quarta-feira, janeiro 11, 2012

Génese e evolução da Crise



Esta crise e as anteriores têm a sua origem profunda num erro filosófico, que será abordado num próximo texto; mas mudar esse erro não é fácil, pelo que o que interessa para já são as causas directas da crise, a fim de percebermos o que podemos esperar do futuro próximo.

Vou dar uma explicação muito simples, não completamente correcta mas reveladora do busílis da questão, de acordo com o meu entendimento.

Existe uma certa quantidade de dinheiro físico. Na Europa, o BCE imprime todos os anos mais um pouco – não sei qual é o montante, arbitremos 2%. Portanto, excluindo o resto do Mundo do nosso raciocínio, o montante de dinheiro cresce à taxa de 2% ao ano.

Este dinheiro está aonde? Nos bancos. Que fazem os bancos com ele? Emprestam. Vamos supor que o emprestam todo e que a taxa média de juro que conseguem é 10%. Então, ao fim de 1 ano, a dívida representa 110% do dinheiro inicial; este, por sua vez, aumentou os 2% que o BCE imprimiu. Temos, portanto, que ao fim de 1 ano a dívida é quase 8% mais do que o dinheiro existente.

Ou seja, o total em dívida supera o dinheiro existente devido às taxas de juros serem superiores ao dinheiro introduzido pelo BCE; e esta diferença cresce anualmente (na verdade, cresce também por outra razão, mas não compliquemos porque esta é que é mais relevante devido ao seu efeito cumulativo).

Se ao fim de 1 ano as dívidas tivessem de ser todas pagas mais os juros, haveria uma crise porque não haveria dinheiro suficiente.

Os financeiros sabem disso, e têm uma solução: não querem que lhes paguem as dívidas, querem é que lhes paguem os juros. Por isso emprestam indiscriminadamente e com prazos a perder de vista.

As pessoas têm empréstimos para a casa, carro, etc; o que elas pagam por mês é quase só juros, as amortizações são a 40 anos (até para carros...). Portanto, o real encargo das pessoas não é a dívida, são os juros da dívida.

Assim, o problema só surge quando os juros excedem o dinheiro existente - os devedores deixam de poder pagar os juros. O crescimento da desigualdade agrava a situação.

É nessa altura que estala a crise: ao deixar de receber os juros, os credores querem reaver os créditos (os bancos têm de depositar no banco central as dívidas em falha) e gera-se uma “corrida às dívidas”. Uma corrida sem solução porque simplesmente não existe dinheiro físico suficiente para o total em dívida. Ainda por cima, parte do dinheiro físico está retido como reserva, uma medida destinada a evitar a “corrida à banca”. O sistema financeiro acautelou a “corrida à banca”, porque ela já aconteceu no passado, mas não acautelou a “corrida à dívida”.

Como se resolve isto? Há várias maneiras. Uma é “redistribuir a riqueza”, que consiste em o Estado cobrar mais sobre os altos ganhos dos financeiros e injectar esse dinheiro na base da economia; outra consiste em reajustamentos de taxas de juros a valores mais baixos; outra é o banco central “comprar” dívida incobrável à banca que depois não cobra, o que equivale a injectar dinheiro no montante da diferença entre o dinheiro real e o crédito (esta solução foi inventada pelos japoneses); outra é anular parcialmente as dívidas.

Porém, quando toca a haver crise, todos querem é safar-se o mais rapidamente possível. Renegociar os empréstimos baixando os juros? Nem pensar, isso iria diminuir os ganhos. Há é que aumentar os juros para tentar sacar o máximo dinheiro antes que se acabe.

No Japão e nos EUA ainda há quem mande no sistema financeiro e por isso surgem algumas medidas adequadas, como redistribuição de riqueza, a intervenção do banco central na dívida soberana, embora indirecta, e a compra pelo banco central de crédito mal-parado.

A Europa, sem qualquer controlo político sobre o sistema financeiro, tem um esquema próprio desenvolvido por este. Um esquema em duas fases.

A primeira fase consiste em meter muito dinheiro na banca para que ela possa gerir os créditos mal-parados. Onde é que se vai buscar esse dinheiro? Aos bolsos dos pobres, naturalmente, pois são os ricos que definem o jogo e não querem corrigir a situação indo aos seus próprios bolsos. E como? Através das dívidas soberanas.

O facto de o BCE não intervir directamente nas dívidas soberanas deixou estas sem capacidade de negociação e os seus juros podem subir ilimitadamente. Isto é uma mina de ouro para a banca.

Percebamos o processo: a Banca compra os títulos de dívida soberana e revende ao BCE, ganhando uma taxa enorme no processo. A banca tem um negócio fabuloso, o de intermediário entre as dívidas públicas e o BCE. Todo o dinheiro dos cidadãos comuns irá ser escoado para o pagamento dos juros da dívida, ou seja, para a Banca. Notem que o BCE comprar os títulos é indispensável ao processo porque, como veremos, eles vão ficar incobráveis.

 Como é que os Estados vão arranjar dinheiro para pagar os altos juros?

Compreendamos a situação: imaginem que têm um empréstimo para compra de casa, pelo qual pagam 500 euros por mês. Um bom investimento, pois se arrendassem uma casa pagariam o mesmo ou mais e não teriam nada. Comprar casa própria é um investimento e uma poupança. Agora imaginem que recebem uma carta do banco a dizer que resolveram unilateralmente subir os juros, pois há falta de crédito, e que passam a pagar 1700 euros por mês! O vosso ordenado é de 1000 euros. Vocês dizem ao banco que não podem pagar isso. O banco então acha-se no direito de entrar na vossa vida e desatar a vender os vossos bens, sacar o dinheiro todo que tiverem e ainda vos insulta, seus malandros, a quererem ter casa com dinheiro que não é vosso – vão é viver para debaixo da ponte, seus caloteiros.

Isto é mais ou menos o que se passa com as dívidas soberanas.

Assim, os financeiros entram nos Estados e impõem a “Austeridade”. Austeridade mas não para os ricos. Corta-se nos ordenados e nos direitos sociais. Duas coisas que não afectam os ricos. Impostos sobre o capital, parcerias público-privadas, fundações, denúncia de dívidas fraudulentas mesmo quando a fraude já está provada, como no caso dos submarinos, isso não!

