outros. Aplica-se-lhe a frase do filme Duelo Imortal (Highlander): “no final só pode haver um”. Para manter indefinidamente um sistema assim, só há duas maneiras: ou o “jogo” recomeça sempre que chega ao fim ou existem mecanismos que beneficiam os que ficam para trás e vão reequilibrando a competição.

Vejamos agora a Economia
.
O objectivo da Economia é maximizar a produção de riqueza; a solução capitalista é o uso da competição. No entanto, como já se viu, esta competição tem de ser regulada para que não se termine.

Consideremos o caso dos fabricantes de automóveis – dos inúmeros que existiam há meio século, hoje o número de fabricantes independentes conta-se pelos dedos (embora cada um deles apresente várias marcas) e, deixando as regras da competição pura funcionar, num futuro não muito distante existirá um único dono de toda a indústria automóvel (será, provavelmente, um grupo chinês...). Ora a competição findava-se nesta altura e isso não pode acontecer. Portanto, a Economia tem de contemplar mecanismos que impeçam o fim da competição e isso é basicamente, por um lado, estimular o aparecimento de novos competidores e, por outro, limitar o crescimento dos maiores, nomeadamente impedindo aquisições, fusões, cartelizações e mesmo cindindo empresas. É necessário, portanto, uma acção de regulação. Saber quanta regulação aplicar é que não é fácil – se esta for excessiva, abafa a competição e diminui a produção de riqueza; se for de menos, dispara a desigualdade e cai-se na situação do futebol em que os clubes pequenos abririam falência e os grandes deixavam de ter contra quem jogar. Como equilibrar a regulação com a desregulação?

Isso poderia ser feito “científicamente”, para isso existem múltiplos índices que permitem saber em que direção actuar. Porém, definir o ponto de equilíbrio é um assunto político; e como se resolve isso por via política?

(continua)

sábado, abril 28, 2012

O Mistério das Crises



A evolução das sociedades humanas segue um padrão sistemático: começa por uma associação de pessoas que têm de juntar esforços para sobreviverem; para cada um, é óbvio que a melhor forma de melhorar as suas condições de vida nesta fase inicial é agir em função do interesse colectivo.

Depois, começando a sociedade a ter riqueza, a organizar-se, surge a desigualdade de riqueza e de poder; e a desigualdade tende a crescer imparavelmente porque os mais ricos têm mais capacidade de enriquecer do que os outros.

A princípio, isto não é um problema, porque o enriquecimento da sociedade chega para enriquecer todos; mas como a taxa de crescimento dos ricos é superior à taxa média, ou seja, do PIB, a taxa de enriquecimento da maioria das pessoas torna-se cada vez mais pequena; por outro lado, por várias razões, a taxa de crescimento do PIB também abranda em função do crescimento da desigualdade. Portanto, dois fenómenos ocorrem: a taxa de enriquecimento dos ricos é crescente e a da sociedade é decrescente a partir de certa altura.

Destes dois efeitos chega-se fatalmente à situação em que o enriquecimento de uns, por ser maior em valor absoluto do que o enriquecimento da sociedade, acaba por implicar o empobrecimento de outros; então, a desigualdade dispara até ao ponto em que todos, menos os mais ricos dos ricos, atingem o limiar da sobrevivência. Este meu post de 2008 mostra isso, tal como o vídeo acima. Aí, a sociedade estagna, fica no seu ponto extremo, em que uns poucos controlam a quase totalidade da riqueza produzida pela sociedade e os outros subsistem no limiar da sobrevivência e da dignidade, ou abaixo disto.

A Idade Média foi isto, a sociedade dividida entre os senhores e os servos.

Esta situação é nefasta por duas grandes razões; uma é que produz a estagnação ou mesmo o retrocesso da sociedade e a outra é que este não é certamente o tipo de sociedade desejado pela maioria das pessoas, não se assemelha em nada a um “paraíso na Terra”, antes a um “castigo de Deus”.

Quando ocorre uma súbita abundância, seja devida a uma conquista, a um período de melhor clima, a um progresso tecnológico, que abre uma janela de crescimento da sociedade, alguns dos pobres podem ficar menos pobres, originando o aparecimento da chamada “classe média”; também as guerras, ao produzirem maciça destruição, abrem no pós-guerra uma oportunidade de crescimento que decorre da reconstrução do que foi destruído e fortalecem por isso a classe média. Quando se esgota essa janela de crescimento, a classe média volta a desaparecer. De vez em quando, aqui e ali, os pobres recorrem à força do seu número e fazem uma revolução, que momentaneamente repõe alguma igualdade na sociedade, mas logo se reinicia o mesmo processo infernal.

Portanto, compreendamos bem o processo: o estado para que tende uma sociedade humana em que cada um age em função do seu interesse imediato é caracterizado por existirem uns poucos que detêm a quase totalidade da riqueza produzida e os outros serem mais ou menos escravos desses. Como os ricos não podem coexistir, porque cada um quer sempre ser mais rico, acabam por estabelecer “territórios”, que podem ser geográficos ou por áreas de actividade. Portugal nasceu porque um tal Afonso Henriques quis ser mais rico e poderoso do que o que lhe estava destinado. 

Os ricos não são melhores nem piores do que os pobres, são simplesmente pessoas cujo objectivo na vida é ser rico ou poderoso e o conseguiram. Apenas nos períodos em que uma sociedade é capaz de crescer surgem as “luzes da civilização” porque então existem pessoas que podem sobreviver sem estar inseridas na luta de ratos, uns contra os outros, pelo enriquecimento ou pela sobrevivência.

