sábado, dezembro 24, 2011
Uma batalha ganha
Naturalmente que
temos enorme dificuldade em aceitar desígnios maquiavélicos; a generalidade de
nós preza a sua condição humana e o lado afectivo que lhe está associado. A generalidade
de nós desconhece que as pessoas com sede ilimitada de poder ou de dinheiro não
têm condição humana nem lado afectivo – uns nasceram sem ele, outros tiraram
cursos para se verem livres dele – é que há cursos para isso, para matarem todo
o “coração “ que uma pessoa possa ter, entendido como um obstáculo ao sucesso.
Um gestor aprende a visar unicamente o lucro na nossa sociedade ultra-liberal e
capitalista. Para um gestor, uma pessoa é uma “coisa”.
Notem que isto é
apenas uma corrente de pensamento, uma escola. Há outras. Por exemplo, uma
pessoa com religião não pode ter cargos políticos na China – a religião é aí
ostracizada, tal como os sentimentos são ostracizados na teoria liberal do
ocidente. Os gestores chineses não têm religião; os gestores dos países
liberais ocidentais não têm coração. Compreende-se a opção chinesa, pois quando
há mais de uma religião geram-se conflitos graves, como se verá no Iraque; a
opção ocidental, a da coisificação do ser humano, é que não é aceitável porque
de modo algum vai conduzir a uma sociedade melhor para todos; mas como conduz a
uma sociedade melhor para alguns, andam muitos a defendê-la na ilusão de
poderem pertencer ao grupo de privilegiados.
Notem também que
não tem de ser assim – há escolas de gestão nos países nórdicos e na Holanda,
pelo menos, que recusam a exploração do homem pelo homem como ponto de partida,
que recusam a equação tão querida dos nossos gestores: «humano = objecto
perecível». Dos nossos gestores e de muitos de nós....
Então que
pretendem estes gestores sem coração e visando unicamente o lucro, do nosso
pequenino país? Pretendem escravos. Maximizar o lucro passa por minimizar o
custo da mão-de-obra; Portugal tem condições ideais para isso: clima ameno, que
minimiza os custos de sobrevivência, e uma população iletrada, que nada sabe de
economia e vive pelo coração. E tem mais uma característica adiante
apresentada.
Um país de
escravos é um país pobre – os pobres nem pagam impostos sobre o rendimento nem
fazem compras geradores de IVA nem têm bens passivos de impostos como o IMI;
logo, o Estado é parco em receitas. As empresas já não pagam impostos porque os
lucros vão para fora – o ser humano foi «coisificado» e o capital
«deusificado». Um Estado sem dinheiro
não pode pagar subsídios de desemprego nem reformas nem saúde – a saúde é das
coisas importantes a condicionar pois só serve para prolongar a vida do escravo
para além da sua idade útil. Interessa oficinas de manutenção de carros velhos?
Não, os carros velhos são para abater. Então como se resolve o problema
daqueles que não servem para escravos?
Há uma solução
simples: emigrarem. Para África ou Brasil. A possibilidade de os excedentários
emigrarem é a outra coisa que torna Portugal tão apetecível para os
esclavagistas modernos.
A escravização e
a emigração são dois objectivos associados. As medidas para promover a
escravização – redução de ordenados e aumento do tempo de trabalho (aumento do
horário, corte dos feriados e redução das férias) – serão acompanhadas de
medidas incentivadoras da emigração. Estes são os dois grandes objectivos do
processo revolucionário em curso. Que surgirá de uma forma “natural”, seguindo
a chamada lógica da batata: pois se aqui não há empregos, naturalmente que o
melhor que as pessoas têm a fazer é emigrar, não é? E como o mercado interno
vai cair, o melhor que as empresas que trabalham para o mercado interno têm a
fazer é virar-se para o estrangeiro, não é? E, sendo assim, nada mais natural
que as empresas nacionais emigrarem para os seus mercados alvo, pois não faz
sentido nenhum continuarem cá, até porque cá nem conseguem crédito nem sequer
as garantias bancárias dos bancos nacionais são aceites no estrangeiro. E
assim, logicamente, no país só ficarão os escravos a trabalhar nas empresas
estrangeiras, uns quantos funcionários públicos e os reformados que forem
sobrevivendo graças ao dinheiro que os filhos emigrados vão mandando. E os
novos senhores, é claro.
E isto tudo irá
acontecendo sem grandes resistências porque as pessoas irão sendo afectadas de
baixo para cima. Os comentadores da televisão continuarão a dizer que não se
pode tratar o capital como o trabalho porque senão o capital vai-se embora –
isto porque pensam que a situação não lhes baterá à porta enquanto o capital
mandar nisto.
É como caçar patos
– começa-se pelos detrás que os da frente não dão por nada.
Numa era de
abundância como a que vivemos, é inaceitável este objectivo de escravização das
pessoas. Mas esta jogada dos europeus mais poderosos corre o risco de lhes sair
furada. As regras que
laboriosamente estabeleceram para servir os seus interesses vão agora servir os
interesses de quem é mais forte do que eles. Vão ser vítimas do seu próprio
jogo.
...quem ri por
último...
(o nosso futuro
seria negro se a EDP tem ido para os alemães, como estava mais do que
“cozinhado”... mas houve gente muito inteligente que foi capaz de nos dar um
outro futuro... vamos ver o que vem aí, este Futuro ainda não está escrito.
Notem que isto foi uma batalha ganha por nós, a imensa pressa de “privatizar”
as empresas publicas era apenas para não dar tempo a que os “de fora da Europa”
entrassem no jogo.)
quinta-feira, dezembro 15, 2011
O BCE empresta aos bancos e não ao Estado por que razão?
Inicialmente, os
bancos centrais produziam dinheiro e esse dinheiro era entregue ao governo. Era
o governo quem injectava dinheiro na economia ao pagar as suas contas com ele.
Este sistema
tinha qualidades – é preciso ir aumentando o dinheiro real à medida que a
economia cresce – e nada melhor do usar o novo dinheiro para fazer
investimentos ao serviço do interesse colectivo, e ninguém melhor que o Estado
para fazer esse tipo de investimentos. Nos EUA, o Estado fez um imenso esforço
de investimento em investigação e desenvolvimento, nomeadamente na NASA, que
teve um papel determinante no desenvolvimento industrial americano.
Porém, deixar a
impressão de dinheiro na mão dos governos conduz a um determinado tipo de
abusos – e, sobretudo, deitar dinheiro por cima dos problemas é uma forma fácil
de os resolver no imediato e os agravar no futuro; a facilidade de obter
dinheiro alimenta a incompetência e a corrupção.
