sexta-feira, novembro 04, 2011
Imagine that...
Como se sabe, os
portugueses andam a viver acima das suas posses de forma descarada e
insustentável, coisa que é preciso corrigir rapidamente. Um dos luxos a que
descaradamente se têm entregado é a aquisição de casa própria, recorrendo ao
crédito, é claro. Ora, se a taxa de juro dos cartões de crédito está nos 33% e
estes servem para comprar bens de primeira necessidade, como roupa e comida,
não há razão nenhuma para a taxa de juro de luxos como casa própria não ter o
mesmo valor. As pessoas querem viver acima das suas posses mas há que as trazer
à realidade. Os limites legais a estas taxas, intolerável interferência na liberdade de mercado, caem, e as taxas de juro para habitação própria vão subir 1% ao mês até
atingirem o mesmo valor que é praticado nos cartões de crédito.
Como há muitas
pessoas que souberam bem como entrar em tais devaneios mas não sabem agora como
pagar o que é devido, o Governo vai intervir com um Programa de Austeridade e
Contenção para a Habitação (PACH). Este programa subsidia a taxa de juro dos
empréstimos para habitação própria em metade do seu valor! Assim, as pessoas
que a ele aderirem apenas terão de pagar um juro de 16,5% em vez de 33%,
durante um período de adaptação de 3 anos, um generoso bónus certamente
imerecido por estes doidivanas.
Claro que para
aderirem a este PACH as pessoas têm de garantir que passam a viver de acordo
com as suas posses. A medida é só uma, simples, lógica, evidente,
indispensável:
As pessoas deixam
de ter electricidade em casa.
Como se sabe, a electricidade faz falta para
as unidades de produção, não podemos continuar a desperdiçar os recursos do
planeta desta maneira. Electricidade em casa é um luxo insustentável. Com este
corte, as famílias economizam 50 euros por mês.
Sem electricidade
não há televisão nem internet. Mais um enorme benefício para as pessoas: a
internet só serve para espalhar ideias perniciosas e a Televisão para deprimir
o moral. Aliás, o sr. Ministro da Educação já acabou, atempadamente, com as
inúteis aulas de informática a partir do 9º ano.
Assim, as
famílias economizam mais uns 60 euros por mês.
Como não têm luz,
as pessoas passam a deitar-se com o Sol e, naturalmente, a levantar-se com o
dito. Assim, podem passar a ir a pé para o emprego,
como acontecia no tempo dos nossos avós. Só aqui teremos uma economia média de
40 euros por pessoa, ou seja, por família, porque em cada família só uma pessoa
tem emprego, a outra fica em casa, não há empregos para todos.
Portanto, esta
simples medida representa imediatamente uma economia de 150 euros por mês, a
que se irão somar outras – a criança fica em casa, poupa-se no
colégio, acaba-se com os telemóveis, com os livros e jornais, não há férias, a
roupa faz-se em casa em vez de comprar, etc, etc. Assim, as famílias libertam
imenso dinheiro que podem aplicar a pagar os juros da casa. Ao fim de 3 anos,
as famílias estarão então em condições de prescindir desta ajuda estatal, pois
já poderão pagar o juro de 33% pretendido pela banca.
Além disso, quem
aderir a este PACH fica dispensado de amortizar o empréstimo, pagando apenas
juros toda a vida.
quinta-feira, novembro 03, 2011
Para colocar Portugal a viver de acordo com as suas posses
Vejo
continuamente ser afirmado que “Portugal está a viver acima das suas posses”.
Isso é bem verdade, não produzimos para o nível de vida que temos.
Este facto
traduz-se no baixo valor do ordenado mínimo, menos de 1/3 do que se pratica noutros países europeus, o que está em correspondência com o PIB per capita de cada país.
Bem, mas se o
ordenado mínimo está de acordo com «as nossas posses», quem é que está a viver
acima delas?
Como é evidente,
são todas as pessoas que ganham mais do que o ordenado mínimo, as classes média
e alta. Estas pessoas têm considerado que, sendo europeus, devem ter um
rendimento semelhante ao que se pratica nos outros países europeus. Isso não
pode ser porque não vivemos de um orçamento europeu, o nosso orçamento depende
do que produzirmos. Para pagar esses ordenados, Estado e empresas recorrem ao crédito; as pessoas pensam que vivem de acordo com o que ganham, ignorando que parte do que ganham é obtido por empréstimo; essa parte tem de desaparecer porque não há mais crédito.
São portanto os
professores, os médicos, os engenheiros, os actores, os locutores, os juristas,
os juízes, os militares, os pilotos, os gestores, etc, etc, quem vive acima das
nossas posses como país. Na verdade, toda a gente que ganha mais do que o
ordenado mínimo está a ganhar mais do que devia, se escalarmos os ordenados com
o praticado noutros países em proporção com a sua produção. Este facto é
traduzido por um indicador, a desigualdade. É por isso que somos campeões da
desigualdade.
Colocar o país a
viver de acordo com as suas posses não significa portanto mexer nos ordenados
de baixo; significa, ao contrário, duas outras coisas: cortar naqueles serviços
prestados pelo Estado que são típicos de países mais ricos e cortar em todos
os ordenados acima do mínimo para os colocar na proporção adequada.
Isto significa
que os ordenados e pensões das classes média e alta terão de levar um corte que pode ir de 50% a 65%. Como é evidente o corte tem de ser
faseado, não pode ser feito de uma só vez – no mínimo em 3 vezes. Sendo os
prazos tão curtos, atendendo ao corte já feito, imagino que no próximo ano sejam anunciados para 2013 cortes
na ordem dos 15% a 25% nos ordenados acima de 1000 euros mensais, uma vez que a
faixa 500 a 1000 euros já fica corrigida com os cortes previstos para 2012.
São dois os
efeitos positivos que se obtêm desta maneira.
Por um lado, como
estas classes são as grandes responsáveis pelo desequilíbrio da balança de
pagamentos, ao reduzir-se o seu rendimento serão reduzidas as importações de
automóveis, de roupa de marca, e de outros produtos e serviços, como férias no
estrangeiro, que desequilibram essa balança vital e asfixiam a produção
nacional. Assim, estes cortes ajudarão a reequilibrar a balança de pagamentos e
isso é crucial para criar perspectivas de desenvolvimento, pois de
agora em diante o nosso nível de vida será definido pela produção nacional,
como acontece na generalidade dos países.
Por outro lado,
como é evidente, ao reduzirem-se estes ordenados, as empresas públicas e o
Estado precisarão de menos dinheiro, podendo então começar a equilibrar as suas
contas.