Na Natureza as coisas parecem não ser muito diferentes, ocorrendo saltos evolutivos a seguir a catástrofes que eliminam grande parte dos seres vivos e deixam espaço para os sobreviventes não terem de disputar a sobrevivência uns contra os outros - não parece ser a adversidade que gera a evolução mas a oportunidade a seguir à adversidade.

Portanto, não tenhamos ilusões: uma sociedade humana entregue a si mesma desemboca fatalmente nesse quadro. Apenas a existência de um poder que permita que as pessoas ajam em função do interesse colectivo pode conduzir a uma sociedade melhor; o enfraquecimento ou incompetência desse poder determina a fatal evolução acima descrita. Esse poder é o poder Político. Como é óbvio, o poder Político tem de estar sempre acima do poder dos ricos, ou seja, do poder do Mercado.

Como é óbvio também, não é isso que acontece na Europa. Compreender como chegámos a isto é importante para percebermos como podemos corrigir a situação. Disso falarei no próximo texto.

quarta-feira, abril 11, 2012

O Titanic Europeu


Desde que começou o corrente milénio que o mundo ocidental anda em crise. Ou seja, EUA e Europa, pois no resto do mundo não há crise, apenas os problemas do costume.


Apontam-se causas para aqui e para ali, culpam-se estes e aqueles... os pobres culpam os ricos por enriquecerem demais, os ricos culpam os pobres por "viverem acima das suas posses", todos culpamos a corrupção que por aí grassa... o ruído do costume quando ninguém sabe o que se passa. Como todos têm culpas, é fácil apontar o dedo; mas será que está aí a verdadeira causa do problema?

Hoje ainda não está esclarecida a causa da crise de 1929, quase um século depois; diferentes explicações estão ainda em discussão, as duas mais usuais sendo
 a) tratou-se de uma crise de superprodução devido ao aumento dos ganhos de eficiência e quebra no boom de produção que se deu para a reconstrução da Europa a seguir à primeira grande guerra, conforme previsto por Ford e Keynes;
 b) deveu-se à política anti-inflacionista da Reserva Monetária dos EUA.

Ambas estas eventuais causas podem também ser apontadas à actual situação europeia (as exportações podem entrar em crise devido ao fim da globalização económica, com os países em todo o mundo a adoptarem fortes medidas proteccionistas).

A crise de 1929 resolveu-se, pensa a maioria dos analistas, pelas medidas do New Deal.

Estas políticas económicas do New Deal, completamente inovadoras na altura, foram racionalizadas por Keynes na sua obra clássica Teoria geral do juro, do emprego e da moeda.

Duas dessas medidas foram o investimento maciço em obras públicas e a diminuição da jornada de trabalho – e por aqui se vê que estamos a andar ao contrário, pois se essas medidas serviram para sair de uma depressão, certamente que o seu oposto não serve o mesmo fim; a crise actual acontece apesar dessas medidas e não por causa delas.

O certo é que houve quem previsse a crise de 1929 e pusesse em prática uma política que a resolveu (mas não foi fácil nem rápido nem indolor) e iniciou um longo período de prosperidade. E agora estamos numa crise que ninguém parece entender e não podemos pensar que quem não entende o que se passa lhe dê remédio.

O pensamento por detrás do New Deal é o oposto do que está por detrás das actuais medidas, é o que conduz a um Estado que é social, forte e interventivo na economia – exactamente aquilo que os actuais gurus abominam. A resolução da crise deveu-se sobretudo à acção de Roosevelt, que mobilizou a nação toda para enfrentar a crise e teve a força política para fazer o que queria, especialmente no que se refere ao sistema financeiro. Fez dos seus primeiros 100 dias de governo a “pedra de toque” da saída da crise, tendo tomado uma imensidão de medidas, e é por isso que desde então os governos são avaliados ao fim de 100 dias.

Não nos iludamos com “boas” notícias como a de que o deficit das contas externas diminuiu – ao que parece diminuiu porque estamos a exportar ouro! Nós não produzimos ouro, pois não? Estamos literalmente a vender os anéis; quando se acabarem os anéis vamos vender o quê? E o que é que isso significa em termos do drama social a caminho? Quanto à produção industrial, está em queda, a factura dos combustíveis não para de aumentar a uma taxa assustadora e a importação de alimentos tem uma redução insignificante – ninguém consegue travar a importação de alimentos?

Na Europa, há apenas preparações para a grande catástrofe, como o aprovisionamento de fundos financeiros de socorro; será que os fundos vão conseguir aguentar a catástrofe? E se não forem? Se não forem, começa-se por deixar cair a periferia para tentar salvar o centro... por isso continuam a dizer que a “Grécia ainda não está livre de sair do euro”... bem, e nós estamos no mesmo caminho, não é? Na verdade, estamos tão acelerados que não tarda a nossa crise poderá ser muito maior do que a grega.

Temos de ter isto bem presente: a Europa não está a resolver a crise, está a barricar-se; e nós vamos ficar do lado de fora da barricada assim que as coisas se agravarem. Nenhuma medida foi tomada que altere o quadro de fundo e não, o problema não está na dívida soberana – se estivesse, a Espanha não estava em crise porque tem uma dívida soberana mínima.

Quando se afundou o Titanic, o que aconteceu aos passageiros de terceira classe? Ficaram fechados no interior do navio enquanto os passageiros de primeira se punham a salvo nos botes. E havia botes para quase toda a gente porque o Titanic só levava cerca de 1/3 dos passageiros que podia levar; o pânico dos ricos determinou a morte dos pobres.

