terça-feira, novembro 22, 2011

Política e Economia



A Política visa a felicidade humana; a política visa criar o paraíso na Terra. A Política é o combate a tudo o que causa sofrimento.

A satisfação das nossas necessidades de sobrevivência exige a produção de bens e a prestação de serviços. O Conhecimento específico deste objectivo parcelar da nossa felicidade constitui a Economia.

A Economia visa maximizar a produção de riqueza. Podem dar-se muitas definições de Economia, mais ou menos sofisticadas, mais ou menos apetecíveis, mas a verdade essencial a respeito da Economia é esta: a Economia visa maximizar a produção de riqueza.

A produção de riqueza exige “trabalho”. Aqui,  “trabalho” é basicamente a cedência das capacidades do corpo e da mente durante um determinado período de tempo por um determinado montante de dinheiro. Por exemplo, oito horas diárias a troco de um salário. Mas o trabalho pode facilmente resvalar para a escravatura. Quando essas oito horas são passadas em frente a uma máquina, por exemplo, de costura, com ritmo máximo, sem pausas a não ser quando a linha encrava, com a ameaça de que no fim do mês os empregados que cozerem menos quilómetros são despedidos, do tipo do que acontece nos concursos de televisão muito em voga, isso é escravatura. Também é escravatura quando as horas de trabalho são 10 ou 16 ou mais, como acontece com consultores, mesmo que seja um trabalho muito bem remunerado.

A maximização da produção de riqueza passa necessariamente pelo trabalho escravo, ou seja, pela obtenção da máxima produção por uma pessoa pelo mínimo custo. O objectivo é que o salário seja apenas o essencial à sobrevivência do escravo enquanto ele for capaz de produzir com o ritmo pretendido. A Economia conduz à escravatura. Sempre. Apenas a Política se opõe a isso. A Política é que estabelece limites à relação empregador-empregado

Por isso, a Economia é uma ferramenta indispensável da Política mas é uma ferramenta perigosa, que tem de estar sempre subordinada à Política. Quando a Economia se sobrepõe à política, temos uma catástrofe social, temos a sociedade reduzida a escravos e senhores (muitos escravos e poucos senhores).

O drama é que quando isto acontece, não é facilmente reversível: os Senhores tomam conta do poder e os Escravos nada podem fazer.

O facto de a Economia ter tomado conta dos destinos dos povos europeus do Sul só augura o regresso da escravatura com toda a força. A Economia nada sabe das necessidades das pessoas, nada conhece da cultura, da História, não distingue um humano duma máquina. Ou melhor, vê um humano como uma máquina imperfeita.

Um exemplo disso é actual projecto de extinção de feriados. Ridículo nos seus efeitos práticos mas muito importante para destruir o lado humano. Os feriados de um povo são sua propriedade, fazem parte da sua História; muitos deles são celebrações anteriores às religiões e aos países; não são propriedade nem de governantes nem de religiões e não podem ser alterados sem a concordância do povo. Só os escravos não têm feriados porque os escravos não são pessoas, não têm passado nem futuro, não têm História. O dia em que não tivermos feriados é o dia em que seremos escravos. O facto de termos um Governo que pretende acabar com os feriados (eliminar 4 e passar os outros para o Domingo) deixa-me muito preocupado.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Já repararam?



Reparem nas medidas da Troika / Governo:

Diminuir a TSU (esta não conseguiram)
Cortar meio subsídio de natal em 2011
Aumentar o horário de trabalho (equivale a reduzir o custo da hora em 7%)
Pretendem que o corte de 14% (2 subsídios) da função pública se estenda aos privados
Cortar 4 feriados e passar outros para o Domingo (objectivo: reduzir mais 4% o custo hora, perfazendo 25% de corte no custo hora em 2012)
Reduzir o número de dias de férias (vem já a seguir)

Perguntarão vocês: não é da redução da dívida do Estado que se trata? Então porquê reduzir no sector privado? Isso causa recessão e vai fazer falir empresas que trabalham para o mercado interno, criar desemprego e aumentar os encargos da Segurança Social ao mesmo tempo que diminui as receitas do Estado; não é o contrário do que se pretende?

A resposta é: Não! Isto é exactamente o que se pretende!

Reparem: aumentar o desemprego é a melhor maneira de fazer baixar o custo hora do trabalho e não só, permitir algo também muito importante: a escravização. A escravização consiste em explorar o empregado até ao limite das suas forças. O padrão é que ao fim de dois anos o empregado esteja inutilizado para o trabalho, sendo substituído por um “fresquinho”. Isto é uma teoria e uma prática muito antiga, a duração média do escravo de 2 anos vem do tempo da escravatura dos negros e é o que ainda se aplica hoje em empresas como as consultoras. Noutras empresas desta corrente de gestão, varia entre 6 meses e 4 anos. As pessoas vão ser colocadas entre aceitar ser escravo ou morrer à fome. As pessoas da classe média pensam que isso não as afectará, não será com elas, será com os mesmos desgraçados de sempre, dos quais dizem: ah, e é muito bom que tenham quem lhes dê um emprego assim! Pois, mas desta vez vai chegar a todos.

Por outro lado, diminuir as receitas do Estado é a garantia de que ficaremos eternamente na dependência da Troika. Este é o conhecido “esquema de cantina”. A Troika só de cá sairá com uma revolução.

Já repararam que o Passos Coelho anuncia os cortes salariais e dos feriados com a mesma satisfação com que o Sócrates anunciava o aumento do ordenado mínimo? São capazes de imaginar o Passos Coelho a anunciar um aumento do ordenado mínimo?

Não são, pois não? Sabem porquê?

segunda-feira, novembro 14, 2011

Quem é que vive «acima das nossas posses»?



Este texto nasce da pequena irritação que sinto por passar a vida a ouvir dizer que os portugueses vivem acima das suas posses, subentendendo-se sempre que são as pessoas que ganham menos e que recorrem ao crédito para tentarem obter o nível de vida das pessoas “finas”, nomeadamente através da compra de casa e das viagens ao estrangeiro.

Não sabemos todos por que razão as pessoas compraram casa? Porque era mais barato do que arrendar! Claro! Porque era muito melhor negócio comprar do que arrendar, porque saía muito mais barato!!! Comprar casa não foi um luxo, foi uma economia, um bom negócio.