A consequência
dos excessos de produção de dinheiro acaba por ser a inflação; a possibilidade
de “deitar dinheiro para cima dos problemas” em vez de os enfrentar acaba por
conduzir os países para situações complicadas.
Assim,
entendeu-se que o dinheiro fresco não deveria ser entregue aos governos.
Procuraram-se
outras soluções. A compra de dívida mal-parada do sistema bancário é uma. Uma
teoria inventada por japoneses, se não estou em erro, e prontamente aplicada
pelos americanos.
A consequência
foi muito interessante: como o banco central compraria a dívida mal-parada, os
bancos passaram a preferir emprestar dinheiro a quem tinha menos recursos –
cobrando juros mais altos! Se as pessoas deixassem de conseguir pagar, o
problema passava para o banco central. Isto começou a tomar proporções
alarmantes e então inventaram outra: segurar as dívidas. E depois ainda
inventaram uma que eu nem consigo perceber. No fim, fizeram falir a seguradora,
que parece que era a maior ou das maiores do mundo. O pessoal da Stanley &
Poors esteve por detrás do esquema, razão porque deram o rating AAA à seguradora
dois dias antes da falência. Creio que o filme Inside Job explica o processo.
Isto mostra que,
se entregar o dinheiro novo ao Estado tem problemas, entregar aos privados
ainda pode ser muito pior. Se a injecção de dinheiro em excesso pelo Estado pode
gerar inflação, a injecção de dinheiro pela Banca causa empobrecimento da
maioria das pessoas porque para chegar às pessoas esse dinheiro cobra juros
usuários, por um lado, e, por outro, põe em movimento toda uma máquina
destinada a tornar as pessoas dependentes de crédito. Não causa menos abusos
pessoais: os ordenados e mordomias dos executivos bancários são muito
superiores às mordomias dos políticos; e acaba por ser uma fonte privilegiada
de corrupção dos políticos.
Mas, duma forma
ou doutra, todos os países conservam algum controlo político sobre a emissão de
moeda. Excepto num caso: a Europa do Euro.
Na Europa
entendeu-se que o sistema financeiro devia ser independente do político (uma
espécie de aplicação do princípio de separação de poderes...). O BCE imprime
dinheiro segundo uma fórmula, em função do estado da economia; desta forma impede-se a produção de dinheiro em excesso, potencialmente geradora de inflação. Esse dinheiro
pertence a cada estado membro em função do seu PIB (discordo, devia ser em
função da população) mas é gerido pelo BCE, que o não pode emprestar aos
Estados ou aplicar na compra de dívida soberana. Na gestão
do dinheiro, o BCE não aplica a teoria da compra da dívida mal-parada, antes o
empresta à banca com taxas de juro que têm sido da ordem do 1%. O BCE andará a
imprimir cerca de 50 mil milhões de euros por ano, cabendo a Portugal qualquer
coisa que representará entre 0.5% a 1% do nosso PIB. Bem, isto é o que eu
consegui perceber do que fui lendo aqui e ali. Quem sabe mais que esclareça.
Estranho é que uma informação tão básica pareça ser tão difícil de obter.
Este esquema tem
uma falha óbvia: deixa as dívidas soberanas sem capacidade de NEGOCIAÇÃO!
Resultado: os juros das dívidas soberanas vão disparar fatalmente. E aqui se inicia
um processo em cadeia que vai levar ao mesmo resultado do processo americano:
os juros das dívidas soberanas disparam, tornando os países insolventes; e
agora criou-se um mega fundo para comprar no mercado secundário os títulos de
dívida pública – ou seja, para comprar a dívida mal-parada que os financeiros
originam por pretenderem juros usuários nas dívidas soberanas. A única
diferença para o caso americano é que na Europa o problema não se cria com as
dívidas dos particulares mas dos estados. O que vai acontecer? Os juros vão
continuar a subir, é claro, pois os financeiros agora têm “as costas quentes”:
há um fundo para ficar com os títulos tornados potencialmente incobráveis com
os juros usuários.
Já muita gente
parece ter percebido que só há uma saída para a crise, que é o BCE imprimir
muito mais moeda e comprar directamente dívida soberana. Assim que o BCE o
fizer, os juros cairão imediatamente. Porque é que isso ainda não se fez e
porque é que pessoas que deviam muito bem saber que isso é imprescindível andam
a propor outras coisas que só vão agravar o problema é que é um grande
mistério... ou não... para se saber quem é o criminoso apenas há que ver quem beneficia do crime, não é?
Apesar disso, ainda tenho alguma esperança que na cabeça da Merkel esteja a ideia de mudar os estatutos do BCE para lhe dar o poder de financiar directamente os Estados e está apenas a pretender determinadas garantias de que se pode avançar para esse processo sem abusos pelos Estados; mas dizem-me que é utopia minha...
Ahh, para terminar:
o papão de que o BCE intervir sobre as dívidas soberanas gerará uma terrífica inflação é um disparate – na
verdade, bastaria a possibilidade de o BCE o fazer para os juros baixarem
imediatamente, como é óbvio, portanto nem é preciso o BCE fazer grande coisa,
bastaria ter esse poder. Além, o exemplo americano está aí: apesar dos trilhões
de dólares que o Fed tem injectado no mercado, o dólar continua forte e recomenda-se.
O que sustenta a moeda é a força da economia.
No próximo post vou apresentar a minha explicação de porque é que estes indivíduos propõem Austeridade para enfrentar o problema.
domingo, dezembro 11, 2011
Para acabar com alguns equívocos fundamentais - I
A importância da NEGOCIAÇÃO
Depois de umas
acaloradas discussões com ilustres amigos, pareceu-me oportuno fazer uns textos
a esclarecer alguns equívocos correntes e que tornam impossível qualquer
entendimento da actual crise; aqui vai o primeiro ponto.
O que controla os
preços não é a concorrência, é a NEGOCIAÇÃO
A generalidade
das pessoas tem a ideia que o facto de existirem várias empresas a operar no
mesmo mercado conduz a preços mínimos dos produtos e serviços; isso é um enorme
equívoco.
A concorrência só
se faz a nível da qualidade dos serviços e produtos fornecidos pelas empresas,
não a nível dos preços.
Pensem no
seguinte: se uma empresa resolver baixar os seus preços, o que vai acontecer?