Isto, evidentemente, se a Europa e nós encontrarmos forma de controlar a especulação sobre as dívidas soberanas, o que não será fácil e exigirá medidas imaginativas e radicais, uma mudança de paradigma.
Não há outra forma de colocar o país a viver de acordo com o
que produz. Não estão de acordo?
Agora digam-me lá porque é que as medidas deduzidas neste raciocínio tão linear não passam de um enorme disparate.
quarta-feira, novembro 02, 2011
Palin Coelho
Comparemos a resposta à crise nos EUA e na Europa:
EUA: imprimir
moeda e taxar ligeiramente os ricos
Europa: não
imprimir moeda e taxar brutalmente os pobres
Não podia ser
mais diferente, não é?
Como se
compreende que os economistas e políticos de um lado e outro defendam caminhos
diametralmente opostos para chegarmos a uma sociedade melhor?
A resposta é, na
verdade, bem simples: estamos no meio de uma guerra direita-esquerda. Uma
direita sem valores de qualquer espécie, interessada unicamente na defesa dos
seus privilégios, entre os quais se inclui o direito a explorar o Homem. Uma
direita de novos ricos, especialistas em negócios de esperteza, de corrupção e de usura. Uma direita muito espertalhona que escolhe lideres como
Sarah Palin.
A Grécia tem uma
maioria de esquerda; é por isso que a Grécia resiste. Portugal tem uma maioria
de direita. Desta direita. Ainda não notaram que o Passos Coelho é a nossa versão da Sarah Palin? É
por isso que quando a Merkel diz “esfola”, ele diz “mata”.
Interessantes os
caminhos do Mundo; num país pequenino como Portugal, testa o destino o futuro
de um país grande como os EUA; tivemos o nosso Obama (Sócrates), que trocamos
pela nossa Sarah Palin (Passos Coelho). Como os EUA se encaminham para fazer.
Esperemos que o nosso exemplo catastrófico sirva ao menos para abrir os olhos
do grande povo americano.
(os ratos de
laboratório acabam sempre esfolados, seja a experiência bem ou mal sucedida).
PS - evidentemente que as comparações entre políticos se referem à sua linha ideológica
PS - evidentemente que as comparações entre políticos se referem à sua linha ideológica
sexta-feira, outubro 28, 2011
Estamos em guerra
Eu planeava
analisar uma série de questões relativas à situação actual do país através das
conversas do Dr. Jordan; é que dado que parece não haver experts nacionais, a solução é pensarmos nós pela nossa
cabeça, e é para isso que surge o dr. Jordan. Porém, preciso agora de dedicar a
minha atenção a outros assuntos, pelo que optei por colocar já este texto onde
faço uma resenha dos 10 aspectos que me parecem mais importantes neste momento.
Penso que, apesar das limitações do texto, darão por bem empregues os 5 minutos
que gastarem a ler isto, pois pelo menos novos pontos de vista são apresentados.
1 – O mito da construção pacífica da união europeia
Muitas pessoas encaram o projecto
europeu como uma tentativa de replicar os EUA, entendidos como uma união
pacífica de estados. Ora não há qualquer semelhança, os EUA são basicamente um
grande país construído pela força e altamente regionalizado. Vejamos a
história.
Os EUA nasceram quando as 13 colónias
britânicas na costa atlântica do continente americano se uniram para
conquistarem a sua independência; esta união foi depois desfeita pelos 7
estados do Sul, os quais foram em seguida conquistados militarmente pelos
estados do norte. O pretexto moral para esta conquista (todas as guerras
precisam de um pretexto moral) foi a abolição da escravatura; a verdadeira
razão foi a de que os estados do norte precisavam da agricultura dos estados do
Sul e ou os conquistavam ou teriam de lhes comprar comida.
Os restantes territórios que hoje
formam os EUA, e que são a maioria, foram obtidos por conquista ou por compra.
Portanto, os EUA que conhecemos hoje não nasceram de nenhum projecto de união
pacífica, nasceram de um projecto de ocupação e conquista. Os EUA não são nenhum
modelo de construção pacífica de uma união de países; onde está tal modelo?
2 – O projecto de uma união europeia foi sempre um projecto de conquista.
O projecto da
União Europeia sempre foi um projecto de conquista dos países do sul pela
Alemanha, acolitada pela França. Sempre. Os economistas americanos sempre o
perceberam e disseram. E isso é evidente pelas regras estabelecidas. Senão
vejamos duas delas:
a) Abertura das fronteiras. Como é óbvio, se não há barreiras alfandegárias entre dois países com diferente capacidade, o país mais forte leva o mais fraco à falência. Foi para evitar esse desfecho fatal que se inventaram as alfândegas. O fim das fronteiras na Europa tem um resultado incontornável: a Alemanha ficará sucessivamente credora de todos os outros países europeu
b) Os quadros de apoio. É sabido que injectar dinheiro produz fatalmente uma consequência: aumento da corrupção. A corrupção resulta do balanço entre benefícios e riscos e quando se aumenta os benefícios sem aumentar o risco, a corrupção dispara. Por outro lado, grande parte desse dinheiro destinou-se e destina-se ainda a pagar a não-produção daquilo que são as produções naturais do país. Se não vamos produzir alimentos, vamos produzir o quê? Aviões?
a) Abertura das fronteiras. Como é óbvio, se não há barreiras alfandegárias entre dois países com diferente capacidade, o país mais forte leva o mais fraco à falência. Foi para evitar esse desfecho fatal que se inventaram as alfândegas. O fim das fronteiras na Europa tem um resultado incontornável: a Alemanha ficará sucessivamente credora de todos os outros países europeu
b) Os quadros de apoio. É sabido que injectar dinheiro produz fatalmente uma consequência: aumento da corrupção. A corrupção resulta do balanço entre benefícios e riscos e quando se aumenta os benefícios sem aumentar o risco, a corrupção dispara. Por outro lado, grande parte desse dinheiro destinou-se e destina-se ainda a pagar a não-produção daquilo que são as produções naturais do país. Se não vamos produzir alimentos, vamos produzir o quê? Aviões?
3 – Quais são os objectivos do projecto europeu?