É isto que está a acontecer: os passageiros de primeira estão a ocupar os seus lugares nos botes salva-vidas e enquanto a tripulação vai entretendo os de terceira, dando-lhes coisas para fazerem e dizendo-lhes: a gente já vos vem salvar, estejam tranquilos, estamos a tratar de tudo. É o que os países “ricos” da Europa estão a fazer com os outros países e é o que os ricos (os muito e os pouco ricos) em Portugal estão a fazer com outros portugueses – a tripulação são os governos, fraquinhos perante os ricos, a tentarem manter a maralha sossegada enquanto os ricos se salvam. Aquilo que Roosevelt fez, a mobilização geral da nação, não existe aqui, apenas se pede ao povo sacrifícios e paciência; e que não sejam piegas. O governo fala para os portugueses tal como os tripulantes do Titanic para os passageiros da terceira classe.

Para que serve a actual discussão dos limites ao deficit? É para levar a sério? Tem alguma hipótese de ser cumprida? Claro que não, é só para manter os “passageiros da terceira” entretidos, dar a ilusão de que se está a fazer alguma coisa para evitar a crise e no fim poder dizer: a culpa é vossa, não cumpriram o pacto.

Notem que eu não estou a apelar uma qualquer revolta, pelo contrário, estou a tentar evitá-la; porque quando for necessário reduzir de novo o ordenado dos funcionários públicos e as pensões dos reformados, e a taxa de desemprego passar dos 20%, ou dos 25%, é o que pode acontecer; e depois é que será o caos completo. E é isso que vai acontecer em breve. Sacrifícios vai ser preciso fazer, mas as pessoas precisam de sentir que os sacrifícios são iguais e não é isso que está acontecer – o sacrifício dos subsídios não é o mesmo para uma pessoa que ganha 1000 euros ou para uma que ganha dez vezes mais. E, além disso, as pessoas precisam de saber que os sacrifícios conduzem a algum lado, e também não é isso que está a acontecer, não há nenhum desenho de uma sociedade melhor pela frente, apenas se perspectiva um progressivo afundar das condições de vida.

Tive uma avó que dizia que só a morte não tem remédio; e é bem verdade. O que temos a fazer é encontrar uma solução para isto. Os americanos resolveram a crise de 1929 e estão a resolver esta também, aplicando basicamente a mesma receita, que é o oposto do que a Europa anda a fazer. Nós também havemos de ser capazes de encontrar uma solução, desde que pensemos no assunto.

sexta-feira, março 30, 2012

Manda quem for O Mais Rico

D. Dinis, o "Rei Rico"


Há tempos, vi uma reportagem na TV onde um jornalista perguntava a um angolano se achava bem que o J. Eduardo dos Santos (JES) fosse a pessoa mais rica de Angola; a resposta, dada com toda a tranquilidade, foi: se fosse outro o mais rico, seria outro a mandar.

Esse angolano está certíssimo mas nós, com a cabeça cheia de utopias simplórias e ideias erradas, não percebemos que essa é tendencialmente a realidade. Não é o Puttin o mais rico da Rússia? A sua fortuna pessoal passou do zero às dezenas de milhares de milhões de euros em duas décadas... Os Bush e os Kennedy não são das famílias mais ricas dos EUA? O candidato republicano Mitt Romney também tem uma fortuna pessoal de umas centenas de milhões de euros... que se saiba...

A história mostra que a riqueza é indispensável ao Poder, mesmo a nossa: o rei D. Dinis, na sequência do esforço iniciado por D. Afonso II, tratou de se tornar o mais rico do país, enfrentando nobres e clero, e assim ter o poder que lhe permitiu, graças à sua enorme visão política, fazer finalmente de Portugal um país.

A Igreja Católica tornou-se poderosa porque enriqueceu; aqueles que criticam a riqueza da Igreja percebem muito pouco do ser humano; e a ostentação da riqueza é tão essencial à Igreja como a qualquer pessoa que queira ter poder pessoal.

O Poder escorre para as mãos dos ricos naturalmente; qualquer pequenina manifestação de riqueza dá logo vantagem. Os ricos não têm de fazer nada para terem mais poder, são as outras pessoas que se apressam a elevá-los, a endeusá-los. Além disso, a verdade é que a generalidade das pessoas se vende, a honestidade é um mito que se alimenta da falta de oportunidade, toda a pessoa (as eventuais excepções são irrelevantes) tem o seu preço.

Esta relação entre poder e riqueza existe à escala dos países – o país mais poderoso é o que for mais rico. Na Europa, é a Alemanha; no mundo, são os EUA. E ser mais rico é evidentemente uma vantagem porque o mais rico tem mais capacidade de enriquecer do que os outros. A única forma de um país menos rico não ser esmagado nesta economia é violando as suas regras, que é o que fazem todos os países, protegendo as suas actividades internas e gerindo a globalização na medida dos seus interesses. A comunidade europeia faz o mesmo em relação à sua fronteira externa, enquanto internamente franceses e alemães enriquecem à custa dos países do sul do Europa, que deixaram de proteger os seus interesses; os pequenos países da CE desenvolveram esquemas que lhes permitem subsistir parasitando os outros países, nomeadamente através das offshores que criam e mantêm em territórios fora do controlo económico.

O sistema democrático visa ultrapassar o maior problema das sociedades humanas: o abuso do poder, tornando-o temporário, limitado, e acessível a qualquer pessoa que as outras entendam ser a mais adequada. Mas quem é escolhido para governar tem de ter poder e isso só é possível se, enquanto governante, for o mais rico –  o Estado tem de ser mais rico que o mais rico dos ricos. Como é que os pais fundadores da democracia conseguiram isso? De diversas maneiras, nomeadamente estas 3: impostos, leis anti-monopólio e o poder de emitir dinheiro, através do controlo do “banco central”; esta é a pedra de toque do poder do Estado.

