quinta-feira, novembro 17, 2011
Já repararam?
Reparem nas medidas da Troika / Governo:
Diminuir a TSU (esta não conseguiram)
Cortar meio subsídio de natal em 2011
Aumentar o horário de trabalho (equivale a reduzir o custo da hora em 7%)
Pretendem que o corte de 14% (2 subsídios) da função pública se estenda aos
privados
Cortar 4 feriados e passar outros para o Domingo (objectivo: reduzir mais
4% o custo hora, perfazendo 25% de corte no custo hora em 2012)
Reduzir o número de dias de férias (vem já a seguir)
Perguntarão
vocês: não é da redução da dívida do Estado que se trata? Então porquê reduzir
no sector privado? Isso causa recessão e vai fazer falir empresas que trabalham
para o mercado interno, criar desemprego e aumentar os encargos da Segurança
Social ao mesmo tempo que diminui as receitas do Estado; não é o contrário do
que se pretende?
A resposta é:
Não! Isto é exactamente o que se pretende!
Reparem: aumentar
o desemprego é a melhor maneira de fazer baixar o custo hora do trabalho e não
só, permitir algo também muito importante: a escravização. A escravização
consiste em explorar o empregado até ao limite das suas forças. O padrão é que
ao fim de dois anos o empregado esteja inutilizado para o trabalho, sendo
substituído por um “fresquinho”. Isto é uma teoria e uma prática muito antiga,
a duração média do escravo de 2 anos vem do tempo da escravatura dos negros e é
o que ainda se aplica hoje em empresas como as consultoras. Noutras empresas
desta corrente de gestão, varia entre 6 meses e 4 anos. As pessoas vão ser
colocadas entre aceitar ser escravo ou morrer à fome. As pessoas da classe média pensam que isso não as afectará, não será com elas, será com os mesmos desgraçados de sempre, dos quais dizem: ah, e é muito bom que tenham quem lhes dê um emprego assim! Pois, mas desta vez vai chegar a todos.
Por outro lado,
diminuir as receitas do Estado é a garantia de que ficaremos eternamente na
dependência da Troika. Este é o conhecido “esquema de cantina”. A Troika só de
cá sairá com uma revolução.
Já repararam que
o Passos Coelho anuncia os cortes salariais e dos feriados com a mesma
satisfação com que o Sócrates anunciava o aumento do ordenado mínimo? São
capazes de imaginar o Passos Coelho a anunciar um aumento do ordenado mínimo?
Não são, pois
não? Sabem porquê?
segunda-feira, novembro 14, 2011
Quem é que vive «acima das nossas posses»?
Este texto nasce
da pequena irritação que sinto por passar a vida a ouvir dizer que os
portugueses vivem acima das suas posses, subentendendo-se sempre que são as
pessoas que ganham menos e que recorrem ao crédito para tentarem obter o nível
de vida das pessoas “finas”, nomeadamente através da compra de casa e das
viagens ao estrangeiro.
Não sabemos todos
por que razão as pessoas compraram casa? Porque era mais barato do que
arrendar! Claro! Porque era muito melhor negócio comprar do que arrendar,
porque saía muito mais barato!!! Comprar casa não foi um luxo, foi uma
economia, um bom negócio.
Toda a gente sabe
isso, mas acontece que o povo possuir casa incomoda as pessoas finas; por
várias razões, uma delas é que a pessoa com casa é menos vulnerável.
Já pensaram que
se as pessoas não tivessem já casa, nomeadamente os reformados, agora
arriscavam-se a serem despejados por não terem dinheiro para a renda? Sobretudo
se já estivesse em vigor a tal lei que permitirá (?) relançar o arrendamento?
Bem, após este
desabafo, vejamos então quem «vive acima das nossas posses».
Podemos começar
pelos empregados das empresas públicas; o dinheiro para alguns belos ordenados
que muitas destas empresas pagam vem de empréstimos que estas empresas têm
andado a fazer. São empresas geridas sem orçamento, vão gastando, quando se
acaba pedem ao estado ou à banca. Portanto, estes ordenados, e tanto mais
quanto maiores, são dívida. Estas pessoas têm andado a ganhar mais do que «as
nossas posses». Com os seus gestores à cabeça. Alguém tem dúvidas de que estes
gestores e muito do seu pessoal ganha «mais do que as nossas posses»? Mais
todos os amigos, afilhado e companheiros de partido que puseram nas empresas
publicas e lá continuam? São eles que compram os BMW e Mercedes que tanto desiquilibram a nossa balança de pagamentos
Mas não são só os
empregados das empresas públicas – quantas empresas privadas não vivem do
Estado? Não teve o Estado de se endividar para lhes pagar? Então, o dinheiro
que estas empresas têm ganho também é dívida.
Podemos continuar
a análise por aí fora mas o resultado é óbvio:
1 – o «viver
acima das nossas posses» não resulta de créditos pessoais, resulta de ordenados
e rendimento sem correspondência com a produção;
2- os ordenados
mínimos não são «acima das nossas posses»; então quem vive acima das nossas posses
são, necessariamente, as pessoas que ganham mais, uma vez que as outras não
são.
Isto é óbvio e
traduz-se na nossa elevada desigualdade; as duas frases são sinónimos:
Viver acima das
posses = excesso de desigualdade
Isto porque o
mínimo não pode ser mais descido – embora este Governo esteja a tentar.
Espanta-me como
os deputados da esquerda não sabem isto.
Isto para não falar nos BPN e quejandos... que nós agora, os mais pobres, somos obrigados a pagar... sim, porque os ricos não podem pagar se não vão-se embora e que seria de nós sem eles? Santa paciência...
quinta-feira, novembro 10, 2011
Crise da dívida soberana: desmascarando a armadilha
Como vimos no
texto anterior, a banca dedica-se, entre outros, ao negócio da usura, que é o
que nos interessa analisar agora.
Quando fazemos um
empréstimo para habitação, celebramos um contrato que estipula uma data de
coisas, nomeadamente o juro.
Como os juros
estão indexados ao juro definido pelo BCE, se o BCE quisesse causar uma crise
no crédito à habitação apenas teria de aumentar o seu juro. Os juros subiriam
automaticamente, algumas pessoas ficavam sem conseguir pagá-los, e isso daria
oportunidade aos bancos para renegociarem os contratos para prazos maiores e
juros mais altos. Depois, os juros do BCE já poderiam descer novamente. Uma
pequenina jogada destas representa logo milhões de euros de lucros para a
banca.
Este pequeno
exemplo é para percebermos os poderes do BCE no comando dos «mercados»,
nomeadamente no fomento da usura. Os mercados respondem de forma linear, são
facílimos de controlar, não acontece nada de imprevisível – é apenas a
ignorância do comum dos mortais que permite passar esta imagem de
“imprevisibilidade” dos mercados.
