(continuação - como o Inverno torna finito o Tempo)
segunda-feira, outubro 10, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (IV)
(continuação - como o Inverno torna finito o Tempo)
“A variação da
percepção do tempo à medida que se sobe em latitude é um aspecto muito
interessante e mesmo um pouco surpreendente.” Leio interesse nos olhos dos meus
interlocutores, o tempo é algo fundamental nas suas vidas. Continuo:
“Como sabem, na zona equatorial os dias são
todos iguais, apenas a Lua permite definir um período maior que o dia. A vida
vive-se no presente e planeia-se ao dia; ao longo do dia há um conjunto de
tarefas a realizar, mas a escala do planeamento é apenas do dia. O tempo é tão infinito como o oceano. A vida é finita quando se planeia a prazo e quando se mede
em anos, mas não quando se mede em dias, pois o número é grande demais para as
nossas faculdades de percepção intuitiva.” Calo-me novamente, percebo que estão
a tentar imaginar a situação, a estimar quantos dias têm uma vida, quantos dias
terão ainda as suas vidas.
“Sim,
compreendo”, diz de súbito o ruivo, "é como estar de férias: um mês aqui passa
a correr mas um mês de férias na praia ou no campo é tanto tempo que nem
consigo imaginar... duas semanas já me parece uma eternidade.” Os outros concordam.
“Bem, já
percebemos que a civilização que se gera numa zona equatorial tem uma dimensão
espacial não superior à centena de pessoas e uma dimensão temporal de um dia.
Esta civilização, como qualquer outra, é muito estruturada, com regras bem definidas.”
“Sim” –
interrompe o Wolfram, algo impaciente – “mas essa civilização só pode ser assim
enquanto não há sobrepopulação; ora a população humana cresce; e depois?”
“O que acontece é
que as pessoas vão ocupando o território livre. Vamos pensar no caso de África; ocupada a faixa equatorial, as pessoas vão subindo em
latitude. E então vão encontrar algo novo: o Inverno. Um período de tempo em
que a Natureza não garante a sobrevivência. Isto muda tudo.” A impaciência deu lugar à expectativa.
"Passando os
trópicos, é preciso encontrar forma de ter alimentos no Inverno e soluções para proteger do frio – uma temperatura inferior a 18 ºC é
mortal para um humano sem protecção. Isto obriga a viver com prazos, com
calendários, com objectivos. O Inverno introduz o conceito de Futuro na actividade diária."
"Ou seja, o Inverno trouxe o stress, que é coisa que quem vive focado no presente não sabe o que seja..." comentou o careca, logo seguido por sinais de viva concordância dos outros. "Sim, isso mesmo", e ri-me, sendo acompanhado por eles. Continuei:
"As soluções mais simples para o problema do alimento, como a caça ou a pastorícia, geram
sociedades pequenas e nómadas, com baixas densidades populacionais; mesmo as
primeiras soluções agrícolas não permitem a fixação prolongada de populações porque a
agricultura esgota os frágeis solos das zonas acima dos trópicos, implicando a necessidade de mudança periódica de local, excepto num
único caso; e é esse único caso que permitiu que se desenvolvessem civilizações
com crescentes escalas de espaço e de tempo.”
“Ou seja, sem o Inverno,
a nossa civilização nunca teria acontecido... portanto, se o Homem tem surgido
uns 100 milhões de anos antes, uma insignificância à escala da idade da Terra,
no tempo dos Dinossáurios, esta nossa civilização não se poderia ter então
desenvolvido porque nessa altura não havia Invernos... parece que o Homem
surgiu apenas quando o planeta já estava pronto para o desenvolvimento de
grandes civilizações... o Homem surgiu quando tinha de surgir, nem antes, nem
depois... interessante...”. Esta cogitação do Wolfram gera um franzir de
sobrolho do careca. Interessante este Wolfram, que sabe que no tempo dos Dinossáurios não havia Inverno e capaz de pensamentos
filosóficos, de pensamentos que não têm directamente a ver com os seus
interesses pessoais. Começo a simpatizar com ele.
“Nada de desvios
criativos” – repreende brandamente o careca – “oiçamos o dr. Jordan, que
certamente nos vai mostrar que as sucessivas civilizações são a solução ideal
para cada situação climática e geográfica, tal como a tribo é a solução ideal
para o clima equatorial; qual é então esse único caso geográfico-climático que
nos trouxe até aqui?” Espertalhão o chefão. “Boa pergunta!” pego-lhe na
palavra, que traduz alguma impaciência, pelo que remato: “Uma pergunta cuja
resposta nos levará a perceber porque é que estamos aqui a ter esta conversa e
como é que se resolve o vosso problema.”
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sábado, outubro 08, 2011
Um Império Europeu à moda dos Incas
Sabem como é que
os Incas construíram o seu império? Foi muito fácil; limitaram-se a ir propondo
a povos mais pequenos que aceitassem subordinar-se ao Império; se aceitassem,
seriam bem tratados (pelo menos os seus líderes); se não aceitassem, levavam
porrada. Bastou um ou dois levarem porrada para os outros aceitarem logo. O
resultado final era independente de aceitarem ou não: passavam todos a pagar o
tributo exigido pelos Incas. Assim construíram um império que se estendia por
milhares de kilómetros.