Os dois que nos interessam são os seguintes:
a)
Mão-de-obra barata. A progressiva implementação do estado social faz subir os encargos
com a mão-de-obra. Isso não é um problema no mercado interno, antes pelo
contrário, porque aumenta também o poder de compra; mas é um problema para quem
quer concorrer no mercado global. É por isso que surgem soluções como empresas
em navios ou a deslocalização para zonas onde há excesso de população, logo
mão-de-obra barata, como fazem os EUA no norte do México. Onde vão as empresas
francesas e alemãs encontrar uma zona onde possam pagar os ordenados que se
praticam no México ou no Sudeste asiático? A análise do problema mostra que
isso só é possível num país do Sul da Europa, onde os custos de sobrevivência
são muito mais baixos do que nos países frios. E só é possível se não
houver integração europeia, porque se houver as leis de trabalho
têm de ser as mesmas e já não é possível o trabalho escravo – é por isso que as
empresas americanas estão no norte do México e não no sul dos EUA. O projecto
europeu nunca foi um projecto de integração, foi sempre um projecto de «mexicanização
do Sul».
b)
Continuação da predação dos países
do Sul. Os países do norte da Europa, à excepção dos
países nórdicos, sempre foram predadores dos países do Sul. Os piratas e
corsários, cuja actividade consistia em pilhar os navios mercantes dos países
do Sul, eram (e ainda são) considerados heróis nos seus países. Os ingleses
vieram produzir vinho em Portugal para não terem de o importar de França, pagando
miseravelmente aos portugueses. As empresas mineiras levam o minério daqui e só
cá deixam ficar os ordenados. Os Hotéis, aldeamentos turísticos, agências de
viagem estrangeiras exploram o nosso clima mas só cá deixam os ordenados. É
como se nós fossemos a um país Árabe buscar petróleo e só lá deixássemos
ordenados de miséria, o petróleo vinha de borla. Isso já não é possível fazer
em parte alguma do mundo excepto aqui. O projecto europeu tem sido um
sucesso para os países do norte porque institucionalizou esta predação
que é hoje impensável mesmo no mais atrasado país africano. E isto é impensável
porque conduz à perpetuação da miséria - os ordenados assim nunca saem do
mínimo de sobrevivência. Por isso, onde os governantes governam para o povo e
não para si, isso é impossível.
4 – O projecto europeu visa dar-nos as condições de vida dos países do
norte?
Não. O objectivo é obter mão-de-obra ao mínimo custo para as indústrias que
operam no mercado global. É isso que pretendem medidas como a redução da TSU
que, na prática, corresponde a uma redução do ordenado do trabalhador, ou o
corte do 13º e 14º mês. A diminuição do poder de compra vai destruir as
empresas nacionais, que produzem para o mercado interno, e favorecer as
empresas que produzem produtos de grande mercado – que são só empresas
estrangeiras, pois as portuguesas só são viáveis na produção de bens que não se
disputam pelo preço mas pelas características. A redução de ordenados serve
unicamente os interesses das empresas estrangeiras. Notem ainda um aspecto: a
redução que está a ser feita afecta muito mais quem ganha pouco, pois é muito
diferente cortar 14% num ordenado de 1000 euros ou num de 5000; esta
desigualdade no esforço que está ser pedido não é por acaso ou por burrice: o
objectivo é cortar os ordenados dos operários e não se pode fazer isso sem o
cortar pelo menos na mesma percentagem nos outros, seria escandaloso. O objectivo do
projecto europeu é garantir operários baratos, muito baratos.
Notem ainda outra coisa: estes cortes
todos mal dão para pagar os juros dos encargos devidos ao buraco do BPN/BPP,
mais o negócio sujo dos submarinos; são de quem as contas do BPN que andamos a
pagar? Andamos a pagar os negócios sujos dos capitalistas que deram para o
torto porque exploraram os pobres para além do limite suportável? Andamos a
pagar submarinos que, ao que me consta, custaram o triplo do que aos gregos?
Dado que até os próprios alemães já condenaram pessoas no caso dos
submarinos, muito facilmente se renegociaria o preço deles para 1/3 ou menos.
Mas isso não interessa, porque o único objectivo é baixar os ordenados.
5 – Mas porque é que não se fez um
verdadeiro projecto de união europeia?
Num verdadeiro projecto de união, todos os
povos europeus ficariam igualmente desenvolvidos e teriam os mesmos direitos.
Ora para a Alemanha e a França isso não tem interesse; que interesse têm
eles em que os Portugueses ganhem tanto como eles? Para lhes comprarem coisas?
O que lhes interessa é o mercado global, estes 10 milhões de consumidores não contam
para isso. Porém, como mão-de-obra barata, estes 10 milhões são priceless.
Mas para serem usados como mão-de-obra barata, os cidadãos portugueses não
podem ser equiparados aos franceses ou alemães, não é? Logo, não pode haver
integração europeia...
É por isso que é indispensável «Salvar Portugal», como o PM constantemente
apregoa. Se Portugal fosse integrado num esquema europeu, os portugueses
passavam a ter os mesmos direitos dos outros «europeus» e já não poderiam ser
escravos. “Salvar Portugal” é indispensável à "mexicanização" do sul da Europa. Salvar
Portugal para garantir que os portugueses não se salvam.
6 – Há outra forma de fazer um projecto
europeu?
Claro que há! Por exemplo, em vez de fazer uma união de países fazia-se uma
união de regiões, entre 5 e 15 milhões de habitantes cada. Isso é fácil, porque
essas regiões já existem, os países estão regionalizados. Mas há outras
soluções, mesmo mantendo o figurino de países.
7 – Mas não há outros países pequenos que
conseguem ser bem-sucedidos no quadro actual?
Sabem qual é o grande negócio dos países pequenos do norte? Holanda,
Luxemburgo, Liechtenstein, Irlanda? São plataformas de circulação de dinheiro
para Offshores. Têm até legislação específica para esta actividade. Um exemplo:
a “nossa PT” tem sede na Holanda para onde desvia os lucros fabulosos que obtém
aqui, paga lá uma pequena taxa e manda o resto para uma Offshore. Todas ou
quase todas as grandes empresas, nacionais e estrangeiras, que aqui andam,
fazem isso.
Notem que isto nem significa que os
países pequenos só possam ser viáveis com esquemas destes – a Dinamarca, um
país com muitíssimo menos recursos naturais do que nós e bem mais pequeno, é o
exemplo do contrário - nem que a economia destes países se resuma a isso; mas
há que questionar como é que as regras europeias permitem esta situação
altamente lesiva dos interesses de países como o nosso. E a resposta é clara:
as regras da união europeia servem apenas os interesses dos grandes
capitalistas; são feitas por eles para eles.
8 – A nossa crise não é fruto da crise
internacional?
O que se passa é que os meios financeiros descobriram agora uma coisa
óbvia: se agirem de forma concertada, podem fazer subir ao céu os juros das
dívidas soberanas quando estas não estão suportadas na capacidade de emissão de
moeda, como acontece na Europa.