No entanto, se essas medidas garantiam poder aos vencedores das eleições, não impediam que quem for mais rico tenha mais capacidade de ganhar eleições; e, assim, e por diversos caminhos, os mais ricos passaram geralmente a controlar o poder político. O sistema americano dá a um candidato a possibilidade de ser momentaneamente rico com as doações para a campanha, o que teoricamente dá a qualquer pessoa a possibilidade de fazer frente aos ricos.

Como se sabe, o poder exerce uma enorme atração e, por isso, não falta quem se julgue como o mais capaz de exercer o poder. Os Reis e os Religiosos, porque são uma emanação de Deus, os Militares porque a Força está com eles, os Cientistas porque são donos do Conhecimento, os Juízes porque são o poder acima de todos os outros, os Tecnocratas porque são eles que fazem as coisas, os Financeiros porque são eles quem controla o dinheiro. Todos eles já sonharam conquistar o poder político, directa ou indirectamente.

Porém, agora está a ocorrer algo de novo!

Se existe esta relação directa entre riqueza e poder, então para quê perder tempo com o poder político? Se se puder ser mais rico que os Estados, comanda-se o Mundo; o papel dos políticos é tornado inútil, e com eles esse custo improdutivo representado pelas eleições, o mundo gere-se como se fosse uma grande empresa.

Como é que se pode ser mais rico que os Estados? Controlando os bancos centrais e sobrecarregando os Estados com despesas para que as receitas de impostos se tornem insuficientes. Por isso, a obtenção do poder absoluto, a capacidade de regular os destinos do mundo, passa por estas duas únicas coisas; e quem é pode conseguir isto? Apenas os Financeiros.

Notemos que os Financeiros já conseguiram ser donos de quase tudo – neste mundo competitivo todas as empresas têm de recorrer à banca para aumentarem a sua capacidade competitiva; mas ao fazê-lo colocam-se na dependência destes e acabam controladas pelos bancos. É por isso que actualmente quase todas as grandes empresas são controladas por grupos financeiros. Um pequeno número de grupos financeiros domina quase toda a actividade económica; as leis anti-monopólio perderam a eficácia porque as empresas "concorrentes" têm por detrás, em muitos casos, os mesmos grupos. Este pilar do poder do Estado já caiu.

No próximo post vamos ver o esquema genial inventado pelos financeiros para controlarem totalmente o mundo ocidental.

Notemos que os financeiros não são “os maus” – eles são tão “maus” como todos nós sempre prontos a abusar do poder, disponíveis para ficarmos mais ricos se surgir a oportunidade (apenas a falta desta nos alimenta a ilusão de que “somos melhores”); mas foram mais espertos e conseguiram aquilo que nós não conseguimos; porém, se continuarmos a ser burros, vamos ter uma vidinha miserável, por isso é melhor que comecemos a abrir os olhos.

sábado, março 17, 2012

A malandrice do BCE


tirei esta imagem daqui; recomendo vivamente o blogue. 

Ao ler a coluna do Luís Duque no Expresso tive um “flash”: percebi a última malandrice do BCE!

Este texto não é o que estava previsto na sequência do anterior mas vem muito a propósito do que ando a querer expor; ora vejam:

Sabem como é que alguns ou todos os países que têm sido intervencionados pelo FMI por este mundo fora (as intervenções do FMI são como as operações militares dos EUA... há sempre uma razão para intervirem nesta ou naquela parte do mundo...) se têm livrado dele?

Como a intervenção do FMI conduz a uma recessão crescente, os títulos da dívida soberana desse país caem no mercado secundário; e como a recessão cresce sempre, os títulos caem sempre. Quando estão suficientemente baixos, o país vai ao mercado secundário e compra os seus próprios títulos de dívida – e é assim que se vê livre dela, comprando-a por uma fracção do preço.

Mas quem é que fica perder, perguntarão vocês? Bem, entendam, o negócio financeiro não tem por objectivo criar riqueza, é tudo “dona branca”, é tudo esquemas em que uns tentam sacar dinheiro a outros. Podia não ser assim, os países nórdicos vão implementando esquemas para impedir que assim seja, mas nesta parte do mundo dita de economia liberal é assim. No balanço, eles ganham sempre, mesmo quando perdem alguma coisa, porque já ganharam antes nos juros usuários e já estão a ganhar de novo noutra qualquer parte do mundo; por isso, o seu objectivo é manter o processo.

Mas agora, ao FMI juntou-se o BCE. Aparentemente, o BCE é muito mais sinistro que o FMI. E tem objectivos de Poder, não apenas de Dinheiro.

Sabendo que a válvula de escape tem sido os países comprarem a sua própria dívida soberana no mercado secundário, que faz o BCE? Adianta-se aos países e compra ele mesmo a dita dívida, impedindo uma queda demasiadamente acentuada, impedindo essa válvula de escape dos países.

Em nome de que teoria liberal é que o BCE intervém no mercado secundário?? O mercado não se “auto-regula?” Ou o mercado só é “livre” quando convém aos bancos e “regulado” quando não lhes convém??

Se o BCE fosse uma instituição para defender os países, faria o mesmo que faz a reserva federal americana e os outros bancos centrais – compram dívida para arquivar. Mas não, o BCE não vai fazer nada disso, vai depois exigir aos países o pagamento dessa dívida. E quem é o BCE? São os alemães!

Os gregos conseguiram renegociar a sua dívida com os credores privados pois a estes o que interessa é manter o processo; mas nós, quando a quisermos renegociar, ela vai estar na mão do BCE; e acham que o BCE vai “perdoar” como fizeram os privados? Não pode, não é verdade? Pois se os títulos foram comprados com o dinheiro dos contribuintes alemães... então, o que acham que eles vão fazer?

sábado, março 03, 2012

As Teorias que nos regem são Ciência ou Bruxaria?

exadventistas.blogspot.com

Há um conjunto de teorias que moldam o nosso entendimento do mundo e condicionam a tomada de decisões; serão teorias fiáveis?