Os críticos da austeridade dizem que ela corta o crescimento e que sem crescimento não há dinheiro para pagar dívidas; são uns utópicos, o crescimento não interessa nada aos financeiros, ele não fabrica dinheiro;  “crescimento” num lado significa decrescimento noutro lado, para os financeiros é irrelevante, o que interessa é sacar o mais possível do pouco dinheiro físico que existe. O que falta não é produção, é dinheiro físico, pura e simplesmente, e o objectivo é sacar o máximo de dinheiro já já; se o país fica destruído, se as empresas fecham, se as pessoas passam fome, isso não interessa nada, cada um trata dos seus interesses. Na verdade, isso é a consequência necessária do saque que é preciso fazer para que os interesses dos ricos não fiquem prejudicados. Vamos viver para “debaixo da ponte”.

Mas por maior que seja a “austeridade” nunca se pode obter o dinheiro necessário porque ele não existe. A austeridade esvazia os trocos dos bolsos dos pobres mas depois não há mais trocos.

Entendamos o seguinte: na Europa, os bancos são apenas retalhistas do dinheiro. O produtor do dinheiro é o BCE. A Banca tem o exclusivo do retalho deste produto, que o BCE produz em monopólio; o BCE faz como qualquer outro monopolista: produz nas quantidades que mais aumentam o seu ganho – se produzisse mais euros, o euro desvalorizava-se e ele tinha menos ganho. Ele e a Banca, pois isso baixaria os juros. O BCE e a Banca são uma entidade só, a desempenhar dois papéis. Estados, cidadãos, empresas, são todos clientes do retalhista do dinheiro, que é a Banca.

Os bancos vão ter de enfrentar muito crédito incobrável porque as pessoas ficam sem dinheiro para pagar os empréstimos, mas vão ser compensados pelos ganhos na intermediação entre as dívidas soberanas e o BCE. Este processo transfere para o Estado, ou seja, para todos nós os que dependemos directa ou indirectamente dele, o problema gerado pelo excesso de ganhos financeiros. A banca transforma assim os seus ganhos virtuais em dinheiro real extraindo o dinheiro real das pessoas.

Entendamos: criou-se um dinheiro virtual de que todos beneficiámos, uns mais do que outros; mas agora o dinheiro virtual dos ricos é substituído por dinheiro real e o nosso dinheiro real desaparece e o virtual esfuma-se através da utilização de uma ferramenta chamada “Austeridade”.

No fim desta primeira fase, o BCE está cheio de títulos de dívida soberana, que comprou no mercado secundário; que vai ele fazer com esses títulos? Cobrá-los? Como, se não há dinheiro??

Ele não vai cobrá-los, o que o BCE tem a fazer é escrevinhar os títulos na contabilidade do BCE e deixá-los lá arquivadinhos. O BCE apenas está a fazer aquilo que todos os bancos centrais fazem, comprar dívida soberana para arquivo, só que usando a Banca como intermediário, pois a Banca é o seu retalhista exclusivo.

 Mas há uma diferença para os outros bancos centrais; os outros estão ao serviço do seu país, arquivam a dívida porque isso serve os interesses desse país. O BCE não está ao serviço de nada a não ser de si próprio. Ele irá querer negociar alguma vantagem, qual? uma perca de soberania? Os senhores do dinheiro vão tomar conta do poder político? Será que a Merkel consegue alterar os tratados a tempo e de forma a retirar poderes ao BCE? Ou também ela está ao serviço do BCE?

E o nosso governo está ao serviço de quem?

Pessoalmente, penso que por agora vamos ser salvos pela ameaça chinesa – com as pernas a tremer de medo perante o Dragão, o BCE vai arquivar já já as dívidas soberanas para travar a entrada da mitológica criatura.

terça-feira, janeiro 03, 2012

O artigo 123 do Tratado de Lisboa




Que a origem da crise se situava no facto de os governos não terem capacidade de negociar as condições da dívida já tínhamos percebido; que isso se devia ao facto de lhes ter sido retirada a capacidade de imprimir dinheiro também já tínhamos percebido; o que não sabíamos era onde exactamente estava escrito que devia ser assim. Este vídeo explica: no artigo 123 do Tratado de Lisboa.


Note-se que não se tratará de uma originalidade deste tratado – na primeira versão do vídeo, um pouco mais detalhada, diz que já vem do Tratado de Maastricht e de uma lei francesa de 1973 (não sei se está correcto).

Há pois uma enorme ingenuidade (ou esperteza...) neste artigo. O preço deve resultar duma negociação entre as partes e é este princípio liberal básico que é aqui violado porque assim os Estados ficaram sem qualquer capacidade de negociação. E se eu sugiro que o artigo 123 pode ser uma esperteza em vez de uma ingenuidade é porque a estratégia básica das financeiras consiste em criar situações em que a outra parte perde capacidade de negociação – é por isso que os bancos estão constantemente a “oferecer” empréstimos aos seus clientes. E é isso que é feito com este artigo 123.

Portanto, há que encontrar uma nova redacção a este artigo, que devolva aos Estados capacidade negocial adequada. Alguém tem uma sugestão?

Este é apenas um dos dois problemas fundamentais que vão levar o caos à Europa do Euro. No próximo post veremos o outro.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

A Lógica da Batata no Capitalismo e a bomba Chinesa



Vivemos uma época que ficará para a História; a época em que a humanidade, pelo menos o Ocidente, viveu sob a batuta da Lógica da Batata. A Lógica da Batata é perfeita para defender os interesses pessoais num mundo movido pela cupidez. Sempre foi usada pelos sindicatos, pelas classes, pelos patrões, pelos cientistas, etc, etc, mas felizmente sempre houve quem estivesse acima dela. Mas agora parece que não há.

A Lógica da Batata é a lógica do pensamento simplório, imediatista, ao serviço das conveniências próprias.

A Economia é um exemplo acabado deste estado de coisas. É por isso que numa era de abundância conseguimos o prodígio de empobrecer, de estar a regressar aos tempos antigos, de as pessoas deixarem de ter electricidade em casa, de irem buscar água à fonte, de a iluminação pública estar desligada – estamos a caminhar a passos largos para uma era de escravatura.

Vejam como a Lógica da Batata nos orienta: em qualquer jornal se pode encontrar um artigo de opinião de um qualquer economista a dizer basicamente isto:

 - Precisamos de investidores para gerar emprego
 - Para que os investidores invistam cá, precisamos de lhes dar melhores condições que os outros; senão, vão para outros lados, não é?
 - Logo, o capital não pode ser taxado e os custos das empresas têm de ser minimizados.
 - Logo, é preciso impor políticas de austeridade, baixar os ordenados dos empregados, os seus direitos, e baixar os custos sociais – subsídios de desemprego, pensões, saúde, educação, etc.