Outro exemplo é o
caso da bolsa; como certamente já repararam, a notícia da variação da bolsa é
sempre precedida de uma “explicação”. Sempre. É claro que a explicação é falsa,
se o funcionamento da bolsa fosse assim lógico seria fácil prever o que iria
acontecer no dia seguinte – na verdade, quando há uma expectativa generalizada
sobre o seu comportamento no dia seguinte, podemos estar certos que vai ser ao
contrário. Porquê? Porque o funcionamento da bolsa é manipulado pelos grandes
investidores e o negócio consiste em levar os pequenos investidores a apostar
de uma maneira e depois fazer a bolsa variar ao contrário. Os pequenos
investidores perdem sempre, os grandes ganham. Isto mantêm-se assim suportado
na ideia de que o funcionamento da bolsa é previsível e não manipulável e é por
isso que é indispensável apresentar sempre uma “explicação” para as variações
da bolsa – para que os toscos dos pequenos investidores continuem a meter lá o
dinheiro.
Portanto, tudo o
que acontece nos mercados financeiros é fruto da acção previsível dos agentes
financeiros e do comando dos bancos centrais. O objectivo dos agentes
financeiros é sempre maximizar os lucros e quem faz negócios com eles tem de
acautelar as condições do negócio porque eles são predadores cegos e
impiedosos. Não é porque sejam «maus», é apenas porque essas são as regras, é a
consequência inevitável de nós querermos que eles nos paguem a melhor taxa
pelos nossos depósitos a prazo.
No que se refere
às dívidas soberanas, os países têm um mecanismo de salvaguarda: se os mercados
quiserem fazer subir os juros, o banco central imprime moeda e compra a dívida.
A banca perde duplamente: os juros não sobem e a dívida diminui. Por isso, este
mecanismo mantém os “mercados” sob controlo.
Como sabem, o Fed
tem imprimido triliões de dólares nos últimos anos, pondo a dívida soberana dos
EUA a salvo dos “mercados”.
São estúpidos os
americanos? Evidentemente que não, toda a gente sabe que é assim que se faz.
É por isso que a
decisão do BCE de não comprar directamente dívida soberana tem segundas
intenções. Com esta decisão, as dívidas soberanas ficam sem nada que as segure,
os juros pedidos pelos mercados podem subir ao céu. Consequência inevitável
desta decisão.
Portanto, não
tenhamos dúvidas: a actual «crise» das dívidas soberanas é voluntariamente
produzida pelo BCE. Não é nenhuma «crise», não é algo imprevisto,
incontrolável, mas exactamente o contrário.
Bastaria emitir
eurobonds, imprimindo dinheiro, para ela acabar imediatamente. Como fazem os
americanos. Isso iria desvalorizar o Euro, como dizem? Mas o dólar não se tem
desvalorizado, pois não? Esse argumento é falso, o valor da moeda está na força
da economia.
Portanto, o que
vai acontecer é bem claro – a subida de juros serve de pretexto para o BCE,
dominado pelo bloco Franco-Alemão, tomar posse dos países a que «assiste».
Posse definitiva, como perceberão já a seguir.
Ao intervir em Portugal, as necessidades de
financiamento do país até 2013 ficaram muito reduzidas, pelo que os mercados
foram “atacar” o país seguinte, a Itália. Em 2013, voltarão a atacar Portugal,
motivando nova «ajuda». E isto indefinidamente porque a única maneira de
Portugal sair deste esquema seria reduzir a zero a dívida soberana e isso é
impossível. É por isso que até «perdoaram» metade da dívida à Grécia – é
completamente irrelevante, tanto faz a dívida ser metade ou o dobro, enquanto
houver dívida a Grécia ficará dependente do BCE.
Percebam bem
isto: não há saída desta situação. Se não fizermos algo, nunca mais voltaremos
a ser um País. Não se iludam.
Este esquema tem
um nome: o «esquema da cantina». É um conhecido esquema de escravatura.
Mas este esquema
não nasceu agora: a armadilha está montada desde o início.
Passa pela cabeça
de alguém pretender que os habitantes do distrito de Castelo Branco, por
exemplo, passem a ter a saúde, a educação, as pensões de reformas, etc, etc,
financiados pelas receitas do distrito? Claro que não, porque as empresas que
lá operam têm a sede noutros lados e é para lá que os lucros vão. Entre muitas
outras razões.
Pois um disparate
destes é exactamente no que consiste o brilhante projecto europeu.
Como já referi,
Portugal está invadido por empresas que exploram os nossos recursos mas levam
os lucros para fora. Isso não é permitido em nenhum país do mundo fora da
Europa. Economia aberta com orçamento local é um disparate inacreditável, é
impossível este esquema ter sido concebido para resultar – e não foi, este
esquema é apenas uma armadilha. Uma armadilha em que os tolos do Sul caíram.
Caíram por cupidez, porque pensaram que iam passar a ter o nível de vida dos
alemães. As pessoas acreditam sempre no que lhes convém, é assim que os
vigaristas agem.
Portanto, temos
de perceber a situação com toda a clareza: o projecto europeu não passa de uma
armadilha, arquitectada para colocar os vários países europeus na dependência
do bloco Franco-Alemão. Estamos em guerra. Já estamos ocupados. Vamos ser
barbaramente aniquilados, como irei explicar.
Mas não pensem
que são só os países do Sul que foram vítimas dos dois grandes; não sabem que a
Bélgica está sem governo há muito tempo? Sabem porquê? Porque a Bélgica já não
existe. Nem o Luxemburgo ou o Liechtenstein. A Holanda é uma colónia alemã,
como se perceberá a seu tempo. E a Irlanda, na verdade, nunca foi um país, não
passa da Madeira dos Ingleses.
Portanto, para
conquistar a Europa falta controlar os 4 do Sul. O Leste virá depois. Já foi
assim nas grandes guerras, o plano é o mesmo, os meios é que são outros... (e,
tal como nas grandes guerras, esta guerra também passa por África; só que aí é
mesmo à bomba...)
Não tenham
dúvidas nem ilusões: estamos debaixo de um ataque Franco-Alemão. Não há «crise»
nenhuma, há um acto de guerra, uma acção de conquista da Europa por franceses e
alemães. O sistema financeiro limita-se a responder de acordo com as regras que
lhe fixam. O seu comportamento é absolutamente previsível, linear, simplório. E
as regras foram escolhidas expressamente para colocar os países do Sul da
Europa no domínio da França e da Alemanha.
No próximo post
vou mostrar-vos o nosso futuro próximo, se continuarmos a ir para onde nos mandam.
Porque, diferentemente do que acontece com os pequenos países do norte, o
projecto que esses dois têm para nós é do tipo do que fizeram para os judeus. Este modelo de sociedade não funciona sem escravos. O único modelo que existe actualmente de uma sociedade sem escravos é o da Dinamarca.
segunda-feira, novembro 07, 2011
Qual é o negócio dos Bancos?