Reparem: se tentarem isto num país
fora da Europa, esse país reage emitindo moeda. É o que acontece nos EUA; mas que pode fazer um país europeu?
Portanto, esta crise está a ser
alimentada pelo BCE, ao não comprar dívida soberana directamente, alimentando
os juros especulativos. O BCE, ou seja, a Alemanha e França, estão por detrás
deste problema. Não ouviram já o Obama dizer isso repetidamente? Porque
duvidam?
Os países são tanto mais vulneráveis a
este processo quanto mais dependerem do financiamento estrangeiro. A dimensão
da nossa crise não resulta da dimensão da dívida soberana, inferior à de muitos
países, mas de uma balança de pagamentos
deficitária; os euros que cá foram postos esvaziaram-se através da balança de
pagamentos, e foram substituídos por crédito. Acabou-se o dinheiro, só há
crédito. O que devemos aos bancos nacionais devem estes ao estrangeiro.
9 – A causa profunda dos nossos problemas
Há algo que
está na origem profunda de sermos um país que não evolui há séculos (apenas
importamos parte da evolução dos outros). E é simples: um país evolui quando o
interesse colectivo se sobrepõe ao interesse individual; quando isso não
sucede, o país regride. A democracia é o sistema natural dos povos que dão prioridade
ao interesse colectivo; a ditadura, ou alguma forma de governo absoluto, é o
sistema em que caem os povos que privilegiam o interesse privado. Passar da
ditadura para a democracia não resolve nada se não se alterar a ordem das
prioridades das pessoas.
Enquanto não formos capazes de conseguir que os interesses colectivos tenham a prioridade, iremos de mal a pior; tão mal ficaremos que
acabaremos por aprender que temos de dar prioridade ao interesse colectivo. O
problema é que nessa altura pode já ser tarde demais. Sempre que os povos
levaram tempo demais a conseguir isso perante uma ameaça, foram esmagados.Ou seja, temos de acabar com os 5% da população que se está nas tintas para o interesse colectivo antes que eles acabem connosco.
10 – Então não há solução: o nosso futuro e
dos nossos filhos e netos é sermos escravos ou emigrarmos?
Há solução. Há sempre uma solução. Mas temos de a encontrar. Temos de
começar por perceber que estamos em guerra. A guerra começou por se fazer à
pedrada, depois com espadas, depois a tiro, depois à bomba e agora faz-se com o
dinheiro. Mas é guerra na mesma. Temos de meter isso na cabeça e abrir os
olhos!
Quando estivermos dispostos a dar prioridade ao interesse colectivo sobre o
individual, então poderemos começar a tratar da solução. E a solução passa por
fazermos como os nórdicos: inventarmos o sistema que serve os nossos
interesses em vez de sermos bons alunos de um sistema que serve interesses que não são os nossos. Vejam como os Dinamarqueses foram bem sucedidos em condições bem
mais difíceis do que as nossas. Nós temos recursos infinitamente superiores aos
deles, não só no nosso território como pelo facto de podermos fazer uma união
abrangendo a Ibéria e os países que falam português e espanhol. E não
estou a dizer nada de novo: os economistas americanos há muito que vêm dizendo que essa é
a nossa saída. É por isso que as privatizações das empresas públicas
portugueses vão ser feitas sem concurso – para impedir que Angolanos e
Brasileiros atrapalhem a nossa
mexicanização.
Pessoalmente, advogaria a introdução de moeda nacional, válida apenas
no mercado interno. Riem-se? Pois fiquem a saber que a China
tem duas moedas, uma internacional e outra exclusivamente interna, e que em
várias regiões da Alemanha se tem testado a emissão de moeda só para compras
locais. Se essa solução é boa para a China, e até para a Alemanha, não será
também boa para nós? Por exemplo, em vez de cortar o 13ª e 14º mês, o Estado pagaria 15% dos ordenados em moeda nacional, que seria aceite pelos comerciantes que aderissem; estes usá-la-iam no comercio interno ou para pagamentos ao Estado e, eventualmente, para o pagamento de ordenados numa percentagem limitada.
Mas há outras medidas ainda mais imediatas. Por exemplo, os carros acima do
utilitário deviam ser muito mais taxados do que são, à semelhança do que fazem
os países sem indústria automóvel própria; os produtos alimentares importados
de países que não importam os nossos deviam ser sujeitos a rigorosas e
dispendiosas verificações; assim se aumentariam as receitas do estado sem criar
recessão, pelo contrário. Isto sem falar nas tais gorduras que continuamos à
espera de ver serem cortadas... é que ainda não vi nada que afectasse os
milhares de boys para quem essas gorduras foram criadas.
Entretanto, como no dia 12 há uma manifestação de militares, talvez seja
uma boa ideia juntarmo-nos todos à manifestação. Mas temos de fazer algo
original, inesperado. Porque greves e manifestações já estão previstas, não vão
adiantar de nada. Nem a comunicação social lhe vai dar atenção, já não são
notícia (qualquer assalto a ourivesaria tem mais tempo de antena).
Fica aqui o desafio: que podemos fazer no dia 12 que traga as manifestações de volta às notícias? Que deixe o «eixo
franco-alemão» de cara à banda? Uma marcha silenciosa, como o Ghandi fez na Índia? Todos vestidos de
igual? Como? Dêem sugestões. É preciso uma poderosa manifestação de unidade.
Mostrar que todos somos um.
Por último, um conselho da avózinha: quem nos quer mal, diz que nos quer bem, pois essa é a forma de
poder fazer mal. Quem nos quer bem, critica-nos mas age por nós. Olhem os
actos, não as palavras. Porque será que as medidas do Obama são diametralmente
opostas às que se tomam aqui?
quinta-feira, outubro 20, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (VII)
(os predadores)
“As civilizações
nascem quando as pessoas percebem que só juntando os seus esforços, submetendo
o interesse individual ao colectivo, podem conseguir a sua sobrevivência. As
civilizações são construídas com trabalho e cooperação.”
“No fundo, algo
bem retratado no conhecimento antigo da 2ª civilização, na ideia da expulsão do paraíso e da
condenação dos humanos ao trabalho.” –intervêm o Wolfram.
“Exacto; porém,
uma vez conseguida essa civilização, criada riqueza para além do indispensável
à sobrevivência, tudo se transforma; porque nós, humanos, não somos como as
formigas ou as abelhas.”
“Bem, em parte
seremos, pois somos capazes de fazer grandes sociedades, como elas...”
contestou, pensativo, o Wolfram.