Vai aumentar as vendas? Não, o que vai acontecer é que as concorrentes vão
também baixar os preços. Isso é uma coisa fácil de fazer, faz-se de um dia para
o outro. Então, a sua quota de mercado vai manter-se mas os seus lucros vão
diminuir. Uma estupidez, não é? As empresas que estão no mercado não são
estúpidas, se fossem já tinham falido. Então a sua estratégia é convencer os
consumidores de que oferecem mais pelo mesmo preço ou até por um preço mais
alto – assim aumentam a sua quota de mercado e aumentam os seus lucros. Esta é
que a estratégia ganhadora.
Quando surge uma
nova empresa, esta, necessariamente, não tem a imagem de qualidade, a
credibilidade, das que já estão no mercado. Então, a única forma de entrar é
praticar preços mais baixos. Porém, isto não vai fazer descer os preços, porque
o seu preço vai estar conforme a sua imagem de qualidade. Se esta nova empresa
conseguir manter-se no mercado, ela irá subir os seus preços para os valores
das outras, à medida que for afirmando a sua imagem de qualidade. Ou então opta
por ter preços baixos e qualidade baixa porque descobre aqui um nicho de
mercado.
O preço praticado
em cada área de actividade é ditado pela lei da oferta e procura do mercado
como um todo, é o que maximiza o lucro global dessa área de actividade; a
concorrência não afecta directamente o preço.
O que afecta o
preço é a NEGOCIAÇÃO.
Reparem agora no
sector financeiro; algum banco propõe uma taxa de juro para os cartões de
crédito de 10%? Não, pois não? O que todos propõem é uma taxa de juro tão alta
que tem de ser limitada por lei. E porquê? Porque as pessoas que caem numa
dívida por consumo, através do cartão de crédito, que são dívidas de curto
prazo, não podem eliminar essa dívida no curto prazo e não têm, por isso, poder
negocial. É preciso uma Lei para as “proteger”, limitando a taxa máxima de
juro. No entanto, existem inúmeros bancos; não é estranho não haver nem um que
proponha taxas mais baixas? A razão é a que disse acima: se algum o fizesse,
todos o fariam e todos passariam a ganhar menos dinheiro. Os lucros globais da
actividade dos cartões de crédito diminuiriam.
Há porém uma área
de actividade que consiste em oferecer o preço mais baixo – o preço mais baixo
nos produtos e serviços dos OUTROS. É a actividade retalhista. O Continente ou
a Fnac ou outro grande retalhista não competem nas suas margens de lucro; ou
que eles fazem é NEGOCIAR com os fornecedores os preços mais baixos. Da mesma
forma, as empresas de produção também NEGOCEIAM os preços com os seus
fornecedores – por exemplo, as grandes fábricas de automóveis NEGOCEIAM
intensamente os preços com os seus fornecedores; NEGOCEIAM as vantagens financeiras com os países onde
se instalam; NEGOCIAM os ordenados com os seus empregados.
Ou seja, o que
decide os preços é a NEGOCIAÇÃO. E para negociar é preciso ter capacidade
negocial que, basicamente, é a capacidade de dizer NÃO. (na verdade, é mais complexo do que isto mas tem de começar por aqui)
Por exemplo, a
Alemanha nas duas últimas vezes que pretendeu colocar dívida pública disse NÃO
à oferta que lhe foi feita; a Alemanha tem capacidade negocial, pode dizer NÃO.
Portugal, agora que tem este empréstimo da troika, adquiriu capacidade negocial
e por isso os juros da dívida pública que vai colocando estão abaixo do que
paga a Itália – abaixo do que os bancos me pagam a mim pelos meus pequeninos
depósitos a prazo! Porquê? Porque se pedirem juros mais altos Portugal pode
dizer NÃO. Em 2013, quando voltar a perder a capacidade de dizer NÃO, os juros
vão disparar novamente. Qualquer que seja a dívida soberana e o rating das agências financeiras.
Portanto, a crise e a saída dela não tem nada a ver com excesso de dívida soberana nem com confiança dos mercados; tem única e exclusivamente a ver com CAPACIDADE NEGOCIAL.
Essa capacidade negocial podemos obtê-la:
1 - ou directamente, através de processos de emissão interna de dinheiro de uma forma subtil, como tratado no texto anterior;
2 - ou conseguindo que o BCE faça o que fazem todos os bancos centrais: comprar dívida soberana. Para isso, há que NEGOCIAR com os outros países europeus e conseguir uma alteração dos tratados que ponha o BCE na dependência do poder político.
Portanto, a crise e a saída dela não tem nada a ver com excesso de dívida soberana nem com confiança dos mercados; tem única e exclusivamente a ver com CAPACIDADE NEGOCIAL.
Essa capacidade negocial podemos obtê-la:
1 - ou directamente, através de processos de emissão interna de dinheiro de uma forma subtil, como tratado no texto anterior;
2 - ou conseguindo que o BCE faça o que fazem todos os bancos centrais: comprar dívida soberana. Para isso, há que NEGOCIAR com os outros países europeus e conseguir uma alteração dos tratados que ponha o BCE na dependência do poder político.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
Há uma solução testada com sucesso: as “MEFO BILLS”
Neste sarilho da
dívida soberana, sempre que precisarmos de ir ao mercado os juros dispararão –
porque os juros dependem do poder negocial e não do montante da dívida.
Infelizmente, temos um PM completamente ingénuo (ou será fingimento?) que diz
que o juro é uma questão de «confiança dos mercados». Pior do que isso, afirmou
há pouco que não há outra opinião sobre o assunto. Posso talvez sugerir-lhe que
consulte sobre o assunto o nosso PR... ou que veja o que tem dito o Obama ou o
Mário Soares... será que ele sofre de autismo??
As medidas que
estão a ser adoptadas não melhoram a nossa capacidade negocial, logo não vão
resolver o nosso problema. O problema prioritário, o juro, só se resolve
adquirindo capacidade de dizer “não” a juros altos. Como fez a Alemanha
recentemente. (a propósito, a subida dos juros na dívida pública da Alemanha
também é por causa da falta de «confiança dos mercados»?)
Resolver esta
situação é fácil - é só o BCE ligar as impressoras sempre que o juro
ultrapassar um valor considerado razoável. Ou seja, existem decisões políticas
que resolvem o problema. Propositadamente, mantém-se o problema no campo
económico, onde ele não tem solução com as actuais regras. Isto é, foi tomada a
decisão política de não resolver o problema. Quem tem o poder de mudar esta
decisão são a França e a Alemanha, mas acontece que elas têm vantagem na actual
situação, como mostrarei no próximo texto. Nós também poderíamos aproveitar
alguma coisa com a crise, uma oportunidade de ouro para combater a corrupção em
todas as suas formas. Mas, até agora, só se tem visto combater as pessoas
honestas.