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| CGD |
Emprestar
dinheiro? Perguntarão vocês a medo, sabendo que as minhas respostas são
inesperadas (doutra forma não valia a pena eu escrever, não é?)
Considerem uma
empresa de automóveis que faz uma fábrica. O custo da fábrica é um
investimento. A fábrica produz produtos que a empresa vende, ganhando assim dinheiro. O objectivo da empresa é que a fábrica dure o mais possível. Quando
ela deixar de ser rentável, a empresa fará uma nova fábrica.
Portanto, o
negócio da empresa é fácil de perceber: há um investimento largamente não
recuperável na construção da fábrica e um rendimento da actividade da fábrica.
As contas são feitas para que esse rendimento atinja o valor que a fábrica
custa num prazo de tempo que pode ir de 3 a 10 anos, tipicamente.
O negócio da
banca é a mesma coisa. Em vez de aplicar o dinheiro numa fábrica, aplica-o num
empréstimo. O devedor paga um juro deste empréstimo – é o rendimento do
dinheiro aplicado.
“Ahh, mas há uma
diferença em relação à empresa” – dirão vocês – “ o investimento na fábrica não
é recuperável mas o empréstimo é!”
Pois, é
exactamente aí que vocês se enganam. O Banco não está nada interessado em que
lhe paguem o que emprestou. Para quê? Se lhe devolverem o empréstimo, terá de
arranjar outro a quem emprestar, não é? Portanto, o banco não está nada
interessado em que lhe paguem o empréstimo – o seu negócio é receber juros!
É por isso que os
bancos emprestam dinheiro a quem não tem condições para pagar esse empréstimo. O Banco não quer que lhe paguem o que emprestou. Ao banco, o que interessa é que a pessoa
possa pagar os juros do empréstimo.
Se não acreditam
em mim, experimentem ir ao vosso banco tentar amortizar o empréstimo para
compra de casa, se o tiverem; eu fiz isso há dias e, mesmo na actual situação
de descapitalização da banca, fui convencido a não fazer tal. Aliás, até há pouco
tempo, quem quisesse antecipar o pagamento do empréstimo para a casa pagava uma
penalização - por quebra de perspectiva
de negócio.
Portanto,
percebam a subtil mas fundamental diferença: o negócio da banca é cobrar juros.
Há empresas
financeiras, tipo Cofidis, que estão no negócio de emprestar dinheiro – é um
negócio diferente, esses querem que o cliente pague o empréstimo.
Agora vejamos
como se desenvolve o negócio da banca. O objectivo do negócio é maximizar os
juros. Mas se subirem muito os juros, o cliente pode desfazer o negócio,
devolvendo o empréstimo. Então, o banco procura clientes que não possam
devolver o dinheiro emprestado.
É por isso que os
bancos estão constantemente a oferecer dinheiro emprestado a pessoas de baixos
rendimentos – esse dinheiro vai depois vencer juros altíssimos. Encravada com
os juros, a pessoa não consegue amortizar o empréstimo e o banco tem assim o
máximo rendimento.
A crise dos
activos ditos tóxicos não nasce de nenhum «comportamento irresponsável» da
banca. Evidentemente que essas pessoas não podiam pagar o empréstimo, pois esse
é o cliente preferencial do banco; o objectivo do banco não é que lhe paguem o
empréstimo, é conseguir os juros mais altos. O que aconteceu foi que como a
desigualdade não pára de aumentar, essas pessoas ficaram sem dinheiro para
pagar os juros. O que disparou a crise foi o crescimento da desigualdade, que
leva ao empobrecimento da maioria da população porque o crescimento do PIB já
não chega para compensar o da desigualdade.
O que fez a Banca
em Portugal quando as pessoas ficaram sem condições para pagar os empréstimos
da casa, carro, etc? Inventou um programa de consolidação da dívida que
consiste em juntar os empréstimos todos num só, ou seja, transformar todos os
empréstimos de curto prazo em empréstimos com o prazo do crédito à habitação, e
subir o spread. Ou seja, a Banca aproveitou a crise para melhorar o seu negócio
duplamente, pois aumentou os juros e aumentou o prazo. Como a prestação total
diminui devido ao alongamento do prazo, com a corda na garganta devido à
diminuição de rendimentos reais que as pessoas vêm sofrendo desde há uma
década, as pessoas tiveram de aceitar esse aumento de exploração. É assim que
muita gente tem hoje um empréstimo para o automóvel a 30 anos. Evidentemente
que este comportamento usurário e irresponsável, feito com o beneplácito governamental, vai originar uma crise mais grave nos anos seguintes.
Ainda muito
recentemente, o Governo anunciou uma medida para “ajudar” as empresas com
dificuldade de pagamento dos seus empréstimos: mais uma vez, a proposta era
alongar o prazo de pagamento e aumentar o juro. Mais uma vez a Banca procurou ganhar com a crise de forma predadora e teve a cobertura governamental. Muitos empresários
responderam: antes falir já.
Entendido isto,
podemos agora facilmente entender a actual crise e qual vai ser o seu
desenvolvimento.
(continua)
sexta-feira, novembro 04, 2011
Imagine that...
Como se sabe, os
portugueses andam a viver acima das suas posses de forma descarada e
insustentável, coisa que é preciso corrigir rapidamente. Um dos luxos a que
descaradamente se têm entregado é a aquisição de casa própria, recorrendo ao
crédito, é claro. Ora, se a taxa de juro dos cartões de crédito está nos 33% e
estes servem para comprar bens de primeira necessidade, como roupa e comida,
não há razão nenhuma para a taxa de juro de luxos como casa própria não ter o
mesmo valor. As pessoas querem viver acima das suas posses mas há que as trazer
à realidade. Os limites legais a estas taxas, intolerável interferência na liberdade de mercado, caem, e as taxas de juro para habitação própria vão subir 1% ao mês até
atingirem o mesmo valor que é praticado nos cartões de crédito.
Como há muitas
pessoas que souberam bem como entrar em tais devaneios mas não sabem agora como
pagar o que é devido, o Governo vai intervir com um Programa de Austeridade e
Contenção para a Habitação (PACH). Este programa subsidia a taxa de juro dos
empréstimos para habitação própria em metade do seu valor! Assim, as pessoas
que a ele aderirem apenas terão de pagar um juro de 16,5% em vez de 33%,
durante um período de adaptação de 3 anos, um generoso bónus certamente
imerecido por estes doidivanas.
Claro que para
aderirem a este PACH as pessoas têm de garantir que passam a viver de acordo
com as suas posses. A medida é só uma, simples, lógica, evidente,
indispensável:
As pessoas deixam
de ter electricidade em casa.
Como se sabe, a electricidade faz falta para
as unidades de produção, não podemos continuar a desperdiçar os recursos do
planeta desta maneira. Electricidade em casa é um luxo insustentável. Com este
corte, as famílias economizam 50 euros por mês.