Este maravilhoso
método parece ser o que os alemães estão a usar para construir o seu tão
ambicionado Império Europeu: primeiro, fecham a torneira do BCE para deixar os
países com menos reservas de «água» a morrer de «sede»; depois propõem: “damos
«água» se prescindirem da vossa soberania, nos entregarem as empresas públicas
e reduzirem os ordenados para o nível de sobrevivência das pessoas, a fim de
que as nossas empresas se possam instalar aí e ter mão-de-obra a custo mínimo.”
(notem que esta
«água» não custa nada aos alemães, é apenas dinheiro impresso pelo BCE, tal
como o Fed faz nos EUA)
Os gregos
disseram “Vão passear”. Porrada nos gregos.
Os líderes Tugas
disseram logo: “Faça-se a vossa vontade.”
O plano para os
transportes públicos é flagrante; só há duas maneiras de gerir transportes públicos: ou
em concorrência, abrindo o serviço aos privados, ou através de uma empresa
pública. Neste caso, o preço dos bilhetes é determinado por forma a que empresa
tenha prejuízo e tenha de depender do governo para acertar as contas.
Isto tem de ser
assim porque estas são as duas únicas maneiras de evitar abusos de empresas que
exploram algo a que as pessoas não podem fugir.
Há uma coisa que
NUNCA se faz: criar um monopólio e entregá-lo a privados. Óbvio. NUNCA.
Presumir que entidades reguladoras podem controlar os preços é uma utopia. Só a
concorrência pode controlar preços num mercado entregue a privados.
Ora o Governo
1 – aumenta o
preço dos bilhetes para que as empresas de transportes deixem de dar prejuízo;
questão: se elas deixam de dar prejuízo, qual é a vantagem de as privatizar?
2- o Governo vai
fundir empresas criando monopólios; ora isto é contra todas as regras da
Economia desde ela existe
3 – o Governo não
vai abrir concurso público internacional, vai entregar as empresas monopolistas
dos transportes públicos directamente aos franceses; isto não é proibido pelas
regras da União Europeia? Os deputados que foram fazer queixa do Sócrates por
causa do Magalhães não estão agora incomodados?
Este absurdo só
se entende duma maneira: estamos a ser Incados.
sexta-feira, outubro 07, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (III) (as Civilizações)
(continuação)
“Conseguir uma
sociedade onde uma parte minoritária da população seja escrava e isso seja bem
aceite por essa minoria e por toda a sociedade é um problema muito fácil??”– o
Wolfram olha-me com ar incrédulo, e fica-se, boquiaberto, à espera de qualquer
esclarecimento adicional; o careca contesta:
“Não estou a ver
em parte alguma do mundo civilizado alguém a ter escravos voluntários na
actualidade!”; o ruivo resolve falar também:
“Bem, talvez os
empregados das fábricas americanas no norte do México... ou os palestinianos
que trabalham em Israel...”. O careca interrompe, impaciente, evidentemente não
gosta de ser corrigido: “Sim sim, mas os palestianos vivem praticamente num
campo de concentração, não fazem parte da sociedade israelita, não passam de
modernos prisioneiros civis de guerra, e o México é um caso de deslocalização
muito especial; nós estamos a falar de escravos integrados na nossa sociedade,
algo muito diferente.” O ruivo cala-se, arrependido de ter aberto a boca.
“A razão porque
não conhece escravos voluntários na actualidade, no mundo dito civilizado, é
porque o facto de eles aceitarem a sua condição faz parecer que o não são; essa
é a habilidade”. Faço uma pausa.
“ Portanto, eles
existem à vista de toda a gente e ninguém vê... interessante, é isso mesmo que
queremos!” Um brilho surgiu no olhar do careca.
“Para percebermos
como se consegue esse tipo de escravos temos de perceber algumas coisas
essenciais da evolução das sociedades... vamos dedicar dez minutos a esse
assunto?"
Os três homens
trocam olhares de assentimento. “Estamos aqui para o ouvir, Dr. Jordan”.
Vou tentar não
entrar em detalhes, limitar-me ao essencial, o que não é fácil porque depois
ficam sempre coisas por explicar que acabam por gerar dúvidas. Inspiro. Ponho o
meu ar professoral, o ar Dr. Jordan nº 1, e começo: - “Sabem porque é que na
zona equatorial de África não surgiu nenhuma civilização relevante?”
Deixo a pergunta no ar e fico à espera duma
resposta. Hesitam, finalmente o Wolfram sugere: “A África equatorial é habitada
por povos muito primitivos, uma civilização exige organização, planeamento,
pensamento sofisticado”. Adoro quando oiço ideias simplórias.
“Pensemos um
pouco; quem já esteve nessa zona sabe que para comer basta estender o braço e
colher uma fruta; pode também caçar ou pescar. Não há frio nunca, não é preciso
ter roupa, nem casa, basta um abrigo para dormir. Ou seja, a sobrevivência está
garantida desde que não se interfira com a Natureza, que tudo providencia. Como
as pessoas não têm objectos de cobiça, não precisam de desenvolver sofisticadas
capacidades bélicas; nem sequer o território que ocupam pode ser considerado cobiçável
pois toda a zona é igual ou quase.” - Verifico pelas expressões que não disse
nada que não soubessem já; continuo:
“A solução óptima
para a zona equatorial é uma organização em pequenos grupos, familiares
essencialmente. Qualquer grande sociedade iria interferir com a Natureza e pôr
em risco a sobrevivência, seria uma grande estupidez. A organização familiar e
tribal é a organização ideal, perfeita, adequada, à zona tropical. Não é uma
ausência de civilização, é a civilização adequada. Mais do que isso, ela é a base de todas as organizações de maior escala, como veremos, pelo que vamos prestar alguma atenção às suas características.” - Calei-me, dei-lhes um
tempo para interiorizarem. Continuo:
“Esta organização
familiar é muito diferente da nossa; ela tem regras e organização, e perceber isso é
muito importante. O conceito de família dessa civilização é profundamente
estruturado, tal como as nossas modernas organizações, com espírito de equipa,
hierarquia e especialização de tarefas, avaliação, recompensa e punição. Para
além disso, há uma clara distinção entre os membros da família ou tribo e a
restante humanidade, ou seja, a família é uma nação nesta civilização, as
outras famílias são nações estrangeiras.” Falo lentamente, sei que eles têm
preconceitos a ultrapassar, é preciso dar-lhes algum tempo.