Como não sabemos
se a França e a Alemanha vão tomar a decisão política de acabar com a crise
pelos tempos mais próximos, a cautela manda que tenhamos uma solução preparada
para pôr em acção caso não haja grandes mudanças até ao fim de 2012.
Num texto
anterior eu propus que o Estado emitisse umas obrigações com a capacidade de
circular como dinheiro – uma emissão paralela de dinheiro, mas legalmente
enquadrada. Assim, o 13º e 14º meses não seriam cortados mas pagos desta forma.
E estas obrigações seriam aceites pelo Estado para o pagamento numa percentagem
adequada de dívidas ao estado – IRS, segurança social, IRC, IVA.
Foi uma ideia.
Uma coisa estranha porque, como me disse há muitos anos um director duma
importante empresa alemã em Portugal, nós, portugueses, não temos ideias, não
pensamos, quem pensa são os alemães. Um frémito de orgulho percorria-lhe a
espinha por ser empregado desse ilustre povo que era capaz dessa coisa
espantosa, desconhecida dos portugueses: pensar! Na altura, risquei logo essa
empresa das minhas opções, não imaginando que um dia iria ter como PM alguém
que parece esse director.
Agora, mão amiga
fez-me chegar o seguinte link.
Muito
interessante!! Não é que os alemães já usaram este processo? E com enorme
sucesso?
A seguir à
primeira guerra mundial estavam proibidos de fabricar armas e não tinham
financiamento para o desenvolvimento das suas indústrias pesadas; então o
ministro das finanças alemão inventou uma sociedade “de investigação
metalúrgica”, fictícia, com o capital de 1 milhão de marcos, cujo nome
abreviado era MEFO; esta empresa fazia pagamentos à indústria pesada e de
armamento com “MEFO BILLS”, que podiam ser convertidas em marcos em qualquer
banco alemão, que por sua vez as podiam descontar no banco central a partir do
3º mês da sua emissão. Estas notas de crédito tinham uma validade de 6 meses
prorrogáveis indefinidamente por períodos de 3 meses. As MEFO BILLS permitiram
ao governo insuflar a sua economia com resultados tão brilhantes que em pouco
tempo estavam de novo em guerra. Em 1939, as MEFO BILLS totalizariam 12 mil
milhões de marcos contra os 19 mil milhões de obrigações do Tesouro.
Isto é uma grande
lição: os alemães tinham um problema e resolveram-no. Não ficaram à espera que
alguém resolvesse por eles. Não se deixaram ficar em becos sem saída,
dependentes de outros, que é onde nós estamos agora. Pensaram!!!!
O esquema que os
alemães usaram para financiar o seu esforço militar podemos nós usar para
financiar o estado social. Ao conseguir isso, obtemos poder negocial porque
deixamos de estar com a corda na garganta – se forem exigidos juros excessivos,
o estado pode fazer como a Alemanha fez há dias, rejeitar o empréstimo, porque
pode pagar parcialmente os ordenados e as pensões com estes títulos de dívida.
Mas essa situação extrema nunca acontecerá porque não tem vantagem para os
financeiros – é preferível emprestarem o dinheiro a 4,5% a não emprestarem.
E vejam o melhor
de tudo: nem sequer temos de pensar! Os alemães já pensaram por nós, só temos
que ser «bons alunos»!
domingo, novembro 27, 2011
Dormindo com o Inimigo
O anúncio acima
tem passado na Hungria a publicitar um banco austríaco. Os clientes querem
saber os juros e a resposta é a que vêem. Parece-vos de loucos? Mas olhem,
resulta. A prova é que os húngaros estão aflitos por causa dos empréstimos que
fizeram em bancos estrangeiros.
Parece que este
mesmo tipo de anúncio passou no Canadá, apenas o som do bancário era diferente.
Reparem no
absurdo: a única coisa que há para negociar com o banco é o juro; e é isto
precisamente que o anúncio diz que não é preciso saber!!!
O negócio da
Banca é o juro; e serve-se de todas as artimanhas que não dêem prisão para o
maximizar. Não há aqui quaisquer escrúpulos ou moral. Exploram os clientes com
a mesma frieza com que os operadores das linhas de valor acrescentado enganam
os velhinhos, roubando-lhes as míseras economias.
Ser vigarista é
actualmente “legal”, não há lei que condene a vigarice; apenas a moral o fazia;
mas onde entra o dinheiro não há moral. O velhinho da província, enganado pelo
operador de uma linha de valor acrescentado, além de roubado, é julgado,
condenado, fica sem telefone, a casa é penhorada e até pode ir preso. E é
Legal!!!
Mas hoje é assim:
à face da Lei, a Vigarice é uma actividade honesta e quem apontar o dedo a um
vigarista arrisca-se a um processo por difamação.
A Visa fez um inquérito
em S. Salvador e descobriu que uma larga maioria da população não sabia o que
queria dizer "juros". Isso foi visto como uma grande oportunidade de
negócio e uma grande consultora foi contratada para explorar este filão. Foi um
consultor dessa consultora que me contou.
Portanto,
percebam bem: os «mercados financeiros» estão sempre à espreita das
oportunidades de negócio, ou seja, de oportunidades de usufruírem de juros
usuários; e são completamente desprovidos de moral ou piedade – pelo contrário,
os pobres, os ignorantes, os aflitos são as suas vítimas preferidas. Mas eles
não se limitam a explorar as vítimas que encontram – eles produzem as suas
próprias vítimas.
É por isso que
estão sempre a oferecer dinheiro com os cartões de crédito – para criar uma
dívida que a vítima não possa amortizar.
Alguns bancos têm
“gerentes de conta”. As pessoas pensam que se trata de um serviço ao cliente.
Nada disso. O gerente de conta é um vendedor do Banco. Mas alguns são mais do
que isso, são Vigaristas.
Conheço o caso de
um funcionário bancário que vigarizou clientes, família e o próprio banco.
Quando foi descoberto, por queixa de um cliente, o banco pagou aos clientes mas
abafou o caso. Pois o funcionário em causa pôs um processo a quem denunciou a
fraude. Para o banco, este era certamente um bom funcionário porque deve ter
conseguido muitos negócios bons para o Banco.