Toda a gente sabe isso, mas acontece que o povo possuir casa incomoda as pessoas finas; por várias razões, uma delas é que a pessoa com casa é menos vulnerável.

Já pensaram que se as pessoas não tivessem já casa, nomeadamente os reformados, agora arriscavam-se a serem despejados por não terem dinheiro para a renda? Sobretudo se já estivesse em vigor a tal lei que permitirá (?) relançar o arrendamento?

Bem, após este desabafo, vejamos então quem «vive acima das nossas posses».

Podemos começar pelos empregados das empresas públicas; o dinheiro para alguns belos ordenados que muitas destas empresas pagam vem de empréstimos que estas empresas têm andado a fazer. São empresas geridas sem orçamento, vão gastando, quando se acaba pedem ao estado ou à banca. Portanto, estes ordenados, e tanto mais quanto maiores, são dívida. Estas pessoas têm andado a ganhar mais do que «as nossas posses». Com os seus gestores à cabeça. Alguém tem dúvidas de que estes gestores e muito do seu pessoal ganha «mais do que as nossas posses»? Mais todos os amigos, afilhado e companheiros de partido que puseram nas empresas publicas e lá continuam? São eles que compram os BMW e Mercedes que tanto desiquilibram a nossa balança de pagamentos

Mas não são só os empregados das empresas públicas – quantas empresas privadas não vivem do Estado? Não teve o Estado de se endividar para lhes pagar? Então, o dinheiro que estas empresas têm ganho também é dívida.

Podemos continuar a análise por aí fora mas o resultado é óbvio:

1 – o «viver acima das nossas posses» não resulta de créditos pessoais, resulta de ordenados e rendimento sem correspondência com a produção;
2- os ordenados mínimos não são «acima das nossas posses»; então quem vive acima das nossas posses são, necessariamente, as pessoas que ganham mais, uma vez que as outras não são.

Isto é óbvio e traduz-se na nossa elevada desigualdade; as duas frases são sinónimos:

Viver acima das posses = excesso de desigualdade

Isto porque o mínimo não pode ser mais descido – embora este Governo esteja a tentar.

Espanta-me como os deputados da esquerda não sabem isto.

Isto para não falar nos BPN e quejandos... que nós agora, os mais pobres, somos obrigados a pagar... sim, porque os ricos não podem pagar se não vão-se embora e que seria de nós sem eles? Santa paciência...

quinta-feira, novembro 10, 2011

Crise da dívida soberana: desmascarando a armadilha



Como vimos no texto anterior, a banca dedica-se, entre outros, ao negócio da usura, que é o que nos interessa analisar agora.

Quando fazemos um empréstimo para habitação, celebramos um contrato que estipula uma data de coisas, nomeadamente o juro.

Como os juros estão indexados ao juro definido pelo BCE, se o BCE quisesse causar uma crise no crédito à habitação apenas teria de aumentar o seu juro. Os juros subiriam automaticamente, algumas pessoas ficavam sem conseguir pagá-los, e isso daria oportunidade aos bancos para renegociarem os contratos para prazos maiores e juros mais altos. Depois, os juros do BCE já poderiam descer novamente. Uma pequenina jogada destas representa logo milhões de euros de lucros para a banca.

Este pequeno exemplo é para percebermos os poderes do BCE no comando dos «mercados», nomeadamente no fomento da usura. Os mercados respondem de forma linear, são facílimos de controlar, não acontece nada de imprevisível – é apenas a ignorância do comum dos mortais que permite passar esta imagem de “imprevisibilidade” dos mercados.

Outro exemplo é o caso da bolsa; como certamente já repararam, a notícia da variação da bolsa é sempre precedida de uma “explicação”. Sempre. É claro que a explicação é falsa, se o funcionamento da bolsa fosse assim lógico seria fácil prever o que iria acontecer no dia seguinte – na verdade, quando há uma expectativa generalizada sobre o seu comportamento no dia seguinte, podemos estar certos que vai ser ao contrário. Porquê? Porque o funcionamento da bolsa é manipulado pelos grandes investidores e o negócio consiste em levar os pequenos investidores a apostar de uma maneira e depois fazer a bolsa variar ao contrário. Os pequenos investidores perdem sempre, os grandes ganham. Isto mantêm-se assim suportado na ideia de que o funcionamento da bolsa é previsível e não manipulável e é por isso que é indispensável apresentar sempre uma “explicação” para as variações da bolsa – para que os toscos dos pequenos investidores continuem a meter lá o dinheiro.

Portanto, tudo o que acontece nos mercados financeiros é fruto da acção previsível dos agentes financeiros e do comando dos bancos centrais. O objectivo dos agentes financeiros é sempre maximizar os lucros e quem faz negócios com eles tem de acautelar as condições do negócio porque eles são predadores cegos e impiedosos. Não é porque sejam «maus», é apenas porque essas são as regras, é a consequência inevitável de nós querermos que eles nos paguem a melhor taxa pelos nossos depósitos a prazo.

No que se refere às dívidas soberanas, os países têm um mecanismo de salvaguarda: se os mercados quiserem fazer subir os juros, o banco central imprime moeda e compra a dívida. A banca perde duplamente: os juros não sobem e a dívida diminui. Por isso, este mecanismo mantém os “mercados” sob controlo.

Como sabem, o Fed tem imprimido triliões de dólares nos últimos anos, pondo a dívida soberana dos EUA a salvo dos “mercados”.

São estúpidos os americanos? Evidentemente que não, toda a gente sabe que é assim que se faz.

É por isso que a decisão do BCE de não comprar directamente dívida soberana tem segundas intenções. Com esta decisão, as dívidas soberanas ficam sem nada que as segure, os juros pedidos pelos mercados podem subir ao céu. Consequência inevitável desta decisão.

Portanto, não tenhamos dúvidas: a actual «crise» das dívidas soberanas é voluntariamente produzida pelo BCE. Não é nenhuma «crise», não é algo imprevisto, incontrolável, mas exactamente o contrário.
Bastaria emitir eurobonds, imprimindo dinheiro, para ela acabar imediatamente. Como fazem os americanos. Isso iria desvalorizar o Euro, como dizem? Mas o dólar não se tem desvalorizado, pois não? Esse argumento é falso, o valor da moeda está na força da economia.