Parece muito certo, não é? Certamente certo para os capitalistas. Mas agora vejamos as consequências para as outras pessoas.

Num esquema em que o capital circula livre de impostos, os lucros das empresas vão-se embora e única coisa que elas deixam são os ordenados que pagam; porém, estes são o mínimo possível – “queres que o capital venha para cá? Então tens de reduzir os ordenados para o nível mínimo, o nível de sobrevivência” – é o que este iluminados dizem. E acrescentam, com ar paternal: e é bem bom conseguirem ter um empregozito.

Bom, mas se as pessoas só ganham o mínimo de sobrevivência e o capital não paga impostos, onde é que o Estado vai buscar dinheiro para pagar a sobrevivência dos que não estão empregados? Não vai – mesmo os impostos como o IVA não rendem porque as pessoas não têm dinheiro para fazer compras. Adeus reformas, subsídios de desemprego, saúde, ensino público.

Este quadro leva à mais negra miséria para toda a gente excepto para os detentores do capital e seus lacaios directos; mas tem um problema: se toda a gente vai para a miséria, depois quem compra os produtos e serviços das empresas?

A resposta é simples: divide-se o Mundo – num lado, ficam os consumidores, no outro os escravos. Ou melhor, na óptica destes senhores, “organiza-se” o Mundo; o Sul da Europa é terra de escravos.

As pessoas que agora defendem um Capital acima da Lei, um Capital que não tem obrigações, não paga impostos, não tem deveres, só direitos, são pessoas que numa ditadura defenderiam o ditador, que no tempo de Salazar defenderiam Salazar. Pretendem estar a falar e a agir no nosso interesse, mas não estão, são lacaios do Poder.

Nós já não estamos numa Democracia; este Governo eleito está em funções porque está ao serviço dos Senhores do Capital; se não estivesse, teria sido substituído como na Grécia e na Itália. Todos os países do Sul são actualmente “governados” por pessoas ao serviço do Capital.

É claro que há muita coisa que precisa mesmo de ser corrigida – o país está a saque há muito tempo, por políticos e pelas mais diversas classes profissionais; a necessidade desta correcção, porém, está a servir de suporte e de justificação para medidas que não visam senão o empobrecimento e escravização.

É por isso que a China ter entrado aqui é uma boa notícia – a China é governada por pessoas ao serviço do seu povo e por ele realmente escolhidas. Na China, o Capital está submetido ao poder Político. O Capital ficou a tremer das pernas com a entrada chinesa aqui. O Capital vai ter de se pôr fino.

As minhas previsões para o futuro próximo: as taxas de juros das dívidas soberanas vão baixar em todo o lado, as dívidas soberanas vão ser renegociadas e as privatizações nas quais os chineses possam estar interessados vão ser proteladas.

sábado, dezembro 24, 2011

Uma batalha ganha



Naturalmente que temos enorme dificuldade em aceitar desígnios maquiavélicos; a generalidade de nós preza a sua condição humana e o lado afectivo que lhe está associado. A generalidade de nós desconhece que as pessoas com sede ilimitada de poder ou de dinheiro não têm condição humana nem lado afectivo – uns nasceram sem ele, outros tiraram cursos para se verem livres dele – é que há cursos para isso, para matarem todo o “coração “ que uma pessoa possa ter, entendido como um obstáculo ao sucesso. Um gestor aprende a visar unicamente o lucro na nossa sociedade ultra-liberal e capitalista. Para um gestor, uma pessoa é uma “coisa”.

Notem que isto é apenas uma corrente de pensamento, uma escola. Há outras. Por exemplo, uma pessoa com religião não pode ter cargos políticos na China – a religião é aí ostracizada, tal como os sentimentos são ostracizados na teoria liberal do ocidente. Os gestores chineses não têm religião; os gestores dos países liberais ocidentais não têm coração. Compreende-se a opção chinesa, pois quando há mais de uma religião geram-se conflitos graves, como se verá no Iraque; a opção ocidental, a da coisificação do ser humano, é que não é aceitável porque de modo algum vai conduzir a uma sociedade melhor para todos; mas como conduz a uma sociedade melhor para alguns, andam muitos a defendê-la na ilusão de poderem pertencer ao grupo de privilegiados.

Notem também que não tem de ser assim – há escolas de gestão nos países nórdicos e na Holanda, pelo menos, que recusam a exploração do homem pelo homem como ponto de partida, que recusam a equação tão querida dos nossos gestores: «humano = objecto perecível». Dos nossos gestores e de muitos de nós....


Então que pretendem estes gestores sem coração e visando unicamente o lucro, do nosso pequenino país? Pretendem escravos. Maximizar o lucro passa por minimizar o custo da mão-de-obra; Portugal tem condições ideais para isso: clima ameno, que minimiza os custos de sobrevivência, e uma população iletrada, que nada sabe de economia e vive pelo coração. E tem mais uma característica adiante apresentada.

Um país de escravos é um país pobre – os pobres nem pagam impostos sobre o rendimento nem fazem compras geradores de IVA nem têm bens passivos de impostos como o IMI; logo, o Estado é parco em receitas. As empresas já não pagam impostos porque os lucros vão para fora – o ser humano foi «coisificado» e o capital «deusificado».  Um Estado sem dinheiro não pode pagar subsídios de desemprego nem reformas nem saúde – a saúde é das coisas importantes a condicionar pois só serve para prolongar a vida do escravo para além da sua idade útil. Interessa oficinas de manutenção de carros velhos? Não, os carros velhos são para abater. Então como se resolve o problema daqueles que não servem para escravos?

Há uma solução simples: emigrarem. Para África ou Brasil. A possibilidade de os excedentários emigrarem é a outra coisa que torna Portugal tão apetecível para os esclavagistas modernos.

A escravização e a emigração são dois objectivos associados. As medidas para promover a escravização – redução de ordenados e aumento do tempo de trabalho (aumento do horário, corte dos feriados e redução das férias) – serão acompanhadas de medidas incentivadoras da emigração. Estes são os dois grandes objectivos do processo revolucionário em curso. Que surgirá de uma forma “natural”, seguindo a chamada lógica da batata: pois se aqui não há empregos, naturalmente que o melhor que as pessoas têm a fazer é emigrar, não é? E como o mercado interno vai cair, o melhor que as empresas que trabalham para o mercado interno têm a fazer é virar-se para o estrangeiro, não é? E, sendo assim, nada mais natural que as empresas nacionais emigrarem para os seus mercados alvo, pois não faz sentido nenhum continuarem cá, até porque cá nem conseguem crédito nem sequer as garantias bancárias dos bancos nacionais são aceites no estrangeiro. E assim, logicamente, no país só ficarão os escravos a trabalhar nas empresas estrangeiras, uns quantos funcionários públicos e os reformados que forem sobrevivendo graças ao dinheiro que os filhos emigrados vão mandando. E os novos senhores, é claro.