Não se iludam:
entre os financeiros estão os mais hábeis e inescrupulosos vigaristas que
existem sobre a Terra. A Vigarice tornou-se uma ciência, que eles cultivam
empenhadamente. A sua actividade não é a produção de riqueza, é a predação; e
eles encaram as pessoas como nós encaramos o gado de que nos alimentamos.
O FMI veio
“salvar” Portugal; como? Emprestando dinheiro a 7,5%, mais umas comissões e
taxas!!!
O melhor negócio
do mundo é “ajudar” os que estão em dificuldades. O FMI ganha muito dinheiro
com estas “ajudas”. Se isto é um negócio para o FMI, o que lhe convém é que o
negócio cresça, não é verdade? Ao FMI o que interessa não é que Portugal
resolva os seus problemas mas, ao contrário, que possa continuar eternamente a
“ajudar-nos”. O que ele cobra é o máximo que podia cobrar sem ser óbvio que o
seu objectivo é a exploração, não é verdade?
Ou seja, pusemos
os vigaristas dentro de casa; estamos a dormir com o inimigo. E este inimigo
quer garantir que nunca nos livraremos dele, por isso está tão apressado em que
vendamos tudo o que possa gerar rendimento. Porque é que a CGD tem de vender a
participação na ZON? Para que as receitas da ZON saiam de Portugal.
É assim que estes
vigaristas agem:
1º - criam as
dificuldades;
2º - entram
dentro de nossa “casa” (nas nossas contas) para nos “ajudar”
3º - uma vez
dentro de casa, exploram-nos até ao tutano.
Isto é um
comportamento geral, standard. Estão a fazer isto com as dívidas soberanas tal
como fazem com quase qualquer empréstimo – por exemplo, quando as pessoas estão
com a corda na garganta aproveitam para renegociar os prazos de amortização
aumentando o juro! Essa foi uma das medidas deste governo para “ajudar” as
empresas em dificuldades.
E é isto que a
troika irá propor no fim de 2012: alargar o prazo da ajuda aumentando o juro!
Em 2012, tendo perdido o que resta das empresas do Estado e tendo caído em
recessão, só vamos estar mais pobres e frágeis, não é verdade?
A nossa situação
é esta: estamos a ser governados por funcionários bancários; e estes
funcionários estão a fazer connosco o que fazem os gerentes de conta com as
suas clientes em dificuldades.
Não se iludam. Os
ricos só enriquecem mais aumentando a desigualdade, porque o PIB cresce pouco
ou nada; a troika compõe-se de empregados dos ricos, funcionários do sistema
bancário.
São capazes de
imaginar a Alemanha ou a França consentirem em ser governadas por funcionários
bancários? Não, pois não?
O nosso
Presidente da República já percebeu isto tudo; é por isso que tem tomado as
posições que se sabe, apesar do incómodo que isso causa ao seu partido. Mas o
Primeiro Ministro parece não saber nada de coisa nenhuma e, como tal, segue
religiosamente as instruções dos funcionários bancários que agora mandam no
país. Isto admitindo que ele está de boa fé, como diz Mário Soares; coisa sobre
a qual eu tenho as maiores dúvidas desde o dia em que o vi cantar o Hino
Nacional.
A questão é: o
que vamos fazer para nos livrarmos do Inimigo? Temos de ser mais hábeis do que
ele, porque ele é mais poderoso do que nós.
Temos uma coisa a
nosso favor: o Cavaco Silva. Nunca imaginei um dia dizer isto dele, mas de
entre todos os líderes e especialistas que tenho ouvido, o nosso PR tem sido o mais
esclarecido. E corajoso. Estejamos atentos e estejamos do lado dele quando a
ocasião chegar. Não há outro herói no horizonte.
sexta-feira, novembro 25, 2011
O Colossal Equívoco
Estes planos de
resgate, estas medidas de austeridade, baseiam-se num erro colossal. Esse erro
é a presunção de que as altas taxas de juro exigidas às dívidas soberanas
resultam da desconfiança dos «mercados» relativamente à capacidade de certos
países em assumirem os seus compromissos financeiros; o juro é entendido como
proporcional ao risco.
Ora isto é duma
ingenuidade atroz, só possível na cabeça de académicos sem nenhum conhecimento
do mundo real.
O exemplo
evidente do que estou a dizer são os cartões de crédito. Conhecem algum banco,
unzinho que seja, que cobre juros inferiores a 15% no cartão de crédito? Não,
pois não? Cobram todos praticamente o máximo permitido por lei. Vejam o
absurdo: não estaria suposto que as “leis do mercado” fariam os bancos competir
pelo juro mais baixo?
Pois é, aqui está
uma questão que viola todos os princípios em que assenta o actual modelo
económico: porque é que nenhum banco se atreve a propor juros de, por exemplo,
15%, nos cartões de crédito? Porque é que preciso legislar o juro máximo? Como
é que as “leis do mercado” levam a que o juro seja máximo em vez de mínimo?
As actuais
teorias sobre o mercado presumem que os agentes estão em competição feroz, num
entendimento darwinista do comportamento dos diversos actores. Ora no mercado,
como na natureza, os indivíduos da mesma espécie, e até de espécies diferentes,
seguem regras que garantem a máxima sobrevivência. Essas regras determinam
comportamentos territoriais e fenómenos de cooperação. O mesmo se passa com as
empresas. Elas não andam em guerras mortais, elas estabelecem os seus
territórios e cooperam quando conveniente para os seus interesses comuns.
Acho fascinante
que os analistas da bolsa todos os dias tenham uma “explicação” para a bolsa
ter subido ou descido, como se a bolsa tivesse um comportamento «lógico». A
Bolsa sobe ou desce por manipulação dos grandes actores financeiros, que
induzem os pequenos investidores a investirem em determinadas acções e em
seguida invertem o movimento das cotações. É assim que os grandes investidores
ganham sistematicamente dinheiro na bolsa, quer ela suba ou desça. Quando
querem vender, começam por comprar para fazer subir o preço e vice-versa.
A razão por que
os juros das dívidas soberanas sobem é porque o único mecanismo que os países
têm para ter poder negocial nos juros, que é a impressão de dinheiro, está
proibida na Europa! Sendo assim, os «mercados» cooperam na subida dos juros,
evidentemente, maximizando os ganhos de todos e de cada um.
