sexta-feira, outubro 14, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (VI)


(a terceira civilização)

"Ahh, vamos então à parte que nos interessa.” – o careca começa a ficar impaciente, estou a exceder o tempo combinado, tenho de me despachar.

Ultrapassado o Mediterrâneo e subindo em latitude, os recursos são progressivamente mais escassos e a agricultura mais limitada. As pessoas vão sendo empurradas para latitudes mais altas à medida que as civilizações mais a Sul vão atingindo os limites da sustentabilidade populacional, apesar das medidas de controlo de população que criaram; como o clima tem ciclos centenários, elas atrevem-se mais a subir na parte quente do ciclo e depois ficam presas nessas latitudes na parte fria. Como assegurar a sobrevivência nas latitudes altas?

Com muitas privações e muito trabalho, com certeza...” comentou o ruivo.

Não foi isso que aconteceu, não havia conhecimentos que pudessem ultrapassar as dificuldades por mais trabalho que se aplicasse. A solução foi muitas vezes atacar ou pilhar os países do Sul; depois, quando a navegação possibilitou o acesso por mar às latitudes mais baixas, alguns procuraram criar possessões no hemisfério sul onde pudessem obter os recursos que lhes faltavam, como os holandeses e os ingleses; a pirataria foi outra forma de obter recursos, pilhando os navios das potências do Sul; mas a pouco e pouco duas formas pacíficas dos países do Norte obterem os recursos que faltavam nas suas latitudes foram encontradas: uma foi a prestação de serviços, quer como intermediários no comércio de produtos entre regiões, quer como prestadores de serviços financeiros; a outra foi vendendo aos países do Sul produtos por si manufacturados. Duma e doutra forma obtinham dinheiro que depois servia para comprar nos países do Sul os recursos, sobretudo alimentares, que lhes faltavam.

E assim nasceu a terceira civilização, que é a primeira civilização que não se sustenta com os recursos da mãe natureza...” comentou o Wolfram, os olhos fixos na distância.

Isso mesmo. Uma civilização cuja sobrevivência passa a depender essencialmente da sua capacidade de produzir bens e serviços. Esta necessidade impele os países do Norte para a industrialização, algo cuja necessidade era muito menos premente no Sul. Esta terceira civilização tornou-se tecnologicamente muito mais avançada do que as civilizações do Sul, mas não só tecnologicamente: mais uma vez, a atitude em relação à sociedade teve de evoluir, o sentido colectivo teve de ser mais pronunciado – no sul, uma família pode garantir a sua sobrevivência a partir de um pedaço de terra, no norte a sobrevivência depende muito mais do colectivo; em consequência, o conceito de família perde outra vez força, nenhuma família pode ser auto-suficiente, há uma interdependência das pessoas muito mais acentuada.”

Sim, faz sentido, isso explica porque uma família nórdica é tão diferente de uma família italiana” – comenta o Wolfram de olhos agora brilhantes. O careca tamborila os dedos, continua impaciente.

Bom, mas a história não termina com o nascimento da 3ª civilização; os bens produzidos a norte ou os produtos alimentares do Sul não têm valor relativo fixo, cada parte procura valorizar os seus produtos e majorar as suas vantagens; e os países do Sul têm vantagem nesta negociação porque os produtos deles são indispensáveis ao Norte e o contrário não é verdade. Mas os países da 3º civilização têm um outro tipo de vantagem que é decisiva. E é com essa vantagem que estamos a dominar o Mundo e é através dela que vocês vão ter a mão-de-obra escrava que pretendem nos países do Sul da Europa.

Mas que vantagem é essa?” – o careca claramente desconfiado da minha sanidade mental.


(continua)

Há uma Luz!

As medidas anunciadas pelo Passos Coelho fizeram-me cair os queixos de espanto; o rol de desgraças que se vão seguir foram-se amontoando na frente dos meus olhos - uma recessão de pelo menos 5% é garantida, os incumprimentos bancários a disparar em flecha, o aumento do desemprego (se o horário de trabalho aumenta 7%, os patrões vão despedir 7% dos trabalhadores, não é? Não se produz mais porque não há mercado, não é por falta de horas de trabalho). Mas depois comecei a ver o lado positivo da coisa. Bati com a mão na testa! Genial, sem dúvida. Não sei se é consciente ou não, mas o certo é que o Passos Coelho aponta o caminho para sairmos deste sufoco.

O processo de conduzir pessoas a uma situação que não lhes convém consiste em lhes dizer que se está a cuidar delas através da imposição de suaves medidas que as empurram para onde elas não querem - elas estão «doentes» e por isso precisam de «remédios»; as pessoas ficam cada vez pior e o que fazem é ir tomando mais «remédio», não é? o raciocínio das pessoas é simplório; este processo tem de ser lento para que as pessoas se vão adaptando e resignando à sua condição sucessivamente pior. Isto é muito bem conhecido.

A troika estava a desenvolver um plano destes, um plano que quem seguir os textos do Dr. Jordan compreenderá; suavemente seriamos conduzidos a aceitar como boa uma situação em que ficaríamos todos reduzidos a uma miserável sobrevivência, mão-de-obra barata para as fábricas europeias. Combater este plano de peito aberto é impossível neste país atrasado - pode ser possível para os Gregos, que estão a conseguir sucessivos sucessos nessa batalha - mas não aqui.