“Não, não somos
nada como elas. A natureza usou duas soluções na programação dos animais.
Algumas espécies estão programadas para comportamentos sociais extremos, como
se fossem um corpo, um só ser. Algo semelhante ao que acontece com as células
do nosso corpo. Outras espécies estão programadas para a satisfação das suas
necessidades; a definição de quais são essas necessidades é que determina os
diferentes comportamentos das espécies e até dos indivíduos de cada espécie.
Este é o nosso programa.”
“Mas se estamos
programados para agir com um objectivo definido, onde está o nosso livre
arbítrio?”
“É isso o livre
arbítrio, o decidirmos de acordo com o que pensamos ser a nossa conveniência;
nós decidimos sempre de acordo com o que presumimos ser a nossa conveniência,
mesmo quando coagidos – coacção é isso, tornar inconveniente para nós o que
doutra forma seria conveniente.”
“Bem, teria de
amadurecer o assunto... adiante” – o Wolfram reticente.
“Como eu estava a
dizer, nós agimos em função do nosso interesse; uma civilização nasce porque no
início o interesse de cada pessoa é o da cooperação com os outros. Trabalho e
cooperação é o que garante a sobrevivência de cada um. Porém, quando começa a
haver riqueza acumulada pela civilização, surge outra forma de garantir a
sobrevivência: a predação. A obtenção de benefícios sem ser em troco da
correspondente contribuição para a sociedade. A exploração do Homem pelo
Homem.”
“Isso assim dito
até parece que é uma coisa fatal e não é, com educação consegue-se que as
pessoas tenham outro tipo de comportamento.” Parece-me que o Wolfram se sentiu
atingido nas suas crenças.
“O ser humano, no
programa que define as suas necessidades, tem coisas complexas, como a
necessidade de reconhecimento, ou de ser útil, ou de ser amado; a satisfação
destas necessidades impede a exploração do outro quando há uma identificação
com o outro; porém, quando essa identificação se perde, por exemplo, porque se
arranjou um argumento que convenientemente nos convence de que o outro é
diferente, já ficam abertas as portas a essa exploração.”
“Diferente como?”
“Por mil e uma
razões: porque é de outra classe social, porque é sócio de outra equipa de
futebol, porque é doutra cultura, ou doutra raça, ou fala outra língua, ou tem uma opinião diferente, porque é de outro sexo, porque tem uma deficiência
física. Por exemplo, para nos lançarmos na 1ª grande guerra fomos convencidos
que pertencíamos a uma raça superior, devendo os outros serem exterminados para
obtermos espaço vital para a nossa raça pura, não é verdade? O mesmo fizeram os
japoneses em relação aos chineses, os católicos e os muçulmanos, os ingleses em
relação aos africanos para tornar moral a escravatura; os homens em relação às
mulheres; ainda recentemente os americanos e ingleses fizeram isso para
permitir as centenas de milhares de mortes necessárias para evitar que o
controlo do petróleo iraquiano passasse para nós e para os franceses. A razão
permite-nos facilmente ultrapassar essa limitação que a natureza pôs na nossa
cabeça.”
“Bem, nem todas
as pessoas aderem a esses raciocínios...”
“Pois não,
depende da dimensão da consciência de cada um; aqueles cujos horizontes acabam
no seu umbigo facilmente aderem; aqueles cuja consciência engloba o universo
inteiro, no espaço e no tempo, nunca aderem. Mas estes são ínfima excepção, mesmo
aqueles que parecem batalhar por ideias universalistas normalmente fazem-no
porque isso é a sua conveniência imediata. Apenas em situações de enorme
adversidade se distinguem os que verdadeiramente têm uma consciência para além
do umbigo.”
“Bem, mas se as
pessoas são assim tão... umbilicais, então tornam-se predadores da sua
sociedade, esta acabaria por se destruir e colocar em risco a sobrevivência
individual”.
“Esse é
exactamente o limite da predação – o ponto em que suficientes pessoas ficam com
a sobrevivência em risco. E como esse ponto é diferente para a 2ª e para a 3ª
civilização, a evolução destas civilizações é diferente. Estamos agora em
condições de compreender porque que é as diferentes sociedades que existem na
Europa têm as características que têm, como é que elas vão evoluir e como é que
os senhores podem influenciar essa mudança de forma a obterem os escravos que
vos são necessários. Ou seja, repor a normalidade."
(continua)
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quarta-feira, outubro 19, 2011
A Primeira medida para resolver a Crise!
Este governo não
pára de me surpreender pela positiva! Depois de tantos anos a ouvir ilustres
comentadores e economistas a dizer disparates em cima de disparates, é um prazer inesperado encontrar tanta e tão subtil inteligência. Dizem que nos momentos mais difíceis aparece sempre um salvador.
Como já referi
num texto anterior, o Governo estragou completamente a estratégia predatória montada pela
troika. O objectivo dessa estratégia era a lenta degradação dos salários dos
trabalhadores e a venda das empresas públicas aos alemães e franceses. Tinha de
ser LENTA! Porquê?
Porque quando os
países europeus abriram as fronteiras, naturalmente que deixaram de poder
equilibrar as suas balanças de pagamentos – o pais mais forte, a Alemanha,
ficou com uma balança positiva e os outros todos (ou quase) com uma balança deficitária.
Isto significa que ao longo destes anos quase todos os países europeus
têm estado a esvaziar os seus euros para a Alemanha. Como a Alemanha está a
nadar em euros, o BCE não imprime dinheiro.
Para tapar o
buraco da balança de pagamentos, os países tiveram de recorrer a empréstimos.
Eu pedi um empréstimo a um banco português para comprar a casa, mas o banco
teve de pedir esse dinheiro a outro banco porque cá já não há euros; e não
interessa se pediu aqui ou ali, os euros estão maioritariamente na Alemanha,
logo, o que existe na Europa é uma cadeia de empréstimos que só termina na
Alemanha. Se eu (entenda-se: os portugueses) deixar de pagar ao meu banco, a cadeia toda pode desabar como
um dominó – cai o banco português, o espanhol, o francês. E o alemão também
fica em maus lençóis porque ninguém lhe paga o dinheiro que emprestou.
Ou seja, medidas
de austeridade violentas demais nestes pequenos países podem originar um
fenómeno em cascata que vai fazer com que os bancos alemães percam muito mais
dinheiro do que as dívidas soberanas. E há muito dinheiro
emprestado, a dívida soberana é apenas uma gota de água – só as empresas
públicas em Portugal devem o dobro ou o triplo da dívida soberana.