“O mais
interessante é que, no fundo, todos os conceitos que aplicamos na moderna
organização já estão presentes nas famílias da zona equatorial; as sucessivas
civilizações foram aplicando esses conceitos a escalas cada vez maiores ao
mesmo tempo que os foram retirando do âmbito familiar e substituindo por outros, como o conceito de «amor». Vejam como o termo «família» é usado para
identificar os membros de uma organização mafiosa ou os colaboradores de uma
empresa – é a extensão do conceito primitivo a outras escalas. Por outro lado, conseguir a
integração da família numa sociedade maior implica não só alterar as regras
dentro da família como alterar a atitude da família com as outras pessoas, sendo
necessário esbater essa fronteira para que o sentido colectivo possa emergir;
este ponto é da maior importância.” Percebo pelos olhares virados para dentro
que os três homens precisam de algum tempo para meditar sobre o assunto.
Aguardo.
“ Os ciganos,
como não abdicam da sua cultura familiar, tornam-se incompatíveis com as
civilizações modernas...”, um pensamento em voz alta do Wolfram.
“Exactamente, em
parte pelas regras internas da família e em parte pela sua atitude em relação
às outras pessoas; mas não só os ciganos; como compreenderemos daqui a pouco, a cada civilização corresponde um conceito de família e as duas coisas têm de estar em correspondência ou entram fatalmente em conflito.”
Os olhares estão de novo voltados para mim, posso continuar:
.
“O que
essencialmente caracteriza as diferentes civilizações é a escala espacial e
temporal a que têm de actuar para garantir a sobrevivência; esta primeira
civilização existe à escala espacial da família e temporal do dia. Já vimos a
escala espacial, e encontrámos coisas interessantes; vamos agora prestar atenção à escala temporal”.
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quarta-feira, outubro 05, 2011
Que fazer quando tudo arde
Ana Sá Lopes fez este editorial fabuloso no I. Aconselho a leitura, é curto e é um prazer lê-lo (ai, que inveja, não saber escrever assim...). Nele, a autora faz o retrato nu e cru da actual situação. Termina com um aviso muito claro: "qualquer governo que se limite a ser um bom e passivo aluno está a condenar-se e a condenar-nos à forca."
Eu acrescento: nós estamos a condenar-nos à forca se nos limitarmos a ser passivos cidadãos.
Sabe-se muito bem qual é a causa e o remédio para a crise; o remédio - suportar as dívidas públicas em obrigações pagas com dinheiro novo (eurobonds) - não está a ser usado de propósito para manter a crise. E isso tem uma finalidade que as medidas pretendidas, nomeadamente a diminuição da TSU, dos ordenados e a entrega das empresas publicas em forma de monopólio a alemães e franceses, aponta com clareza; por outro lado, as únicas medidas que contribuiriam para resolver o problema do nosso lado, ou seja, aquelas medidas que diminuiriam o déficit da balança de pagamentos, ou seja, a relação entre o dinheiro que entra e que sai do país, são completamente ignoradas; isto não pode ser por acaso nem por ignorância, só pode ser de propósito.
Há várias coisas que podemos fazer para contrariar um plano que se afigura verdadeiramente tenebroso. E podemos começar já por uma delas: não dar nem um euro a alemães e franceses. Automoveis? Ou Fiat ou de fora da europa - mesmo os SEAT são 100% alemães.
Pode parecer-vos insignificante, mas façam lá um esforçozinho e aguardem o resultado... enquanto esperamos pelo Dr. Jordan. Lembrem-se: nem 1 euro para franceses e alemães. Vejam quais são as empresas que estão aí e que são propriedade deles - devem estar nas cervejas, águas, comunicações, turismo e outras coisas. Nem um euro para elas. Pela alminha dos vossos filhos. Vão perceber porquê em breve.
segunda-feira, outubro 03, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa de classes (II)
O que é que nós queremos? - O Wolfram repetiu a minha pergunta
enquanto consultava os outros com um olhar que interrogava: digo? não digo?
Voltou-se então para mim e começou a falar martelando as palavras:
Queremos o mesmo
que os nossos concorrentes têm legalmente e que mesmo na Alemanha existe em
algumas áreas: mão-de-obra com custos totais inferiores a 3€ por hora; ou seja,
queremos dispor dos chamados escravos modernos mas num contexto legal, estável.