Sem electricidade
não há televisão nem internet. Mais um enorme benefício para as pessoas: a
internet só serve para espalhar ideias perniciosas e a Televisão para deprimir
o moral. Aliás, o sr. Ministro da Educação já acabou, atempadamente, com as
inúteis aulas de informática a partir do 9º ano.
Assim, as
famílias economizam mais uns 60 euros por mês.
Como não têm luz,
as pessoas passam a deitar-se com o Sol e, naturalmente, a levantar-se com o
dito. Assim, podem passar a ir a pé para o emprego,
como acontecia no tempo dos nossos avós. Só aqui teremos uma economia média de
40 euros por pessoa, ou seja, por família, porque em cada família só uma pessoa
tem emprego, a outra fica em casa, não há empregos para todos.
Portanto, esta
simples medida representa imediatamente uma economia de 150 euros por mês, a
que se irão somar outras – a criança fica em casa, poupa-se no
colégio, acaba-se com os telemóveis, com os livros e jornais, não há férias, a
roupa faz-se em casa em vez de comprar, etc, etc. Assim, as famílias libertam
imenso dinheiro que podem aplicar a pagar os juros da casa. Ao fim de 3 anos,
as famílias estarão então em condições de prescindir desta ajuda estatal, pois
já poderão pagar o juro de 33% pretendido pela banca.
Além disso, quem
aderir a este PACH fica dispensado de amortizar o empréstimo, pagando apenas
juros toda a vida.
quinta-feira, novembro 03, 2011
Para colocar Portugal a viver de acordo com as suas posses
Vejo
continuamente ser afirmado que “Portugal está a viver acima das suas posses”.
Isso é bem verdade, não produzimos para o nível de vida que temos.
Este facto
traduz-se no baixo valor do ordenado mínimo, menos de 1/3 do que se pratica noutros países europeus, o que está em correspondência com o PIB per capita de cada país.
Bem, mas se o
ordenado mínimo está de acordo com «as nossas posses», quem é que está a viver
acima delas?
Como é evidente,
são todas as pessoas que ganham mais do que o ordenado mínimo, as classes média
e alta. Estas pessoas têm considerado que, sendo europeus, devem ter um
rendimento semelhante ao que se pratica nos outros países europeus. Isso não
pode ser porque não vivemos de um orçamento europeu, o nosso orçamento depende
do que produzirmos. Para pagar esses ordenados, Estado e empresas recorrem ao crédito; as pessoas pensam que vivem de acordo com o que ganham, ignorando que parte do que ganham é obtido por empréstimo; essa parte tem de desaparecer porque não há mais crédito.
São portanto os
professores, os médicos, os engenheiros, os actores, os locutores, os juristas,
os juízes, os militares, os pilotos, os gestores, etc, etc, quem vive acima das
nossas posses como país. Na verdade, toda a gente que ganha mais do que o
ordenado mínimo está a ganhar mais do que devia, se escalarmos os ordenados com
o praticado noutros países em proporção com a sua produção. Este facto é
traduzido por um indicador, a desigualdade. É por isso que somos campeões da
desigualdade.
Colocar o país a
viver de acordo com as suas posses não significa portanto mexer nos ordenados
de baixo; significa, ao contrário, duas outras coisas: cortar naqueles serviços
prestados pelo Estado que são típicos de países mais ricos e cortar em todos
os ordenados acima do mínimo para os colocar na proporção adequada.
Isto significa
que os ordenados e pensões das classes média e alta terão de levar um corte que pode ir de 50% a 65%. Como é evidente o corte tem de ser
faseado, não pode ser feito de uma só vez – no mínimo em 3 vezes. Sendo os
prazos tão curtos, atendendo ao corte já feito, imagino que no próximo ano sejam anunciados para 2013 cortes
na ordem dos 15% a 25% nos ordenados acima de 1000 euros mensais, uma vez que a
faixa 500 a 1000 euros já fica corrigida com os cortes previstos para 2012.
São dois os
efeitos positivos que se obtêm desta maneira.
Por um lado, como
estas classes são as grandes responsáveis pelo desequilíbrio da balança de
pagamentos, ao reduzir-se o seu rendimento serão reduzidas as importações de
automóveis, de roupa de marca, e de outros produtos e serviços, como férias no
estrangeiro, que desequilibram essa balança vital e asfixiam a produção
nacional. Assim, estes cortes ajudarão a reequilibrar a balança de pagamentos e
isso é crucial para criar perspectivas de desenvolvimento, pois de
agora em diante o nosso nível de vida será definido pela produção nacional,
como acontece na generalidade dos países.
Por outro lado,
como é evidente, ao reduzirem-se estes ordenados, as empresas públicas e o
Estado precisarão de menos dinheiro, podendo então começar a equilibrar as suas
contas.
Isto, evidentemente, se a Europa e nós encontrarmos forma de controlar a especulação sobre as dívidas soberanas, o que não será fácil e exigirá medidas imaginativas e radicais, uma mudança de paradigma.
Não há outra forma de colocar o país a viver de acordo com o
que produz. Não estão de acordo?
Agora digam-me lá porque é que as medidas deduzidas neste raciocínio tão linear não passam de um enorme disparate.
quarta-feira, novembro 02, 2011
Palin Coelho
Comparemos a resposta à crise nos EUA e na Europa:
EUA: imprimir
moeda e taxar ligeiramente os ricos
Europa: não
imprimir moeda e taxar brutalmente os pobres
Não podia ser
mais diferente, não é?
Como se
compreende que os economistas e políticos de um lado e outro defendam caminhos
diametralmente opostos para chegarmos a uma sociedade melhor?
A resposta é, na
verdade, bem simples: estamos no meio de uma guerra direita-esquerda. Uma
direita sem valores de qualquer espécie, interessada unicamente na defesa dos
seus privilégios, entre os quais se inclui o direito a explorar o Homem. Uma
direita de novos ricos, especialistas em negócios de esperteza, de corrupção e de usura. Uma direita muito espertalhona que escolhe lideres como
Sarah Palin.
A Grécia tem uma
maioria de esquerda; é por isso que a Grécia resiste. Portugal tem uma maioria
de direita. Desta direita. Ainda não notaram que o Passos Coelho é a nossa versão da Sarah Palin? É
por isso que quando a Merkel diz “esfola”, ele diz “mata”.
Interessantes os
caminhos do Mundo; num país pequenino como Portugal, testa o destino o futuro
de um país grande como os EUA; tivemos o nosso Obama (Sócrates), que trocamos
pela nossa Sarah Palin (Passos Coelho). Como os EUA se encaminham para fazer.
Esperemos que o nosso exemplo catastrófico sirva ao menos para abrir os olhos
do grande povo americano.