Começando pela teoria económica; vemos a situação económica resvalar continuamente, a realidade sempre pior do que as previsões, um total desacerto entre as medidas que se tomam, baseadas em certezas inabaláveis, e os resultados que delas se obtêm.

Diz-se que a Economia é muito boa a explicar o passado mas nula a prever o futuro. É fantástico como a notícia da subida ou descida da bolsa é sempre acompanhada de uma explicação “lógica”; mas se a bolsa tem um comportamento lógico, porque é que nunca sabem prever o dia seguinte?

Será que a Economia é simplesmente algo que ultrapassa a nossa inteligência, a realidade é tão complexa que a não conseguimos dominar? Estamos condenados a sofrer crise atrás de crise, mesmo nesta era de abundância?

 Na análise desta questão, ocorre-me uma pergunta: o que é que os dinamarqueses pensarão da Economia? Para os dinamarqueses, a Economia é Ciência certa! As previsões batem certinho, se é preciso mudar alguma coisa, tomam-se medidas e as coisas aparecem corrigidas como pretendido. Para os dinamarqueses, suecos, noruegueses... para quase toda a gente, afinal... para os chineses...

Os chineses sabem exactamente o que pretendem e como o conseguir. A sua Economia é Ciência certa. Não interessa se o gato é branco ou preto, eles caçam sempre o rato! Já quase não há ratos na China, desaparecem a um ritmo vertiginoso.

Aqui, ao contrário, nada caça os ratos! Os ratos são a miséria das pessoas, a pobreza, o atraso, a exploração.

Afinal, a Economia só não é Ciência certa nos países que seguem a economia dita liberal, a economia do Milton Friedman! Nos outros países, a Economia parece funcionar muito bem. O problema não está na ciência económica, está na teoria que aqui se segue!

Mas não é só a Economia; a teoria do Aquecimento Global não acerta e, no entanto, continua a ser afirmada como um facto. Desde que há registos de temperaturas por estes lados, só houve um mês de Fevereiro tão frio como o último. A Terra está a arrefecer há mais de uma década, mas isso não perturba os cientistas nem os políticos: a Terra arrefece por causa do aquecimento! Isto depois de terem negado o arrefecimento durante anos, até que a wikileaks invadiu o seu correio e desmascarou o encobrimento do arrefecimento. As pessoas comuns não sabem, mas quem tem um mínimo de conhecimentos de Física sabe há muito tempo que o aquecimento global é uma fraude. Descarada. Despudorada. Como é possível manter tal embuste a tão larga escala e contra as evidências? Afinal, pode-se enganar toda a gente durante todo o tempo?

Bom, e que dizer da teoria do Big Bang? O Universo é composto em 96% por matéria negra e energia negra?? Como a teoria não acerta com o Universo... cria-se um Universo de fantasia e afirma-se que o que conhecemos... não existe! Nem o Ptolomeu chegou a tanto. Pura bruxaria. Mas, para as pessoas comuns, crentes hoje na Ciência como dantes na Igreja, nada disto é estranho; nem o facto de os próprios nomes serem os mesmos que os bruxos usam é capaz de as alertar, pelo contrário! Espantoso. A verdade é que parece mesmo possível enganar toda a gente durante todo o tempo – no fundo, as religiões sempre o fizeram...

Bem, e a Teoria Atómica? A “partícula de Deus” ia ser descoberta no dealbar deste terceiro milénio com o novo mega-acelerador, não era? Que piada! Desde a invenção do neutrino que a teoria atómica não acerta uma previsão, esta “partícula de Deus” é apenas o culminar da cadeia de disparates que tem sido construída. Claro que não descobriu nada nem descobrirá – como eu previ e escrevi, o mega-acelerador começou por não entrar em funcionamento e agora finge que vai obtendo resultados importantes. Para quem lá trabalha, trata-se de ir aguentado a coisa até à reforma.

E não acaba aqui, há mais disparates, como este que já referi em post antigo. E, é claro, não foi um meteoro que aniquilou os Dinossáurios; e sim, isso é um fenómeno repetitivo e vai voltar a acontecer.

Bem, parece que toda a Ciência que se tem feito depois de Einstein no chamado ocidente não passa de ... Bruxaria!!!! Não é assim, há muita Ciência para além dessa; mas há uma Ciência feita ao serviço das crenças e dos interesses, que se recusa a aceitar o erro. É por isso que a Economia do ocidente é tão disparatada como tudo o resto – isso não é uma limitação da Economia, é apenas desta Economia.

Isto tudo é disfarçado com a Tecnologia, essa sim, essa é que tem evoluído e é responsável por toda a evolução da sociedade – é que na tecnologia o projecto tem mesmo de estar correcto, inventar energias negras ou partículas divinas não resolve.

Não são inócuos estes disparates; em relação à Economia, o resultado é que em plena época da abundância, fruto da árvore da Tecnologia, grande parte da população ocidental vive em condições crescentemente miseráveis; em relação às outras teorias, roubam-nos o entendimento deste fantástico Universo e atrasam o nosso desenvolvimento, tal como as teorias do Aristóteles e do Ptolomeu o fizeram durante 2 milénios (não por culpa deles, mas por quem não foi capaz de as ultrapassar) e deixam-nos à mercê de catástrofes como a que vitimou os Dinossáurios e não só. Como pode uma humanidade que acredita em energias negras, matérias negras, partículas de Deus e outras coisas do mesmo calibre, que adopta teorias económicas baseadas no elogio da Ganância, ganhar o direito ao Futuro?