Portanto, o que vai acontecer é bem claro – a subida de juros serve de pretexto para o BCE, dominado pelo bloco Franco-Alemão, tomar posse dos países a que «assiste». Posse definitiva, como perceberão já a seguir.

 Ao intervir em Portugal, as necessidades de financiamento do país até 2013 ficaram muito reduzidas, pelo que os mercados foram “atacar” o país seguinte, a Itália. Em 2013, voltarão a atacar Portugal, motivando nova «ajuda». E isto indefinidamente porque a única maneira de Portugal sair deste esquema seria reduzir a zero a dívida soberana e isso é impossível. É por isso que até «perdoaram» metade da dívida à Grécia – é completamente irrelevante, tanto faz a dívida ser metade ou o dobro, enquanto houver dívida a Grécia ficará dependente do BCE.

Percebam bem isto: não há saída desta situação. Se não fizermos algo, nunca mais voltaremos a ser um País. Não se iludam.

Este esquema tem um nome: o «esquema da cantina». É um conhecido esquema de escravatura.

Mas este esquema não nasceu agora: a armadilha está montada desde o início.

Passa pela cabeça de alguém pretender que os habitantes do distrito de Castelo Branco, por exemplo, passem a ter a saúde, a educação, as pensões de reformas, etc, etc, financiados pelas receitas do distrito? Claro que não, porque as empresas que lá operam têm a sede noutros lados e é para lá que os lucros vão. Entre muitas outras razões.

Pois um disparate destes é exactamente no que consiste o brilhante projecto europeu.
Como já referi, Portugal está invadido por empresas que exploram os nossos recursos mas levam os lucros para fora. Isso não é permitido em nenhum país do mundo fora da Europa. Economia aberta com orçamento local é um disparate inacreditável, é impossível este esquema ter sido concebido para resultar – e não foi, este esquema é apenas uma armadilha. Uma armadilha em que os tolos do Sul caíram. Caíram por cupidez, porque pensaram que iam passar a ter o nível de vida dos alemães. As pessoas acreditam sempre no que lhes convém, é assim que os vigaristas agem.

Portanto, temos de perceber a situação com toda a clareza: o projecto europeu não passa de uma armadilha, arquitectada para colocar os vários países europeus na dependência do bloco Franco-Alemão. Estamos em guerra. Já estamos ocupados. Vamos ser barbaramente aniquilados, como irei explicar.

Mas não pensem que são só os países do Sul que foram vítimas dos dois grandes; não sabem que a Bélgica está sem governo há muito tempo? Sabem porquê? Porque a Bélgica já não existe. Nem o Luxemburgo ou o Liechtenstein. A Holanda é uma colónia alemã, como se perceberá a seu tempo. E a Irlanda, na verdade, nunca foi um país, não passa da Madeira dos Ingleses.

Portanto, para conquistar a Europa falta controlar os 4 do Sul. O Leste virá depois. Já foi assim nas grandes guerras, o plano é o mesmo, os meios é que são outros... (e, tal como nas grandes guerras, esta guerra também passa por África; só que aí é mesmo à bomba...)

Não tenham dúvidas nem ilusões: estamos debaixo de um ataque Franco-Alemão. Não há «crise» nenhuma, há um acto de guerra, uma acção de conquista da Europa por franceses e alemães. O sistema financeiro limita-se a responder de acordo com as regras que lhe fixam. O seu comportamento é absolutamente previsível, linear, simplório. E as regras foram escolhidas expressamente para colocar os países do Sul da Europa no domínio da França e da Alemanha.

No próximo post vou mostrar-vos o nosso futuro próximo, se continuarmos a ir para onde nos mandam. Porque, diferentemente do que acontece com os pequenos países do norte, o projecto que esses dois têm para nós é do tipo do que fizeram para os judeus. Este modelo de sociedade não funciona sem escravos. O único modelo que existe actualmente de uma sociedade sem escravos é o da Dinamarca. 

segunda-feira, novembro 07, 2011

Qual é o negócio dos Bancos?


CGD


Emprestar dinheiro? Perguntarão vocês a medo, sabendo que as minhas respostas são inesperadas (doutra forma não valia a pena eu escrever, não é?)

Considerem uma empresa de automóveis que faz uma fábrica. O custo da fábrica é um investimento. A fábrica produz produtos que a empresa vende, ganhando assim dinheiro. O objectivo da empresa é que a fábrica dure o mais possível. Quando ela deixar de ser rentável, a empresa fará uma nova fábrica.

Portanto, o negócio da empresa é fácil de perceber: há um investimento largamente não recuperável na construção da fábrica e um rendimento da actividade da fábrica. As contas são feitas para que esse rendimento atinja o valor que a fábrica custa num prazo de tempo que pode ir de 3 a 10 anos, tipicamente.

O negócio da banca é a mesma coisa. Em vez de aplicar o dinheiro numa fábrica, aplica-o num empréstimo. O devedor paga um juro deste empréstimo – é o rendimento do dinheiro aplicado.

“Ahh, mas há uma diferença em relação à empresa” – dirão vocês – “ o investimento na fábrica não é recuperável mas o empréstimo é!”

Pois, é exactamente aí que vocês se enganam. O Banco não está nada interessado em que lhe paguem o que emprestou. Para quê? Se lhe devolverem o empréstimo, terá de arranjar outro a quem emprestar, não é? Portanto, o banco não está nada interessado em que lhe paguem o empréstimo – o seu negócio é receber juros!

É por isso que os bancos emprestam dinheiro a quem não tem condições para pagar esse empréstimo. O Banco não quer que lhe paguem o que emprestou. Ao banco, o que interessa é que a pessoa possa pagar os juros do empréstimo.

Se não acreditam em mim, experimentem ir ao vosso banco tentar amortizar o empréstimo para compra de casa, se o tiverem; eu fiz isso há dias e, mesmo na actual situação de descapitalização da banca, fui convencido a não fazer tal. Aliás, até há pouco tempo, quem quisesse antecipar o pagamento do empréstimo para a casa pagava uma penalização  - por quebra de perspectiva de negócio.

Portanto, percebam a subtil mas fundamental diferença: o negócio da banca é cobrar juros.

Há empresas financeiras, tipo Cofidis, que estão no negócio de emprestar dinheiro – é um negócio diferente, esses querem que o cliente pague o empréstimo.