(os ratos de
laboratório acabam sempre esfolados, seja a experiência bem ou mal sucedida).
PS - evidentemente que as comparações entre políticos se referem à sua linha ideológica
PS - evidentemente que as comparações entre políticos se referem à sua linha ideológica
sexta-feira, outubro 28, 2011
Estamos em guerra
Eu planeava
analisar uma série de questões relativas à situação actual do país através das
conversas do Dr. Jordan; é que dado que parece não haver experts nacionais, a solução é pensarmos nós pela nossa
cabeça, e é para isso que surge o dr. Jordan. Porém, preciso agora de dedicar a
minha atenção a outros assuntos, pelo que optei por colocar já este texto onde
faço uma resenha dos 10 aspectos que me parecem mais importantes neste momento.
Penso que, apesar das limitações do texto, darão por bem empregues os 5 minutos
que gastarem a ler isto, pois pelo menos novos pontos de vista são apresentados.
1 – O mito da construção pacífica da união europeia
Muitas pessoas encaram o projecto
europeu como uma tentativa de replicar os EUA, entendidos como uma união
pacífica de estados. Ora não há qualquer semelhança, os EUA são basicamente um
grande país construído pela força e altamente regionalizado. Vejamos a
história.
Os EUA nasceram quando as 13 colónias
britânicas na costa atlântica do continente americano se uniram para
conquistarem a sua independência; esta união foi depois desfeita pelos 7
estados do Sul, os quais foram em seguida conquistados militarmente pelos
estados do norte. O pretexto moral para esta conquista (todas as guerras
precisam de um pretexto moral) foi a abolição da escravatura; a verdadeira
razão foi a de que os estados do norte precisavam da agricultura dos estados do
Sul e ou os conquistavam ou teriam de lhes comprar comida.
Os restantes territórios que hoje
formam os EUA, e que são a maioria, foram obtidos por conquista ou por compra.
Portanto, os EUA que conhecemos hoje não nasceram de nenhum projecto de união
pacífica, nasceram de um projecto de ocupação e conquista. Os EUA não são nenhum
modelo de construção pacífica de uma união de países; onde está tal modelo?
2 – O projecto de uma união europeia foi sempre um projecto de conquista.
O projecto da
União Europeia sempre foi um projecto de conquista dos países do sul pela
Alemanha, acolitada pela França. Sempre. Os economistas americanos sempre o
perceberam e disseram. E isso é evidente pelas regras estabelecidas. Senão
vejamos duas delas:
a) Abertura das fronteiras. Como é óbvio, se não há barreiras alfandegárias entre dois países com diferente capacidade, o país mais forte leva o mais fraco à falência. Foi para evitar esse desfecho fatal que se inventaram as alfândegas. O fim das fronteiras na Europa tem um resultado incontornável: a Alemanha ficará sucessivamente credora de todos os outros países europeu
b) Os quadros de apoio. É sabido que injectar dinheiro produz fatalmente uma consequência: aumento da corrupção. A corrupção resulta do balanço entre benefícios e riscos e quando se aumenta os benefícios sem aumentar o risco, a corrupção dispara. Por outro lado, grande parte desse dinheiro destinou-se e destina-se ainda a pagar a não-produção daquilo que são as produções naturais do país. Se não vamos produzir alimentos, vamos produzir o quê? Aviões?
a) Abertura das fronteiras. Como é óbvio, se não há barreiras alfandegárias entre dois países com diferente capacidade, o país mais forte leva o mais fraco à falência. Foi para evitar esse desfecho fatal que se inventaram as alfândegas. O fim das fronteiras na Europa tem um resultado incontornável: a Alemanha ficará sucessivamente credora de todos os outros países europeu
b) Os quadros de apoio. É sabido que injectar dinheiro produz fatalmente uma consequência: aumento da corrupção. A corrupção resulta do balanço entre benefícios e riscos e quando se aumenta os benefícios sem aumentar o risco, a corrupção dispara. Por outro lado, grande parte desse dinheiro destinou-se e destina-se ainda a pagar a não-produção daquilo que são as produções naturais do país. Se não vamos produzir alimentos, vamos produzir o quê? Aviões?
3 – Quais são os objectivos do projecto europeu?
Os dois que nos interessam são os seguintes:
a)
Mão-de-obra barata. A progressiva implementação do estado social faz subir os encargos
com a mão-de-obra. Isso não é um problema no mercado interno, antes pelo
contrário, porque aumenta também o poder de compra; mas é um problema para quem
quer concorrer no mercado global. É por isso que surgem soluções como empresas
em navios ou a deslocalização para zonas onde há excesso de população, logo
mão-de-obra barata, como fazem os EUA no norte do México. Onde vão as empresas
francesas e alemãs encontrar uma zona onde possam pagar os ordenados que se
praticam no México ou no Sudeste asiático? A análise do problema mostra que
isso só é possível num país do Sul da Europa, onde os custos de sobrevivência
são muito mais baixos do que nos países frios. E só é possível se não
houver integração europeia, porque se houver as leis de trabalho
têm de ser as mesmas e já não é possível o trabalho escravo – é por isso que as
empresas americanas estão no norte do México e não no sul dos EUA. O projecto
europeu nunca foi um projecto de integração, foi sempre um projecto de «mexicanização
do Sul».
b)
Continuação da predação dos países
do Sul. Os países do norte da Europa, à excepção dos
países nórdicos, sempre foram predadores dos países do Sul. Os piratas e
corsários, cuja actividade consistia em pilhar os navios mercantes dos países
do Sul, eram (e ainda são) considerados heróis nos seus países. Os ingleses
vieram produzir vinho em Portugal para não terem de o importar de França, pagando
miseravelmente aos portugueses. As empresas mineiras levam o minério daqui e só
cá deixam ficar os ordenados. Os Hotéis, aldeamentos turísticos, agências de
viagem estrangeiras exploram o nosso clima mas só cá deixam os ordenados. É
como se nós fossemos a um país Árabe buscar petróleo e só lá deixássemos
ordenados de miséria, o petróleo vinha de borla. Isso já não é possível fazer
em parte alguma do mundo excepto aqui. O projecto europeu tem sido um
sucesso para os países do norte porque institucionalizou esta predação
que é hoje impensável mesmo no mais atrasado país africano. E isto é impensável
porque conduz à perpetuação da miséria - os ordenados assim nunca saem do
mínimo de sobrevivência. Por isso, onde os governantes governam para o povo e
não para si, isso é impossível.
4 – O projecto europeu visa dar-nos as condições de vida dos países do
norte?