Estes disparates teóricos subsistem porque há quem tenha interesse neles, evidentemente; claro que há interesses fortes por detrás do Aquecimento Global, tão fortes que conseguem que as pessoas aceitem como certa uma teoria que prevê o oposto do que toda a gente vê; e as pessoas aceitam esta teoria porque no fundo lhes agrada, o truque está aí, em dar às pessoas o que elas querem e que sirva o interesse de quem o promove – é assim que funcionam as igrejas, os vigaristas, os políticos.

E no caso da Economia? Que interesses são esses?

É isso que vamos ver...  é uma pena a wikileaks não ter violado o correio dos bancos centrais... mas isso seria perigoso demais é claro...

(Imagino que muitos leitores estejam escandalizados com as minhas afirmações sobre as mais famosas teorias da actualidade; com o tempo, porém, provarei tudo o que digo, se a tal me for dada oportunidade)

domingo, fevereiro 26, 2012

O TABU

(foto tirada do blogue tabusdecavaco; origem desconhecida)


Lembram-se daquele episódio das escutas do Cavaco? Não estranharam tanta histeria? O que é que o Cavaco não quereria que fosse escutado? Se só havia uma suspeita, baseada nem se sabe em quê, não seria aconselhável alguma investigação antes de se pôr a fazer comunicações ao País, como se alguém nos tivesse declarado guerra, ou uma qualquer catástrofe natural tivesse assolado o território? Compreende-se a indignação mas não tanto a histeria; como se explica isto?

Depois soube-se a história do BPN, o Dias Loureiro, as acções, a casa no Algarve; pode-se imaginar as conversas entre o Cavaco e o Dias Loureiro e os outros amigos premiados com vivendas no Algarve. Isso sim, isso é motivo para pânico. Basta passar os olhos sobre a matéria aqui exposta. Na dúvida de estar a ser escutado, certamente que uma boa estratégia seria vir a público bramar que estava a ser alvo de uma tramóia qualquer – quem quer que estivesse a escutá-lo temeria divulgar essas escutas de forma assumida uma vez que a sua ilegalidade já estava declarada (no caso do Sócrates, a ilegalidade das escutas já não serviu de nada porque só foi “descoberta” depois da sua divulgação).

Esta história do BPN também nos ajudou a perceber a política do TABU do Cavaco. Vejamos: com os seus colegas economistas a nadarem em dinheiro, o Cavaco devia estar a sentir-se algo estúpido em optar por cargos políticos de responsabilidade. Até estou a ouvir a Maria a dizer: “então tu é que és o líder, o chefe, o mais competente, e são os outros que andam a encher-se de dinheiro enquanto tu pensas em candidatar-te a Presidente de República para teres imensas responsabilidades e ganhares quase nada?” E agora, depois da nomeação do Catroga, dirá: “Estás a ver? Os portugueses acham que tu ganhas muito, mas pagam dez vezes mais ao Catroga, através da continha da electricidade, para ele não fazer nada, e não refilam!!!” Sempre achei a Maria uma primeira-dama muito contrariada e compreende-se: teve de prescindir da vida de professora, da sua liberdade e de uma vida faustosa por causa da vontade política do marido. Ao contrário de outras primeiras-damas, a Maria só perde em sê-lo. Ou seja, os tabus do Cavaco não foram tabus, ele simplesmente não sabia o que decidir, se optar pela política e condenar-se a si e à família a ser o “parente pobre” e sem vida pessoal, ou mandar passear a política e viver à grande e à francesa. Decisão difícil, de facto. Respeito-o pela decisão que tomou porque ele tinha outras opções, claramente vantajosas do ponto de vista pessoal.

Tudo isto faz algum sentido, tanto o pânico com as escutas como as penosas decisões que aparentaram tabu. A verdade, porém, é sempre algo subtil, para além da lógica aparente das coisas. Temos de procurar mais fundo. E, procurando mais fundo, surge-me uma outra coisa: quem passou pelo Banco de Portugal está obrigado a Sigilo para toda a vida. Sigilo indiscriminado, sobre tudo. Não será um pouco excessivo? O Banco de Portugal não tem segredos comerciais, a sua actuação deveria ser transparente, clara. Sigilo como os maçons? O Banco de Portugal é alguma sociedade secreta?

É isso que veremos no próximo post.

domingo, fevereiro 12, 2012

E se fosse ao contrário?

E se o BCE emprestasse aos estados à mesma taxa de juro que empresta aos bancos? Se injectasse 490 mil milhões de euros nas dívidas soberanas como fez com a banca?


É que, afinal, o problema não é das dívidas soberanas, elas só se tornaram insustentáveis com a subida da taxa de juro; o problema é da banca, que agora não tem como receber o dinheiro emprestado porque com o aumento da desigualdade as pessoas estão mais pobres. É por isso que os bancos começaram a falir. QUEM ESTÁ EM CRISE SÃO OS BANCOS.

Portanto, nada como ajudar os bancos, nomeando uma troika para os fiscalizar e impor-lhes medidas de austeridade – ordenados obscenos dos seus gestores, pagos com a nossa ajuda? Nem pensar. Luxos e regalias de toda a espécie para os empregados da banca? Um corte já nos salários, um corte nos subsídios, um corte nas pensões. Uma agência bancária em casa esquina? Sedes palacianas? Como se admite um tal gasto de dinheiro em obras de construção civil? Redução das agências bancárias para metade já (afinal, para que servem quando quase tudo se trata pela net?) e despedimento dos empregados. Austeridade para a Banca!