E isto tudo irá acontecendo sem grandes resistências porque as pessoas irão sendo afectadas de baixo para cima. Os comentadores da televisão continuarão a dizer que não se pode tratar o capital como o trabalho porque senão o capital vai-se embora – isto porque pensam que a situação não lhes baterá à porta enquanto o capital mandar nisto.

É como caçar patos – começa-se pelos detrás que os da frente não dão por nada.

Numa era de abundância como a que vivemos, é inaceitável este objectivo de escravização das pessoas. Mas esta jogada dos europeus mais poderosos corre o risco de lhes sair furada. As regras que laboriosamente estabeleceram para servir os seus interesses vão agora servir os interesses de quem é mais forte do que eles. Vão ser vítimas do seu próprio jogo.

...quem ri por último...

(o nosso futuro seria negro se a EDP tem ido para os alemães, como estava mais do que “cozinhado”... mas houve gente muito inteligente que foi capaz de nos dar um outro futuro... vamos ver o que vem aí, este Futuro ainda não está escrito. Notem que isto foi uma batalha ganha por nós, a imensa pressa de “privatizar” as empresas publicas era apenas para não dar tempo a que os “de fora da Europa” entrassem no jogo.)

quinta-feira, dezembro 15, 2011

O BCE empresta aos bancos e não ao Estado por que razão?



Inicialmente, os bancos centrais produziam dinheiro e esse dinheiro era entregue ao governo. Era o governo quem injectava dinheiro na economia ao pagar as suas contas com ele.

Este sistema tinha qualidades – é preciso ir aumentando o dinheiro real à medida que a economia cresce – e nada melhor do usar o novo dinheiro para fazer investimentos ao serviço do interesse colectivo, e ninguém melhor que o Estado para fazer esse tipo de investimentos. Nos EUA, o Estado fez um imenso esforço de investimento em investigação e desenvolvimento, nomeadamente na NASA, que teve um papel determinante no desenvolvimento industrial americano.

Porém, deixar a impressão de dinheiro na mão dos governos conduz a um determinado tipo de abusos – e, sobretudo, deitar dinheiro por cima dos problemas é uma forma fácil de os resolver no imediato e os agravar no futuro; a facilidade de obter dinheiro alimenta a incompetência e a corrupção.

A consequência dos excessos de produção de dinheiro acaba por ser a inflação; a possibilidade de “deitar dinheiro para cima dos problemas” em vez de os enfrentar acaba por conduzir os países para situações complicadas.

Assim, entendeu-se que o dinheiro fresco não deveria ser entregue aos governos.

Procuraram-se outras soluções. A compra de dívida mal-parada do sistema bancário é uma. Uma teoria inventada por japoneses, se não estou em erro, e prontamente aplicada pelos americanos.

A consequência foi muito interessante: como o banco central compraria a dívida mal-parada, os bancos passaram a preferir emprestar dinheiro a quem tinha menos recursos – cobrando juros mais altos! Se as pessoas deixassem de conseguir pagar, o problema passava para o banco central. Isto começou a tomar proporções alarmantes e então inventaram outra: segurar as dívidas. E depois ainda inventaram uma que eu nem consigo perceber. No fim, fizeram falir a seguradora, que parece que era a maior ou das maiores do mundo. O pessoal da Stanley & Poors esteve por detrás do esquema, razão porque deram o rating AAA à seguradora dois dias antes da falência. Creio que o filme Inside Job explica o processo.

Isto mostra que, se entregar o dinheiro novo ao Estado tem problemas, entregar aos privados ainda pode ser muito pior. Se a injecção de dinheiro em excesso pelo Estado pode gerar inflação, a injecção de dinheiro pela Banca causa empobrecimento da maioria das pessoas porque para chegar às pessoas esse dinheiro cobra juros usuários, por um lado, e, por outro, põe em movimento toda uma máquina destinada a tornar as pessoas dependentes de crédito. Não causa menos abusos pessoais: os ordenados e mordomias dos executivos bancários são muito superiores às mordomias dos políticos; e acaba por ser uma fonte privilegiada de corrupção dos políticos.

Mas, duma forma ou doutra, todos os países conservam algum controlo político sobre a emissão de moeda. Excepto num caso: a Europa do Euro.

Na Europa entendeu-se que o sistema financeiro devia ser independente do político (uma espécie de aplicação do princípio de separação de poderes...). O BCE imprime dinheiro segundo uma fórmula, em função do estado da economia; desta forma impede-se a produção de dinheiro em excesso, potencialmente geradora de inflação. Esse dinheiro pertence a cada estado membro em função do seu PIB (discordo, devia ser em função da população) mas é gerido pelo BCE, que o não pode emprestar aos Estados ou aplicar na compra de dívida soberana. Na gestão do dinheiro, o BCE não aplica a teoria da compra da dívida mal-parada, antes o empresta à banca com taxas de juro que têm sido da ordem do 1%. O BCE andará a imprimir cerca de 50 mil milhões de euros por ano, cabendo a Portugal qualquer coisa que representará entre 0.5% a 1% do nosso PIB. Bem, isto é o que eu consegui perceber do que fui lendo aqui e ali. Quem sabe mais que esclareça. Estranho é que uma informação tão básica pareça ser tão difícil de obter.

Este esquema tem uma falha óbvia: deixa as dívidas soberanas sem capacidade de NEGOCIAÇÃO! Resultado: os juros das dívidas soberanas vão disparar fatalmente. E aqui se inicia um processo em cadeia que vai levar ao mesmo resultado do processo americano: os juros das dívidas soberanas disparam, tornando os países insolventes; e agora criou-se um mega fundo para comprar no mercado secundário os títulos de dívida pública – ou seja, para comprar a dívida mal-parada que os financeiros originam por pretenderem juros usuários nas dívidas soberanas. A única diferença para o caso americano é que na Europa o problema não se cria com as dívidas dos particulares mas dos estados. O que vai acontecer? Os juros vão continuar a subir, é claro, pois os financeiros agora têm “as costas quentes”: há um fundo para ficar com os títulos tornados potencialmente incobráveis com os juros usuários.