Que fazer?

O Primeiro Ministro encontrou uma solução: se aumentarmos a dose do «remédio», vai-se tornar evidente que não cura mas mata!  E ele vai poder dizer à troika: Então? Fomos tão bons alunos! Fizemos tudo o disseram e até excedemos! Como é?

Como entretanto a solução B se começa a desenhar na Europa, o drama que aqui vai acontecer obrigará à sua rápida implementação. Em meses isto estará resolvido. Ou vai ou racha. Pode ser que rache, mas também pode ser que se resolva e se o Passos Coelho fosse de mansinho de certeza que rachava. Assim, ao menos há uma possibilidade. A ver vamos.


quarta-feira, outubro 12, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (V)


(a segunda das civilizações auto-suficientes)


A imensa extensão de terreno que o trópico da Capricórnio cruza em África e Ásia determinou o berço da segunda civilização (mapa da Wikipedia).

O único caso em que uma população podia ser sedentária numa zona onde há Inverno seria quando se estabelecesse nas margens inundáveis de um rio; apenas aí os solos suportavam a agricultura numa época anterior à descoberta dos adubos porque é o próprio rio que repõe nos terrenos os compostos de azoto."

"Sim, claro, agora que produzimos os fertilizantes em fábricas já nem temos consciência de como a falta de azoto foi uma dificuldade terrível para a agricultura"... comentou o Wolfram, sempre filosófico.

"Para surgir uma nova civilização seria necessária uma larga extensão de margens inundáveis, capaz de suportar uma população de dimensão suficiente. Em África, o Nilo surge como o local mais provável para isso acontecer e aí se desenvolveu o segundo tipo de civilização da Humanidade.

... Que também apareceu noutros lados”, notou o ruivo.

Sim, na Ásia, onde também existem rios nestas condições; já na América essas condições não existem, pois a norte a zona equatorial prolonga-se pela língua de terreno da América Central e a Sul os rios que saem da zona tropical não possuiriam as necessárias extensões inundáveis."

"Mas mesmo assim desenvolveram-se as civilizações Maia e Inca."

"Foi a resposta possível à pressão exercida pelo excesso de população numa zona de clima ainda tropical e onde a migração não era possível; dependiam de uma agricultura sem adubos,  logo fraca e baseada em rotatividade de terrenos, e da pesca. Com a população no limite e sem o escape da migração, o excesso de natalidade ou qualquer perturbação climática tinha de ser compensada com maciços sacrifícios humanos.

Mas esse tipo de civilização das margens do Nilo ocorreu também em locais muito diferentes, como Creta e em muitas zonas da costa norte do Mediterrâneo”, contestou ainda o ruivo.

“Decerto; uma vez inventada, esta civilização é capaz de se estabelecer em certas zonas que não seriam propícias ao seu nascimento. Para nascer, é que é preciso um número elevado de pessoas para que sucessivos pequenos avanços possam ser somados; e são muitos esses avanços, tanto a nível de organização como tecnológicos como, e isso é talvez o importante, a nível da atitude perante a sociedade, o entendimento de que o interesse individual se tem de subordinar ao colectivo, com reflexos no próprio conceito de família. No entanto, notem que uma civilização deste tipo não se pode estabelecer em qualquer parte, existe uma restrição importante.”


E qual é?

Todas as sociedades humanas dos tempos antigos são auto-suficientes: a sua sobrevivência depende só dos recursos próprios da comunidade. A diferença entre elas reside na capacidade de gerir recursos, mínima na sociedade equatorial e máxima nas sociedades agrícolas.”

E depois essas sociedades começaram a comerciar entre si, desenvolvendo a primeira globalização”, acrescentou o Wolfram.

Exactamente; esse terceiro passo do desenvolvimento das civilizações foi tornado possível pelo vasto território onde essas sociedades se puderam estabelecer, ou seja, a bacia mediterrânica e a Ásia do Sul e Oriental, zonas com clima suficientemente ameno e ricas em água doce. Notem mais uma vez a importância da geografia."

"Pois, quase todo o clima temperado se situa no hemisfério norte..." condescendeu pensativo o Wolfram; talvez esteja a comparar esta possibilidade com outras... quem se sente superior costuma gostar de atribuir essa superioridade aos seus méritos. 

"O comércio introduz algo de muito importante: o acesso pacífico a recursos doutras regiões, como materiais de construção, sal, especiarias, minérios, variedades agrícolas ou produtos manufacturados. Estas coisas não eram indispensáveis a estas sociedades, elas podiam subsistir sem elas, mas permitiam-lhes atingir uma qualidade que não atingiriam sem o comércio.”

 “A isso se resume a história das civilizações?” O careca entre o desiludido e o intrigado

Não; falta precisamente a parte que nos interessa.