Agora vejamos como se desenvolve o negócio da banca. O objectivo do negócio é maximizar os juros. Mas se subirem muito os juros, o cliente pode desfazer o negócio, devolvendo o empréstimo. Então, o banco procura clientes que não possam devolver o dinheiro emprestado.

É por isso que os bancos estão constantemente a oferecer dinheiro emprestado a pessoas de baixos rendimentos – esse dinheiro vai depois vencer juros altíssimos. Encravada com os juros, a pessoa não consegue amortizar o empréstimo e o banco tem assim o máximo rendimento.

A crise dos activos ditos tóxicos não nasce de nenhum «comportamento irresponsável» da banca. Evidentemente que essas pessoas não podiam pagar o empréstimo, pois esse é o cliente preferencial do banco; o objectivo do banco não é que lhe paguem o empréstimo, é conseguir os juros mais altos. O que aconteceu foi que como a desigualdade não pára de aumentar, essas pessoas ficaram sem dinheiro para pagar os juros. O que disparou a crise foi o crescimento da desigualdade, que leva ao empobrecimento da maioria da população porque o crescimento do PIB já não chega para compensar o da desigualdade.

O que fez a Banca em Portugal quando as pessoas ficaram sem condições para pagar os empréstimos da casa, carro, etc? Inventou um programa de consolidação da dívida que consiste em juntar os empréstimos todos num só, ou seja, transformar todos os empréstimos de curto prazo em empréstimos com o prazo do crédito à habitação, e subir o spread. Ou seja, a Banca aproveitou a crise para melhorar o seu negócio duplamente, pois aumentou os juros e aumentou o prazo. Como a prestação total diminui devido ao alongamento do prazo, com a corda na garganta devido à diminuição de rendimentos reais que as pessoas vêm sofrendo desde há uma década, as pessoas tiveram de aceitar esse aumento de exploração. É assim que muita gente tem hoje um empréstimo para o automóvel a 30 anos. Evidentemente que este comportamento usurário e irresponsável,  feito com o beneplácito governamental, vai originar uma crise mais grave nos anos seguintes.

Ainda muito recentemente, o Governo anunciou uma medida para “ajudar” as empresas com dificuldade de pagamento dos seus empréstimos: mais uma vez, a proposta era alongar o prazo de pagamento e aumentar o juro. Mais uma vez a Banca procurou ganhar com a crise de forma predadora e teve a cobertura governamental. Muitos empresários responderam: antes falir já.

Entendido isto, podemos agora facilmente entender a actual crise e qual vai ser o seu desenvolvimento.

(continua)

sexta-feira, novembro 04, 2011

Imagine that...


Como se sabe, os portugueses andam a viver acima das suas posses de forma descarada e insustentável, coisa que é preciso corrigir rapidamente. Um dos luxos a que descaradamente se têm entregado é a aquisição de casa própria, recorrendo ao crédito, é claro. Ora, se a taxa de juro dos cartões de crédito está nos 33% e estes servem para comprar bens de primeira necessidade, como roupa e comida, não há razão nenhuma para a taxa de juro de luxos como casa própria não ter o mesmo valor. As pessoas querem viver acima das suas posses mas há que as trazer à realidade. Os limites legais a estas taxas, intolerável interferência na liberdade de mercado, caem, e as taxas de juro para habitação própria vão subir 1% ao mês até atingirem o mesmo valor que é praticado nos cartões de crédito.

Como há muitas pessoas que souberam bem como entrar em tais devaneios mas não sabem agora como pagar o que é devido, o Governo vai intervir com um Programa de Austeridade e Contenção para a Habitação (PACH). Este programa subsidia a taxa de juro dos empréstimos para habitação própria em metade do seu valor! Assim, as pessoas que a ele aderirem apenas terão de pagar um juro de 16,5% em vez de 33%, durante um período de adaptação de 3 anos, um generoso bónus certamente imerecido por estes doidivanas.

Claro que para aderirem a este PACH as pessoas têm de garantir que passam a viver de acordo com as suas posses. A medida é só uma, simples, lógica, evidente, indispensável:

As pessoas deixam de ter electricidade em casa.

 Como se sabe, a electricidade faz falta para as unidades de produção, não podemos continuar a desperdiçar os recursos do planeta desta maneira. Electricidade em casa é um luxo insustentável. Com este corte, as famílias economizam 50 euros por mês.

Sem electricidade não há televisão nem internet. Mais um enorme benefício para as pessoas: a internet só serve para espalhar ideias perniciosas e a Televisão para deprimir o moral. Aliás, o sr. Ministro da Educação já acabou, atempadamente, com as inúteis aulas de informática a partir do 9º ano.
Assim, as famílias economizam mais uns 60 euros por mês.

Como não têm luz, as pessoas passam a deitar-se com o Sol e, naturalmente, a levantar-se com o dito. Assim, podem passar a ir a pé para o emprego, como acontecia no tempo dos nossos avós. Só aqui teremos uma economia média de 40 euros por pessoa, ou seja, por família, porque em cada família só uma pessoa tem emprego, a outra fica em casa, não há empregos para todos.

Portanto, esta simples medida representa imediatamente uma economia de 150 euros por mês, a que se irão somar outras – a criança fica em casa, poupa-se no colégio, acaba-se com os telemóveis, com os livros e jornais, não há férias, a roupa faz-se em casa em vez de comprar, etc, etc. Assim, as famílias libertam imenso dinheiro que podem aplicar a pagar os juros da casa. Ao fim de 3 anos, as famílias estarão então em condições de prescindir desta ajuda estatal, pois já poderão pagar o juro de 33% pretendido pela banca.

Além disso, quem aderir a este PACH fica dispensado de amortizar o empréstimo, pagando apenas juros toda a vida.

quinta-feira, novembro 03, 2011

Para colocar Portugal a viver de acordo com as suas posses



Vejo continuamente ser afirmado que “Portugal está a viver acima das suas posses”. Isso é bem verdade, não produzimos para o nível de vida que temos.

Este facto traduz-se no baixo valor do ordenado mínimo, menos de 1/3 do que se pratica noutros países europeus, o que está em correspondência com o PIB per capita de cada país.

Bem, mas se o ordenado mínimo está de acordo com «as nossas posses», quem é que está a viver acima delas?