Já muita gente parece ter percebido que só há uma saída para a crise, que é o BCE imprimir muito mais moeda e comprar directamente dívida soberana. Assim que o BCE o fizer, os juros cairão imediatamente. Porque é que isso ainda não se fez e porque é que pessoas que deviam muito bem saber que isso é imprescindível andam a propor outras coisas que só vão agravar o problema é que é um grande mistério... ou não... para se saber quem é o criminoso apenas há que ver quem beneficia do crime, não é?

Apesar disso, ainda tenho alguma esperança que na cabeça da Merkel esteja a ideia de mudar os estatutos do BCE para lhe dar o poder de financiar directamente os Estados e está apenas a pretender determinadas garantias de que se pode avançar para esse processo sem abusos pelos Estados; mas dizem-me que é utopia minha...

Ahh, para terminar: o papão de que o BCE intervir sobre as dívidas soberanas gerará uma terrífica inflação é um disparate – na verdade, bastaria a possibilidade de o BCE o fazer para os juros baixarem imediatamente, como é óbvio, portanto nem é preciso o BCE fazer grande coisa, bastaria ter esse poder. Além, o exemplo americano está aí: apesar dos trilhões de dólares que o Fed tem injectado no mercado, o dólar continua forte e recomenda-se. O que sustenta a moeda é a força da economia.

No próximo post vou apresentar a minha explicação de porque é que estes indivíduos propõem Austeridade para enfrentar o problema.

domingo, dezembro 11, 2011

Para acabar com alguns equívocos fundamentais - I

A importância da NEGOCIAÇÃO

Depois de umas acaloradas discussões com ilustres amigos, pareceu-me oportuno fazer uns textos a esclarecer alguns equívocos correntes e que tornam impossível qualquer entendimento da actual crise; aqui vai o primeiro ponto.

O que controla os preços não é a concorrência, é a NEGOCIAÇÃO

A generalidade das pessoas tem a ideia que o facto de existirem várias empresas a operar no mesmo mercado conduz a preços mínimos dos produtos e serviços; isso é um enorme equívoco.

A concorrência só se faz a nível da qualidade dos serviços e produtos fornecidos pelas empresas, não a nível dos preços.

Pensem no seguinte: se uma empresa resolver baixar os seus preços, o que vai acontecer? Vai aumentar as vendas? Não, o que vai acontecer é que as concorrentes vão também baixar os preços. Isso é uma coisa fácil de fazer, faz-se de um dia para o outro. Então, a sua quota de mercado vai manter-se mas os seus lucros vão diminuir. Uma estupidez, não é? As empresas que estão no mercado não são estúpidas, se fossem já tinham falido. Então a sua estratégia é convencer os consumidores de que oferecem mais pelo mesmo preço ou até por um preço mais alto – assim aumentam a sua quota de mercado e aumentam os seus lucros. Esta é que a estratégia ganhadora.

Quando surge uma nova empresa, esta, necessariamente, não tem a imagem de qualidade, a credibilidade, das que já estão no mercado. Então, a única forma de entrar é praticar preços mais baixos. Porém, isto não vai fazer descer os preços, porque o seu preço vai estar conforme a sua imagem de qualidade. Se esta nova empresa conseguir manter-se no mercado, ela irá subir os seus preços para os valores das outras, à medida que for afirmando a sua imagem de qualidade. Ou então opta por ter preços baixos e qualidade baixa porque descobre aqui um nicho de mercado.

O preço praticado em cada área de actividade é ditado pela lei da oferta e procura do mercado como um todo, é o que maximiza o lucro global dessa área de actividade; a concorrência não afecta directamente o preço.

O que afecta o preço é a NEGOCIAÇÃO.

Reparem agora no sector financeiro; algum banco propõe uma taxa de juro para os cartões de crédito de 10%? Não, pois não? O que todos propõem é uma taxa de juro tão alta que tem de ser limitada por lei. E porquê? Porque as pessoas que caem numa dívida por consumo, através do cartão de crédito, que são dívidas de curto prazo, não podem eliminar essa dívida no curto prazo e não têm, por isso, poder negocial. É preciso uma Lei para as “proteger”, limitando a taxa máxima de juro. No entanto, existem inúmeros bancos; não é estranho não haver nem um que proponha taxas mais baixas? A razão é a que disse acima: se algum o fizesse, todos o fariam e todos passariam a ganhar menos dinheiro. Os lucros globais da actividade dos cartões de crédito diminuiriam.

Há porém uma área de actividade que consiste em oferecer o preço mais baixo – o preço mais baixo nos produtos e serviços dos OUTROS. É a actividade retalhista. O Continente ou a Fnac ou outro grande retalhista não competem nas suas margens de lucro; ou que eles fazem é NEGOCIAR com os fornecedores os preços mais baixos. Da mesma forma, as empresas de produção também NEGOCEIAM os preços com os seus fornecedores – por exemplo, as grandes fábricas de automóveis NEGOCEIAM intensamente os preços com os seus fornecedores; NEGOCEIAM  as vantagens financeiras com os países onde se instalam; NEGOCIAM os ordenados com os seus empregados.

Ou seja, o que decide os preços é a NEGOCIAÇÃO. E para negociar é preciso ter capacidade negocial que, basicamente, é a capacidade de dizer NÃO. (na verdade, é mais complexo do que isto mas tem de começar por aqui)

Por exemplo, a Alemanha nas duas últimas vezes que pretendeu colocar dívida pública disse NÃO à oferta que lhe foi feita; a Alemanha tem capacidade negocial, pode dizer NÃO. Portugal, agora que tem este empréstimo da troika, adquiriu capacidade negocial e por isso os juros da dívida pública que vai colocando estão abaixo do que paga a Itália – abaixo do que os bancos me pagam a mim pelos meus pequeninos depósitos a prazo! Porquê? Porque se pedirem juros mais altos Portugal pode dizer NÃO. Em 2013, quando voltar a perder a capacidade de dizer NÃO, os juros vão disparar novamente. Qualquer que seja a dívida soberana e o rating das agências financeiras.


Portanto, a crise e a saída dela não tem nada a ver com excesso de dívida soberana nem com confiança dos mercados; tem única e exclusivamente a ver com CAPACIDADE NEGOCIAL. 