Algumas actividades na Alemanha, como a indústria de carnes, pagam 2€ por hora
a imigrantes, oriundos doutros países europeus, mas isso é conseguido através
de processos de tráfico humano e levanta contestação dos sectores ditos
progressistas, não é solução para as nossas empresas de alta tecnologia, que
precisam de trabalhadores satisfeitos com o seu salário de 2 € e num quadro
socialmente aceite, legal e estável. – declarou o Wolfram.
Os senhores querem basicamente que o trabalho escravo seja não só legal
como socialmente aceite, uma sociedade em que os operários ganhem apenas o
indispensável à sua sobrevivência e isso seja considerado normal, correcto –
tentei resumir os objectivos.
O Wolfram sentiu uma crítica velada na minha frase e apressou-se a
esclarecer: Temos concorrentes que pagam isso e se pagarmos mais os lucros da
actividade deixam de compensar, mais vale dedicarmo-nos a negócios de usura.
Neste mundo globalizado, nas nossas indústrias de grande mercado, conseguir
isso representa para nós a sobrevivência.
Estão bem cientes do seu interesse imediato mas preciso agora de esclarecer
se têm um entendimento global do problema. Ocorrem-me duas questões. Lanço a
primeira: Vocês querem que na Alemanha continue a não existir salário mínimo
mas a experiência dos outros países europeus mostra as suas vantagens; na
Inglaterra registou-se uma subida de emprego com a sua introdução.
Isso não é assim tão simples – discordou veementemente o Wolfram – a introdução do
ordenado mínimo alimenta a economia paralela; as actividades que exigem menos
habilitações passam a ser desempenhadas por imigrantes à margem da lei, a
ganhar menos do que ganhavam antes os empregados dessas actividades, o que
potencia os seus lucros e abre espaço a novos empregos. O efeito é paradoxal: a
introdução do ordenado mínimo, no fundo, potencia o tráfico humano e é isso que
faz crescer a economia. Para os cidadãos desse país as coisas ficam melhores
porque passam a dispor de escravos. Mas já se sabe que o recurso a imigrantes
para trabalho escravo, quer legais como dantes ou ilegais como agora, origina
graves problemas sociais a prazo.
Pois, não são parvos não, estes tipos. Vamos à segunda questão: Sabem que o sonho dos empregadores, da dona de casa ao grande industrial,
sempre foi ter pessoas a trabalhar pela sobrevivência, mas depois há um grave
inconveniente para os industriais: essas pessoas não alimentam o mercado, não
fazem compras.
O Wolfram abana a cabeça em sinal de discordância; esclarece: nós só
precisamos de uma pequena percentagem da população como escravos. Queremos uma
sociedade com uma pequena base de escravos e uma larga classe média para
comprar os nossos produtos. Ora os políticos andam progressivamente a
introduzir um salário mínimo na Alemanha e estão a avançar com um projecto
europeu, a prometer uma europa social, com salários mínimos crescentes e
rendimentos mínimos. Isso é o oposto do que queremos, o custo do operário deve
ser sempre o custo de sobrevivência e nada de apoios a quem não trabalha porque
essas pessoas nem produzem nem têm o suficiente para serem consumidores. Quem
não produz nem faz compras não tem lugar na economia, pode desaparecer.
Pois, os nossos
políticos andam sempre com ideias utópicas, ignorando as duras realidades do
dia-a-dia – sentenciei banalmente, estimulando-a a continuar, quero ver o fundo
do seu pensamento.
Na América eles
sempre souberam controlar estas ideias utópicas, é por isso que dominam a lista
dos 100 mais ricos – alguma inveja na voz do Wolfram.
Sim, um tiro
resolve estes problemas quando a utopia nasce na cabeça de um político isolado;
estou a lembrar-me do Huey Long, com um programa, o Share Our Wealth, ainda
mais avançado do que o dos líderes europeus actuais. Foi há quase um século. –
O Wolfram fez um sinal de concordância com a cabeça e desabafa:
Essas ideias
daninhas têm de ser exterminadas à nascença; o americanos souberam matar o
homem e as suas ideias, nunca mais se ouviu falar delas. Na Europa não podemos
usar esse tipo de solução porque seriam necessários muitos tiros, não bastaria
abater um político. Persiste o exemplo nefasto dos nórdicos, enquanto eles não
soçobrarem o seu exemplo irá alimentar essas utopias. Temos urgentemente de
encontrar uma solução porque se um tal sistema social se impõe aqui, pode haver
um efeito de contágio aos EUA e depois não haverá forma de inverter as coisas –
a testa franzida exprime a intensidade da sua preocupação.
Acho que já ouvi
tudo o que necessitava. Estes tipos são espertos, é a velha luta de classes mas
com uma diferença subtil: estes não querem esmagar a maioria da população, que
é o erro que a direita está a fazer nos EUA, um erro fatal numa democracia
esclarecida. Querem uma sociedade de 3 classes: uma classe de escravos
minoritária, uma classe média com poder de compra qb e que suporte o sistema, e
a sua classe privilegiada, com rendimentos estratosféricos. Eles não perceberam
ainda mas é isso mesmo que vai acontecer em consequência do tão temido projecto
europeu que afinal lhes serve às mil maravilhas. Apenas tenho de os aconselhar
a fazerem aquilo que de qualquer maneira irá ser feito porque é isso o que os
jogos de interesses e forças determinam. Ser Filósofo tem esta vantagem: ser
capaz de conhecer o Futuro para depois indicar os caminhos para ele, como se
sobre ele tivesse poder. É chegada a altura de começar a minha performance:
Na verdade, não
precisam de medidas extremas, o vosso problema é muito fácil de resolver, basta
aplicar um método com séculos.
quinta-feira, setembro 29, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa de classes (I)
(as aventuras do
dr. Jordan são pura ficção, desenhada sobre problemas da actualidade)
Ali estava a
esplanada; qual seria a mesa... ahh, aquele tipo acena-me, é ali.