(continua)

segunda-feira, outubro 10, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (IV)


(continuação - como o Inverno torna finito o Tempo)


A variação da percepção do tempo à medida que se sobe em latitude é um aspecto muito interessante e mesmo um pouco surpreendente.” Leio interesse nos olhos dos meus interlocutores, o tempo é algo fundamental nas suas vidas. Continuo:

 “Como sabem, na zona equatorial os dias são todos iguais, apenas a Lua permite definir um período maior que o dia. A vida vive-se no presente e planeia-se ao dia; ao longo do dia há um conjunto de tarefas a realizar, mas a escala do planeamento é apenas do dia. O tempo é tão infinito como o oceano. A vida é finita quando se planeia a prazo e quando se mede em anos, mas não quando se mede em dias, pois o número é grande demais para as nossas faculdades de percepção intuitiva.” Calo-me novamente, percebo que estão a tentar imaginar a situação, a estimar quantos dias têm uma vida, quantos dias terão ainda as suas vidas.

Sim, compreendo”, diz de súbito o ruivo, "é como estar de férias: um mês aqui passa a correr mas um mês de férias na praia ou no campo é tanto tempo que nem consigo imaginar... duas semanas já me parece uma eternidade.” Os outros concordam.

Bem, já percebemos que a civilização que se gera numa zona equatorial tem uma dimensão espacial não superior à centena de pessoas e uma dimensão temporal de um dia. Esta civilização, como qualquer outra, é muito estruturada, com regras bem definidas.
Sim” – interrompe o Wolfram, algo impaciente – “mas essa civilização só pode ser assim enquanto não há sobrepopulação; ora a população humana cresce; e depois?

O que acontece é que as pessoas vão ocupando o território livre. Vamos pensar no caso de África; ocupada a faixa equatorial, as pessoas vão subindo em latitude. E então vão encontrar algo novo: o Inverno. Um período de tempo em que a Natureza não garante a sobrevivência. Isto muda tudo.”  A impaciência deu lugar à expectativa.

"Passando os trópicos, é preciso encontrar forma de ter alimentos no Inverno e soluções para proteger do frio – uma temperatura inferior a 18 ºC é mortal para um humano sem protecção. Isto obriga a viver com prazos, com calendários, com objectivos. O Inverno introduz o conceito de Futuro na actividade diária." 

 "Ou seja, o Inverno trouxe o stress, que é coisa que quem vive focado no presente não sabe o que seja..." comentou o careca, logo seguido por sinais de viva concordância dos outros. "Sim, isso mesmo", e ri-me, sendo acompanhado por eles. Continuei:

 "As soluções mais simples para o problema do alimento, como a caça ou a pastorícia, geram sociedades pequenas e nómadas, com baixas densidades populacionais; mesmo as primeiras soluções agrícolas não permitem a fixação prolongada de populações porque a agricultura esgota os frágeis solos das zonas acima dos trópicos, implicando a necessidade de mudança periódica de local, excepto num único caso; e é esse único caso que permitiu que se desenvolvessem civilizações com crescentes escalas de espaço e de tempo.

Ou seja, sem o Inverno, a nossa civilização nunca teria acontecido... portanto, se o Homem tem surgido uns 100 milhões de anos antes, uma insignificância à escala da idade da Terra, no tempo dos Dinossáurios, esta nossa civilização não se poderia ter então desenvolvido porque nessa altura não havia Invernos... parece que o Homem surgiu apenas quando o planeta já estava pronto para o desenvolvimento de grandes civilizações... o Homem surgiu quando tinha de surgir, nem antes, nem depois... interessante...”. Esta cogitação do Wolfram gera um franzir de sobrolho do careca. Interessante este Wolfram, que sabe que no tempo dos Dinossáurios não havia Inverno e capaz de pensamentos filosóficos, de pensamentos que não têm directamente a ver com os seus interesses pessoais. Começo a simpatizar com ele.

Nada de desvios criativos” – repreende brandamente o careca – “oiçamos o dr. Jordan, que certamente nos vai mostrar que as sucessivas civilizações são a solução ideal para cada situação climática e geográfica, tal como a tribo é a solução ideal para o clima equatorial; qual é então esse único caso geográfico-climático que nos trouxe até aqui?” Espertalhão o chefão. “Boa pergunta!” pego-lhe na palavra, que traduz alguma impaciência, pelo que remato: “Uma pergunta cuja resposta nos levará a perceber porque é que estamos aqui a ter esta conversa e como é que se resolve o vosso problema.

sábado, outubro 08, 2011

Um Império Europeu à moda dos Incas

Sabem como é que os Incas construíram o seu império? Foi muito fácil; limitaram-se a ir propondo a povos mais pequenos que aceitassem subordinar-se ao Império; se aceitassem, seriam bem tratados (pelo menos os seus líderes); se não aceitassem, levavam porrada. Bastou um ou dois levarem porrada para os outros aceitarem logo. O resultado final era independente de aceitarem ou não: passavam todos a pagar o tributo exigido pelos Incas. Assim construíram um império que se estendia por milhares de kilómetros.


Este maravilhoso método parece ser o que os alemães estão a usar para construir o seu tão ambicionado Império Europeu: primeiro, fecham a torneira do BCE para deixar os países com menos reservas de «água» a morrer de «sede»; depois propõem: “damos «água» se prescindirem da vossa soberania, nos entregarem as empresas públicas e reduzirem os ordenados para o nível de sobrevivência das pessoas, a fim de que as nossas empresas se possam instalar aí e ter mão-de-obra a custo mínimo.”

(notem que esta «água» não custa nada aos alemães, é apenas dinheiro impresso pelo BCE, tal como o Fed faz nos EUA)

Os gregos disseram “Vão passear”. Porrada nos gregos.