Essa capacidade negocial podemos obtê-la: 
1 - ou directamente, através de processos de emissão interna de dinheiro de uma forma subtil, como tratado no texto anterior;
2 - ou conseguindo que o BCE faça o que fazem todos os bancos centrais: comprar dívida soberana. Para isso, há que NEGOCIAR com os outros países europeus e conseguir uma alteração dos tratados que ponha o BCE na dependência do poder político.



quinta-feira, dezembro 01, 2011

Há uma solução testada com sucesso: as “MEFO BILLS”



Neste sarilho da dívida soberana, sempre que precisarmos de ir ao mercado os juros dispararão – porque os juros dependem do poder negocial e não do montante da dívida. Infelizmente, temos um PM completamente ingénuo (ou será fingimento?) que diz que o juro é uma questão de «confiança dos mercados». Pior do que isso, afirmou há pouco que não há outra opinião sobre o assunto. Posso talvez sugerir-lhe que consulte sobre o assunto o nosso PR... ou que veja o que tem dito o Obama ou o Mário Soares... será que ele sofre de autismo??

As medidas que estão a ser adoptadas não melhoram a nossa capacidade negocial, logo não vão resolver o nosso problema. O problema prioritário, o juro, só se resolve adquirindo capacidade de dizer “não” a juros altos. Como fez a Alemanha recentemente. (a propósito, a subida dos juros na dívida pública da Alemanha também é por causa da falta de «confiança dos mercados»?)

Resolver esta situação é fácil - é só o BCE ligar as impressoras sempre que o juro ultrapassar um valor considerado razoável. Ou seja, existem decisões políticas que resolvem o problema. Propositadamente, mantém-se o problema no campo económico, onde ele não tem solução com as actuais regras. Isto é, foi tomada a decisão política de não resolver o problema. Quem tem o poder de mudar esta decisão são a França e a Alemanha, mas acontece que elas têm vantagem na actual situação, como mostrarei no próximo texto. Nós também poderíamos aproveitar alguma coisa com a crise, uma oportunidade de ouro para combater a corrupção em todas as suas formas. Mas, até agora, só se tem visto combater as pessoas honestas.

Como não sabemos se a França e a Alemanha vão tomar a decisão política de acabar com a crise pelos tempos mais próximos, a cautela manda que tenhamos uma solução preparada para pôr em acção caso não haja grandes mudanças até ao fim de 2012.

Num texto anterior eu propus que o Estado emitisse umas obrigações com a capacidade de circular como dinheiro – uma emissão paralela de dinheiro, mas legalmente enquadrada. Assim, o 13º e 14º meses não seriam cortados mas pagos desta forma. E estas obrigações seriam aceites pelo Estado para o pagamento numa percentagem adequada de dívidas ao estado – IRS, segurança social, IRC, IVA.

Foi uma ideia. Uma coisa estranha porque, como me disse há muitos anos um director duma importante empresa alemã em Portugal, nós, portugueses, não temos ideias, não pensamos, quem pensa são os alemães. Um frémito de orgulho percorria-lhe a espinha por ser empregado desse ilustre povo que era capaz dessa coisa espantosa, desconhecida dos portugueses: pensar! Na altura, risquei logo essa empresa das minhas opções, não imaginando que um dia iria ter como PM alguém que parece esse director.

Agora, mão amiga fez-me chegar o seguinte link.

Muito interessante!! Não é que os alemães já usaram este processo? E com enorme sucesso?

A seguir à primeira guerra mundial estavam proibidos de fabricar armas e não tinham financiamento para o desenvolvimento das suas indústrias pesadas; então o ministro das finanças alemão inventou uma sociedade “de investigação metalúrgica”, fictícia, com o capital de 1 milhão de marcos, cujo nome abreviado era MEFO; esta empresa fazia pagamentos à indústria pesada e de armamento com “MEFO BILLS”, que podiam ser convertidas em marcos em qualquer banco alemão, que por sua vez as podiam descontar no banco central a partir do 3º mês da sua emissão. Estas notas de crédito tinham uma validade de 6 meses prorrogáveis indefinidamente por períodos de 3 meses. As MEFO BILLS permitiram ao governo insuflar a sua economia com resultados tão brilhantes que em pouco tempo estavam de novo em guerra. Em 1939, as MEFO BILLS totalizariam 12 mil milhões de marcos contra os 19 mil milhões de obrigações do Tesouro.

Isto é uma grande lição: os alemães tinham um problema e resolveram-no. Não ficaram à espera que alguém resolvesse por eles. Não se deixaram ficar em becos sem saída, dependentes de outros, que é onde nós estamos agora. Pensaram!!!!

O esquema que os alemães usaram para financiar o seu esforço militar podemos nós usar para financiar o estado social. Ao conseguir isso, obtemos poder negocial porque deixamos de estar com a corda na garganta – se forem exigidos juros excessivos, o estado pode fazer como a Alemanha fez há dias, rejeitar o empréstimo, porque pode pagar parcialmente os ordenados e as pensões com estes títulos de dívida. Mas essa situação extrema nunca acontecerá porque não tem vantagem para os financeiros – é preferível emprestarem o dinheiro a 4,5% a não emprestarem.

E vejam o melhor de tudo: nem sequer temos de pensar! Os alemães já pensaram por nós, só temos que ser «bons alunos»! 

domingo, novembro 27, 2011

Dormindo com o Inimigo




O anúncio acima tem passado na Hungria a publicitar um banco austríaco. Os clientes querem saber os juros e a resposta é a que vêem. Parece-vos de loucos? Mas olhem, resulta. A prova é que os húngaros estão aflitos por causa dos empréstimos que fizeram em bancos estrangeiros.
 Parece que este mesmo tipo de anúncio passou no Canadá, apenas o som do bancário era diferente.

Reparem no absurdo: a única coisa que há para negociar com o banco é o juro; e é isto precisamente que o anúncio diz que não é preciso saber!!!

O negócio da Banca é o juro; e serve-se de todas as artimanhas que não dêem prisão para o maximizar. Não há aqui quaisquer escrúpulos ou moral. Exploram os clientes com a mesma frieza com que os operadores das linhas de valor acrescentado enganam os velhinhos, roubando-lhes as míseras economias.

Ser vigarista é actualmente “legal”, não há lei que condene a vigarice; apenas a moral o fazia; mas onde entra o dinheiro não há moral. O velhinho da província, enganado pelo operador de uma linha de valor acrescentado, além de roubado, é julgado, condenado, fica sem telefone, a casa é penhorada e até pode ir preso. E é Legal!!!

Mas hoje é assim: à face da Lei, a Vigarice é uma actividade honesta e quem apontar o dedo a um vigarista arrisca-se a um processo por difamação.