Boas tardes;
doutor Wolfram, presumo – disse, enquanto aceitava a mão estendida daquele tipo
alto e magro, procurando reconhecer-lhes as feições. Rosto anguloso, cabelos
pintados como é típico nos executivos de meia idade, olhos pouco expressivos e
muito observadores. Pessoa habituada a mandar, alto quadro certamente. Não, não
reconheço esta cara, nem a dele nem as dos seus dois companheiros, ambos
bastante fortes, um careca, o outro arruivado. Nenhum sinal de simpatia, como é
habitual nos que querem passar a mensagem de que grandes responsabilidades pesam
sobre os seus ombros.
Boa tarde Dr.
Jordan, muito obrigado por ter aceitado encontrar-se connosco. Sente-se por
favor – disse cortesmente o Wolfram, indicando a cadeira que à sua frente me
esperava.
Sentei-me
calmamente, disfarçando a curiosidade em saber que mistério me tinha calhado
desta vez. É curioso como 93% dos meus clientes pretendem operações
inconfessáveis – seria bem melhor que fosse ao contrário mas infelizmente
parece que apenas os que prosseguem escuros interesses são suficientemente inteligentes
para me consultarem. C’ est la vie!
Esperava que o Wolfram me apresentasse os outros mas nada. Costumo
começar logo a falar, assumir o controlo da conversa, mas desta vez optei por
manter a matraca fechada e aguardei. O Wolfram chegou-se à frente e falou:
Numa conversa
sobre as dificuldades que atravessamos, alguém referiu que conhecia uma pessoa
que poderia ajudar-nos, um filósofo, o Dr. Jordan. Uma espécie de Poirot, com a
diferença de que usaria os seus talentos para encontrar soluções para os
problemas e não para desvendar mistérios, o que no fundo é a mesma coisa.
Sim, é verdade, é
quase a mesma coisa, há um ponto de partida e um ponto de chegada e queremos
saber como se vai de um para o outro – assenti, reduzindo a este aspecto as
comparações com Poirot. Ainda pensei dizer que os méritos que me atribuem
resultam simplesmente da metodologia de conhecimento da Filosofia, quase
ignorada desde o advento da metodologia científica. Mas optei por avançar no
assunto:
Mas qual é,
afinal, o problema? – displicente mas a
rebentar de curiosidade, no ar estava a promessa de um desafio à altura dos
meus talentos.
Como o dr. sabe,
o esforço para unir as duas Alemanhas tem sido um pesadelo cuja luz ainda não
surgiu ao fundo do túnel. Ainda não saímos deste pântano e um novo pesadelo se
desenha já no horizonte: a união europeia! A nossa experiência dolorosa com a
Alemanha do Leste vai ser multiplicada cem vezes, vamos ficar atolados em
problemas durante décadas, enquanto o resto do Mundo avança a passos largos.
Com certeza que a união europeia será bom para os outros países europeus, mas
para a Alemanha é que não é nada bom. Por outro lado, também não podemos
continuar isolados, não temos dimensão para competir com os EUA, a China, ou as
novas potências da Ásia e da América do Sul. O marco não tem dimensão para
competir com o dólar, pura e simplesmente.
Estou a perceber
– peguei na palavra, a deixa de silêncio isso exigia – precisam de uma união
europeia para terem dimensão mas não querem que essa união se faça à custa do
desenvolvimento da Alemanha. Querem portanto uma solução diferente da que tem
sido usada com o Leste... calei-me, o careca parecia querer dizer que não era
bem isso, se calhar era ele o chefe do grupo, pôs a mão sobre o braço do
Wolfram que lhe fez discretamente um sinal de assentimento. O careca
recostou-se, sossegado.
Repare dr. Jordan
– recomeçou o Wolfram, com ar de quem vai contar um segredo – a Alemanha
desenvolveu um forte estado social, onde toda a gente tem muitos direitos e
regalias. Sabia que o custo médio da nossa mão-de-obra é quase o dobro dos EUA?
Mas pior que o custo médio é o custo mínimo, o custo dos operários, pois os EUA
são campeões da desigualdade, só ultrapassados pelos países onde ainda há
pessoas que nem sabem o que seja o dinheiro. Na reunificação com a Alemanha do
Leste estamos a estender este estado social para lá. Agora pense: se vamos
fazer o mesmo em relação ao resto da Europa, já viu que a nossa competitividade
nas grandes indústrias vai desaparecer? Por agora ainda podemos recorrer à
mão-de-obra barata dos países do Sul, mas depois? Uma união europeia bem
sucedida acabará com essa mão-de-obra barata. Conhece as disponibilidades de
mão-de-obra barata que os nossos competidores têm?
Sim, tenho uma
ideia; os chineses têm ainda uma imensa população rural para tirar da miséria e
sobretudo sabem como gerir a taxa de câmbio, os países do sudeste asiático e a
Índia tem uma natalidade incontrolável que é um fornecedor ilimitado de
escravos, ou seja, de pessoas que trabalham por uma sopa, o Brasil está um
pouco como a China, os EUA têm em uma enorme população de pobres que não têm
hipóteses de deixar de o ser.