Assim, quando
estes países resistem, como a Grécia, ou tomam medidas que vão levar as pessoas
a não pagarem porque não têm dinheiro, como em Portugal, à Alemanha não restará
outro caminho que não seja “perdoar” grande parte da dívida.
Por isso, o nosso
PM foi genial, arranjou uma maneira de estragar o plano dos alemães com o
próprio veneno que eles estavam a usar.
Esta estratégia é melhor do que a Grega porque agora o PM tem mãos livres para finalmente atacar as «gorduras» do Estado, que são o terreno favorito da máfia portuguesa. Sem criar um «estado de sítio», isso seria impossível, não se desaloja a máfia facilmente.
Mas nós
continuamos com outro problema: a balança de pagamentos continua deficitária;
como já não há euros para saírem, isso significa que a dívida tem de aumentar.
Como já referi, não estamos a valorizar devidamente os recursos do país e estamos a ser vítimas de predação tanto pelas empresas estrangeiras, que
declaram os seus lucros nos países de origem, como por muitas empresas
nacionais, que puseram as suas sedes na Holanda, levando para lá os seus lucros
e depois para offshores.
Já viram isto? Os
Holandeses ficam com o parte do dinheiro dos lucros que as
empresas obtêm em Portugal!!! E os Irlandeses também fazem como a Holanda, os
espertalhões. Se quiserem arrepiar-se com os esquemas, vejam aqui. E, já agora,
o Jerónimo Martins, esse grande patriota e defensor da ética, é outro especialista em esquemas de fuga aos impostos em Portugal (e um dos grandes responsáveis pelo desequilíbrio da balança de pagamentos).
Como resolver
este problema? O Obama encontrou a solução: empresas que operem nos Eua e não
declarem lá os lucros levam como uma taxa em cima. Ora toma!
Bom, mas como
fazer isso aqui? Já se sabe que não se pode enfrentar os grandes grupos
económicos de peito aberto – até se pode levar um tiro. Era preciso um golpe de
génio.
E não é que este
surgiu?
Reparem: o
Governo anunciou que vai taxar as remessas para offshores em 30%!
Qual o
significado prático desta medida? Quase nenhum, as empresas têm a sede na
Holanda para onde mandam o dinheiro e é da Holanda que o dinheiro vai para
offshores. Portanto, ninguém vai protestar com esta medida.
Não vão perceber
que isto é um «cavalo de Tróia».
A seguir,
como a crise vai apertar, o Governo pode dizer: não há razão para taxar o
dinheiro que vai para offshores e não taxar o dinheiro que vai para outros
lados, logo todas as empresas que operem em Portugal e não paguem cá impostos
levam com a taxa. A taxa Obama!!! A taxa Obama vai render milhares de milhões de
euros ao Estado e o nossos recursos vão passar a ser valorizados – por exemplo,
os operadores turísticos e de hotelaria estrangeiros que exploram o nosso clima
vão passar a pagar impostos cá.
É de génio ou não
é?
(É claro que este segundo passo é algo maior que um passito de coelho, por isso espera certamente o Governo que nós criemos a situação que o torne inevitável. Deixemos aprovar o orçamento e depois toca a exigir que a taxa se aplique a todas as empresas que não paguem cá os seus impostos!)
sexta-feira, outubro 14, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (VI)
(a terceira
civilização)
"Ahh, vamos então
à parte que nos interessa.” – o careca começa a ficar impaciente, estou a
exceder o tempo combinado, tenho de me despachar.
“Ultrapassado o
Mediterrâneo e subindo em latitude, os recursos são progressivamente mais
escassos e a agricultura mais limitada. As pessoas vão sendo empurradas para
latitudes mais altas à medida que as civilizações mais a Sul vão atingindo os
limites da sustentabilidade populacional, apesar das medidas de controlo de
população que criaram; como o clima tem ciclos centenários, elas atrevem-se
mais a subir na parte quente do ciclo e depois ficam presas nessas latitudes na
parte fria. Como assegurar a sobrevivência nas latitudes altas?”
“Com muitas
privações e muito trabalho, com certeza...” comentou o ruivo.
“Não foi isso que
aconteceu, não havia conhecimentos que pudessem ultrapassar as dificuldades por
mais trabalho que se aplicasse. A solução foi muitas vezes atacar ou pilhar os
países do Sul; depois, quando a navegação possibilitou o acesso por mar às
latitudes mais baixas, alguns procuraram criar possessões no hemisfério sul
onde pudessem obter os recursos que lhes faltavam, como os holandeses e os
ingleses; a pirataria foi outra forma de obter recursos, pilhando os navios das
potências do Sul; mas a pouco e pouco duas formas pacíficas dos países do Norte
obterem os recursos que faltavam nas suas latitudes foram encontradas: uma foi
a prestação de serviços, quer como intermediários no comércio de produtos entre
regiões, quer como prestadores de serviços financeiros; a outra foi vendendo
aos países do Sul produtos por si manufacturados. Duma e doutra forma obtinham
dinheiro que depois servia para comprar nos países do Sul os recursos,
sobretudo alimentares, que lhes faltavam.”
“E assim nasceu a
terceira civilização, que é a primeira civilização que não se sustenta com os
recursos da mãe natureza...” comentou o Wolfram, os olhos fixos na distância.
“Isso mesmo. Uma
civilização cuja sobrevivência passa a depender essencialmente da sua
capacidade de produzir bens e serviços. Esta necessidade impele os países do
Norte para a industrialização, algo cuja necessidade era muito menos premente
no Sul. Esta terceira civilização tornou-se tecnologicamente muito mais
avançada do que as civilizações do Sul, mas não só tecnologicamente: mais uma
vez, a atitude em relação à sociedade teve de evoluir, o sentido colectivo teve
de ser mais pronunciado – no sul, uma família pode garantir a sua sobrevivência
a partir de um pedaço de terra, no norte a sobrevivência depende muito mais do
colectivo; em consequência, o conceito de família perde outra vez força,
nenhuma família pode ser auto-suficiente, há uma interdependência das pessoas
muito mais acentuada.”
“Sim, faz
sentido, isso explica porque uma família nórdica é tão diferente de uma família
italiana” – comenta o Wolfram de olhos agora brilhantes. O careca tamborila os
dedos, continua impaciente.