Os líderes Tugas disseram logo: “Faça-se a vossa vontade.”

O plano para os transportes públicos é flagrante; só há duas maneiras de gerir transportes públicos: ou em concorrência, abrindo o serviço aos privados, ou através de uma empresa pública. Neste caso, o preço dos bilhetes é determinado por forma a que empresa tenha prejuízo e tenha de depender do governo para acertar as contas.

Isto tem de ser assim porque estas são as duas únicas maneiras de evitar abusos de empresas que exploram algo a que as pessoas não podem fugir. 

Há uma coisa que NUNCA se faz: criar um monopólio e entregá-lo a privados. Óbvio. NUNCA. Presumir que entidades reguladoras podem controlar os preços é uma utopia. Só a concorrência pode controlar preços num mercado entregue a privados.

Ora o Governo

1 – aumenta o preço dos bilhetes para que as empresas de transportes deixem de dar prejuízo; questão: se elas deixam de dar prejuízo, qual é a vantagem de as privatizar?
2- o Governo vai fundir empresas criando monopólios; ora isto é contra todas as regras da Economia desde ela existe
3 – o Governo não vai abrir concurso público internacional, vai entregar as empresas monopolistas dos transportes públicos directamente aos franceses; isto não é proibido pelas regras da União Europeia? Os deputados que foram fazer queixa do Sócrates por causa do Magalhães não estão agora incomodados?

Este absurdo só se entende duma maneira: estamos a ser Incados.

sexta-feira, outubro 07, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (III) (as Civilizações)


(continuação)

Conseguir uma sociedade onde uma parte minoritária da população seja escrava e isso seja bem aceite por essa minoria e por toda a sociedade é um problema muito fácil??”– o Wolfram olha-me com ar incrédulo, e fica-se, boquiaberto, à espera de qualquer esclarecimento adicional; o careca contesta:

Não estou a ver em parte alguma do mundo civilizado alguém a ter escravos voluntários na actualidade!”; o ruivo resolve falar também:

Bem, talvez os empregados das fábricas americanas no norte do México... ou os palestinianos que trabalham em Israel...”. O careca interrompe, impaciente, evidentemente não gosta de ser corrigido: “Sim sim, mas os palestianos vivem praticamente num campo de concentração, não fazem parte da sociedade israelita, não passam de modernos prisioneiros civis de guerra, e o México é um caso de deslocalização muito especial; nós estamos a falar de escravos integrados na nossa sociedade, algo muito diferente.” O ruivo cala-se, arrependido de ter aberto a boca.

A razão porque não conhece escravos voluntários na actualidade, no mundo dito civilizado, é porque o facto de eles aceitarem a sua condição faz parecer que o não são; essa é a habilidade”. Faço uma pausa.

Portanto, eles existem à vista de toda a gente e ninguém vê... interessante, é isso mesmo que queremos!” Um brilho surgiu no olhar do careca.

Para percebermos como se consegue esse tipo de escravos temos de perceber algumas coisas essenciais da evolução das sociedades... vamos dedicar dez minutos a esse assunto?"

Os três homens trocam olhares de assentimento. “Estamos aqui para o ouvir, Dr. Jordan”.

Vou tentar não entrar em detalhes, limitar-me ao essencial, o que não é fácil porque depois ficam sempre coisas por explicar que acabam por gerar dúvidas. Inspiro. Ponho o meu ar professoral, o ar Dr. Jordan nº 1, e começo: - “Sabem porque é que na zona equatorial de África não surgiu nenhuma civilização relevante?
 Deixo a pergunta no ar e fico à espera duma resposta. Hesitam, finalmente o Wolfram sugere: “A África equatorial é habitada por povos muito primitivos, uma civilização exige organização, planeamento, pensamento sofisticado”. Adoro quando oiço ideias simplórias.

Pensemos um pouco; quem já esteve nessa zona sabe que para comer basta estender o braço e colher uma fruta; pode também caçar ou pescar. Não há frio nunca, não é preciso ter roupa, nem casa, basta um abrigo para dormir. Ou seja, a sobrevivência está garantida desde que não se interfira com a Natureza, que tudo providencia. Como as pessoas não têm objectos de cobiça, não precisam de desenvolver sofisticadas capacidades bélicas; nem sequer o território que ocupam pode ser considerado cobiçável pois toda a zona é igual ou quase.” - Verifico pelas expressões que não disse nada que não soubessem já; continuo:

A solução óptima para a zona equatorial é uma organização em pequenos grupos, familiares essencialmente. Qualquer grande sociedade iria interferir com a Natureza e pôr em risco a sobrevivência, seria uma grande estupidez. A organização familiar e tribal é a organização ideal, perfeita, adequada, à zona tropical. Não é uma ausência de civilização, é a civilização adequada. Mais do que isso, ela é a base de todas as organizações de maior escala, como veremos, pelo que vamos prestar alguma atenção às suas características.” - Calei-me, dei-lhes um tempo para interiorizarem. Continuo:

Esta organização familiar é muito diferente da nossa; ela tem regras e organização, e perceber isso é muito importante. O conceito de família dessa civilização é profundamente estruturado, tal como as nossas modernas organizações, com espírito de equipa, hierarquia e especialização de tarefas, avaliação, recompensa e punição. Para além disso, há uma clara distinção entre os membros da família ou tribo e a restante humanidade, ou seja, a família é uma nação nesta civilização, as outras famílias são nações estrangeiras.” Falo lentamente, sei que eles têm preconceitos a ultrapassar, é preciso dar-lhes algum tempo.