A Visa fez um inquérito em S. Salvador e descobriu que uma larga maioria da população não sabia o que queria dizer "juros". Isso foi visto como uma grande oportunidade de negócio e uma grande consultora foi contratada para explorar este filão. Foi um consultor dessa consultora que me contou.

Portanto, percebam bem: os «mercados financeiros» estão sempre à espreita das oportunidades de negócio, ou seja, de oportunidades de usufruírem de juros usuários; e são completamente desprovidos de moral ou piedade – pelo contrário, os pobres, os ignorantes, os aflitos são as suas vítimas preferidas. Mas eles não se limitam a explorar as vítimas que encontram – eles produzem as suas próprias vítimas.

É por isso que estão sempre a oferecer dinheiro com os cartões de crédito – para criar uma dívida que a vítima não possa amortizar.
 Alguns bancos têm “gerentes de conta”. As pessoas pensam que se trata de um serviço ao cliente. Nada disso. O gerente de conta é um vendedor do Banco. Mas alguns são mais do que isso, são Vigaristas.

Conheço o caso de um funcionário bancário que vigarizou clientes, família e o próprio banco. Quando foi descoberto, por queixa de um cliente, o banco pagou aos clientes mas abafou o caso. Pois o funcionário em causa pôs um processo a quem denunciou a fraude. Para o banco, este era certamente um bom funcionário porque deve ter conseguido muitos negócios bons para o Banco. 

Não se iludam: entre os financeiros estão os mais hábeis e inescrupulosos vigaristas que existem sobre a Terra. A Vigarice tornou-se uma ciência, que eles cultivam empenhadamente. A sua actividade não é a produção de riqueza, é a predação; e eles encaram as pessoas como nós encaramos o gado de que nos alimentamos.

O FMI veio “salvar” Portugal; como? Emprestando dinheiro a 7,5%, mais umas comissões e taxas!!!
O melhor negócio do mundo é “ajudar” os que estão em dificuldades. O FMI ganha muito dinheiro com estas “ajudas”. Se isto é um negócio para o FMI, o que lhe convém é que o negócio cresça, não é verdade? Ao FMI o que interessa não é que Portugal resolva os seus problemas mas, ao contrário, que possa continuar eternamente a “ajudar-nos”. O que ele cobra é o máximo que podia cobrar sem ser óbvio que o seu objectivo é a exploração, não é verdade?

Ou seja, pusemos os vigaristas dentro de casa; estamos a dormir com o inimigo. E este inimigo quer garantir que nunca nos livraremos dele, por isso está tão apressado em que vendamos tudo o que possa gerar rendimento. Porque é que a CGD tem de vender a participação na ZON? Para que as receitas da ZON saiam de Portugal.

É assim que estes vigaristas agem:
1º - criam as dificuldades;
2º - entram dentro de nossa “casa” (nas nossas contas) para nos “ajudar”
3º - uma vez dentro de casa, exploram-nos até ao tutano.

Isto é um comportamento geral, standard. Estão a fazer isto com as dívidas soberanas tal como fazem com quase qualquer empréstimo – por exemplo, quando as pessoas estão com a corda na garganta aproveitam para renegociar os prazos de amortização aumentando o juro! Essa foi uma das medidas deste governo para “ajudar” as empresas em dificuldades.

E é isto que a troika irá propor no fim de 2012: alargar o prazo da ajuda aumentando o juro! Em 2012, tendo perdido o que resta das empresas do Estado e tendo caído em recessão, só vamos estar mais pobres e frágeis, não é verdade?

A nossa situação é esta: estamos a ser governados por funcionários bancários; e estes funcionários estão a fazer connosco o que fazem os gerentes de conta com as suas clientes em dificuldades.

Não se iludam. Os ricos só enriquecem mais aumentando a desigualdade, porque o PIB cresce pouco ou nada; a troika compõe-se de empregados dos ricos, funcionários do sistema bancário.

São capazes de imaginar a Alemanha ou a França consentirem em ser governadas por funcionários bancários? Não, pois não?

O nosso Presidente da República já percebeu isto tudo; é por isso que tem tomado as posições que se sabe, apesar do incómodo que isso causa ao seu partido. Mas o Primeiro Ministro parece não saber nada de coisa nenhuma e, como tal, segue religiosamente as instruções dos funcionários bancários que agora mandam no país. Isto admitindo que ele está de boa fé, como diz Mário Soares; coisa sobre a qual eu tenho as maiores dúvidas desde o dia em que o vi cantar o Hino Nacional.

A questão é: o que vamos fazer para nos livrarmos do Inimigo? Temos de ser mais hábeis do que ele, porque ele é mais poderoso do que nós.

Temos uma coisa a nosso favor: o Cavaco Silva. Nunca imaginei um dia dizer isto dele, mas de entre todos os líderes e especialistas que tenho ouvido, o nosso PR tem sido o mais esclarecido. E corajoso. Estejamos atentos e estejamos do lado dele quando a ocasião chegar. Não há outro herói no horizonte.


sexta-feira, novembro 25, 2011

O Colossal Equívoco



Estes planos de resgate, estas medidas de austeridade, baseiam-se num erro colossal. Esse erro é a presunção de que as altas taxas de juro exigidas às dívidas soberanas resultam da desconfiança dos «mercados» relativamente à capacidade de certos países em assumirem os seus compromissos financeiros; o juro é entendido como proporcional ao risco.

Ora isto é duma ingenuidade atroz, só possível na cabeça de académicos sem nenhum conhecimento do mundo real.

O exemplo evidente do que estou a dizer são os cartões de crédito. Conhecem algum banco, unzinho que seja, que cobre juros inferiores a 15% no cartão de crédito? Não, pois não? Cobram todos praticamente o máximo permitido por lei. Vejam o absurdo: não estaria suposto que as “leis do mercado” fariam os bancos competir pelo juro mais baixo?

Pois é, aqui está uma questão que viola todos os princípios em que assenta o actual modelo económico: porque é que nenhum banco se atreve a propor juros de, por exemplo, 15%, nos cartões de crédito? Porque é que preciso legislar o juro máximo? Como é que as “leis do mercado” levam a que o juro seja máximo em vez de mínimo?

As actuais teorias sobre o mercado presumem que os agentes estão em competição feroz, num entendimento darwinista do comportamento dos diversos actores. Ora no mercado, como na natureza, os indivíduos da mesma espécie, e até de espécies diferentes, seguem regras que garantem a máxima sobrevivência. Essas regras determinam comportamentos territoriais e fenómenos de cooperação. O mesmo se passa com as empresas. Elas não andam em guerras mortais, elas estabelecem os seus territórios e cooperam quando conveniente para os seus interesses comuns.