“Bom, mas a
história não termina com o nascimento da 3ª civilização; os bens produzidos a
norte ou os produtos alimentares do Sul não têm valor relativo fixo, cada parte
procura valorizar os seus produtos e majorar as suas vantagens; e os países do
Sul têm vantagem nesta negociação porque os produtos deles são indispensáveis
ao Norte e o contrário não é verdade. Mas os países da 3º civilização têm um
outro tipo de vantagem que é decisiva. E é com essa vantagem que estamos a
dominar o Mundo e é através dela que vocês vão ter a mão-de-obra escrava que
pretendem nos países do Sul da Europa.”
(continua)
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Há uma Luz!
As medidas anunciadas pelo Passos Coelho fizeram-me cair os queixos de espanto; o rol de desgraças que se vão seguir foram-se amontoando na frente dos meus olhos - uma recessão de pelo menos 5% é garantida, os incumprimentos bancários a disparar em flecha, o aumento do desemprego (se o horário de trabalho aumenta 7%, os patrões vão despedir 7% dos trabalhadores, não é? Não se produz mais porque não há mercado, não é por falta de horas de trabalho). Mas depois comecei a ver o lado positivo da coisa. Bati com a mão na testa! Genial, sem dúvida. Não sei se é consciente ou não, mas o certo é que o Passos Coelho aponta o caminho para sairmos deste sufoco.
O processo de conduzir pessoas a uma situação que não lhes convém consiste em lhes dizer que se está a cuidar delas através da imposição de suaves medidas que as empurram para onde elas não querem - elas estão «doentes» e por isso precisam de «remédios»; as pessoas ficam cada vez pior e o que fazem é ir tomando mais «remédio», não é? o raciocínio das pessoas é simplório; este processo tem de ser lento para que as pessoas se vão adaptando e resignando à sua condição sucessivamente pior. Isto é muito bem conhecido.
A troika estava a desenvolver um plano destes, um plano que quem seguir os textos do Dr. Jordan compreenderá; suavemente seriamos conduzidos a aceitar como boa uma situação em que ficaríamos todos reduzidos a uma miserável sobrevivência, mão-de-obra barata para as fábricas europeias. Combater este plano de peito aberto é impossível neste país atrasado - pode ser possível para os Gregos, que estão a conseguir sucessivos sucessos nessa batalha - mas não aqui.
Que fazer?
O Primeiro Ministro encontrou uma solução: se aumentarmos a dose do «remédio», vai-se tornar evidente que não cura mas mata! E ele vai poder dizer à troika: Então? Fomos tão bons alunos! Fizemos tudo o disseram e até excedemos! Como é?
Como entretanto a solução B se começa a desenhar na Europa, o drama que aqui vai acontecer obrigará à sua rápida implementação. Em meses isto estará resolvido. Ou vai ou racha. Pode ser que rache, mas também pode ser que se resolva e se o Passos Coelho fosse de mansinho de certeza que rachava. Assim, ao menos há uma possibilidade. A ver vamos.
O processo de conduzir pessoas a uma situação que não lhes convém consiste em lhes dizer que se está a cuidar delas através da imposição de suaves medidas que as empurram para onde elas não querem - elas estão «doentes» e por isso precisam de «remédios»; as pessoas ficam cada vez pior e o que fazem é ir tomando mais «remédio», não é? o raciocínio das pessoas é simplório; este processo tem de ser lento para que as pessoas se vão adaptando e resignando à sua condição sucessivamente pior. Isto é muito bem conhecido.
A troika estava a desenvolver um plano destes, um plano que quem seguir os textos do Dr. Jordan compreenderá; suavemente seriamos conduzidos a aceitar como boa uma situação em que ficaríamos todos reduzidos a uma miserável sobrevivência, mão-de-obra barata para as fábricas europeias. Combater este plano de peito aberto é impossível neste país atrasado - pode ser possível para os Gregos, que estão a conseguir sucessivos sucessos nessa batalha - mas não aqui.
Que fazer?
O Primeiro Ministro encontrou uma solução: se aumentarmos a dose do «remédio», vai-se tornar evidente que não cura mas mata! E ele vai poder dizer à troika: Então? Fomos tão bons alunos! Fizemos tudo o disseram e até excedemos! Como é?
Como entretanto a solução B se começa a desenhar na Europa, o drama que aqui vai acontecer obrigará à sua rápida implementação. Em meses isto estará resolvido. Ou vai ou racha. Pode ser que rache, mas também pode ser que se resolva e se o Passos Coelho fosse de mansinho de certeza que rachava. Assim, ao menos há uma possibilidade. A ver vamos.
quarta-feira, outubro 12, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (V)
(a segunda das
civilizações auto-suficientes)
![]() |
| A imensa extensão de terreno que o trópico da Capricórnio cruza em África e Ásia determinou o berço da segunda civilização (mapa da Wikipedia). |
“O único caso em que uma população podia ser sedentária numa zona onde
há Inverno seria quando se estabelecesse nas margens inundáveis de um rio; apenas aí os solos suportavam a agricultura numa época anterior à
descoberta dos adubos porque é o próprio rio que repõe nos terrenos os
compostos de azoto."
"Sim, claro, agora que produzimos os fertilizantes em fábricas já nem temos consciência de como a falta de azoto foi uma dificuldade terrível para a agricultura"... comentou o Wolfram, sempre filosófico.
"Para surgir uma nova civilização seria necessária
uma larga extensão de margens inundáveis, capaz de suportar uma população de dimensão
suficiente. Em África, o Nilo surge como o local mais provável para isso
acontecer e aí se desenvolveu o segundo tipo de civilização da Humanidade.”
“... Que também
apareceu noutros lados”, notou o ruivo.
“Sim, na Ásia,
onde também existem rios nestas condições; já na América essas condições não
existem, pois a norte a zona equatorial prolonga-se pela língua de terreno da
América Central e a Sul os rios que saem da zona tropical não possuiriam as
necessárias extensões inundáveis."
"Mas mesmo assim desenvolveram-se as civilizações Maia e Inca."
"Foi a resposta possível à pressão exercida pelo excesso de população numa zona de clima ainda tropical e onde a migração não era possível; dependiam de uma agricultura sem adubos, logo fraca e baseada em rotatividade de terrenos, e da pesca. Com a população no limite e sem o escape da migração, o excesso de natalidade ou qualquer perturbação climática tinha de ser compensada com maciços sacrifícios humanos.”
“Mas esse tipo de
civilização das margens do Nilo ocorreu também em locais muito diferentes, como
Creta e em muitas zonas da costa norte do Mediterrâneo”, contestou ainda o
ruivo.