Não. O objectivo é obter mão-de-obra ao mínimo custo para as indústrias que
operam no mercado global. É isso que pretendem medidas como a redução da TSU
que, na prática, corresponde a uma redução do ordenado do trabalhador, ou o
corte do 13º e 14º mês. A diminuição do poder de compra vai destruir as
empresas nacionais, que produzem para o mercado interno, e favorecer as
empresas que produzem produtos de grande mercado – que são só empresas
estrangeiras, pois as portuguesas só são viáveis na produção de bens que não se
disputam pelo preço mas pelas características. A redução de ordenados serve
unicamente os interesses das empresas estrangeiras. Notem ainda um aspecto: a
redução que está a ser feita afecta muito mais quem ganha pouco, pois é muito
diferente cortar 14% num ordenado de 1000 euros ou num de 5000; esta
desigualdade no esforço que está ser pedido não é por acaso ou por burrice: o
objectivo é cortar os ordenados dos operários e não se pode fazer isso sem o
cortar pelo menos na mesma percentagem nos outros, seria escandaloso. O objectivo do
projecto europeu é garantir operários baratos, muito baratos.
Notem ainda outra coisa: estes cortes
todos mal dão para pagar os juros dos encargos devidos ao buraco do BPN/BPP,
mais o negócio sujo dos submarinos; são de quem as contas do BPN que andamos a
pagar? Andamos a pagar os negócios sujos dos capitalistas que deram para o
torto porque exploraram os pobres para além do limite suportável? Andamos a
pagar submarinos que, ao que me consta, custaram o triplo do que aos gregos?
Dado que até os próprios alemães já condenaram pessoas no caso dos
submarinos, muito facilmente se renegociaria o preço deles para 1/3 ou menos.
Mas isso não interessa, porque o único objectivo é baixar os ordenados.
5 – Mas porque é que não se fez um
verdadeiro projecto de união europeia?
Num verdadeiro projecto de união, todos os
povos europeus ficariam igualmente desenvolvidos e teriam os mesmos direitos.
Ora para a Alemanha e a França isso não tem interesse; que interesse têm
eles em que os Portugueses ganhem tanto como eles? Para lhes comprarem coisas?
O que lhes interessa é o mercado global, estes 10 milhões de consumidores não contam
para isso. Porém, como mão-de-obra barata, estes 10 milhões são priceless.
Mas para serem usados como mão-de-obra barata, os cidadãos portugueses não
podem ser equiparados aos franceses ou alemães, não é? Logo, não pode haver
integração europeia...
É por isso que é indispensável «Salvar Portugal», como o PM constantemente
apregoa. Se Portugal fosse integrado num esquema europeu, os portugueses
passavam a ter os mesmos direitos dos outros «europeus» e já não poderiam ser
escravos. “Salvar Portugal” é indispensável à "mexicanização" do sul da Europa. Salvar
Portugal para garantir que os portugueses não se salvam.
6 – Há outra forma de fazer um projecto
europeu?
Claro que há! Por exemplo, em vez de fazer uma união de países fazia-se uma
união de regiões, entre 5 e 15 milhões de habitantes cada. Isso é fácil, porque
essas regiões já existem, os países estão regionalizados. Mas há outras
soluções, mesmo mantendo o figurino de países.
7 – Mas não há outros países pequenos que
conseguem ser bem-sucedidos no quadro actual?
Sabem qual é o grande negócio dos países pequenos do norte? Holanda,
Luxemburgo, Liechtenstein, Irlanda? São plataformas de circulação de dinheiro
para Offshores. Têm até legislação específica para esta actividade. Um exemplo:
a “nossa PT” tem sede na Holanda para onde desvia os lucros fabulosos que obtém
aqui, paga lá uma pequena taxa e manda o resto para uma Offshore. Todas ou
quase todas as grandes empresas, nacionais e estrangeiras, que aqui andam,
fazem isso.
Notem que isto nem significa que os
países pequenos só possam ser viáveis com esquemas destes – a Dinamarca, um
país com muitíssimo menos recursos naturais do que nós e bem mais pequeno, é o
exemplo do contrário - nem que a economia destes países se resuma a isso; mas
há que questionar como é que as regras europeias permitem esta situação
altamente lesiva dos interesses de países como o nosso. E a resposta é clara:
as regras da união europeia servem apenas os interesses dos grandes
capitalistas; são feitas por eles para eles.
8 – A nossa crise não é fruto da crise
internacional?
O que se passa é que os meios financeiros descobriram agora uma coisa
óbvia: se agirem de forma concertada, podem fazer subir ao céu os juros das
dívidas soberanas quando estas não estão suportadas na capacidade de emissão de
moeda, como acontece na Europa.
Reparem: se tentarem isto num país
fora da Europa, esse país reage emitindo moeda. É o que acontece nos EUA; mas que pode fazer um país europeu?
Portanto, esta crise está a ser
alimentada pelo BCE, ao não comprar dívida soberana directamente, alimentando
os juros especulativos. O BCE, ou seja, a Alemanha e França, estão por detrás
deste problema. Não ouviram já o Obama dizer isso repetidamente? Porque
duvidam?
Os países são tanto mais vulneráveis a
este processo quanto mais dependerem do financiamento estrangeiro. A dimensão
da nossa crise não resulta da dimensão da dívida soberana, inferior à de muitos
países, mas de uma balança de pagamentos
deficitária; os euros que cá foram postos esvaziaram-se através da balança de
pagamentos, e foram substituídos por crédito. Acabou-se o dinheiro, só há
crédito. O que devemos aos bancos nacionais devem estes ao estrangeiro.
9 – A causa profunda dos nossos problemas
Há algo que
está na origem profunda de sermos um país que não evolui há séculos (apenas
importamos parte da evolução dos outros). E é simples: um país evolui quando o
interesse colectivo se sobrepõe ao interesse individual; quando isso não
sucede, o país regride. A democracia é o sistema natural dos povos que dão prioridade
ao interesse colectivo; a ditadura, ou alguma forma de governo absoluto, é o
sistema em que caem os povos que privilegiam o interesse privado. Passar da
ditadura para a democracia não resolve nada se não se alterar a ordem das
prioridades das pessoas.
Enquanto não formos capazes de conseguir que os interesses colectivos tenham a prioridade, iremos de mal a pior; tão mal ficaremos que
acabaremos por aprender que temos de dar prioridade ao interesse colectivo. O
problema é que nessa altura pode já ser tarde demais. Sempre que os povos
levaram tempo demais a conseguir isso perante uma ameaça, foram esmagados.Ou seja, temos de acabar com os 5% da população que se está nas tintas para o interesse colectivo antes que eles acabem connosco.
10 – Então não há solução: o nosso futuro e
dos nossos filhos e netos é sermos escravos ou emigrarmos?
Há solução. Há sempre uma solução. Mas temos de a encontrar. Temos de
começar por perceber que estamos em guerra. A guerra começou por se fazer à
pedrada, depois com espadas, depois a tiro, depois à bomba e agora faz-se com o
dinheiro. Mas é guerra na mesma. Temos de meter isso na cabeça e abrir os
olhos!