O mais interessante é que, no fundo, todos os conceitos que aplicamos na moderna organização já estão presentes nas famílias da zona equatorial; as sucessivas civilizações foram aplicando esses conceitos a escalas cada vez maiores ao mesmo tempo que os foram retirando do âmbito familiar e substituindo por outros, como o conceito de «amor». Vejam como o termo «família» é usado para identificar os membros de uma organização mafiosa ou os colaboradores de uma empresa – é a extensão do conceito primitivo a outras escalas. Por outro lado, conseguir a integração da família numa sociedade maior implica não só alterar as regras dentro da família como alterar a atitude da família com as outras pessoas, sendo necessário esbater essa fronteira para que o sentido colectivo possa emergir; este ponto é da maior importância.” Percebo pelos olhares virados para dentro que os três homens precisam de algum tempo para meditar sobre o assunto. Aguardo.

Os ciganos, como não abdicam da sua cultura familiar, tornam-se incompatíveis com as civilizações modernas...”, um pensamento em voz alta do Wolfram.

Exactamente, em parte pelas regras internas da família e em parte pela sua atitude em relação às outras pessoas; mas não só os ciganos; como compreenderemos daqui a pouco, a cada civilização corresponde um conceito de família e as duas coisas têm de estar em correspondência ou entram fatalmente em conflito.” Os olhares estão de novo voltados para mim, posso continuar:
. 
O que essencialmente caracteriza as diferentes civilizações é a escala espacial e temporal a que têm de actuar para garantir a sobrevivência; esta primeira civilização existe à escala espacial da família e temporal do dia. Já vimos a escala espacial, e encontrámos coisas interessantes; vamos agora prestar atenção à escala temporal”.

(continua)

quarta-feira, outubro 05, 2011

Que fazer quando tudo arde


Ana Sá Lopes fez este editorial fabuloso no I. Aconselho a leitura, é curto e é um prazer lê-lo (ai, que inveja, não saber escrever assim...). Nele, a autora faz o retrato nu e cru da actual situação. Termina com um aviso muito claro: "qualquer governo que se limite a ser um bom e passivo aluno está a condenar-se e a condenar-nos à forca."


Eu acrescento: nós estamos a condenar-nos à forca se nos limitarmos a ser passivos cidadãos. 


Sabe-se muito bem qual é a causa e o remédio para a crise; o remédio - suportar as dívidas públicas em obrigações pagas com dinheiro novo (eurobonds) - não está a ser usado de propósito para manter a crise. E isso tem uma finalidade que as medidas pretendidas, nomeadamente a diminuição da TSU, dos ordenados e a entrega das empresas publicas em forma de monopólio a alemães e franceses, aponta com clareza; por outro lado, as únicas medidas que contribuiriam para resolver o problema do nosso lado, ou seja, aquelas medidas que diminuiriam o déficit da balança de pagamentos, ou seja, a relação entre o dinheiro que entra e que sai do país, são completamente ignoradas; isto não pode ser por acaso nem por ignorância, só pode ser de propósito.


Há várias coisas que podemos fazer para contrariar um plano que se afigura verdadeiramente tenebroso. E podemos começar já por uma delas: não dar nem um euro a alemães e franceses. Automoveis? Ou Fiat ou de fora da europa - mesmo os SEAT são 100% alemães. 


Pode parecer-vos insignificante, mas façam lá um esforçozinho e aguardem o resultado... enquanto esperamos pelo Dr. Jordan. Lembrem-se: nem 1 euro para franceses e alemães. Vejam quais são as empresas que estão aí e que são propriedade deles - devem estar nas cervejas, águas, comunicações, turismo e outras coisas. Nem um euro para elas. Pela alminha dos vossos filhos. Vão perceber porquê em breve.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa de classes (II)



 O que é que nós queremos?  - O Wolfram repetiu a minha pergunta enquanto consultava os outros com um olhar que interrogava: digo? não digo? Voltou-se então para mim e começou a falar martelando as palavras:

Queremos o mesmo que os nossos concorrentes têm legalmente e que mesmo na Alemanha existe em algumas áreas: mão-de-obra com custos totais inferiores a 3€ por hora; ou seja, queremos dispor dos chamados escravos modernos mas num contexto legal, estável. Algumas actividades na Alemanha, como a indústria de carnes, pagam 2€ por hora a imigrantes, oriundos doutros países europeus, mas isso é conseguido através de processos de tráfico humano e levanta contestação dos sectores ditos progressistas, não é solução para as nossas empresas de alta tecnologia, que precisam de trabalhadores satisfeitos com o seu salário de 2 € e num quadro socialmente aceite, legal e estável. – declarou o Wolfram.

Os senhores querem basicamente que o trabalho escravo seja não só legal como socialmente aceite, uma sociedade em que os operários ganhem apenas o indispensável à sua sobrevivência e isso seja considerado normal, correcto – tentei resumir os objectivos.