“Decerto; uma vez
inventada, esta civilização é capaz de se estabelecer em certas zonas que não
seriam propícias ao seu nascimento. Para nascer, é que é preciso um número elevado de pessoas para que sucessivos pequenos avanços possam
ser somados; e são muitos esses avanços, tanto a nível de organização como
tecnológicos como, e isso é talvez o importante, a nível da atitude perante a
sociedade, o entendimento de que o interesse individual se tem de subordinar ao
colectivo, com reflexos no próprio conceito de família. No entanto, notem que
uma civilização deste tipo não se pode estabelecer em qualquer parte, existe
uma restrição importante.”
“E qual é?”
“Todas as
sociedades humanas dos tempos antigos são auto-suficientes: a sua sobrevivência
depende só dos recursos próprios da comunidade. A diferença entre elas reside
na capacidade de gerir recursos, mínima na sociedade equatorial e máxima nas
sociedades agrícolas.”
“E depois essas
sociedades começaram a comerciar entre si, desenvolvendo a primeira
globalização”, acrescentou o Wolfram.
“Exactamente;
esse terceiro passo do desenvolvimento das civilizações foi tornado possível
pelo vasto território onde essas sociedades se puderam estabelecer, ou seja, a
bacia mediterrânica e a Ásia do Sul e Oriental, zonas com clima suficientemente
ameno e ricas em água doce. Notem mais uma vez a importância da geografia."
"Pois, quase todo o clima temperado se situa no hemisfério norte..." condescendeu pensativo o Wolfram; talvez esteja a comparar esta possibilidade com outras... quem se sente superior costuma gostar de atribuir essa superioridade aos seus méritos.
"O comércio introduz algo de muito importante: o
acesso pacífico a recursos doutras regiões, como materiais de construção, sal,
especiarias, minérios, variedades agrícolas ou produtos manufacturados. Estas
coisas não eram indispensáveis a estas sociedades, elas podiam subsistir sem
elas, mas permitiam-lhes atingir uma qualidade que não atingiriam sem o
comércio.”
“A isso se resume a história das
civilizações?” O careca entre o desiludido e o intrigado
“Não; falta
precisamente a parte que nos interessa.”
(continua)
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segunda-feira, outubro 10, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (IV)
(continuação - como o Inverno torna finito o Tempo)
“A variação da
percepção do tempo à medida que se sobe em latitude é um aspecto muito
interessante e mesmo um pouco surpreendente.” Leio interesse nos olhos dos meus
interlocutores, o tempo é algo fundamental nas suas vidas. Continuo:
“Como sabem, na zona equatorial os dias são
todos iguais, apenas a Lua permite definir um período maior que o dia. A vida
vive-se no presente e planeia-se ao dia; ao longo do dia há um conjunto de
tarefas a realizar, mas a escala do planeamento é apenas do dia. O tempo é tão infinito como o oceano. A vida é finita quando se planeia a prazo e quando se mede
em anos, mas não quando se mede em dias, pois o número é grande demais para as
nossas faculdades de percepção intuitiva.” Calo-me novamente, percebo que estão
a tentar imaginar a situação, a estimar quantos dias têm uma vida, quantos dias
terão ainda as suas vidas.
“Sim,
compreendo”, diz de súbito o ruivo, "é como estar de férias: um mês aqui passa
a correr mas um mês de férias na praia ou no campo é tanto tempo que nem
consigo imaginar... duas semanas já me parece uma eternidade.” Os outros concordam.
“Bem, já
percebemos que a civilização que se gera numa zona equatorial tem uma dimensão
espacial não superior à centena de pessoas e uma dimensão temporal de um dia.
Esta civilização, como qualquer outra, é muito estruturada, com regras bem definidas.”
“Sim” –
interrompe o Wolfram, algo impaciente – “mas essa civilização só pode ser assim
enquanto não há sobrepopulação; ora a população humana cresce; e depois?”
“O que acontece é
que as pessoas vão ocupando o território livre. Vamos pensar no caso de África; ocupada a faixa equatorial, as pessoas vão subindo em
latitude. E então vão encontrar algo novo: o Inverno. Um período de tempo em
que a Natureza não garante a sobrevivência. Isto muda tudo.” A impaciência deu lugar à expectativa.
"Passando os
trópicos, é preciso encontrar forma de ter alimentos no Inverno e soluções para proteger do frio – uma temperatura inferior a 18 ºC é
mortal para um humano sem protecção. Isto obriga a viver com prazos, com
calendários, com objectivos. O Inverno introduz o conceito de Futuro na actividade diária."
"Ou seja, o Inverno trouxe o stress, que é coisa que quem vive focado no presente não sabe o que seja..." comentou o careca, logo seguido por sinais de viva concordância dos outros. "Sim, isso mesmo", e ri-me, sendo acompanhado por eles. Continuei:
"As soluções mais simples para o problema do alimento, como a caça ou a pastorícia, geram
sociedades pequenas e nómadas, com baixas densidades populacionais; mesmo as
primeiras soluções agrícolas não permitem a fixação prolongada de populações porque a
agricultura esgota os frágeis solos das zonas acima dos trópicos, implicando a necessidade de mudança periódica de local, excepto num
único caso; e é esse único caso que permitiu que se desenvolvessem civilizações
com crescentes escalas de espaço e de tempo.”
“Ou seja, sem o Inverno,
a nossa civilização nunca teria acontecido... portanto, se o Homem tem surgido
uns 100 milhões de anos antes, uma insignificância à escala da idade da Terra,
no tempo dos Dinossáurios, esta nossa civilização não se poderia ter então
desenvolvido porque nessa altura não havia Invernos... parece que o Homem
surgiu apenas quando o planeta já estava pronto para o desenvolvimento de
grandes civilizações... o Homem surgiu quando tinha de surgir, nem antes, nem
depois... interessante...”. Esta cogitação do Wolfram gera um franzir de
sobrolho do careca. Interessante este Wolfram, que sabe que no tempo dos Dinossáurios não havia Inverno e capaz de pensamentos
filosóficos, de pensamentos que não têm directamente a ver com os seus
interesses pessoais. Começo a simpatizar com ele.
“Nada de desvios
criativos” – repreende brandamente o careca – “oiçamos o dr. Jordan, que
certamente nos vai mostrar que as sucessivas civilizações são a solução ideal
para cada situação climática e geográfica, tal como a tribo é a solução ideal
para o clima equatorial; qual é então esse único caso geográfico-climático que
nos trouxe até aqui?” Espertalhão o chefão. “Boa pergunta!” pego-lhe na
palavra, que traduz alguma impaciência, pelo que remato: “Uma pergunta cuja
resposta nos levará a perceber porque é que estamos aqui a ter esta conversa e
como é que se resolve o vosso problema.”
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