Quando estivermos dispostos a dar prioridade ao interesse colectivo sobre o
individual, então poderemos começar a tratar da solução. E a solução passa por
fazermos como os nórdicos: inventarmos o sistema que serve os nossos
interesses em vez de sermos bons alunos de um sistema que serve interesses que não são os nossos. Vejam como os Dinamarqueses foram bem sucedidos em condições bem
mais difíceis do que as nossas. Nós temos recursos infinitamente superiores aos
deles, não só no nosso território como pelo facto de podermos fazer uma união
abrangendo a Ibéria e os países que falam português e espanhol. E não
estou a dizer nada de novo: os economistas americanos há muito que vêm dizendo que essa é
a nossa saída. É por isso que as privatizações das empresas públicas
portugueses vão ser feitas sem concurso – para impedir que Angolanos e
Brasileiros atrapalhem a nossa
mexicanização.
Pessoalmente, advogaria a introdução de moeda nacional, válida apenas
no mercado interno. Riem-se? Pois fiquem a saber que a China
tem duas moedas, uma internacional e outra exclusivamente interna, e que em
várias regiões da Alemanha se tem testado a emissão de moeda só para compras
locais. Se essa solução é boa para a China, e até para a Alemanha, não será
também boa para nós? Por exemplo, em vez de cortar o 13ª e 14º mês, o Estado pagaria 15% dos ordenados em moeda nacional, que seria aceite pelos comerciantes que aderissem; estes usá-la-iam no comercio interno ou para pagamentos ao Estado e, eventualmente, para o pagamento de ordenados numa percentagem limitada.
Mas há outras medidas ainda mais imediatas. Por exemplo, os carros acima do
utilitário deviam ser muito mais taxados do que são, à semelhança do que fazem
os países sem indústria automóvel própria; os produtos alimentares importados
de países que não importam os nossos deviam ser sujeitos a rigorosas e
dispendiosas verificações; assim se aumentariam as receitas do estado sem criar
recessão, pelo contrário. Isto sem falar nas tais gorduras que continuamos à
espera de ver serem cortadas... é que ainda não vi nada que afectasse os
milhares de boys para quem essas gorduras foram criadas.
Entretanto, como no dia 12 há uma manifestação de militares, talvez seja
uma boa ideia juntarmo-nos todos à manifestação. Mas temos de fazer algo
original, inesperado. Porque greves e manifestações já estão previstas, não vão
adiantar de nada. Nem a comunicação social lhe vai dar atenção, já não são
notícia (qualquer assalto a ourivesaria tem mais tempo de antena).
Fica aqui o desafio: que podemos fazer no dia 12 que traga as manifestações de volta às notícias? Que deixe o «eixo
franco-alemão» de cara à banda? Uma marcha silenciosa, como o Ghandi fez na Índia? Todos vestidos de
igual? Como? Dêem sugestões. É preciso uma poderosa manifestação de unidade.
Mostrar que todos somos um.
Por último, um conselho da avózinha: quem nos quer mal, diz que nos quer bem, pois essa é a forma de
poder fazer mal. Quem nos quer bem, critica-nos mas age por nós. Olhem os
actos, não as palavras. Porque será que as medidas do Obama são diametralmente
opostas às que se tomam aqui?
quinta-feira, outubro 20, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (VII)
(os predadores)
“As civilizações
nascem quando as pessoas percebem que só juntando os seus esforços, submetendo
o interesse individual ao colectivo, podem conseguir a sua sobrevivência. As
civilizações são construídas com trabalho e cooperação.”
“No fundo, algo
bem retratado no conhecimento antigo da 2ª civilização, na ideia da expulsão do paraíso e da
condenação dos humanos ao trabalho.” –intervêm o Wolfram.
“Exacto; porém,
uma vez conseguida essa civilização, criada riqueza para além do indispensável
à sobrevivência, tudo se transforma; porque nós, humanos, não somos como as
formigas ou as abelhas.”
“Bem, em parte
seremos, pois somos capazes de fazer grandes sociedades, como elas...”
contestou, pensativo, o Wolfram.
“Não, não somos
nada como elas. A natureza usou duas soluções na programação dos animais.
Algumas espécies estão programadas para comportamentos sociais extremos, como
se fossem um corpo, um só ser. Algo semelhante ao que acontece com as células
do nosso corpo. Outras espécies estão programadas para a satisfação das suas
necessidades; a definição de quais são essas necessidades é que determina os
diferentes comportamentos das espécies e até dos indivíduos de cada espécie.
Este é o nosso programa.”
“Mas se estamos
programados para agir com um objectivo definido, onde está o nosso livre
arbítrio?”
“É isso o livre
arbítrio, o decidirmos de acordo com o que pensamos ser a nossa conveniência;
nós decidimos sempre de acordo com o que presumimos ser a nossa conveniência,
mesmo quando coagidos – coacção é isso, tornar inconveniente para nós o que
doutra forma seria conveniente.”
“Bem, teria de
amadurecer o assunto... adiante” – o Wolfram reticente.
“Como eu estava a
dizer, nós agimos em função do nosso interesse; uma civilização nasce porque no
início o interesse de cada pessoa é o da cooperação com os outros. Trabalho e
cooperação é o que garante a sobrevivência de cada um. Porém, quando começa a
haver riqueza acumulada pela civilização, surge outra forma de garantir a
sobrevivência: a predação. A obtenção de benefícios sem ser em troco da
correspondente contribuição para a sociedade. A exploração do Homem pelo
Homem.”
“Isso assim dito
até parece que é uma coisa fatal e não é, com educação consegue-se que as
pessoas tenham outro tipo de comportamento.” Parece-me que o Wolfram se sentiu
atingido nas suas crenças.
“O ser humano, no
programa que define as suas necessidades, tem coisas complexas, como a
necessidade de reconhecimento, ou de ser útil, ou de ser amado; a satisfação
destas necessidades impede a exploração do outro quando há uma identificação
com o outro; porém, quando essa identificação se perde, por exemplo, porque se
arranjou um argumento que convenientemente nos convence de que o outro é
diferente, já ficam abertas as portas a essa exploração.”
“Diferente como?”
“Por mil e uma
razões: porque é de outra classe social, porque é sócio de outra equipa de
futebol, porque é doutra cultura, ou doutra raça, ou fala outra língua, ou tem uma opinião diferente, porque é de outro sexo, porque tem uma deficiência
física. Por exemplo, para nos lançarmos na 1ª grande guerra fomos convencidos
que pertencíamos a uma raça superior, devendo os outros serem exterminados para
obtermos espaço vital para a nossa raça pura, não é verdade? O mesmo fizeram os
japoneses em relação aos chineses, os católicos e os muçulmanos, os ingleses em
relação aos africanos para tornar moral a escravatura; os homens em relação às
mulheres; ainda recentemente os americanos e ingleses fizeram isso para
permitir as centenas de milhares de mortes necessárias para evitar que o
controlo do petróleo iraquiano passasse para nós e para os franceses. A razão
permite-nos facilmente ultrapassar essa limitação que a natureza pôs na nossa
cabeça.”