Como é evidente, são todas as pessoas que ganham mais do que o ordenado mínimo, as classes média e alta. Estas pessoas têm considerado que, sendo europeus, devem ter um rendimento semelhante ao que se pratica nos outros países europeus. Isso não pode ser porque não vivemos de um orçamento europeu, o nosso orçamento depende do que produzirmos. Para pagar esses ordenados, Estado e empresas recorrem ao crédito; as pessoas pensam que vivem de acordo com o que ganham, ignorando que parte do que ganham é obtido por empréstimo; essa parte tem de desaparecer porque não há mais crédito.

São portanto os professores, os médicos, os engenheiros, os actores, os locutores, os juristas, os juízes, os militares, os pilotos, os gestores, etc, etc, quem vive acima das nossas posses como país. Na verdade, toda a gente que ganha mais do que o ordenado mínimo está a ganhar mais do que devia, se escalarmos os ordenados com o praticado noutros países em proporção com a sua produção. Este facto é traduzido por um indicador, a desigualdade. É por isso que somos campeões da desigualdade.

Colocar o país a viver de acordo com as suas posses não significa portanto mexer nos ordenados de baixo; significa, ao contrário, duas outras coisas: cortar naqueles serviços prestados pelo Estado que são típicos de países mais ricos e cortar em todos os ordenados acima do mínimo para os colocar na proporção adequada.

Isto significa que os ordenados e pensões das classes média e alta terão de levar um corte que pode ir de 50% a 65%. Como é evidente o corte tem de ser faseado, não pode ser feito de uma só vez – no mínimo em 3 vezes. Sendo os prazos tão curtos, atendendo ao corte já feito, imagino que no próximo ano sejam anunciados para 2013 cortes na ordem dos 15% a 25% nos ordenados acima de 1000 euros mensais, uma vez que a faixa 500 a 1000 euros já fica corrigida com os cortes previstos para 2012.

São dois os efeitos positivos que se obtêm desta maneira.

Por um lado, como estas classes são as grandes responsáveis pelo desequilíbrio da balança de pagamentos, ao reduzir-se o seu rendimento serão reduzidas as importações de automóveis, de roupa de marca, e de outros produtos e serviços, como férias no estrangeiro, que desequilibram essa balança vital e asfixiam a produção nacional. Assim, estes cortes ajudarão a reequilibrar a balança de pagamentos e isso é crucial para criar perspectivas de desenvolvimento, pois de agora em diante o nosso nível de vida será definido pela produção nacional, como acontece na generalidade dos países.

Por outro lado, como é evidente, ao reduzirem-se estes ordenados, as empresas públicas e o Estado precisarão de menos dinheiro, podendo então começar a equilibrar as suas contas.

Isto, evidentemente, se a Europa e nós encontrarmos forma de controlar a especulação sobre as dívidas soberanas, o que não será fácil e exigirá medidas imaginativas e radicais, uma mudança de paradigma.

Não há outra forma de colocar o país a viver de acordo com o que produz. Não estão de acordo?

Agora digam-me lá porque é que as medidas deduzidas neste raciocínio tão linear não passam de um enorme disparate.


quarta-feira, novembro 02, 2011

Palin Coelho


Comparemos a resposta à crise nos EUA e na Europa:

EUA: imprimir moeda e taxar ligeiramente os ricos
Europa: não imprimir moeda e taxar brutalmente os pobres

Não podia ser mais diferente, não é?
Como se compreende que os economistas e políticos de um lado e outro defendam caminhos diametralmente opostos para chegarmos a uma sociedade melhor?

A resposta é, na verdade, bem simples: estamos no meio de uma guerra direita-esquerda. Uma direita sem valores de qualquer espécie, interessada unicamente na defesa dos seus privilégios, entre os quais se inclui o direito a explorar o Homem. Uma direita de novos ricos, especialistas em negócios de esperteza, de corrupção e de usura. Uma direita muito espertalhona que escolhe lideres como Sarah Palin.

A Grécia tem uma maioria de esquerda; é por isso que a Grécia resiste. Portugal tem uma maioria de direita. Desta direita. Ainda não notaram que o Passos Coelho é a nossa versão da Sarah Palin? É por isso que quando a Merkel diz “esfola”, ele diz “mata”.

Interessantes os caminhos do Mundo; num país pequenino como Portugal, testa o destino o futuro de um país grande como os EUA; tivemos o nosso Obama (Sócrates), que trocamos pela nossa Sarah Palin (Passos Coelho). Como os EUA se encaminham para fazer. Esperemos que o nosso exemplo catastrófico sirva ao menos para abrir os olhos do grande povo americano.

(os ratos de laboratório acabam sempre esfolados, seja a experiência bem ou mal sucedida).


PS - evidentemente que as comparações entre políticos se referem à sua linha ideológica

sexta-feira, outubro 28, 2011

Estamos em guerra



Eu planeava analisar uma série de questões relativas à situação actual do país através das conversas do Dr. Jordan; é que dado que parece não haver experts nacionais, a solução é pensarmos nós pela nossa cabeça, e é para isso que surge o dr. Jordan. Porém, preciso agora de dedicar a minha atenção a outros assuntos, pelo que optei por colocar já este texto onde faço uma resenha dos 10 aspectos que me parecem mais importantes neste momento. Penso que, apesar das limitações do texto, darão por bem empregues os 5 minutos que gastarem a ler isto, pois pelo menos novos pontos de vista são apresentados.

1 – O mito da construção pacífica da união europeia

Muitas pessoas encaram o projecto europeu como uma tentativa de replicar os EUA, entendidos como uma união pacífica de estados. Ora não há qualquer semelhança, os EUA são basicamente um grande país construído pela força e altamente regionalizado. Vejamos a história.
   Os EUA nasceram quando as 13 colónias britânicas na costa atlântica do continente americano se uniram para conquistarem a sua independência; esta união foi depois desfeita pelos 7 estados do Sul, os quais foram em seguida conquistados militarmente pelos estados do norte. O pretexto moral para esta conquista (todas as guerras precisam de um pretexto moral) foi a abolição da escravatura; a verdadeira razão foi a de que os estados do norte precisavam da agricultura dos estados do Sul e ou os conquistavam ou teriam de lhes comprar comida.
   Os restantes territórios que hoje formam os EUA, e que são a maioria, foram obtidos por conquista ou por compra. Portanto, os EUA que conhecemos hoje não nasceram de nenhum projecto de união pacífica, nasceram de um projecto de ocupação e conquista. Os EUA não são nenhum modelo de construção pacífica de uma união de países; onde está tal modelo?