E não só –
interrompeu-me exaltado o ruivo – os EUA ocuparam o norte do México onde
beneficiam da natalidade descontrolada da população mexicana mas onde podem
impor a organização americana. Como é que vamos poder competir com isto?!
Desabafou, mais ruivas as faces que a barbicha.
Então e a
deslocalização para fora da Europa? Sugeri, embora já suspeitasse qual seria a
resposta; mas há que não deixar pontas soltas.
Fora da Europa?
Onde? As nossas fábricas precisam de trabalhadores com alguma especialização e
muitas condições, não são criações de frango para instalar em África; e os
países onde estes trabalhadores e estas condições existem há muito que abriram
os olhos, instalarmo-nos lá é estarmos a cavar a nossa sepultura; veja o caso
da China, mais de metade dos lucros das nossas empresas fica lá e estamos a
prazo, daqui a uns anos temos os chineses a fazerem-nos concorrência usando o
nosso know-how, as instalações que lá vamos deixar e a força económica que os
lucros das nossas empresas lhes estão a dar.
Ou seja, sem
mão-de-obra barata a vossa competitividade só pode ser conseguida à custa das
vossas margens de lucro e não por esmagamento dos salários, é isso? A pergunta
teria um quê de acintoso para outras pessoas mas eles nem repararam, «esmagar
os salários» é a sua preocupação quotidiana.
Claro! Isto assim
não se aguenta, veja que nos 100 mais ricos do mundo não há nem meia dúzia de
alemães! Indignadíssimo o ruivo.
Bom, mas então o
que desejam de mim? Afinal não querem um projecto europeu, também não querem
ficar isolados... que querem afinal? Perguntei, não por desconhecer o que eles
pretendem, que é evidente, e certamente que o vão conseguir; mas percebo que
eles precisam de um ouvinte que os ajude a concretizar o plano que já está
desenhado nas suas cabeças; e eu nunca nego ajuda aos poderosos.
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terça-feira, setembro 27, 2011
O maquiavélico plano Franco-Alemão (8)
A causa técnica
da crise
A presente crise
da dívida soberana de alguns países europeus não é como o aparecimento de um
tufão, ou uma praga de gafanhotos, fenómenos naturais cujo controlo ultrapassa
a nossa capacidade. Nada disso. Este é um fenómeno com uma causa bem definida e
verifico que há várias razões para isso, uma boa, as outras más.
Vamos esquecer as
razões e vamos agora ver qual é a causa técnica desta situação.
Um empréstimo é
um negócio e como tal as condições acordadas reflectem a capacidade de
negociação das duas partes, na ausência de constrangimentos legais.
Sabem como é a
golpada do cartão de crédito? Ela pode ser realizada de diversas maneiras mas o
processo consiste em levar o cliente a ficar com uma dívida que não pode
amortizar significativamente; a partir desse momento, pode-se subir a taxa de
juro porque o cliente deixou de ter capacidade de negociação; e quanto mais
encravado ele estiver, mais se sobe a taxa de juro. Existe um limite legal já
de si exorbitante, mas se não existisse as taxas seriam muito mais altas.
Note-se um
aspecto importante: da parte do banco não há qualquer interesse em que a pessoa
pague a dívida, o que o banco quer é manter o cliente eternamente a pagar
juros. Pagar a dívida seria acabar com os ovos de ouro da galinha, ou seja, com
o pagamento dos juros.
No caso das
dívidas soberanas, todos os países a têm e nenhum a pode amortizar
significativamente com os recursos existentes. Estão em condições semelhantes
às dos clientes dos cartões de crédito que contraem uma dívida que não podem
amortizar. Então, porque é que apenas alguns países estão a sofrer um ataque à
dívida do Estado?
A resposta é que
todos os países excepto os europeus podem imprimir moeda; sendo assim, se os
juros subirem, eles têm uma solução: imprimir moeda! Portanto, eles não estão
de facto nas condições dos clientes dos cartões de crédito, porque eles podem
imprimir moeda!!!
Dirão: mas
imprimir moeda não tem consequências desastrosas, como a desvalorização da
moeda?
O recente exemplo
dos EUA é a prova de que não, não é verdade? Quantidades astronómicas de
dólares têm sido impressas e o dólar parece estar a ... valorizar-se!!
Isto é assim
porque o valor da moeda não depende só da sua quantidade, depende da força da
economia do país. Como as economias crescem, é mesmo preciso imprimir moeda
para manter os racios moeda/crédito e para evitar sobrevalorizações da moeda –
que desgraçam a competitividade.
Contrariamente ao
que costuma dizer-se, a desvalorização da moeda não é necessariamente má – uma
moeda sobrevalorizada significa que as empresas terão de obter ganhos de
competitividade à custa dos ordenados, logo implica redução de ordenados. O euro está sobrevalorizado por razões que só interessam à Alemanha.
Portanto, o
assalto às dívidas soberanas dos países europeus vai continuar enquanto não existirem eurobonds suportados por dinheiro novo. Por mais medidas que se tomem para reduzir a taxa de crescimento da
dívida, nada se alterará, porque a dívida, maior ou menor, permanecerá. Em 2013, em Portugal,
faça este governo o que fizer, o problema dos juros da dívida estará
exactamente na mesma se o BCE não fizer como os EUA.