E porque é que o
BCE não pode imprimir euros e comprar dívida soberana? Porque os teóricos do
actual modelo acharam que os agentes financeiros competiriam entre si,
garantindo juros adequadamente baixos. O simples facto de ser necessário
legislar o juro máximo dos cartões de crédito prova a incapacidade de um banco
central de poderes limitados em regular o mercado financeiro.
A última coisa que estes teóricos vão admitir é
que a teoria que conhecem está errada; por isso vão arranjando explicações “lógicas”. Como
acontece com as flutuações da bolsa. Ou seja, vão arranjando culpados - os malandros dos gregos, os calões dos tugas...
Qualquer uma das
medidas anunciadas, eurobonds incluída, é inútil, disparatada, nociva, só
agrava a situação. A criação de eurobonds sem impressão de moeda seria o
desastre final.
Esta situação
disparatada abriu caminho a outros interesses: as grandes fábricas vêem aqui a
possibilidade de obter mão-de-obra barata. É por isso que as medidas do Governo
são obsessivamente concentradas no custo da mão-de-obra – uma obsessão que
causa recessão, o oposto do que seria desejável na presente situação. A
recessão prevista colocou a cotação de Portugal no lixo, evidentemente.
Há uma
frase que me martela a cabeça: “Há duas maneiras de conquistar e escravizar uma
nação, uma pela espada, a outra pela dívida” (John Adams, segundo presidente
dos EUA e grande teórico do conhecimento político). Mesmo que não haja esta
intenção por detrás deste problema, ele pode acabar por ter este desfecho.
A Alemanha tomou
uma atitude inteligente: só aceita colocar dívida até um determinado valor da
taxa de juro. É isto que todos os países se têm
de preparar para fazer. Para a Alemanha, isso é fácil, mas como poderá Portugal
fazer o mesmo?
Da seguinte
forma: a dívida que não conseguir colocar vai ser dinheiro que vai faltar ao
Estado; o Estado fará então parte dos seus pagamentos internos em certificados
de dívida – que aceitará em pagamentos ao Estado na mesma proporção da sua emissão. Desta forma, fará uma espécie
de criação de dinheiro legal. Mas até duvido que isso seja necessário: bastará
anunciar que não colocará dívida acima de, digamos, 6%, para não faltar quem se
proponha a comprar abaixo desse valor; na vez seguinte baixará este valor para 5%; e depois para 4,5%. Um país que mostra ser capaz de soluções não recessivas não fica refém dos mercados financeiros.
terça-feira, novembro 22, 2011
Política e Economia
A Política visa a
felicidade humana; a política visa criar o paraíso na Terra. A Política é o
combate a tudo o que causa sofrimento.
A satisfação das
nossas necessidades de sobrevivência exige a produção de bens e a prestação de
serviços. O Conhecimento específico deste objectivo parcelar da nossa
felicidade constitui a Economia.
A Economia visa
maximizar a produção de riqueza. Podem dar-se muitas definições de Economia,
mais ou menos sofisticadas, mais ou menos apetecíveis, mas a verdade essencial
a respeito da Economia é esta: a Economia visa maximizar a produção de riqueza.
A produção de
riqueza exige “trabalho”. Aqui,
“trabalho” é basicamente a cedência das capacidades do corpo e da mente
durante um determinado período de tempo por um determinado montante de
dinheiro. Por exemplo, oito horas diárias a troco de um salário. Mas o trabalho
pode facilmente resvalar para a escravatura. Quando essas oito horas são
passadas em frente a uma máquina, por exemplo, de costura, com ritmo máximo,
sem pausas a não ser quando a linha encrava, com a ameaça de que no fim do mês
os empregados que cozerem menos quilómetros são despedidos, do tipo do que
acontece nos concursos de televisão muito em voga, isso é escravatura. Também é
escravatura quando as horas de trabalho são 10 ou 16 ou mais, como acontece com
consultores, mesmo que seja um trabalho muito bem remunerado.
A maximização da
produção de riqueza passa necessariamente pelo trabalho escravo, ou seja, pela
obtenção da máxima produção por uma pessoa pelo mínimo custo. O objectivo é que
o salário seja apenas o essencial à sobrevivência do escravo enquanto ele for
capaz de produzir com o ritmo pretendido. A Economia conduz à escravatura.
Sempre. Apenas a Política se opõe a isso. A Política é que estabelece limites à
relação empregador-empregado
Por isso, a
Economia é uma ferramenta indispensável da Política mas é uma ferramenta
perigosa, que tem de estar sempre subordinada à Política. Quando a Economia se
sobrepõe à política, temos uma catástrofe social, temos a sociedade
reduzida a escravos e senhores (muitos escravos e poucos
senhores).
O drama é que
quando isto acontece, não é facilmente reversível: os Senhores tomam conta do
poder e os Escravos nada podem fazer.
O facto de a
Economia ter tomado conta dos destinos dos povos europeus do Sul só augura o
regresso da escravatura com toda a força. A Economia nada sabe das necessidades
das pessoas, nada conhece da cultura, da História, não distingue um humano duma
máquina. Ou melhor, vê um humano como uma máquina imperfeita.
Um exemplo disso
é actual projecto de extinção de feriados. Ridículo nos seus efeitos práticos
mas muito importante para destruir o lado humano. Os feriados de um povo são
sua propriedade, fazem parte da sua História; muitos deles são celebrações
anteriores às religiões e aos países; não são propriedade nem de governantes
nem de religiões e não podem ser alterados sem a concordância do povo. Só os
escravos não têm feriados porque os escravos não são pessoas, não têm passado
nem futuro, não têm História. O dia em que não tivermos feriados é o dia em que
seremos escravos. O facto de termos um Governo que pretende acabar com os
feriados (eliminar 4 e passar os outros para o Domingo) deixa-me muito
preocupado.
quinta-feira, novembro 17, 2011
Já repararam?
Reparem nas medidas da Troika / Governo:
Diminuir a TSU (esta não conseguiram)
Cortar meio subsídio de natal em 2011
Aumentar o horário de trabalho (equivale a reduzir o custo da hora em 7%)
Pretendem que o corte de 14% (2 subsídios) da função pública se estenda aos
privados
Cortar 4 feriados e passar outros para o Domingo (objectivo: reduzir mais
4% o custo hora, perfazendo 25% de corte no custo hora em 2012)
Reduzir o número de dias de férias (vem já a seguir)
Perguntarão
vocês: não é da redução da dívida do Estado que se trata? Então porquê reduzir
no sector privado? Isso causa recessão e vai fazer falir empresas que trabalham
para o mercado interno, criar desemprego e aumentar os encargos da Segurança
Social ao mesmo tempo que diminui as receitas do Estado; não é o contrário do
que se pretende?