Isto é o que seria lógico, não é verdade? E seria assim se o banco central fosse nosso – dos cidadãos – em vez de ser dos bancos.

Mas como quem comanda está ao serviço dos bancos, o que fazem?  Tapam os buracos dos bancos à custa dos dinheiros públicos, cobrando taxas usuárias às dívidas soberanas, e à custa dos funcionários públicos e, por arrasto, de todos os outros excepto (!!!!) os funcionários da banca que mantêm todos os seus privilégios, dos administradores ao porteiro – da banca que está à beira da falência.

Mas se a banca falisse seria o caos, dirão; pois, mas assim vai falir na mesma; porque ao empobrecerem as pessoas, mais as dívidas se tornarão incobráveis; ao subirem as taxas de juro, menos as pessoas recorrerão ao crédito – estão a subir o preço de um produto para além do seu valor ótimo, gerando lucros decrescentes.

Claro que estas coisas começam pelos mais fracos - o pessoal comenta à boca pequena: põe o dinheiro neste banco holandês, ou neste banco alemão; os depósitos nos bancos portugueses caem, as taxas são mais altas mas o pessoal não arrisca, os bancos portugueses vão falir mas entretanto os bancos alemães e holandeses estão a encher-se, para eles tudo bem, nada há a mudar no sistema. As regras são definidas pelos mais fortes desde que deixámos de ter governos ao serviço do povo.

Na verdade, o verdadeiro problema não é a banca, é o empobrecimento da maioria das pessoas; e só se sai daqui redistribuindo a riqueza e alterando as regras para que o limite mínimo dos ordenados não seja o limiar da sobrevivência ou da revolta; ora o que se está a fazer é o contrário, evidentemente, querem lá agora os mais ricos “redistribuir a riqueza”? Lutarão até ao fim contra essa ideia. Só que antigamente as pessoas podiam sobreviver da horta e hoje já não podem, portanto, isto só não acabará numa revolta se entretanto os ricos perceberem que não conseguem conservar a sua riqueza quando as pessoas empobrecem.

As sociedades cuja riqueza está baseada na produção de bens, como a Alemanha, vão em breve começar a perceber que a situação actual é insustentável. O actual sistema económico implode quando a desigualdade ultrapassa certo valor porque isso estrangula o fluxo financeiro.

terça-feira, janeiro 31, 2012

O capitalismo desenfreado dos financeiros



O actual sistema económico ocidental caminha, conduzido pelas suas próprias regras, para um desfecho: um mundo de escravos governado por uma pequenina minoria. Nada de verdadeiramente novo na história da humanidade, que quase sempre existiu nesse estado, pontualmente cortado por uma revolução que repôs alguma igualdade... mas sempre durante pouco tempo.

A razão deste desfecho no quadro actual é a seguinte.

Nas pequenas actividades económicas, como os cafés, os cabeleireiros, as mercearias, é fácil surgir uma nova empresa, um concorrente; isto estabelece pressão sobre a qualidade dos serviços prestados ou dos bens produzidos, força a inovação, a eficiência e mantém os preços baixos.

Nestas actividades não se enriquece, vive-se.

Mas no mundo das grandes empresas não é assim. Onde há grandes empresas, as pequenas desaparecem, comidas pelas grandes; como uma nova grande empresa, ao contrário das pequenas, não pode surgir do nada, não há novos concorrentes. Isto tem uma consequência: estas empresas competem em termos de qualidade e inovação, mas não em termos de preço. As áreas onde existem grandes empresas tornam-se inacessíveis às outras e, por isso, estas cartelizam e tornam-se muito lucrativas (repare-se no prodígio da TDT portuguesa, limitada a 4 canais para não provocar descida dos preços no cabo).

O preço nas áreas de actividade onde as grandes empresas já eliminaram as pequenas é o que maximiza o lucro global na respectiva área de actividade.

Por exemplo, o preço da gasolina é o que maximiza o ganho das petrolíferas. Aumentar o preço provocaria redução de consumo e menores lucros. O mesmo com o preço dos chamadas de telemóveis, dos juros bancários, etc, etc.

A única área onde as grandes empresas não fazem subir os preços é no retalho – porque aí o que elas fazem é esmifrar os produtores, porque elas controlam o acesso ao mercado.

É por isso que os juros das dívidas soberanas europeias sobem tanto – porque como o dinheiro passou a ser propriedade do BCE e a sua colocação no mercado monopólio dos bancos, estes fazem-no ao preço que maximiza os seus lucros – se subissem mais os juros ou os Estados deixariam de pagar, como a Grécia, ou passariam sem o empréstimo, como fez a Alemanha há pouco tempo.

Vejamos o caso do petróleo; o preço do barril de petróleo continua muito baixo (muito mais baixo do que o preço pelo qual pagamos a gasolina) porque não se consente que os países produtores controlem o preço deste (quando estes ameaçam fazê-lo, são atacados militarmente; é por isso que o Irão quer uma bomba nuclear ou, pelo menos, quer conseguir chegar a uma situação em que os EUA pensem mesmo que eles a podem ter, para poder controlar o preço do petróleo sem receio de que lhe aconteça o mesmo que ao Iraque e Líbia).

Ora o dinheiro, ao contrário do petróleo, é livremente controlado pelo BCE e sua clique de banqueiros que, na Europa, se tornaram independentes do poder político. Os árabes não podem controlar o preço do petróleo mas o BCE e os banqueiros podem controlar o preço do dinheiro.