Acho fascinante que os analistas da bolsa todos os dias tenham uma “explicação” para a bolsa ter subido ou descido, como se a bolsa tivesse um comportamento «lógico». A Bolsa sobe ou desce por manipulação dos grandes actores financeiros, que induzem os pequenos investidores a investirem em determinadas acções e em seguida invertem o movimento das cotações. É assim que os grandes investidores ganham sistematicamente dinheiro na bolsa, quer ela suba ou desça. Quando querem vender, começam por comprar para fazer subir o preço e vice-versa.

A razão por que os juros das dívidas soberanas sobem é porque o único mecanismo que os países têm para ter poder negocial nos juros, que é a impressão de dinheiro, está proibida na Europa! Sendo assim, os «mercados» cooperam na subida dos juros, evidentemente, maximizando os ganhos de todos e de cada um.

E porque é que o BCE não pode imprimir euros e comprar dívida soberana? Porque os teóricos do actual modelo acharam que os agentes financeiros competiriam entre si, garantindo juros adequadamente baixos. O simples facto de ser necessário legislar o juro máximo dos cartões de crédito prova a incapacidade de um banco central de poderes limitados em regular o mercado financeiro.

A última coisa que estes teóricos vão admitir é que a teoria que conhecem está errada; por isso vão arranjando explicações “lógicas”. Como acontece com as flutuações da bolsa. Ou seja, vão arranjando culpados - os malandros dos gregos, os calões dos tugas...

Qualquer uma das medidas anunciadas, eurobonds incluída, é inútil, disparatada, nociva, só agrava a situação. A criação de eurobonds sem impressão de moeda seria o desastre final.

Esta situação disparatada abriu caminho a outros interesses: as grandes fábricas vêem aqui a possibilidade de obter mão-de-obra barata. É por isso que as medidas do Governo são obsessivamente concentradas no custo da mão-de-obra – uma obsessão que causa recessão, o oposto do que seria desejável na presente situação. A recessão prevista colocou a cotação de Portugal no lixo, evidentemente.

Há uma frase que me martela a cabeça: “Há duas maneiras de conquistar e escravizar uma nação, uma pela espada, a outra pela dívida” (John Adams, segundo presidente dos EUA e grande teórico do conhecimento político). Mesmo que não haja esta intenção por detrás deste problema, ele pode acabar por ter este desfecho.

A Alemanha tomou uma atitude inteligente: só aceita colocar dívida até um determinado valor da taxa de juro. É isto que todos os países se têm de preparar para fazer. Para a Alemanha, isso é fácil, mas como poderá Portugal fazer o mesmo?

Da seguinte forma: a dívida que não conseguir colocar vai ser dinheiro que vai faltar ao Estado; o Estado fará então parte dos seus pagamentos internos em certificados de dívida – que aceitará em pagamentos ao Estado na mesma proporção da sua emissão. Desta forma, fará uma espécie de criação de dinheiro legal. Mas até duvido que isso seja necessário: bastará anunciar que não colocará dívida acima de, digamos, 6%, para não faltar quem se proponha a comprar abaixo desse valor; na vez seguinte baixará este valor para 5%; e depois para 4,5%. Um país que mostra ser capaz de soluções não recessivas não fica refém dos mercados financeiros.

terça-feira, novembro 22, 2011

Política e Economia



A Política visa a felicidade humana; a política visa criar o paraíso na Terra. A Política é o combate a tudo o que causa sofrimento.

A satisfação das nossas necessidades de sobrevivência exige a produção de bens e a prestação de serviços. O Conhecimento específico deste objectivo parcelar da nossa felicidade constitui a Economia.

A Economia visa maximizar a produção de riqueza. Podem dar-se muitas definições de Economia, mais ou menos sofisticadas, mais ou menos apetecíveis, mas a verdade essencial a respeito da Economia é esta: a Economia visa maximizar a produção de riqueza.

A produção de riqueza exige “trabalho”. Aqui,  “trabalho” é basicamente a cedência das capacidades do corpo e da mente durante um determinado período de tempo por um determinado montante de dinheiro. Por exemplo, oito horas diárias a troco de um salário. Mas o trabalho pode facilmente resvalar para a escravatura. Quando essas oito horas são passadas em frente a uma máquina, por exemplo, de costura, com ritmo máximo, sem pausas a não ser quando a linha encrava, com a ameaça de que no fim do mês os empregados que cozerem menos quilómetros são despedidos, do tipo do que acontece nos concursos de televisão muito em voga, isso é escravatura. Também é escravatura quando as horas de trabalho são 10 ou 16 ou mais, como acontece com consultores, mesmo que seja um trabalho muito bem remunerado.

A maximização da produção de riqueza passa necessariamente pelo trabalho escravo, ou seja, pela obtenção da máxima produção por uma pessoa pelo mínimo custo. O objectivo é que o salário seja apenas o essencial à sobrevivência do escravo enquanto ele for capaz de produzir com o ritmo pretendido. A Economia conduz à escravatura. Sempre. Apenas a Política se opõe a isso. A Política é que estabelece limites à relação empregador-empregado

Por isso, a Economia é uma ferramenta indispensável da Política mas é uma ferramenta perigosa, que tem de estar sempre subordinada à Política. Quando a Economia se sobrepõe à política, temos uma catástrofe social, temos a sociedade reduzida a escravos e senhores (muitos escravos e poucos senhores).

O drama é que quando isto acontece, não é facilmente reversível: os Senhores tomam conta do poder e os Escravos nada podem fazer.

O facto de a Economia ter tomado conta dos destinos dos povos europeus do Sul só augura o regresso da escravatura com toda a força. A Economia nada sabe das necessidades das pessoas, nada conhece da cultura, da História, não distingue um humano duma máquina. Ou melhor, vê um humano como uma máquina imperfeita.

Um exemplo disso é actual projecto de extinção de feriados. Ridículo nos seus efeitos práticos mas muito importante para destruir o lado humano. Os feriados de um povo são sua propriedade, fazem parte da sua História; muitos deles são celebrações anteriores às religiões e aos países; não são propriedade nem de governantes nem de religiões e não podem ser alterados sem a concordância do povo. Só os escravos não têm feriados porque os escravos não são pessoas, não têm passado nem futuro, não têm História. O dia em que não tivermos feriados é o dia em que seremos escravos. O facto de termos um Governo que pretende acabar com os feriados (eliminar 4 e passar os outros para o Domingo) deixa-me muito preocupado.