A resposta é:
Não! Isto é exactamente o que se pretende!
Reparem: aumentar
o desemprego é a melhor maneira de fazer baixar o custo hora do trabalho e não
só, permitir algo também muito importante: a escravização. A escravização
consiste em explorar o empregado até ao limite das suas forças. O padrão é que
ao fim de dois anos o empregado esteja inutilizado para o trabalho, sendo
substituído por um “fresquinho”. Isto é uma teoria e uma prática muito antiga,
a duração média do escravo de 2 anos vem do tempo da escravatura dos negros e é
o que ainda se aplica hoje em empresas como as consultoras. Noutras empresas
desta corrente de gestão, varia entre 6 meses e 4 anos. As pessoas vão ser
colocadas entre aceitar ser escravo ou morrer à fome. As pessoas da classe média pensam que isso não as afectará, não será com elas, será com os mesmos desgraçados de sempre, dos quais dizem: ah, e é muito bom que tenham quem lhes dê um emprego assim! Pois, mas desta vez vai chegar a todos.
Por outro lado,
diminuir as receitas do Estado é a garantia de que ficaremos eternamente na
dependência da Troika. Este é o conhecido “esquema de cantina”. A Troika só de
cá sairá com uma revolução.
Já repararam que
o Passos Coelho anuncia os cortes salariais e dos feriados com a mesma
satisfação com que o Sócrates anunciava o aumento do ordenado mínimo? São
capazes de imaginar o Passos Coelho a anunciar um aumento do ordenado mínimo?
Não são, pois
não? Sabem porquê?
segunda-feira, novembro 14, 2011
Quem é que vive «acima das nossas posses»?
Este texto nasce
da pequena irritação que sinto por passar a vida a ouvir dizer que os
portugueses vivem acima das suas posses, subentendendo-se sempre que são as
pessoas que ganham menos e que recorrem ao crédito para tentarem obter o nível
de vida das pessoas “finas”, nomeadamente através da compra de casa e das
viagens ao estrangeiro.
Não sabemos todos
por que razão as pessoas compraram casa? Porque era mais barato do que
arrendar! Claro! Porque era muito melhor negócio comprar do que arrendar,
porque saía muito mais barato!!! Comprar casa não foi um luxo, foi uma
economia, um bom negócio.
Toda a gente sabe
isso, mas acontece que o povo possuir casa incomoda as pessoas finas; por
várias razões, uma delas é que a pessoa com casa é menos vulnerável.
Já pensaram que
se as pessoas não tivessem já casa, nomeadamente os reformados, agora
arriscavam-se a serem despejados por não terem dinheiro para a renda? Sobretudo
se já estivesse em vigor a tal lei que permitirá (?) relançar o arrendamento?
Bem, após este
desabafo, vejamos então quem «vive acima das nossas posses».
Podemos começar
pelos empregados das empresas públicas; o dinheiro para alguns belos ordenados
que muitas destas empresas pagam vem de empréstimos que estas empresas têm
andado a fazer. São empresas geridas sem orçamento, vão gastando, quando se
acaba pedem ao estado ou à banca. Portanto, estes ordenados, e tanto mais
quanto maiores, são dívida. Estas pessoas têm andado a ganhar mais do que «as
nossas posses». Com os seus gestores à cabeça. Alguém tem dúvidas de que estes
gestores e muito do seu pessoal ganha «mais do que as nossas posses»? Mais
todos os amigos, afilhado e companheiros de partido que puseram nas empresas
publicas e lá continuam? São eles que compram os BMW e Mercedes que tanto desiquilibram a nossa balança de pagamentos
Mas não são só os
empregados das empresas públicas – quantas empresas privadas não vivem do
Estado? Não teve o Estado de se endividar para lhes pagar? Então, o dinheiro
que estas empresas têm ganho também é dívida.
Podemos continuar
a análise por aí fora mas o resultado é óbvio:
1 – o «viver
acima das nossas posses» não resulta de créditos pessoais, resulta de ordenados
e rendimento sem correspondência com a produção;
2- os ordenados
mínimos não são «acima das nossas posses»; então quem vive acima das nossas posses
são, necessariamente, as pessoas que ganham mais, uma vez que as outras não
são.
Isto é óbvio e
traduz-se na nossa elevada desigualdade; as duas frases são sinónimos:
Viver acima das
posses = excesso de desigualdade
Isto porque o
mínimo não pode ser mais descido – embora este Governo esteja a tentar.
Espanta-me como
os deputados da esquerda não sabem isto.
Isto para não falar nos BPN e quejandos... que nós agora, os mais pobres, somos obrigados a pagar... sim, porque os ricos não podem pagar se não vão-se embora e que seria de nós sem eles? Santa paciência...
quinta-feira, novembro 10, 2011
Crise da dívida soberana: desmascarando a armadilha
Como vimos no
texto anterior, a banca dedica-se, entre outros, ao negócio da usura, que é o
que nos interessa analisar agora.
Quando fazemos um
empréstimo para habitação, celebramos um contrato que estipula uma data de
coisas, nomeadamente o juro.
Como os juros
estão indexados ao juro definido pelo BCE, se o BCE quisesse causar uma crise
no crédito à habitação apenas teria de aumentar o seu juro. Os juros subiriam
automaticamente, algumas pessoas ficavam sem conseguir pagá-los, e isso daria
oportunidade aos bancos para renegociarem os contratos para prazos maiores e
juros mais altos. Depois, os juros do BCE já poderiam descer novamente. Uma
pequenina jogada destas representa logo milhões de euros de lucros para a
banca.
Este pequeno
exemplo é para percebermos os poderes do BCE no comando dos «mercados»,
nomeadamente no fomento da usura. Os mercados respondem de forma linear, são
facílimos de controlar, não acontece nada de imprevisível – é apenas a
ignorância do comum dos mortais que permite passar esta imagem de
“imprevisibilidade” dos mercados.