2 – O projecto de uma união europeia foi sempre um projecto de conquista.

O projecto da União Europeia sempre foi um projecto de conquista dos países do sul pela Alemanha, acolitada pela França. Sempre. Os economistas americanos sempre o perceberam e disseram. E isso é evidente pelas regras estabelecidas. Senão vejamos duas delas:


a)  Abertura das fronteiras. Como é óbvio, se não há barreiras alfandegárias entre dois países com diferente capacidade, o país mais forte leva o mais fraco à falência. Foi para evitar esse desfecho fatal que se inventaram as alfândegas. O fim das fronteiras na Europa tem um resultado incontornável: a Alemanha ficará sucessivamente credora de todos os outros países europeu


b) Os quadros de apoio. É sabido que injectar dinheiro produz fatalmente uma consequência: aumento da corrupção. A corrupção resulta do balanço entre benefícios e riscos e quando se aumenta os benefícios sem aumentar o risco, a corrupção dispara. Por outro lado, grande parte desse dinheiro destinou-se e destina-se ainda a pagar a não-produção daquilo que são as produções naturais do país. Se não vamos produzir alimentos, vamos produzir o quê? Aviões?

3 – Quais são os objectivos do projecto europeu?

Os dois que nos interessam são os seguintes:

a)      Mão-de-obra barata. A progressiva implementação do estado social faz subir os encargos com a mão-de-obra. Isso não é um problema no mercado interno, antes pelo contrário, porque aumenta também o poder de compra; mas é um problema para quem quer concorrer no mercado global. É por isso que surgem soluções como empresas em navios ou a deslocalização para zonas onde há excesso de população, logo mão-de-obra barata, como fazem os EUA no norte do México. Onde vão as empresas francesas e alemãs encontrar uma zona onde possam pagar os ordenados que se praticam no México ou no Sudeste asiático? A análise do problema mostra que isso só é possível num país do Sul da Europa, onde os custos de sobrevivência são muito mais baixos do que nos países frios. E só é possível se não houver integração europeia, porque se houver as leis de trabalho têm de ser as mesmas e já não é possível o trabalho escravo – é por isso que as empresas americanas estão no norte do México e não no sul dos EUA. O projecto europeu nunca foi um projecto de integração, foi sempre um projecto de «mexicanização do Sul».

b)      Continuação da predação dos países do Sul. Os países do norte da Europa, à excepção dos países nórdicos, sempre foram predadores dos países do Sul. Os piratas e corsários, cuja actividade consistia em pilhar os navios mercantes dos países do Sul, eram (e ainda são) considerados heróis nos seus países. Os ingleses vieram produzir vinho em Portugal para não terem de o importar de França, pagando miseravelmente aos portugueses. As empresas mineiras levam o minério daqui e só cá deixam ficar os ordenados. Os Hotéis, aldeamentos turísticos, agências de viagem estrangeiras exploram o nosso clima mas só cá deixam os ordenados. É como se nós fossemos a um país Árabe buscar petróleo e só lá deixássemos ordenados de miséria, o petróleo vinha de borla. Isso já não é possível fazer em parte alguma do mundo excepto aqui. O projecto europeu tem sido um sucesso para os países do norte porque institucionalizou esta predação que é hoje impensável mesmo no mais atrasado país africano. E isto é impensável porque conduz à perpetuação da miséria - os ordenados assim nunca saem do mínimo de sobrevivência. Por isso, onde os governantes governam para o povo e não para si, isso é impossível.

4 – O projecto europeu visa dar-nos as condições de vida dos países do norte?

Não. O objectivo é obter mão-de-obra ao mínimo custo para as indústrias que operam no mercado global. É isso que pretendem medidas como a redução da TSU que, na prática, corresponde a uma redução do ordenado do trabalhador, ou o corte do 13º e 14º mês. A diminuição do poder de compra vai destruir as empresas nacionais, que produzem para o mercado interno, e favorecer as empresas que produzem produtos de grande mercado – que são só empresas estrangeiras, pois as portuguesas só são viáveis na produção de bens que não se disputam pelo preço mas pelas características. A redução de ordenados serve unicamente os interesses das empresas estrangeiras. Notem ainda um aspecto: a redução que está a ser feita afecta muito mais quem ganha pouco, pois é muito diferente cortar 14% num ordenado de 1000 euros ou num de 5000; esta desigualdade no esforço que está ser pedido não é por acaso ou por burrice: o objectivo é cortar os ordenados dos operários e não se pode fazer isso sem o cortar pelo menos na mesma percentagem nos outros, seria escandaloso. O objectivo do projecto europeu é garantir operários baratos, muito baratos.
     Notem ainda outra coisa: estes cortes todos mal dão para pagar os juros dos encargos devidos ao buraco do BPN/BPP, mais o negócio sujo dos submarinos; são de quem as contas do BPN que andamos a pagar? Andamos a pagar os negócios sujos dos capitalistas que deram para o torto porque exploraram os pobres para além do limite suportável? Andamos a pagar submarinos que, ao que me consta, custaram o triplo do que aos gregos? Dado que até os próprios alemães já condenaram pessoas no caso dos submarinos, muito facilmente se renegociaria o preço deles para 1/3 ou menos. Mas isso não interessa, porque o único objectivo é baixar os ordenados.

5 – Mas porque é que não se fez um verdadeiro projecto de união europeia?

Num verdadeiro projecto de união, todos os povos europeus ficariam igualmente desenvolvidos e teriam os mesmos direitos. Ora para a Alemanha e a França isso não tem interesse; que interesse têm eles em que os Portugueses ganhem tanto como eles? Para lhes comprarem coisas? O que lhes interessa é o mercado global, estes 10 milhões de consumidores não contam para isso. Porém, como mão-de-obra barata, estes 10 milhões são priceless. Mas para serem usados como mão-de-obra barata, os cidadãos portugueses não podem ser equiparados aos franceses ou alemães, não é? Logo, não pode haver integração europeia...