“Bem, nem todas
as pessoas aderem a esses raciocínios...”
“Pois não,
depende da dimensão da consciência de cada um; aqueles cujos horizontes acabam
no seu umbigo facilmente aderem; aqueles cuja consciência engloba o universo
inteiro, no espaço e no tempo, nunca aderem. Mas estes são ínfima excepção, mesmo
aqueles que parecem batalhar por ideias universalistas normalmente fazem-no
porque isso é a sua conveniência imediata. Apenas em situações de enorme
adversidade se distinguem os que verdadeiramente têm uma consciência para além
do umbigo.”
“Bem, mas se as
pessoas são assim tão... umbilicais, então tornam-se predadores da sua
sociedade, esta acabaria por se destruir e colocar em risco a sobrevivência
individual”.
“Esse é
exactamente o limite da predação – o ponto em que suficientes pessoas ficam com
a sobrevivência em risco. E como esse ponto é diferente para a 2ª e para a 3ª
civilização, a evolução destas civilizações é diferente. Estamos agora em
condições de compreender porque que é as diferentes sociedades que existem na
Europa têm as características que têm, como é que elas vão evoluir e como é que
os senhores podem influenciar essa mudança de forma a obterem os escravos que
vos são necessários. Ou seja, repor a normalidade."
(continua)
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quarta-feira, outubro 19, 2011
A Primeira medida para resolver a Crise!
Este governo não
pára de me surpreender pela positiva! Depois de tantos anos a ouvir ilustres
comentadores e economistas a dizer disparates em cima de disparates, é um prazer inesperado encontrar tanta e tão subtil inteligência. Dizem que nos momentos mais difíceis aparece sempre um salvador.
Como já referi
num texto anterior, o Governo estragou completamente a estratégia predatória montada pela
troika. O objectivo dessa estratégia era a lenta degradação dos salários dos
trabalhadores e a venda das empresas públicas aos alemães e franceses. Tinha de
ser LENTA! Porquê?
Porque quando os
países europeus abriram as fronteiras, naturalmente que deixaram de poder
equilibrar as suas balanças de pagamentos – o pais mais forte, a Alemanha,
ficou com uma balança positiva e os outros todos (ou quase) com uma balança deficitária.
Isto significa que ao longo destes anos quase todos os países europeus
têm estado a esvaziar os seus euros para a Alemanha. Como a Alemanha está a
nadar em euros, o BCE não imprime dinheiro.
Para tapar o
buraco da balança de pagamentos, os países tiveram de recorrer a empréstimos.
Eu pedi um empréstimo a um banco português para comprar a casa, mas o banco
teve de pedir esse dinheiro a outro banco porque cá já não há euros; e não
interessa se pediu aqui ou ali, os euros estão maioritariamente na Alemanha,
logo, o que existe na Europa é uma cadeia de empréstimos que só termina na
Alemanha. Se eu (entenda-se: os portugueses) deixar de pagar ao meu banco, a cadeia toda pode desabar como
um dominó – cai o banco português, o espanhol, o francês. E o alemão também
fica em maus lençóis porque ninguém lhe paga o dinheiro que emprestou.
Ou seja, medidas
de austeridade violentas demais nestes pequenos países podem originar um
fenómeno em cascata que vai fazer com que os bancos alemães percam muito mais
dinheiro do que as dívidas soberanas. E há muito dinheiro
emprestado, a dívida soberana é apenas uma gota de água – só as empresas
públicas em Portugal devem o dobro ou o triplo da dívida soberana.
Assim, quando
estes países resistem, como a Grécia, ou tomam medidas que vão levar as pessoas
a não pagarem porque não têm dinheiro, como em Portugal, à Alemanha não restará
outro caminho que não seja “perdoar” grande parte da dívida.
Por isso, o nosso
PM foi genial, arranjou uma maneira de estragar o plano dos alemães com o
próprio veneno que eles estavam a usar.
Esta estratégia é melhor do que a Grega porque agora o PM tem mãos livres para finalmente atacar as «gorduras» do Estado, que são o terreno favorito da máfia portuguesa. Sem criar um «estado de sítio», isso seria impossível, não se desaloja a máfia facilmente.
Mas nós
continuamos com outro problema: a balança de pagamentos continua deficitária;
como já não há euros para saírem, isso significa que a dívida tem de aumentar.
Como já referi, não estamos a valorizar devidamente os recursos do país e estamos a ser vítimas de predação tanto pelas empresas estrangeiras, que
declaram os seus lucros nos países de origem, como por muitas empresas
nacionais, que puseram as suas sedes na Holanda, levando para lá os seus lucros
e depois para offshores.
Já viram isto? Os
Holandeses ficam com o parte do dinheiro dos lucros que as
empresas obtêm em Portugal!!! E os Irlandeses também fazem como a Holanda, os
espertalhões. Se quiserem arrepiar-se com os esquemas, vejam aqui. E, já agora,
o Jerónimo Martins, esse grande patriota e defensor da ética, é outro especialista em esquemas de fuga aos impostos em Portugal (e um dos grandes responsáveis pelo desequilíbrio da balança de pagamentos).
Como resolver
este problema? O Obama encontrou a solução: empresas que operem nos Eua e não
declarem lá os lucros levam como uma taxa em cima. Ora toma!
Bom, mas como
fazer isso aqui? Já se sabe que não se pode enfrentar os grandes grupos
económicos de peito aberto – até se pode levar um tiro. Era preciso um golpe de
génio.
E não é que este
surgiu?
Reparem: o
Governo anunciou que vai taxar as remessas para offshores em 30%!
Qual o
significado prático desta medida? Quase nenhum, as empresas têm a sede na
Holanda para onde mandam o dinheiro e é da Holanda que o dinheiro vai para
offshores. Portanto, ninguém vai protestar com esta medida.
Não vão perceber
que isto é um «cavalo de Tróia».
A seguir,
como a crise vai apertar, o Governo pode dizer: não há razão para taxar o
dinheiro que vai para offshores e não taxar o dinheiro que vai para outros
lados, logo todas as empresas que operem em Portugal e não paguem cá impostos
levam com a taxa. A taxa Obama!!! A taxa Obama vai render milhares de milhões de
euros ao Estado e o nossos recursos vão passar a ser valorizados – por exemplo,
os operadores turísticos e de hotelaria estrangeiros que exploram o nosso clima
vão passar a pagar impostos cá.
É de génio ou não
é?
(É claro que este segundo passo é algo maior que um passito de coelho, por isso espera certamente o Governo que nós criemos a situação que o torne inevitável. Deixemos aprovar o orçamento e depois toca a exigir que a taxa se aplique a todas as empresas que não paguem cá os seus impostos!)
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