Outro exemplo é o
caso da bolsa; como certamente já repararam, a notícia da variação da bolsa é
sempre precedida de uma “explicação”. Sempre. É claro que a explicação é falsa,
se o funcionamento da bolsa fosse assim lógico seria fácil prever o que iria
acontecer no dia seguinte – na verdade, quando há uma expectativa generalizada
sobre o seu comportamento no dia seguinte, podemos estar certos que vai ser ao
contrário. Porquê? Porque o funcionamento da bolsa é manipulado pelos grandes
investidores e o negócio consiste em levar os pequenos investidores a apostar
de uma maneira e depois fazer a bolsa variar ao contrário. Os pequenos
investidores perdem sempre, os grandes ganham. Isto mantêm-se assim suportado
na ideia de que o funcionamento da bolsa é previsível e não manipulável e é por
isso que é indispensável apresentar sempre uma “explicação” para as variações
da bolsa – para que os toscos dos pequenos investidores continuem a meter lá o
dinheiro.
Portanto, tudo o
que acontece nos mercados financeiros é fruto da acção previsível dos agentes
financeiros e do comando dos bancos centrais. O objectivo dos agentes
financeiros é sempre maximizar os lucros e quem faz negócios com eles tem de
acautelar as condições do negócio porque eles são predadores cegos e
impiedosos. Não é porque sejam «maus», é apenas porque essas são as regras, é a
consequência inevitável de nós querermos que eles nos paguem a melhor taxa
pelos nossos depósitos a prazo.
No que se refere
às dívidas soberanas, os países têm um mecanismo de salvaguarda: se os mercados
quiserem fazer subir os juros, o banco central imprime moeda e compra a dívida.
A banca perde duplamente: os juros não sobem e a dívida diminui. Por isso, este
mecanismo mantém os “mercados” sob controlo.
Como sabem, o Fed
tem imprimido triliões de dólares nos últimos anos, pondo a dívida soberana dos
EUA a salvo dos “mercados”.
São estúpidos os
americanos? Evidentemente que não, toda a gente sabe que é assim que se faz.
É por isso que a
decisão do BCE de não comprar directamente dívida soberana tem segundas
intenções. Com esta decisão, as dívidas soberanas ficam sem nada que as segure,
os juros pedidos pelos mercados podem subir ao céu. Consequência inevitável
desta decisão.
Portanto, não
tenhamos dúvidas: a actual «crise» das dívidas soberanas é voluntariamente
produzida pelo BCE. Não é nenhuma «crise», não é algo imprevisto,
incontrolável, mas exactamente o contrário.
Bastaria emitir
eurobonds, imprimindo dinheiro, para ela acabar imediatamente. Como fazem os
americanos. Isso iria desvalorizar o Euro, como dizem? Mas o dólar não se tem
desvalorizado, pois não? Esse argumento é falso, o valor da moeda está na força
da economia.
Portanto, o que
vai acontecer é bem claro – a subida de juros serve de pretexto para o BCE,
dominado pelo bloco Franco-Alemão, tomar posse dos países a que «assiste».
Posse definitiva, como perceberão já a seguir.
Ao intervir em Portugal, as necessidades de
financiamento do país até 2013 ficaram muito reduzidas, pelo que os mercados
foram “atacar” o país seguinte, a Itália. Em 2013, voltarão a atacar Portugal,
motivando nova «ajuda». E isto indefinidamente porque a única maneira de
Portugal sair deste esquema seria reduzir a zero a dívida soberana e isso é
impossível. É por isso que até «perdoaram» metade da dívida à Grécia – é
completamente irrelevante, tanto faz a dívida ser metade ou o dobro, enquanto
houver dívida a Grécia ficará dependente do BCE.
Percebam bem
isto: não há saída desta situação. Se não fizermos algo, nunca mais voltaremos
a ser um País. Não se iludam.
Este esquema tem
um nome: o «esquema da cantina». É um conhecido esquema de escravatura.
Mas este esquema
não nasceu agora: a armadilha está montada desde o início.
Passa pela cabeça
de alguém pretender que os habitantes do distrito de Castelo Branco, por
exemplo, passem a ter a saúde, a educação, as pensões de reformas, etc, etc,
financiados pelas receitas do distrito? Claro que não, porque as empresas que
lá operam têm a sede noutros lados e é para lá que os lucros vão. Entre muitas
outras razões.
Pois um disparate
destes é exactamente no que consiste o brilhante projecto europeu.
Como já referi,
Portugal está invadido por empresas que exploram os nossos recursos mas levam
os lucros para fora. Isso não é permitido em nenhum país do mundo fora da
Europa. Economia aberta com orçamento local é um disparate inacreditável, é
impossível este esquema ter sido concebido para resultar – e não foi, este
esquema é apenas uma armadilha. Uma armadilha em que os tolos do Sul caíram.
Caíram por cupidez, porque pensaram que iam passar a ter o nível de vida dos
alemães. As pessoas acreditam sempre no que lhes convém, é assim que os
vigaristas agem.
Portanto, temos
de perceber a situação com toda a clareza: o projecto europeu não passa de uma
armadilha, arquitectada para colocar os vários países europeus na dependência
do bloco Franco-Alemão. Estamos em guerra. Já estamos ocupados. Vamos ser
barbaramente aniquilados, como irei explicar.
Mas não pensem
que são só os países do Sul que foram vítimas dos dois grandes; não sabem que a
Bélgica está sem governo há muito tempo? Sabem porquê? Porque a Bélgica já não
existe. Nem o Luxemburgo ou o Liechtenstein. A Holanda é uma colónia alemã,
como se perceberá a seu tempo. E a Irlanda, na verdade, nunca foi um país, não
passa da Madeira dos Ingleses.
Portanto, para
conquistar a Europa falta controlar os 4 do Sul. O Leste virá depois. Já foi
assim nas grandes guerras, o plano é o mesmo, os meios é que são outros... (e,
tal como nas grandes guerras, esta guerra também passa por África; só que aí é
mesmo à bomba...)
Não tenham
dúvidas nem ilusões: estamos debaixo de um ataque Franco-Alemão. Não há «crise»
nenhuma, há um acto de guerra, uma acção de conquista da Europa por franceses e
alemães. O sistema financeiro limita-se a responder de acordo com as regras que
lhe fixam. O seu comportamento é absolutamente previsível, linear, simplório. E
as regras foram escolhidas expressamente para colocar os países do Sul da
Europa no domínio da França e da Alemanha.
No próximo post
vou mostrar-vos o nosso futuro próximo, se continuarmos a ir para onde nos mandam.
Porque, diferentemente do que acontece com os pequenos países do norte, o
projecto que esses dois têm para nós é do tipo do que fizeram para os judeus. Este modelo de sociedade não funciona sem escravos. O único modelo que existe actualmente de uma sociedade sem escravos é o da Dinamarca.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