É por isso que é indispensável «Salvar Portugal», como o PM constantemente apregoa. Se Portugal fosse integrado num esquema europeu, os portugueses passavam a ter os mesmos direitos dos outros «europeus» e já não poderiam ser escravos. Salvar Portugal” é indispensável à "mexicanização" do sul da Europa. Salvar Portugal para garantir que os portugueses não se salvam.

6 – Há outra forma de fazer um projecto europeu?

Claro que há! Por exemplo, em vez de fazer uma união de países fazia-se uma união de regiões, entre 5 e 15 milhões de habitantes cada. Isso é fácil, porque essas regiões já existem, os países estão regionalizados. Mas há outras soluções, mesmo mantendo o figurino de países.

7 – Mas não há outros países pequenos que conseguem ser bem-sucedidos no quadro actual?

Sabem qual é o grande negócio dos países pequenos do norte? Holanda, Luxemburgo, Liechtenstein, Irlanda? São plataformas de circulação de dinheiro para Offshores. Têm até legislação específica para esta actividade. Um exemplo: a “nossa PT” tem sede na Holanda para onde desvia os lucros fabulosos que obtém aqui, paga lá uma pequena taxa e manda o resto para uma Offshore. Todas ou quase todas as grandes empresas, nacionais e estrangeiras, que aqui andam, fazem isso.
     Notem que isto nem significa que os países pequenos só possam ser viáveis com esquemas destes – a Dinamarca, um país com muitíssimo menos recursos naturais do que nós e bem mais pequeno, é o exemplo do contrário - nem que a economia destes países se resuma a isso; mas há que questionar como é que as regras europeias permitem esta situação altamente lesiva dos interesses de países como o nosso. E a resposta é clara: as regras da união europeia servem apenas os interesses dos grandes capitalistas; são feitas por eles para eles.

8 – A nossa crise não é fruto da crise internacional?

O que se passa é que os meios financeiros descobriram agora uma coisa óbvia: se agirem de forma concertada, podem fazer subir ao céu os juros das dívidas soberanas quando estas não estão suportadas na capacidade de emissão de moeda, como acontece na Europa.
     Reparem: se tentarem isto num país fora da Europa, esse país reage emitindo moeda. É o que acontece nos EUA; mas que pode fazer um país europeu?
     Portanto, esta crise está a ser alimentada pelo BCE, ao não comprar dívida soberana directamente, alimentando os juros especulativos. O BCE, ou seja, a Alemanha e França, estão por detrás deste problema. Não ouviram já o Obama dizer isso repetidamente? Porque duvidam?
     Os países são tanto mais vulneráveis a este processo quanto mais dependerem do financiamento estrangeiro. A dimensão da nossa crise não resulta da dimensão da dívida soberana, inferior à de muitos países, mas de uma balança de pagamentos deficitária; os euros que cá foram postos esvaziaram-se através da balança de pagamentos, e foram substituídos por crédito. Acabou-se o dinheiro, só há crédito. O que devemos aos bancos nacionais devem estes ao estrangeiro.

9 – A causa profunda dos nossos problemas

Há algo que está na origem profunda de sermos um país que não evolui há séculos (apenas importamos parte da evolução dos outros). E é simples: um país evolui quando o interesse colectivo se sobrepõe ao interesse individual; quando isso não sucede, o país regride. A democracia é o sistema natural dos povos que dão prioridade ao interesse colectivo; a ditadura, ou alguma forma de governo absoluto, é o sistema em que caem os povos que privilegiam o interesse privado. Passar da ditadura para a democracia não resolve nada se não se alterar a ordem das prioridades das pessoas.
    Enquanto não formos capazes de conseguir que os interesses colectivos tenham a prioridade, iremos de mal a pior; tão mal ficaremos que acabaremos por aprender que temos de dar prioridade ao interesse colectivo. O problema é que nessa altura pode já ser tarde demais. Sempre que os povos levaram tempo demais a conseguir isso perante uma ameaça, foram esmagados.Ou seja, temos de acabar com os 5% da população que se está nas tintas para o interesse colectivo antes que eles acabem connosco.

10 – Então não há solução: o nosso futuro e dos nossos filhos e netos é sermos escravos ou emigrarmos?

Há solução. Há sempre uma solução. Mas temos de a encontrar. Temos de começar por perceber que estamos em guerra. A guerra começou por se fazer à pedrada, depois com espadas, depois a tiro, depois à bomba e agora faz-se com o dinheiro. Mas é guerra na mesma. Temos de meter isso na cabeça e abrir os olhos!

Quando estivermos dispostos a dar prioridade ao interesse colectivo sobre o individual, então poderemos começar a tratar da solução. E a solução passa por fazermos como os nórdicos: inventarmos o sistema que serve os nossos interesses em vez de sermos bons alunos de um sistema que serve interesses que não são os nossos. Vejam como os Dinamarqueses foram bem sucedidos em condições bem mais difíceis do que as nossas. Nós temos recursos infinitamente superiores aos deles, não só no nosso território como pelo facto de podermos fazer uma união abrangendo a Ibéria e os países que falam português e espanhol. E não estou a dizer nada de novo: os economistas americanos há muito que vêm dizendo que essa é a nossa saída. É por isso que as privatizações das empresas públicas portugueses vão ser feitas sem concurso – para impedir que Angolanos e Brasileiros atrapalhem a nossa mexicanização.

Pessoalmente, advogaria a introdução de moeda nacional, válida apenas no mercado interno. Riem-se? Pois fiquem a saber que a China tem duas moedas, uma internacional e outra exclusivamente interna, e que em várias regiões da Alemanha se tem testado a emissão de moeda só para compras locais. Se essa solução é boa para a China, e até para a Alemanha, não será também boa para nós? Por exemplo, em vez de cortar o 13ª e 14º mês, o Estado pagaria 15% dos ordenados em moeda nacional, que seria aceite pelos comerciantes que aderissem; estes usá-la-iam no comercio interno ou para pagamentos ao Estado e, eventualmente, para o pagamento de ordenados numa percentagem limitada.