Mas o BCE não vai
fazer por várias razões, a primeira sendo que a actual situação convém à
Alemanha: a Alemanha tem um alto saldo da balança de pagamentos com os outros
países europeus, tem sempre euros a entrar, é como se estivesse a imprimir
euros; mas se por acaso o problema chegar à Alemanha, nesse dia teremos o BCE a
imprimir euros e os eurobonds a circular.
Os gregos já
perceberam isto muito bem; cá, temos um governo que não quer eurobonds, o único
mecanismo que poderia resolver o problema; portanto em 2013 a situação será
apenas muito pior do que agora porque estaremos todos a ganhar muito menos, com
muito menos direitos, e a pagar muito mais.
Não acreditam em
mim? Então vejam aqui a opinião de um conceituado economista americano, publicada no New
York Times.
quinta-feira, setembro 22, 2011
A Piscina
Os telejornais de
hoje tinham uma notícia que fez as alegrias dos media: imaginem que o Alberto
João gastou parece que 2 milhões de euros numa piscina no Curral das Freiras
que raramente funciona!!!
Haverá melhor
exemplo da má gestão da Madeira? Pode o dinheiro ser mais mal gasto?
Eis aqui um ótimo
exemplo da nossa ignorância do Jogo da Economia.
Ora reparem; a
Comunidade Europeia comparticipa este tipo de obras em qualquer coisa como 75%
(não sei ao certo como foi neste caso, mas deve ter sido algo como isso), ou
seja, 1,5 milhões de euros. Portanto, o Alberto João investiu 0,5 milhões de
euros, que não foi um gasto porque serviu para pagar o trabalho de madeirenses,
foi só uma circulação de dinheiro, e recebeu 1,5 milhões vindos do estrangeiro.
Como
compreenderão, isto equivale a investir 0,5 milhões de euros a fabricar um
produto que se exportou por 2 milhões – uma rentabilidade de 400%
O orçamento da
Madeira gastou 0,5 milhões e recebeu 1,5 milhões, logo ganhou 1 milhão de euros.
Na verdade,
ganhou mais, porque quem fez o trabalho pagou impostos e se não tivesse tido o
trabalho talvez tivesse recebido subsídios de desemprego.
A piscina não
funciona? Ótimo, assim não tem custos de manutenção. Claro que se for possível
encontrar utilidade para piscina, melhor, mas se não for não faz mal – a
piscina foi um excelente negócio para a Madeira e para o país. Agora, até pode
ser demolida, é como se tivesse sido exportada.
Sei que isto pode
fazer confusão. Vivemos numa era de abundância, as regras deste jogo económico
já não são as dos tempos de carência, não visam aumentar a produção, visam
disputar a abundância; quem não souber jogar este jogo fica sem nada.
segunda-feira, setembro 19, 2011
O maquiavélico plano Franco-Alemão (7)
Nos países soberanos não há empresas com sede no estrangeiro
A China atraíu o investimento estrangeiro mediante a oferta de custos
muito baixos, conseguidos através duma inteligente utilização do câmbio e de
mão-de-obra barata; mas as empresas estrangeiras que quiseram operar na China
tiveram de constituir empresas em que pelo menos metade do capital é chinês e
aceitar um prazo para a sua actividade na China,
Exemplifiquemos com a Volkswagen; para se instalar na China, teve de
fazer empresas com os chineses em que pelo menos metade do capital é chinês –
vamos assumir que é exactamente metade, por simplicidade. Para a China,
conseguir essa metade do capital não foi problema: eles
imprimem o seu dinheiro, não é verdade?
As fábricas da Volkswagen na China geram gandes lucros; uma parte vai
para impostos, suponhamos 20%; do restante, metade fica na China, corresponde à
sua comparticição na empresa, e a outra metade vai para a Alemanha. Portanto, a
China fica com 60% dos lucros – enriquece!
Em consequência deste enriquecimento, os ordenados sobem e o nível de
vida dos chineses sobe. Os trabalhadores chineses, que começaram com salários
de escravo, isto é, salários que só davam para a sua alimentação, foram subindo
de nível de vida e hoje já se recusam a trabalhar pelo ordenado que actualmente
ganha um trabalhador português. A Autoeuropa vai produzir Sharons para exportar
para a China porque já dá mais lucro à Volkswagen produzir em Portugal para
exportar para a China do que produzir na China.
Imaginemos agora que o governo chinês não exigia a metade do capital;
este seria todo dos alemães e, em consequência, os lucros da Volkswagen iriam
inteiros para a Alemanha, onde está a sede da empresa. A China não enriqueceria
nada com a Volkswagen, apenas receberia os ordenados de escravo dos empregados
da Volkswagen; os ordenados de «escravo» perpetuar-se-iam.
Como estamos a perceber, possuir ou não parte do capital duma fábrica
estrangeira faz toda a diferença.
Por outro lado, as empresas estrangeiras instaladas num país, impedem o
desenvolvimento do país na área onde actuam devido à concorrência desigual que
estabelecem.
Temos um exemplo claro e recente no nosso país: enquanto as empresas
estrangeiras de calçado cá andaram, a nossa indústria do calçado não saíu da
cepa torta; assim que elas se foram embora, a nossa indústria cresceu
exponencialmente, apesar de continuar a ter condições de mercado interno muito
mais adversas do que as suas concorrentes.
É por isso as empresas que se queiram instalar na China têm apenas uma
licença a prazo: a Volkswagen só pode ficar na China até 2030. Depois de 2030,
a China terá já todo o know-how necessário ao fabrico de automóveis e ainda as
fábricas, organização e infraestruturas deixadas pelos alemães.