O Wolfram sentiu uma crítica velada na minha frase e apressou-se a esclarecer: Temos concorrentes que pagam isso e se pagarmos mais os lucros da actividade deixam de compensar, mais vale dedicarmo-nos a negócios de usura. Neste mundo globalizado, nas nossas indústrias de grande mercado, conseguir isso representa para nós a sobrevivência.

Estão bem cientes do seu interesse imediato mas preciso agora de esclarecer se têm um entendimento global do problema. Ocorrem-me duas questões. Lanço a primeira: Vocês querem que na Alemanha continue a não existir salário mínimo mas a experiência dos outros países europeus mostra as suas vantagens; na Inglaterra registou-se uma subida de emprego com a sua introdução.

Isso não é assim tão simples – discordou veementemente o Wolfram – a introdução do ordenado mínimo alimenta a economia paralela; as actividades que exigem menos habilitações passam a ser desempenhadas por imigrantes à margem da lei, a ganhar menos do que ganhavam antes os empregados dessas actividades, o que potencia os seus lucros e abre espaço a novos empregos. O efeito é paradoxal: a introdução do ordenado mínimo, no fundo, potencia o tráfico humano e é isso que faz crescer a economia. Para os cidadãos desse país as coisas ficam melhores porque passam a dispor de escravos. Mas já se sabe que o recurso a imigrantes para trabalho escravo, quer legais como dantes ou ilegais como agora, origina graves problemas sociais a prazo.

Pois, não são parvos não, estes tipos. Vamos à segunda questão: Sabem que o sonho dos empregadores, da dona de casa ao grande industrial, sempre foi ter pessoas a trabalhar pela sobrevivência, mas depois há um grave inconveniente para os industriais: essas pessoas não alimentam o mercado, não fazem compras.

O Wolfram abana a cabeça em sinal de discordância; esclarece: nós só precisamos de uma pequena percentagem da população como escravos. Queremos uma sociedade com uma pequena base de escravos e uma larga classe média para comprar os nossos produtos. Ora os políticos andam progressivamente a introduzir um salário mínimo na Alemanha e estão a avançar com um projecto europeu, a prometer uma europa social, com salários mínimos crescentes e rendimentos mínimos. Isso é o oposto do que queremos, o custo do operário deve ser sempre o custo de sobrevivência e nada de apoios a quem não trabalha porque essas pessoas nem produzem nem têm o suficiente para serem consumidores. Quem não produz nem faz compras não tem lugar na economia, pode desaparecer.

Pois, os nossos políticos andam sempre com ideias utópicas, ignorando as duras realidades do dia-a-dia – sentenciei banalmente, estimulando-a a continuar, quero ver o fundo do seu pensamento.

Na América eles sempre souberam controlar estas ideias utópicas, é por isso que dominam a lista dos 100 mais ricos – alguma inveja na voz do Wolfram.

Sim, um tiro resolve estes problemas quando a utopia nasce na cabeça de um político isolado; estou a lembrar-me do Huey Long, com um programa, o Share Our Wealth, ainda mais avançado do que o dos líderes europeus actuais. Foi há quase um século. – O Wolfram fez um sinal de concordância com a cabeça e desabafa:

Essas ideias daninhas têm de ser exterminadas à nascença; o americanos souberam matar o homem e as suas ideias, nunca mais se ouviu falar delas. Na Europa não podemos usar esse tipo de solução porque seriam necessários muitos tiros, não bastaria abater um político. Persiste o exemplo nefasto dos nórdicos, enquanto eles não soçobrarem o seu exemplo irá alimentar essas utopias. Temos urgentemente de encontrar uma solução porque se um tal sistema social se impõe aqui, pode haver um efeito de contágio aos EUA e depois não haverá forma de inverter as coisas – a testa franzida exprime a intensidade da sua preocupação.

Acho que já ouvi tudo o que necessitava. Estes tipos são espertos, é a velha luta de classes mas com uma diferença subtil: estes não querem esmagar a maioria da população, que é o erro que a direita está a fazer nos EUA, um erro fatal numa democracia esclarecida. Querem uma sociedade de 3 classes: uma classe de escravos minoritária, uma classe média com poder de compra qb e que suporte o sistema, e a sua classe privilegiada, com rendimentos estratosféricos. Eles não perceberam ainda mas é isso mesmo que vai acontecer em consequência do tão temido projecto europeu que afinal lhes serve às mil maravilhas. Apenas tenho de os aconselhar a fazerem aquilo que de qualquer maneira irá ser feito porque é isso o que os jogos de interesses e forças determinam. Ser Filósofo tem esta vantagem: ser capaz de conhecer o Futuro para depois indicar os caminhos para ele, como se sobre ele tivesse poder. É chegada a altura de começar a minha performance:

Na verdade, não precisam de medidas extremas, o vosso problema é muito fácil de resolver, basta aplicar um método com séculos.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa de classes (I)



(as aventuras do dr. Jordan são pura ficção, desenhada sobre problemas da actualidade)

Ali estava a esplanada; qual seria a mesa... ahh, aquele tipo acena-me, é ali.