Mas há outras medidas ainda mais imediatas. Por exemplo, os carros acima do utilitário deviam ser muito mais taxados do que são, à semelhança do que fazem os países sem indústria automóvel própria; os produtos alimentares importados de países que não importam os nossos deviam ser sujeitos a rigorosas e dispendiosas verificações; assim se aumentariam as receitas do estado sem criar recessão, pelo contrário. Isto sem falar nas tais gorduras que continuamos à espera de ver serem cortadas... é que ainda não vi nada que afectasse os milhares de boys para quem essas gorduras foram criadas.


Entretanto, como no dia 12 há uma manifestação de militares, talvez seja uma boa ideia juntarmo-nos todos à manifestação. Mas temos de fazer algo original, inesperado. Porque greves e manifestações já estão previstas, não vão adiantar de nada. Nem a comunicação social lhe vai dar atenção, já não são notícia (qualquer assalto a ourivesaria tem mais tempo de antena).

Fica aqui o desafio: que podemos fazer no dia 12 que traga as manifestações de volta às notícias? Que deixe o «eixo franco-alemão» de cara à banda? Uma marcha silenciosa, como o Ghandi fez na Índia? Todos vestidos de igual? Como? Dêem sugestões. É preciso uma poderosa manifestação de unidade. Mostrar que todos somos um.

Por último, um conselho da avózinha: quem nos quer mal, diz que nos quer bem, pois essa é a forma de poder fazer mal. Quem nos quer bem, critica-nos mas age por nós. Olhem os actos, não as palavras. Porque será que as medidas do Obama são diametralmente opostas às que se tomam aqui?

quinta-feira, outubro 20, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (VII)


(os predadores)

As civilizações nascem quando as pessoas percebem que só juntando os seus esforços, submetendo o interesse individual ao colectivo, podem conseguir a sua sobrevivência. As civilizações são construídas com trabalho e cooperação.

No fundo, algo bem retratado no conhecimento antigo da 2ª civilização, na ideia da expulsão do paraíso e da condenação dos humanos ao trabalho.” –intervêm o Wolfram.

Exacto; porém, uma vez conseguida essa civilização, criada riqueza para além do indispensável à sobrevivência, tudo se transforma; porque nós, humanos, não somos como as formigas ou as abelhas.

Bem, em parte seremos, pois somos capazes de fazer grandes sociedades, como elas...” contestou, pensativo, o Wolfram.

Não, não somos nada como elas. A natureza usou duas soluções na programação dos animais. Algumas espécies estão programadas para comportamentos sociais extremos, como se fossem um corpo, um só ser. Algo semelhante ao que acontece com as células do nosso corpo. Outras espécies estão programadas para a satisfação das suas necessidades; a definição de quais são essas necessidades é que determina os diferentes comportamentos das espécies e até dos indivíduos de cada espécie. Este é o nosso programa.”

Mas se estamos programados para agir com um objectivo definido, onde está o nosso livre arbítrio?

É isso o livre arbítrio, o decidirmos de acordo com o que pensamos ser a nossa conveniência; nós decidimos sempre de acordo com o que presumimos ser a nossa conveniência, mesmo quando coagidos – coacção é isso, tornar inconveniente para nós o que doutra forma seria conveniente.

Bem, teria de amadurecer o assunto... adiante” – o Wolfram reticente.

Como eu estava a dizer, nós agimos em função do nosso interesse; uma civilização nasce porque no início o interesse de cada pessoa é o da cooperação com os outros. Trabalho e cooperação é o que garante a sobrevivência de cada um. Porém, quando começa a haver riqueza acumulada pela civilização, surge outra forma de garantir a sobrevivência: a predação. A obtenção de benefícios sem ser em troco da correspondente contribuição para a sociedade. A exploração do Homem pelo Homem.

Isso assim dito até parece que é uma coisa fatal e não é, com educação consegue-se que as pessoas tenham outro tipo de comportamento.” Parece-me que o Wolfram se sentiu atingido nas suas crenças.

O ser humano, no programa que define as suas necessidades, tem coisas complexas, como a necessidade de reconhecimento, ou de ser útil, ou de ser amado; a satisfação destas necessidades impede a exploração do outro quando há uma identificação com o outro; porém, quando essa identificação se perde, por exemplo, porque se arranjou um argumento que convenientemente nos convence de que o outro é diferente, já ficam abertas as portas a essa exploração.”

Diferente como?

Por mil e uma razões: porque é de outra classe social, porque é sócio de outra equipa de futebol, porque é doutra cultura, ou doutra raça, ou fala outra língua, ou tem uma opinião diferente, porque é de outro sexo, porque tem uma deficiência física. Por exemplo, para nos lançarmos na 1ª grande guerra fomos convencidos que pertencíamos a uma raça superior, devendo os outros serem exterminados para obtermos espaço vital para a nossa raça pura, não é verdade? O mesmo fizeram os japoneses em relação aos chineses, os católicos e os muçulmanos, os ingleses em relação aos africanos para tornar moral a escravatura; os homens em relação às mulheres; ainda recentemente os americanos e ingleses fizeram isso para permitir as centenas de milhares de mortes necessárias para evitar que o controlo do petróleo iraquiano passasse para nós e para os franceses. A razão permite-nos facilmente ultrapassar essa limitação que a natureza pôs na nossa cabeça.

Bem, nem todas as pessoas aderem a esses raciocínios...

Pois não, depende da dimensão da consciência de cada um; aqueles cujos horizontes acabam no seu umbigo facilmente aderem; aqueles cuja consciência engloba o universo inteiro, no espaço e no tempo, nunca aderem. Mas estes são ínfima excepção, mesmo aqueles que parecem batalhar por ideias universalistas normalmente fazem-no porque isso é a sua conveniência imediata. Apenas em situações de enorme adversidade se distinguem os que verdadeiramente têm uma consciência para além do umbigo.

Bem, mas se as pessoas são assim tão... umbilicais, então tornam-se predadores da sua sociedade, esta acabaria por se destruir e colocar em risco a sobrevivência individual”.

Esse é exactamente o limite da predação – o ponto em que suficientes pessoas ficam com a sobrevivência em risco. E como esse ponto é diferente para a 2ª e para a 3ª civilização, a evolução destas civilizações é diferente. Estamos agora em condições de compreender porque que é as diferentes sociedades que existem na Europa têm as características que têm, como é que elas vão evoluir e como é que os senhores podem influenciar essa mudança de forma a obterem os escravos que vos são necessários. Ou seja, repor a normalidade."

(continua)