As grandes empresas, como estão cotadas em bolsa, estão à mercê (nem todas, algumas blindaram os estatutos) de quem disponha de uma coisa: dinheiro. Ora isso é o que os bancos e os vários tipos de instituições financeiras têm. Por isso, as grandes empresas vão sendo, uma após a outra, directamente ou indirectamente, propriedade de bancos ou doutras instituições financeiras. Sabem qual é a empresa mais poderosa do mundo ocidental? O Barclays. Entre as 10 empresas mais poderosas do mundo há apenas um grupo industrial; ver aqui. E os bancos são propriedade de quem? De uns quantos financeiros no mundo ocidental.

Assim, o mundo ocidental acaba governado pelos seus financeiros. Como têm o dinheiro, são o sustentáculo, logo os donos, dos partidos políticos. É por isso que temos os governos a servirem o interesse dos banqueiros e não o das pessoas, em toda a Europa, com a eventual excepção da Islândia. É por isso que os bancos centrais são mais autónomos do poder político do que a justiça e se gerem por regras mais secretas que as da maçonaria – como é que funciona o Banco de Portugal? Donde vêm os seus lucros? Quem paga as pensões milionárias aos seus ex-gestores? A quinta com cavalos? O BdP não pode cortar os subsídios e o de Espanha pode??

Para acabar com a actual crise das dívidas soberanas, basta o BCE emprestar aos Estados como o faz à banca; mas essa possibilidade nem se põe. Porquê? Pode-se mudar os tratados europeus, pode-se exigir perdas de soberania, alterar Constituições, mas mexer no estatuto do BCE é que não!!! Em vez disso, o BCE andará a gastar (imprimir) centenas de milhar de milhões de euros (até agora 500 mil milhões segundo ouvi dizer) a comprar dívida soberana no mercado secundário a juros fabulosos para enriquecer os bancos. Claro que há um problema de solvência da banca, mas o dinheiro que falta aí não está nos bolsos das pessoas, está no incalculável poder económico acumulado pelos financeiros.

Os financeiros não actuam para produzir uma sociedade melhor; o seu único objectivo é serem cada vez mais ricos e a curto prazo. Aliás, nem têm muita escolha: neste sistema, ou se luta para se ser o mais rico ou se fica o mais pobre.

O plano dos financeiros, após terem conseguido a sua independência do poder político e o controlo deste, consiste em ficarem donos de todas empresas dos chamados monopólios naturais. As pessoas dependem da actividade dessas empresas, por isso quem as detém pode espoliar todos os rendimentos das pessoas – é o conhecido “golpe da cantina”, uma velha técnica de escravização de que já falei. Reparem: estas empresas não podem ser compradas na bolsa, foi preciso inventar um esquema para conseguir pôr a mão nelas, estão a perceber?

Com a privatização das empresas públicas e a consequente instauração do “sistema de cantina”, rapidamente se chegará a um estado final tipo marajás das Índias: uns quantos imensamente ricos servidos por uma multidão de escravos. Esta situação desenha-se a traços largos em todos os países da Europa; não nos iludamos pelos altos valores dos ordenados mínimos noutros países: em termos de paridade de poder de compra, uma grande parte da população em toda a Europa vive em condições mínimas de sobrevivência, qualquer que seja o país

Este é o objectivo essencial do plano dos banqueiros; o ataque às dívidas soberanas é apenas um passo intermédio, que serve este objectivo. Vender as empresas públicas não altera rigorosamente nada o problema da dívida soberana, este existe qualquer que seja o valor da dívida (a dívida da Espanha é das mais pequenas da Europa, do mundo); essa exigência das troikas não tem nada a ver com a regularização das contas públicas, é um objectivo em si mesmo. Repare-se na metodologia: começa-se por privatizar as empresas lucrativas, como a EDP, e tornam-se lucrativas as que o não são, como nos transportes com a subida dos preços, e depois é que se privatizam; ora vender empresas lucrativas só piora as contas públicas, não as melhora. Além disso, as verbas que se encaixam com estas privatizações são ridiculamente pequenas, sem qualquer significado no montante da dívida pública.

Este plano teria sido inexoravelmente bem sucedido se, felizmente para nós, não existisse um país no mundo com outro sistema económico, com força suficiente para intervir e com boas relações com os portugueses.

Na China, o Governo é que detém o poder económico. Um Governo é eleito e tem sempre na sua agenda melhorar as condições de vida das pessoas. Por isso, entre o capitalismo desenfreado dos financeiros, que não têm quaisquer responsabilidades sociais, e um capitalismo regulado pelo Estado, o segundo é muito melhor para as pessoas. Foi assim que os países ocidentais se desenvolveram, até que os Estados perderam o poder económico e desde então as condições de vida de grande parte das pessoas só piorou. Evidentemente. Porque o poder financeiro visa objectivamente o empobrecimento das pessoas, o aumento da desigualdade, o único processo de conseguirem o enriquecimento rápido.

Mas atenção: não são os chineses que vão fazer esta guerra por nós. Eles estão na guerra deles, os governantes chineses não são eleitos por nós, estão apenas a usar-nos para os seus objectivos, que não são os nossos, embora tenhamos um inimigo comum. Os nossos aliados têm de ser os povos europeus, a começar pelos gregos, espanhóis e italianos. A união faz a força e quem tiver medo do “contágio” vai morrer; somos patos a serem caçados de trás para a frente, sem perceberem que o que aconteceu ao de trás acontece depois a eles.

Esta guerra ainda está a começar. E nós, os portugueses, podemos ter uma responsabilidade especial nela. Penso mesmo que aqui é o único sítio da Europa onde a guerra se pode começar a ganhar.

No próximo post vou falar de uma coisa muito interessante: o tabu do Cavaco Silva, o pânico das escutas, o papel do Constâncio e outros detalhes desta operação. E depois vou começar a apresentar a minha contribuição para esta guerra.