Boas tardes; doutor Wolfram, presumo – disse, enquanto aceitava a mão estendida daquele tipo alto e magro, procurando reconhecer-lhes as feições. Rosto anguloso, cabelos pintados como é típico nos executivos de meia idade, olhos pouco expressivos e muito observadores. Pessoa habituada a mandar, alto quadro certamente. Não, não reconheço esta cara, nem a dele nem as dos seus dois companheiros, ambos bastante fortes, um careca, o outro arruivado. Nenhum sinal de simpatia, como é habitual nos que querem passar a mensagem de que grandes responsabilidades pesam sobre os seus ombros.

Boa tarde Dr. Jordan, muito obrigado por ter aceitado encontrar-se connosco. Sente-se por favor – disse cortesmente o Wolfram, indicando a cadeira que à sua frente me esperava.

Sentei-me calmamente, disfarçando a curiosidade em saber que mistério me tinha calhado desta vez. É curioso como 93% dos meus clientes pretendem operações inconfessáveis – seria bem melhor que fosse ao contrário mas infelizmente parece que apenas os que prosseguem escuros interesses são suficientemente inteligentes para me consultarem. C’ est la vie!  Esperava que o Wolfram me apresentasse os outros mas nada. Costumo começar logo a falar, assumir o controlo da conversa, mas desta vez optei por manter a matraca fechada e aguardei. O Wolfram chegou-se à frente e falou:

Numa conversa sobre as dificuldades que atravessamos, alguém referiu que conhecia uma pessoa que poderia ajudar-nos, um filósofo, o Dr. Jordan. Uma espécie de Poirot, com a diferença de que usaria os seus talentos para encontrar soluções para os problemas e não para desvendar mistérios, o que no fundo é a mesma coisa.

Sim, é verdade, é quase a mesma coisa, há um ponto de partida e um ponto de chegada e queremos saber como se vai de um para o outro – assenti, reduzindo a este aspecto as comparações com Poirot. Ainda pensei dizer que os méritos que me atribuem resultam simplesmente da metodologia de conhecimento da Filosofia, quase ignorada desde o advento da metodologia científica. Mas optei por avançar no assunto:

Mas qual é, afinal, o problema?  – displicente mas a rebentar de curiosidade, no ar estava a promessa de um desafio à altura dos meus talentos.

Como o dr. sabe, o esforço para unir as duas Alemanhas tem sido um pesadelo cuja luz ainda não surgiu ao fundo do túnel. Ainda não saímos deste pântano e um novo pesadelo se desenha já no horizonte: a união europeia! A nossa experiência dolorosa com a Alemanha do Leste vai ser multiplicada cem vezes, vamos ficar atolados em problemas durante décadas, enquanto o resto do Mundo avança a passos largos. Com certeza que a união europeia será bom para os outros países europeus, mas para a Alemanha é que não é nada bom. Por outro lado, também não podemos continuar isolados, não temos dimensão para competir com os EUA, a China, ou as novas potências da Ásia e da América do Sul. O marco não tem dimensão para competir com o dólar, pura e simplesmente.

Estou a perceber – peguei na palavra, a deixa de silêncio isso exigia – precisam de uma união europeia para terem dimensão mas não querem que essa união se faça à custa do desenvolvimento da Alemanha. Querem portanto uma solução diferente da que tem sido usada com o Leste... calei-me, o careca parecia querer dizer que não era bem isso, se calhar era ele o chefe do grupo, pôs a mão sobre o braço do Wolfram que lhe fez discretamente um sinal de assentimento. O careca recostou-se, sossegado.

Repare dr. Jordan – recomeçou o Wolfram, com ar de quem vai contar um segredo – a Alemanha desenvolveu um forte estado social, onde toda a gente tem muitos direitos e regalias. Sabia que o custo médio da nossa mão-de-obra é quase o dobro dos EUA? Mas pior que o custo médio é o custo mínimo, o custo dos operários, pois os EUA são campeões da desigualdade, só ultrapassados pelos países onde ainda há pessoas que nem sabem o que seja o dinheiro. Na reunificação com a Alemanha do Leste estamos a estender este estado social para lá. Agora pense: se vamos fazer o mesmo em relação ao resto da Europa, já viu que a nossa competitividade nas grandes indústrias vai desaparecer? Por agora ainda podemos recorrer à mão-de-obra barata dos países do Sul, mas depois? Uma união europeia bem sucedida acabará com essa mão-de-obra barata. Conhece as disponibilidades de mão-de-obra barata que os nossos competidores têm?

Sim, tenho uma ideia; os chineses têm ainda uma imensa população rural para tirar da miséria e sobretudo sabem como gerir a taxa de câmbio, os países do sudeste asiático e a Índia tem uma natalidade incontrolável que é um fornecedor ilimitado de escravos, ou seja, de pessoas que trabalham por uma sopa, o Brasil está um pouco como a China, os EUA têm em uma enorme população de pobres que não têm hipóteses de deixar de o ser.

E não só – interrompeu-me exaltado o ruivo – os EUA ocuparam o norte do México onde beneficiam da natalidade descontrolada da população mexicana mas onde podem impor a organização americana. Como é que vamos poder competir com isto?! Desabafou, mais ruivas as faces que a barbicha.

Então e a deslocalização para fora da Europa? Sugeri, embora já suspeitasse qual seria a resposta; mas há que não deixar pontas soltas.