Este esquema não é uma invenção da China – é assim em toda a
parte. No Brasil ou em Angola também não entra nenhuma empresa que não seja
participada por brasileiros e angolanos. Nos EUA, acontece o mesmo. A
Volkswagem quis ter lá uma fábrica dela; teve de a fechar e desde então parece
que nem 1 volkswagen se vende nos EUA porque a forma de correr com a Volkswagen
foi convencer os americanos de que os seus carros não prestam – é para isso que
servem as ASAE em todos os países do mundo excepto Portugal.
Nos países soberanos, muito ou pouco desenvolvidos, não se instalam
empresas com sede no estrangeiro, porque tais empresas delapidam o país.
No post anterior desta série eu disse que já não há multinacionais;
agora parece que estou a dizer que há; como é afinal?
A resposta é que já não há multinacionais na Europa!
Nos países soberanos não há empresa que não seja participada por esse
país; e a razão é clara, empresas estrangeiras delapidam o país e impedem o
seu desenvolvimento a prazo; mas nos
países periféricos europeus, nos PIGS, isso acontece!!! As empresas alemãs e
francesas instalam-se nos PIGS sem quaisquer contrapartidas – pelo contrário,
ainda recebem benefícios.
A consequência está à vista: os PIGS estão cada vez mais pobres, o que
tem sido mascarado com o endividamento crescente. O dinheiro que tem sido
emprestado aos PIGS é o dinheiro que a estes foi retirado pela Alemanha e
também França, como veremos. Agora, esta dívida é-lhes cobrada com usura e os
PIGS vão ficar sem anéis e sem dedos.
Sabem porque é que a Madeira que tem tanto turismo não é económicamente
rentável? Porque as cadeias de hoteís que lá operam, bem como as agências de
viagem, são quase todas não-madeirenses e os lucros da actividade turística da
Madeira vão beneficiar outros. O nosso Sol é o nosso petróleo e deixamos as
empresas estrangeiras virem cá explorá-lo pagando apenas os ordenados dos trabalhadores!!
Não precisava de ser assim, nos outros países isto não acontece, há soluções,
como veremos.
quinta-feira, setembro 15, 2011
O árbitro Obama apitou
Franceses e alemães apressavam-se a pressionar os gregos – ou lhes
entregam as suas empresas públicas ou saem da Europa. A saída da Europa é só
para assustar, é claro, tomar conta das empresas públicas da Grécia e Portugal
urge, isso é indispensável ao “esquema de cantina” que se pretende aplicar. E
urge no caso de Portugal porque, como os economistas americanos, aqueles que há
mais de uma década vêm expondo todas estes acontecimentos e que estão por
detrás de Obama, já tinham avisado, Portugal tem uma escapatória através do
Brasil e de Angola. O Brasil e Angola já entraram na privatização do BPN, o
Lula já foi a Portugal, o BRIC já se vai reunir, há que andar depressa, não deixar o Brasil e Angola pôrem a mão nas empresas públicas portuguesas ou o «esquema de cantina»
vai por água abaixo. Quanto à Grécia, com o seu PIB que é 1,7 vezes o
Português, são precisos pelo menos 3 anos de profunda recessão para a colocar
ao nível adequado à aplicação do esquema, e isso exige pôr a Grécia a ferro a
fogo.
(pensam que os 7% de recessão na Grécia são um “acidente”, um resultado
indesejável? Se assim fosse, a troika estaria muito preocupada e a propor
medidas de correcção, não é? Eles não estão em constante fiscalização, a propor
constantemente novas medidas “para garantir que estes países conseguem pagar as
suas dívididas”? Como poderiam ficar
indiferentes a tamanha recessão? Serão burros? Claro que não, sabem muito bem o
que fazem. A a recessão grega não é um acidente, é um objectivo; e para o ano
vai ser pior porque o PIB grego tem de cair pelo menos 30% antes de se poder
«comer» a Grécia…)
Merkel e Sarkozy marcam um comunicado conjunto para o dia 13; um
comunicado de importância fundamental, o aviso solene e final à Grécia,
anunciado com o devido espavento; mas o Obama entra em cena e declara: os
países europeus com excedentes comerciais têm de resolver rapidamente a crise
europeia! O tão anunciado comunicado conjunto franco-alemão evapora-se. Obama é
o árbitro do jogo e apitou, marcou falta à Alemanha e à França.
No dia 14 a Merkel já vem mansinha dizer que nem pensar em a Grécia sair da
Europa; o spread do empréstimo a Portugal (mais de 2%! Quem pode ter dúvidas de
que esta «ajuda» é maquiavélica??) desaparece; Durão Barroso diz que a Comissão
vai avançar com propostas para os eurobonds.
Franceses e alemães vão ter de fazer novos planos. Para nós, das duas
uma: ou este governo está a fazer o jogo franco-alemão, e nesse caso irá
acelerar as «privatizações» para mãos francesas e alemãs, ou não está, e irá
começar a protelar esse tipo de medidas.
Um detalhe: os irlandeses não pagavam este spread; sabem porquê? Porque
são «brancos» e aos brancos não se aplica o «esquema de cantina»; o problema
irlandês é para resolver mesmo, o nosso e o grego não são para resolver, são
para agravar até que ficarmos no limiar de sobrevivência e completamente
dependentes de franceses e alemães.
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