Fora da Europa? Onde? As nossas fábricas precisam de trabalhadores com alguma especialização e muitas condições, não são criações de frango para instalar em África; e os países onde estes trabalhadores e estas condições existem há muito que abriram os olhos, instalarmo-nos lá é estarmos a cavar a nossa sepultura; veja o caso da China, mais de metade dos lucros das nossas empresas fica lá e estamos a prazo, daqui a uns anos temos os chineses a fazerem-nos concorrência usando o nosso know-how, as instalações que lá vamos deixar e a força económica que os lucros das nossas empresas lhes estão a dar.

Ou seja, sem mão-de-obra barata a vossa competitividade só pode ser conseguida à custa das vossas margens de lucro e não por esmagamento dos salários, é isso? A pergunta teria um quê de acintoso para outras pessoas mas eles nem repararam, «esmagar os salários» é a sua preocupação quotidiana.

Claro! Isto assim não se aguenta, veja que nos 100 mais ricos do mundo não há nem meia dúzia de alemães! Indignadíssimo o ruivo.

Bom, mas então o que desejam de mim? Afinal não querem um projecto europeu, também não querem ficar isolados... que querem afinal? Perguntei, não por desconhecer o que eles pretendem, que é evidente, e certamente que o vão conseguir; mas percebo que eles precisam de um ouvinte que os ajude a concretizar o plano que já está desenhado nas suas cabeças; e eu nunca nego ajuda aos poderosos.

terça-feira, setembro 27, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (8)



A causa técnica da crise

A presente crise da dívida soberana de alguns países europeus não é como o aparecimento de um tufão, ou uma praga de gafanhotos, fenómenos naturais cujo controlo ultrapassa a nossa capacidade. Nada disso. Este é um fenómeno com uma causa bem definida e verifico que há várias razões para isso, uma boa, as outras más.

Vamos esquecer as razões e vamos agora ver qual é a causa técnica desta situação.

Um empréstimo é um negócio e como tal as condições acordadas reflectem a capacidade de negociação das duas partes, na ausência de constrangimentos legais.
Sabem como é a golpada do cartão de crédito? Ela pode ser realizada de diversas maneiras mas o processo consiste em levar o cliente a ficar com uma dívida que não pode amortizar significativamente; a partir desse momento, pode-se subir a taxa de juro porque o cliente deixou de ter capacidade de negociação; e quanto mais encravado ele estiver, mais se sobe a taxa de juro. Existe um limite legal já de si exorbitante, mas se não existisse as taxas seriam muito mais altas.

Note-se um aspecto importante: da parte do banco não há qualquer interesse em que a pessoa pague a dívida, o que o banco quer é manter o cliente eternamente a pagar juros. Pagar a dívida seria acabar com os ovos de ouro da galinha, ou seja, com o pagamento dos juros.

No caso das dívidas soberanas, todos os países a têm e nenhum a pode amortizar significativamente com os recursos existentes. Estão em condições semelhantes às dos clientes dos cartões de crédito que contraem uma dívida que não podem amortizar. Então, porque é que apenas alguns países estão a sofrer um ataque à dívida do Estado?

A resposta é que todos os países excepto os europeus podem imprimir moeda; sendo assim, se os juros subirem, eles têm uma solução: imprimir moeda! Portanto, eles não estão de facto nas condições dos clientes dos cartões de crédito, porque eles podem imprimir moeda!!!

Dirão: mas imprimir moeda não tem consequências desastrosas, como a desvalorização da moeda?

O recente exemplo dos EUA é a prova de que não, não é verdade? Quantidades astronómicas de dólares têm sido impressas e o dólar parece estar a ... valorizar-se!!

Isto é assim porque o valor da moeda não depende só da sua quantidade, depende da força da economia do país. Como as economias crescem, é mesmo preciso imprimir moeda para manter os racios moeda/crédito e para evitar sobrevalorizações da moeda – que desgraçam a competitividade.

Contrariamente ao que costuma dizer-se, a desvalorização da moeda não é necessariamente má – uma moeda sobrevalorizada significa que as empresas terão de obter ganhos de competitividade à custa dos ordenados, logo implica redução de ordenados. O euro está sobrevalorizado por razões que só interessam à Alemanha.

Portanto, o assalto às dívidas soberanas dos países europeus vai continuar enquanto não existirem eurobonds suportados por dinheiro novo. Por mais medidas que se tomem para reduzir a taxa de crescimento da dívida, nada se alterará, porque a dívida, maior ou menor, permanecerá. Em 2013, em Portugal, faça este governo o que fizer, o problema dos juros da dívida estará exactamente na mesma se o BCE não fizer como os EUA.

Mas o BCE não vai fazer por várias razões, a primeira sendo que a actual situação convém à Alemanha: a Alemanha tem um alto saldo da balança de pagamentos com os outros países europeus, tem sempre euros a entrar, é como se estivesse a imprimir euros; mas se por acaso o problema chegar à Alemanha, nesse dia teremos o BCE a imprimir euros e os eurobonds a circular.

Os gregos já perceberam isto muito bem; cá, temos um governo que não quer eurobonds, o único mecanismo que poderia resolver o problema; portanto em 2013 a situação será apenas muito pior do que agora porque estaremos todos a ganhar muito menos, com muito menos direitos, e a pagar muito mais.

Não acreditam em mim? Então vejam aqui a opinião de um conceituado economista americano, publicada no New York Times.